Thursday, July 09, 2009

Memória de Vinicius

Operário em construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as asas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato como podia
Um operário em construção
Compreender porque um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse eventualmente
Um operário em construcão.
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão
Era ele quem fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: a gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Nao sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro dessa compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Excercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia "sim"
Começou a dizer "não"
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uisque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação.
- "Convençam-no" do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isto sorria.

Dia seguinte o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu por destinado
Sua primeira agressão
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras seguiram
Muitas outras seguirão
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que veres
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.


Vinicius de Moraes
(19 de Outubro de 1913 - 9 de Julho de 1980)

25 comments:

samuel said...

Extraordinário!

Abreijo.

duarte said...

belo e encorajador.é por isto que somos diferentes, por sabermos que todos juntos construimos a realidade.e que sem "mãos" não há nada, sem suor nada há e que tudo é fruto de todos que estiveram estão e estarão.sinto-me mais humano ao ver que de um não pode sair uma nova era.
"há sempre alguem que resiste
há sempre alguem que diz não"
"porque eu não me rendo
nem por dinheiro"
abraço e obrigado pela partilha

Anonymous said...

Gosto de Vinicius.

"E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo.......
Lucas. Cap V. vs 5-8"
É o que está escrito no inicio do poema.

Saravá Maria

Aten

Ana said...

Lembrar Vinicius é torná-lo ainda mais presente.
Poema sempre actual. Obrigada, Maria.
Um beijo .

GR said...

Excelente escolha!

Bjs,

GR

Rosa dos Ventos said...

É um poema que nos tira o fôlego!

Abraço

utopia das palavras said...

A razão que suporta a nossa existência...a razão da cosntrução de um Homem Novo!
Este poema reflecte o valor mais primário dessa construção...o trabalho e o príncipio fundamental da não exploração!

Foi bom relembrá-lo aqui!

Beijo

Teresa Durães said...

Gosto muito deste poema

Eu said...

,até o coraçao ficou a bater forte ..:S
extraordinário.

Lúcia said...

Grande post, grande Vinicius, Grande poema, Grande Maria, que assim nosn trazes a realidade!
beijinhos

clic said...

Não podias ter feito melhor homenagem!... :)

Agulheta said...

Grande Vinicius? palavras sempre actuais que ele sabia ditar,adorei ler.
Beijinho e tudo de bom.

O Profeta said...

Haverá?! Há sempre uma deusa perdida
Nos labirintos da contradição
Há sempre alguém que usa a palavra amor
Soprando doce veneno ao coração
Há sempre alguém que nos diz coisas tontas
Há sempre alguém que afugenta a Saudade
Há sempre alguém que nos marca a ferro frio
Há sempre uma alma ausente da verdade


Boa semana


Doce beijo

pedras contra canhões said...

o mais belo poema revolucionário inspirado nos textos bíblicos.

Ana said...

Pois eu, que quase ouço este poema na voz do Mário Viegas, não fazia a menor ideia de que fosse da autoria de Vinicius.

Estamos sempre a aprender...

Beijinho

Cris Caetano said...

E eu não conhecia esse poema de Vinícius... sempre há paixão quando ele escrevia.

Beijinhos

Fernando Samuel said...

ESPANTOSO!

Um beijo grande.

amigona avó e a neta princesa said...

Fico sem palavras! Acho um espanto!!!
(Gostava mesmo de ir ver o Pedro...até é aqui bem perto, mas não dá. Tenho uma coisa pública em Almada)
Beijos Maria...

Apenas eu said...

Maria:)
"Em operário construído
o operário de construção"...
Não conhecia este poema/poesia de Vinicius de Moraes.

Uma questão social. que se repete.
Há lá um operário em obra a quem eu nunca vi o rosto, mas ouço-o assobiar todos os dias de manhã á noite. Penso que apesar do duro trabalho que tem pela frente e das solas dos seus sapatos serem as rodas do carro do nosso patrão (rodas de um dos carros,,,) ele ( o operário de construção) só pode ser um Homem muito feliz e de bem com a vida, eu chego a parar para o ouvir :) até já sei o reportório :))
São pormenores que eu reparo e dou muito valor nas pessoas...

Um Grande beijo Maria Direitinho ao teu coração

Joao P. said...

Maria:

O poema é lindíssimo.

Costumo usá-lo nas aulas sobretudo quando vejo que tenho pelafrente alguns meninos sem valores nenhuns e que pensam que o dinheiro nasce nas árvores e que a ordem social sempre foi assim e que os outros trabalhem pois eles não precisam disso!

É das coisas mais belas que conheço

Excelente escolha

Beijo

João

Maria said...

Obrigada por terem passado aqui.

Beijos a todos

heretico said...

tenho a gratíssima memória de um de ouvir Vinicius de Morais "dizer" este Poema (entre outros) num espectáculo no Teatro Vilaret, em Lisboa...

cálida memória, por múltiplas razões.

grato.

beijo

anamar said...

Ainda ontem no MEZZO, passou um espectaculo em Itália, Vinicius, Tom Jobim, Toquinho e Miúcha...
Foi de chorar...era como se todos estivessem vivos...
E hoje a menina aparece com o OPERÁRIO...
Boa!
Beijinho

Maria said...

anamar

Apenas assinalei a data da morte do Vinicius, com um dos poemas mais belos que conheço dele.
No dia em que ele morreu estávamos na Festa do Avante, no Alto da Ajuda, e nesse dia actuaram no palco 25 de Abril o Chico Buarque, a Simone e o Edu Lobo. Foi comovente. Até às lágrimas. Nós e eles. Eles e nós...

Beijo

Lucubrina said...

"- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu."

Lindo. Lembro-me bem de o ouvir a declamar este poema, se não me falha a memória acompanhado à viola por Toquinho (era bem miuda), cheio de força, verdade e razão.