Monday, September 09, 2013

Corpo de mulher...


Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
pareces-te com o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.

Pablo Neruda, 

in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

4 comments:

Fernando Santos (Chana) said...

Excelente poema....
Cumprimentos

Cris Caetano said...

Neruda é sempre para encher a alma...

Beijinhos, Maria

mariam [Maria Martins] said...

Tenho livro. Adoro!
Beijinhos :)
mariam

A.S. said...

Belissimo!...!!!

Um beijo Maria!

AL