Tuesday, May 21, 2013

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Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.

Maria Eugénia Cunhal
(in Silêncio de Vidro)

5 comments:

samuel said...

Que coisa boa!!!
É impossível de musicar... ou, pelo menos, extremamente difícil... e ainda assim tem música a derramar-se de cada palavra.

Beijo.

Agulheta said...

Que poema tão lindo!O irmão tinha muitos e maravilhosos,a irmã não sabia.Os desenhos de Cunhal os vi quando visitei o forte de Peniche,e vi muita coisa por lá entre as quais cartas de um preso daqui da terra que conheci era nosso amigo,uma boa pessoa.
Obrigada pela partilha.Beijinhos

heretico said...

dulcissimo! como uma carícia (im)possível...

sublime serenidade!...

beijo

GR said...

Já tive dois livros de poesia da Eugénia Cunhal, ofereci-os (a um camarada que estava muito doente)nunca mais os vi à venda.

Todos belíssimos poemas.

GD BJ,

GR

Licínia Quitério said...

Que doçura, que serenidade, que Senhora esta!