Tuesday, April 21, 2009

Com o Alentejo cá dentro...

A TERRA

É da terra sangrenta. Terra braço
terra encharcada em raiva e em suor
que o homem pouco a pouco passo a passo
tira a matéria-prima do amor.

Umas vezes o trigo loiro e cheio
outras o carvão negro e faiscante
uma vezes petróleo outras centeio
mas sempre tudo menos que o bastante.

Porque a terra não é de quem trabalha
porque o trigo não é de quem semeia
e um trabalhador apenas falha
quando faz filhos em mulher alheia.

Quando o estrume das lágrimas chegar
para adubar os vales da revolta
quando um mineiro pude respirar
com as narinas dum cavalo à solta.

Quando o minério se puder tornar
semente viva de bem-estar e pão
quando o silêncio se puder calar
e um homem livre nunca dizer não.

Quando chegar o dia em que o trabalho
for apenas dar mais ao nosso irmão
quando a fúria de força que há num malho
fizer soltar faíscas de razão.

Quando o tempo do aço for o tempo
da têmpera dos homens caldeados
por pó e chuva por excremento e vento
mas por sua vontade libertados.

Quando a seiva do homem lhe escorrer
por entre as pernas como sangue novo
e quando a cada filho que fizer
puder chamar em vez de Pedro Povo.

As entranhas da terra hão-de passar
o tempo da humana gestação
e parir como um rio a rebentar
o corpo imenso da Revolução.


José Carlos Ary dos Santos

30 comments:

  1. Maria:

    Excelente escolha e desalento por esquecerem tanto o Ary. Ele merece muito, mas muito mais...

    Obrigado por não o esqueceres

    Beijo

    João

    ReplyDelete
  2. Um poema grande! No sentido do que transmite. Somos esse elo homem/terra, nesta luta constante.

    Um beijo deste lado da ilha, Maria

    ReplyDelete
  3. Ary, sempre Ary.
    Deve ser sempre estar presente em todas as suas palavras

    Boa noite

    Teresa

    ReplyDelete
  4. Ainda hoje comentei pela minha "urbe", quanta saudade ... quanta saudade desse Abril... e acredita que me vieram as lágrimas aos olhos...
    Jnhs

    ReplyDelete
  5. pari uma revolução de sentimentos
    uma inquietação em corpo e alma
    e o seu amor encheu-me o peito
    naquela hora e em todos os momentos

    cresceu de mim com a garra do querer
    criança (e)terna, fruto de um amor
    sem condição, até aos fim dos tempos
    meu coração pertencerá a este ser

    um beijo, maria
    (hoje falo assim porque é o que sinto há 15 anos)

    ReplyDelete
  6. Estive a ler em alta voz...
    porque é da sua , a de Ary, que tenho saudades...
    Um destes dias iremos ouvi-lo no Mar à Vista...
    Beijoca

    ReplyDelete
  7. [Maria... tenho sim... feitas com duas agulhas e de um modo que ganham forma sem "costuras"! Pena eu não ter herdado este saber... ou melhor, o gosto por fazer]

    Os teus/nossos versos... sempre!

    :)))

    ReplyDelete
  8. Aqui está, porque além de mim, a minha mãe alentejana tanto gostava do Ary.
    Beijinhos

    ReplyDelete
  9. Mais um belo, e sentido poema do Ary.
    Tu Maria, sabes escolher as palavras, que nos tocam ainda tanto...

    Beijos

    ReplyDelete
  10. AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

    Era uma vez um país
    onde entre o mar e a guerra
    vivia o mais infeliz
    dos povos à beira-terra..
    Onde entre vinhas sobredos

    vales socalcos searas
    serras atalhos veredas
    lezírias e praias claras
    um povo se debruçava
    como um vime de tristeza
    sobre um rio onde mirava
    a sua própria pobreza.


    Era uma vez um país
    onde o pão era contado
    onde quem tinha a raiz
    tinha o fruto arrecadado
    onde quem tinha o dinheiro
    tinha o operário algemado
    onde suava o ceifeiro
    que dormia com o gado
    onde tossia o mineiro
    em Aljustrel ajustado
    onde morria primeiro
    quem nascia desgraçado.


    Era uma vez um país
    de tal maneira explorado
    pelos consórcios fabris
    pelo mando acumulado
    pelas ideias nazis
    pelo dinheiro estragado
    pelo dobrar da cerviz
    pelo trabalho amarrado
    que até hoje já se diz
    que nos tempos do passado
    se chamava esse país
    Portugal suicidado.


    Ali nas vinhas sobredos
    vales socalcos searas
    serras atalhos veredas
    lezírias e praias claras
    vivia um povo tão pobre
    que partia para a guerra
    para encher quem estava podre
    de comer a sua terra.


    Um povo que era levado
    para Angola nos porões
    um povo que era tratado
    como a arma dos patrões
    um povo que era obrigado
    a matar por suas mãos
    sem saber que um bom soldado
    nunca fere os seus irmãos.


    Poema de José Carlos Ary dos Santos

    Ary dos Sasntos para sempre.

    ReplyDelete
  11. Também eu tenho o Alentejo cá dentro, e os homens e mulheres do Alentejo tão pródigos na entrega pelos outros.

    Lindas palavras, como sempre.

    Beijo grande

    ReplyDelete
  12. Ary que da vida dos homens...como ninguém!
    Lê-lo, lendo-te é sempre um prazer
    beijos

    ReplyDelete
  13. Hoje e sempre José Carlos Ary dos Santos!

    Abraço

    ReplyDelete
  14. Oi moça! kkkkkk Que poema em dona luos-baiana?

    Você sabe das coisas, com certeza!

    Não há o que se comentar, a não ser, lhe agradecer pela postagem do belo poema!

    As vezes demoro e peço desculpas por isso, mas, venho, você mora no meu coração! Ah e como mora! kkkk

    bjs
    O Sibarita

    ReplyDelete
  15. gostava de ter a esperança desse corpo mas deixei de acreditar

    ReplyDelete
  16. Se deixarmos que as suas palavras nos corram nas veias, tudo é possível!... :)

    ReplyDelete
  17. Maria.Quantas palavras e alentejo aqui,do trigo loiro e trabalho,na escrita de Ary dos Santos,bonito.
    Beijinho

    ReplyDelete
  18. Inesgotável esta fonte de sentir e de dizer com as palavras, como só ele sabe dizer...Abril!

    Sempre!

    Beijo

    ReplyDelete
  19. O Zé Carlos é ABRIL!


    Um beijo grande.

    ReplyDelete
  20. É ABRIL
    que
    saudades que eu tenho saudades da
    voz de Ary

    Ob.

    Pela partilha de tão belas palavras


    um beijo

    ReplyDelete
  21. E porque tudo canta em AMOR:

    Meu amor meu amor
    meu corpo em movimento
    minha voz à procura
    do seu próprio lamento.

    Meu limão de amargura meu punhal a escrever
    nós parámos o tempo não sabemos morrer
    e nascemos nascemos
    do nosso entristecer.

    Meu amor meu amor
    meu nó e sofrimento
    minha mó de ternura
    minha nau de tormento

    este mar não tem cura este céu não tem ar
    nós parámos o vento não sabemos nadar
    e morremos morremos
    devagar devagar.

    JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS

    (hoje não rimo eu,
    o amor é todo teu!)

    beijinho

    ReplyDelete
  22. A força das palavras,na beleza de um poema

    Beijos Maria

    ReplyDelete
  23. Querida Maria...

    Passados 35 anos ainda se sente a mesma emoção! Nem as mágoas da triste realidade a conseguem ofuscar!!!

    25 de Abril... SEMPRE!

    Um beijo e um cravo vermelho!

    ReplyDelete
  24. Maria,

    Com o DIA a chegar, lembrar e oferecer o Ary, é um mimo que nos fazes.

    Um beijo daqui, deste lado.

    ReplyDelete
  25. Estas palavras ditas
    na boca do seu autor
    teriam cor e sabor...
    a ARY

    Que saudades!!!

    ReplyDelete
  26. Ai, Maria... tanto por cumprir no nosso Abril. Mas tanto que se andou!
    E que bom ler estas pérolas.É sempre bom. Mas Abril... PORRA, É ABRIL!!:)
    Beijinhos

    ReplyDelete
  27. Continuo com a esperança que a força destas palavras me ensinou a ter.

    Beijo Maria

    ReplyDelete
  28. épico! empolgante.

    como o Ary dos Santos sabia!
    beijos

    ReplyDelete
  29. Muito obrigada a todos por terem passado por aqui.

    Beijos

    ReplyDelete