Sessão Pública nas Caldas da Rainha
Foi assinalado a semana passada o centenário de José da Felicidade Alves, notável figura de padre católico e resistente antifascista, nascido em 1925 em Salir de Matos, freguesia rural do concelho das Caldas da Rainha.
A Sessão Pública naquela cidade contou com a presença de mais de três dezenas de pessoas, designadamente camaradas do seu partido, o PCP, em que militou até à sua morte em 1998, e outros democratas, alguns deles crentes de religiões diversas.
A Sessão teve como enquadramento uma intervenção de Edgar Silva, que na Universidade Católica acompanha a acção e história dos “católicos de vanguarda”, nas suas múltiplas estruturas e linhas de orientação, na luta contra a ditadura e na crise do fascismo, que foram tratadas designadamente na sua tese de doutoramento «“Vendaval de Utopias” Os Católicos da Revolução e o PCP», que deu origem a um ensaio do autor, que foi também apresentado nesta iniciativa.
A Sessão Pública foi animada por diversas intervenções que documentaram e problematizaram a figura de José da Felicidade Alves, o seu contexto e a época histórica que viveu, o seu contributo na vida da Igreja e na luta que conduziu ao 25 de Abril e a sua projecção no presente e no futuro do País.
José da Felicidade Alves foi padre e professor nos seminários dos Olivais e Almada e Pároco dos Jerónimos, em Belém, Lisboa, escolhido pelo então Cardeal Cerejeira, de que era próximo, para aquela importante paróquia - onde avultavam o Presidente Américo Tomás e vários ministros da ditadura.
De “homem do regime”, a partir de 1961, o Padre Felicidade faz um percurso de tomada de consciência e denúncia da guerra colonial, as suas intervenções são a causa de conflitos crescentes com o fascismo, ao mesmo tempo que se aproxima das posições do Concílio Vaticano II, incluindo nas missas na sua Igreja. As pressões e o cerco conservador e fascista apertam-se. A PIDE faz escutas e relatórios e propõe-se prendê-lo, o que só veio a concretizar em 1970, por um período curto, foi depois julgado e absolvido em 1973.
José da Felicidade Alves intervém na Igreja e na sociedade, denuncia a “guerra colonial, a PIDE, a censura” e pede para o País uma “revolução político-social”. Defende para a Igreja católica um “movimento revolucionário” “gerado pela acção de Deus, através dos profetas e de Jesus”. A partir de 1965 vai-se consumando a rutura entre o Cardeal Cerejeira e o Pároco de Belém, que vem a culminar com a suspensão a divinis da sua paróquia em 1968 e a excomunhão em 1970, por decisão do cardeal Cerejeira.
José da Felicidade Alves prossegue um rumo de intervenção crescente, aproxima-se do MDP-CDE e do PCP, intervém nas frentes da luta pela democracia, pela libertação dos presos políticos e na luta pela Paz, no País e internacionalmente, em Bruxelas e Moscovo, onde esteve em 1970, em defesa da Paz e do desarmamento. Em 1968 encontra-se com Álvaro Cunhal em Paris, que lhe disse no final dessa conversa “mantenha-se sempre fiel ao Senhor Jesus”. De volta a Portugal, participa na organização dos católicos progressistas, designadamente com os cadernos GEDOC, de que são publicados onze números sem autorização do regime, em 1969-1970, com Teotónio Pereira, Pereira de Moura, Sophia de Mello Breyner e outros, tratando temas do Vaticano II e da luta contra a guerra, até à sua apreensão e proibição pela PIDE.
Nas eleições legislativas fabricadas pelo regime em 1973, Felicidade Alves foi um proeminente opositor ao “Estado Novo” como candidato e dirigente do Movimento Democrático Português (MDP/CDE), esteve fortemente envolvido na “campanha eleitoral” da oposição democrática, sendo uma voz destacada em comícios e congressos. Após o 25 de Abril, continuou a intervir na vida política pelo MDP/CDE.
Nessa fase da sua vida José da Felicidade Alves, sempre discreto e coerente, foi um importantíssimo estudioso da história de Lisboa e dedicou grande parte da sua vida à investigação histórica, artística e patrimonial da capital portuguesa. O seu valioso contributo como olisipógrafo e historiador de arte foi amplamente reconhecido, tendo sido eleito Académico Correspondente da Academia Nacional de Belas-Artes em 1994.
Felicidade Alves com contactos com o PCP desde a década de 1960, aderiu formalmente ao Partido após o 25 de Abril, na década de 1970, e daí em diante, com uma militância recatada mas firme, manteve-se no Partido até à sua morte, em Dezembro de 1998. No seu funeral, por sua exigência, a urna foi coberta com a bandeira do PCP.
Uns meses antes, em Junho de 1998, José da Felicidade Alves conseguiu concretizar o seu casamento católico com a sua esposa desde 1970, Maria Elisete Alves, hoje com 102 anos - que alegou a idade para não participar nesta Sessão Pública - foi o Cardeal D. José Policarpo, que presidiu à cerimónia de casamento e gravou então, em letras de ouro, a homenagem à história de vida, coragem, coerência e luta deste homem extraordinário - “ vendaval de utopias”.
José da Felicidade Alves foi um católico da revolução, empenhado num projecto progressiva e de transformação a longo prazo, coerente, “isento de cobardia ou oportunismo” que lutou até ao fim pelos valores do humanismo, da liberdade e solidariedade. Foi agraciado pelo Estado com a Comenda da Ordem da Liberdade e pela Câmara de Lisboa com o Prémio Júlio Castilho de Olisipografia, há pequenas ruas com o seu nome em Campolide em Lisboa, na Cruz Quebrada em Oeiras e em S. Brás na Amadora, um curto reconhecimento público para a sua extraordinária importância e coerência, e que importaria alargar como ficou dito pelos participantes desta justíssima e muito significativa Sessão Pública nas Caldas da Rainha.
6 de julho de 2026












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