Friday, October 11, 2019

Petição para 'Impedimento de tomada de posse' de uma deputada recém eleita


Anda por aí uma petição com objectivos muito claros, precisos e concisos, embora o texto da mesma deixe muito a desejar à língua portuguesa. 
A velocidade a que está a ser assinada é assustadora.
Porque é sempre preciso lembrar (ou não esquecer), aqui fica, mais uma vez:

Quando os nazistas levaram os comunistas, 
eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista.
Quando eles prenderam os sociais-democratas, 
eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata.
Quando eles levaram os sindicalistas, 
eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista.
Quando levaram os judeus, 
eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu.
Quando eles me levaram, 
não havia mais quem protestasse.

Martin Niemöller

Wednesday, October 09, 2019

Elegia das Águas Negras para Che Guevara


Atado ao silêncio, o coração ainda
pesado de amor, jazes de perfil,
escutando, por assim dizer, as águas
negras da nossa aflição.

Pálidas vozes procuram-te na bruma;
de prado em prado procuram
um potro mais livre, a palmeira mais alta
sobre o lago, um barco talvez
ou o mel entornado da nossa alegria.

Olhos apertados pelo medo
aguardam na noite o sol do meio-dia,
a face viva do sol onde cresces,
onde te confundes com os ramos
de sangue do verão ou o rumor
dos pés brancos da chuva nas areias.

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé,
cada palavra tua faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos, contigo
no coração, em redor do fogo.

Eugénio de Andrade

Tuesday, October 08, 2019

Poema à boca fechada


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

Wednesday, October 02, 2019

Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, 

in "Os Amantes Sem Dinheiro"

Sunday, September 29, 2019

Petição de repúdio e exigência de que se trave e abandone a anunciada criação do «Museu Salazar», com esse ou outro nome, em Santa Comba Dão

Petição de repúdio e exigência de que se trave e abandone a anunciada criação do «Museu Salazar», com esse ou outro nome, em Santa Comba Dão

Para: Exmº Senhor Presidente da Assembleia da República

O projecto da reabilitação da figura de Salazar e do fascismo, que cumpre denunciar já foi travado há anos atrás, na sua primeira versão. Agora, perante a amplitude da indignação que suscitou e suscita, reaparece de novo, encenado e refugiando-se, desta vez, com designação e dimensão pretensamente mais ampla e com contornos de investigação e critérios académicos mas sem iludir o objectivo prosseguido, de sediar em Santa Comba Dão um “museu” ao ditador, adoptando a designação de “Centro de Interpretação do Estado Novo”, projecto que a Assembleia da República já condenou em 2007 e agora, de novo, o reafirma na Comissão Permanente reunida a 11 de Setembro de 2019.

Nesse sentido, as cidadãs e cidadãos que se identificam e assinam a presente Petição, vêm solicitar ao Senhor Presidente da Assembleia da República e aos Senhores Deputados que, no início da nova legislatura, efectuem as diligências necessárias, no respeito pelos valores inscritos na Constituição da República, para que tal ofensa aos portugueses em geral, e em particular à memória dos milhares de vítimas do regime fascista do «Estado Novo», seja definitivamente travada e abandonada.

Considerando os sinais concretos do desenvolvimento de forças fascistas e fascizantes por toda a Europa (e não só), a criação de um museu como o anunciado em Santa Comba Dão, não será apenas um depósito do espólio do ditador Salazar, mas um centro de conspiração contra a Democracia e o Portugal de Abril.

O “museu” não vai ser “um local de estudo e um centro interpretativo do Estado Novo” como proclamam os seus defensores, mas sim um instrumento para congregar saudosistas do passado e assumir-se como centro de divulgação e acção enquadradas na matriz corporativa/fascista que a maioria do Povo sofreu sob o “Estado Novo”.

Para fazer a história do “Estado Novo” existem já os baluartes e projecto da resistência e luta pela Liberdade em Peniche, no Aljube e outros deverão ser abertos, como a antiga cadeia da PIDE na Rua do Heroísmo, no Porto.

Ao que acrescem razões jurídico-substantivas para que não possa ser uma realidade a criação de tal associação-museu.

De facto, o n.º 4, do artigo 46.º da Constituição da República Portuguesa, proíbe todas as organizações que partilhem a ideologia fascista, esclarecendo a Lei 64/78 de 6 de Outubro, que «são proibidas e não pode exercer toda e qualquer actividade as organizações que mostrem (…) pretender difundir ou difundir efectivamente os valores, os princípios, os expoentes, as instituições e os métodos característicos dos regimes fascistas (…) nomeadamente (…) o corporativismo ou a exaltação das personalidades das mais representativas daqueles regimes.»

Pelo exposto e nos termos do número 1, do artigo 52 da Constituição da República Portuguesa, os abaixo assinados solicitam que a Assembleia da República, em nome do Portugal de Abril, mas também da Constituição da República Portuguesa e da Lei, condene politicamente o processo de criação do “Museu Salazar”, em Santa Comba Dão, e processe as diligências necessárias ao impedimento do intento que tanto ofende a memória dos milhares de vítimas do “Estado Novo” e os Portugueses em geral.

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Primeiros subscritores,
cidadãs e cidadãos, democratas de diferentes sensibilidades, profissões e regiões: médicos; advogados; juristas; operários; escritores; empregados; académicos; autarcas; membros de entidades do turismo; ex-presos políticos; jornalistas; músicos; sindicalistas; professores; estudantes; artistas e militares de Abril que agora vos apelam para que se juntem, assinem e divulguem.


Abílio Fernandes
Adelino Pereira da Silva
Adelino Silva Nunes Pereira
Adilo Oliveira Costa
Aguinaldo Cabral
Albano Nunes
Alberto Lopes Andrade
Alexandre Jorge Almeida
Alfredo Campos
Alfredo Graça
Alfredo Maia
Alfredo Monteiro
Alice Capela
Alice Vieira
Alma Rivera
Almada Contreiras
Álvaro Beijinha
Amadeu Battel
Américo Flor
Amílcar Cardoso
Ana Margarida Carvalho
Ana Souto
Anabela Mota Ribeiro
André Carmo
Aniceto Henrique Afonso
António Antunes - Tó Trips (Dead Combo)
António Avelãs Nunes
António Bernardo Colaço
António Branco
António Ceia da Silva
António Cluny
António Fernandes de Matos
António Figueira Mendes
António Gervásio
António Goulart
António José Martins
António Lopes
António Manuel Simões Ferreira
António Martins
António Matos
António Menano
António Neto Brandão
António Recto
António Redol
António Regala
António Rodrigues Canelas
António Saiote
António Vilarigues
Apolónia Teixeira
Aprígio Ramalho
Armando Myre Dores
Arménio Carlos
Augusto Flor
Avelino Gonçalves
Baptista Alves
Bernardino Soares
Camilo Mortágua
Carlos Campos Rodrigues Costa
Carlos Coutinho
Carlos Gonçalves Oliveira Duarte
Carlos Humberto Pinheiro Palácios de Carvalho
Carlos Manuel Tomé da Costa
Carlos Pinto Sá
Carlos Santos Pereira
Carlos Vale
Carvalho da Silva
Casimiro Menezes
Catarina Pires
Celso Moreira de Oliveira
Cláudio Torres
Conceição Matos
Custódia Chibante
Damião Ribeiro
Daniel Cabrita
Daniel Sampaio
Deolinda Machado
Diamantino Estanislau
Dinis Lourenço
Diniz de Almeida
Diogo Correia
Domingos Abrantes
Domingos Lobo
Dulce Rebelo
Eduardo Gageiro
Emídio Martins
Eulália Miranda
Eva Soares de Pinho da Cruz Leite Freitas
Fátima Amaral
Faustino Reis
Fernando Medina
Fernando Paes
Firmino Martins
Francisco Bruto da Costa
Francisco Canelas
Francisco Dias Pereira
Francisco Duarte Mangas
Francisco Jesus
Francisco Lobo
Francisco Melo
Francisco Mesquita Machado
Glória Maria Marreiros
Gonçalo Lagar
Graciete Cruz
Guilherme da Fonseca
Heitor Sequeira Alves
Hélder Madeira
Helena Pato
Henrique Mendonça
Herculana Velez
Hortênsia Menino
Inês Fontinha
Isabel do Carmo
Jaime Carvalho
Jaime Mendes
Jaime Serra
Joana Dias Pereira
Joana Manuel
Joana Villaverde
João Carlos Lopes Serra
João Correia da Cunha
João Durão Carvalho
João Goulão
João Gralheiro
João Leonardo da Cunha
João Luis Madeira Lopes
João Miguel Judas
João Miranda
João Monge
João Neves
João Português
João Torres
Joaquim Almeida
Joaquim Barata
Joaquim Correia
Joaquim Judas
Joaquim Letria
Joaquim Loureiro
Joaquim Santos
Joaquina Silvério
Jorge Cabral Campos
Jorge Sarabando
Jorge Sario de Matos
José Abreu
José Alberto Quintino
José Barata-Moura
José Costa Neves
José Elio Sucena
José Ernesto Cartaxo
José Jorge Letria
José Goulão
José Lestra Gonçalves
José Lopes de Almeida
José Luís Peixoto
José Manuel Jara
José Manuel Mendes
José Manuel Sampaio
José Pedro Soares
José Santa Bárbara
José Teodósio Cachochas
José Veloso
José Viale Moutinho
José Viola
Josué Marques
Júlia Maria de Almeida Lima e Sequeira Rodrigues
Júlio Dias
Laura Lopes
Levy Baptista
Lídia Jorge
Luís Cília
Luís Farinha
Luís Ferreira
Luís Filipe Lopes Pinheiro
Luís Filipe Pimenta Correia
Luís Miguel Carraça Franco
Luís Simão
Luísa Tito de Morais
Machado dos Santos
Madalena Santos
Manuel Barbosa da Silva
Manuel Begonha
Manuel Condenado
Manuel Freire
Manuel José Costa Oliveira
Manuel Lima Bastos
Manuel Magrinho
Manuel Pedro
Manuel Strecht Monteiro
Manuela Bernardino
Margarida Barbedo
Margarida Taveira
Margarida Tengarrinha
Maria da Piedade Morgadinho
Maria das Dores Meira
Maria João Brilhante
Maria João Luís
Maria José Ribeiro
Maria Lourença Cabecinha
Maria Manuela Antunes da Silva
Mariana Metelo Cunha Lopes
Mariana Rafael
Mariana Silva
Marília Villaverde Cabral
Mário Araújo
Mário de Carvalho
Mário Pereira
Martins Guerreiro
Miguel Amoêdo Canudo
Miguel Boeiro
Miguel Pessoa
Modesto Navarro
Nuno Judíce
Nuno Ramos de Almeida
Nuno Silva
Odete Santos
Osvaldo de Sousa
Otelo Saraiva de Carvalho
Pedro Estorninho
Pedro Fernandes
Pedro Gonçalves (Dead Combo)
Pedro Santos
Pezarat Correia
Pilar del Río
Ribeiro Cardoso
Ricardo Ferraz
Rita Magrinho
Rodrigo Francisco
Rosalina Carmona Pica
Rui Cardoso Martins
Rui Garcia
Rui Mateus
Rui Namorado Rosa
Rui Nunes
Rui Raposo
Rui Solheiro
Samuel Quedas
Santa Clara Gomes
Sérgio Augusto Costa Esperança
Sérgio Dias Branco
Sérgio Machado Letria
Sérgio Manso Pinheiro
Sérgio Ribeiro
Sérgio Vicente
Sílvia Pinto
Silvina Miranda
Susana Sousa Dias
Tarroso Gomes
Teresa Carvalho
Teresa Lopes
Teresa Tito de Morais
Tiago Jacinto
Tiago Mota Saraiva
Tomás Urbano
Tomé Pires
Valter Ferreira
Vasco Lourenço
Vicente Barbedo Gonçalves
Vítor Costa
Vítor Proença
Vítor Zacarias
Vitorino
Zeferino Coelho
 
Link para assinar a petição:
https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=naoaomuseusalazar&fbclid=IwAR3q7F4IkA_8O3dDQnGZlkyGmJWqGQ9ygJVbynOXhnqGOVOTz2Uw9byjoOw

Friday, September 27, 2019

Pequena Elegia de Setembro


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


Eugénio de Andrade
(«Coração do Dia» - 1956-1958)

Monday, September 23, 2019

Carta a um Super-herói (II)


Carta a um Super-herói (II)

Esta noite viajámos juntos nos meus sonhos. Passámos a noite acordados a correr, a jogar à bola, a comer gelados, a conversar... rimos muito, abracei-te muito!

Contaste-me as tuas novidades e eu contei-te as minhas: "Sabes, a tia ainda não te disse, mas vais ter mais um priminho... está a crescer forte e só espero que seja um terço do que tu és - Já dizia isso do primeiro e saiu-me melhor que a encomenda - Tu riste-te com aquele teu jeito envergonhado e maroto.

Falaste-me das tuas aventuras todas de Super-T, mostraste-me as tuas medalhas e conquistas. Estás crescido! És um verdadeiro Super-herói! E eu tenho muito orgulho em ti!

O despertador tocou e eu tive de voltar à minha realidade. São 4 meses... e ainda não parece real. Não sei lidar com a tua ausência, não quero lidar com ela. Continuo sem compreender, continuo sem aceitar. Não sei se algum dia isso acontecerá.

Esta música, uma das mais bonitas canções de embalar de sempre, fazem-me lembrar de ti... acho que tu sabes porquê! ;)

Obrigada pelo sonho perfeito, volta logo à noite, sim?

https://youtu.be/PC2-IBgWX1w

Joana Correia

Saturday, September 14, 2019

O mar nos teus olhos



Vives comigo e não te conheço. Apenas sei que o teu pensamento está na Ilha, porque vejo-te mar. Há noites em que sais e só chegas de madrugada, ébria de tudo, e aninhas-te no canto que é teu. Dormes um sono agitado e curto. E o mar nos teus olhos. O vestido de alças descai-te do ombro, e beijo-o. Estás fria. Abraço-te na tentativa de te aquecer. Acendes um cigarro e sais para o jardim, gostas de andar descalça na relva e na terra. E o mar nos teus olhos. Criaste um mundo que é só teu e que ninguém consegue romper. Dizes-te feliz e eu não sei o que é essa felicidade. Sentas-te e escolhes um livro ao acaso, que abres ao acaso. Numa página em branco. Dizes que é a página da tua vida. E o mar nos teus olhos.

Wednesday, September 11, 2019

Homenagem ao povo do Chile


Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.

Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Alguns traziam no rosto
um rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.

Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.


José Carlos Ary dos Santos

Friday, September 06, 2019

**


Falta-me o barulho, falta-me o 'respirar', falta-me a multidão, faltam-me os Camaradas, faltam-me as papas de sarrabulho de Viana, a sopa da pedra de Santarém, a sopa de cebola de Vila Real, os doces de Aveiro, o queijo e o salpicão da Guarda, os maranhos de Castelo Branco, o calor da Festa, a poncha e a nikita da Madeira, a morcela com ananás dos Açores, a broa de Avintes com qualquer coisa (podem ser azeitonas) do Porto, o choco frito de Setúbal, os filetes de bacalhau frito e a malga de branco gelado de Braga, o calor da Festa, as tarefas na Cidade Internacional, no Palco 25A, a tarefa (importantíssima!!!) no Palco Raízes, os mojitos em Cuba, o calor da Festa, os abraços a e de Camaradas que não vejo há tanto tempo (as vidas mudam, as casas também, a Amizade e o Amor não!), falta-me a cachupa em Cabo Verde, as caipirinhas no Brasil, o café de Timor, o calor da Festa, faltam-me as perguntas de quem lá vai pela primeira vez 'porque é que não pode ser assim todos os dias', falta-me o borrego de Évora e o cante alentejano, o calor da Festa, oh... falta-me tanto...

Friday, August 30, 2019

Carta - Petição da URAP


Ex-Presos Políticos protestam contra a criação do Museu Salazar

Carta enviada ao Primeiro Ministro e ao Presidente da Assembleia da República a 12 de Agosto de 2019, e hoje divulgada à Comunicação Social, assinada por 204 ex-presos políticos.

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República
Lisboa, 12 de Agosto de 2019

Os abaixo-assinados, ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista – de que Salazar foi principal mentor e responsável – o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um “Museu Salazar” feito pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão e apelam ao Governo para que, em conformidade com o relatório aprovado por unanimidade, em Julho de 2008, pela Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República e com normas da Constituição da República Portuguesa, intervenha para impedir a concretização desse projeto que, longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista, se prefigura como um instrumento ao serviço do seu branqueamento e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.
Quando em muitos países se assiste ao renascer de forças fascistas e fascizantes, o país precisa, não de instrumentos de propaganda do fascismo – que a Constituição da República expressamente proíbe – mas de meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer o cortejo de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas.
Os abaixo-assinados apelam ainda a todos os democratas e amantes da liberdade que se manifestem contra a criação, nos termos em que tem vindo a ser anunciado, desse memorial ao ditador.

Adelino Pereira da Silva
Afonso Rodrigues
Aguinaldo Cabral
Aguinaldo Espada de Oliveira Santos
Aires de Aguiar Bustorff
Albertino Almeida
Alberto Borges
Alexandre Jorge Almeida
Alexandre José Pirata
Alfredo Caldeira
Alfredo Guaparrão
Alfredo de Matos
Alice Capela
Álvaro Monteiro
Álvaro Pato
Américo Joaquim Brás
Américo Leal
Ana Abel
António Almeida
António Antunes Canais
António Borges Coelho
António Caçola Alcântara
António Cerqueira
António Espirito Santo
António Gervásio
António Graça
António Inácio Baião
António José Baltazar Condeço
António Lenine Moiteiro
António Melo
António Pedro Braga
António Ramalho Alcântara
António Redol
António Rodrigues Canelas
António Rodrigues Correia
António Santos
António Santos Pereira
António Velhinho Ventura
Armando Cerqueira
Arménio Marques Gil
Armando de Lacerda
Artur Monteiro de Oliveira
Artur Pinto
Aurélio Pato
Aurora Rodrigues
Bárbara Judas
Camilo Mortágua
Carlos Brito
Carlos Campos Rodrigues Costa
Carlos Coutinho
Carlos Marum
Carlos Myre Dores
Carlos Oliveira Santos
Clemente Alves
Conceição Matos
Cristiano de Freitas
Daniel Cabrita
Danilo Matos
Diana Andringa
Domingos Abrantes
Domingos Lopes
Domingos Pinho
Duarte Nuno Clímaco Pinto
Eduardo Baptista
Eduardo Ferreira
Eduardo Meireles
Elídia Rosa Caeiro
Emília Brederode
Encarnação Raminho
Estevão A. P. Caeiro Oca
Eugénia Varela Gomes
Eugénio Ruivo
Feliciano David
Fernando Almeida Simões
Fernando Baeta Neves
Fernando Chambel
Fernando Correia
Fernando Cortez Pinto
Fernando Flávio Espada
Fernando Martins Adão
Fernando Miguel Bernardes
Fernando Rosas
Fernando Vicente
Filipe Augusto Neves do Carmo
Filipe Mendes Rosas
Firmino Martins
Francisco Braga
Francisco Bruto da Costa
Francisco Carrasco dos Santos
Francisco do Carmo Martins
Francisco Lobo
Francisco Melo
Francisco Nilha Jorge
Francisco Silva Alves
Graça Érica Rodrigues
Helena Cabeçadas
Helena Neves
Helena Pato
Herculano Neto Silva
Humberto Rui Moreira
Isabel do Carmo
Jaime Fernandes
Jaime Serra
João Augusto Aldeia
João Carrasco Caeiro
João Queirós
João Viegas
Joaquim Barata
Joaquim Henrique Rodrigues
Joaquim Jorge Araújo
Joaquim Judas
Joaquim Labaredas
Joaquim Monteiro Matias
Joaquim P. Pinto Isidro
Joaquim Santos
Jorge Carvalho
Jorge Querido
Jorge Neto Valente
Jorge Seabra
Jorge Silva Melo
Jorge Vasconcelos
José A . Guimarães Morais
José Carlos Almeida
José Eduardo Baião
José Eduardo Brissos
José Ernesto Cartaxo
José Guimarães Morais
José Jaime Fernandes
José Lamego
José Leitão
José Luís Machado Feronha
José Manuel Serra Picão de Abreu
José Marcelino
José Mário Branco
José Marques
José Oliveira
José Revés
José Ribeiro Sineiro
José Teodósio Cachochas
José Pedro Soares
Justino Pinto de Andrade
Laura Valente
Lígia Calapês
Luís Firmino
Luís Fonseca
Luís Moita
Luís Figueiredo
Luísa Oliveira
Manuel Candeias
Manuel Custódio Jesus
Manuel Ferreira Gonçalves
Manuel Henriques Estevão
Manuel José Brás
Manuel Pedro
Manuel Pedro Baião
Manuel Policarpo Guerreiro
Manuel Quinteiro Gomes
Manuel Ruivo
Manuel dos Santos Guerreiro
Manuela Bernardino
Maria da Conceição Moita
Maria Custódia Chibante
Maria Dulce Antunes
Maria Emilia Miranda de Sousa
Maria Fernanda Dâmaso Marques
Maria da Graça Marques Pinto
Maria Guilhermina Ferreira Galveias
Maria Helena Rocha Soares
Maria Hermínia de Sousa Santos
Maria Isabel Areosa Feio de Barros
Maria João Gerardo
Maria José Pinto Coelho da Silva
Maria João Lobo
Maria José Ribeiro
Maria Luíza Sarsfield Cabral
Maria de Lurdes Clarisse
Maria Lourença Cabecinha
Maria Margarida Barbosa de Carvalho Pino
Mário Abrantes
Mário Araújo
Mário de Carvalho
Mário Lino
Matilde Bento
Miguel Guimarães
Miriam Halpern Pereira
Modesto Navarro
Nozes Pires
Nuno Luís Silva
Nuno Pereira da Silva Miguel
Nuno Potes Duarte
Óscar Manuel Romualdo
Óscar Vieira
Osvaldo Osório
Paula Correia
Pedro Borges
Raúl Carvalho
Sara Amâncio
Saúl Nunes
Sérgio Ribeiro
Sérgio Valente
Teresa Dias Coelho
Teresa Tito de Morais
Úrsula da Conceição Farinha
Vasco Paiva
Violante Saramago Matos
Vítor Dias
Vítor Zacarias

Wednesday, August 28, 2019

O último abraço que me dás

Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele

Para Luís Costa
O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

Sunday, August 25, 2019

Nasceu-te um Filho


Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou - já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
- ri-te de ambas, que um filho é imortal.

Jorge de Sena, in 'Visão Perpétua'

Thursday, August 22, 2019

sem título



dói-me o pulmão esquerdo do planeta
e o amazonas.


o fascismo mata. mais que monóxido de carbono.

Miguel Tiago

Monday, August 19, 2019

Túmulo de Lorca


Em ti choramos os outros mortos todos
Os que foram fuzilados em vigílias sem data
Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias
Tão ignorados que nem sequer podemos
Perguntar por eles imaginar seu rosto
Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
Entre os cornos da raiva sob o peso da força

Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
Não repousamos em paz na tua morte
A hora da tua morte continua próxima e veemente
E a terra onde abriram a tua sepultura
É semelhante à ferida que não fecha

O teu sangue não encontrou nem foz nem saída
De Norte a Sul de Leste a Oeste
Estamos vivendo afogados no teu sangue
A lisa cal de cada muro branco
Escreve que tu foste assassinado

Não podemos aceitar. O processo não cessa
Pois nem tu foste poupado à patada da besta
A noite não pode beber nossa tristeza
E por mais que te escondam não ficas sepultado

Sophia de Mello Breyner Andresen