Tuesday, October 15, 2013

imagina uma ponte que tem do outro lado a democracia


Imagina um país em que o primeiro-ministro responsável pelo desbarato dos fundos comunitários, pela destruição das pescas, da produção industrial, da agricultura, pela generalização do crédito bancário, é actualmente presidente. Imagina um país entregue duas vezes ao FMI pelo homem que inventou o contrato precário, destruiu a reforma agrária, e que depois de primeiro-ministro foi presidente.
Imagina um país em que os que juram defender a Constituição, são os mordomos dos monopólios e dos interesses privados que a querem desfigurar e rasgar. Imagina um país em que o primeiro-ministro responsável por duplicar a dívida pública, que salvou com o teu dinheiro banqueiros corruptos, que entregou por uma terceira vez esse país às mãos do FMI para tapar os buracos abertos pelo desmando da banca e dos agiotas, é hoje reputado comentador político com direito a programa de televisão regular.
Imagina um país em que ministros fingem ter cursos superiores. Imagina um país em que ministros e secretários de estado omitem as suas relações com a banca e com criminosos. Imagina um país em que os ministros são indicados pelos mesmos grupos económicos que vivem da tua pobreza. Um país em que os ministros pedem desculpa a empresários por serem investigados em crimes. Imagina um país em que os ministros mentem sobre a sua responsabilidade em contratos ruinosos para o estado que gerem.
Imagina um país em que o partido afirma antes das eleições não pretender aumentar impostos, despedir funcionários públicos, cortar rendimentos, pensões de reforma e subsídios para depois de as vencer aumentar os impostos, despedir funcionários públicos, cortar rendimentos, pensões de reforma e subsídios. Imagina um país em que um partido com 14% dos votos determina a política orçamental, económica e educativa e designa um vice-primeiro-ministro. 
Imagina um país que realiza eleições apenas para fingir que é democrático porque o verdadeiro programa de governo estava já assinado com entidades estrangeiras. Imagina um país em que três partidos são poder há 38 anos consecutivos. 
Imagina um país que os teus amigos são obrigados a abandonar. 
Imagina um país onde só os ricos podem ter direito à saúde, à educação.
Imagina um país em que as empresas públicas são entregues a grupos privados pelo dinheiro que podem produzir em poucos anos.
Imagina um país onde podes ser despedido só porque o patrão tem quem faça o mesmo por menos.
Imagina um país onde as crianças passam fome.
Imagina um país onde mais de 60% da riqueza produzida num ano é distribuída como rendimento de capital e menos de 40% é distribuída como rendimento de trabalho. Imagina um país em que a receita fiscal sobre rendimentos incide em 73% sobre os rendimentos do trabalho e 27% sobre os de capital.
Imagina um país em que encerram milhares de escolas e metem as crianças a fazer 3 horas diárias de autocarro para chegar à escola que já não têm perto de casa. Imagina um país onde não há orçamento de estado para a cultura e para as artes.
Imagina um país em que se entregam as estradas, os hospitais, as escolas, os correios, a água, os aeroportos, as telecomunicações, os aviões, e tudo o mais que te possas lembrar, a grupos não eleitos de accionistas que gerem o que foi construído com o esforço de todos apenas para benefício de alguns.
Imagina que vives num país que rouba as poupanças dos seus idosos, de quem trabalhou uma vida inteira e merece descanso. 
Imagina que vives num país em que os próprios governantes escolhidos pelo povo governam para desviar a riqueza para outros países, para contas bancárias privadas, beneficiando aqueles que destruíram as tuas empresas, a tua riqueza.
Agora, imagina que vives nesse país.
E que dia 19 há manifestação contra a decadência, contra a exploração e o empobrecimento. 
Imagina que no teu país há uma ponte.
 
Miguel Tiago
(Publicado Terça-feira, 15 de Outubro de 2013, no blog kontra korrente)

Thursday, October 10, 2013

Nocturno


O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele... Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...


Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim à beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...

David Mourão-Ferreira

Monday, September 23, 2013

Memória de Pablo Neruda

Ao meu Partido

Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como sobre uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível, porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.


Pablo Neruda

Morreu há precisamente 40 anos.

Wednesday, September 11, 2013

Faz hoje 40 anos


Para que nunca se esqueça



HOMENAGEM AO POVO DO CHILE

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.

 
José Carlos Ary dos Santos

Monday, September 09, 2013

Corpo de mulher...


Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
pareces-te com o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.

Pablo Neruda, 

in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"

Friday, September 06, 2013

É A FESTA!




AQUI. TRÊS DIAS. ONDE SE RESPIRA MELHOR!

Wednesday, September 04, 2013

*

"O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz."

Eugénio de Andrade

Sunday, August 25, 2013

Pequeno poema


Klimt, Mãe e Filho

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais... Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu.
As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe...

(Sebastião da Gama)

Monday, August 19, 2013

Friday, August 16, 2013

Um abraço daqui a Havana


Para receber uns amigos que chegam amanhã. Da Ilha!



Bienvenidos, Anívea y Daniel

Friday, August 09, 2013

Até amanhã, Camarada!


Dia de Nagasaki.
Dia de Urbano Tavares Rodrigues.


Trago na fonte
e estrela do fogo
da minha revolta
Nunca aceitaria qualquer tirania
nem a do dinheiro
nem a do mais justo ditador
nem a própria vida eu aceito…
tal como ela é
com todas as promessas
do amor e da juventude
e a parda doença
de envelhecer
a morte em cada dia
antecipada
 

Tuesday, August 06, 2013

Hiroshima



Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

(Vinicius de Moraes)

Tuesday, July 30, 2013

Porque me faltam as palavras para te dizer...


Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

Thursday, July 25, 2013

Há quatro anos escrevi isto


Neste tempo hoje


Hoje apetecia-me colocar aqui poemas de Brecht. Meia dúzia de poemas de Brecht. Porque todos eles estão mais que actuais e fazem todo o sentido. Mas prefiro dizer palavras que me estão a martelar e querem sair. Faço-lhes a vontade, o trabalho vai esperar cinco minutos (não é muito) e vou deixar as palavras sair.
Neste tempo hoje não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E uma enorme alegria em fazê-lo.
Estou numa zona do país que é o meu em que o trabalho político é difícil, muito difícil. Mas é assim que eu gosto. Nunca gostei de coisas fáceis, não têm sabor. É um trabalho feito contacto a contacto, amigo a amigo, e nunca o subir e descer ruas de pedras irregulares me deu tanto gozo. Sei que há compensações.
Porque neste tempo hoje não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E há uma enorme alegria em fazê-lo.
Há quatro anos, nesta mesma cidade capital de distrito, depois de todas as listas terminadas, do computador estar fechado e de todos nós nos olharmos e respirarmos com um sorriso apareceu um camarada por volta da hora do almoço - as listas seriam entregues no Tribunal às duas da tarde - com uns papéis na mão. Mais uma lista. Onde? Vamos concorrer a Sortelha. O quê? Sortelha? Sim, mas como já fechaste o computador eu faço as listas à mão. Era o que faltava.
Porque neste tempo hoje não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E há uma enorme alegria em fazê-lo.
Volta a abrir o computador e toca de fazer a lista à assembleia de freguesia de Sortelha. Disse na altura que, se metessemos uma pessoa, viria aqui festejar. Não metemos uma, numa lista de sete metemos três! Cada nome para a lista trabalhado até ao fim. Convencer as pessoas, numa zona difícil como esta. Cada voto conquistado a pulso.
Porque há trabalho que tem de ser feito e uma enorme alegria em fazê-lo.
O caminho faz-se caminhando, dizia o poeta.
Venham mais ruas de pedras irregulares e desconjuntadas, para que nestas duas semanas que ainda faltam podermos encontrar e falar e convencer pessoas honestas a fazerem parte das nossas listas. Cada nome é um bem precioso porque significa que essa pessoa não tem medo, aqui. Cada voto uma conquista que sabe tão bem...
E pronto, as palavras já saíram e eu gastei mais de cinco minutos. Logo recupero. Tudo estará pronto a tempo e horas. Sem cansaço, porque não pode haver cansaço. Como tão bem disse Brecht...
Neste tempo hoje em que não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E há uma enorme alegria em fazê-lo...

_________________________

Mantém-se a confiança nas pessoas que abordamos e no resultado do nosso esforço.

Mantém-se a alegria no trabalho que fazemos.
Mas o tempo corre tão depressa...

Sunday, July 21, 2013

Calor




O calor. Os Camaradas. Os Amigos. A forma como somos recebidos. A alegria de estarmos novamente juntos. Apesar do calor. 
A preocupação, justa, porque existem alguns atrasos. Mas a certeza de que tudo ficará pronto a tempo e horas. E o calor. 
Entro agora na segunda semana de trabalho aqui, preparada para uma avalanche (que eu desejo) de papéis. Chamam-lhe 'processos'. Dificultam-nos a vida o mais possível, fazendo exigências que não fazem a outras forças políticas ou noutros concelhos. Mas nós respondemos! Apesar do calor.
O convívio, tão salutar e apetecido e desfrutado e plenamente vivido em duas ocasiões, os tais 'tempos mortos' em que não há papéis. Convívio à volta da mesa, um cabrito assado e muita conversa e muito colo (que as crianças querem, exigem, gostam de colo, e nós gostamos de o dar). Outro momento de convívio, sempre à volta da mesa, leitão assado na brasa. E o calor.
Faz-se hoje o balanço do que já está feito e do que falta fazer. E é preciso voltar à rua, contactar mais gente. Cada vez mais. Que se vai juntando, lentamente, a nós. Pois que venham, serão bem recebidos. E farão parte das listas. A que outros chamam 'processos'. Para mim, são gente, são Camaradas e Amigos.
O raio do calor é que podia ir embora...

p.s. a foto é o que vejo todos os dias quando chego ao Centro de Trabalho do Partido!

Saturday, July 13, 2013

Música para o fim-de-semana




E agora vou para a minha tarefa do costume. De 4 em 4 anos.
Virei aqui quando houver uns 'intervalinhos' no trabalho.
Até já, Guarda! Até um dia destes, meus Amigos...

Monday, July 08, 2013

Confissão


Lembro-me de ter andado neste campo,
de ter sacudido o sol de dentro das espigas,
de ter ouvido ao longe alguém rir e depois o silêncio,
de sentir que nada se passava ao passar pelos muros,
de não ver ninguém e era a tarde a começar,
de fechar os olhos para me libertar do azul,
e de os abrir como se o céu tivesse outra cor,
de olhar para uma casa como se alguém a habitasse,
e de saber que as janelas se abrem para ninguém,
de perguntar de onde veio a flor que colheste,
sem me lembrar que é o tempo das flores,
de te perguntar quem és sem ouvir uma palavra,
e de ouvir tudo o que a tua respiração me diz,
de teres pousado a cabeça no chão
como se a terra te dissesse um segredo,
e de ter adivinhado o que a terra te disse
quando te olhei, e o teu rosto dizia tudo.

Nuno Júdice

Saturday, July 06, 2013