Grito
De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.
De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.
De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.
De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.
De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.
De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.
De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.
De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.
De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.
José Fanha
(Breve tratado das coisas da arte e do amor)
E que este grito, por amor, ecoe nos quatro cantos do mundo e, que se mutiplique, conquistando adeptos, incomodando os que se fazem de surdos.
ReplyDeleteBeijos pra ti!
Ficou a noite menos fria. Por ti aqui falada.
ReplyDeleteBjinho
Escutei o grito amiga - esse grito ultramarino!
ReplyDeleteO que me impressiona é que nessa socidade dita "pós-moderna", não é esse tipo de grito - com tal apelo - o que se faz ecoar com maior força.
Abraços,
Jorge Elias
Jos� Fanha no seu maior. Adorei este poema. Jinhos mil
ReplyDeleteNão conhecia este poema do autor.
ReplyDeleteÉ excelente, fizeste uma boa escolha.
Obrigado pela partilha.
Beijinhos.
Maria, bom dia!
ReplyDeleteJosé Fanha? Estás mesmo empenhada em trazer aqui "gente" do meu tempo...
Vinha convidar-te a um desafio mas já vi que já sabes...
Um beijinho e obrigado por teres aceite.
António
Um grito é sempre preciso!Por aqui com pouco tempo para visitar os amigos,assim que terminar esta quadra de Espirito-Santo voltarei.Beijinhos ternos e doces amiga.Salomé
ReplyDeleteFiz um dos recitais deste 25 de Abril com o Fanha.
ReplyDeleteMatei saudades!
Abreijo
O zé escreve e diz poesia maravilhosamente, gosto de o lêr e ouvir!
ReplyDeleteQue dizer de ti, que és incansável na prucura, de coisas boas para nos divulgares,-és aquela amiga, de todos,mas que só alguns merecem!
Bjo
Manangão
Enfim Maria, cá estou para te ler
ReplyDeleteporque chegou o tempo de voltar o tempo, mas está difícil, Maria.
É altura, cada vez mais de chamar por todos estes nomes. Amanhã é mais um dia em que somos todos chamados a estar presentes.
E queremos mais poemas como este.
Um grande abraço
cada grito que ecoa é sentido nas linhas da vida
ReplyDeleteVim aqui assinar este tratado! Este é daqueles que subscrevo inteiramente!
ReplyDeleteLer José Fanha fez-me voltar umas décadas atrás e soube muito bem.
Aquele abraço infernal!
breve mas bravo!
ReplyDeleteconheço mal josé fanha, gostei muito.
também eu imploro... (de que serve?)
abraço
luísa
Cara Maria:
ReplyDeleteTomo a liberdade de a informar que o grupo de música Rogério Charraz Trio estará a tocar na Taverna dos Trovadores em S.Pedro de Sintra nos dias 2 e 3 pelas 23H30.
O blog do RCT não está actualizado devido ao facto do Rogério Charraz estar fora de Lisboa e sem acesso à Internet.
Grato.
Um amigo do Rogério, José Santos.
Maria.
ReplyDeleteAmanhã é dia de estar presente,como diz este poema ( o grito que não cansa)amei.
beijinho e Viva o 1º de Maio
Lisa
Muito obrigada a todos que passaram por aqui.
ReplyDeleteBeijos
Olá Maria...Excelente poema de José Fanha !
ReplyDeleteBeijos