Saturday, April 25, 2015

Sunday, April 19, 2015

Noite


É de noite que renasço cada dia. É de noite que as palavras me escorrem pelos dedos como se fossem água de um rio caudaloso que corre desenfreado até à foz. Das palavras.
É de noite que me refaço ao pôr da lua. E é de noite que a poesia se solta do meu peito como se fosse um grito que ninguém ouve porque se juntou ao rio e já desaguou no mar.
É de noite que os amores secretos se encontram. Ainda que distantes. Ainda que apenas em pensamento. É de noite que escrevo porque as palavras me regressam em cada maré. E porque gosto deste silêncio...

Monday, April 13, 2015

Eduardo Galeano




"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."

Thursday, April 09, 2015

Poema dedicado a Adriano Correia de Oliveira




MEU CAMARADA E AMIGO

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.
É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.
Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.
Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!
Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

Ary dos Santos

Sunday, April 05, 2015

Acetinada



Rompo esta saudade a cantar
No vai e vem de todas as marés
Na pele no olhar no verbo amar
E na espuma das ondas a beijar-te os pés

Sei do cheiro que me trespassa
E da cor da rocha feita leito
Em cada gaivota que aqui passa
Vai um pouco de nós, de qualquer jeito

Aqui respiro aqui amo e fico enfim
Nas memórias da minha inquietação
E a presença do amor pele de cetim
Guardo fechada, para sempre, no coração.

Para o Gustavo Carvalho
que partiu sem avisar...

Saturday, March 28, 2015

Tuesday, March 24, 2015

O Amor em Visita


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.


Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

Herberto Helder, in 'O Amor em Visita'

Saturday, March 21, 2015

A defesa do poeta


Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer!
  
Natália Correia


Monday, March 16, 2015

Coro dos Cornudos





04/12/10

http://cadernosemcapa.blogspot.pt/2010/12/como-recordacao-dum-convivio-memoravel.html


Poema de Luiz Pacheco (1925-2008)

Como recordação dum convívio memorável, aqui fica publicado, na íntegra, o longo poema de Luiz Pacheco, com o título CÔRO DE ESCARNHO E LAMENTAÇÃO DOS CORNUDOS EM VOLTA DE S. PEDRO, publicado pelas edições Afrodite na obra «Textos Malditos».
Fica também um abraço ao amigo que o disse quase todo de memória e aos que comigo partilharam o prazer de ouvir.

MONÓLOGO DO 1.º CORNUDO
I
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos.
E perguntei à Maria
Por que me pôs os palitos.
II
Jurou por alma da mãe
Com mil tretas de mulher
Que era mentira. Também
Inda me custava a crer...
III
Fiquei de olho espevitado
Que o calado é o melhor
E para não re-ser enganado,
Redobrei gozos de amor.
IV
Tais canseiras dei ao físico,
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços!
V
Esperava por isso a magana?
Já previa o que se deu?...
Do além vi-a na cama
Com um tipo pior do que eu!
VI
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito...
Sabia daquele mister
Que puxa muito do peito.
VII
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês:
«O mais certo é práqui vir,
Inda antes que passe um mês».
VIII
Arranjei-lhe um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
(Onde todos vão parar
Embora com muito medo...)
IX
Passava duma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico, tadito!
DUETO DOS 2 CORNUDOS
X
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que faz a ladina
XI
Meteu na cama mais gente
Um, dois, três... logo a seguir!
Não há piça que a contente
É tudo que tiver de vir!
S. PEDRO, INDIGNADO, PRAGUEJA.
XII
- É de mais!... Arre, diabo!
- Berra S. Pedro, sandeu.
–E mortos por dar ao rabo
Lá vêm eles pró Céu!
CORO, PIANÍSSIMO, LIRISMO
NAS VOZES
XIII
Que morre como um anjinho
Quem morre por muito amar!
CORO, AGORA NARRATIVO
OU EXPLICATIVO.
Já formemos um ranchinho
De cá de cima, a espreitar.
XIV
Passam meses, passa tempo
E a bela não se consola...
Já semos um regimento
Como esses que vão prá Ingola!
(ÁPARTE DO AUTOR DAS COPLAS:
«COITADINHOS!»)
XV
Fazemos apostas lindas
Sempre que vem cara nova.
Cálculos, medidas infindas
Como ela terá a cova.
XVI
Há quem diga que por si
Já não lhe topou o fundo...
Outros juram que era assi
Do tamanho... deste Mundo!
XVII
- Parecia uma piscina!
–Diz um do lado, espantado.
- Nunca vi uma menina
Num estado tão desgraçado!
APARTE DO AUTOR, ANTIGO MILITANTE DAS ESQUERDAS (BAIXAS).
XVIII
(Um estado tão desgraçado?!...
Pareceu-me ouvir o Povo
Chorando seu triste fado
nas garras do Estado Novo!)
XIX
O último que chegou cá
Morreu que nem um patego:
Afogado, ieramá,
Nos abismos daquele pego.
O CORO DOS CORNUDOS,
ACOMPANHADO POR S. PEDRO EM SURDINA,
ENTOA A MORALIDADE, APÓS TER
LIMPADO AS ÚLTIMAS LAGRIMETAS
E SUSPIRANDO COMO SÓ OS CORNUDOS SABEM.
XX
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado,
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo.
XXI
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar.
Examina-lhe a greta,
Não te vá ela enganar...
XXII
E depois de veres o bicho
E as maneiras que tem
A funcionar a capricho,
Já sabes se te convém.
XXIII
Mulher calma, é estimá-la
Como a santa no altar.
Cabra douda, é rifá-la...
- Que não venhas cá parar.
XXIV
Este conselho te dão,
E não te levam dinheiro...
Os cornudos que aqui estão
Com S. Pedro hospitaleiro.
XXV
Invejosos quase todos
Dos conos que o mundo guarda
FAZEM MAIS UM BOCADO DE LAMENTAÇÃO.
NOTA DO AUTOR: QUASE,
PORQUE ENTRETANTO
ALGUNS BRINCAVAM UNS COM OS OUTROS.
RABOLICES!
Mas se fornicas a rodos
Tua vinda aqui não tarda!
RECOMEÇA A MORALIDADE, ESTILO
ESTÃO VERDES, NÃO PRESTAM.
ALGUNS BÊBADOS, CORNUDOS
DESPEITADOS OU AMARGURADOS.
VOZES PASTOSAS.
DEVE LER-SE: VIIINHO...VÉLHIIINHO...
XXVI
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher...
Que faz dum amor já velhinho
Ressurgir novo prazer.
FINALE, MUITO CATÓLICO.
XXVII
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.


Luiz Pacheco
Num dia em que se achou
Mais pachorrento.

Saturday, March 14, 2015

Cantigas da Guerra Civil de Espanha


Cuentan que los inicios de esta tonada popular se remontan a las guerras coloniales del norte de África. La han cantado con diversas letras y títulos, "Viva la XV Brigada", "El ejército del Ebro"… Y en otras ocasiones cambiando a la protagonista: Manuela o Carmela. Hoy os traigo a Manuela.
Patxi Andión nos cantó esta canción popular republicana destacando una cosa en ella: es sólo una canción más, una historia más: en todos los pueblos, en todas las ciudades, en todas las aldeas hubo mujeres así. Para Emilio Prados, por ejemplo, fue Encarnación Jiménez: una lavandera a la que formaron consejo de guerra y fusilaron por atender a unos milicianos heridos. Pero, como dice Patxi, ésta es la canción de Manuela, aunque sea una más:



Manuela

Una historia más de guerra
que se cuenta en las montañas,
que se pierde allá en el tiempo,
¡Ay Manuel, ay Manuela!
pero vive en mi recuerdo
¡Ay Manuela!

Venía de Cataluña
y era hija de peones.
El coraje y la pasión
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
quemaban su corazón
¡ay Manuela! ¡Ay Manuela!

De todas partes venían
y su nombre ya sabían.
Ayudó a muchos hombres
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
que aún recuerdan ese nombre.
¡Ay Manuela! ¡Ay Manuela!
Una noche en las montañas,
dicen que tras su cabaña
desapareció una estrella.
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
nunca más se supo de ella.
¡Ay Manuela! ¡Ay Manuela!
Sólo queda en mi memoria
una canción y una historia:
es la canción de Manuela,
¡ay Manuela! ¡ay Manuela!
una historia más de guerra
¡Ay Manuela! ¡Ay Manuela!



 





LOS CAMPESINOS
El Ejército del Ebro,
rumba la rumba la rumba la.
El Ejército del Ebro,
rumba la rumba la rumba la
una noche el río pasó,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
una noche el río pasó,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Y a las tropas invasoras,
rumba la rumba la rumba la.
Y a las tropas invasoras,
rumba la rumba la rumba la
buena paliza les dio,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
buena paliza les dio,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
El furor de los traidores,
rumba la rumba la rumba la.
El furor de los traidores,
rumba la rumba la rumba la
lo descarga su aviación,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
lo descarga su aviación,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Pero nada pueden bombas,
rumba la rumba la rumba la.
Pero nada pueden bombas,
rumba la rumba la rumba la
donde sobra corazón,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
donde sobra corazón,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Contraataques muy rabiosos,
rumba la rumba la rumba la.
Contraataques muy rabiosos,
rumba la rumba la rumba la
deberemos resistir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
deberemos resistir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
Pero igual que combatimos,
rumba la rumba la rumba la.
Pero igual que combatimos,
rumba la rumba la rumba la
prometemos combatir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!
prometemos combatir,
¡Ay Carmela! ¡Ay Carmela!

Monday, March 09, 2015

La Samarreta




Jo sóc fill de família molt humil.
Tan humil que d'una cortina vella
Una samarreta em feren: vermella.

D'ençà, per aquesta samarreta,
no he pogut caminar ja per la dreta.
He hagut d'anar contracorrent
perquè jo no sé què passa
que tothom que el ve de cara
porta el cap topant a terra.

D'ençà, per aquesta samarreta,
no he pogut sortir al carrer.
Ni treballar al meu ofici: fer de ferrer.

He hagut de, en el camp, guanyar jornals.
Així la gent ja no em veia:
Jo treballava amb la corbella.

I dintre de tots els mals,
sé treballar amb dues coses:
amb el martell i la corbella.

Gairebé no comprenc perquè la gent,
quan em veia pel carrer em cridava: "Progressista!"
Jo crec que tot això era promogut pel seu "despiste".

Potser un altre en les meves circumstàncies,
ja hagues canviat de samarreta.
Però jo, que m'hi trobo molt bé amb ella.
Perquè abriga, me l'estime,
i li pregue que no s'em faça vella.
---
Yo soy hijo de familia muy humilde.
Tan humilde que de una cortina vieja
Me hicieron una camiseta: roja.

Desde entonces, por esta camiseta,
ya no he podido caminar por la derecha.
He tenido que ir contracorriente
porque yo no sé qué pasa
que todo el mundo que la ve venir de cara
lleva la cabeza arrastrando por el suelo.

Desde entonces, por esta camiseta,
no he podido salir a la calle.
Ni trabajar en mi oficio: hacer de herrero.

He tenido que, en el campo, ganar jornales.
Así la gente ya no me veía:
Yo trabajaba con la hoz.

Y dentro de todos los males,
sé trabajar con dos cosas:
con la hoz y el martillo.

Ahora bien, no comprendo porque la gente,
cuando me veía por la calle me gritaba: "¡Progresista!"
Yo creo que todo esto era provocado por su "despiste".

Quizás otro en mis circunstancias,
ya habría cambiado de camiseta.
Pero yo, que me encuentro muy a gusto con ella.
Porque abriga, y la quiero,
y le ruego que nunca se me haga vieja.

Friday, March 06, 2015

94 anos


A 6 de Março de 1921 é fundado o Partido Comunista Português. A organização política de vanguarda dos trabalhadores portugueses surge, ao contrário da maior parte dos partidos comunistas europeus, não como resultado de uma cisão de um partido social-democrata, mas como uma natural emanação das necessidades do proletariado.
Em 1929, o PCP inicia a primeira reorganização com vista a defender-se dos primeiros impactos da clandestinidade. Foi o único partido republicano que não aceitou dissolver-se na ditadura. Todos os restantes capitularam, auto-dissolveram-se ou acabaram enquadrados no regime que resultara do golpe de 1926. O PCP foi proibido 5 anos após a sua fundação, e resistiu. Estava a forjar-se a gesta heróica de dirigentes e militantes que assumiam o compromisso pela libertação dos trabalhadores como a mais importante tarefa das suas vidas.
Em 1940-41 inicia-se a reorganização mais funda. Sucessivos golpes da polícia política e das forças repressivas do fascismo haviam quase destruído a direcção do PCP. Durante alguns meses, o PCP ficara sem membros dirigentes e a situação exigia medidas rápidas de protecção. Mais do que aventura, o operariado precisava de uma organização capaz de derrotar, no concreto e não apenas nas palavras, o fascismo. 6 anos antes, o operariado revoltoso, por todo o país, realiza a greve de 18 de Janeiro com contornos insurreccionais e com heróicos avanços, particularmente na Marinha Grande, onde foi tomado o posto da Guarda. Foi brutalmente reprimido. Mas resistiu porque existia partido.
Durante a década de 40, com particular expressão em 43 e 44, a reorganização do PCP assume "paz, pão e liberdade" como palavras que fundem as aspirações do povo com partido dos trabalhadores. Um partido que está nos corações do povo não pode ser destruído. O fascismo tentou conter, mas a orientação do PCP de aprofundar a ligação às massas e de se tornar um partido nacional permitiu-lhe resistir. O marxismo-leninismo consolida-se, o centralismo democrático assume-se como forma de decisão, o Partido liga-se ao operariado e nele tem a sua fonte inesgotável de quadros. Por cada comunista caído às mãos da violência fascista, outro comunista se levanta.
Durante os últimos anos da década de 50, o partido resiste e corrige um desvio de direita que o afastava das tarefas que se lhe impunham. De 61 a 65 o PCP reorienta a sua estratégia, dirige-se cada vez às massas trabalhadoras, mas também alarga a sua influência e o contacto com outras camadas antimonopolistas, rumo à vitória.
Nove anos depois o 25 de Abril de 1974. E tudo. E os sonhos, e o partido do sonho e as organizações de juventude que sempre o acompanharam, todos saem à luz do dia, à verdadeira luz do dia.
2 anos de conquistas, umas atrás das outras. Escritas nas páginas da lei. Com o partido à frente.
38 anos de reconstituição monopolista, de destruição de direitos e recuperação de privilégios não foram ainda suficientes para destruir o que em dois anos se construiu pelo povo português. Porque o partido, a juventude comunista, os sindicatos de classe resistiram num contexto de ofensiva crescente.
E enquanto resistimos também construímos este projecto colectivo que já foi um sonho e hoje é a luta da nossa vida, o Socialismo e o Comunismo.
Somam-se 94 anos de luta pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo e pelo comunismo. 94 anos, "muitas vezes fustigados por duras chuvas e ventos, mas sempre pelo rosto e nunca pelas costas." (A. Cunhal)
Parabéns, comunistas de hoje, portadores desta história que nos molda o presente e o futuro.

Miguel Tiago
(deputado do PCP)

Wednesday, March 04, 2015

Meu Amor Eterno



Meu Amor Eterno

Há poucas coisas de que me arrependo na vida. Mas há erros que se cometem que são de uma grande injustiça.
Em todos os formulários e fichas que tive de preencher ao longo da minha vida, sempre que tinha que indicar a profissão da minha mãe eu escrevia "doméstica". Foi isso que me ensinaram, as mulheres que ficam em casa a tratar dos filhos são domésticas. Mas a minha mãe nunca foi doméstica. A profissão da minha mãe, exercida há 45 anos é ser Mãe. Assim, com letra maiúscula e tudo.
Profissão da mãe: Mãe
A minha mãe assumiu com tal brio o seu papel que passou a ser Mãe acima de tudo. Mais que mulher foi Mãe. Mais que esposa foi Mãe. Muito mais que doméstica ou "dona de casa", ela foi Mãe.
E logo escolheu a profissão mais exigente e desgastante que existe. Trabalha 365 dias por ano, 24 horas por dia. Não tem direito à greve. Não se pode despedir por justa causa, nem por outra causa qualquer. Não existem horários, a disponibilidade tem que ser total.
Não me fica bem dizer isto, mas os resultados do seu labor e da sua arte estão bem à vista. De tal forma foi bem sucedida na sua "carreira" que foi promovida: agora é Avó.
Profissão da mãe: Mãe e Avó
E como Mãe não tem direito a descanso acumula as duas funções, embora com menor carga horária.
Só espero que um dia me possa perdoar a burrice de ter escrito doméstica onde deveria ter aparecido Mãe. E agora, Mãe e Avó.
Mas não uma mãe qualquer. A minha mãe, a única. O ser humano mais humano no ser que conheço. Que toma as dores dos outros como suas, sofrendo às vezes mais que os próprios. Que é incapaz de dizer não a quem lhe bate à porta, mesmo sabendo que pode estar a ser enganada, mesmo quando a pessoa que lhe bate à porta já antes a enganou. A única pessoa que conheço que não entende, nunca entendeu e nunca vai entender o reverso da medalha, a maldade do ser humano. A pessoa que me ensinou o prazer de dar, de fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca. A quem eu bebi o exemplo de estar sempre disponível para ajudar o próximo, embora não o consiga aplicar com a dimensão que ela sempre o fez.
Mãe: Meu Amor Eterno!

#70anos #gratidão

Rogério Charraz

Monday, March 02, 2015

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Ainda sonho!

Sunday, February 22, 2015

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Mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.


E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.


Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor. 


David Mourão-Ferreira