Tuesday, July 02, 2019

Centenário de Sophia




Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, June 22, 2019

Carta a um Super-herói

Carta a um Super-herói

Faz hoje 7 anos e 1 mês que te vi pela primeira vez. Quando soube que estavas quase a nascer, deixei tudo e corri para ser das primeiras pessoas que tu visses, para que soubesses logo ali que poderias contar comigo para tudo. E poucos minutos depois de vires ao mundo, ali estava eu a contemplar-te, completamente apaixonada e rendida aos teus olhos rasgados e feições perfeitas. Foi a primeira vez que senti o mais puro amor incondicional.

E desde então foi um crescendo de amor. Pelos teus olhos e sorriso via-se o amor que te envolvia, a felicidade nos teus passos confiantes, a inteligência em cada aprendizagem tua, a doçura na tua voz e a alegria em tudo o que fazias.

Lembras-te dum dia que estávamos os dois sentados no sofá a conversar, tinhas uns 5 anos e o teu primo meia dúzia de meses e tu, a olhar para ele me dizes: "Ó tia, porque não tiveste o primo mais cedo para eu poder brincar mais com ele..." e que resposta te poderia dar?! "Tens razão, meu amor, mas agora vais ter muito tempo para brincar com ele." E se brincaram... e que paciência a tua... porque ele não te largava um instante! Nele vejo muito de ti... no que veste, nos brinquedos e nas brincadeiras, mas acima de tudo no olhar, no mesmo olhar feliz!

Tenho pensado muito nessa resposta que te dei e numa frase que o teu tio costuma dizer: "Temos uma vida toda para isso..." e acabamos por ir adiando as coisas. Contigo aprendi que não se pode adiar, que o que é agora amanhã pode já não ser. Dói-meu saber que não te liguei para me contares como foi conheceres os jogadores do Benfica (mas vi o video umas 30 vezes), que não te disse vezes suficientes que te adorava e que tinha muito orgulho em ti e no Super-T em que te transformaste, "até porque, achava eu, iríamos ter uma vida toda para isso..."

Custa-me pensar naquilo que não fizeste e no tanto que ainda tinhas para fazer. No almoço de aniversário do teu pai; na festa de pijama que íamos fazer em minha casa; no passeio ao jardim zoológico com o teu primo e os teus avós; na tua festa do 7º aniversário (e todas as seguintes) com todas as pessoas que te adoram; no aprenderes a ler e a escrever; o ver-te tornar adolescente e depois num homem. Era assim que deveria ser... tinhas tanto para ser, para viver!

Sabes Super-T, este mês tem sido muito difícil. Com toda a certeza o mais difícil da minha vida. Quando me perguntam: "Está tudo bem?" A minha resposta imediata é "Está tudo bem, obrigada!", mas por dentro só eu sei como estou destroçada. A vida não é a mesma, não pode ser a mesma! Partiu contigo uma parte de mim.
Quero muito acreditar que um dia vou voltar a ver esse teu sorriso a dizer: "Olá tia, tive saudades tuas!" e abraçar-te até tu te fartares.

Ahh... e não te preocupes, estamos todos a tomar conta dos teus pais e da tua mana e a tentar que os dias deles voltem a amanhecer a sorrir...

Se não te importares, de vez em quando vou-te escrevendo estas cartas para sentir que estamos sempre juntos.

Beijinhos da tia que te adora!!!

Ps. Quando tiveres matado essas saudades todas do avô Zé e tiveres um tempinho livre, manda um pouco desses teus super-poderes, que aqui em baixo estamos a precisar.

Joana Correia

Tuesday, June 11, 2019

Carvalhesa


Carvalhesa - Texto de Ruben de Carvalho


      Em Março de 1985 a Comissão Política
do CC do PCP criou um grupo de trabalho com o objectivo de se tentar criar um
tema musical para a campanha eleitoral para as eleições legislativas
desse ano e que desse identidade sonora às diversas manifestações,
desde os carros de som até aos indicativos de tempos de antena.

      A primeira ideia dessa equipa foi a de encontrar
um tema de música tradicional portuguesa a que se pudesse dar um tratamento
instrumental no estilo do que entretanto se começara a chamar MPP,
Música Popular Portuguesa
. Vivia-se então um momento de
grande criatividade em termos de música popular, na esteira de Zeca
Afonso
e Sérgio Godinho, os trabalhos dos Trovante, de Júlio
Pereira, de Fausto tinham criado uma sonoridade tão nova quanto portuguesa
e que conseguia um resultado inteiramente surpreendente: conquistava público
em todo o País e em todas as áreas culturais. Pelas suas raízes
no folclore despertava eco nas audiências culturalmente fixadas em raízes
e padrões rurais com a mesma facilidade com que desencadeava o entusiasmo
de plateias juvenis que de bom grado trocavam a batida rock por surpreendentes
linhas rítmicas bebidas em adufes e Zés-Pereiras.

      Pensou-se assim procurar um dos temas tradicionais
que Lopes-Graça harmonizara para o Coro da Academia de Amadores
de Música, assegurando mais uma significante ligação entre
duas épocas e dois estilos, ligados pela comum paixão pelo património
popular e pela comum identificação ideológica e política
com os interesses do povo português. Optou-se em primeiro lugar por uma
conhecidíssima melodia, a do «Canta, camarada, canta».
Sabe-se como esta velha canção de contrabandistas transmontanos
adquirira durante o fascismo um cunho claramente progressista, não apenas
pelo facto de a Lopes-Graça se dever a sua divulgação,
mas também pelo uso do vocativo «camarada».

      A ideia era que o arranjo fosse puramente instrumental,
mas defrontou-se a dificuldade de a melodia possuir letra tradicional e bem
conhecida entre os democratas - sendo praticamente inevitável que a sua
execução coral acabasse a generalizar-se. E se nada vinha de mal
ao mundo se num comício da então APU se cantasse «canta,
camarada canta/canta que ninguém te afronta
», já parecia
polémico que no mesmo local se atroasse os ares afirmando «eu
hei-de morrer de um tiro/ou de uma faca de ponta
»... E se não
seriam de prever críticas ao «viva a malta, trema a terra/daqui
ninguém arredou
», as coisas poder-se-iam complicar com o «quem
há-de temer a guerra/sendo um homem como eu sou
»...

      Passou-se então à consulta do
livro «Cancioneiro Popular Português» de Michel
Giacometti
(Círculo de Leitores. Lisboa, 1981). Piano em frente,
lá se foi procurando e, uma semana decorrida, pelas três da manhã,
a «Carvalhesa» deve ter soado pela primeira vez fora de Trás-os-Montes,
de onde é natural. Em Julho desse ano gravou-se a primeira versão
e editou-se um maxi-single de vinyl.

      Como se explica no folheto que acompanhou essa
primeira edição, verificou-se, porém, ainda antes da gravação,
um «caso». Poucos dias depois da escolha, tinha-se procurado nos
discos dos «Arquivos Sonoros Portugueses», de Giacometti
e Lopes-Graça, se lá estaria a «Carvalhesa»
gravada em versão original e popular - e estava! Imediatamente se decidiu
pedir a Giacometti uma cópia da gravação e ter-se-ia
um excelente lado B do maxi-single.

      Contudo, ao ouvir o disco dos «Arquivos»,
verificou-se com grande perplexidade que a «Carvalhesa» que
o gravador de Giacometti registara em Trás-os-Montes e ali se
reproduzia não era manifestamente aquela cuja pauta se encontrava no
livro e que se iria utilizar. O mistério seria decifrado dias mais tarde
pelo próprio Giacometti.

      No início deste século, um jovem
maestro e compositor alemão, nascido em Berlim em 1882, fixou-se em Nova
Iorque. Estudara em Berlim e Munique, apenas com 20 anos era maestro assistente
da ópera de Stuttgart e, em 1905, começa a desempenhar idênticas
funções no New York Metropolitan. O seu nome - Kurt Schindler.

      O trabalho de Schindler nos Estados Unidos
foi profícuo em numerosas áreas. Criou, em 1909, o coro da MacDowell
Church (rebaptizado Schola Cantorum em 1912) que desempenhou importantíssimo
papel na divulgação e recuperação coral clássica
e moderna, foi organista do famoso Temple Emanu-El de Nova Iorque, compôs,
dirigiu.

      No final da década de 20, o laureado
maestro largou a sua confortável vida de músico reconhecido e
respeitado na grande metrópole e embarcou para a Europa para fazer investigação
etnográfica - em Espanha! A escolha do local não é surpreendente:
a música espanhola, coral e de órgão, estivera sempre no
centro dos interesses de Schindler, tanto quanto a música tradicional,
para a qual fora profundamente influenciado pelo seu professor de adolescência
Max Friedlander.

      De gravador de discos de alumínio debaixo
do braço, Schindler percorreu durante os anos de 1931 e 32 as
Astúrias, Navarra, o Norte da península, e, em 1932, atravessando
as difusas raias transmontanas, acabou por entrar em Portugal onde prosseguiu
o seu trabalho. Infelizmente, porém, o gravador avariara-se e Schindler
fez a sua recolha em Trás-os-Montes apenas mediante transcrições
musicais.

      Regressado aos EUA, viria a falecer em 1935.
Postumamente, a Columbia University editou o resultado das suas investigações
em «Folk Music and Poetry of Spain and Portugal» (Columbia
University. Hispanic Institut in the United States. New York, 1941. Existe uma
reedição do Centro de Cultura Tradicional. Salamanca, 1991. Vd.
http://digilib.nypl.org/dynaweb/ead/music/musschindle
).

      Mais de vinte anos depois, em 1958, um etnólogo
natural de Ajaccio, na Córsega, que acabara de dirigir uma missão
internacional de estudo do folclore das ilhas mediterrânicas, descobriu
o livro de Schindler nas prateleiras da biblioteca do Museu do Homem,
em Paris. Meses depois, sobraçando o primeiro gravador Nagra (ainda
de manivela!) a aparecer em Portugal, Michel Giacometti seguia as pisadas
de Schindler no Nordeste transmontano e entrava pela primeira vez num
país que iria adoptar como seu e que o iria adoptar como um dos seus
filhos.

      Nessas primeiras andanças por Trás-os-Montes,
Giacometti foi ainda encontrar a memória do investigador americano
que por ali andara duas décadas antes. E o seu tecnológico microfone
era comparado, pelos músicos populares que gravou, com a fascinação
que sobre eles exercera aquele estrangeiro que escrevia sinais num papel enquanto
os escutava para depois, quase misteriosamente, repetir exactamente os mesmos
sons lendo os pontos e riscos que anotara...

      Em 1981, Giacometti teve finalmente
possibilidades de editar o seu «Cancioneiro Popular Português»
e fê-lo com a probidade de intelectual e de homem de ciência que
era: nele não inclui exclusivamente os registos efectuadas durante o
seu trabalho e a sua colaboração com Fernando Lopes-Graça,
mas sim uma selecção geral - definida por critérios de
rigor e qualidade - do trabalho de quantos contribuíram para a recolha
de melodias criadas pelo povo português. E ali se encontram mesmo recolhas
de homens que, fixando embora a voz do povo, bem pouco a respeitavam, como o
caso do desconfiado musicólogo amador que, nos anos 60, informou pressuroso
a PIDE de que pelas suas terras andava pregando a subversão um francês
que recolhia melodias e tradições... Giacometti sorria,
quando contava: «Mandei-lhe o livro, telefonou-me, agradecendo, desfazendo-se
em desculpas, tentando explicar aquilo ..
» E, investigador apaixonado
e generoso, concluía: «É de direita, mas é um
bom homem. E muito sério nas recolhas que fez


      A «Carvalhesa» foi uma das
peças objecto de selecção. Exactamente na mesma aldeia
(Tuiselo, perto de Vinhais - Bragança) onde em 1932 Schindler
recolhera a melodia publicada em «Folk Songs...»,
Giacometti havia recolhido em 1970 uma outra, a que os seus executantes
populares atribuíam o mesmo nome, mas inteiramente diferente.

      O facto não é estranho. Como
se afirma nas notas do «Cancioneiro», «a
"CarvaIhesa", dança de quatro laços, era, com a "Murinheira"
e o "Passeado", o baile preferido da região. O instrumento
tradicional a acompanhar estas danças era a gaita de foles
».
Ou seja, a «Carvalhesa» é essencialmente uma dança,
para a qual se conhecem duas melodias, mas que poderá mesmo ter sido
dançada com outras entretanto perdidas. Face às duas versões,
Giacometti entendeu ser mais interessante a recolhida por esse compositor
alemão que fora o ausente cicerone da sua descoberta de Portugal. E,
página 217 do «Cancioneiro, tema 166, lá ficaria a «Carvalhesa»
recolhida por Kurt Schindler.

      O arranjo da «Carvalhesa»
gravado em 1985 acompanhou a actividade política do PCP em sucessivas
campanhas eleitorais, na Festa do «Avante!», cujos palcos sempre
abre e encerra e dos quais se tornou verdadeiramente emblemática.

Ruben de Carvalho
Julho de 2001

Wednesday, June 05, 2019

Tenho medo de perder a maravilha


Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de estátua e aquele acento
que de noite me imprime em plena face
de teu alento a solitária rosa.


Tenho pena de ser nesta ribeira
tronco sem ramos; e o que mais eu sinto
é não ter a flor, polpa, ou argila
para o gusano do meu sofrimento.

Se és o tesouro meu que oculto tenho
se és minha cruz e minha dor molhada,
se de teu senhorio sou o cão,

não me deixes perder o que ganhei
e as águas decora de teu rio
com as folhas do meu outono esquivo.

Federico García Lorca

Monday, May 27, 2019

*******


Não tenhas medo do escuro, Tomás.

O tio não sabe ao certo de que é feito este escuro que enegreceu as nossas vidas, mas sei que a tua luz prevalecerá, ainda que longe da nossa vista.

Sei que viverás na lembrança e no coração daqueles que tiveram o privilégio de contigo privar.

Desde logo, viverás na lembrança e no coração dos teus pais. E que pais tens tu, Tomás! Que corajosos, que fortes, que resilientes! A dimensão do seu amor por ti é algo inexplicável e impossível de traduzir em palavras!! Como angustiante é a dor que os seus olhos denunciam e os seus abraços confidenciam...

Viverás na lembrança e no coração dos teus avós, para quem serás sempre o seu primeiro e mais velho netinho. Da tua tia, para quem serás sempre o menino dos seus olhos. Não sabes como me rasgou por dentro ter que lhes dizer que não voltariam a ver o teu sorriso iluminado, o teu olhar contagiante, a tua doce tranquilidade...

Viverás na lembrança e no coração dos teus amigos e familiares, que não te largaram nestes últimos dias em que o mundo pareceu querer desabar. Que continuam agarrados aos teus pais, a ampará-los neste momento em que o vazio se torna cada vez mais ensurdecedor...

Os teus professores, os teus médicos, os teus enfermeiros, ninguém conseguiu ficar indiferente a esses teus olhos rasgados pela doçura e encanto.

Olho pela janela e vejo-te vestido de Super-Homem a sorrir-me e a acenar-me, enquanto rasgas o céu montado num dinossauro e escoltado pelas águias da vitória. Deixa-me sonhar Tomás, que já só me restam dúvidas que haja chão que nos ampare a queda...

Rogério Charraz

Sunday, May 19, 2019

AO RETRATO DE CATARINA



Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta

Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido

Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura

Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto

Carlos Aboim Inglez
 

Sunday, May 05, 2019

10 anos de Margarida


Uma flor

O meu jardim tem árvores relva flores e um lago. E uma casa.
Quando me passeio por lá olho as flores e vejo-as crescer, a cada dia. Agora os cravos.
A relva amacia-me os pés descalços e o aroma enche-me os pulmões. Terra-mãe.
As árvores são partes de mim plantadas há muito tempo, que cresceram frondosas e me abrigam. Um colo.
Há árvores com muitos anos, outras com menos, mas todas igualmente bonitas. Ouvem-me.
Duas são especiais. Uma enorme e outra mais pequena. Estão perto do lago e abraço-as. A minha casa.
O meu jardim tem todos os aromas e todas as cores. De todas as flores.
Há um canteiro diferente, ao pé do lago e perto das duas árvores. De cravos semeado. Já nascidos.
Mesmo ao lado um outro canteiro tem uma flor prestes a rebentar. De aroma diferente.
No lago do meu jardim está ancorado um barco, que me espera. Entro e remo por entre chorões e nenúfares e patos e cisnes. E há peixes que se escapam.
Toda a noite remei. À espera. Ao fim da manhã atraco o barco e vou ao canteiro ver da flor. Já nasceu.
É filha do amor e da poesia. É uma Margarida e cheira a bebé…



Amámos-te quando te soubemos
Amámos-te quando te víamos crescer sem te ver
Amámos-te quando te soubemos princesa
Amámos-te flor de Abril em Maio
Amámos-te no teu cheiro de bebé
Amámos-te em cada passo bailarina
Amámos-te em cada sorriso e em cada abraço
Amámos-te em cada desenho que fizeste
Amámos-te em cada estória que nos disseste
Amamos-te sempre, porque é impossível não te amar.

Thursday, April 25, 2019

A Hora das Gaivotas



Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra

É noite
É a espada líquida da noite
- Chicharro com pão dormido, camarada... 
pão dormido...

As gaivotas ensaiam o voo tresloucado
dos papagaios de papel
Parecem ter medo de poisar,
de dar descanso ao seu coração suspenso:
O medo de calar por dentro

- ... e rabanadas com três dias 
Tudo nos serve para medir o tempo 
Eles não sonham...

É a mais líquida de todas as noites
Nada se conforma no seu próprio destino:
As casas,
O mar,
As gaivotas,
Os homens...
Tudo parece convergir para o ninho inevitável
onde todas as coisas regressam à sua razão de ser:
A Liberdade

(A Patética de Tchaikovsky escorre de um velho gira-discos para as paredes do refeitório)

- É tão louco este mundo, camarada 
1893, 1893. O ano da Patética, o ano do Grito de Edvard Munch 
O maior grito da humanidade 
O inexplicável grito de todos nós

Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e, protegidas pelos pais,
adivinham por detrás das cortinas
um sinal que dê sentido a tudo
Ninguém sabe o que espera mas toda a gente espera em silêncio

É como se a terra soubesse
que há dias em que o mundo tem de ser redondo

3 de Janeiro de 1960
Às sete em ponto da tarde

Adagio–Allegro non troppo

- Nada me passa na garganta, só um grito mudo... 
- A estrada ainda está deserta, nem uma luz... Mas ele há-de vir! 
- Somos 10, estamos contados
- Contemo-nos de novo: 
Álvaro, 
Jaime, 
Joaquim,
Carlos, 
Francisco, 
José, 
Guilherme, 
Pedro, 
Rogério, 
Francisco.

E eu, e tu, e quem atrás de nós vier
E todos os que hão-de nascer
Com uma côdea no céu-da-boca

É por isso que o mar espalha a sua toalha bordada
na praia, aos nossos pés
para, da sua eterna sabedoria, nos prendar com a nossa igualdade

Allegro com grazia

- Pai, olha aquele carro, olha aquele carro 
- Apaga a luz, apaga a luz... 
Vem com a mala aberta, devagarinho, devagarinho... - 
Vem do lado das docas... 
- Pai, repara, as gaivotas pousaram todas... 
-... e parou em frente ao forte 
É a hora das gaivotas É a hora das gaivotas 
O homem está a sair do carro, pai... 
- Sim. Vai fechar a mala, certamente... 
- Olha, as gaivotas, com o som da mala a fechar, levantaram voo novamente 
- São misteriosas as campainhas do destino

Allegro molto vivace

Em todas as casas há um coração suspenso
pelo medo e pela saudade
e uma boca amarrada às paredes cegas

- Francisco, rasga esses lençóis 
que nos fizeram para sudários.

Todas as palavras são medidas
como as sardinhas
e quase nunca é domingo

- Vá, tu sabes dar os nós de pescador 
Une as tiras e dá-lhes um nó no meio 
para que as mãos encontrem mais firmeza

A terrina ocupa o centro da mesa
as crianças são servidas primeiro
Apenas o tilintar das colheres
abre feridas no silêncio das casas
E as côdeas de pão dormido
quando estalam no céu-da-boca

- Somos 10, estamos contados 
A corda tem de servir 10 vezes, camarada

O jantar é em silêncio
Mas quando o cavalo azul galopa pelas muralhas
ouve-se a sua pulsação
a estalar o coração das gentes

- Pai, posso ir à janela?
- O carro já se foi embora. Não há nada para ver. Acaba a sopa
- Há, pai! As gaivotas não se calam
E as ondas batem sem conta certa
- Deixa-me apagar a luz...
- Pai, passaram dois carros grandes mesmo agora. Um seguiu em frente e o outro está parado à porta da vizinha com as luzes apagadas
- Esperam alguém. É gente de bem

Finale — Adagio lamentoso

- Não olhes para baixo, camarada
E o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
- Pai, há uma corda a baloiçar na parede do forte... 
Em todas as casas há um coração suspenso
e um lugar vazio à mesa
- Isso, conta os nós... tu sabes a conta certa 
Não olhes para baixo 
- Pai, o homem pôs o carro a trabalhar... 
Os gritos das gaivotas cobrem com um véu de tule
os ruídos dos ossos contra as pedras
É a natureza do lado certo
- Pai, outro homem... e outro... e outro... 
É o medo contaminado pela esperança
e a espada líquida da noite virada de feição
- Pai, ajuda-me... não entendo, não entendo... 
- É a hora das gaivotas, meu amor!

João Monge

Wednesday, April 24, 2019

45 anos de Abril





"De novo vieste em flor
Te desfolhei
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"


Thursday, March 21, 2019

No dia Mundial da Poesia


A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo


Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "O Nome das Coisas"

Saturday, March 02, 2019

AMOR


Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.


Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -.

Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
e mais.

Pablo Neruda

Saturday, January 19, 2019

Adeus



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

Monday, December 24, 2018

Litania para o Natal de 1967


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão-Ferreira

Sunday, December 23, 2018

...........




É isto!
(foto da net)

Friday, December 07, 2018

Soneto presente



Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.


Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

José Carlos Ary dos Santos