Wednesday, October 01, 2008

A Camisola


Sou filho de família muito humilde,
tão humilde que duma cortina velha
me fizeram uma camisola.
Vermelha.
E por causa dessa camisola
nunca mais pude andar pela direita.
Tive de ir sempre contra a corrente,
porque não sei o que se passa,
que todos que a enfrentam
vão sempre de cabeça ao chão.
E por causa dessa camisola
não mais pude sair à rua
nem trabalhar no meu ofício
de ferreiro.
Tive de ir para o campo à jorna,
pois assim ninguém me via.
Trabalhava com a foice.
e apesar de todos os males,
sei trabalhar com duas coisas:
com o martelo e a foice.
Quase não compreendo como a gente
quando me via pela rua
me gritava: Progressista!
Eu julgo que tudo era
causado por ignorância.
Talvez noutra circunstância
já tivesse mudado de camisola.
Mas como gosto muito dela
porque é quente e me consola,
peço-lhe que nunca se faça velha.

Ovidi Montllor
(poema retirado do Cravo de Abril)


E já agora deixo aqui a cantiga "La samarreta", retirada igualmente do Cravo de Abril:

26 comments:

  1. Que raio, estou com dificuldades em visualizar completamente o teu blog.

    De La samarreta nem sinais! Fico-me no entanto pela camisola vermelha. Cor linda como a das papoilas!

    Abreijo.

    ReplyDelete
  2. Há camisolas assim e assim;)
    mas mesmo correndo o risco de ser mal interpretado...não gosto nada de camisolas vermelhas.
    Bjs.

    ReplyDelete
  3. Acho que é bonito a gente usar a camisola onde enrola o coração. Isso para mim tem muito valor. Embora haja muita coisa em termos ideológicos que não tem a minha concordância, uma coisa essa camisola sabe que eu respeito: ela veste luta, resistência, comunhão com os que são oprimidos. E isso para mim tem um valor enorme. Nos tempos que correm, a voz da tua camisola é essencial. Quanto a mim, não preciso de camisolas. Palavra: repara: o meu clube, que é o das águias, tem uma camisola linda. Mas que queres, Maria: não gosto de rótulos, de logotipos, de emblemas, de...O importante é estar no sítio onde sinto que é justo que esteja. Fica-te bem a camisola, miúda.E quando te vejo passar saúdo-te, companheira... Um abraço.
    Eduardo

    ReplyDelete
  4. Também me sinto bem a vestir essa cor... em tudo.............. confesso!

    ReplyDelete
  5. Apetece-me deixar exactamente o comentário que fiz no "Cravo de Abril".

    "Algumas pessoas mais dadas ao desperdício, nem sonham o que uma peça de roupa pode durar... desde que se goste dela de verdade."

    Abreijos

    ReplyDelete
  6. O poema é lindo, lindo, mas o vermelho não me fica lá muito bem.
    O que importa é a cor do pensamento.
    Beijinhos

    ReplyDelete
  7. Maria, primeiro que tudo, queria agradecer-te os contactos deixados em Post anterior para que fosse possivel uma visita ás Berlengas, depois queria adiantar que eu também adoro camisolas vermelhas, em tudo, há lá coisa mais linda que o vermelho ...

    Beijo e abracito apertado

    ReplyDelete
  8. ...É bom quando se encontra quem tem amor á camisola que veste :)

    Gostei
    *****

    ReplyDelete
  9. Hoje, muitas camisolas vermelhas estão na luta...

    Um beijo grande.

    ReplyDelete
  10. se juntares à cor vermelha um pouco de amarelo (pode ser de riso amarelo) fica cor de laranja...

    ReplyDelete
  11. Vermelho é uma das minhas cores preferidas :)
    Uma camisola feita de uma cortina, uma camisola com história de vida...
    Também não queria que ela envelhecesse...

    beijinhos de QTGM

    ReplyDelete
  12. E às vezes, o que é velho é bem mlhor, mas ok, nada como sentir-se sempre novo ( ou, pelo menos, mais novo)
    :)

    ReplyDelete
  13. Um fabuloso poema...

    Doce beijo

    ReplyDelete
  14. Lindo. O início fez-me lembrar um texto autobiográfico do Eugénio de Andrade.
    Beijinhos.

    ReplyDelete
  15. Das cortinas também foi feita a roupa dos meninos Von Ttrap! Os meninos não são nada todos iguais!
    Há até alguns cujo corpo não tem camisola.
    .
    .
    .
    (neura)
    Agora lembrei-me de um post que li sobre o tipo de comentários que se deixam nos blog's e apetece-me dizer-te apenas:

    Muito bonito, Maria da ilha!
    Um beijo
    e claro que assino
    em azul

    ReplyDelete
  16. Desculpa amiga... sei que me entendes!
    ... rebentava...

    ReplyDelete
  17. Gosto do poema, a famosa camisola vermelha...


    Beijinho p ti,

    ReplyDelete
  18. Sempre pelo lado esquerdo da Vida. Kiss

    ReplyDelete
  19. passei só para dizer olá!
    no fim-de-semana voltarei p'ra ler tudinho, com mais tempo, tenho tido uns dias CHEIOS de trabalho e à noite, estou demasiado cansada para vir aqui... sorry!

    bom resto de semana
    um sorriso :)
    mariam

    ReplyDelete
  20. Maria. Pois não conhecia o poema nem o poeta,gosto de vermelho não nego,mas a alguns o meteram na gaveta! para esses ele não fica bem.
    Gosto da tua frontalidade,tens a minha inteira amizade pelo que és Maria.
    Beijinho

    ReplyDelete
  21. poema que não muda de camisola. gosto desse vermelho vivo.

    beijos

    ReplyDelete
  22. -Como pode uma "bandeira" feita de luta e de vida envelhecer? -Neste ou naquele momento não ser moda; não dar muito jeito... e tal e coiso...eheheh lá isso pode mas envelhecer!! ahahah isso nunca, velhos vão ficando aqueles que a abandonam a trocam por outras que são moda e dão proveitos.

    ReplyDelete