Sunday, July 12, 2026

Nos 122 anos de Pablo Neruda


Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormindo.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti apenas teu sonho.

Pablo Neruda

May be an image of hat

Tuesday, July 07, 2026

Centenário do Padre José da Felicidade Alves


Centenário do Padre José da Felicidade Alves
Sessão Pública nas Caldas da Rainha


Foi assinalado a semana passada o centenário de José da Felicidade Alves, notável figura de padre católico e resistente antifascista, nascido em 1925 em Salir de Matos, freguesia rural do concelho das Caldas da Rainha.

A Sessão Pública naquela cidade contou com a presença de mais de três dezenas de pessoas, designadamente camaradas do seu partido, o PCP, em que militou até à sua morte em 1998, e outros democratas, alguns deles crentes de religiões diversas.

A Sessão teve como enquadramento uma intervenção de Edgar Silva, que na Universidade Católica acompanha a acção e história dos “católicos de vanguarda”, nas suas múltiplas estruturas e linhas de orientação, na luta contra a ditadura e na crise do fascismo, que foram tratadas designadamente na sua tese de doutoramento «“Vendaval de Utopias” Os Católicos da Revolução e o PCP», que deu origem a um ensaio do autor, que foi também apresentado nesta iniciativa.

A Sessão Pública foi animada por diversas intervenções que documentaram e problematizaram a figura de José da Felicidade Alves, o seu contexto e a época histórica que viveu, o seu contributo na vida da Igreja e na luta que conduziu ao 25 de Abril e a sua projecção no presente e no futuro do País.

José da Felicidade Alves foi padre e professor nos seminários dos Olivais e Almada e Pároco dos Jerónimos, em Belém, Lisboa, escolhido pelo então Cardeal Cerejeira, de que era próximo, para aquela importante paróquia - onde avultavam o Presidente Américo Tomás e vários ministros da ditadura.

De “homem do regime”, a partir de 1961, o Padre Felicidade faz um percurso de tomada de consciência e denúncia da guerra colonial, as suas intervenções são a causa de conflitos crescentes com o fascismo, ao mesmo tempo que se aproxima das posições do Concílio Vaticano II, incluindo nas missas na sua Igreja. As pressões e o cerco conservador e fascista apertam-se. A PIDE faz escutas e relatórios e propõe-se prendê-lo, o que só veio a concretizar em 1970, por um período curto, foi depois julgado e absolvido em 1973.

José da Felicidade Alves intervém na Igreja e na sociedade, denuncia a “guerra colonial, a PIDE, a censura” e pede para o País uma “revolução político-social”. Defende para a Igreja católica um “movimento revolucionário” “gerado pela acção de Deus, através dos profetas e de Jesus”. A partir de 1965 vai-se consumando a rutura entre o Cardeal Cerejeira e o Pároco de Belém, que vem a culminar com a suspensão a divinis da sua paróquia em 1968 e a excomunhão em 1970, por decisão do cardeal Cerejeira.

José da Felicidade Alves prossegue um rumo de intervenção crescente, aproxima-se do MDP-CDE e do PCP, intervém nas frentes da luta pela democracia, pela libertação dos presos políticos e na luta pela Paz, no País e internacionalmente, em Bruxelas e Moscovo, onde esteve em 1970, em defesa da Paz e do desarmamento. Em 1968 encontra-se com Álvaro Cunhal em Paris, que lhe disse no final dessa conversa “mantenha-se sempre fiel ao Senhor Jesus”. De volta a Portugal, participa na organização dos católicos progressistas, designadamente com os cadernos GEDOC, de que são publicados onze números sem autorização do regime, em 1969-1970, com Teotónio Pereira, Pereira de Moura, Sophia de Mello Breyner e outros, tratando temas do Vaticano II e da luta contra a guerra, até à sua apreensão e proibição pela PIDE.

Nas eleições legislativas fabricadas pelo regime em 1973, Felicidade Alves foi um proeminente opositor ao “Estado Novo” como candidato e dirigente do Movimento Democrático Português (MDP/CDE), esteve fortemente envolvido na “campanha eleitoral” da oposição democrática, sendo uma voz destacada em comícios e congressos. Após o 25 de Abril, continuou a intervir na vida política pelo MDP/CDE.

Nessa fase da sua vida José da Felicidade Alves, sempre discreto e coerente, foi um importantíssimo estudioso da história de Lisboa e dedicou grande parte da sua vida à investigação histórica, artística e patrimonial da capital portuguesa. O seu valioso contributo como olisipógrafo e historiador de arte foi amplamente reconhecido, tendo sido eleito Académico Correspondente da Academia Nacional de Belas-Artes em 1994.

Felicidade Alves com contactos com o PCP desde a década de 1960, aderiu formalmente ao Partido após o 25 de Abril, na década de 1970, e daí em diante, com uma militância recatada mas firme, manteve-se no Partido até à sua morte, em Dezembro de 1998. No seu funeral, por sua exigência, a urna foi coberta com a bandeira do PCP.

Uns meses antes, em Junho de 1998, José da Felicidade Alves conseguiu concretizar o seu casamento católico com a sua esposa desde 1970, Maria Elisete Alves, hoje com 102 anos - que alegou a idade para não participar nesta Sessão Pública - foi o Cardeal D. José Policarpo, que presidiu à cerimónia de casamento e gravou então, em letras de ouro, a homenagem à história de vida, coragem, coerência e luta deste homem extraordinário - “ vendaval de utopias”.

José da Felicidade Alves foi um católico da revolução, empenhado num projecto progressiva e de transformação a longo prazo, coerente, “isento de cobardia ou oportunismo” que lutou até ao fim pelos valores do humanismo, da liberdade e solidariedade. Foi agraciado pelo Estado com a Comenda da Ordem da Liberdade e pela Câmara de Lisboa com o Prémio Júlio Castilho de Olisipografia, há pequenas ruas com o seu nome em Campolide em Lisboa, na Cruz Quebrada em Oeiras e em S. Brás na Amadora, um curto reconhecimento público para a sua extraordinária importância e coerência, e que importaria alargar como ficou dito pelos participantes desta justíssima e muito significativa Sessão Pública nas Caldas da Rainha.

6 de julho de 2026
(da Terra da Fraternidade)
Centenário do Padre José da Felicidade Alves
Sessão Pública nas Caldas da Rainha

Monday, July 06, 2026

Um pingo de amor


E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também - Oswaldo Montenegro
Não sei quanto vale ou quanto pesa um pingo de amor. Um pingo é sempre uma coisa ínfima, que normalmente nos merece pouca relevância. Um pingo de suor, um pingo de saudade, um pingo de distância, um pingo de solidão, um pingo de tristeza, … Mas um pingo de amor no momento certo, pode fazer a diferença, pode fazer de uma manhã cinzenta e clara um dia radioso de sol e calor, Pode converter uma lágrima grossa de desespero, num sorriso de confiança, ainda que tímido e incipiente. O amor é uma loção poderosa, que os alquimistas gostariam de ter descoberto na sua versão mais pura e eficaz, sabendo que, pela paixão, facilmente dominariam homens e mulheres. E é verdade: às vezes basta um pingo de afeto no tempo certo para tudo passar a ser diferente. Que as paixões são poderosas, julgo que não será novidade. Mas experimentem borrifar de amor a dúvida e o desespero e atentem no que se transforma em nós e nos outros.

Rogério Cação

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Wednesday, July 01, 2026

Quando eu morrer

 
Quando eu morrer
Não me dêem rosas
Mas ventos
Quero as ânsias do mar
Quero beber a espuma branca
Duma onda a quebrar
E vogar
 
Ah, a rosa dos ventos
A correrem na ponta dos meus dedos
A correrem, a correrem sem parar.
Onda sobre onda infinita como o mar.
Como o mar inquieto
Num jeito
De nunca mais parar.
 
Por isso eu quero o mar.
Morrer, ficar quieto,
Não.
Oh, sentir sempre no peito
O tumulto do mundo
Da vida e de mim.
 
E eu e o mundo.
E a vida.
Oh mar
O meu coração
Fica para ti
Para ter a ilusão
De nunca mais parar

Fausto Bordalo Dias