Wednesday, April 17, 2024

100 ANOS QUE PASSARAM, 100 ANOS QUE HÃO-DE VIR


1 O PRIMEIRO DIA 

- Boa noite, mulher! João, dá um beijo ao pai. 

- Chegaste tão tarde, homem. Deves vir com fome. Fiz aquela sopa de couve com batatas de que tanto gostas. Tem um pingo de azeite e duas rodelinhas de linguiça, era o que havia. 

- São para o miúdo. 

- Hoje é Domingo, pai. Não foste à fábrica…(1) 

- Fui a Lisboa, à Rua da Madalena… Gente como eu, de famílias como nós… 

- Desembucha, homem! Até o moço parou de comer. 

- Então vou contar-te do que é feita essa sopa que tens no prato.

- Sim, pai, conta-me tudo. 

- Os operários, como eu, lidam com ferramentas. Alicates, bigornas, ferros de soldar, martelos e punções, entendes? Têm todas o mesmo dono, aquele a quem chamamos patrão. Mas também lidamos com grilhetas, correntes de amarrar, e puas de colar ao chão. São as ferramentas da exploração e também têm o mesmo dono. 

Se não nos libertarmos das segundas seremos eternamente escravos das primeiras. 

É por isso que o pai sai de noite para a fábrica e só chega a casa de noite. É por isso que achamos boa esta sopa quente de couve com batatas. É por isso que hoje fui a Lisboa, à Rua da Madalena. 

Gente como eu, de famílias como nós… 

Tudo o que acabaste de ouvir está dentro desse prato de sopa que tens à frente. 

- Serve-te, homem, mais uma concha, precisas de te alimentar! 

- Serve-te a ti e serve também o menino.   


 2 UM PUNHADO DE TRIGO 

- Bom dia, mãe! 

- Bom dia, João! 

Depois de comeres quero que vás à despensa e olhes bem para a saca de trigo que o teu pai trouxe. 

- É tão grande, minha mãe, como pode o pai com ela?    

- Com a vida, meu amor: É o peso da vida! 

- E agora, o que queres que faça, mãe? 

- Quero que a abras e apanhes um punhado de trigo, com a mão bem fechada, e voltes para a mesa. 

Quantas bagas de trigo encontraste na saca? 

- Não sei, mãe, devem ser milhões… 

- Cada baga é uma pessoa que deu tudo por nós. Que enfiaram no degredo, que maltrataram, que torturaram, e que, até mataram. São pessoas do Mundo inteiro. 

- E este punhado, mãe, que trago junto a ti? 

- Essas são as nossas, as da nossa terra. Cada baga tem um nome, um rosto, uma identidade. A todas elas roubaram anos de vida e, por vezes, a vida inteira. Afinal tudo o que queriam era o bailado primordial das searas ao vento. Foi para isso que nascemos: somos filhos da mesma terra e um dia seremos iguais no bailado e na bonança. 

- É por isso que tu dizes que o futuro há-de ser melhor? 

- Sim, meu filho, é por isso que digo. E ele também está nas tuas mãos e no punhado de trigo que trouxeste. 

- Que farei com ele, minha mãe? 

- Espalha as bagas no alegrete do quintal, aquele que o pai pintou de vermelho, deita-lhe uma pouca de água e a Natureza fará o seu curso. 

- Como nós, mãe? 

- Como nós, amor!  


3 MORTALHAS E LÁPIS DE COR 

- Bom dia, mãe! 

- Bom dia, filho! 

- A mãe hoje vai sair. Vou visitar o pai. Levo-lhe mortalhas, um lápis e os resultados da bola. 

- Mortalhas, mãe? O pai não fuma… 

- Por isso lhe levo um lápis. 

- A que horas voltas, mãe? 

- Não sei! O pai um dia disse-me que o inferno tem os relógios parados. 

- Espero-te à porta, então, a noite inteira se for preciso. 

- É uma noite muito longa, meu amor. Faz muito frio e os lobos rondam a casa.  Se quando chegares eu não estiver, vai para casa da tia Amélia. Ela sabe de tudo e tem tudo o que tu precisas: pão com manteiga, uma canjinha para o jantar, uma sebenta e lápis de cor. 

- Queres que te faça um desenho mãe? 

- Quero muito, João! Quero muito! 

- Vou desenhar o nosso alegrete vermelho com o trigo a despontar. Ao pezinho mais bonito, aquele que se inclina para mim, darei o nome do pai. 


4 LIVRO EM BRANCO 

- Pai! 

- Diz, filho. 

- Que livro é aquele que tens na mesinha de cabeceira? 

- Foi feito por mim, nas pequenas horas vagas. Quem me ensinou foi um velho mestre encadernador. Cosidinho à mão, fio norte, requife… tudo o que um bom livro merece. 

- Mas não tem nada escrito, pai. Para que serve um livro em branco? 

- Para colocarmos um sonho em cada folha. 

- Mas como? Explica-me tudo, pai. 

- Uma canção bonita, um quadro, um poema, até um bailado podemos ver nesse livro. Está lá tudo o que quisermos e só nós conseguimos ver e ouvir. 

Tudo o que nós amamos e eles odeiam cabe nesse Livro dos Sonhos. 

- Mas isso não é perigoso, meu pai? 

- É! Se um dia eles cá voltarem para me levarem de novo, certamente roubarão o livro. Nunca entenderão aquelas folhas em branco, nunca conseguirão ler a esperança de cada folha. Essa será a nossa vitória desse dia. 

- E se assim for, pai, o que faremos? 

- Faremos um livro novo. 

Chegará o dia em que, com uma caneta de tinta permanente, passaremos a limpo tudo o que nos vai na alma e abriremos o nosso livro para que todos o possam ver. Com ele faremos uma grande Festa. Todos os anos faremos uma grande Festa. Todos os sonhos escondidos terão a luz do dia, tudo o que o futuro nos destina terá uma candeia. 

- É por isso que tu e a mãe dizem que futuro espera por nós? 

- É, filho. É por isso mesmo! 

- Pai, posso abrir o livro e imaginar um conto bonito com crianças, flores e animais? 

- Podes, João! Esse livro será a tua maior herança.   


5 CASA SEM MORADA 

- O que estás a fazer, pai? 

- Uma mala com um avio de roupa para ti. Pijama, roupa de sair, e um agasalho de lã feito pela tua mãe… Acho que está tudo. 

- Mas para quê, pai? Onde me levas? 

- Vais passar uns tempos a casa da tia Amélia. Ela já tem um divã de abrir e fechar no canto da sala. 

- E tu, pai? E a mãe? 

- Nós vamos passar uns tempos numa casa sem morada. 

- Mas onde, pai? Como saberei de vós? 

- Vais levar contigo o nosso Livro dos Sonhos, aquele que tem as folhas em branco e só nós conseguimos ler. Quando a saudade te apertar, abre o livro. Poderás ver os pais nos locais que o teu coração te indicar. É um segredo só nosso! 

- Mas quando poderei voltar a tê-los? 

- O inferno tem os relógios parados… 

- E vocês, queridos pais, o que vão fazer longe de mim? 

- Fazer andar os ponteiros, meu filho. Fazer andar os ponteiros.    


6 O DIA MAIS BONITO 

- Tia Amélia!? 

- Diz João… 

- O relógio da sala está quase a dar as 11 da noite, estás a ouvir rádio… 

- São insónias e pressentimentos… tenta dormir, meu amor. 

Quis saber quem sou 

O que faço aqui 

Quem me abandonou 

De quem me esquec

- É tão bonita essa canção, tia. 

- Pois é, João! Vou baixar o som, por causa dos vizinhos, vê se dormes, a tia não consegue. 

Grândola, vila morena 

Terra da fraternidade 

O povo é quem mais ordena 

Dentro de ti, ó cidade! 

- Tia, essa canção fala de coisas perigosas, daquelas coisas que só nós vemos no livro que o meu pai fez… 

- Sim, meu amor. É verdade! Esta é a noite de todas as insónias e pressentimentos. - Tia, também tenho insónias e são 4 de madrugada… Não desligues o rádio. 

Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas… 

- Tia, os ponteiros do relógio da sala não param. Será que o relógio do inferno também começou a trabalhar? 

- Acho que sim, João! Isso só quer dizer que ele tem os dias contados. 

- E os meus pais, tia? Tenho tantas saudades… 

- Quando o Sol subir vou à procura deles. Acho que sei onde os encontrar. 

- Onde, Tia? Onde estarão? 

- No Largo de Carmo. É mais um pressentimento… 

- Vais deixar-me sozinho? Tenho medo! 

- Hoje não, João! Hoje é o primeiro dia sem medo. Faz um desenho bonito na tua sebenta para quando os teus pais chegarem. Eles vão ficar tão felizes… 

- Está bem, tia Amélia! Vou desenhar um menino como eu a pôr uma flor no cano de uma espingarda.    


7 O LIVRO DA LEI 

- Bom dia, mãe! Que livro é esse que trazes? É o nosso Livro dos Sonhos? 

- Não, querido! É o Livro da Lei. Foi o Dia Mais bonito que permitiu fazê-lo. 

- E nesse Livro da Lei está lá algum sonho nosso? 

- Sim! Estão lá muitas coisas que sonhámos e a promessa de sonhos vindouros. Está lá uma casa para todos, uma escola bonita para ti e para os outros meninos, estão lá doutores e enfermeiros para quando estivermos doentes, estão lá os livros que eram proibidos e que agora deixaram de ser, a música, o teatro… Tudo o que estava no Livro dos Sonhos agora está a tinta permanente no Livro da Lei. 

- E eles vão deixar? Vão respeitar esse Livro? 

- Vão fazer o que puderem para o evitar. Lembras-te quando os pais foram morar para uma Casa sem Morada? 

- Sim, minha mãe! Fiquei na casa da tia Amélia… 

- Essas casas agora têm todas morada e, para que não haja dúvidas, têm todas a nossa bandeira à entrada. 

Vão ser maus como sempre foram, vão tentar destruí-las, vão mentir com todos os dentes sobre as nossas intenções, vão tentar enganar o Povo com todas as mentiras que aprenderam no inferno. 

- E nós, o que faremos, mãe? 

- O que sempre fizemos. Lembras-te das ferramentas que o pai usa? Alicates, bigornas, ferros de soldar, martelos e punções… 

- Lembro muito bem, mãe. 

- Continuaremos ao lado de quem as usa. De quem usa as ferramentas da terra; de quem usa as ferramentas do pensamento; de quem usa o coração a bater por um Mundo melhor. 

- Só que agora esse sonho já tem morada certa… 

- Sim, meu amor! Esse sonho habita em casas com a nossa bandeira à porta. São as casas mais Livres do Mundo.    


8 O FUTURO TEM PARTIDO

- Pai!?

- Diz, João!

- Lem­bras-te quando foste a Lisboa, à Rua da Ma­da­lena?

- Lembro-me muito bem! Foi há 100 anos, mas lembro-me como se ti­vesse sido ontem.

- Quando che­gaste a casa fa­laste-me de gri­lhetas, cor­rentes de amarrar, e puas de colar ao chão.

Ex­pli­caste-me isso en­quanto jan­tá­vamos uma sopa de couve com ba­tatas…

- É ver­dade, meu filho! Foi a luta e a me­mória que nos trou­xeram aqui.

- E agora, pai? Conta-me tudo…

- Agora, ainda não nos li­vrámos delas… mas po­demos cerrar os pu­nhos à porta da fá­brica e erguê-los em todas as praças.

Somos todos iguais na hora do nas­ci­mento. Um mi­nuto de­pois pa­rece que temos o des­tino tra­çado. Uns, como o pai, têm de tra­ba­lhar muito para essa sopa que tens à frente. Ou­tros têm quem lhes ponha a mesa com co­midas e vi­nhos finos. Já não são nossos donos, mas ainda são donos de grande parte do nosso tra­balho.

- Achas que um dia dei­xará de ser assim?

- Tenho a cer­teza, meu filho! Tenho a cer­teza!

- Mas quando, pai? Quando?

- Não sei, João! Apenas sei que hoje é o pri­meiro dia dos pró­ximos 100 anos.

- Pai, vou fazer um de­senho desse dia!

- Faz! Quando es­tiver ter­mi­nado leva-o para a nossa casa, aquela que tem a ban­deira à en­trada, e pen­dura-o na pa­rede por cima da es­tante. Assim, quando algum de nós es­tiver de­sa­ni­mado po­derá olhar para o teu de­senho e sorrir com a cer­teza que o Fu­turo tem Par­tido.

João Monge

_____________________

(1)  N.A. 6 de Março de 1921 foi um Domingo.  

#50Anosdo25deAbril

Saturday, April 13, 2024

Romance de uma árvore à beira do caminho

Perto de Espinho havia uma árvore
havia uma árvore à beira do caminho.
E havia um buraco naquela árvore
perto de Espinho.

(E o povo sabia que havia um buraco
naquela árvore à beira do caminho.)

Mas quando vieram os embuçados
à procura de um médico em terras de Espinho
ninguém disse nada sobre o homem escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Esta é uma história que todos sabem
em terras de Espinho.
Esta é a história de uma árvore
à beira do caminho.

Era noite cerrada noite negra
era noite de morte no caminho.
E de repente chegaram os embuçados:
procuravam um médico em terras de Espinho.

Era noite sem lua noite de emboscada
noite de um homem não andar sozinho.
As bocas fecharam-se ninguém contou nada.
Era noite de embuçados no caminho.

Disseram ao povo que havia um ferido.
Mostraram as mãos: seria sangue? Seria vinho?
E ninguém foi chamar o médico escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Era noite sem lua noite de sangue
era noite de esperas no caminho
embuçados chegaram. Embuçados partiram.
Procuravam um médico em terras de Espinho.

Já corre um mensageiro para aquela árvore
à beira do caminho.

Há embuçados. Falaram dum ferido.
Mas o sangue que vimos era vinho.

Já o médico sai do seu buraco
naquela árvore à beira do caminho.
(ai a noite sem lua
ai o sangue que tem a cor do vinho.)

Catorze balas o esperavam
catorze balas o mataram nessa noite em Espinho.
E nunca mais o médico se escondeu
naquela árvore à beira do caminho.

Mas todos os anos na mesma noite
em que o sangue correra nessa aldeia de Espinho
mãos invisíveis vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.

De novo vieram os embuçados
de novo mataram em terras de Espinho.
Quando se foram já não havia
aquela árvore à beira do caminho.

Mas no dia seguinte no mesmo sítio
onde o médico se escondia perto de Espinho
as mãos dos pobres vinham plantar
outra árvore à beira do caminho.

Manuel Alegre

Monday, April 01, 2024

Os russos não chegarão à ribeira de Cheleiros

(Major-General Carlos Branco, in Jornal Económico, 22/03/2024)

Seria sensato que os europeus não aumentassem os decibéis da retórica, num coro de apoio aos EUA, e percebessem ser tempo para reconciliar e recuperar fórmulas de convivência pacífica, já testadas com sucesso no passado.

Para quem não saiba, a ribeira de Cheleiros situa-se genericamente a sul da vila de Mafra e as suas águas correm no fundo das suas margens alcantiladas. Era aí que, nos meus tempos de tenente na extinta Escola Prática de Infantaria (EPI), o seu batalhão de infantaria detinha as forças do Pacto de Varsóvia que, entretanto, tinham cruzado toda a Europa ocidental e derrotado as forças da NATO por onde passavam. Seriam os valorosos infantes descendentes do Santo Condestável a pôr um ponto final no assunto. Mas estávamos todos cientes de que se tratava de uma situação fictícia para enquadrar um exercício de fogos reais.

Os dirigentes europeus desses tempos, de um e do outro lado da “cortina de ferro”, apostaram na dissuasão, porque sabiam que uma guerra quente entre os dois blocos levaria ao extermínio. Falava-se então na Destruição Mútua Assegurada (MAD, Mutual Assured Destruction), um conceito que parece ter sido esquecido pelos atuais líderes do Velho Continente. Pelo menos, é isso que podemos deduzir do discurso desta nova geração de dirigentes que não viveu o flagelo da guerra.

Foi graças à dissuasão e à MAD, que os dois arqui-inimigos coexistiram pacificamente durante mais de quatro décadas. As grandes potências – EUA e URSS – optaram por se confrontar noutras latitudes, noutros teatros de operações, através de guerras por procuração, afastadas dos seus territórios. Os afegãos, os vietnamitas e outros povos de África saberão certamente do que falo.

Recentemente, surgiu na mente de muitos, por ingenuidade ou mesmo por ignorância, a possibilidade, ou antes, a certeza de que Ucrânia iria derrotar militarmente a Rússia, uma potência nuclear, recorrendo apenas ao patrocínio – financeiro, político, de aconselhamento e armamentista – dos seus promotores, sem que estes tivessem de colocar tropas no terreno, com unidades militares constituídas.

Passados dois anos de guerra, é cada vez mais óbvio o irrealismo dessa fantasia. Não sei o que terá mais de acontecer para perceberem que continuar a armar Kiev, não só não terá consequências estratégicas significativas, como apenas servirá para prolongar a destruição da sociedade ucraniana e o sofrimento de um povo que parece não querer continuar a combater, e que o próprio poder político teme em mobilizar à força.

A cegueira e o preconceito ideológico nunca foram bons conselheiros de quem tem de decidir. Quando se meteram nesta aventura, os europeus deviam estar cientes do historial americano de erros de cálculo estratégico.

Avaliação estratégica desastrada

Quando da guerra do Iraque, a França e a Alemanha, os pilares do projeto europeu, distanciaram-se dessa aventura. Agora não tiveram esse discernimento e optaram por engrossar o coro dos apoiantes. Não será necessário recordar o que aconteceu no Vietname, Afeganistão, Iraque e Líbia, entre muitos outros casos. A crença na derrota da Rússia à custa dos ucranianos é mais um caso de avaliação estratégica desastrada.

Frustrada a esperança de derrotar a Rússia, sentimento que começou a desenhar-se com o insucesso militar de Kiev, no outono de 2023, e o consequente aumento da capacidade e dos sucessos militares do Kremlin, tem-se assistido no Ocidente e, em particular, na Europa a uma certa desorientação, à dificuldade em aceitar que apostaram no “cavalo errado”, em reconhecer que as opções tomadas foram equivocadas e que é tempo de arrepiar caminho.

A hipótese de uma vitória russa na Ucrânia – seja lá o que isso for – tida há dois anos como uma tontaria nos areópagos do comentário, ganhou tração no espaço mediático.

Parece, afinal, que as mal preparadas forças russas conseguiram ultrapassar os problemas da falta de granadas e mísseis e, de um momento para o outro, qual fénix renascida, passaram a ser capazes de desafiar militarmente uma comunidade política com mais de 400 milhões de habitantes, que lhe é económica e tecnologicamente superior. O facto desta abordagem ser ridícula, não impediu que esteja a ser repetida à exaustão, procurando convencer a opinião pública da verosimilhança desse absurdo.

O Presidente Macron será, porventura, o expoente máximo do desalento europeu com a provável humilhação estratégica que a Europa poderá vir a sofrer. A tentativa de liderar a resposta a essa afronta coletiva impeliu-o a formar uma coligação fora do quadro da NATO (com a Polónia e os “poderosos” países bálticos) para intervir com tropas na Ucrânia, sabendo de antemão que os EUA não enviarão forças para o terreno e esquecendo-se, provavelmente, das suas debilidades militares.

Em 2011, não fosse a ajuda americana (mísseis, o reabastecimento aéreo, intelligence, etc.) e o ataque à Líbia teria sido um desastre. Para além disso, Paris já entregou 40% da sua artilharia à Ucrânia e não goza de apoio popular para uma tamanha empresa.

A Rússia não terá a iniciativa de invadir o Ocidente. São muitas as razões que explicam esse comportamento. A primeira, prende-se com a incapacidade de, no caso de ser força atacante, derrotar militarmente as forças europeias da NATO, mesmo que estas não tenham o apoio norte-americano.

O Kremlin está ciente dessa realidade. É demasiado óbvio para haver dúvidas. Veja-se a dificuldade da Rússia em derrotar as forças ucranianas, apoiadas pelas forças ocidentais. O Kremlin sabe, por exemplo, as suas vulnerabilidades em matéria de ISR (Intelligence, Surveillance, Reconnaissance), bem patentes no início da guerra, e ainda evidentes passados dois anos.

A Rússia dispõe apenas de 15 AWACS para cobrir todo o seu imenso território, tem limitações de vigilância permanente do Teatro de Operações e na deteção de longo alcance. É evidente a dificuldade em manter uma presença de 24 horas por dia, sete dias por semana, como tem a NATO, na parte ocidental do Mar Negro. A Rússia não tem recursos para manter uma guerra peer-to-peer com a NATO para lá do território ucraniano. Quem afirmar o contrário é ignorante, ou então impostor.

Todas as grandes potências tiveram a tentação de se apoderar da Rússia, ou de parcelas do seu território, para acederem aos seus imensos recursos naturais. Não recuando às invasões anteriores ao séc. XVI, no séc. XVII, a Rússia foi invadida pela Polónia, no séc. XVIII pelos suecos e, no séc. XIX, por Napoleão. Ainda no séc. XIX, tanto a França como os Britânicos combateram a Rússia na guerra da Crimeia. Não há memória de a Rússia ter reciprocado estas ações instigando, por exemplo, rebeliões na Córsega.

No séc. XX, a Rússia foi invadida pelos japoneses em dois momentos diferentes e, durante a guerra civil (1917-1920), por uma coligação internacional, na qual até participou um contingente norte-americano de 17 mil soldados.

O projeto da Casa Branca não é novo

O projeto norte-americano de remover o regime em Moscovo e substituí-lo por alguém mais próximo dos seus interesses, submisso à Casa Branca, como disse Victoria Nuland, um parceiro como queríamos, “um parceiro ocidentalizado e europeu”, não é novo nem original.

Franceses e britânicos tiveram a mesma ideia no final da Primeira Guerra Mundial, por motivos muito semelhantes aos dos norte-americanos. Também eles tinham como objetivo derrubar o regime recém-instalado em Moscovo para ter “vantagem comercial e política”. Segundo o acordo celebrado nessa altura, caberia à França “exercer influência”, eufemisticamente falando, nas zonas da Bessarabia e da Crimeia.

Segundo o “Le Monde”, Macron partilhou com o seu inner circle a intenção de enviar tropas francesas para Odessa, provavelmente para celebrar os 105 anos em que Odessa foi durante cem dias uma província francesa. Gorado o projeto britânico de construir uma base militar naval em Odessa, a França procura agora tomar a dianteira na concretização desse projeto.

A estes sonhos e a estas ambições, terminadas todas do mesmo modo, teremos de adicionar o sonho hitleriano do império de 1000 anos, cuja brutalidade da operação militar deixou marcas ainda hoje bem visíveis na sociedade russa.

Só em duas ocasiões na História, as forças russas/soviéticas avançaram para oeste dos rios Oder e Vístula, na sequência das invasões dos exércitos napoleónicos e hitlerianos, em operações de exploração do sucesso, em resposta ao ataque de que foram vítimas. O que motivaria o Kremlin a fazê-lo agora?

Historicamente, a Rússia balanceou-se estrategicamente para a Ásia e não para a Europa. A ausência de um motivo plausível que explique uma alteração estratégica leva-nos a concluir ser uma falácia a inevitabilidade de um ataque russo à Europa, forjado para distrair as atenções da derrota estratégica que se avizinha no horizonte.

Ao contrário dos EUA e de outras potências, que invadiram ou provocaram mudanças de regime em locais não contíguos com os seus territórios, a Rússia atuou militarmente em dois locais – Geórgia e Ucrânia – que lhe são contíguos e nos quais houve anteriormente operações de mudança de regime provocadas por Washington. Curiosamente, foram estes os dois países convidados para aderirem à Aliança na Cimeira de Bucareste, em 2008. Convinha relacionar os acontecimentos e tirar daí ilações.

É tempo de recuperar fórmulas de convivência pacífica

Não é controverso o rearmamento europeu e o reforço da sua preparação militar (Schengen militar, transportes militares, construção de caminhos de ferro e autoestradas, etc.) se for subordinado a uma lógica de dissuasão. É, aliás, necessário, desde que não tenha outro fim em vista. Contudo, não deixa de ser caricato que figuras como Ursula von der Leyen, que colaborou ativamente no enfraquecimento das forças armadas germânicas enquanto ministra da defesa (2009-2014), vir agora liderar o coro dos belicistas. Dá que pensar.

Antes de escalarem o conflito para patamares insustentáveis, os altos dignitários europeus devem considerar no seu processo de decisão: que os EUA não enviarão tropas para a Ucrânia, tendo os europeus de contar apenas consigo próprios; que o conceito MAD continua válido e a Rússia tem vantagem em matéria de armamento nuclear estratégico; que a Rússia não vai atacar o Ocidente; e que o prolongamento da guerra não vai provocar uma alteração estratégica da situação, mas sim piorar a situação da Ucrânia.

É inaceitável que os “Comunicadores Estratégicos” tenham escolhido como tema de recurso a invasão da Europa pela Rússia, uma vez resolvido o problema ucraniano. Cria ansiedade na população fazendo-a crer que a guerra é inevitável, apesar de não existirem indícios técnicos que o possam sugerir. É uma ação de doutrinamento baseada em premissas falsas, promovido pelos setores mais belicistas, para tornar as populações recetivas a aceitarem um confronto militar indesejado com a Rússia.

Seria, pois, sensato que os europeus não aumentassem os decibéis da retórica, e percebessem ser tempo para reconciliar e recuperar fórmulas de convivência pacífica, já testadas com sucesso no passado.

Afinal, a probabilidade de os russos voltarem a passar o Oder ou o Vístula para Ocidente afigura-se nula. Os mafrenses e os europeus poderão dormir descansados. Os russos não chegarão à Ribeira de Cheleiros.

Major-General Carlos Branco

Tuesday, March 26, 2024

O Bombista


Flamejante auriflama incendiada
patriótica face entumecida
com dentes de coroa cariada
e alma nacional - apodrecida.

Galões de oficial. Na face armada
um sorriso de arcanjo genocida
mais os comendadores da comenda
da comandita que nos comanda a vida.

Olhar alarve mas não inocente
na mão aberta a palma democrata
na mão escondida a saudação fascista.

É fácil perceber que nem é gente
é um simples piolho que se cata
é um filho da puta é um bombista. 

Ary dos Santos

Thursday, March 21, 2024

***


não é dia de natal nem do teu aniversário
ou do meu, e nem sequer é dia da mulher
é um dia qualquer como outros que já foram
uns espantosos e alguns nem por isso
fala-se pouco dos dias assim assim
e é deles o tijolo mais bonito e imperfeito
das construções a dois
como se fala pouco de amor fora das datas
esse amor oficial de calendário
o tal que nunca nos interessou
porque dissemos sempre e sempre e outra vez
ou amor todo ou não me interessa
tenho mais o que fazer
e é talvez isso ou só pode ser isso
que eu sou já velho mas estou outra vez
no elevador estrangeiro onde tirei esta foto
e vejo hoje - daqui a pouco - quando chegares
o que foi - e o agora - e o sempre. 

Rodrigo Guedes de Carvalho