Wednesday, January 18, 2012

Memória de Ary dos Santos

Soneto escrito na morte de todos os antifascistas assassinados pela PIDE


Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.


José Carlos Ary dos Santos
(7 de Dezembro de 1937 - 18 de Janeiro de 1984)

10 comments:

anamar said...

Bom reler..
Abracinho

salvoconduto said...

Foi, é e continuará a ser grande.

Abreijos.

Rogério Pereira said...

Há palavras que ameaçam regressar
com o sentido que ele lhe dava:

"Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas..."


(que pena não poderes ir...)

Rosa dos Ventos said...

A reler sempre!

Abraço

trepadeira said...

Tão bestas,não passarão.

Um abraço,
mário

Era uma vez um Girassol said...

Uma homenagem merecida pelo poeta que cantou injustiças e crimes.
Adorei o teu poema do post anterior! Como escreves e sentes bem...

Quanto a viagens a lugares míticos e encantadores...não digas nunca!
Basta sonhar e depois...quem sabe?
Beijinho da flor

Fernando Samuel said...

Há Memórias que não saem da nossa memória...

Um beijo grande.

bettips said...

Continuo a ouvir-lhe a voz...
Quando a gente sufoca de raiva todos os dias; e o desalento por tantas raivas nos abate.
Bj

Nilson Barcelli said...

Um soneto que diz tanto... e de forma tão poeticamente superior.
Beijo, querida amiga.

elvira carvalho said...

Ary é sempre uma excelente leitura ou releitura.
Um abraço