Wednesday, July 06, 2011

Portugal


Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente

Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional (que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas

Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador

Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade

Portugal
Estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete
Salazar estava no poder - nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre - nada de ressentimentos

Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe

Portugal
Gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

(Jorge Sousa Braga)

19 comments:

salvoconduto said...

Eu gosto muito de Portugal.
Eu nunca fui a Portugal. Eu nunca bebi vinagre, mas às vezes até parece. Viva Portugal, com ou sem ressentimentos. Viva a Pátria. Eu nunca fui à Pátria. Nada de ressentimentos.

Abreijos.

Constantino, Guardador de Vacas said...

Jorge Sousa Braga é dois anos mais novo do que eu e eu já bebi álcool puro.
Não conheço o autor, o que é de facto uma lacuna cultural, a ter em conta a amostra.
Obrigado.

João P. said...

Gostei (muito)

a chatice é que as paixões avassaladoras também nos consomem e esse homem é um apaixonado. somos 2

Obrigado

João

samuel said...

Já nem me lembrava... muito bom!

Abreijo.

zmsantos said...

Ai Portugal, Portugal...

anamar said...

Que maravilha, Maria.
Obrigada.
Ontem defronte para o mar e só ali reatei a minha paixão por este torrão sem ter o ressentimento de não poder ir até outros lugares.
Gosto e ponto final.
Bj

Rosa dos Ventos said...

Amo Portugal!
É mesmo uma doença incurável esta de amarmos a nossa mal tratada Pátria!
Interessante poema que não conhecia!

Abraço

trepadeira said...

Amo-o lucidamente,para nunca desistir de modificá-lo.

Um abraço,
mário

mfc said...

Era bom conseguir gostar-se... é uma questão de amor não correspondido!
(Só não sei por parte de quem...)

Memória de Elefante said...

Que bela declaração de amor à sua Pátria!

Não conhecia este escritor.
Muito bom!

Um beijo

Leticia Gabian said...

Apesar de vários "tudos" (ou a falta deles), também sou apaixonada por esta terra. Tenho muita pena de ver o que deixaram ser feito dela (e digo isto de cátedra, pois o que acontece aqui, já vi acontecer no Brasil e foram anos terríveis).
ACORDA PORTUGAL, que ainda é tempo!!!!!!!!

Beijo imenso, AICeT!

GR said...

Gostei de ler.

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!"

Lágrimas de amor, ódio, raiva e muita dor.
Pelo amor, Lutaremos!

GD BJ,

GR

heretico said...

com raiva e paixão...

excelente. saudades do Futuro.

beijos

Duarte said...

Um bom trabalho, independentemente da intenção.

Então na Ota, na tropa, fizemos uma parodia que versava assim...

Breve historia de Portugal

Se não me falha a memória O primeiro rei da Historia
Foi um tal Afonso Henriques
que pôs tudo ao despique
e para acabar com as fitas
expulsou os Jesuítas.

Seguiu-se então D. Duarte
Que os mandou àquela parte
no tempo do Vasco da Gama
que se meteu debaixo da cama
com medo do Adamastor
de cognome ”O Lavrador”.

Dona Luisa de Gusmão
que estava com Diogo Cão
um dia em Aljubarrota
batendo com uma bota
matou sete espanhóis
que andavam aos caracóis.

Depois veio o D. João com os seus ares de pavão que numa tarde de sol estando a ver o futebol tantas voltas deu à tola que inventou o totobola.

Os Filipes reinam então e numa grande confusão começam os descobrimentos que deram largos rendimentos todos gastos na bebedeira pelo conde de Ericeira.

Nos anos de Dona Maria
fundou-se a Casa Pia
para onde foi internado
D. Sancho El-Rei Soldado
que era primo do irmão
El-Rei Dom Sebastião.

Nos anos do Marquês de Pombal
houve um grande bacanal
comeram-se Távoras assados
que tinham sido engordados
com a sêmea e a bolota
da rainha Dona Carlota

Depois veio o tal Carmona
Embaixador em Pamplona
que ofereceu um elefante ao Papa
que morava lá na Lapa
ao pé do Alexandre Herculano
inventor do aeroplano.

Foi também nessa era
que apareceu a tal Severa
dançando na Passarola
e querendo ir até Angola
foi presa pelo terrorismo
ao querer fazer nudismo.

Depois veio o tal Tomás
que por sinal é bom rapaz
filho da escola naval
promovido a General
por tanto ter que gritar
viva, viva, Salazar.

No dia do estudante
a polícia de rompante
foi até à Universidade
mas foi pra lá sem maldade
com canhotas e canhões
só pra ver as instalações.

Parabéns pela paciência...

Um grande abraço

Luis Neves said...

Há que tempos que andava à procura deste poema.
Ouvi o Niculau Santos jornalista de Economia do Expresso a declamar o poema num expetaculo de Poesia numa noite na Feira do Livro de Lisboa e adorei.

É de facto muito divertido.
Luis

Bipede Implume said...

Olá Maria
Muito interessante esta declaração de Amor arrebatado a Portugal.
Sinto o mesmo e não há nada a fazer.
Quanto ao teu comentário no Com Calma também prefiro preto e antigo.Mas ofereceram-me aquele e pu-lo na fotografia naquele devaneio.
Beijinho
Isabel

Fernando Samuel said...

Bom...
(e quando é que temos mais Cuba?..)

Um beijo grande.

Manuela Freitas said...

OLá Maria,
Não conhecia...boa surpresa...cheio de «nonsense»...mas é isso...
Eu amo Portugal...mas não deixa de ser um amor muito estranho, não passamos um sem o outro mas sempre em conflito!
Beijinhos,
Manuela

Maria said...

Obrigada a todos que passaram por aqui.

Beijos