Friday, April 29, 2016

O MAR


Ondas que descansam no seu gesto nupcial
abrem-se e caem
amorosamente sobre os próprios lábios
e a areia
ancas verdes violetas na violência viva
rumor do ilimite na gravidez da água
sussuros gritos minerais inércia magnífica
volúpia de agonia movimentos de amor
morte em cada onda sublevação inaugural
abre-se o corpo que ama na consciência nua
e o corpo é o instante nunca mais e sempre
ó seios e nuvens que na areia se despenham
ó vento anterior ao vento ó cabeças espumosas
ó silêncio sobre o estrépido de amorosas explosões
ó eternidade do mar ensimesmado unânime
em amor e desamor de anónimos amplexos
múltiplo e uno nas suas baixelas cintilantes
ó mar ó presença ondulada do infinito
ó retorno incessante da paixão frigidíssima
ó violenta indolência sempre longínqua sempre ausente
ó catedral profunda que desmoronando-se permanece!
 
António Ramos Rosa

3 comments:

Rogerio G. V. Pereira said...

ó poema, de manso mar

... e se a presença do mar infinito
se revoltar?

Justine said...

Estaria o poeta a falar do "nosso" mar? Poderia ser...
Tenho saudades
beijo

Rui Fernandes said...

Intensamente erótico este olhar sobre o mar. É um mar , certamente, que se revolve e se embate contra o litoral. Quantos mares haverá no mar?