Monday, November 23, 2020

O Congresso do PCP

Estamos a três dias do início do Congresso do meu Partido.
Será o culminar de muitos meses de trabalho que se iniciou, numa primeira fase, em Março, logo após a reunião do CC e que, partindo dos tópicos identificados na Resolução do Comité Central, teve o envolvimento de todas as organizações e militantes do Partido a contribuírem, com a sua opinião, sugestões e propostas, para a elaboração do projecto de Teses.
Na segunda fase, que decorreu até final de Agosto, foram elaboradas as Teses - Projecto de Resolução Política, que teve em conta o debate e as contribuições recolhidas na primeira fase.
Entre Setembro e Novembro, período a que chamamos a terceira fase de preparação do Congresso, as organizações e militantes do Partido discutiram os documentos a apresentar ao Congresso, propuseram alterações e adendas, e elegeram os Delegados de cada organização, a par da elaboração da lista para o novo Comité Central a ser eleito no Congresso.
Quase nove meses de trabalho. O tempo de uma gestação de um ser humano.
Faltam três dias para o início do Congresso do meu Partido. Serão três os dias de trabalho, que sei será intenso, tanto dos delegados como de todos os militantes que estarão no apoio.
Em tempo de pandemia e por muito que custe a muitos e à Comunicação Social, os comunistas vão reunir-se em Congresso cumprindo todas as medidas de segurança recomendadas pela DGS. E porque somos responsáveis, adaptamo-nos sempre a novas situações, como foi na Festa do Avante e como será no próximo fim de semana, com metade dos delegados e sem convidados. Acompanharei os trabalhos do Congresso do meu Partido pela net.
Faltam três dias para o nosso XXI Congresso. Sonhamos!

Sunday, November 22, 2020

Discurso do filho da puta

I

O pequeno filho da puta
é sempre
um pequeno filho da puta;
mas não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da puta.
no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da puta.
de resto,
os filhos da puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o pequeno filho da puta.
o pequeno
filho da puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da puta.
no entanto,
o pequeno filho da puta
tem orgulho
em ser

o pequeno filho da puta.
todos os grandes
filhos da puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
dentro do
pequeno filho da puta
estão em ideia
todos os grandes filhos da puta,
diz o
pequeno filho da puta.

tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
o pequeno filho da puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da puta.
é o pequeno filho da puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
de resto,
o pequeno filho da puta vê
com bons olhos

o engrandecimento
do grande filho da puta:
o pequeno filho da puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da puta.

 
II
 
o grande filho da puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da puta,

e não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
no entanto,
há filhos da puta
que já nascem grandes

e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho da puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta
.
o grande filho da puta
tem uma grande

visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da puta.
por isso
o grande filho da puta
tem orgulho em ser
o grande filho da puta.
todos
os pequenos filhos da puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
dentro do
grande filho da puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da puta,
diz o
grande filho da puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da puta,
diz
o grande filho da puta.
o grande filho da puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da puta.
é o grande filho da puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da puta,
diz o
grande filho da puta.
de resto,
o grande filho da puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da puta:
o grande filho da puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da puta. 

Alberto Pimenta

Monday, November 02, 2020

**

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas.
Traje de passeio."
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio."Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…depois os cabelos…)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo…
tão leve…tão subtil…tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de Outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

José Gomes Ferreira

Friday, October 30, 2020

Sentado sobre los muertos


Sentado sobre los muertos
que se han callado en dos meses,
beso zapatos vacíos
y empuño rabiosamente
la mano del corazón
y el alma que lo mantiene.

Que mi voz suba a los montes
y baje a la tierra y truene,
eso pide mi garganta
desde ahora y desde siempre.

Miguel Hernandez

Sunday, September 27, 2020

Filho

“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo o tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!"

José Saramago

Wednesday, September 23, 2020

Berna


Para ti
em dia de chumbo

Que felicidade eterna...
na planície enorme onde és
em gamas escarlate e grês
estás com tua meninice terna

Há coisas já passadas mas urgentes
como o teu ventre fofo de flores
e chocolate quente onde cravo os dentes
depois de escolher um amor entre os amores

Que alegres são as nuvens dos teus céus
onde afogo vários vícios meus
e encontro alegria acrescentada

Em ti, cidade plena por distante
acho-me como se fora mero amante
chorando a lonjura da mulher passada.

7/11/87

Wednesday, September 09, 2020

A roda gigante do Avante!

As laranjeiras estão altas. Há também pereiras e uma camélia enorme. Uma carroça de bois, uma adega e uma casa térrea. Ao fundo, a terra sempre cultivada, uma eira e uma casa pequena. José e outros, levantam-se cedo. Deitam a semente à terra. Depois desaparecem. Encerram a porta da casa pequena. Os pássaros pintam o céu. Não há que ter medo. Nunca se ouviu falar que um pássaro fosse bufo. José e os outros, constroem textos com letras de chumbo. Dobram papel fino. Rolam rolos vestidos a tinta negra. As horas passam e o homem da bicicleta descasca uma laranja. Saboreia. Bebe água do poço. A porta abre-se. José abraça o homem da bicicleta. No quadro, com um arame improvisado, um cesto com couves é pendurado. Cai a noite e a bicicleta rola. A lua ajuda.

Ainda o sol não deu os bons dias e já uma matilha de esfarrapados se faz à rua. Trabalhadores de fábrica. Trabalhadores de terra. Pelas pedras espreitam papéis. Saíram clandestinamente do ventre das couves. No adro da igreja espreitam papéis. Nos paralelos da calçada espreitam papéis. São amachucados, escondidos em sapatos ou algibeiras. E quando for possível, longe dos olhares dos abutres, grupos de homens e mulheres rodeiam o papel fino tingido a letras de chumbo. Quem souber juntar letras é o eleito para ler. É necessário aumentos na jorna. Melhores condições na fábrica. Escola para os filhos. Salário igual entre homens e mulheres.

José e os outros descansam os corpos em colchão de palha. Os cães ladram. A porta é arrombada. A polícia de defesa do estado intervém para bem da nação. Aos socos e pontapés, levam José e os outros para as salas bafientas com Salazar e Carmona a olharem. Sorrisos de hiena estampados em molduras pesadas. José e os outros são espancados, torturados. O hálito do agente é ácido. Quem vos mandou fazer os avantes? Foram vocês que montaram a porra da tipografia clandestina? Aquela merda veio de Moscovo? Quem são os vossos chefes? Quem colocou a merda dos avantes na aldeia? Filhos de uma cabra. Comunas de merda. Não vão ficar cá para contar a história. José e os outros não abriram a boca. Cada soco, cada estalada, cada hora de estátua eram anos de silêncio. Levem os gajos. Só comem daqui a três dias. Odeio comunas.

Pela manhã os avantes estavam novamente na vila. O agente de hálito ácido volta a espancar José e os outros. Se não falam, mato-vos. Silêncio e silêncio. José e os outros foram libertados para sempre. De vez. Em abril.
José e os outros continuam a gostar de laranjeiras. Por vezes ainda lançam a semente à terra. Não perderam o jeito nem o gosto. Muito menos a firmeza. José, os outros e tantos outros, lutaram pela liberdade. Combateram como ninguém a escuridão. O medo. A opressão. Lutaram para chegarmos todos até aqui. Um país livre. Livre como o vento ou como um catavento. Um país também de ingratidão. José e os outros resistiram aos socos e à estátua. À fome e à sede. Ao agente de hálito ácido. Também resistem agora. O hálito anda no ar. Cheira-se. Sente-se. Na conversa de café. No comentador limitado. No líder (adoram esta palavra) bafiento. No truque. Na mentira. Na manipulação. Até no pedido de desculpas. Sente-se o agente de hálito ácido a querer pendurar os sorrisos de hiena.

José e os outros, estão cá para os enfrentar. E há muitas pedras para colocar os papéis. Não julgue o agente de hálito ácido que desta vez será fácil. Talvez até seja impossível, enquanto houver quem teime em lutar.
O agente de hálito ácido é todo ele ódio. Tem sede de vingança. José e os outros, pintam letras às cores na Quinta da Atalaia. Não perderam a firmeza. Lutam novamente contra o medo. Pela liberdade. O agente de hálito ácido semeia calhaus em terra de pandemia.
Conheço o José e os outros. A todos eles, dou um abraço de gratidão maior que o mundo. Muitas vezes a roda da vida leva-nos para encontros e desencontros. Como agora. A Festa do Avante. A Festa que eu sempre frequentei e onde sempre me senti bem. A Festa que não devia acontecer este ano. Estamos desencontrados. Mas os dias vão passando e afinal, os socos, as bofetadas, a estátua, as torturas ainda não acabaram. O agente de hálito ácido ainda grita – morte aos comunas! Não posso esquecer o lado da barricada em que estou. Pela amizade e pela solidariedade com homens e mulheres íntegros, José, os outros e tantos outros, estarei na Quinta da Atalaia. No cimo da roda gigante levantarei o punho, em silêncio, como tu José, contra o medo e pela liberdade.

Liberdade!

Adriano Miranda
amiranda@publico.pt

O Raul este ano teve de ir à festa

A tarefa do camarada era simples: esta quinta só entra nesta quinta quem tiver Entrada Permanente e cartão de serviço. «Não interessa se é da SIC ou da ASAE. Até podia ser o Jerónimo: antes da abertura, quem não tiver EP e cartão de serviço, não entra». Exagerada sentença que inventei eu agora, nanja consta que alguma vez tenha sido dita, pelo menos neste século, mas avante, que a isso já lá vamos. Se o camarada da portaria sonhasse como a simplicíssima tarefa estava prestes a ficar complicada, preferiria mil vezes a inflexível aplicação do igual tratamento estatutário, cortando o passo ao secretário-geral. Exageros à parte, o camarada estava ali com a inteira noção da importância da tarefa que lhe fora confiada, além do mais nestes tempos, tão propícios à provocação, à mentira e à infiltração que é como as excepções ou, como dizem os cabrões dos americanos, como a lata das minhocas: se deixas sair a primeira, logo a segunda escorrega. A anterior justifica sempre a seguinte e, quando damos por nós, esta merda parece a praia de Carcavelos. As orientações são gerais, são para todos e são para se cumprir, e esta já me disse mesmo o camarada, não estou a inventar, que se sentia ali responsável por manter seguros os portões da zona libertada, investido da autoridade colectiva de 50 mil militantes comunistas.
Sentado numa cadeira de espuma esventrada, ao som do velho rádio a pilhas que só tosse Antena 2, o camarada aguentava a portaria com a inquebrantável disciplina da canção dos Inti-Illimani: Tun tun, quem é? Uma rosa e um cravo… Abra-se a muralha! Tun tun, quem é? O sabre do coronel.... Feche-se a muralha. E fechava mesmo. Quando era preciso, aquela portaria parecia Espanha em 36: «Não passarão!» Outro exagero, naturalmente, mas quem faz turnos de quatro horas militantes depois de oito horas assalariadas, aguenta-se melhor imaginando estas doces comparações desproporcionadas: «temos cabeça dura, os do corpo de engenheiros!». E a verdade é que a implantação da Festa do Avante! é muito assim como a reconstrução da catedral ardida de São Paulo em Londres: era o ano de 1671 e o arquitecto, de nome Christopher Wren, pergunta a um velho que varria o chão qual era a sua tarefa, ao que cantoneiro responde apocrifamente: «eu faço catedrais». O camarada da portaria, preservemos o seu anonimato, é um construtor de catedrais de tubo à face do sonho, um reconstrutor do mundo ardido, e alto lá, que aquilo com ele parece a ponte dos franceses, «mamita mia, que bem te guardam! Querem passar os fascistas? Não passa ninguém!». Com esse sentido de missão histórica ora se levantava ora se tombava a cancela «boa noite camarada!» como quem cantaria «Se me quiseres escrever, já sabes o meu paradeiro: terceira brigada mista, primeira linha de fogo». Que, por sua vez, é outra forma de dizer que, se fosse preciso, defendia-se aquela entrada com todos os meios disponíveis «mesmo que nos espere a dor e a morte, contra o inimigo nos chama o dever! O bem mais precioso é a liberdade: há que defendê-la com fé e com valor. Para as barricadas!» «Nada podem bombas onde sobra coração», mas nada, mesmo nada, poderia tê-lo preparado para o que aconteceu a seguir.
O camarada da portaria nunca tinha visto nada assim. Viu-o mal dobrou ali a esquina do Lidl: subia sozinho. Vinha tão devagar que houve tempo de pensar serenamente. Talvez seja por isso que os alentejanos são sempre mais calmos que, por exemplo e sem ofensa, os transmontanos, que vendados pelas montanhas, são desde tempos imemoriais mais facilmente surpreendidos pelo invasor. A genética dos povos pedinornitos dispensa esse estado de alerta permanente: ainda vai a centúria em Mérida e já a gente a topou do atalaião com a antecedência de construir albarradas e preparar o cerco.
Bem, mas de nada serviu a calma ao camarada da portaria. Quando o homem finalmente chegou ao portão, o camarada saudou-o como se fosse o Jerónimo em pessoa.
- Boa noite camarada, EP e cartão de serviço.
Sem uma palavra, o homem levantou a cabeça muito devagar. Tinha barba de dias por fazer. Uma grande ferida crostada abaixo do olho e, na cara suja, uns olhos esverdeados e baços, que pareciam de alumínio polido. Do alforge saiu uma EP muito amachucada e quase decapitada pelo domingo mas, ainda assim, válida.
- Precisas do cartão de serviço, camarada.
- O que é isso?
- O cartão de serviço é… é o cartão que têm os camaradas que vêm trabalhar. A festa para os visitantes só abre amanhã.
- Eu sei, camarada.
Tranquilizou-o ouvi-lo dizer assim a palavra camarada: os comunistas, para quem não sabe, reconhecem-se pela forma como só eles pronunciam a palavra camarada.
- Então... e eu venho para trabalhar.
Não tinha máscara. A camisa, ensebada e rasgada no ombro, caia-lhe sobre as calças demasiado largas. O camarada da portaria pensou que podia ser um louco. Não, era provavelmente um indigente.
- Ó camarada, desculpa lá… Isto não é assim. Qual é a tua organização?
- Boa Fé, Évora.
- Então e vieste sozinho?
O homem respirou fundo como se tentasse recompilar vários detalhes de uma resposta complexa.
-Vim. Vim na carreira até Setúbal e depois fui andando, andando…
-Vieste a pé desde Setúbal?
- Vim. - E do bornal mostrou um mapa que de tão dobrado parecia feito de guardanapo. Perdi-me aqui - e apontava toscamente - na Serra da Arrábida porque lá ninguém pára o carro.
O camarada da portaria não acreditava, claro.
- É pá. Grande esticão. Quanto tempo é que demoraste?
- Cinco dias, cinco noites. Fui dormindo onde calhava. Ia comendo e bebendo pelos cafés. E já cá estou. Posso-me sentar?
Está mais que provado que «Quem corre por gosto não cansa» é, entre todos os bordões do almanaque, o mais falso e o mais injusto. Tudo cansa, tudo se desfaz. Até as coisas que amamos, ou não fosse o mundo dialéctico e não estivessem até as pedras em perpétua erosão.
O camarada da portaria foi buscar a cadeira esventrada e disse-lhe para esperar. Marcou a extensão da Comissão de Campo, explicou a situação e, com todo o detalhe, descreveu o homem. Os camaradas da Comissão de Campo também não sabiam o que fazer e acharam melhor ligar para os camaradas da Direcção da festa. Os camaradas da Direcção da festa mostraram-se apreensivos: podia ser uma armadilha para denegrir a festa ou romper a disciplina sanitária. Decidiram por isso, ligar para o camarada responsável pela Boa Fé, que estava naturalmente na Festa, e que não acreditou no que estava a ouvir. Esse camarada é o Raul, explicou. Estava muito afastado há anos. Comprava o Avante!, é certo, mas pouco mais podia. Há uma semana, a mulher morreu de cancro: o camarada não está bem.
A Direcção acabou por decidir que o camarada poderia entrar e que lhe devia ser dada uma máscara. Um camarada ficou de tratar da tenda e outro ficou de pedir emprestado um saco-cama. Mas o camarada, que tem nome e efectivamente se chama mesmo Raul, não queria ir dormir nem ir ao posto médico. Queria ajudar.
Tanto insistiu que sentaram-no numa carrinha descapotada a cortes de rebarbadora e levaram-no para a Cidade da Juventude. Porquê para a Cidade da Juventude? Porque à meia noite o camarada fazia anos, explicaram os camaradas que deram a orientação. Não sei o que mais vos diga, foi o que a organização decidiu, camaradas; e eu também não perguntei porquê: às vezes os desígnios da organização são misteriosos.
Quem achar difícil acreditar que isto realmente se pudesse ter passado na Quinta da Atalaia, no dia 3 de Setembro de 2020, nem sonha o que veria se pudesse, do alto dos tempos medievais em que aqui havia mesmo uma torre de atalaia, ver o que esta quinta já viu. Imaginemos nós que tínhamos de explicar aos monges jerónimos que aqui plantaram vinha, que um dia a vinha seria de monges dominicanos, que daqui seriam corridos a pontapé por uma revolução republicana. Imaginemos se tivéssemos de explicar aos Condes de Atalaia, oriundos de outra Atalaia, a de Vila Nova da Barquinha, que ganharam estas terras como compensação por traírem a pátria ao serviço dos Filipes de Espanha, que um dia esta terra não voltaria nunca mais às mãos de mais nenhuma família aristocrática. Imaginemos que tínhamos de explicar aos trabalhadores do senhor Reynolds, patrão da Lisbon Fresh Water Suply, que daqui extraía a cristalina água mineral Águanave, que um dia toda esta terra seria da classe operária e dos comunistas? Pois: a descrença seria mútua.
O camarada da JCP que estava responsável pela implantação é que não achou tanta graça ao mistério. Mas que ajuda é que alguém assim poderia dar? Os camaradas decidem assim as coisas e depois os outros que se desenrasquem, não é? A 24 horas da abertura, a cidade estava atrasada e não havia tempo para estas brincadeiras do oxigénio em pó, do empalmo de 7 vias ou do nivelador de toldos. Mas a orientação é para cumprir, pá, e lá teve o camarada responsável da JCP, contrafeito, de dar uma tarefa ao bizarro camarada.
- Ó camarada, ficas aqui com esta malta. Ponham-no a trabalhar.
E ele, de facto, lá ia ajudando no que sabia. Segurava nas tábuas, passava parafusos, dava opiniões, nem sempre colhidas, ao enxame a fremir de jovens apressados que forravam com contraplacados as paletes do chão.
- Raul, não é? Então vieste a pé desde Setúbal? - era estranho, mesmo para os comunistas, tratá-lo por tu, mas depressa a distância se evaporou. O Raul era operário agrícola, mas até se safava com a madeira. Também tinha estado toda a vida precário. Às vezes sem contrato, sem descontos, sem nada. Entre os que estavam ali da jota a meter chão, havia mais quatro também assim, não operários agrícolas, mas a recibos verdes, com contratos de um ano ou sem contrato nenhum.
- É fodido, pá, se ficas doente, quando envelheces, como é que é? - A pergunta do jovem era retórica, claro está, mas o Raul deu-lhe razão.
Contou-lhes que, quando era puto, guardava os porcos dos senhores para os putos de hoje guardarem os porcos dos netos dos senhores. É a luta de classes. O resto é conversa. Depois tinha andado maltês, a trabalhar de braceiro por esse país fora, a dormir onde calhasse, a viver de côdeas, porra, a ser despedido por dá cá aquela palha e a malta concordou que ainda hoje é esse quero posso e mando. Só com o 25 de Abril é que isto melhorou e até isso nos querem tirar, protestou. E como nós não deixamos, eles, os patrões, detestam-nos. Se nos pudessem ilegalizar, ilegalizavam. Se tivessem de nos matar, matavam.
O discurso do Raul estava a dar cabo dos planos do camarada responsável para terminar a cidade a tempo. À sua volta tinha-se juntado um perigoso aglomerado anti-sanitário de irresponsáveis jovens, alguns sem máscara, todos tisnados de óleo, serradura, tinta e dulcíssimos suores de trabalho militante.
O Raul, disse-lhes, tinha andado a vida toda a combater o fascismo. Tinha estado preso com o Jaime Rebelo, que, tirando partido de ser analfabeto, cortou a própria língua para não poder denunciar os camaradas à PIDE. O Raul contou-lhes que, antes do 25 de Abril, os comunistas ficavam com a vida toda destruída: a carreira, a família, a casa, a liberdade. Tiravam-lhes tudo menos a dignidade. O Raul confessou-lhes que se não fosse a mulher, que ficou com os filhos quando ele esteve preso, e trabalhava de sol a sol para dar de comer às crianças, também não sabia se não teria de ter cortado a própria língua. Quem é que se oferece para explicar ao Raul que isto dos riscos da pandemia são um axioma absoluto e que mais nada importa a não ser ficar em casa?
- Quantos anos estiveste preso?
- Seis, mais qualquer coisa.
Mas foi na prisão que aprendeu a ler. Com os outros, com os camaradas. Haverá prenda mais bonita? Os presos faziam jornais lá dentro e ensinavam uns aos outros. Uma vez foi apanhado, isto no Forte de Peniche, com imprensa do Partido e levou tanta pancada, apontava para a zona dos rins, que achava que morria, mas não morreu. Então este ano teve de vir à festa. Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. Disse assim à mulher «Olha, agora é que vou mesmo» e a mulher, claro, mandou-o ter juízo. Ela, coitada, acabou por não poder vir mesmo.
É meia-noite. A malta da JCP poisou as ferramentas, parou de trabalhar, pôs-se toda de pé. Uma brisa do Norte lambe-lhes suavemente as frontes suadas, transcendendo a realidade. Cerraram-se agora muitos punhos contra o céu estrelado e a juventude canta ao Raul os «Parabéns a você», mas com a melodia da Internacional. O Raul achou graça àquilo e riu-se alto, com alegria verdadeira, como se não tivesse acabado de fazer 95 anos.

António Santos

Sunday, September 06, 2020

A Festa do Avante de 2020

Está quase a acabar a 44ª Festa do Avante!. Todos os que estiveram na Festa, em lazer ou em trabalho, não vão esquecer que é possível retomarmos a vida que 'parou' em Março, que é possível a alegria e o convívio, com as precauções necessárias sim, mas que é possível. Aos que tentaram denegrir a Festa, condenando a sua realização nas mais variadas formas, aos que disseram que era impossível manter a distância física nos concertos, aos que tentaram até ao fim que a Festa não se realizasse mas que não tiveram coragem de a proibir, aí estão os vários registos fotográficos e em vídeo que provam o que as televisões não mostraram nos últimos três dias. Aprendam como se organiza uma Festa com milhares de visitantes, aprendam como se respeitam as normas da DGS, aprendam a viver e a ser felizes! Sendo que esta Festa foi a que teve menos visitantes não deixou de ser, para mim, a Festa mais bonita que já me foi dado ver. Porque não nos vergam, porque nos devolveu a esperança, porque foi de luta e coragem, porque foi de resistência!

Friday, September 04, 2020

Última intervenção de José Casanova na Festa do Avante

Intervenção de José Casanova,
membro do Comité Central e director do Avante!

A mais fraternal e humana Festa do País

São muitas as razões para termos orgulho, um grande orgulho, no nosso Partido. Uma dessas razões é a Festa do Avante! – esta Festa que, desde 1976, passou a ser a menina-dos-olhos do «nosso grande colectivo partidário».
A Festa é o Partido e o Partido está na Festa – e este ano de forma muito especial, já que o tema central da nossa Festa é o Centenário do nascimento do camarada Álvaro Cunhal. Na verdade, toda esta bela cidade da Atalaia é percorrida pela memória dos seus 75 anos de militância revolucionária, traduzidos na construção de uma notável obra teórica e literária e numa entrega ímpar à construção, ao reforço e à defesa do nosso Partido Comunista Português.
Nessa longínqua primeira Festa do Avante!, que construímos na antiga FIL, o camarada Álvaro Cunhal iniciou a sua intervenção no comício de encerramento dizendo: «Esta festa do nosso glorioso Avante!, do nosso glorioso Partido, é a maior, a mais extraordinária, a mais entusiástica, a mais fraternal e humana jamais realizada no nosso País.» De então para cá, 37 anos passados, a Festa do Avante! foi sempre, e cada vez mais, este espaço imenso, extraordinário, entusiástico, de alegria, de liberdade, de fraternidade.
E é assim porque esta é a Festa do PCP, a Festa do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores que tem como objectivo supremo a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados; a Festa do nosso grande colectivo partidário, que a constrói e lhe dá vida durante estes três dias inolvidáveis, com o seu trabalho voluntário, militante e solidário, com a sua dedicação, a sua criatividade, a sua militância revolucionária – tudo isto conferindo à Festa uma característica singular: como toda a gente sabe, nenhum outro partido nacional é capaz de realizar uma festa com esta dimensão, com esta beleza, com este conteúdo.

Fraternais saudações
Está aqui muito trabalho, muito trabalho envolvendo muita gente, muita entrega, muito esforço – e há, por isso, muitas saudações a fazer. Por isso, saúdo, em primeiro lugar, os construtores da nossa Festa: os milhares de camaradas e amigos que, em jornadas de trabalho voluntário, ergueram esta bela cidade; e os que a fizeram funcionar durante três dias, num ambiente de convívio, amizade e camaradagem só possível de encontrar em quem transporta consigo um ideal de liberdade, de justiça social, de paz, de solidariedade.
Saudações, igualmente, para todos os visitantes da Festa – militantes do PCP e da JCP, membros de outras forças políticas, designadamente dos nossos aliados na CDU, cidadãos apartidários – os que aqui vieram mais uma vez e os que pela primeira vez nos visitaram, enchendo este espaço e animando-o com a sua presença – e donde se destaca a sempre crescente participação de jovens, a dar mais força e mais futuro à Festa e a permitir-nos dizer que a Festa do Avante! é, cada vez mais, a Festa da Juventude.

A todos desejamos que vão daqui satisfeitos e que voltem para o ano.
Aqui fica também uma saudação e um agradecimento às diversas entidades públicas e privadas que, com o seu apoio, contribuíram para o bom funcionamento da Festa, começando desta vez pelas corporações de bombeiros: a Federação Distrital de Bombeiros, os Bombeiros Mistos do Concelho do Seixal, os Bombeiros Mistos da Amora, os Bombeiros Voluntários de Cacilhas, Trafaria, Sesimbra, Sul e Sueste e Salvação Pública do Barreiro – e estendemos esta saudação a todos os bombeiros que, arriscando as suas vidas e, infelizmente, perdendo-as, até, em vários casos, têm vindo a dar combate corajoso à vaga de incêndios que alastra pelo País.

Saudamos e agradecemos o apoio que nos deram a Fertagus e Sul Fertagus, Transportes Sul do Tejo, Venamar e Amarsul. As centenas de associações, colectividades e federações desportivas. O Núcleo de Física da Instituto Superior Técnico, o Circo Matemático da Associação Ludus. A Guarda Nacional Republicana e a Polícia de Segurança Pública. As juntas de freguesia de Amora, Corroios, Fernão Ferro e Laranjeiro, entre muitas outras. A Câmara Municipal de Lisboa e câmaras municipais da Península de Setúbal – e de forma particular a Câmara Municipal do Seixal. Uma saudação amiga também, para a População da Amora e para os vizinhos da Festa.

Finalmente, uma saudação especial – muito fraterna e muito solidária – para os nossos convidados estrangeiros, camaradas e companheiros de luta que, em representação de partidos comunistas e outras organizações progressistas, nos trouxeram, com a sua solidariedade internacionalista, notícias das lutas travadas pelos seus militantes e pelos seus povos – camaradas e companheiros de luta vindos de: Alemanha, Angola, Bélgica, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, China, Chipre, Coreia, Cuba, Dinamarca, El Salvador, Equador, Espanha, EUA, França, Grã-Bretanha, Grécia, Guatemala, Guiné-Bissau, Holanda, Irão, Irlanda, Itália, Japão, Letónia, Marrocos, Moçambique, Palestina, Peru, Rússia, Sahará Ocidental, Timor Leste, Turquia, Venezuela e Vietname.
A todos estes camaradas e companheiros de luta – e aos muitos que, não podendo estar presentes, nos enviaram saudações – manifestamos a solidariedade dos comunistas portugueses com as lutas que travam nos seus países.

Muitas lutas para travar
1990 foi o ano da realização da primeira Festa do Avante! aqui na Atalaia. Vivíamos, então, um tempo difícil em que, a pretexto dos trágicos acontecimentos a ocorrer nos países socialistas, o nosso Partido era alvo de uma das mais ferozes ofensivas de sempre: diziam uns que o PCP estava em vias de extinção ou que já tinha morrido; diziam outros que ao PCP só restava a opção de deixar de ser comunista…
E enquanto uns e outros cumpriam a sua tarefa de cangalheiros frustrados, o PCP comprava o terreno da Atalaia, graças a uma campanha de fundos à escala nacional, construía aqui a Festa do Avante!, e proclamava cheio de força e determinação: «Assumimos com orgulho a natureza e a identidade do PCP.»

E, no comício de encerramento dessa Festa, o camarada Álvaro Cunhal dizia: «Este ano, para todos nós, a Festa do Avante! tem um sabor novo e contém em si um motivo da nossa alegria. É que a Atalaia é nossa (…) este maravilhoso local será terra firme e certa para a Festa do Avante!».
E assim foi de então para cá: «terra firme e certa para a Festa do Avante!», que continuou a afirmar-se, de forma crescente, como «demonstração do valor irradiante da criatividade, da mensagem cultural, cívica e política, do ambiente e convívio fraterno e humano, da ligação às massas e da influência de massas do Partido Comunista Português».

E não podia ser de outra forma, sendo esta a Festa de um colectivo partidário que é o digno herdeiro das gerações de comunistas que ao longo de décadas construíram este nosso Partido Comunista Português. Um colectivo partidário inspirado no mais belo e humano de todos os ideais; o ideal comunista. Um colectivo partidário que tem como referências maiores do seu projecto e da sua acção, a obra, os ensinamentos e o exemplo de Marx, Engels, Lénine e Álvaro Cunhal. Um colectivo partidário sempre aberto aos muitos e muitos homens, mulheres e jovens que, identificados com os valores e os ideais de Abril, connosco convivem, todos os anos, na Festa do Avante!, e connosco participam na luta pela defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Porque, como afirmou o camarada Álvaro Cunhal na sua última intervenção aqui no Palco 25 de Abril, em 1996: «A Festa do Avante! é nossa, dos comunistas. Mas, a todos os que, não sendo comunistas, querem um futuro melhor para o povo português e a pátria portuguesa, aqui dizemos: a Festa do Avante! é também vossa, porque é a festa da liberdade em que Abril está presente, a festa da confraternização e da confiança no futuro.»

A Festa deste ano foi, como sempre acontece, um espaço de luta e um momento de preparação para novas lutas. E ainda bem que assim foi, porque face à gravidade da situação em que a política das troikas mergulhou o País, temos muito que lutar no futuro imediato – um futuro que começa já amanhã.

Porque amanhã, a luta continua. Então, até amanhã, camaradas.

Setembro 2013

Tuesday, August 25, 2020

Do mistério das coisas


Para ti
em dia soturno

O dia de hoje amanheceu lilás como os lírios que o meu avô plantava no quintal da minha infância.
Vinha todos os dias com as suas grossas e bondosas mãos calejadas acariciar as flores que o prolongavam.
Sempre acreditei que a partir daquele quintal ele queria e podia encher o mundo.
O meu avô morreu há alguns meses atrás, mas os lírios continuam no mesmo sítio, como que à espera das suas mãos.
Quanto a mim, quase deixei de acreditar naquilo que ele me tinha ensinado, porque não obstante ter passado dias, semanas e meses, na busca insana de espécimes semelhantes, em todos os palácios, jardins e nitreiras, mais não consegui do que concluir que, definitivamente, não é possível as flores saltarem as vedações dos quintais.
Até que consegui perceber-te, frágil mas animosa, serena mas lúcida, guerrilheira mas mulher. E reacendeu-se em mim a vontade incontida de juntar os meus lírios aos teus cravos e ainda aos girassóis de alguém e fazer da Terra a nossa plantação.
É pois a ti, mulher-menina-de-sorriso-amargo, que me dirijo com uma confidência a um tempo cruel e necessária.
Uma vez, aquando das minhas surtidas furtivas, pude reparar num pequeno fungo de tal modo encaixado entre duas pedras enormes, que receei que estas o esmagassem. Então usei de toda a minha força para afastar os pedregulhos, mas em balde foi todo o esforço.
Tempo depois retornei ao local e para surpresa minha verifiquei que o pequeno fungo se desenvolvia de tal forma que parecia por si só ser capaz de afastar os dois colossos. Na altura reparei ainda numa pequena flor verde que rompia aquilo e me entrava no olhar.
Passou mais tempo, que ansiosamente fui descontando à espera que me tolhia tantos pensamentos e exaltava outros.
E um dia pude ter a felicidade de ver uma maravilhosa flor vermelha que, explodindo num matizado de vários tons, subia exuberantemente para o céu.
Nessa tarde, quando descia a pé as faldas de Sintra, alguém me tocou no ombro, possivelmente em segundo chamamento, perguntando alguma coisa de castelos, ao que respondi com o meu silêncio.
Eles perceberam e afastaram-se. É que dentro dos meus olhos bailavam sete litros de água.
Depois disto, se me soubeste ler, pegarás certamente no teu amor e na tua espingarda e saltarás definitivamente as barreiras que te separam do sonho, pois só assim poderás alcançar o tempo do pleno ser.
Este escrito, em que te coloco como Govinda da minha existência, é também uma homenagem ao teu estoicismo de mulher e ao facto de durante tantos anos teres conseguido cultivar flores dentro de ti.

25.8.77

Saturday, August 15, 2020

Recomeçar


Não importa onde você parou,
em que momento da vida você cansou,
o que importa é que sempre é possível
e necessário "Recomeçar".
Recomeçar é dar uma nova
chance a si mesmo.
É renovar as esperanças na vida
e o mais importante:
acreditar em você de novo.


Sofreu muito nesse período?
Foi aprendizado.

Chorou muito?
Foi limpeza da alma.

Ficou com raiva das pessoas?
Foi para perdoá-las um dia.

Sentiu-se só por diversas vezes?
É por que fechaste a porta até para os outros.

Acreditou que tudo estava perdido?
Era o início da tua melhora.

Pois é!
Agora é hora de iniciar,
de pensar na luz,
de encontrar prazer nas coisas simples de novo.

Que tal um novo emprego?
Uma nova profissão?
Um corte de cabelo arrojado, diferente?
Um novo curso,
ou aquele velho desejo de apender a pintar,
desenhar,
dominar o computador,
ou qualquer outra coisa?

Olha quanto desafio.
Quanta coisa nova nesse mundão
de meu Deus te esperando.

Tá se sentindo sozinho?
Besteira!
Tem tanta gente que você afastou
com o seu "período de isolamento",
tem tanta gente esperando apenas um
sorriso teu para "chegar" perto de você.

Quando nos trancamos na tristeza nem
nós mesmos nos suportamos.
Ficamos horríveis.
O mau humor vai comendo nosso fígado,
até a boca ficar amarga.

Recomeçar!
Hoje é um bom dia para começar
novos desafios.

Onde você quer chegar?
Ir alto.
Sonhe alto,
queira o melhor do melhor,
queira coisas boas para a vida.
pensamentos assim trazem para nós
aquilo que desejamos.

Se pensarmos pequeno,
coisas pequenas teremos.

Já se desejarmos fortemente o melhor
e principalmente lutarmos pelo melhor,
o melhor vai se instalar na nossa vida.

E é hoje o dia da Faxina Mental.

Joga fora tudo que te prende ao passado,
ao mundinho de coisas tristes,
fotos,
peças de roupa,
papel de bala,
ingressos de cinema,
bilhetes de viagens,
e toda aquela tranqueira que guardamos
quando nos julgamos apaixonados.
Jogue tudo fora.
Mas, principalmente,
esvazie seu coração.
Fique pronto para a vida,
para um novo amor.

Lembre-se somos apaixonáveis,
somos sempre capazes de amar
muitas e muitas vezes.
Afinal de contas,
nós somos o "Amor".

Carlos Drummond de Andrade

Thursday, August 06, 2020

Rosa de Hiroshima



Pensem nas crianças
Mudas, telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas, inexactas
Pensem nas mulheres
Rotas, Alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh! Não se esqueçam
Da rosa, da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioactiva
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atómica
Sem cor, sem perfume
Sem rosa, sem nada
 
Vinicius de Moraes

Sunday, August 02, 2020

Zeca Afonso

23 fevereiro 2007

Galeria da Música Portuguesa: José Afonso



Zeca Afonso: Trovador da Voz d'Ouro Insubmisso


É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.

É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.

(Natália Correia – voz de Afonso Dias)


José Afonso, de nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, filho de José Nepomuceno Afonso dos Santos, magistrado, e de Maria das Dores Dantas Cerqueira, professora primária. Em 1930 os pais vão para Novo Redondo (actual Sumbe), Angola, onde o pai havia sido colocado como Delegado do Ministério Público. Por razões de saúde, José Afonso permanece em Aveiro, na casa do Largo das Cinco Bicas, confiado à tia Gigé e ao tio Chico, um "republicano anticlerical e anti-sidonista". Por insistência da mãe, em 1932, e já com três anos e meio de idade, segue para Angola, no vapor Mouzinho, acompanhado por um tio advogado que ia em lua-de-mel, e que o deixa ao abandono vindo a agarrar-se a um sacerdote, a única pessoa que lhe presta atenção. Permanece três anos na antiga colónia portuguesa, e aí inicia a instrução primária. José Afonso diz que esta permanência em África deixou uma marca profunda na sua vida: «a África era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim, contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças, etc., etc. (...) A África como entidade física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas recordações». Em 1936 regressa a Aveiro, passando a viver na casa de uma tia materna. No ano seguinte, com 8 anos de idade, vai de novo ao encontro dos pais e dos irmãos, agora em Moçambique, mais concretamente na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo). Os irmãos serão uma presença forte na vida de José Afonso: João, mais velho, é uma figura próxima da estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida; Mariazinha, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa a Portugal, passados dois anos, desta vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. É nesta vila da Beira Baixa que Zeca conclui a quarta classe e prepara o exame de admissão ao liceu. O tio, salazarista convicto e comandante da Legião Portuguesa, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca mais tarde. Não obstante, é neste período que José Afonso toma contacto com as canções tradicionais que virão a ter uma grande importância na sua obra.Em 1940, com 11 anos de idade, vai para Coimbra para prosseguir os estudos ficando instalado em casa da tia Avrilete. É matriculado no Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e aí conhece António Portugal e Luiz Goes, ambos mais novos do que ele. A família deixa Moçambique e parte para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. A irmã Mariazinha vai com os pais, enquanto seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da guerra, em 1945.Nesse mesmo ano (andava no 6.º ano do liceu) começa a cantar serenatas, o que lhe dá não só estatuto mas também privilégios praxistas. José Afonso, a quem chamavam "bicho-cantor" ("bicho" era a designação praxística para os estudantes liceais), gozava, por exemplo, do privilégio de não ser "rapado" pelas trupes que, depois do pôr-do-sol, saíam para as ruas da cidade à procura de "bichos" e caloiros. Em acumulação, Zeca beneficiava também desse tratamento especial, por jogar futebol nos juniores da Académica. O cantor recorda essa fase da sua vida: «As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia-dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas.» (Autobiografia, 1967)
Em 1948, após dois chumbos, completa o curso dos liceus. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais, e para grande escândalo das tias. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica. Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras. Viaja até Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e trabalha como revisor no Diário de Coimbra. A condição de estudante e de trabalhador fá-lo tomar consciência dos problemas sociais que o marcariam de forma decisiva: «Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. (...) Lembro-me do estatuto de estudante que era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja». Em 1953 são editados os seus primeiros trabalhos discográficos – dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, com chancela da Alvorada, gravados na delegação regional de Coimbra da Emissora Nacional, no ano anterior. Cada disco inclui dois fados, sendo "Fado das Águias", com letra e música de José Afonso, a sua primeira composição gravada.Também em 1953, é mobilizado para o serviço militar obrigatório sendo colocado em Mafra. E desde logo o jovem José Afonso revela a sua postura antimilitarista, em carta dirigida ao pai: «A espingarda que me foi confiada e que tenho de tratar como se tratam os cavalos de corrida é, para mim, um mistério intrincado, com culatra, cursores, percutores, cavilhas de segurança e o diabo a sete. E isto que tanto repugna à minha natureza pacífica e contemplativa!» Depois da recruta recebe guia de marcha para Macau, mas não chega a ser mobilizado por motivos de saúde, vindo a ser colocado num quartel de Coimbra. Da sua vida militar, recordará: «Eu fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». No ano lectivo 1955/56, e para assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (formalizado a 1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.Em 1956 é editado, pela Alvorada, o seu primeiro EP intitulado "Fados de Coimbra", em que tem como acompanhadores António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas). José Afonso canta "Incerteza" (Tavares de Melo), "Mar Largo" (Paulo de Sá), "Aquela Moça da Aldeia" (António Menano) e "Balada" (Popular açoriana/José Afonso).
Em 1956/57 é professor em Aljustrel, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro. José Afonso fala assim da sua experiência enquanto docente: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos (José Manuel e Helena) para Moçambique, para junto dos avós. Nesse ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Durante um mês integra a digressão da Tuna Académica em Angola, mas não canta apenas fados de Coimbra. «O Zeca era um dos vocalistas do Conjunto Ligeiro da Tuna e cantava canções como "Adeus Mouraria", o seu maior sucesso, acompanhado ao piano, baixo, bateria, acordeão e guitarra eléctrica. Actuávamos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de mambos de Perez Prado, o máximo da altura. Acabada esta cena de 'show-biz', vestíamos rapidamente a capa e batina e íamos para a serenata, mutantes do sol para a lua» conta José Niza. Na viagem de regresso, no Paquete Pátria, convive com a poetisa Natália Correia, que mais tarde lhe dedicará um poema (transcrito em epígrafe). «Sob o luar quente dos trópicos, íamos à noite para a ré do navio, com violas, vinho e poesia: o Zeca cantava; e a Natália – cabelos ao vento, deusa grega, nessa altura e sem exagero, uma das mulheres mais belas do planeta – dizia poemas», recorda José Niza.Em 1959 começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares. Em 1960, e depois de quatro anos sem gravar, lança o EP "Balada do Outono", com chancela da Rapsódia, tendo sido acompanhado pelas guitarras de António Portugal e Eduardo Melo e as violas de Manuel Pepe e Paulo Alão. Além da balada que dá título ao disco, com letra e música de José Afonso, o EP inclui os temas populares "Vira de Coimbra" e "Amor de Estudante" e ainda um instrumental, "Morena".
O disco inaugura o movimento da balada coimbrã e é um marco na História da música portuguesa. A propósito da "Balada do Outono" (Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar) escreve Manuel Alegre: «A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança». Faz nova digressão a Angola, com o Orfeão Académico, durante a qual toma verdadeira consciência da realidade colonial. José Niza recorda: «Fomos encontrar uma Angola diferente. Tinha-se dado a independência do Congo Belga e todo o território estava cheio de retornados belgas. A PIDE tinha-se instalado em Luanda e noutras cidades. E sentiam-se no ar, nas entrelinhas das conversas, nos olhares, os sinais de que alguma coisa iria acontecer». No ano seguinte rebentava a Guerra Colonial.José Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois filhos, Joana e Pedro. É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores». Para o álbum colectivo "Coimbra Orfeon of Portugal", editado pela Monitor (dos Estados Unidos), José Afonso grava dois temas – "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" – em que rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval Moreirinhas.
Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: "Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana". Em 1962 e 1963 são editados dois EP intitulados "Baladas de Coimbra", com Rui Pato à viola, dos quais fazem parte as belíssimas "Menino d'Oiro", "No Lago do Breu", "Canção do Vai... e Vem" e "Menino do Bairro Negro", esta última inspirada nos meios sociais miseráveis do Bairro do Barredo, no Porto. A balada "Os Vampiros", incluída no EP de 1963, tornar-se-á, juntamente com a "Trova do Vento que Passa" (gravada no mesmo ano por Adriano Correia de Oliveira), um dos símbolos maiores da resistência antifascista até ao advento da liberdade. Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção "Grândola, Vila Morena", que viria a ser no dia 25 de Abril de 1974 a segunda senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o arranque da operação militar que derrubaria o regime ditatorial. É editado o EP "Cantares de José Afonso", o único para a Valentim de Carvalho, que inclui "Coro dos Caídos", "Canção do Mar", "Maria" (dedicada a Zélia) e "Ó Vila de Olhão", sempre com Rui Pato à viola. A acutilância da letra de "Ó Vila de Olhão" faz com que o disco seja proibido pela Censura. Na reedição desse EP, a faixa em causa é substituída por uma versão instrumental executada pelo Conjunto de Guitarras de Jorge Fontes. As três primeiras baladas viriam a ser também incluídas numa compilação colectiva com Carlos Paredes e Luiz Goes (editada em 1973 e reeditada em CD pela EMI-VC, em 1992). A Discoteca Santo António, através da etiqueta Ofir, publica o LP "Baladas e Canções", gravado nos Estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia (reeditado em CD pela EMI-VC em 1997). É o primeiro álbum a sério de José Afonso, com 12 temas, entre os quais "Canção Longe", "Os Bravos", "Balada Aleixo", "Balada do Outono" (em versão instrumental), "Na Fonte Está Lianor" (com poema de Luís de Camões), "Minha Mãe", "Altos Castelos", "O Pastor de Bensafrim" e "A Ronda dos Paisanos". No final do Verão de 1964, muda-se com Zélia para Lourenço Marques, onde reencontra os seus filhos e os pais. Durante dois anos dá aulas na cidade da Beira. Em Moçambique desenvolve intensa actividade anticolonialista e relaciona-se, entre outros, com os pintores Malangatana e António Quadros (poeta João Pedro Grabato Dias), vindo este a contribuir com algumas letras para o repertório do cantor. Aí compõe a música para a peça de Bertolt Brecht "A Excepção e a Regra", traduzida e encenada por Luiz Francisco Rebello, cujas canções virá posteriormente a gravar. Em 1966, é publicado pela Nova Realidade, de Tomar, o livro "José Afonso: Cantares", organizado por Manuel Simões, reunindo as letras das baladas de José Afonso, com notas do próprio autor sobre a génese de cada uma delas. Em 1967, esgotado pelo sistema colonial, regressa a Lisboa, deixando o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós. José Afonso recorda assim a sua última fase africana: «Se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. [...] Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido». É colocado como professor em Setúbal, e a par das funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal. Entretanto, sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgiria após o derrube do poder, não sabia.» Mais uma vez confrontado com necessidades de subsistência, é obrigado a dar explicações e a encarar mais seriamente a carreira musical, designadamente através da gravação de discos. Cientes da situação, Rui Pato e António Portugal contactam várias editoras, incluindo aquelas para as quais Zeca já gravara antes, mas todas lhes fecham as portas, com medo da PIDE. Então, em desespero de causa, vão ao Porto falar com Arnaldo Trindade, da etiqueta Orfeu, para a qual Adriano Correia de Oliveira, já gravava há anos. A proposta era nem mais nem menos que a gravação de "Cantares do Andarilho". Arnaldo Trindade aceita a ideia, assume os riscos e propõe um contrato sui generis: José Afonso comprometia-se a gravar um álbum por ano e em troca passaria a receber, mensalmente, 15 mil escudos (uma quantia nada desprezível, na altura). E foi através deste vínculo à Orfeu, para a qual gravou mais de 70 por cento da sua obra, que Zeca alcançou a estabilidade económica que nunca tivera, e de que tanto precisava em face dos seus encargos familiares. No Natal de 1968, é lançado o sugestivamente intitulado "Cantares do Andarilho", com Rui Pato à viola, sem dúvida alguma, um dos melhores álbuns da sua discografia. Deste disco fazem parte, entre outros, temas como "Natal dos Simples", "Balada do Sino", "Canção de Embalar", "Endechas a Bárbara Escrava (com poema de Luís de Camões), "Chamaram-me Cigano" e "Vejam Bem". Em 1969, a Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Em 1969, participa no 1.º Encontro da "Chanson Portugaise de Combat", em Paris. Publica o álbum "Contos Velhos, Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes" que contém a canção popular "Canta Camarada". Em "Contos Velhos, Rumos Novos", e fazendo jus ao título, José Afonso continua e aprofunda a exploração do repertório da tradição popular ("Oh! Que Calma Vai Caindo", "S. Macaio", "Deus Te Salve, Rosa", "Lá Vai Jeremias"), ao mesmo tempo que põe em música uma plêiade de escritores eruditos: Airas Nunes ("Bailia"), Fernando Miguel Bernardes ("Qualquer Dia"), Lope de Vega ("No Vale de Fuenteovejuna"), Luís Andrade Pignatelli ("Era de Noite e Levaram") e Ary dos Santos ("A Cidade"). Além de Rui Pato (viola, marimbas, harmónica), o álbum tem as participações de Sousa Colaço (2.ª viola), José Fortunato (cavaquinho), Adácio Pestana (trompa) e Teresa Paula Brito (voz). Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra. O cantor recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e 1971.Em 1970 é editado o LP "Traz Outro Amigo Também", gravado em Londres, nos estúdios da Pye Records, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar, por causa do seu envolvimento na crise académica de 1969. Será substituído por Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi. No acompanhamento, participa também Filipe Colaço, na 2.ª viola. Além do tema-título, o alinhamento inclui temas como "Maria Faia", "Canto Moço", "Epígrafe para a Arte de Furtar" (com poema de Jorge de Sena), "Moda do Entrudo", "Canção do Desterro" e "Verdes São os Campos" (com poema de Luís de Camões). Num texto apenso ao álbum, o dramaturgo Bernardo Santareno escreve: «A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a "pureza" a nota maior desta arte: pureza de voz, pureza de poema, pureza de música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. [...] Ele [José Afonso] é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade.»
Na capital britânica, José Afonso conhece os brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso, que aí se encontravam exilados por motivos políticos. Em Março de 1970, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso, por unanimidade, o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular. No Natal de 1971, é lançado o LP "Cantigas do Maio", gravado em Herouville (perto de Paris), no Strawberry Studio, um dos mais caros e afamados da Europa. Com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, o álbum conta com a participação de Carlos Correia (Bóris) (viola, coros e passos), Michel Delaporte (darbuka, bongo berbere, tumbas, tamborim brasileiro e adufe), Christian Padovan (baixo eléctrico), Tony Branis (trompete), Jacques Granier (flauta), Francisco Fanhais (coros, passos, apitos de fole e guimbarda (tipo de berimbau)) e José Mário Branco (coros, passos, acordeão, órgão Hammond, piano Ferder). Além de "Grândola, Vila Morena", o disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantigas do Maio", "Cantar Alentejano" (em homenagem a Catarina Eufémia, assassinada pela GNR), "Maio, Maduro Maio" e "Mulher da Erva". É geralmente considerado o melhor álbum de José Afonso e representa o momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais enriquecidas e elaboradas. A editora Nova Realidade publica o livro "Cantar de Novo". No final de 1972, sai o LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, sob a direcção musical de José Niza e com a participação de Carlos Alberto Moniz, Maria do Amparo, José Jorge Letria, Teresa Silva Carvalho, Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e do grupo Aguaviva, de Manolo Diaz. Deste álbum fazem parte, entre outros, os temas "A Morte Saiu à Rua" (em homenagem ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE numa rua de Alcântara), "Ó Minha Amora Madura", "No Comboio Descendente" (com poema de Fernando Pessoa) e o belíssimo "Fui à Beira do Mar" (vide letra abaixo). Em 1973, José Afonso continua a sua "peregrinação", cantando um pouco por todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema "Era Um Redondo Vocábulo", um dos temas mais belos do álbum seguinte, "Venham Mais Cinco". Gravado em Paris, no Studio Aquarium, em Outubro de 1973, o disco é constituído integralmente por temas da autoria de José Afonso (letra e música) e conta de novo com arranjos e direcção musical de José Mário Branco e na participação musical figuram o próprio José Mário Branco (fole do João, percussões, piano, voz do alto, coros, pandeireta, órgão Hammond, piano Pipper, efeitos de sopro), Yório Gonçalves (viola) e ainda uma miríade de músicos estrangeiros, sendo de destacar Michel Delaporte nas percussões. O tema-título tem a participação vocal de Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza. Além do conhecido tema que dá nome ao álbum, merecem destaque três outros temas, autênticas pérolas do repertório de José Afonso: o citado "Era Um Redondo Vocábulo", "Adeus ó Serra da Lapa" e "Que Amor Não me Engana".
A 29 de Março de 1974, o Coliseu de Lisboa enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com "Grândola, Vila Morena". Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem "Grândola" para senha do golpe militar que está em congeminação e que se concretizará, daí a menos de um mês, na madrugada de 25 de Abril. No dia do espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações dos temas "Venham Mais Cinco", "Menina dos Olhos Tristes", "A Morte Saiu à Rua" e "Gastão Era Perfeito". Curiosamente, a "Grândola, Vila Morena" era autorizada.
No final de 1974, é editado o álbum "Coro dos Tribunais", gravado em Londres, novamente na Pye Records, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto Bordalo Dias e com a participação musical do próprio Fausto (guitarra acústica, coros) e ainda de Michel Delaporte (percussões), Vitorino (teclados, 2.ª voz solo, coros), Carlos Alberto Moniz (2.ª viola, coros), Yório Gonçalves (2.ª viola), Adriano Correia de Oliveira (coros) e José Niza (coros). São incluídas no disco duas canções brechtianas (da peça "A Excepção e a Regra") que José Afonso musicou em Moçambique no período entre 1964 e 1967: "Coro dos Tribunais" e "Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)".
Em 1974/75, Zeca Afonso envolve-se directamente nos movimentos populares e no PREC (Processo Revolucionário Em Curso), mas faz questão de não se filiar em qualquer dos sectarismos partidários existentes. Canta no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados e estabelece uma colaboração estreita com a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single "Viva o Poder Popular", com "Foi na Cidade do Sado" no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum "República", gravado em Roma nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal "República" ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, este álbum inclui "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" (versão de Francisco Fanhais da célebre canção de Geraldo Vandré), "Se os Teus Olhos se Vendessem", "Foi no Sábado Passado", "Canta Camarada", "Eu Hei-de Ir Colher Macela", "O Pão Que Sobra à Riqueza", "Os Vampiros", "Senhora do Almortão", "Letra para Um Hino" e "Ladainha do Arcebispo". Além de Francisco Fanhais, este disco teve o contributo de diversos músicos italianos. Em 1976, Zeca apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Ainda em 1976, grava o álbum "Com as Minhas Tamanquinhas", sendo as letras e as composições todas da sua autoria. Conta com a colaboração de Cecília Barreira, Fausto Bordalo Dias, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Júlio Pereira, Luís Duarte, Michel Delaporte, Ramon Galarza, Vitorino e ainda de Quim Barreiros, nos temas de inspiração folclórica. Este álbum é, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 30 anos, isto é, hoje». É a "ressaca" do PREC. O próprio José Afonso dirá mais tarde: «Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta». E acrescenta: «Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia-a-dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for».
O álbum "Enquanto Há Força", gravado em 1978, com o apoio de Fausto Bordalo Dias nos arranjos e direcção musical, representa mais um exemplo da fase cronista e panfletária do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonialistas e anti-imperialistas, a que não escapa uma crítica mordaz à Igreja Católica (no tema "Arcebispíada"). Participam no disco excelentes músicos e cantores: Michel Delaporte (percussões), Fausto (guitarra eléctrica, guitarra acústica, coros), José Luís Iglésias (guitarra acústica), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa, sistre, viola e alaúde), Rão Kyao (flautas), Luís Duarte (baixo), Dimas Pereira (acordeão), Yório Gonçalves (coros), Adriano Correia de Oliveira (coros) e Sérgio Godinho (coros), entre outros; e ainda o Grupo de Cantigas do Centro Cultural da Anadia.
Em 1979 é lançado o álbum "Fura Fura", gravado em Setembro e Outubro do ano anterior, em que José Afonso contou com a colaboração de Júlio Pereira nos arranjos e direcção musical e dos Trovante nos arranjos de três temas ("As Sete Mulheres do Minho", "O Cabral Fugiu para Espanha" e "De Quem Foi a Traição"). A execução instrumental é de Júlio Pereira (cavaquinho, guitarras acústicas, violas, baixo, reco-reco, chocalho, timbalões) e de elementos do grupo Trovante – Luís Represas (bandolim, cavaquinho, 2.ª voz, coros), João Gil (viola, viola braguesa), Artur Costa (baixo, palheta, adufe, flautas de bisel) e Manuel Faria (acordeão). Nota ainda para a participação de António Chaínho (guitarra portuguesa), José Maria Nóbrega (viola), Naomi Anner e Carlos Zíngaro (violinos), Guilherme Vicente (flauta de amolador), Tomás Pimentel (trompete), Rui Cardoso (flauta transversal), Guilherme Inês (tumbadoras, ferrinhos) e Celso de Carvalho (violoncelo). Dos doze temas do alinhamento, oito são de música para teatro, compostos para as peças "Zé do Telhado" e "Guerras de Alecrim e Manjerona", levadas à cena na Barraca e na Comuna, respectivamente. José Afonso actua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão.
Em 1981, e após dois anos sem discos, reconcilia-se com a canção de Coimbra e com a guitarra ao gravar "Fados de Coimbra e Outras Canções", álbum composto maioritariamente por clássicos de Edmundo Bettencourt e no qual reinterpreta também três temas já anteriormente gravados: "Senhora do Almortão", "Balada do Outono" e "Vira de Coimbra". Com acompanhamento de Octávio Sérgio (guitarra) e Durval Moreirinhas (viola) em todos os temas, no "Vira de Coimbra" participam também Júlio Pereira (cavaquinho) e Janita Salomé (viola). Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, dedicatários do álbum. Actua em Paris, no Théatre de la Ville. Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas de esclerose lateral amiotrófica, doença que se caracteriza por uma progressiva atrofia muscular de que resulta geralmente a morte, por asfixia. Actua em Bourges, França, no Festival de Printemps. Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu dos Recreios, com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum "Ao Vivo no Coliseu".No Natal desse ano, sai "Como Se Fora Seu Filho", álbum que constitui o seu testemunho estético-político e revela em definitivo o rosto humano da Utopia ("Cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro / gente igual por fora"). Com arranjos e direcção musical de Júlio Pereira, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e de José Afonso, no trabalho colaboram Júlio Pereira (guitarra eléctrica, guitarra acústica, polymoog, baixo, reco-reco, tamborete, viola braguesa), Fausto (guitarra eléctrica, guitarra acústica, percussões, 2.ª voz), Sérgio Mestre (guitarra acústica, flauta), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa), Janita Salomé (polymoog, 2.ª voz, coros), José Mário Branco (flauta vietnamita, pífaro, flautas de bisel, piano, percussões), Rui Cardoso (saxofones, clarinete baixo), Rui Júnior (percussões), Francisco Fanhais (coros), entre outros. Algumas das canções do alinhamento haviam sido escritas para a peça "Fernão Mentes?" do grupo de teatro A Barraca. No mesmo ano, é publicado o livro "Textos e Canções", com a chancela da Assírio e Alvim, que inclui muitos poemas que José Afonso não chegou a musicar. Contra a sua vontade, é publicado pela Foto Sonoro um maxi-single, "Zeca em Coimbra", com material de um espectáculo dado pelo cantor no Parque de Santa Cruz, na Lusa Atenas, a 27 de Maio, em que também participaram António Bernardino ("Tenho Barcos, Tenho Remos"), Luís Marinho ("Traz Outro Amigo Também") e ainda António Portugal e António Brojo (guitarras) e Aurélio Reis, Luís Filipe e Rui Pato (violas). A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Fernando Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso.
O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Mário Soares tentará de novo condecorá-lo, a título póstumo, em 1994, com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusa, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial (fora expulso em 1968), tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Em 1985 é gravado aquele que viria a ser seu último álbum, "Galinhas do Mato", com arranjos, direcção musical e produção de Júlio Pereira e José Mário Branco. Zeca já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas ("Agora"), Helena Vieira ("Tu Gitana"), Janita Salomé ("Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação"), José Mário Branco ("Década de Salomé", em dueto com Zeca), Né Ladeiras ("Benditos") e Catarina e Marta Salomé ("Galinhas do Mato"). No elenco instrumental contam-se: Júlio Pereira (violas acústicas e eléctricas, banjo, baixo, adufe, sintetizador, computador de ritmo), José Mário Branco (adufe, guizos almofadados, latas), Janita Salomé (darbuka, adufe), Carlos Zíngaro (violino), Fernando Ribeiro (acordeão), António Emiliano (piano), Sérgio Mestre (flauta transversal), Paulo Curado (flauta transversal), José Pedro Caiado (flautas doces), Adácio Pestana (trompa), Tomás Pimentel (trompete), José Oliveira (trombone), Carlos Martins (saxofone alto), Rui Cardoso (saxofone tenor), Sílvio Pleno (clarinete), David Gausden (baixo), João Nuno Represas (tumbadoras, darbuka, latas) João Seixas (adufe) e Guilherme Inês (bateria). Nos coros, participam ainda Cramol (Coro da Biblioteca Operária Oeirense) e Tóinas. Apesar de ser o derradeiro, "Galinhas do Mato" revela-se um dos discos mais efusivos e extrovertidos de José Afonso, o que para tal muito contribui o protagonismo que é dado às percussões e aos sopros.
Em 1986, apoia a candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintassilgo, católica progressista. José Afonso vem a falecer no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos de idade. O funeral realiza-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o Cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais.A 18 de Novembro é criada, por iniciativa de Alípio de Freitas (homenageado no tema homónimo do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas"), a Associação José Afonso com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes. No ano seguinte a Câmara Municipal da Amadora institui o Prémio José Afonso destinado a galardoar um álbum inédito de música portuguesa, cujos temas tenham como referência a cultura e História portuguesas, tal como a obra do patrono. Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais, José Medeiros e Brigada Victor Jara, contam-se entre os já contemplados.Duas semanas depois da morte do cantor, a Transmédia edita "Agora e Sempre", o primeiro triplo álbum da história discográfica portuguesa. A edição é constituída pelos álbuns "Como Se Fora Seu Filho" (1983), "Galinhas do Mato" (1985) e "Ao Vivo no Coliseu" (1983), este com um alinhamento diferente. Nesse mesmo ano, a Movieplay lança em CD os 11 álbuns gravados para a Orfeu (até 1981), tendo também sido editado pela Edisco o CD "Os Vampiros", com as baladas dos três EP da Rapsódia (1960-63), tais como "Os Vampiros", "Menino d'Oiro", "Canção do Vai... e Vem", "Senhor Poeta", "Tenho Barcos, Tenho Remos", "Menino do Bairro Negro", "No Largo do Breu" e "Balada do Outono". Em 1996, a Movieplay reúne finalmente em CD sob o título "De Capa e Batina", os fados de Coimbra dos três primeiros discos (1953-56) e ainda os temas "Menina dos Olhos Tristes" e "Canta Camarada", do single editado pela Orfeu em 1969. Em 1997, assinalando os dez anos sobre a morte de José Afonso, a EMI-VC lança em CD o álbum "Baladas e Canções", originalmente editado pela Ofir em 1967.José Afonso, como pioneiro de uma estética musical alternativa ao "nacional cançonetismo" (como lhe chamou João Paulo Guerra) e pelo contributo inovador que deu na redescoberta e valorização da música de raiz tradicional, será sempre recordado como um dos nomes maiores da História da música portuguesa. Testemunham-no as homenagens e tributos de quem sido alvo ao longo dos anos, com novas versões de temas seus, sendo de referir os seguintes álbuns: "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" (1977 – Teresa Silva Carvalho), "Ousadias" (1986 – Naná Sousa Dias), "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" (1994 – Madredeus, Frei Fado d’El Rei, Brigada Victor Jara, Opus Ensemble, Diva, Delfins, Sétima Legião, Resistência, UHF, Tubarões, etc.), "Maio Maduro Maio" (1995 – José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, gravado no S. Luiz em 1994), "Utopia" (2004 – Vitorino e Janita Salomé, gravado no CCB em 1998), "A Jazzar no Zeca" (2004 – Zé Eduardo Unit), "Que Viva o Zeca" (2007 – Erva de Cheiro), "A Terra do Zeca" (2007 – Terra d’Água / Davide Zaccaria, com Maria Anadon, Lúcia Moniz, Filipa Pais, Dulce Pontes e Uxía), "Co’as Tamanquinhas do Zeca" (2007 – Couple Coffee), "Senhor Poeta" (2007 – Frei Fado d’El Rei), "Com Zeca no Coração" (2007 - Banda Futrica), "Convexo" (2007 – Jacinta) e "Abril" (2007 – Cristina Branco).


Discografia:

- Fados de Coimbra - 2 vols. (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962) (colectivo)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992 (compilação colectiva)
- Venham Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República (LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975) (não editado em Portugal)
- Com as Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976 (gravado ao vivo)
- Enquanto Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura (LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Baladas e Fados de Coimbra (LP-33 rpm, Edisco, 1982); Os Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- José Afonso (2LP, Orfeu, 1983; 2CD, Movieplay, 2001; Farol, 2007) (colectânea)
- Ao Vivo no Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983) (gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985 (inclui os álbuns: Como Se Fora Seu Filho / Galinhas do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Zeca Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993) (concerto quase integral)
- De Capa e Batina (CD, Movieplay, 1996)


Fontes:

- Site da Associação José Afonso (http://www.aja.pt/)
- Literatura inclusa na discografia de José Afonso
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998


Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)

- A Cidade (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- A Formiga no Carreiro (in "Venham Mais Cinco")
- Adeus ó Serra da Lapa (in "Venham Mais Cinco")
- Bailia (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Balada do Outono (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Balada do Sino (in "Cantares do Andarilho")
- Canção de Embalar (in "Cantares do Andarilho")
- Canção do Mar (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Canção do Vai... e Vem (in "Os Vampiros")
- Canção Longe (in "Baladas e Canções")
- Cantigas do Maio (in "Cantigas do Maio")
- Canto Moço (in "Traz Outro Amigo Também")
- Chamaram-me Cigano (in "Cantares do Andarilho")
- Endechas a Bárbara Escrava (in "Cantares do Andarilho")
- Era um Redondo Vocábulo (in "Venham Mais Cinco")
- Escandinávia Bar-Fuzeta (in "Galinhas do Mato")
- Fui à Beira do Mar (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- Fura Fura (in "Fura Fura")
- Já o Tempo se Habitua (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Maio, Maduro Maio (in "Cantigas do Maio")
- Maria (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Menino d'Oiro (in "Os Vampiros")
- Menino do Bairro Negro (in "Os Vampiros")
- Mulher da Erva (in "Cantigas do Maio")
- No Comboio Descendente (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- No Largo do Breu (in "Os Vampiros")
- Ó Minha Amora Madura (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- O Pastor de Bensafrim (in "Baladas e Canções")
- Os Bravos (in "Baladas e Canções")
- Os Vampiros (in "Os Vampiros")
- Quanto é Doce (in "Fura Fura")
- Que Amor Não me Engana (in "Venham Mais Cinco")
- Saudades de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Traz Outro Amigo Também (in "Traz Outro Amigo Também")
- Tu Gitana (in "Galinhas do Mato")
- Vejam Bem (in "Cantares do Andarilho")
- Venham Mais Cinco (in "Venham Mais Cinco")
- Verdes São os Campos (in "Traz Outro Amigo Também")
- Vira de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")



Fui à Beira do Mar

Letra, música e voz: José Afonso

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia;
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:

"Ó cantador alegre,
Que é da tua alegria?
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria!"

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia;
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia.

Desde então a bater
No meu peito, em segredo,
Sinto uma voz dizer:
"Teima, teima sem medo!"

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"


(in "Eu Vou Ser Como a Toupeira", 1972)

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Outros artistas desta galeria:
Adriano Correia de Oliveira
Carlos Paredes
Janita Salomé
Luiz Goes
Pedro Barroso


Retirado daqui: http://nossaradio.blogspot.com/2007/02/galeria-da-msica-portuguesa-jos-afonso.html

Thursday, July 02, 2020

SOPHIA

 

Na passagem do 4º aniversário da morte de SOPHIA, o Cravo de Abril presta a sua homenagem àquela que é uma figura de primeira grandeza da POESIA portuguesa de todos os tempos.
Assinalamos esta data com a publicação do notável texto lido por SOPHIA, em 11 de Julho de 1964, no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia a LIVRO SEXTO:

«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.
Mais tarde, a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso.
Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta.
Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética.
Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: "Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça." Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo.
Se em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres." Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que ele fale somente de pedras ou de brisas, a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.»

2.7.2008