Saturday, June 14, 2008

Adeus


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

(Eugénio de Andrade)

34 comments:

Vera said...

Decididamente o meu poema favorito de Eugénio de Andrade. Antes de o ler, quando vi apenas o título, pensei imediatamente nele e... é mesmo!
Obrigada Maria!

Mil beijos

tulipa said...

"Há sempre uma saída
Seja na morte ou na vida
Tens de decidir
O caminho para onde ir "

A isto se resume esta Vida!!!

Metade de mim
é um sinal verde,
a outra metade é...

Bom fim de semana.
Abraços.

BELA ESCOLHA:
EUGÉNIO DE ANDRADE.
GOSTEI MUITO.

Pitanga Doce said...

E tem fundamento Maria? Espero que não.

beijos e boa viagem

BlueVelvet said...

HEHE,
o meu colinho favorito voltou!
E este senhor é o maior, quse o meu favorito,( O Drummond é mais) mas não estão nada gastas as palavras.
Não podem estar.
Ele estava tristinho quando escreveu isto.
Para ti é Hasta la Vista!
beijinhos e veludinhosssssssss

Carminda Pinho said...

Adeus, de Eugénio de Andrade, um dos poemas mais bonitos que já li.
Deixou-nos há precisamente 3 anos, mas a sua obra aí está a imortalizá-lo.

Beijos, Maria e bem vinda.

isabel said...

que bom que voltaste!

e com um poema lindissimo, para quem não "leva" com ele, claro :)

beijo grande

amigona avó e a neta princesa said...

Sabes que me assustaste? Depois vi o poema e ...fiquei assim extasiada! Lindo Maria!Beijocas...

Anonymous said...

que bom que já cá estás: )! sei que adoras estar na tua ilha ( e fazes muito bem), mas sinto a tua falta!

o Amigo Eugénio, no seu melhor ( também, no seu pior, não conheço :)...)!!!

obrigada pelo teu cuidado com a minha maleita. a "coisa" vai devagarinho, mas há-de passar...
beijocassssss
vovó Mria

pin gente said...

que tal, foi excelente? imagino que sim... até sinto o aroma renovado.

este poema entristece-me tanto.
gosto dele, mas fico sempre triste quando o leio.
abraço
luísa

Fernando Samuel said...

Tão tristes que são os «adeus» - e como podem ser tão belos...
Um beijo.

samuel said...

Ah... és mesmo tu... não estava a conhecer, tal é o "bronze"...

poesianopopular said...

Maria
Que bem, soubeste usar as palavras de Eug�nio de andrade!

...mas que pau-de-canela?
� a Maria t�o s�mente!
-Chegada da ilha mais bela,
com bronzeado reluzente.

Comfessa:-n�o estavas � espera desta!
Bjos

Ana said...

Realmente há alturas em que o passado parece inútil como um trapo.
Mas é apenas um estado de alma.
Assim não se torne permanente.

Belo poema este.

Beijinho

E BEM REGRESSADA!

Maria P. said...

Um dos meus favoritos...

Mas um regresso com sabor a "Adeus" não, está bem?:)

Beijinho, Maria*

Eduardo Aleixo said...

Bem lindo.

Eduardo Aleixo

Justine said...

Há dois dias ouvi este pungente poema magistralmente dito por um jovem de 15 anos. Comovente até às lágrimas.


P.S.: renovada e pronta para voos de atravessar oceanos??
Beijo doce(o teu está salgado)

bettips said...

...há sempre alguém que diz NÃO!
Entre a ilha e o lugar onde se faz a magia, de encontros amigáveis.
Ter um gosto comum. E outros comuns a partilhar.
Bjinho, Maria

salvoconduto said...

O corpo de Eugénio de Andrade foi ontem transladado para um túmulo desenhado por Sisa Vieira.
Na campa rasa de mármore branco estão inscritos versos do livro "As mãos eos frutos".
Ontem foi também o terceiro aniversário da sua morte, o mesmo dia em faleceu outra figura de vulto, Álvaro Cunhal.

Obrigado Maria por divulgar a sua obra.

Cris Caetano said...

Obrigada, pelo sempre maravilhoso Eugenio de Andrade!

Bom fim de semana, Maria!
Beijinhos

Rosa Maria said...

Este poema é uma maravilha.

Diz-me tanto...

Beijos

tufa tau said...

consigo manter o silêncio nas palavras, não no coração
vivo o passado e no passado para me manter
lúcida? não sei. será como tiver que ser
sei que a tudo me prendo sem estar numa prisão

beijo, maria
deixo um olá em toca do adeus

Besnico di Roma said...

Olá Maria!

Palavras sábias as de Eugénio de Andrade

Ontem estive em Peniche… mesmo ali ao lado, mas não te conhecia.
Ontem tal como antigamente, no tempo em que o odor da sardinha assada da Feira Popular te dava, nos dava, a indicação que tinha chegado a Primavera… mesmo ali ao lado, mas não te conhecia. Provavelmente eras uma daquelas miúdas para quem eu ficava a olhar, sem saber porquê e quando voltava a prestar atenção tinha o gelado de dois sabores em cone de barquilho a “derreter-se-me” pelos cotovelos abaixo…

Desculpa contactar-te assim… mas não sei o teu e-mail e precisava de te contactar – cavalheiro honesto, assunto sério, resposta ao Rossio 11 (que parvoíce, acho que não era bem isto que eu queria dizer) 

Agradeço o comentário que fizeste no meu blog.

Beijitos

Mar Arável said...

TODA A OBRA DE EUGÉNIO

É IMPERDÍVEL

Lúcia said...

É dos meus preferidos. Só não digo que é o preferido, por pudor (do Eugénio, é sempre difícil). Sentido e belo.
Beijos

Sal said...

Ai Maria...
este poema é lindo de morrer..


...

olha
...

morri...



beijinho

(seja bem aparecida que já cá tinha vindo umas dez vezes...)

Ana said...

As palavras de Eugénio de Andrade não se gastam, por muito que sejam lidas.

Gostei de te ver de volta.
Um beijo, Maria.

Maria said...

Eugénio de Andrade é, será sempre, o grande poeta Eugénio de Andrade...

Obrigada pela vossa passagem.
Bom Domingo

Maçã com Canela said...

Que poema tão bonito Maria... acho que já o tinha lido algures...

Espero que tenhas descansado e aproveitado ao maximo a ilha...

Eu voltarei concerteza brevemente!

Um beijo

Maçã com Canela said...

Que poema tão bonito Maria... acho que já o tinha lido algures...

Espero que tenhas descansado e aproveitado ao maximo a ilha...

Eu voltarei concerteza brevemente!

Um beijo

Maria said...

maçã com canela

Também eu volto lá, mas só em Setembro.
Julho e Agosto tem muita gente....

Beijo grande

Luís said...

Este poema já desenhou tantas noites solitárias...

Maria said...

luís

Que bom é ver-te por aqui...

Beijo

elvira carvalho said...

Um lindo poema.
Um abraço

elvira carvalho said...

Um lindo poema.
Um abraço