Wednesday, April 30, 2008

A poesia de Abril VI

Grito


De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.

O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.

O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

José Fanha
(Breve tratado das coisas da arte e do amor)

17 comments:

  1. E que este grito, por amor, ecoe nos quatro cantos do mundo e, que se mutiplique, conquistando adeptos, incomodando os que se fazem de surdos.

    Beijos pra ti!

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  2. Ficou a noite menos fria. Por ti aqui falada.
    Bjinho

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  3. Escutei o grito amiga - esse grito ultramarino!
    O que me impressiona é que nessa socidade dita "pós-moderna", não é esse tipo de grito - com tal apelo - o que se faz ecoar com maior força.

    Abraços,

    Jorge Elias

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  4. Jos� Fanha no seu maior. Adorei este poema. Jinhos mil

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  5. Não conhecia este poema do autor.
    É excelente, fizeste uma boa escolha.
    Obrigado pela partilha.

    Beijinhos.

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  6. Maria, bom dia!

    José Fanha? Estás mesmo empenhada em trazer aqui "gente" do meu tempo...
    Vinha convidar-te a um desafio mas já vi que já sabes...
    Um beijinho e obrigado por teres aceite.
    António

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  7. Um grito é sempre preciso!Por aqui com pouco tempo para visitar os amigos,assim que terminar esta quadra de Espirito-Santo voltarei.Beijinhos ternos e doces amiga.Salomé

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  8. Fiz um dos recitais deste 25 de Abril com o Fanha.
    Matei saudades!

    Abreijo

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  9. O zé escreve e diz poesia maravilhosamente, gosto de o lêr e ouvir!
    Que dizer de ti, que és incansável na prucura, de coisas boas para nos divulgares,-és aquela amiga, de todos,mas que só alguns merecem!
    Bjo
    Manangão

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  10. Enfim Maria, cá estou para te ler
    porque chegou o tempo de voltar o tempo, mas está difícil, Maria.
    É altura, cada vez mais de chamar por todos estes nomes. Amanhã é mais um dia em que somos todos chamados a estar presentes.
    E queremos mais poemas como este.

    Um grande abraço

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  11. cada grito que ecoa é sentido nas linhas da vida

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  12. Vim aqui assinar este tratado! Este é daqueles que subscrevo inteiramente!

    Ler José Fanha fez-me voltar umas décadas atrás e soube muito bem.

    Aquele abraço infernal!

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  13. breve mas bravo!
    conheço mal josé fanha, gostei muito.

    também eu imploro... (de que serve?)

    abraço
    luísa

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  14. Cara Maria:
    Tomo a liberdade de a informar que o grupo de música Rogério Charraz Trio estará a tocar na Taverna dos Trovadores em S.Pedro de Sintra nos dias 2 e 3 pelas 23H30.
    O blog do RCT não está actualizado devido ao facto do Rogério Charraz estar fora de Lisboa e sem acesso à Internet.
    Grato.

    Um amigo do Rogério, José Santos.

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  15. Maria.
    Amanhã é dia de estar presente,como diz este poema ( o grito que não cansa)amei.
    beijinho e Viva o 1º de Maio
    Lisa

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  16. Muito obrigada a todos que passaram por aqui.
    Beijos

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  17. Olá Maria...Excelente poema de José Fanha !
    Beijos

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