Thursday, December 25, 2025

Elegia de Natal

 
Era também de noite Era também Dezembro
Vieram-me dizer que o meu irmão nascera
Já não sei afinal se o recordo ou se penso
que estou a recordá-lo à força de o dizerem
Mas o teu berço foi o primeiro presépio
em que pouco depois o meu olhar pousava
Não era mais real do que existirem prédios
nem menos irreal do que haver madrugadas
Dezembro retornava e nunca soube ao certo
se o intruso era eu se o intruso eras tu
Quase aceitava até que alguém te supusesse
mais do que meu irmão um gémeo de Jesus
Para ti se encenava o palco da surpresa
Entravas no papel de que eu ia descrendo
Mas sabia-me bem salvar a tua crença
E era sempre de noite Era sempre em Dezembro
Entretanto em que mês em que dia é que estamos
Que verdete corrói prédios e madrugadas
De que muro retiro o musgo desses anos
que entre os dedos depois se me desfaz em água
Para onde levaste a criança que foste
Em vez da tua voz que ciprestes são estes
Como dizer Natal se te não vejo hoje
Como dizer Natal agora que morreste
David Mourão-Ferreira

Wednesday, December 24, 2025

**


Feliz desobediência e Próspera resistência!
Que a liberdade, a dignidade e a rebeldia 
vos acompanhem! 

Tuesday, December 23, 2025

Poema de Natal

 
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes

Wednesday, December 17, 2025

Massacre de Wiriyamu

 
A 16 de dezembro de 1972 teve lugar um dos episódios mais tenebrosos do colonialismo português, conhecido como “Massacre de Wiriyamu”. Uma operação, com o nome de código “Marosca”, que envolveu aviação, elementos dos comandos e agentes da PIDE/DGS, decorreu na zona de Tete, no Norte de Moçambique, visando cinco aldeias: Wiriyamu, Juwau, Djemusse, Riacho e Chaworha.
Depois de lançadas bombas sobre a aldeia de Wiriyamu, entraram em ação os militares dos Comandos e seguiu-se a barbárie. O morticínio estender-se-ia às referidas quatro povoações ao longo do rio Zambeze sob variadas e desumanas formas. Centenas de pessoas são chacinadas, entre elas mulheres e crianças. Muitas são fechadas dentro das cubatas onde morrem carbonizadas por ação de granadas incendiárias, outras são simplesmente fuziladas. Soldados destroem palhotas, infraestruturas e aldeias, saqueiam bens, abrem fogo sobre pessoas cujos corpos são depois colocados, com alguns vivos pelo meio, em piras funerárias para serem consumidos pelo fogo.
385 pessoas terão morrido, cerca de um terço dos 1350 habitantes das cinco aldeias. A listagem das vítimas e o relato dos acontecimentos são apurados por Domingo Kansande e pelo padre Domingos Ferrão que faz chegar as informações a padres espanhóis e holandeses. O massacre seria divulgado pelo também padre inglês Adrian Hastings no jornal britânico “The Times”, a 10 de julho de 1973, dias antes da visita de Marcelo Caetano a Londres. O caso chegaria ainda à Organização das Nações Unidas.
🔎 Consulta o documento, datilografado, sobre os Massacres de Chawola, Wiriyamu e Juwau, patente no nosso arquivo digital. Fundo BMRR – Biblioteca-Museu República e Resistência:
📷 Monumento em memória, Wiriyamu. DR



Wednesday, December 10, 2025

Na noite de Madrid

 
Na noite de Madrid eu vi um homem morto
Jazia ali como uma afronta para os vivos
que voltavam dos bares com música nos olhos
com estrelas na testa e festa nos ouvidos
e passavam de táxi a boa velocidade
Há quanto tempo o homem jazeria ali
à superfície escura do asfalto
já meio devolvido à terra nossa mãe?
Não o cobria o manto dos heróis
nenhum clarim tocara em sua honra
Como o confortaria a santa madre igreja?
Tombara apenas imolado ao dia-a-dia
Pagara com a vida a paz da consciência
de toda uma cidade que dormia
E ele crescia alastrava na estrada
e assumia inesperadas proporções
quando há bem pouco ainda se reduzia ao dia
Quem seria? Quem fora?
Que jornal conteria a imensidão do nome
de quem como um insulto ali jazia?
Que pensamentos próximos tivera?
E o que levaria ele nos bolsos?
Donde viria? Sorriria? Onde ia?
Fora criança? Sonharia ser feliz?
Mudaria de vida na manhã seguinte?
Brincara alguma vez naquela mesma rua?
Fora criança ali onde profundamente o vi?
Teria soluções para problemas que tivesse?
Seria porventura um bom chefe de família?
Disporia da consideração da vizinhança?
Era bom funcionário? Homem de futuro?
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não conseguiria ver nem as estrelas
nem ao menos a luz dos citadinos candeeiros
Havia curiosos e polícia havia uma ambulância inútil
para quem como cama só teria a pedra fria
«Aonde vai?» - perguntou-me o homem do táxi
«- Eu tenho cinco mil pesetas - respondi-lhe
Leve-me pelas ruas da cidade até nascer o sol
talvez ele possa dizer-me alguma coisa
daquelas muitas coisas que gostava de saber
(o sol é hoje uma das minhas poucas soluções)
Passe longe do corpo por favor»
Lembrei-me de leituras soterradas
de súbito subiram-me à memória cenas esquecidas
Samaritano eu? Mais um levita
que calmo procurava a promessa do dia
Inquietação ou pena? Sombra de metafísica?
Política? Moral? Lição? Comportamento?
Queria alguma coisa? Não sabia
Posso-vos garantir que não sabia
Só sabia que olhava e nenhum mar havia
 
Ruy Belo

Saturday, December 06, 2025

O Captain! My Captain!

 
O Captain! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
Walt Whitman

Thursday, December 04, 2025

O acidente de Camarate

 
Faz hoje 45 anos estava a jantar na Tia Matilde, a comemorar o aniversário de um amigo. De repente a televisão começou a dar uma música estranha… e ficámos à espera do que se seguiria. E seguiu-se a notícia. E o Freitas do Amaral (lembro-me quem eram os seus guarda-costas) a dizer imediatamente que estava afastada a hipótese de atentado.
Terminado o jantar íamos para o comício de encerramento da campanha do Eanes (pois!!!!!!) que se realizaria no Rossio.
Pelo sim, pelo não, saímos do metro na Avenida. E por ali ficámos. O pessoal que tinha ido para o Rossio já vinha de regresso. O Comício tinha sido, naturalmente, cancelado.
Por ali ficámos mais um tempo, ora dentro do CTV para ver notícias, ora cá fora a comentá-las.
Acabei a noite em Camarate, o mais perto possível da casa que ficou destelhada pela queda da asa do Cessna, falando com o pessoal que por ali andava e vivia e ainda com a polícia.
Fiquei logo com uma opinião diferente da que foi avançada pelo Freitas….

Monday, November 10, 2025

A LÂMPADA MARINHA

 
Porto cor de céu
I
Quando de­sem­barcas
em Lisboa,
céu ce­leste e rosa rosa,
es­tuque branco e ouro,
pé­talas de la­drilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as ja­nelas
sal­pi­cadas do ouro verde dos li­mões,
do azul ul­tra­ma­rino dos na­vios,
quando de­sem­barcas,
não co­nheces,
não sabes que por de­trás das ja­nelas
es­cura,
ronda,
a po­lícia negra,
os car­ce­reiros de luto
de Sa­lazar, per­feitos
fi­lhos de sa­cristia a ca­la­bouço,
des­pa­chando presos para as ilhas,
con­de­nando ao si­lêncio
pu­lu­lando
como es­qua­drões de sombra
sobre ja­nelas verdes,
entre montes azuis,
a po­lícia,
sob ou­to­nais cor­nu­có­pias,
a po­lícia,
pro­cu­rando por­tu­gueses,
es­car­vando o solo,
des­ti­nando os ho­mens à sombra.
A cí­tara es­que­cida
II
Ó Por­tugal for­moso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na pra­teada margem do oceano,
na es­puma da Eu­ropa,
com a cí­tara de ouro
que te deixou Ca­mões,
can­tando com do­çura,
es­par­zindo nas bocas do Atlân­tico
teu tem­pes­tuoso odor de vi­nharia,
de flores ci­dreiras e ma­ri­nhas,
tua lu­mi­nosa lua en­tre­cor­tada
de nu­vens e tor­mentas.
Os pre­sí­dios
III
Mas,
por­tu­guês da rua, entre nós,
nin­guém
nos es­cuta,
sabes
onde
está Álvaro Cu­nhal?
Sabes, ou al­guém o sabe,
como morreu,
o va­lente,
Mi­litão?
E sua mu­lher sabes tu
que en­lou­queceu sob tor­turas?
Moça por­tu­guesa,
passas como que bai­lando
pelas ruas
ro­sadas de Lisboa,
mas
sabes,
sabes onde morreu Bento Gon­çalves,
o por­tu­guês mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes
que nin­guém volta ja­mais
da Ilha
da Ilha do Sal,
que Tar­rafal se chama
o campo da morte?
Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim to sabes,
em si­lêncio
a pa­lavra anda com len­tidão mas per­corre
não só Por­tugal senão a Terra.
Sim, sa­bemos,
em re­motos países,
que há trinta anos
uma lá­pide
es­pessa como tú­mulo ou como tú­nica,
de cle­rical mor­cego,
afoga Por­tugal, teu triste trino,
sal­pica tua do­çura,
com gotas de mar­tírio
e mantém suas cú­pulas de sombra.
O mar e os jas­mins
IV
Da tua pe­quena mão ou­trora
saíram cri­a­turas
dis­se­mi­nadas
no as­sombro da ge­o­grafia.
Assim, a ti volveu Ca­mões
para deixar-te o ramo de jas­mins
sem­pi­terno a flo­rescer.
A in­te­li­gência ardeu qual vinho
de trans­pa­rentes uvas
em tua raça,
Guerra Jun­queiro
entre as ondas
deixou cair o trovão
de li­ber­dade bravia
trans­por­tando o Oceano a seu cantar,
e ou­tros mul­ti­pli­caram
teu es­plendor de ro­sais e ra­cimos
como se de teu es­treito ter­ri­tório
saíssem grandes mãos
der­ra­mando se­mentes
pela terra toda.
Não obs­tante,
o tempo te so­terrou,
o pó cle­rical
acu­mu­lado em Coimbra
caiu sobre teu rosto
de la­ranja oceâ­nica
e co­briu o es­plendor de tua cin­tura.
A lâm­pada ma­rinha
V
Por­tugal,
volta ao mar, a teus na­vios
Por­tugal volta ao homem, ao ma­ri­nheiro,
volve à terra tua, à tua fra­grância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz ma­tu­tina
do cravo e da es­puma.
Mostra-nos teu te­souro,
teus ho­mens, tuas mu­lheres,
não es­condas mais teu rosto
de em­bar­cação va­lente
posta nas avan­çadas do Oceano.
Por­tugal, na­ve­gante,
des­co­bridor de Ilhas,
in­ventor de pi­mentas,
des­cobre o novo homem,
as ilhas as­som­bradas,
des­cobre o ar­qui­pé­lago no tempo.
A sú­bita
Apa­rição
do pão
sobre a mesa,
a au­rora,
tu, des­cobre-a,
des­co­bridor de au­roras.
Como é isso?
Como podes negar-te
ao ciclo da luz tu que mos­tras-te
ca­mi­nhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
es­treito e amplo Pai
do ho­ri­zonte, como
podes fe­char a porta
aos novos ra­cimos,
ao vento com es­trelas do Ori­ente?
Proa da Eu­ropa, pro­cura
na cor­ren­teza
as ondas an­ces­trais,
a ma­rí­tima barba
de Ca­mões.
Rompe
as teias de aranha que co­brem
tua fra­grante copa de ver­dura
e então
a nós ou­tros, fi­lhos dos teus fi­lhos,
aqueles para quem des­co­briste a areia
até então es­cura
da ge­o­grafia des­lum­brante,
mostra-nos que tu podes
atra­vessar de novo
o novo mar es­curo
e des­co­brir o homem que nasceu
nas mai­ores ilhas da terra.
Na­vega, Por­tugal, a hora
chegou, le­vanta
tua es­ta­tura de proa
e entre as ilhas e os ho­mens volve
a ser ca­minho.
A esta idade agrega
tua luz, volta a ser lâm­pada
apren­derás de novo a ser es­trela.
(PABLO NERUDA)
* Poema de Pablo Neruda inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954.
Nesta campanha internacional participaram muitos outros intelectuais progressistas da época, entre os quais o escritor brasileiro Jorge Amado.


Friday, October 17, 2025

Paisagem

As traineiras abrigam-se na barra
os mastros em fantástico arvoredo.
São peixes coloridos de brinquedo
e eu o triste rapaz que solta a amarra.

Os telhados reúnem-se no largo,
assembleia de pobres e crianças.
Em falas, cantos, cobram-se esperanças.
Homens chegam do mar com rosto amargo.

Lá em baixo a vaga escreve na muralha
a história destes muros. Toda em brios
salta adiante o Baleal e falha.

E, na gávea da velha Fortaleza,
fico a seguir o rumo dos navios,
num choro de asas de gaivota presa...

António Borges Coelho 

Thursday, September 11, 2025

Requiem por Salvador Allende


Foi de súbito no outono juro solenemente que o foi
mas as árvores fora tinham de novo folhas recentes
primavera no chile primavera no mundo
Sinto-me vivo habito muito de pé numa casa
leio vagarosamente os jornais sei devagar que os leio
enfrento meu velho borges o muito meu destino sul-americano
Acabara um poema enchia o peito de ar junto da água
sentia-me importante conquistara palavras negação do tempo
o mar era mais meu sob a minha voz ali solta na praia
talvez voz metafísica decerto voz de um privilegiado
ombro a ombro com gente analfabeta uma gente sensível e leal
mas que não pode ler e vive muito menos por o não saber
embora saiba olhar o mar sem o saber interpretar
acabara um poema enchia o peito de ar junto da água
quando o irmão miguei veio pequeninamente pela areia
e convulsivamente me falou da situação no chile
veio pela praia e punha nas palavras mãos de solidão
mãos conviventes com outras palavras mãos que palavra a palavra
erguem um poema no silêncio só circundante
Allende tinha uns óculos os óculos tinham-no
com eles via a vida com eles via os homens via homens
via problemas de homens e as coisas que via eram coisas de homens
hoje apenas uns óculos sem nenhum olhar por detrás
Nos finais de setembro nos princípios de novembro
tu meu amigo que não posso nomear sem te denunciar
dar-me-ás talvez notícias tuas notícias meramente pessoais
já que projectos sociais projectos cívicos profissionais
ficariam decerto nas policiais desertas mãos dos generais
mãos que mataram mãos que assaltaram a casa de neruda
mãos limpas já do sangue despojadas já das alianças
que caridosamente deram que assim conseguiram
solucionar os prementes problemas do país
Ouvi falar também desse cargueiro playa larga
praia comprida mas praia deserta e não só na palavra
pois quanta praia tinha hoje só tem o sangue dos milhares das pessoas fuziladas
A onze de setembro nesta praia portuguesa só uns passos pela areia
algum poema terminado alienado algum termo conquistado
tão inefável como por exemplo o de tancazo
atribuído ao golpe orientado por pablo rodriguez
homem que vai modelando palavras ao ritmo martelado pelo ódio
na tentativa vã de destruir frases hoje históricas
do grande cavalheiro que decerto foi allende
e já antes de o dizer com a vida dizia que por exemplo
mais vale morrer de pé do que viver ajoelhado ou então
se as direitas me ajudam a ganhar ganharão as direitas
País amável calorosa entrada em Santiago
e ver-me em frente desse homem sozinho relutante em recorrer às armas
e que depois de o ter visto e o ter ouvido
ao homem que for homem poderei chamar-lhe
seja qual for o nome salvador allende
Que nestas minhas minerais palavras de poeta
vibre um pouco o vigor da tua voz
bafejando de paz primeiro o bom povo do chile
depois o povo bom de todo o inundo
Que a ignomínia da história não demore em cobrir com o seu manto
os que têm a força mas não têm a razão
pois o nazi-fascismo não ganhou nem nunca ganhará
Mando-te uma ave preta rente à leve ondulação do mar
tu mandas-me no mar a ave branca do teu rosto
vento que vem do mar vento que vem do chile
Aqui neste dia de súbito cinzento
somente povoado pelo meu sofrimento
e pelo pensamento desse sofrimento
voo também vou também eu nesse lenço
que retiro do bolso aqui à beira-mar
e o meu lenço ao vento é uma ave avesíssima uma ave de paz
uma ave avezada a cada uma das derrotas existentes no mar
somente agora destruída trespassada pela bala que leva uma vida
ave que ao entoar seu canto profundíssimo afinal apenas diz
muito obrigada salvador allende
obrigada por essa tua vida de cabeça erguida
só agora tombada trespassada pela bala que leva uma vida
mas não pode levar de vencida a obra por allende começada
selada por essa promessa de lutar até ao fim até à hora de morrer
nesse importante posto onde te investiram a lei e o povo
Foi no ano de mil novecentos e setenta
ano em que eu fiquei a apodrecer no meu país
que uma coligação do tipo frente popular tomou
pela via legal conta do poder no chile
legalidade sempre respeitada por ti allende
mas por fim desrespeitada pelos militares pelas direitas pela
cristã democracia partido bem pouco cristão e pouco democrático
Falavas tu dizias a verdade
falavas com palavras de verdade
uma bala na boca nessa boca donde ainda pouco antes
saíam as palavras na verdade belas como balas
salvador allende guerrilheiro sem metralhadora e sem boina
de casaco e gravata para essas guerrilhas no parlamento
guerrilhas todas elas tão contrárias à guerra quão favoráveis à paz
essa palavra alada como ave ave não só de georges braque
mas de nós todos aves verticais aves a última estação
árvores desfolhadas num definitivo inverno
allende do cansaço dos problemas da preocupação constante em jogares limpo
com quem em vez de mãos utensílio de paz vinha com bombas em lugar das mãos
allende já há muito tempo sem uns olhos para olhares o mar
e sem poderes olhar as pedras preciosas de que fala
pablo neruda teu e meu poeta teu íntimo amigo
em las piedras dei cielo esse livro puríssimo
e são pedras do céu mas mais do que céu pedras da terra
Sol que te pões e nascerás no chile
leva-me a um país que em criança conhecíamos apenas
dos sacos de serapilheira com o nome impresso de um nitrato
e não por dar o nome a uma pequena mas confusa praça de lisboa
nem por sair nas páginas diárias dos jornais
Do chile chegou-me não há muito a amizade do hernán
que em madrid conheci e não responde há muito às minhas cartas
e a de mais chilenos de olhos vagamente tristes sérios quase portugueses
e desse país mais comprido do globo veio-me também
o lápis-lazúli pedra não já de esperança pedra de amizade
Os camiões há muito já que não sulcavam as estradas do país
estradas bafejadas pela aragem enviada pelo mar por esse
oceano pacífico de um país ainda há pouco bem pacífico
O washington post falava já do golpe dias antes do golpe
ninguém falava delas mas elas encontravam-se ali mesmo
as autoridades militares as autoridades militares as autoridades americanas
vestiam mesmo as fardas do exército chileno
esses americanos gente do dinheiro e do veneno
de um veneno talvez chamado dinheiro
que terá pago em parte as modificações dos foguetes do tipo poseidon
montados já a bordo dos divinos submarinos nucleares americanos
assunto de política estrangeira americana
Hernán urrutia meu amigo austral
que em barajas vi olhar voltar
para mim a cabeça pela última vez
marcelo coddo professor em concepción
com quem que bem me lembro conversei sobre o poeta cardenal
e sobre a jovem poesia nicaraguense
e tantos outros que nem mesmo me terão deixado o nome
mas me deixaram alguma palavra a música da fala um certo sorriso
um certo olhar visível por detrás de uns óculos
talvez hoje quebrados por quem não considera
talvez suficiente o quebrar da vida na haste da vida
embora porventura tenha visto aquela sequência de fellini
e desconhece que afinal a vida reproduz a arte
Escreve este poema no jornal com as notícias frescas
após ter evitado ver as caras de triunfo desses locutores luzidios da televisão
e mesmo ter ouvido até a voz desse pedro moutinho
a voz das afluências ao nosso principal estádio o da cova da iria
e dos cortejos presidenciais o dessas tão espontâneas manifestações
voz afinal da cia e da itt e dos demais tentáculos
do imperialismo norte-americano
maneira americana de se estar no mundo
de estar no mundo arrebatando o pão dos homens do terceiro mundo
terceiro mundo ou melhor último mundo
que pagarão agora o preço da cabeça dos trabalhadores chilenos
que marcham mas decerto em vão na direcção
do centro de santiago onde vingara
a rebelião dos marinheiros vindos de valparaiso
cabeça dos imensos deserdados deste mundo
Sabíamos decerto um pouco em que consistia
essa via chilena para o socialismo
e líamos talvez um livro acerca do programa da chamada unidade popular
e discursos de allende naquela cidade distante
embora houvesse muito mais notícias nos jornais
e a gente nos cafés falasse mais em futebol
livro por certo lido com a janela aberta sobre a noite do outono
sobre campos relvados de momento habitados pela escuridão
donde talvez se erguiam cantos pouco menos que religiosos
exaltadores de ideologias já e sem remédio ultrapassadas
Era uma vez um chileno chamado salvador allende que
fez um grande país de um país pequeno onde
talvez três anos nós houvéssemos depositado a esperança
quando fosse qual fosse a nossa nacionalidade
todos nós fomos um pouco chilenos
Mas que diabo importa em suma a qualquer de nós
que um homem se detenha quando a história caminha
em frente sempre altiva e serena
como mulher de muito tempo sabedora
Posso dizer por certo como há já muitos anos
acerca dos milicianos espanhóis dizia neruda
allende não morreste estás de pé no trigo
Ruy Belo 

Saturday, August 30, 2025

Da Condição Humana

 
Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
Ary dos Santos

Monday, August 25, 2025

Pequeno Poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Sebastião da Gama

Friday, August 22, 2025

Os Estivadores


Só eles suam mas só eles sabem
o preço de estar vivo sobre a terra
nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra.
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia.
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade.
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade.
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais.

Ruy Belo

Thursday, August 21, 2025

Um Adeus Português


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
e puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

Alexandre O'Neill