Wednesday, February 01, 2023

As Sete Virtudes Filosofais ou a Alquimia dos Poetas


1. O ORGULHO
Por vezes no poema
desperdiçamos tudo
e fica apenas
uma terrível faca de silêncio
um muro
uma sebe de sede que defende
a fome de ódio puro.
2. A AVAREZA
A palavra vã guardada
A esmola aliterante.
Eis a miséria doirada
da poesia altissonante.
3. A LUXÚRIA
Nós amamos a carne das palavras
sua humana e pastosa consistência
seu prepúcio sonoro sua erecta presença
Com elas violentamos
o cerne do silêncio.
4. A IRA
Uma rosa de cólera
o poema
Uma antena de raiva.
Uma espoleta
na serena gaveta do poeta.
5. A GULA
Comemos vegetais e animais
Bebemos vinho.
Respiramos fundo.
Somos normais. Apenas
devoramos o mundo.
6. A INVEJA
Não sermos nós a voz
o tacto
o texto.
Darmos cinco sentidos
Para termos o sexto.
7. A PREGUIÇA
Este
lento
talento
de vazarmos tristeza.

José Carlos Ary dos Santos
em "Obra Poética"

Tuesday, January 24, 2023

Liberdade, Liberdade, Tem Cuidado Que Te Matam


Da prisão negra em que estavas
a porta abriu-se p'ra rua.
Já sem algemas escravas,
igual à cor que sonhavas,
vais vestida de estar nua.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Na rua passas cantando,
e o povo canta contigo.
Por onde tu vais passando
mais gente se vai juntando,
porque o povo é teu amigo.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Entre o povo que te aclama,
contente de poder ver-te,
há gente que por ti chama
para arrastar-te na lama
em que outros irão prender-te.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Muitos correndo apressados
querem ter-te só p'ra si;
e gritam tão de esganados
só por tachos cobiçados,
e não por amor de ti.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Na sombra dos seus salões
de mandar em companhias,
poderosos figurões
afiam já os facões
com que matar alegrias.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
E além do mar oceano
o maligno grão poder
já se apresta p'ra teu dano,
todo violência e engano,
para deitar-te a perder.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Com desordens, falsidades,
economia desfeita;
com calculada maldade,
Promessas de felicidade
e a miséria mais estreita.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Que muito povo se assuste,
julgando que és tu culpada,
eis o terrível embuste
por qualquer preço que custe
com que te armam a cilada.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam.
Tens de saber que o inimigo
quer matar-te à falsa fé.
Ah tem cuidado contigo;
quem te respeita é um amigo,
quem não respeita não é.
Liberdade, liberdade,
tem cuidado que te matam...

Jorge de Sena

Friday, January 20, 2023

Ilha

Tu vives — mãe adormecida —  
nua e esquecida,
 seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…  

Ilha:  
teus montes e teus vales  
não sentiram passar os tempos  
e ficaram no mundo dos teus sonhos  
— os sonhos dos teus filhos —  
a clamar aos ventos que passam,  
e às aves que voam, livres,  
as tuas ânsias!  

Ilha:  
colina sem fim de terra vermelha  
— terra dura —  
rochas escarpadas tapando os horizontes,  
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!


- Amílcar Cabral (Praia, Cabo Verde, 1945).

Agora sim

Agora sim, vais assombrar a cotovia
na força do teu verso extravagante,
e à mesa do jantar da poesia
abrir mais doce o tempo em cada instante.
Agora sim, vais assustar almas penadas,
fantasmas que trouxeste à flor da pele
soltando com furor à gargalhada
a raiva que entornavas no papel.
Agora sim, vais desossar essa gentinha
que rosnava aos calcanhares do teu talento
gente pífia, tão pouca, facilzinha
tão pronta pr’a o teu gosto truculento.
Agora sim, vais dar ao vento uma bandeira
de amor e de ternura deslumbrada
e no peito a acender uma fogueira
essa linda palavra, camarada.
Agora sim, o teu viver desencontrado
entregue à chama acesa da paixão
fará do que ficou inacabado
a dança do perfeito coração.

Agora sim, vais fecundar a terra ardente
com palavras de amor e de saudade
e a palavra mais doce mais semente
a mais bela de todas, liberdade.

José Fanha

(Começado a escrever na morte de Ary dos Santos
e terminado no dia 19 de Dezembro de 2021)

Thursday, January 19, 2023

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade


Wednesday, January 18, 2023

Na mesa do Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

 Ary dos Santos

Tuesday, January 17, 2023

Calendário


Janeiro. O sol vem devagarinho
bater à minha porta. Vem dizer
que o frio é um punhal. E o caminho
é uma rosa de sono a apodrecer.

Fevereiro. As aves têm medo
de poisar nos braços da manhã.
Morreu a toutinegra. O arvoredo
deita lágrimas de cinza e hortelã.

Depois Março rasteja. É uma hera
penetrando o vente da alegria.
A terra é verde. E é loira a primavera
bordada a fios de sol do meio-dia.

Abril é um abraço. É uma flor.
A flor que tem raiz no coração.
Abril foi um sol dado. Um sol maior.
Uma espingarda dentro da razão.

E Maio? Ah sim! De Maio o menos
que poderei dizer é a verdade.
É da luta na rua que faremos
um país que seja a própria liberdade. 

Mês de Junho: a pedra sobre o lago.
Um barco de palavras que não vejo.
O mar da estranha calma em que naufrago.
A praia onde respira o meu desejo.

De Julho quase nada. Fiz um filho.
As noites são irmãs da minha boca.
E há beijos que me sabem a tomilho
quando abraço das estrelas a mais louca.

Agosto é a seara. A lua cheia
de promessas. De raivas. De cantigas.
O sol é uma aranha. E faz a teia
entre o azul do céu e as espigas.

Setembro da tristeza. Das vindimas.
Ai vinhas da mentira! Orgasmo das videiras!
Há cachos de uvas brancas nestas rimas.
Borboletas colorindo as bebedeiras.

Outubro é um cavalo. Um potro branco.
Escoiceando o vento. Mordendo a claridade.
E ferido de um só golpe sobre o flanco 
ainda vai trotando esta ansiedade.

E vem Novembro. Um assassino deixa
morrer a minha pátria. E jaz no chão
a minha rosa negra. A minha queixa.
Novembro não tem paz. Não tem perdão.

Dezembro. Cantaram-se outros hinos.
Gritaram-se os poemas que não fiz.
E morro entre palavras. Entre os sinos
que tocam a rebate o meu país.

Joaquim Pessoa


Thursday, January 12, 2023

Entrevista com Pedro Pires



O Avante! publica hoje uma entrevista com Pedro Pires, presidente da Fundação Amílcar Cabral, ex-guerrilheiro do PAIGC, ex-primeiro ministro e ex-presidente da República de Cabo Verde. A dada altura, na entrevista, Pedro Pires diz isto:
"(...) Amílcar Ca­bral, numa pos­tura pe­da­gó­gica, man­tinha a preocupação de marcar a di­fe­rença entre o co­lo­ni­a­lismo por­tu­guês e o povo por­tu­guês, por quem tinha bas­tante con­si­de­ração, re­pi­sando que «o nosso ini­migo, a quem com­ba­temos, não é o povo por­tu­guês, são o co­lo­ni­a­lismo e a do­mi­nação co­lo­nial por­tu­guesa». En­tendia que os lu­ta­dores an­ti­fas­cistas e os opo­si­tores à guerra co­lo­nial, en­ca­be­çados pelo Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês, eram os ali­ados his­tó­ricos e ne­ces­sá­rios da luta an­ti­co­lo­nial con­du­zida pelo PAIGC.
(...)
Não foi his­to­ri­ca­mente in­sig­ni­fi­cante que os lí­deres pre­cur­sores das lutas de li­ber­tação ti­vessem feito o «ti­ro­cínio po­lí­tico» junto e com as or­ga­ni­za­ções ju­venis opo­si­ci­o­nistas por­tu­guesas, como o MUD Ju­venil. Essas re­la­ções per­mi­tiram a cri­ação de laços de ami­zade e de con­fi­ança po­lí­tica que ge­raram bases só­lidas para as re­la­ções de co­la­bo­ração e de so­li­da­ri­e­dade du­rante as lutas de li­ber­tação e no pe­ríodo de cons­trução dos fun­da­mentos dos novos Es­tados so­be­ranos.»

Tuesday, January 03, 2023

A geração de analfabetos políticos

 Existe uma geração de analfabetos políticos. Jovens que, por uma razão ou outra, me dizem que nunca leram nenhum livro, que não gostam de ler. E, no entanto, VOTAM! Não sabem muito bem em quem, nem porquê, mas vão lá pôr o papelinho.

Pior do que isto é que os pais de alguns destes jovens (que têm idade para serem meus netos) também são analfabetos políticos. Não leem, não sabem o que se passa no Mundo porque na tv só veem novelas e quando chega a hora do telejornal mudam para um canal de música. Vejo disto há mais de 20 anos. É a geração que cresceu a ver o big brother. Pior ainda é que alguns pais são professores. E eu pergunto que tipo de formação é que um professor ignorante político pode dar aos seus alunos....
Ouvi um dia destes alguém dizer que os partidos políticos não fazem falta. Que seria tudo mais tranquilo (leia-se, não havia tantas discussões) se não houvesse partidos. Fiquei pálida. Mas não fiquei calada.
Não sei o que é que esta gente pensa que é a democracia. Mas foi esta geração que nós criámos, a seguir ao 25 de Abril. Pergunto-me onde é que errámos.
Esta gente, estes de quem falo e poderiam ser meus filhos e netos, são permeáveis às correntes de opinião que estão na moda. Porque nós, os velhos, somos descartáveis nas ideias. Não que eles as conheçam, mas apenas porque ouvem dizer.
O fascismo está aí, à vista de todos, menos deles. E de outros, que desvalorizam o que nos entra casa adentro.
Talvez estas minhas preocupações sejam apenas minhas e eu esteja a ver um filme de terror. Mas as personagens existem, e VOTAM!
Tenho um nó no peito e não sei como o desfazer...
Aproveitem o sol e vão até à janela ou varanda olhar o horizonte. Enquanto é dia...
Tenham a tarde possível.

Saturday, December 24, 2022

Falavam-me de Amor



Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia
O Dilúvio e a Pomba

Monday, December 19, 2022

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI


Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.

Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

-Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

Mário Castrim

Sunday, December 18, 2022

Madrigal melancólico

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
 
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
— Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
 
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi,
Não é a irmã que já perdi, 
E meu pai.
 
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

Manoel Bandeira

Sunday, December 04, 2022

Louvor das Aves do Sul

 


"Este texto não é um prefácio

Disseram-me que era a minha vez de escrever sobre este livro e o seu autor. Tarefa difícil a que darei o meu melhor, sendo que não sou de grandes escritas. Mas...
- quando se nasce no centro do país mas se tem campos de searas no olhar;
- quando se cresce no meio da natureza e se ganham asas dos pássaros que voam ao longe;
- quando as lágrimas afloram o olhar com a mesma naturalidade com que o sorriso se rasga numa brincadeira de menino;
- quando se respira sensibilidade por todos os poros da pele;
- quando a amizade é forma de amor mais bonita e um amigo é tudo na vida,
tudo o que se possa dizer sobre o autor ou a sua obra fica aquém do merecido.

O António é antropólogo e a profissão levou-o a viver algum tempo ao sul, tendo daí resultado duas experiências riquíssimas que se traduziram em obras já publicadas sobre os Assalariados Agrícolas de Ervidel e os Mineiros de Aljustrel, livros que reproduzem histórias de vida de quem as contou. Escreveu ainda uma história para crianças (e para adultos, diria eu) a que chamou Sebastião Toupeira, e que aborda a vida dos mineiros de Aljustrel. Acresce a Casa das Glicínias e Os Confins da Infância, estes dois de poesia. E se os primeiros livros que escreveu nos prendem pelas histórias de vida que relatam, é na Poesia que o António (Lains de Ourém, às vezes Lains de lado nenhum) se despe completamente e nos mostra todos os sentimentos em carne viva.

Não tenho a certeza de quando conheci o António, porque já sabia que existia antes de o ver. Um Amigo comum juntou-nos, e éramos bastantes. Nesse dia em Ervidel eu tive a certeza que era uma amizade para a vida. Seguiram-se as outras apresentações dos outros livros que já referi, e com outros Amigos comuns. Mas eu já lia o António nas redes sociais. E às vezes tinha de parar para respirar. O que acontece ainda hoje. E fomo-nos descobrindo.

O António é um jovem nascido depois de Abril. Mas tem hoje, em seu poder, toda a História da nossa Revolução em autocolantes, cartazes, emblemas, crachás e outros materiais que o transportam a tempos em que ainda não existia, mas que sabe terem sido intensos e marcantes para quem os viveu. Depois o António é um curioso da vida, e encontrámos mais dois pontos em que os nossos interesses são idênticos: a música e as artes plásticas, dois mundos enormes sobre os quais temos ainda muito para conversar e descobrir.

Passemos ao Louvor das Aves ao Sul.

Nunca há palavras bastantes para descrever o belo. Profundamente conhecedor dos terrenos que pisa, cada poema é sempre um voltar ao passado e ao mesmo tempo ao futuro. Um passado experienciado quantas vezes ao som do chilrear das aves, um futuro a construir com todos os sonhos que agarra com as mãos. Um voltar à casa.

Este livro é uma viagem profunda (ou será um voo?) aos imensos campos do Alentejo e do Sul onde o autor se cruza com o canto das aves e com todas as emoções vividas e ainda por viver, mas que adivinha. Uma viagem solitária, que não em solidão, para melhor sentir o cheiro da terra, das árvores, das searas. Uma viagem solitária, que não em solidão, aos afectos, lugares e gentes com quem se cruzou. Uma viagem em que está sempre presente a Família como pilar de tudo. A Mãe! A Casa! A ternura...
E quem pega no livro para o ler inicia com o autor uma magnífica viagem ao interior de quem o escreve. Como disse atrás, todos os sentimentos estão em carne viva. Nada nos é indiferente neste livro de poemas. Nem as palavras, nem as ilustrações feitas por vários artistas plásticos.

Amaciem os vossos corações e leiam este livro em silêncio. Para que possam ouvir o bater de asas das aves."
 

Já fez um ano. O tempo voa...

Friday, November 25, 2022

Fidel

Soy pueblo
dirán exactamente de Fidel
gran conductor el que incendió la historia etcétera
pero el pueblo lo llama el caballo y es cierto
Fidel montó sobre Fidel un día
se lanzó de cabeza contra el dolor contra la muerte
pero más todavía contra el polvo del alma
la Historia parlará de sus hechos gloriosos
prefiero recordarlo en el rincón del día
en que miró su tierra y dijo soy la tierra
en que miró su pueblo y dijo soy el pueblo
y abolió sus dolores sus sombras sus olvidos
y solo contra el mundo levantó en una estaca
su propio corazón el único que tuvo
lo desplegó en el aire como una gran bandera
como un fuego encendido contra la noche oscura
como un golpe de amor en la cara del miedo
como un hombre que entra temblando en el amor
alzó su corazón lo agitaba en el aire
lo daba de comer de beber de encender.
Fidel es un país
yo lo vi con oleajes de rostros en su rostro
la Historia arreglará sus cuentas allá ella
pero lo vi cuando subía gente por sus hubiéramos
buenas noches Historia agranda tus portones
entramos con Fidel con el caballo.

Juan Gelman

Thursday, November 24, 2022

Não há vagas

O preço do feijão 
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
luz e telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açucar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.

Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

So cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar

Saturday, November 19, 2022

CANTAR DE VIVO PARA UM CAMARADA MORTO


(Em memória do meu amigo
José Mário Branco)

Nas mãos do vento uma guitarra arde.
É tarde. É tarde. E o meu poema pouco.
Que um deus qualquer a tua fúria guarde.
Que qualquer deus te ame. Ou qualquer louco.

No fundo do olhar morre a gaivota.
É cedo. É cedo. Vai gritando o vento.
E leva em cada asa uma derrota.
E põe no céu de abril o sofrimento.

É cedo. É tarde, amigo. Ai, é tão cedo!
É tão macia a noite. E negra a cama
coberta com lençóis do teu segredo.

Para ti não há loiros. Não há fama.
E enquanto um povo lavra o chão do medo
um homem rasga as veias sobre a lama.

Joaquim Pessoa