Sunday, December 31, 2023

POEMA CXIV


Abri a porta e não havia espaço.
Alguém tinha posto ali uma montanha. Não
em frente, mas ali mesmo. A três, quatro metros
iniciava-se uma encosta e só saindo a porta se podia
ver o cume. Quer isto dizer que agora vejo a vida
de outra forma? Que apenas depois de sair de mim
poderei sobreviver ou resgatar-me?
Ou quer dizer que me sinto sem saída e que terei
de transpor uma montanha para atingir a liberdade
que só pode alcançar-se do outro lado? Não sei.
Gostava de chegar a tempo de conhecer a resposta.
Nem poderei dizer "não me interessa" ou "para quê
pensar nisso", ou ainda "tudo não passou de um sonho,
agora acordaste, Joaquim, pára com essa conversa
outra vez."
Se te dói alguma coisa, não pares, continua
porque tudo é doloroso a começar pela dúvida. Tens
expectativas, todos os palermas têm expectativas,
alguma coisa tens de fazer mesmo que nada tenha
resultado nas últimas cinco vezes. Respira, se quiseres
respirar, com a coragem de quem assina um papel
em branco e cuida da tua alma como um enfermeiro
ou um técnico de manutenção.
Eu também sei que não temos de fechar os olhos
e partir, porque nos podemos escolher a nós mesmos,
o que pode ser doloroso mas não é difícil, e temos
de tentar, temos sempre de tentar agarrar a felicidade
porque ela não chega quando nós menos a esperamos,
mas quando nos esforçamos e queremos muito que
ela chegue. Quando não estás pronto, nada resulta.
Até o amor é como um sapo sempre de um lado da noite
para o outro, carregando o que de mais sujo e feio
existe em nós. Procura então com coragem uma forma
de não estares na vida à socapa e ficares a assistir.
O truque está em saber ver a diferença.
Não queiras permanecer no mesmo sítio
a cantar a mesma canção, sem ir a lado algum.
Desse modo nada importará, porque o que realmente
importa já nem sequer te apetece procurar. E se
investires muito nas perguntas e pouco nas respostas,
serás um mendigo que tudo tem e nada possui.
Não dobres a medo o cabo dos trabalhos, porque
a tua memória é líquida mas não se lembra daquela luz
que se esconde na água nem sabe de que lado fica
a nascente dos pássaros que poisam nos sentidos
das coisas que regressam.
Se quiseres falar, eu estou aqui.
No território onde podes contar coisas
em que ninguém acredita e onde eu posso deixar
os meus versos até àqueles que não gostam de poesia.
Não continues especialista em envergonhar-te
perante ti mesmo. Precisas de uma vida nova,
de uma mudança séria que não deixe tudo outra vez
como estava vinte e quatro horas antes.
Como é que isto soa na tua cabeça?
Enquanto fores vivo podes aprender, mas
não exijas perfeição em nada. O que é fabuloso
continuará a sê-lo enquanto pensares que o é. Tudo
está em ti sempre prestes a partir, mas a tua
pequena galinha poderá ser muito maior
e mais gorda que a dos teus vizinhos.
Uma família é um abraço.
Estende o pensamento para os teus.
Para a tua aldeia. Para o teu mundo. És uma criança,
não podes lutar contra outras. Se o fizeres,
não vais querer parar. E a seguir não vais poder
respirar. Continua a ser o teu braço direito e lembra-te
de que há coisas que não podemos deixar de discutir.
E há outras de que nunca queremos saber.
Desejamos firmemente um tratamento especial
mas por vezes a vida dá passos muito grandes,
demasiado grandes para que possamos acreditar,
e o normal nunca será normal se te sentires
anormal.
A culpa é como uma mãe
autêntica, sempre a querer colar-se a nós
e a lembrar-nos o que não deveríamos ter feito,
como se todos os dias fossem véspera de Natal. E
se Jesus ressuscitou, por que não ter, ao menos, expectativas?
Como te disse, todos os palermas têm
expectativas, mas deixa lá, pode até acontecer
que abras a porta e não vejas a montanha ou que,
sequer, isso tenha afinal algum significado.
De qualquer modo,
também gostei de falar contigo.
Joaquim Pessoa
in O POUCO É PARA ONTEM (Litexa, 2008)

Friday, December 29, 2023

lembro-me do futuro

escrevi estes versos para os meus filhos
cujos nomes são desconhecidos
da maior parte
do tempo persiste na memória apenas o passado que se acumula sob as finas camadas do presente
mas sabe os seus nomes quem luta pelo futuro.
e nós, nós habitamos todo o tempo, e somos daquela porção da humanidade cuja memória guarda já o brilho da luz, o cheiro, e a história de amanhã. nós somos aqueles de quem as mãos, na verdade, são asas.
(in convocatória)

Wednesday, December 27, 2023

A Odete Santos não morreu

 

Na tombola que é a distribuição dos serviços diários na Fotografia do Público, fui contemplado com uma entrevista a Odete Santos no ano 2000. Telefonei-lhe e marcámos um encontro.
A grande Odete apareceu com a maior das simplicidades. Falámos de tanta coisa que acabámos por nos encontrar também no dia seguinte. Odete queria ser fotografada junto às mulheres que se iam manifestar no terreiro do paço. Percebi que era ali que se sentia bem. Mulher de combate.
A Odete era genuína. Não era comunista por acidente. Era comunista inteira. Como muito poucos. Era das mais brilhantes deputadas. Não era uma deputada de bancada. Não era mais uma no meio de tantos. Era uma deputada do terreno. Ligada às pessoas. Ligada à justiça social e à liberdade.
Não quis ser fotografada na AR. Quis ser fotografada no palco (não me lembro que sala) e junto ao rio Tejo.
Ali, a grande Odete, a brilhante deputada. A obreira da democracia. A mulher da luta. Todos os dias. Junto ao rio, com as gaivotas a voarem em liberdade.
A Odete Santos não morreu. 

Adriano Miranda

Sunday, December 24, 2023

Natal...

Elas andam a trabalhar numa fona há dois ou três dias, sem o descanso necessário. Primeiro as compras, depois a cozinha. Fazem sonhos rabanadas aletria arroz doce coscorões azevias e só não fazem o bolo rei porque lhes falta o tempo. São os homens a ir buscar o bolo rei que elas encomendaram. Levantaram-se cedo e começaram logo ainda não saíram da cozinha e os homens a perguntar quando é que se almoça. Fazem-lhe um bife (as que podem) rápido e nem se sentam à mesa, porque há que começar a levar para a sala de jantar o serviço de porcelana e os copos que se usam uma ou duas vezes por ano. Tudo do enxoval. Quantos sonhos ficaram pelo caminho. A esta hora já descascaram as batatas, arranjaram a couve, os tachos estão em cima do fogão que será ligado daqui a pouco para cozer o bacalhau. E eles sentados no sofá a verem televisão. Elas põem a mesa com a toalha que usam uma vez por ano, o serviço de porcelana e os copos. Têm de caber quinze. Os três filhos chegarão dentro de pouco tempo com os respectivos parceiros e dois filhos cada um. Vai ser uma festa pois vai mas ninguém pensa que elas estão de pé há mais de dez horas e ainda têm pela frente mais seis ou sete horas de trabalho até poderem ir descansar um pouco sim porque amanhã o almoço é igualmente lá em casa e elas têm de se levantar às sete ou oito para voltarem a por a mesa, repor os doces e acender o fogão onde se irá assar o perú, que elas têm temperado há dois dias. Eles levantam-se mais tarde, chegam à cozinha e pedem o pequeno almoço, depois fumam um cigarro e vão à vida deles. Voltam a aparecer quando são chamados para a mesa. Elas não veem mais nada a não ser os ponteiros do relógio avançarem e os filhos estão quase a chegar e o arroz de passas ainda está por fazer e ela tem ainda de tomar um duche. É tão lindo o Natal quando elas trabalham assim e eles dizem ponham os olhos na vossa mãe, que é uma mulher como deve ser. Felizmente à noite o jantar vai ser o que sobejou do almoço e do jantar da véspera. Despediram-se ao final do dia e elas mal aguentam pensar que amanhã é já daqui a meia dúzia de horas... e que o trabalho as espera.

(Isto é ficcionado. Mas conheço muita gente que se encaixa aqui.)
(Fui interrompida várias vezes enquanto escrevia este texto. Não o li nem vou ler. Sei que me perdi pelo meio, espero que não se note muito.) 😃

Saturday, December 23, 2023

Poema de natal


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes

Tuesday, December 19, 2023

Refaz-me

Penetras-me todos os dias, sempre que te apetece. Deixas que eu me encha de ti, naturalmente. Namoras-me e saboreias-me da mesma forma e ao mesmo tempo que te namoro e te saboreio. As crianças a brincarem com a nossa espuma.
A corrente leva-me sempre para ti, e traz-te de volta. Mas é de noite que nos amamos melhor. Com as estrelas como manto. Às vezes a lua, cúmplice dos nossos beijos e abraços. Enquanto as crianças sonham com castelos de areia e sorriem.
Nas minhas margens costumam chapinhar os mais pequenos e deixo que os barquinhos se passeiem imaginando viagens que não fazem. Mas estes dias foram de tempestades e amores proibidos, e as margens que em mim deixaste são enormes. Cavaste um fosso entre mim e o que resta da praia, que continuas a lamber. As minhas margens são agora enormes. Como podem as crianças voltar a brincar no meu regaço?
Refaz-me, uma e outra vez, com a doçura com que sempre o fizeste. Preciso do teu abraço, forte. E das gargalhadas das crianças...

Monday, December 18, 2023

Amor

Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.
Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -.
Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
e mais.
Pablo Neruda

Thursday, December 14, 2023

TERRA


- O que fazes, Luís?
O que fazes com a terra do quintal?
- Uma casa, pai. Uma casinha de barro.
- Para quem a fazes, meu filho?
- Para o primo António.
Ao lado será a nossa
E depois a de Josefa
E a de Elias depois
E outra para quem vier
Que queira poiso e guarida
Uma cama, uma sanefa
Pois esta rua tem vida
Quanto mais vida tiver
Outra do filho de alguém
Que ainda está por nascer
Para que a rua não pare
Nunca pare de crescer
Será a Rua Direita
Do barro que a terra der
Nem muito larga nem estreita
A palmo, mas bem medida
Com entrada, com saída
Feita de homem e mulher
Em cada porta um ditado
Pintado num azulejo
Cada casa o seu telhado
Cada casa o seu desejo
Para que rua engravide
Antes de chegar ao rio
Num largo onde tudo cabe
A que vou chamar rossio
Com quatro cantos virados
Para os pontos cardeais
Um para poetas vidrados
E para loucos que tais
Quero um canto para pintores
Desses que inventam as cores
Das papoilas e do sonho
No terceiro canto eu ponho
Uma cantiga de festa
Que é o que a voz empresta
À lua quando se esconde
Debaixo do nosso chão
E nós não temos por onde
Dar mais voz ao coração
O quarto canto é vazio
Não lhe ponho nada a jeito
Não é bem do meu feitio
Fazer tudo tão perfeito
Nem tudo deve ter forma
Deixo vazio um lugar
Para quem só sabe andar
Com o olhar fora da norma
É aqui que desagua
A nossa Rua Direita
Que não é larga nem estreita
É como um colo de mãe
Tem esse jeito também
Um jeito de nos abraçar
Que eu sem querer nem saber
Faça as ruas que fizer
Todas a ela vão dar
Primeiro a Rua da Escola
Onde me levaste, então
Para um dia ser alguém
Onde eu um dia também
Hei-de levar pela mão
Alguém à minha carteira
Para manter a linha inteira
Que sustenta o coração
Depois a Rua do Posto
Rua dos nossos avós
Para que as rugas do rosto
Corram no sentido certo
Corram para dentro de nós
Até ao dia em que a última
Maçã deixar de bater
Por cada fruto caído
Sabemos que a vida vai
Como a rua ter sentido
Quero a Rua da Fábrica
Ninho de azeite e de pão
Onde aqueles que lá estão
Têm um lugar à mesa
Conquistando a natureza
Que a Natureza aos demais
Sejam flores ou animais
Rios, montanhas, desertos
Fez diferentes e estão certos
Por ela ter a ciência
Que no fundo, na essência
Nós somos todos iguais
Por fim a Rua da Esperança
A mais bonita, sem fim
Onde quem quer acredita
Ver numa pedra um jardim
Plantar os versos de um hino
Regar com água do rosto
Ver nascer um violino
Das cinzas de um fogo-posto
E que toda a nossa terra
Com a esperança que inventei
Caiba onde não cabe a guerra
Caiba num verso da Lei
E se o mau tempo vier
Estragar a casa que fiz
Junto-me com quem estiver
E volto a fazer de raiz.
João Monge

Tuesday, December 05, 2023

POEMA DA CURVA


Não é o ângulo reto que me atrai,
Nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo o homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro no curso sinuoso dos nossos rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
O universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer
(15 de Dezembro de 1907 – 5 de Dezembro de 2012),
mais conhecido como arquitecto.

Monday, December 04, 2023

O BAR

Andei com Maiakovsky a servir
sumos de ananás num Bar de putas.
Por essas noites, a noite cheirava a mijo
e a ódio. Sim, a mijo e a ódio.
Um homem costumava entrar
e perguntar pelo seu irmão.
Nunca estava. O seu irmão
nunca estava e, então, o homem
desaparecia
sem mais interrogações.
Um dia houve uma guerra num vaso de flores
e na noite desse dia o Bar fechou.
Reabrimos na noite seguinte
muito orgulhosos da nossa guerrazinha
que continuava, mas agora
de certo modo longe do nosso local de trabalho.
Voltámos a servir sumos de ananás
regularmente. Maiakovsky
não usava meias desde a guerra
e as putas quase sempre comentavam isso.
Constou nessa altura
que tinha morrido como um valente
o homem que costumava entrar
e perguntar pelo seu irmão.
Confirmámos isso quando o irmão dele passou a frequentar o Bar
sem fazer uma única pergunta.
De vez em quando tínhamos de pôr fora
os clientes que se embebedavam.
Alguns, no auge da noite,
pretendiam ser Deus,
outros,
faziam discursos que irritavam os chulos
diziam coisas tremendas
e um deles era um general de cavalaria
que ao terceiro copo já queria vender as esporas.
No último verão houve a crise do ananás
e passámos a servir batidos de morango.
As putas adoravam.
Maiakovsky olhava de soslaio umas vezes,
outras, pelo cantinho do olho
e fazia-me sinais.
Eu levantava geralmente os cinzeiros e as gorjetas
Enquanto ele passava um pano húmido
Pelo tampo das mesas.
Dividíamos desta maneira o nosso trabalho
porque ele era alérgico ao cheiro das notas
e a mim dava-me prazer
ajudá-lo no que pudesse.
Uma tarde veio num jornal que ele tinha morrido.
Nem ele próprio acreditou.
Ficou desiludido, muito desiludido mesmo
e confessou-mo.
Não chegou a haver entrevistas, fotógrafos, nada.
Ele fez as malas calmamente
(e, no entanto, esqueceu-se de uma gravata),
abraçou-me e partiu com
lágrimas nos olhos.
Então, sozinho, abri o Bar apenas
uma ou outra noite em que senti saudades.
Por vezes entravam turistas americanos
que me ofereciam somas terríveis
pela cadeira onde ele costumava sentar-se
nos nossos dias de folga.
Quase nunca chegava a responder.
Eles percebiam o meu olhar e não diziam nada,
não insistiam mais.
O mesmo acontecia com as putas,
que deixaram de fazer-me perguntas.
Creio que agora estou desempregado.
Fechei o Bar definitivamente.
Muita coisa mudou embora as noites
continuem hoje a cheirar
a mijo e a ódio.
Faleceu o general
que negociava as esporas ao terceiro copo,
Deus caiu abaixo da sua bebedeira,
e eu acabei por vender a cadeira do meu camarada
que está agora algures no Colorado atrás de uma secretária
num Boss Office de uma fabriqueta de pastilha elástica.
Estou mais novo
e vou sobrevivendo a todas estas recordações.
Mas quando agora saio por aí, de noite, roído de saudades,
já nem mesmo as putas,
as mesmas putas,
me reconhecem.
Joaquim Pessoa

Saturday, December 02, 2023

***

Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerânio minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinezinha minha Paulina Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor meu vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas Escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Passargada meu templo grego minha colina meu verso de Holderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre minas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu mangerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Ana Karénine minha lâmpada de aladino minha mulher

António Lobo Antunes - Cartas da Guerra (1971)

Wednesday, November 15, 2023

Declaração de independência da Palestina

Em 15 de Novembro de 1988, há 35 anos, Yasser Arafat leu, em Argel, a Declaração de Independência da Palestina, escrita pelo poeta Mahmoud Darwich e acabada de aprovar pelo Conselho Nacional Palestino, reunido no exílio: «O Conselho Nacional da Palestina, em nome de Deus e em nome do povo árabe palestino, proclama a criação do Estado da Palestina no nosso território palestino, tendo como capital Jerusalém (Al-Quds Ash-Sharif).»

A declaração prossegue: «O Estado da Palestina é o Estado dos palestinos, onde quer que se encontrem. O Estado é para eles, para que nele gozem da sua identidade nacional e cultural colectiva, para que nele prossigam uma completa igualdade de direitos. Nele serão salvaguardadas as suas convicções políticas e religiosas e a sua dignidade humana, através de um sistema de governação democrático parlamentar, baseado na liberdade de expressão e na liberdade de constituição de partidos. Os direitos das minorias serão devidamente respeitados pela maioria, uma vez que as minorias devem acatar as decisões da maioria. A governação basear-se-á nos princípios da justiça social, da igualdade e da não discriminação nos direitos públicos dos homens ou das mulheres, em razão da raça, da religião, da cor ou do sexo, e sob a égide de uma Constituição que assegura o Estado de direito e um poder judicial independente. Assim, estes princípios não permitirão qualquer desvio em relação ao património espiritual e civilizacional secular da Palestina em matéria de tolerância e de coexistência religiosa.»

A Declaração radica a sua legitimidade na resolução da ONU que a partilha da Palestina Histórica: «Apesar da injustiça histórica infligida ao povo árabe palestino, que resultou na sua dispersão e o privou do seu direito à autodeterminação, na sequência da Resolução 181 (1947) da Assembleia Geral das Nações Unidas, que dividiu a Palestina em dois Estados, um árabe e um judeu, é esta resolução que continua a proporcionar as condições de legitimidade internacional que garantem o direito do povo árabe palestino à soberania e à independência nacional.»

Ao terminar a leitura da declaração, Arafat, na qualidade de Presidente da OLP, assumiu o título de Presidente da Palestina. Em Abril de 1989, o Conselho Central da OLP elegeu Arafat como o primeiro Presidente do Estado da Palestina.

Reconhecimento diplomático

Esta declaração constituiu um ponto de viragem na história do movimento de libertação nacional palestino: a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) confirmava implicitamente a aceitação palestina da solução dos dois Estados para a questão israelo-palestina, que durava há décadas.

O Estado da Palestina foi reconhecido por 77 países membros da ONU no mês que se seguiu à proclamação da independência, a que se juntaram mais 13 países nos doze meses seguintes. Actualmente, o Estado da Palestina é reconhecido por 138 países membros da ONU, incluindo oito membros da União Europeia, e pela Santa Sé.

Em Dezembro de 2014, a Assembleia da República aprovou uma resolução não vinculativa que apelava ao Governo para que reconhecesse a Palestina como um Estado independente, com apenas 9 dos 230 deputados a oporem-se à medida. Até à data, Portugal não fez esse reconhecimento.

No entanto, Portugal mantém relações diplomáticas com a Palestina, tendo elevado à categoria de Embaixador, em 2010, o chefe da Missão Diplomática da Palestina. Portugal abriu uma representação diplomática em Ramala em 1999.

Um Estado ocupado e violado

Nos trinta e cinco anos decorridos desde a leitura da declaração da independência, tal como em décadas anteriores, o território palestino nunca deixou de estar sob ocupação e o seu povo sujeito à violência do ocupante – fosse o colonizador britânico ou o colonizador israelita. Mas talvez nunca, como hoje, o grau de desumanidade do agressor fosse tão bestial. E isso é reflectido na mensagem de Mahmoud Abbas, o presidente do Estado da Palestina, a assinalar a efeméride:

«Dirijo-me a vós hoje, no aniversário da Declaração de Independência, e enfrentamos juntos uma guerra bárbara de agressão e uma guerra aberta de genocídio contra o nosso povo na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, incluindo Jerusalém, a nossa capital eterna, e um massacre levado a cabo pelo Estado ocupante perante o mundo, a fim de quebrar a nossa vontade e desenraizar a nossa presença nacional na nossa terra, a terra dos nossos pais e avós, na qual o nosso povo vive há mais de seis mil anos.

A guerra injusta e agressiva a que estamos expostos é uma guerra contra a existência palestina e a identidade nacional palestina. A identidade da terra e a identidade do homem, e é um episódio na série de agressões que se prolongam há mais de um século. É também uma vergonha na cara daqueles que apoiam esta agressão e lhe dão cobertura política e militar. São os restos mortais das nossas crianças, despedaçadas pelos mísseis desta agressão israelita, e o sangue das nossas mulheres. Os nossos homens, cujas esperanças e vidas estão a ser assassinadas pelos mísseis do exército agressor, serão uma maldição para a ocupação e para aqueles que a apoiam ou permanecem em silêncio sobre os crimes de guerra que comete contra o nosso povo na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém.»

Na imagem: Yasser Arafat declara em Argel a criação do Estado da Palestina. (Foto WAFA)

Quarta, 15 Novembro, 2023 - 19:01

daqui: https://www.mppm-palestina.org/content/ha-35-anos-yasser-arafat-leu-em-argel-declaracao-de-independencia-da-palestina?fbclid=IwAR28OzHu9PzsUYffWnpZB5NRmr7iRz0LnkwjybXUlOICkGbD4WDmEN9-FIM

Saturday, November 11, 2023

Conheçam os seus nomes *

Rayan Al-Astal; Mian Al-Astal; Salam Al-Astal; Zein al-Najjar; Yasmine El Masry; Maria Al-Masry; Aisha Shaheen; Rahima Shaheen; Mohammed Abu Jazar; Tia Abu Jazar;Bahaa Musa; Rakan Musa; Musk Hegazy; Ahmed Nofal; Moaz Al-Aidi; Qais Al-Aidi; Nabil Al-Aidi; Alma Hamdan; Misk Gouda; Bilal Hamdan; Abdul Awad; Tahany Zoroub; Mohammed Atallah; Mustafa Saqallah; Abdul AlFarra; Mohammed Shehab; Sarah Al-Farra; Bilal Sobh; Obaida Muailiq; Louay Al-Ajrami; Iyad Muheisen; Anisa Mahmoud; Ahmed Ali; Hamza Ashour; Salma Shaaban; Mohammed Abu Hamad; Aseed Abu Hamad; Ahmed Daloul; Mohammed Radwan; Aseel Dhair; Mohammed al-Akkad; Mohammed Aliwa; Eliana Mekheimer; Abdul Saad; Omar Al-Bahtini; Watin Abu Hilal; Malak Abu Saif; Hoda Abu Seif; Misk Al-Halabi; Omar Shamlakh; Ibrahim Al-Qara; Osama Aslim; Ahmed AlHaddad; Hoor Al-Eid; Ghazal Al-Haddad; Shaima Al-Laham; Moaz Al-Wadiya; Tayim Jaarour; Ayla Abu Ras; Amal Al-Bayouk; Layan Hussein; Ghazal Abu Lashin; Sham Al-Sawalha; Mohammed AlKhayyat; Adam Al-Dahdouh; Adam Abu Ajwa; Jalal Masa; Khaled Al Baba; Maha Al Baba; Ayat Farwaneh; Firas Tamraz; Essam Farag; Moatasem Hammad; Khaled Abu Al-Amrain; Sarah Hammad; Mahmoud Al-Baba; Abdul Al Baba; Raed Alai; George Al-Souri; Alia Al-Souri; Ismail Farhat; Rose Al-Ghoul; Alyan Al-Ashqar; Sanad Amara; Rima Al-Buraim; Hassan Al-Amsi; Anas Al-Hasanat; Zaid Al-Bahbahani; Mohammed Al-Qanou; Sarah Ahl; Mohammed Al-Dairi; Mohammed Al-Qanou; Celine Daher; Raghad Abu Khattab; Jannah Hamouda; Hour Al-Mamlouk; Aws Al-Aleel; Taqa Abu Nuseira; Hind Jahjouh; Hour Al-Azaib; Suzan Al-Ashi; Joan Amer; Basil Abu Jasser; Mahmoud Abu Shawish; Youmna Al-Rifi; Raed Rajab; Abdul Hoso; Maria Al-Shanti; Aylool Abu Rahma; Salama Abu Atiwi; Celine Al-Bahtiti; Sham Al-Qufaidi; Fahd Al-Ajez; Lana Loulou; Diaa Musa; Jihad AlDalis; Rafif Al-Faqawi; Youssef Abu Mahdi; Manal Abu Al-Awf; Joel Al-Amsh; … 

* Nomes de alguns dos bebés assassinados nos bombardeamentos de Israel contra a Faixa de Gaza, todos com menos de um ano completo. A lista, retirada de aljazeera.com, prolongava-se por mais de 330 páginas, contendo o nome e a idade de todos os mortos que foi possível identificar até ao dia 25 de Outubro: bebés, crianças, jovens, idosos, grávidas, refugiados de 1948 e de 1967, médicos, enfermeiros, jornalistas, funcionários das Nações Unidas… Quando há quem tente centrar o debate em saber qual a «medida certa» do mal chamado direito de Israel a defender-se e em regatear os números de vítimas apresentados pelas autoridades de Gaza e por organizações internacionais que lá trabalham, é útil lembrar que os palestinianos são pessoas e não números. Que cada morte deixa pais sem filhos e filhos sem pais, sonhos desfeitos e traumas inimagináveis. Como se fosse cá. Ou em qualquer outro lado.

Gustavo Carneiro

Avante nº 2606 de 9 de Novembro de 2023

Thursday, November 09, 2023

Manuel Gusmão: Um lutador com sensibilidade de poeta

 


Ensaísta, poeta, crítico, tradutor, activista político e professor universitário, deputado do PCP na Assembleia Constituinte, Manuel Gusmão faleceu esta quinta-feira, em Lisboa.


«Quando não estás a olhar é o mundo que te olha. Nunca saberás o que vê.»

Assim escreveu Manuel Gusmão, em «Quando não estás a olhar», um dos poemas de A Terceira Mão, livro editado em 2008. Para Manuel Gusmão, a poesia era diálogo e pertencia à mesma natureza da política, outra das áreas em que se destacou.

Militante do PCP desde a clandestinidade, Gusmão foi deputado na Assembleia Constituinte e na primeira legislatura da Assembleia da República. Como escreveu aqui Manuel Augusto Araújo, «o mundo é a sua tarefa e o seu tempo é sempre um tempo de resistência, o que transmite em todos os seus textos com uma rara clarividência e criatividade, um rigor extremo». No PCP, «o partido mais diferente, pela sua natureza de classe, pela teoria que o guia, pelos objectivos imediatos e finais que prossegue», Manuel Gusmão foi membro do Comité Central e dirigente dirigente no Sector Intelectual da Organização Regional de Lisboa.

Licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese dedicada à poesia dramática de Fernando Pessoa, Manuel Gusmão realizou a sua tese de doutoramento sobre a Poética de Francis Ponge, em 1987, autor que o próprio traduziu para português, tendo sido professor da Faculdade de Letras de Lisboa.

Na revista Vértice, assumiu a responsabilidade de coordenador editorial a partir de 1988. Antes disso, Manuel Gusmão pertenceu às redacções das revistas O Tempo e o Modo e Letras e Artes, foi director do Caderno Vermelho, tendo trabalhado também no Jornal Crítica, entre 1961 e 1971. Pela sua mão nasceram as revistas Ariane (revue d’études littéraires françaises) e Dedalus, da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, porque, como escreveu a propósito de uma passagem dos Manuscritos Económico-Filosóficos de Marx, «também somos feitos de textos».


Nascido em Évora, em Dezembro de 1945, Manuel Gusmão foi autor de ensaios e prefácios de obras de Fernando Pessoa, Gastão Cruz, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen, Luiza Neto Jorge, Ruy Belo, Armando Silva Carvalho e Fernando Assis Pacheco, Almeida Faria, Maria Velho da Costa, Nuno Bragança, Maria Gabriela Llansol, Luís de Sousa Costa e José Saramago.

Com 45 anos estreia-se como poeta ao lançar a obra Dois Sóis, A Rosa - A Arquitetura do Mundo. Seguem-se Mapas, o Assombro a Sombra, que lhe valeu o prémio do PEN Club para melhor obra de poesia, em 1997, tendo conquistado o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava relativos a 2001 com Teatros do Tempo.

Manuel Gusmão foi ainda autor de um libreto para a ópera Os Dias Levantados, de António Pinho Vargas, sobre a Revolução de Abril, e deu nome ao Grande Prémio de Ensaio, instituído em 2023 pela Associação Portuguesa de Escritores.

Em Fevereiro de 2019, recebeu a Medalha de Mérito Cultural em reconhecimento, pelo Governo português, do «inestimável trabalho de uma vida dedicada à produção literária e à poesia».

AbrilAbril

Thursday, November 02, 2023

44º aniversário, hoje


Por ocasião do 30.º aniversário da Conferência de Lisboa

Declaração conjunto do CPPC e do MPPM por ocasião do 30.º aniversário da «Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina», realizada em Lisboa entre 2 e 6 de Novembro de 1979

 
"Instaurar a paz na terra da paz"
Do discurso proferido pelo Presidente da OLP, Yasser Arafat, na Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina. 
Em Novembro de 1979, Lisboa foi a capital mundial da solidariedade com o povo da Palestina. Estava fresco, no ar, o aroma dos cravos que invadira de esperança as ruas e os campos de Portugal. O país abrira-se ao mundo, e o mundo descobrira, neste lugar, um povo amante da paz, empenhado na construção de um futuro de desenvolvimento, um povo fraterno e comprometido com a demanda dos homens e mulheres pela liberdade e a justiça. Foi aqui, entre os dias 2 e 6 de Novembro de 1979, que se realizou a Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina. Promovido pelo Congresso do Povo Árabe – uma estrutura que reunia organizações políticas, sindicais, sociais, culturais e religiosas de todo o mundo árabe – e um comité internacional representativo da América do Norte e da América Latina, da Europa, África e Ásia, a Conferência foi organizada, no plano nacional, pelo Conselho Português para a Paz e a Cooperação, e contou com o apoio de um amplo leque de personalidades e associações democráticas, cívicas, humanitárias e religiosas. 
Tratou-se, este encontro, de um momento marcante de afirmação mundial da solidariedade com o povo árabe e, em particular, com a luta do povo palestino contra a ocupação israelita e pela sua libertação nacional. A presença, em Portugal, durante esses dias, do Presidente da OLP, Yasser Arafat – a sua primeira visita a um país da Europa Ocidental, durante a qual foi recebido pelo Chefe de Estado e o Primeiro-Ministro, então, respectivamente, General Ramalho Eanes e Engenheira Maria de Lurdes Pintassilgo – reforça o alto significado deste acontecimento, que marcava, simbolicamente, o início do reconhecimento, na Europa, da OLP e, em geral, da causa palestina. 
A Plataforma Política da Conferência ancorava-se no primado do direito e da legalidade internacional, e reclamava a aplicação integral das resoluções das Nações Unidas, com a retirada das tropas do Estado de Israel para as fronteiras anteriores a 1967, o reconhecimento dos direitos nacionais inalienáveis do povo da Palestina à autodeterminação e ao estabelecimento de um Estado independente e soberano, e o reconhecimento do direito dos refugiados ao regresso à sua terra. Trinta anos depois, estes continuam a ser os alicerces que podem fundar uma solução justa e duradoura para o conflito no Médio Oriente. 
Em 1979, perante o avanço da ocupação israelita, a unidade do povo palestino, em particular a afirmação da Organização para a Libertação da Palestina como a sua única e legítima representante, o alargamento da solidariedade internacional e a mobilização da opinião pública, eram imperativos da dura e heróica luta do Povo Palestino. Hoje, uma trintena de anos volvidos, há um muro de dor e sofrimento que dilacera a terra palestina. Choram-se ainda os mortos da bárbara ofensiva do exército israelita sobre a população de Gaza, os colonatos não param de avançar em todas as direcções, e as prisões de Israel estão cheias de homens e mulheres que defendem as suas oliveiras e os seus campos de cultivo. Nunca a existência nacional do povo palestino esteve tão ameaçada, e nunca como hoje foi tão grave a divisão no seio do seu movimento nacional. No Iraque e no Afeganistão acentuam-se a presença militar estrangeira e as interferências externas, e avolumam-se as tensões e os perigos para a paz. 
Assinalar a passagem do trigésimo aniversário da realização em Lisboa da Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central, a Palestina, e a primeira visita a Portugal de Yasser Arafat, mais do que uma evocação comemorativa, tem que ser, nas condições actuais, um momento de reafirmação da solidariedade com a causa nacional do povo da Palestina, e que convoque à unidade o movimento nacional palestino. Os que, neste ano de 2009, nos reunimos em Lisboa para assinalar aquela data prestamos homenagem à luta heróica do seu povo, reclamamos o respeito pelos seus direitos nacionais, a retirada de Israel dos territórios ocupados em 1967, a constituição de um Estado soberano, viável e independente, com Jerusalém Leste como capital, e o reconhecimento dos direitos dos refugiados. Exortamos todas as forças nacionais e democráticas da Palestina à unidade em torno destas históricas reivindicações nacionais do seu povo, e reiteramos o nosso compromisso em multiplicar esforços e iniciativas que alarguem, em Portugal e no mundo, o campo da solidariedade com o povo da Palestina. Apelamos ao governo português e, em geral aos países da União Europeia, para que desenvolvam uma política consistente que favoreça a resolução justa do conflito, no respeito pelo direito e a legalidade internacional.   
Trinta anos passados sobre a Conferência Mundial de Solidariedade com o Povo Árabe e a sua Causa Central: a Palestina, e nas vésperas do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina, desde Lisboa, da cidade onde os cravos floriram outrora das espingardas, dirigimos um abraço sentido e solidário à terra onde as oliveiras teimam em manter viva, nos homens, a esperança de um futuro de paz, justiça e liberdade. 

Lisboa, 6 de Novembro de 2009 
A Direcção Nacional do CPPC
A Direcção Nacional do MPPM

Thursday, October 26, 2023

Vossos nomes


No chumbo, no terror, na morte, com sangue escrevo,
Alfredo e Catarina,
vossos nomes.
Na pedra, no ácido, neste branco muro escrevo,
Humberto e Militão,
vossos nomes.
Nas trevas, no medo, na raíz da aurora, escrevo,
Maria e Lourenço,
vossos nomes.
No sonho, nos ventos, na flor do trigo escrevo,
Pedro e Guilherme,
vossos nomes.
No aço das duras tarefas, no relâmpago escrevo,
Álvaro e Rui,
vossos nomes.
No amor, na cólera, na fome desta ave escrevo,
Virgínia e António,
vossos nomes.
No sol que levamos, na verde esperança escrevo,
Paula e Dinis,
vossos nomes.
No riso, nas lágrimas, no coração da pátria escrevo
e semeio
vosso nomes.
No ventre em flor da minha amada semeio, escrevo
e multiplico
vossos nomes.
Papiniano Carlos

Monday, October 23, 2023

… e não consigo…

Entraste devagarinho dentro de mim. E eu deixei.
Inundaste-me com a alegria de um menino. E eu sorri.
Dançámos todas as danças que havia para inventar. Estremeci
e o teu coração bateu forte, apressado.
No vai e vem das marés andámos por caminhos proibidos. E tu sabias.

Demos as mãos com a ternura do amor primeiro. O nosso.
Pintámos esse amor com o vermelho da paixão. Vivido.
Das palavras que nos dissemos só uma ficou acordada. Falo da saudade
Todas as outras adormeceram no tempo no dia na hora que não escolhemos
Vejo os teus olhos que me sorriem e tu não me vês.
Dou-te um abraço apertado que tu não sentes.
Beijo-te o corpo sem te tocar e amo-te!
Mantenho o teu cheiro, que guardo com todos os sentidos.
Vives rente ao meu coração que ainda bate descompassado, por ti.
Agora sou eu que quero sair de dentro de mim.
Estilhaçar-me em mil pedaços.
… e não consigo…

Thursday, October 05, 2023

DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO

 


Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo a cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo a corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto.

Aqui as minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu para dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada

António Ramos Rosa

(poema dedicado a Vasco Gonçalves)

(foto da abrilabril)

Friday, September 29, 2023

O olhar perto do chão

 


No seu mais recente livro, "Montevideu", que nos é apresentado como "uma ficção verdadeira", Enrique Villa-Matas descreve-nos um dos seus vários encontros com Tabucchi a quem muito admirava desde "Mulher de Porto Pim", esse livro que, assim o vê o catalão, trata "com leveza poética" questões "difíceis e complicadas". Os dois haveriam de tornar-se amigos, partilhando experiências em várias cidades, em conferências literárias ou movidos pelos fios invisíveis de um acaso feliz.
Certa vez, sentados numa esplanada nas margens do Arno, em Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas que tinha chegado à fala com um tipo estranho, um vagabundo que muito impressionara o amigo, em Paris.
Villa-Matas guardava do vagabundo uma imagem vincada. Todos os dias, ele sentava-se no chão, à porta de uma livraria, no Boulevard Saint-German. Em frente, havia um quiosque de jornais. O que retivera a atenção de Villa-Matas, nesses longínquos dias parisienses? O modo elegante como o vagabundo se comportava, cumprimentando quem entrava e saía da livraria. Por vezes, levantava-se, fumando, com o olhar perdido no horizonte, um magnífico havano. Durante a maior parte do tempo, permanecia sentado no cartão de vagabundo, lendo um clássico. Durante algum tempo, enquanto viveu em Paris, o catalão viu com muita frequência o estranho vagabundo. Anos depois, em Florença, conversando com Tabucchi, este confidencia que, certa vez, chegara à fala com o homem. Estava sozinho em Paris, vagueou pelas ruas e deu com aquele homem sentado no chão lendo o seu clássico. O vagabundo convidou-o a que se sentasse a seu lado, no chão, apreciando o mundo desse patamar ao nível dos pés. Tabucchi não hesitou. Sentou-se ao lado do vagabundo, ficaram ambos durante algum tempo em silêncio, observando os que passavam por eles com total indiferença.
Na noite estival de Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas o modo como o vagabundo quebrou o silêncio. Ele nunca mais esqueceria aquelas palavras. Disse-lhe o vagabundo: "Estás a ver, amigo? Daqui uma pessoa pode vê-lo muito bem. Os homens passam e não são felizes".
Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me ocupa por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.

Sunday, September 24, 2023

Foi há 50 anos

República da Guiné-Bissau celebra 50 anos de existência

A 24 de Se­tembro de 1973, nasceu a Re­pú­blica da Guiné-Bissau, pro­cla­mada ainda du­rante a luta ar­mada de li­ber­tação contra o co­lo­ni­a­lismo por­tu­guês. O PCP saudou na al­tura a his­tó­rica de­cisão do povo gui­ne­ense com di­men­sões e al­cance in­ter­na­ci­o­nais.

Nas­cida em plena luta ar­mada de li­ber­tação na­ci­onal contra o co­lo­ni­a­lismo por­tu­guês, a Re­pú­blica da Guiné-Bissau fes­teja 50 anos de exis­tência no pró­ximo do­mingo, 24.

Foi a 24 de Se­tembro de 1973, na re­gião li­ber­tada do Boé, no leste da Guiné, que a As­sem­bleia Na­ci­onal Po­pular – o par­la­mento gui­ne­ense, cujos de­pu­tados ti­nham sido eleitos an­te­ri­or­mente – pro­clamou o pri­meiro Es­tado e a in­de­pen­dência do país.

Como previu Amílcar Ca­bral, di­ri­gente da luta in­de­pen­den­tista en­ca­be­çada pelo PAIGC, «da si­tu­ação de co­lónia que dispõe de um mo­vi­mento de li­ber­tação e cujo povo já li­bertou em 10 anos de luta ar­mada a maior parte do seu ter­ri­tório na­ci­onal», a Guiné-Bissau passou «à si­tu­ação de um país que dispõe do seu Es­tado e que tem uma parte do seu ter­ri­tório na­ci­onal ocu­pado por forças ar­madas es­tran­geiras».

Na al­tura, o Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês, na clan­des­ti­ni­dade, saudou a de­cisão do povo gui­ne­ense, com «di­men­sões e al­cance in­ter­na­ci­o­nais». O Avante!, na sua edição de Ou­tubro de 1973, des­ta­cava na pri­meira pá­gina que «a pro­cla­mação da in­de­pen­dência não é, como os fas­cistas por­tu­gueses pro­pa­gan­de­aram al­guns dias de­pois, um acto formal e gra­tuito. Foi uma de­cisão ma­du­ra­mente pre­pa­rada e ba­seada nos êxitos mi­li­tares e po­lí­ticos do PAIGC».

In­for­mava o jornal que a As­sem­bleia Na­ci­onal Po­pular gui­ne­ense apro­vara «a cons­ti­tuição do novo Es­tado e os seus ór­gãos de so­be­rania» e que ele­gera Luís Ca­bral para pre­si­dente do Con­selho de Es­tado e Fran­cisco Mendes para li­derar o Con­selho dos Co­mis­sá­rios de Es­tado (go­verno), «mi­li­tantes des­ta­cados do PAIGC na frente de com­bate e na or­ga­ni­zação po­lí­tica e mi­litar».

Na mesma edição, o Avante! pu­bli­cava uma men­sagem do PCP, subs­crita por Álvaro Cu­nhal em nome do Co­mité Cen­tral do Par­tido, e en­viada a Aris­tides Pe­reira, Se­cre­tário-Geral do PAIGC, e aos di­ri­gentes eleitos à frente dos novos ór­gãos es­ta­tais.

«Por mo­tivo da pro­cla­mação da Re­pú­blica da Guiné-Bissau, en­viamo-vos as mais ca­lo­rosas fe­li­ci­ta­ções do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês. Es­tamos certos de tra­duzir os sen­ti­mentos dos tra­ba­lha­dores e das forças pro­gres­sistas de Por­tugal, sau­dando este acto his­tó­rico que cons­titui um novo e im­por­tante passo no ca­minho da li­ber­tação com­pleta do vosso povo da ex­plo­ração e do do­mínio ca­pi­ta­lista», afir­mava a men­sagem.

Álvaro Cu­nhal es­crevia mais, an­te­ci­pando o fu­turo: «Ne­nhuns in­te­resses ou ob­jec­tivos se­param e muito menos opõem o povo por­tu­guês e o povo da Guiné-Bissau. As lutas dos dois povos são so­li­dá­rias e di­rigem-se contra os mesmos ini­migos. Es­tamos certos de que os laços de ami­zade hoje exis­tentes entre os nossos dois Par­tidos, os sen­ti­mentos de fra­ter­ni­dade exis­tentes entre os nossos dois povos, se tra­du­zirão um dia, quando o co­lo­ni­a­lismo por­tu­guês for fi­nal­mente der­ro­tado e quando Por­tugal for li­ber­tado do fas­cismo e da sub­missão ao im­pe­ri­a­lismo, numa co­o­pe­ração fra­ternal entre os nossos dois países li­vres e iguais».

E fi­na­li­zava a men­sagem do PCP: «Hoje, como sempre, po­deis contar com a nossa ac­tiva so­li­da­ri­e­dade. Es­tais certos de que não pou­pa­remos es­forços nem sa­cri­fí­cios para de­sen­volver em Por­tugal a luta contra a cri­mi­nosa guerra co­lo­nial, pelo re­co­nhe­ci­mento da in­de­pen­dência da vossa Pá­tria».

Avante nº 2599 de 21.9.2023