Monday, September 26, 2011

Torga nas Berlengas, ao lado do Farilhão

Eu vejo passar o vento, atento...














Meu testamento de Poeta, quero
Que fique na pureza destas ilhas,
Gravado pelas ondas sem sossego.
Para que o leia o sol,
E o vento,
E quem gosta da Vida e movimento,
- Só escrito
Nestas folhas de espuma e de granito.

Em versos com medida das marés,
Rodeado de cor e solidão:
Talvez tenha beleza a doação,
E sentido…
Talvez que finalmente eu seja ouvido,
E cada herdeiro queira o seu quinhão.

(A riqueza que tenho,
Só em fraga despida
E com velas à vista
A posso dar a alguém…
Sou artista
Por humana conquista
E por me ter parido minha mãe.)

Mas se ninguém quiser o meu legado,
Nestes penedos, recusado,
Terá asas em cima…
Asas abertas sobre cada rima
De silêncio salgado.

Aqui, portanto, fique,
Como um ovo num ninho de saudade.
E que ninguém o modifique.
Só este texto indique
A minha última vontade.

Deixo…
(os poetas, coitados,
Têm quintas de papéis arrumados
E barras de oiro… quando a tarde cai… )
Deixo…
Mas a herança aqui vai.

Nenhum de nós desista, se é verdade!
Ligado às próprias achas da fogueira,
Mantenha-se por toda a eternidade
Senhor da sua inteira liberdade
De dizer o que queira.

Tenha amor aos sentidos
E a toda a criadora excitação.
Pouse na terra os olhos comovidos,
Como remos nos flancos coloridos
Da vaga onde navega a embarcação.

Leal e simples, saiba desvendar
Mistérios que é preciso descobrir:
O gesto natural de semear,
E a fome de colher e mastigar
O fruto que do gesto há-de sair.

Nada queira distante da razão,
Por saber que estiola o que não tem
Sol a jorros a dar-lhe projecção
Na rasa lei do chão
Donde a raiz lhe vem.

Veja passar o vento
Carregado de sonhos e poeira…
Veja-o passar, atento
À beleza do próprio movimento…
Entenda num segredo a vida inteira!

E siga como alegre quiromante
Que mesmo no ludíbrio se procura.
Romeu viúvo que perdeu a amante
E lhe fica constante,
Até que a vai amar na sepultura.

E agora assino e selo o testamento.
Leve-me o barco, e fique a barlavento
Esta bruma de mim.
E que o farol, à noite, quando alguém vier,
Ilumine o que eu digo, e o deixe ler
Até ao fim.

Berlengas, 6 de Julho de 1947.
Miguel Torga, in Diário IV.

daqui

14 comments:

anamar said...

Obrigada , Maria... Lerei em alta voz...
Abracinho

salvoconduto said...

Será que não consigo mesmo entrar na caixa de comentários?

salvoconduto said...

Olha, olha finalmente entrei, será que Torga me ouviu bater à porta?

Abreijo.

Rosa dos Ventos said...

Torga e as Berlengas!
Obrigada!

Abraço

trepadeira said...

"Nenhum de nós desista".

Um abraço,
mário

Memória de Elefante said...

Maria:
"EM VERSOS COM MEDIDA DAS MARÉS"
Aqui sinto e me identifico.
Grande Miguel Torga, ótima escolha!

PS: Captaste meu poema.Agradeço teu belo comentário e carinhosa visita!!!

Um beijo e ótima semana!

Justine said...

Que belo! Não conhecia este poema de Torga...sou uma ignorante:((((
Beijo e até sábado no sítio do costume!

mfc said...

Não hei de acabar os meus dias sem lá ir... e não me esquecerei de levar este Torga!

Fernando Samuel said...

Que bela homenagem às Berlengas - e eu que só as vi por entre as grades...

Um beijo grande.

A.S. said...

Ah! Adoro Torga!
Obrigado Maria por pela partilha de tão belo poema!


Beijos!
AL

C Valente said...

Belo. muito obrigado
Saudações amigas

Luis Eme said...

que boa lembrança.

um dia também vou escrever um poema às Berlengas, de onde só tenho boas memórias.

beijinho Maria

Nilson Barcelli said...

Para ler e saborear cada palavra.
Uma delícia poética.
Querida amiga Maria, tem uma óptima semana.
Beijos.

João P. said...

Maria:

Desconhecia por completo este poema fortíssimo. Um destes dias roubo-te!

extraordinário. Ainda há muito de novo debaixo do sol

Beijo

João