Friday, July 30, 2010

Porque me faltam as palavras, e tu mereces tanto...



Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

17 comments:

Pedro Branco said...

Ouve, minha mãe. Ouves-me a cantar no cimo da serra? Hoje as minhas lágrimas são sorrisos; flores cheirosas e um andar de rainha. És tu. Ouves-me, minha mãe? Cada palavra solta é um retrato do nosso sangue, da nossa história. Cada inquietação que o meu peito brota, mais uma árvore que dará aquele fruto maduro e doce que se come à beira-rio. Ouves-me, minha mãe? Que vives tanto em mim. Só em mim. Agora és só minha, pois a tua vida em mim só eu a invento; só eu a sei. E canto. Hoje canto para ti, minha mãe. No cimo da serra. Onde o tempo pára para nos abraçar. Onde o céu se faz sémen de vida. Desta vida que eu, minha mãe, te invento dentro de mim. Ouves?

Mar Arável said...

Eugénio

Sempre

Bj

salvoconduto said...

Sábado, sábado lá estou a vê-la. enquanto nos deixarem, a mim e a ela.

Abreijos.

anamar said...

Maria, lindo poema de Eugénio....
Quanto ao jantar... não dá ...vou começar a andar por aí...norte/sul.
Para Setembro
Abracinho

Cris Caetano said...

Lindo... não há nada além disso a ser dito: lindo!

Beijinhos, Maria

Carminda Pinho said...

Bonita, essa ternura que se sente tão grande, entre amigos.

És linda, Maria...:)
Bjs

viajantes said...

Quanta ternura Maria...
esse é um dos poemas da minha vida. conheci-o através do meu filhote mais velho que mo dedicou tinha uns doze anitos... emociona-me sempre.

smvasconcelos said...

Como eu gosto deste poema!!! Arrepia e comove por mais vezes que o leia. Obrigada por o teres trazido aqui. Foi um momento lindo neste meu dia...
beijo,

Justine said...

Leio este poema quase todos os meses. E sempre me comove. E sempre termino a leitura com o texto todo tremido...
Mais uma vez!
Um abraço apertado, Maria

Ana Oliveira said...

Lindo mas triste...

As rosas murcham... e nós perdemos o tempo da inocência no coração que se abre a outras flores.

Um beijo

Manuela Freitas said...

Olá querida Maria,
Este poema também faz arrepiar...
Eu também ia com as aves!...
Bjs,
Manuela

heretico said...

beijo, querida Amiga

belíssimo, não é?!...

A.S. said...

Querida Maria...

Este poema mexeu comigo...


Beijos e bom fim de semana!
AL

Maria said...

Há dias difíceis. E noites.
Outros ainda virão.
Obrigada por terem passado aqui.

Beijos a todos.

█► JOTA ENE ◄█ said...

ºººº
Quem tem mae tem tudo, ou devia ter

Parapeito said...

:) boa noite...bom voo
Um abraço************

Rosa dos Ventos said...

As mães merecem tudo de bom!
E os filhos também... :-))

Abraço