Thursday, May 08, 2008

A poesia de Abril VIII

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

(Manuel Alegre)

32 comments:

elvira carvalho said...

Lindo este poema imortalizado na voz do saudoso Adriano Correia de Oliveira.
Obrigada por este post.
Um abraço

Gi said...

Que coisa mais linda. Lembrar-me dele dito melhor um pouco. Que selecção fantástica estás aqui a deixar.

Um beijo e noite feliz

Carminda Pinho said...

Felizmente...há sempre alguém que diz não!

Bjs

FERNANDA & POEMAS said...

Olá querida Amiga Maria, lindo poema, toca fundo o meu coração!
Menina Maria, estás a escolher muitíssimo bem os poemas... Tenho adorado... Beijinhos de carinho,
Fernandinha

bettips said...

A guitarra em gotas que perguntam "ao vento que passa" ainda... (ao autor?)
É, sim, lindíssimo o poema e a canção que ouço em mim.
Beijo, Maria.

isabel said...

voltamos a ver "navios" a partir.

algo vai mal.

vou ver se ouço o Adriano que já tenho saudades.

beijo

isabel said...

encontrei uma versão diferente, mas linda!

dedico-ta. com um beijo grande. e um obrigada.

Sophiamar said...

Um poema que me traz de volta tempos tristes mas que foram ultrapassados com a "fé" daqueles que acreditaram e acreditam que a Liberdade é possível. Sempre!

Beijinhos

Maria Clarinda said...

Maio sempre lindo, e com as palavras de Manuel Alegre ainda mais belo.
Jinhos mil

Luís said...

esta tua ideia de nos recordares poemas únicos, transformados em canções, é uma maravilha.

beijinho Maria

(luis eme)

Lúcia said...

"Nunca mais nos encontrámos pessoalmente. Mas ele anda por aí, boi paciente e forte, invencível mesmo, a ajudar-nos a puxar a carroça. E ajuda-nos a cantar Abril - e os meses todos do calendário". Zé Mário Branco sobre Adriano (tinha isto mesmo à mão, ao ler este post).

Teresa Durães said...

lindo este poema!

JOSÉ NEVES said...

Um belíssimo poema que demonstra bem todo o patriotísmo existente no povo português.

Beijinho com Amizade.

Carla said...

E Abril continua nas palavras dos poetas da liberdade, na voz de quem canta e sabe dizer não quando é preciso
beijos

LOURO said...

Belo poema de Manuel Alegre,boa escolha,gostei.
Agradeço a tua visita ao meu blog.
E obrigado pela informação da ilha Farilhões o qual desconhecia.

O DAS QUINAS

Os Deus vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes,porque são
Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve,a alma é vasta:
Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao cristo defeniu:
Assim o opôs à natureza
E filho o ungiu


Poema de Fernando Pessoa

Beijinhos
Lourenço

MiE said...

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Este poema para mim é um dos mais belos poemas de denúncia e grito.

Um beijo enorme

maria

ilha da liberdade

DelfimPeixoto said...

Gosto muito de Manuel Alegre, como poeta e com político; mas, ultimamente, o seu silêncio é cortante...

TINTA PERMANENTE said...

Manuel Alegre ou Adriano. Dois nomes (entre muitos, felizmente...) que é urgente dizer!

abraços!

Fernando Santos (Chana) said...

Olá Maria, belo poema de Manuel Alegre...É urgente dizer não !!

Maria said...

O descontentamento dos trabalhadores que têm desfilado nas ruas nos últimos meses foi hoje levado à AR, através de uma moção de censura, proposta pelo PCP.
Assisti à sua discussão e votação.
Tenho vergonha de ter este governo à frente dos destinos do meu País.
Tenho a certeza de que a LUTA VAI CONTINUAR, porque a Luta tem de ser contínua. Estamos cá para o que der e vier.
E apetece-me GRITAR!!!!

João Videira Santos said...

Os rastos poéticos e os comentários que aqui ficam, são bem eloquentes do sentir que vai na alma de quem que aqui chega...Se me permitem, faço minhas as vossas palavras e vou ouvir "aqueles" trovadores que acenderam a luz da nossa esperança...

SILÊNCIO CULPADO said...

Maria
Vim ler novamente. Sinto saudade das palavras que se perderam.
Abraço

C Valente said...

Como mal vai o meu país
mas o poema é lindo
Saudações amigas

Gerlane said...

Bonito poema!

Beijos!

Art&Tal said...

nao tenha duvida que as coisas estão na mesma

sem tirar nem por

pergunte ao vento que passa noticias do seu país

em 2008

Maria said...

Obrigada por terem passado aqui.
Beijos a todos

Pedro Branco said...

Não me esqueço que estavas ali, bem na minha frente e ao lado de todos. Comigo. Na noite mais triste. Dizendo não. Porque há sempre alguém que resiste. E nós resistimos! Beijo grande, Maria.

Maria said...

pedro branco

O caminho é resistir, o caminho é continuar a luta.
Há muitos a resistir, felizmente. E resistiremos!

Um beijo, Pedro

O Sibarita said...

Eita Maria danada! Aqui só as balas, as boas poesias!

Belo nunca é demais dizer...

bjs
O Sibarita

Maria said...

o sibarita

Obrigada, Siba.
É poesia de resistência, de vez em quando tem que "vir ao de cima"...

Beijos

Ludo Rex said...

Podes crer e somos muitos... Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não!
Kiss

Maria said...

ludo rex

E como dizia o Poeta
"seremos cada vez mais"....

Beijo