Monday, August 15, 2011

Para ti, com um abraço forte!



Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.



Eugénio de Andrade

9 comments:

Filoxera said...

Tenho andado a ler Eugénio de Andrade. :-)

Este abraço, é hoje e sempre...

Beijos.

salvoconduto said...

Se vais com as aves vais em boa companhia. Ainda bem que temos asas.

Abreijos.

trepadeira said...

Com as aves quero eu andar.

Há coisas que o poetas dizem bem por nós.

Um abraço,
mário

Fernando Samuel said...

É pelo caminho das aves que lá chegaremos...

Um beijo grande.

GR said...

Sim! iremos pelo Caminho das Aves.

GD BJ,

GR

Justine said...

Lá fiquei eu com o olhar meio desfocado e húmido...
Poema imortal e que tanto me diz!

Cris Caetano said...

Demora não, tá? :)

Beijão, Maria

svasconcelos said...

Ai , Maria, como eu adoro revisitar este poema! grande memória, esta que trouxeste. beijo!

Maria said...

Obrigada a todos que passaram por aqui.

Beijos.