Sunday, August 15, 2010

Para ti... com um abraço do tamanho do Mundo!



Minha mãe que não tenho


Minha mãe que não tenho meu lençol
de linho de carinho de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
qua a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que não oiço ai mãe ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que egipto vieste? De qual Ganges?
De qual pai tão dostante me pariste
minha mão minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila virgem buda corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro:
constrói a casa a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.


José Carlos Ary dos Santos

Queria dar-te palavras minhas, mas não as tenho.
Deixo-te um abraço, forte.

13 comments:

Memória de Elefante said...

Maria!

Gostei imensamente e destaco estes versos:
"Minha mãe que não tenho inventa-me primeiro:
constrói a casa a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim".

Não conhecia este poema!
Obrigada por compartir!

Um beijo

BRANCAMAR said...

Ary é genial, sempre, por mais que releia este poema ele sempre me parece novo.
Para ti e para tua mãe um grande beijinho.

Branca

zmsantos said...

Beijo-te Maria, como a outra Maria beijei...

Fernando Samuel said...

O Zé Carlos diz tudo o que cada um de nós deseja dizer...

Um beijo grande.

Aníbal Pires said...

Para ti... Maria,

Um abraço do tamanho do Atlântico,

BJS

Pedro Branco said...

Não fosse eu filho sempre do que a vida me dá
Trazendo as marcas que o tempo arrasta...
Esta fúria de hoje, sangrenta, que teima de cá para lá
Manter-me a pele quente, com o cheiro que a tua morte não gasta...

Não fosse eu filho sempre do que a vida me concede
Carregando os versos e os ninhos de casta...
Esta semente que chora, ama, chama e pede
Que nunca se perca nesta pele quente o cheiro que a tua morte não gasta...

Não fosse eu filho sempre do que a vida tem
Num grito que sangra e ao reflorir não se afasta...
Este pedaço de mim, que levaste contigo, mãe
E que me pinta a pele com o cheiro que tua morte não gasta...

Manuela Freitas said...

Maria, minha amiga, já voltei! Não conhecia este poema do Ary, que emociona bastante!...
Muitos beijinhos e o meu desejo que estejas bem,
Manuela

Rosa dos Ventos said...

Mais um poema de Ary que eu não conhecia!
Obrigada

Abraço

OUTONO said...

Uma beleza palavra...e um sentir coração...
Beijinho.

viajantes said...

é lindo Maria.
ary, sempre.
beijinho.

Carol said...

Para vocês ... um beijo carinhoso e um abraço bem apertadinho :)

Maria said...

Obrigada a todos que passaram aqui.
Boa semana e
beijos.

heretico said...

beijo.