Sunday, July 20, 2014

BILHETE DE IDENTIDADE


Toma nota!
Sou árabe
O número do meu bilhete de identidade: cinquenta mil
Número de filhos: oito
E o nono… chegará depois do verão!
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Trabalho numa pedreira com os meus companheiros de fadiga
E tenho oito filhos
O seu pedaço de pão
As suas roupas, os seus cadernos
Arranco-os dos rochedos…
E não venho mendigar à tua porta
Nem me encolho no átrio do teu palácio.
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Sou o meu nome próprio – sem apelido
Infinitamente paciente num país onde todos
Vivem sobre as brasas da raiva.
As minhas raízes…
Foram lançadas antes do nascimento do tempo
Antes da efusão do que é duradouro
Antes do cipreste e da oliveira
Antes da eclosão da erva
O meu pai… é de uma família de lavradores
Nada tem a ver com as pessoas notáveis
O meu avô era camponês – um ser
Sem valor – nem ascendência.
A minha casa, uma cabana de guarda
Feita de troncos e ramos
Eis o que eu sou – Agrada-te?
Sou o meu nome próprio – sem apelido!

Toma nota!
Sou árabe
Os meus cabelos… da cor do carvão
Os meus olhos… da cor do café
Sinais particulares:
Na cabeça uma kufia com o cordão bem apertado
E a palma da minha mão é dura como uma pedra
… esfola quem a aperta
A minha morada:
Sou de uma aldeia isolada…
Onde as ruas já não têm nomes
E todos os homens… trabalham no campo e na pedreira.
Será que ficas irritado?

Toma nota!
Sou árabe
Tu saqueaste as vinhas dos meus pais
E a terra que eu cultivava
Eu e os meus filhos
Levaste-nos tudo excepto
Estas rochas
Para a sobrevivência dos meus netos
Mas o vosso governo vai também apoderar-se delas
… ao que dizem!

… Então

Toma nota!
Ao alto da primeira página
Eu não odeio os homens
E não ataco ninguém mas
Se tiver fome
Comerei a carne de quem violou os meus direitos
Cuidado! Cuidado
Com a minha fome e com a minha raiva!

Mahmoud Darwish
(Palestina, 1941-2008)

Tuesday, July 15, 2014

Agradecendo


Os Amigos

Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade
in "Coração do Dia"

Com este poema de Amigo do Eugénio de Andrade agradeço a todos os Amigos que estiveram na sexta-feira na apresentação do Mar de Abril, em Caldas da Rainha, e dizer-vos que foi uma noite emotiva, quase surpreendente.
De facto, o José Carlos Faria foi muito generoso nas palavras que proferiu (não mereço tanto, e sei-o, mesmo) e o Rogério Charraz pregou-me mesmo uma partida, no fim. Creio ter sido a primeira vez que cantou aquela cantiga em público...
Mais uma vez o meu sincero Muito Obrigada a todos!

Boa noite.

Thursday, July 10, 2014

Agora em Caldas...


Quem quiser passar por lá será bem vindo.

Saturday, July 05, 2014

Agradecendo


AMIGO

Amigo
É mais que uma palavra, é uma aragem de esperança

Amigo
É mais que um irmão, é um “sempre presente”

Amigo
É mais que o sol ou a lua, a chuva ou o vento

Amigo é terra, porque fecunda e dá fruto
É mãe, porque protege
É mar, porque é vida

Amigo é tanto!

Amigo é ar, porque respira
É fogo, porque aquece
É partilha, porque cúmplice

Amigo é abraço
Amigo é ternura
Amigo, sem cansaço
É a forma de amor mais pura

Amigo é tanto que nem cabe na palma da mão!

Com estas palavras agradeço a presença de todos os Amigos no lançamento do Mar de Abril, agradeço as emoções, as lágrimas, os abraços. Foi um dia muito especial para mim, que guardarei no lado esquerdo do peito. Que é também o lado por onde caminho na vida.
A todos o meu Muito Obrigada!

Monday, June 23, 2014

Mar de Abril


Gostava de vos ver por lá...

Monday, June 16, 2014

Acetinada



Rompo esta saudade a cantar
No vai e vem de todas as marés
Na pele no olhar no verbo amar
E na espuma das ondas a beijar-te os pés

Sei do cheiro que me trespassa
E da cor da rocha feita leito
Em cada gaivota que aqui passa
Vai um pouco de nós, de qualquer jeito

Aqui respiro aqui amo e fico enfim
Nas memórias da minha inquietação
E a presença do amor pele de cetim
Guardo fechada, para sempre, no coração.

Friday, June 13, 2014

Memória de Álvaro Cunhal



Uma chama não se prende

Rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50

inteira
Não cedeu.

Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950

só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»

não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção
e a sua orientação política

Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
e o vigor da inteligência Responde por si
e pelos seus como quem acusa
e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11 anos seguidos, preso,
14 meses incomunicável,
8 anos em isolamento
E não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina

Não cede lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela
Não cede e escreve
A Questão Agrária
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve
Até Amanhã, camaradas

o homem livre encarcerado
fugiu enfim
colectivamente
a 3 de Janeiro de 1960


e nunca mais foi apanhado




Manuel Gusmão


(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal»)

Memória de Eugénio de Andrade



Até Amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade

Wednesday, June 11, 2014

Memória de Vasco Gonçalves


O Comum da Terra

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
de cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

Wednesday, May 28, 2014

..................


Quando nasci, era preto.
Quando cresci, era preto.
Quando pego sol, fico preto.
Quando sinto frio, continuo preto.
Quando estou assustado, também fico preto.
Quando estou doente, preto.
E, quando eu morrer continuarei preto !

E tu, cara branco.
Quando nasce, é rosa.
Quando cresce, é branco.
Quando pega sol, fica vermelho.
Quando sente frio, fica roxo.
Quando se assusta, fica amarelo.
Quando está doente, fica verde.
Quando morrer, ficará cinzento.

E vem me chamar de homem de cor ?

(Escrito por uma criança Angolana)

Friday, May 16, 2014

Porque me apetece Joaquim Pessoa



Dizer catorze versos ao acaso,
falar de ti, de mim, falar de nós.
De nós, que nos cantamos num abraço
e que nos abraçamos com a voz.

Que vou dizer de ti, eu, que te amo
e isso é ter-te em mim, como se eu fosse
cada um dos momentos em que chamo
por Deus que me criou quando te trouxe.

Ó meu amor, que vou dizer-te agora
quando nada me chega para o canto
que de ti se alimenta e me devora?

Cantar-te, estando lúcido, é estar louco.
Não sei que mais dizer-te nesta hora,
pois dizer que te amo é muito pouco.

Joaquim Pessoa
(in O Pouco é para ontem)

Monday, May 05, 2014

Uma Flor


O meu jardim tem árvores relva flores e um lago. E uma casa.
Quando me passeio por lá olho as flores e vejo-as crescer, a cada dia. Agora os cravos.
A relva amacia-me os pés descalços e o aroma enche-me os pulmões. Terra-mãe.
As ávores são partes de mim plantadas há muito tempo, que cresceram frondosas e me abrigam. Um colo.
Há árvores com muitos anos, outras com menos, mas todas igualmente bonitas. Ouvem-me.
Duas são especiais. Uma enorme e outra mais pequena. Estão perto do lago e abraço-as. A minha casa.
O meu jardim tem todos os aromas e todas as cores. De todas as flores.
Há um canteiro diferente, ao pé do lago e perto das duas árvores. De cravos semeado. Já nascidos.
Mesmo ao lado um outro canteiro tem uma flor prestes a rebentar. De aroma diferente.
No lago do meu jardim está ancorado um barco, que me espera. Entro e remo por entre chorões e nenúfares e patos e cisnes. E há peixes que se escapam.
Toda a noite remei. À espera. Ao fim da manhã atraco o barco e vou ao canteiro ver da flor. Já nasceu.
É filha do amor e da poesia. É uma Margarida e cheira a bébé…

Thursday, May 01, 2014

VIVA O 1º DE MAIO!




Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã

Thursday, April 24, 2014

Liberdade




No verde dos campos te semeio
e de mim nasces como um rio
nas ruas te festejo e te premeio
no vermelho dos cravos te sorrio

No amarelo do sol que nos aquece
desenho um malmequer que não desfolho
e ao branco da lua que te esconde
atiro beijos que chegam aos teus olhos

No azul do mar em que me deito
oiço cantos de sereias sem idade
descanso-me na rocha, e é já refeito
que em todas as cores te conquisto, Liberdade!

Friday, April 18, 2014

Música para o fim-de-semana




Os Bravos

Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia

Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho

As ondas do mar são brancas (x2)
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
P'ra morrer no meio delas