Monday, October 11, 2021

***

Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas,
mas, como eu não era comunista, eu me calei.
Depois, vieram buscar os judeus,
mas, como eu não era judeu, eu não protestei.
Então, vieram buscar os sindicalistas,
mas, como eu não era sindicalista, eu me calei.
Então, eles vieram buscar os católicos e,
como eu era protestante, eu me calei.
Então, quando vieram me buscar...
Já não restava ninguém para protestar.

Martin Niemoller

Tuesday, September 28, 2021

Pequena elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

Monday, September 13, 2021

Não tenho medo da morte

Não tenho medo da morte
Mas sim medo de morrer

Qual seria a diferença

Você há de perguntar

É que a morte já é depois

Que eu deixar de respirar

Morrer ainda é aqui

Na vida, no sol, no ar

Ainda pode haver dor

Ou vontade de mijar


A morte já é depois

Já não haverá ninguém

Como eu aqui agora

Pensando sobre o além

Já não haverá o além

O além já será então

Não terei pé nem cabeça

Nem fígado, nem pulmão

Como poderei ter medo

Se não terei coração?


Não tenho medo da morte

Mas medo de morrer, sim

A morte e depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu

O derradeiro ato meu

E eu terei de estar presente
Assim como um presidente

Dando posse ao sucessor

Terei que morrer vivendo

Sabendo que já me vou


Então nesse instante sim

Sofrerei quem sabe um choque

Um piripaque, ou um baque
Um calafrio ou um toque

Coisas naturais da vida

Como comer, caminhar

Morrer de morte matada

Morrer de morte morrida

Quem sabe eu sinta saudade

Como em qualquer despedida.

 
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Sunday, September 12, 2021

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Wednesday, September 01, 2021

Dez chamamentos ao amigo

 Dez chamamentos ao amigo
(in Júbilo, memória, noviciado da paixão)

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem

Te olhei. E há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

III
Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia

E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo

Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga

E amavio contente o amor teria sido

IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.

Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.

Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.

Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página

Ilustrada da revista
Editorial, jornal
Teia cindida.

Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.

V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

VI
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade

Que nunca me soubeste?

VII
Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?

Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes

Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?

VIII
De lulas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocada meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

— Fazedor de desgosto —
Que eu te esqueça.

IX
Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria da solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatas

Sobre-existindo apenas
Porque à noite retomo a minha verdade:
Teu contorno, teu rosto, álgido sim

E por isso, quem sabe, tão amado.

X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus

Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
De graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim

E me perdoa de ti a indiferença.

Hilda Hilst 

Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017

Wednesday, August 25, 2021

***

Morrer é tão natural como nascer. E são talvez os dois únicos actos completamente solitários durante toda a vida. O que não é 'natural' é que se morra antes de tempo. Mas aí teríamos de definir o que é 'antes de tempo'... e talvez nunca fosse o tempo...
 

Wednesday, August 11, 2021

A orientação é beber café

A orientação é beber café

O corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz.

«Interrogatório», em <em>Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar</em>, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978)
«Interrogatório», em Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978) João Abel Manta

Já uma estrela se levanta: a gota primeira, que no chão desenhou uma circunferência e, reflectindo o embalo da lâmpada, cintilou solitária no cimento. “Isso um comunista já sabe”, pensou, “agora é boca fechada”. Uma silhueta que ali não estava cruzou a gota no chão. Ela tinha ficado deitada na areia — não sabia porque se lembrava desse Verão agora — e ele nadou para longe, para além da rebentação, para além de perder o pé, para além da Eduarda ser só um pontinho na praia levantado, a tentar

— Ó chefe, este gajo é mudo. É melhor soltá-lo já com um pedido de desculpas.

— Outro? Veja lá primeiro se não é só mouco. Repare que ele nem olha para nós! Se calhar o homem nem sonha que estão três senhores aqui a falar com ele, interessados nele, preocupados com

Recitou mentalmente, prodígios de memorização a que a clandestinidade obriga, o Se Fores Preso Camarada, as regras dos comunistas detidos: “«a polícia tudo faz para reduzir os presos a farrapos humanos e a delatores». Por muito pior passaram camaradas meus e não racharam. O Jorge, pá, o estado em que ele dali saiu... e não falou. E eu? Venho com o quê? Como é que a gente cantava? Padroeira dos mineiros, vê lá, vê lá como venho eu. Duas bofetadas e duas noites sem dormir. O Jorge, pá, que durante o interrogatório recitava poesia para dentro. Tira o chapéu milionário, vai o enterro a passar. Os gajos a fazerem-lhe perguntas e ele mudo, a tentar recitar o Ary na cabeça, e os PIDES a olhar para ele como quem diz «onde é que este gajo está?». Está bem que eu não sei Ary, mas sei as nossas canções… Foi a filha de um operário que morreu a trabalhar. Ou seja, não mostrar medo.”

Nesse instante, uma enorme pancada atingiu-o no ouvido e o corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz. Quase adormecia, não fossem as algemas a mantê-lo sentado enquanto um silvo grave como o rumorejo do mar no búzio desligava generosamente todos os sons: uma estranha sensação de paz, sair dali e estar sozinho a ouvir o mar e a sentir a água quente a acariciar-lhe o ouvido e a descer pelas maçãs do rosto. Quando a escuridão começou a desvanecer-se e a visão começou a voltar, percebeu que afinal deus não se tinha arrependido de nada, mas tinha crescido a circunferência no chão. Era uma estrela que já se levantava.

Apercebeu-se que nesse espelho negro, para além da sua imagem e da dos seus torturadores, moviam-se outros reflexos difusos, nebulosos, inexplicáveis. Levantaram-lhe a cabeça pelos cabelos: era o inspector-adjunto, o Esser, já nesta altura lhe sabia o nome. A vertigem do movimento deixou-o tão confuso que pareceu-lhe ouvir o grito preocupado da Eduarda, “Volta para trás!”, a chamá-lo da praia. Sorriu. Lá atrás, o Saraiva ria-se muito ufano, e cortava o ar com o varapau, reencenando o golpe para o dactilógrafo, que ainda sem nada para dactilografar, assistia em silêncio.

— Pronto, pronto — rouquejou o Esser — Não leve a mal: o Tavares descontrola-se com estas coisas, tem sangue quente. Consegue ouvir-me?

Recordou-se de que estava na António Maria Cardoso quando, atrás de si, ouviu o outro a entusiasmar-se com uma nova actuação:

— Viste, Saraiva? Parecia uma pinha!

— Então vamos lá ter uma conversa de homem para homem. Isto aqui é assim: toda a gente fala, amigo. Uns, passadas duas horas; outros, passado um dia; também há uns que só falam passados 30, mas esses já vão tarde. Você vai com três dias. Por fraco já não passa e no meio é que está a virtude, costuma dizer-se. Por isso sugiro que atalhemos caminho: só preciso que me explique porque estava há quatro horas sentado num café. Que você é do Partido já sabemos. Sabemos tudo sobre si. A questão é

— A minha tarefa é beber café — declarou tão ríspido que se surpreendeu a si próprio e ao Saraiva mais ainda, não tanto por ser este o seu primeiro interrogatório mas porque, por desorientação do detido, calhou ser nos seus olhos que poisaram os dele a resplandecer de sangue como um tição que soprando a cinza volta a incandescer.

 “Acho que tenho o crânio partido, acho que morro aqui”, pensou, “Eduarda, desculpa, meu amor. Eu sei que… Calma… tem calma… Isto está a terminar. Vamos pensar noutra coisa…”

— Vês, Tavares? Afinal não só não é mudo como ainda tem sentido de humor! Então a sua tarefa é beber café. Está certo. Então diga-me lá com quem? Se me disser que

Mentalmente, continuou a recordar as palavras do panfleto: “«Cada membro do Partido sabe que, se falar ao ser preso, transforma-se imediatamente em auxiliar da polícia: um traidor da sua classe que como tal será julgado pelo povo». Como é que a gente cantava? Dá-me uma gotinha” 

— Olha para o senhor inspector quando ele fala contigo, caralho! — uivou agudo o Tavares, e forçou-lhe brutalmente a ponta do bastão dentro da boca. Pingaram no chão muitas gotas de sangue.

dessa que eu oiço correr”, continuou a pensar, “I”

— Ó Tavares tenha calma — sugeriu o Esser, bonacheirão, tirando da lapela o crachá esmaltado que avisava ser Internacional esta Polícia — traga-me uma cadeira — e cantarolava — Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim — e sentou-se atrás dele — pela voz do som tremendo das tubas, clamor sem fim — e agarrou numa mão algemada — Lá vamos, que o sonho é lindo — e prendeu-lhe o indicador — Lá vamos, cantando e rindo — e espetou o alfinete do crachá muito fundo sob a unha.

Foi a primeira vez que gritou, um grito enlouquecido de dentes partidos e medo, que fez estremecer cada átomo e empurrou contra a parede a cadeira do dactilógrafo e até o Tavares calou. Só o Esser não parecia perturbado: continuava a revolver-lhe a carne como um mecânico que aperta porcas num corpo, aproveitando-se de sermos assim tão frágeis que basta pressionar, não mais que um milímetro, qualquer coisa mais dura que as nossas carnes macias e logo elas sangram e cedem. Mas ele não.

“Vais aguentar”, pensou, “vais aguentar. Não os deixes ver-te chorar. Vá, como é que era? Vê lá como venho eu, vê lá companheiro, vê lá, vê lá como venho, eu. Eu não quero que vejam como eu venho”

Um sorriso perverso insinuou-se nos lábios do Tavares quando reparou no dactilógrafo. Tinha as palmas da mão simetricamente poisadas na mesa de cada lado da máquina de escrever. Estava pálido.

— Tem calma, puto: isto só custa a primeira. Eles gritam sempre assim. Queres um cigarro? — O Saraiva recusou. — O Esser tem de pô-lo a cantar ainda hoje senão a coisa fica feia para o nosso lado. Está aí um gajo de Lourenço Marques que se queixou ao director-geral que as técnicas do Esser para pôr

— Obriga-me a envolver outras pessoas nisto — ameaçou o Esser — Que culpa é que a sua mulher… Eduarda não é? Que culpa é que ela tem disto? Olhe que depois o que acontecer entre ela e aqui o Tavares é na sua consciência que fica, não é na do Partido. O que dizes, Tavares?

“Eduarda, meu grande amor”, pensou, “escrevo-te agora a carta de amor possível. Memorizo-a no coração para entregar-ta em mão. E começo-a assim: peço desculpa por tudo. Pelo que já aconteceu e o que poderá ainda acontecer. A única coisa verdadeira que a PIDE me disse é que tu não tens culpa.”

— Com quem é que você ia beber café?! — berrou o Esser — Saiba que prendemos uma

“Desta vez vamos abalar daqui: para muito longe, para viver um amor de novo tipo nos anos que nos resta, porque não é só em tempo se mede a força de trabalho, mas também o amor. Se Portugal não quer o sonho porque lutámos, faremos nós com ele uma vida em que a tua liberdade seja a minha condição e em que cada um de nós um receba o amor de que precisa dando o amor de que é capaz”

— Ó Saraiva, ligue-me lá à mulher dele.

“Amor da minha vida, minha camarada, meu colectivo, minha vanguarda e retaguarda, minha companheira: não consigo escrever-te agora a carta de amor que tu mereces, mas quando voltar escrever-te-ei muitas mais, longas e bonitas, porque carta que é carta de amor nunca é carta final”

— Estou sim? Olá menina… Não está a reconhecer a voz?

“«A polícia não emprega somente a violência e o terror”», recordou, “«não se limita às torturas físicas que, por piores que sejam». Trago a camisa rubra, de sangue de um companheiro, vê lá. «A polícia explora todas as fraquezas humanas, excita os sentimentos mais vis e recorre a todas as mentiras»”.

— Diga-me lá: acha que isto tudo vale a pena? Dá cabo da sua carreira, estraga a vida à sua mulher… e para quê? Você acha mesmo que vem aí uma revolução? Desde 1928 que dizem isso! Estamos em 74. Conhece algum partido comunista que tenha feito uma revolução 53 anos depois de ter nascido? Na Rússia o partido bolchevique tinha 14 anos. Em Cuba o 26 de Julho tinha 4. O partido mais velho foi o chinês, que fez a revolução com 28 anos e até

Podem calar o meu grito enrouquecido, podem cortar o meu corpo à chicotada

— Olhe à sua volta — e com a palma da mão circundou a sala — você vê muitas revoluções a estalarem por aí? Proletários a tomarem palácios? Operários a ocuparem fábricas? — riu-se — Vocês perderam o comboio da história. Acabou. O Estado Novo venceu e você perdeu, senão não estava aqui.

Oiço ruírem os muros quebrarem as grades de ferro da nossa prisão

— Pronto, Tavares, Saraiva, cheguem lá aqui que já só temos uma hora. Vamos fazer uma sessão espírita, a ver se o espectro do comunismo nos diz alguma coisa.

Rindo-se, o Tavares puxou o braço do Saraiva, mas o dactilógrafo recuou:

— Agora não consigo. — Cada vez mais pálido, tinha a fronte empapada de cabelo e suor.

— Não consegues ou não queres? — rugiu o Tavares — Vais desobedecer a uma ordem?!

O dactilógrafo, petrificado, olhou para o Tavares e depois para o Esser, que o fitava inexpressivo. A tensão acumulou-se e estufou o ar com uma irrespirável calma tensa até o Saraiva, agoniado, obedeceu.

Os três homens rodearam o detido e foi o Esser quem falou:

— Espectro do comunismo, comunica connosco! — E começaram os três homens a bater-lhe. Os golpes vinham de todas as direcções e acertavam-lhe na nuca, no nariz, na boca, nos olhos e na testa, onde já afloravam remendos brancos de osso. Quando pararam e, a custo, abriu os olhos pisados, a circunferência de sangue no chão era já uma estrela levantada, um gargalo negro de poço onde via o próprio reflexo e em que não se reconheceu.

“«Qualquer homem digno sabe que é preferível a morte física à morte moral. É melhor morrer como revolucionário sob os golpes da reacção do que degradar-se e descer ao papel repugnante do delator»”

E no entanto, sentiu-se quebrar. Teria falado, mas a pancada deixara-o tão confuso que já não sabia nada: nem onde estava, nem que orientação era a sua. Quando tentou falar só lhe saiu um soluço.

“E como é que venho eu?”, pensou, “não venho como Edgar André, a gritar aos carrascos «Eu não quero misericórdia! Vivi como lutador e como lutador morrerei», nem como Lepa Radic, com o nó ao pescoço a ameaçar «Os meus camaradas dar-vos-ão os seus nomes quando me vierem vingar», nem com o grito de Stjepan Filipović ao pelotão de fuzilamento «Morte ao fascismo! Liberdade para o povo!», nem com a serenidade do Che «Acalma-te e aponta bem: vais matar um homem». Vê lá como venho eu.

O Saraiva teve de sair da sala, não sem antes o Tavares lhe deitar um olhar de desprezo, e foi chorar e vomitar numa sanita. O que fez neste dia não contará a ninguém até ao dia em que morrer.

— Espectro do comunismo, qual era a tua orientação? — insistiu o Esser.

“Não importa”, pensou, “Um comunista está na vida como um morto de licença”

— A minha orientação é beber café — repetiu, mais alto, desafiante, quase morto.

O Tavares ia bater-lhe novamente, mas o Esser travou-o.

— Que cheiro… ó chefe, o gajo tá todo mijado. Porcos do caralho. Agora limpavas com a língua.

— Não podemos matá-lo — decretou o Esser — Vamos antes dar-lhe aqui uma poçãozinha.

Retirou uma seringa do estojo. Da agulha saltaram gotas de um líquido amarelado.

— Onde estou? — olhava as paredes com espanto e tentava em vão soltar-se — Eduarda?

O Saraiva tinha voltado. Notava-se que tinha lavado a cara. Sentou-se à máquina de escrever e o Tavares, divertido, segredou-lhe:

— Vais querer ver este baile. Chamam-lhe o soro da verdade: é uma merda que a CIA nos arranjou. Os gajos do Ultramar dizem que isto é placebo… querem correr com o Esser por causa disto, que os tipos alucinam e depois já não dizem coisa com coisa. Mas a verdade é que lá cantar, eles cantam

A agulha não encontrou resistência e o soro foi empurrado por veias e artérias até ao coração para logo ser bombeado até ao cérebro, mas deus continuava sem arrependimentos.

— Vamos voltar ao momento da sua detenção. Diga-me onde está e o que está a fazer.

O suspeito abriu os olhos. Respirava já só com dificuldade. Olhou para a gotinha, não de água doce nem mar salgado, que no chão se fizera grande e, como se fitasse bola de cristal, ou entranhas de coelho, ou folhas do chá na chávena, ou só uma grande, grande estrela que já se levantara do chão, respondeu:

— Já vos disse: estou a beber café — Afirmou-se-lhe a voz sólida e nítida como tronco de carvalho.

— Muito bem. Então vamos recuar quatro horas. O que é que está a fazer?

— Ainda estou a beber a café.

O dactilógrafo transido lançava contra as teclas uma violenta trovoada.

— Não brinque comigo! Você quer morrer aqui? Vá mais para atrás. Volte atrás no tempo! Ou ande com a fita para a frente tanto quanto precisar, mas diga-me o onde está e o que está a fazer!

— Estou… — perscrutava movimentos e sombras na poça de sangue — estou a fazer um jornal.

— Muito bem — Notava-se-lhe a satisfação na voz — Agora olhe à volta e diga-me onde está.

 — Não… Não… Não estou. Estou a rebentar o portão de uma prisão com um carro blindado.

— Este já não volta. Está a alucinar — comentou o Tavares.

— Estou… estou a fugir do forte de Peniche por um lençol. Estou a escrever uma carta com o meu próprio sangue. Estou numa manifestação de um milhão de pessoas nos Aliados. Estou a apregoar o Avante no Cais do Sodré. Estou sentado na relva a assistir ao comício do Partido. Estou a discursar do palanque na Assembleia. Estou num piquete de greve e numa greve da fome. Estou a comer papel bíblia e a morrer na frigideira. Estou a fazer cem anos e a nascer outra vez. Estou na Caparica, onde a polícia bateu num miúdo, e estou no Pinheiro Torres, onde a pobreza dos pais condena à nascença as crianças. Estou a morrer muitas mortes, Estou a celebrar a independência das colónias. Estou a descer a Rua do Arsenal com cravos e soldados e estou a defender uma sede do Partido cercada de fogo e estou nas mesas de voto a contar boletins com muito cuidado e estou a ser eleito delegado sindical e estou a prender-vos a todos em celas onde nunca serão torturados e estou a nadar de volta em direcção à praia. Estou a dizer-vos que isto não há-de durar para sempre. Eu estou a cumprir a minha orientação. E a minha orientação é beber café.

António Santos

(abril abril)

 

Wednesday, July 14, 2021

Retrato do Povo de Lisboa

É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

Tuesday, July 13, 2021

ENTRE NÓS


Entre nós o verde sangue
Derramado nas searas
De um país cansado e exangue
E o vermelho da esperança
De um povo a levantar-se
E entra na roda da dança

Entre nós a alegria
De  um sorriso de criança
Do nascer de um novo dia
Da ternura de um abraço
Do cio fecundo da terra
Desabrochando sem cansaço

Entre nós sempre a certeza
De termos o futuro na mão
De o agarrarmos sem pressa
Ao som da tua canção
Tocada na mais linda viola
Que tens rente ao coração.

Friday, July 09, 2021

Samba da Bênção

Cantado

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Falado

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão

Cantado

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Falado

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida
Cuidado, companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado embaixo: Deus
E com firma reconhecida!
A vida não é de brincadeira, amigo
A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

Falado

Eu, por exemplo, o capitão do mato
Vinicius de Moraes
Poeta e diplomata
O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!
A bênção, Senhora
A maior ialorixá da Bahia
Terra de Caymmi e João Gilberto
A bênção, Pixinguinha
Tu que choraste na flauta
Todas as minhas mágoas de amor
A bênção, Sinhô, a benção, Cartola
A bênção, Ismael Silva
Sua bênção, Heitor dos Prazeres
A bênção, Nelson Cavaquinho
A bênção, Geraldo Pereira
A bênção, meu bom Cyro Monteiro
Você, sobrinho de Nonô
A bênção, Noel, sua bênção, Ary
A bênção, todos os grandes
Sambistas do meu Brasil
Branco, preto, mulato
Lindo como a pele macia de Oxum
A bênção, maestro Antonio Carlos Jobim
Parceiro e amigo querido
Que já viajaste tantas canções comigo
E ainda há tantas a viajar
A bênção, Carlinhos Lyra
Parceiro cem por cento
Você que une a ação ao sentimento
E ao pensamento
A bênção, a bênção, Baden Powell
Amigo novo, parceiro novo
Que fizeste este samba comigo
A bênção, amigo
A bênção, maestro Moacir Santos
Que não és um só, és tantos tantos como
O meu Brasil de todos os santos
Inclusive meu São Sebastião
Saravá! A bênção, que eu vou partir
Eu vou ter que dizer adeus

Cantado

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não

Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração


Vinicius de Moraes/Baden Powell

41 anos sem Vinicius, sempre com Vinicius



Wednesday, July 07, 2021

Protopoema


Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos
nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os
dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos,
e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de
repente não sei se as águas nascem de mim, ou para
mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o
próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os
barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que
vagarosamente deslizam sobre a película luminosa
dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas
águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e
firme pulsar do coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo
acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu
corpo despido brilha debaixo do sol, entre o
esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas
da memória e o vulto subitamente anunciado do
futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar
calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que
as aves digam nos ramos por que são altos os
choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem,
sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas
verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra
viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se
juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

José Saramago
(in PROVAVELMENTE ALEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3ª Edição)

Wednesday, June 09, 2021

Viver sempre também cansa


O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

José Gomes Ferreira

Thursday, May 27, 2021

AINDA ONTEM TINHA VINTE ANOS


Ainda ontem tinha vinte anos e era o dono do tempo.
A minha mãe ainda me julgava o seu menino. E eu era já
um homem seguro de mim, carregado de certezas,
como acontece sempre que se tem vinte anos. Naquela altura
tudo era exacto, tudo podia ser medido e comparado,
nada tinha força para se confrontar
com a sabedoria de um jovem.
O menino que era eu, foi ensinado pelo tempo, esse velho
alfarrabista que guarda o segredo da eterna juventude.
Tudo se foi modificando, o nascimento de algumas coisas
significou a morte de outras,
dentro de mim e fora de mim o futuro
foi-se construindo com o passado,
e entre alegrias breves aninharam-se
inseguranças e fundas frustrações.

Trinta anos depois
restam poucas certezas, aprendi
que não é o galo que canta para que nasça o dia
mas é o dia que acorda o galo para que cante.
Aprendi que a vida tem milhões de perguntas e que
tinha de procurar nos outros respostas para mim,
para achar em mim respostas para os outros. Soube dar
um braço a torcer para que não houvesse força
que pudesse torcer-me o outro braço. E vi
que a vida tem todas as portas abertas.
Fechei algumas, atravessei por outras,
esperando encontrar um mundo diferente.
Mas as diferenças que achei
estavam em mim.

Quis alterar o mundo com um livro e escrevi-o.
Depois, alterei-o de acordo com o mundo.
A minha vida teve muitas vidas que procurei entrelaçar
como o cesteiro faz o cesto. Aprendi que a realidade sobre
o que ouvi falar, é que nunca soube se estava
a ouvir falar da realidade. E que um momento doce de ilusão
pode doer mais que a realidade mais amarga. E agora
sei que não é pior caminhar contra o vento se
o vento não estiver a meu favor. E que a grande árvore
da amizade não pode viver sem os seus ramos mas,
para que cresça mais e dê melhores frutos,
é preciso ir podando alguns deles.

Hoje existem vozes diferentes na minha voz
e eu utilizo-as para fortalecer as minhas opiniões
sem falar nunca em nome dos outros. E não me sinto
obrigado a dizer a alguém seja o que for.
Importante é dizer alguma coisa a quem quer que seja.
E aprendi que falar não é o contrário de estar calado.
E que a lâmpada não tem culpa de ter falhado a energia.
E que não é preciso estar acordado vinte e quatro horas por
dia para não perder nada daquilo que me é devido. Sei agora
que a sedução é um jogo para o qual todos os dias treino
e que todos os dias jogo. E que por vezes a verdade
é a mais verdadeira das mentiras possíveis.

“Que achas de mim?” é uma pergunta
que devo fazer mais vezes a mim do que aos outros.
E saber quantos milhões de estrelas tem uma galáxia
é menos importante que encontrar as poucas palavras para
terminar uma conversa. Sei que muito do que é humano
ajudou a construir o homem, e que em relação ao tempo
a única vitória é também a única derrota: gastá-lo.
Ah!, e sei que que é bom acordar duas vezes no mesmo dia.
E que a lógica das cores não é a lógica das imagens. E nem
as cores nem as imagens sabem que existe qualquer lógica.
Aprendi também que, se precisar de um cretino
o devo tratar por Dr. Cretino, e que quando
se perde uma pessoa que se ama custa tanto lembrá-la
como esquecê-la. Sei que a justiça me dispensa a coragem,
que posso tornar-me sábio pela sabedoria dos outros
mas se não possuir os meus próprios méritos
de nada vale exibir os méritos do meu pai. E também sei
que com excepção dos progressistas todos me falam
de progresso. E que quando o céu está nublado
a primeira impressão é de que as estrelas
não existem.

Aprendi que não adianta ser rápido antes do tempo
nem depois da oportunidade. E que o vento que derruba
as grandes árvores não consegue mais que inclinar
os pequenos arbustos. Hoje não considero generosidade
oferecer o que me pedem, porque generoso é aquele que dá
antes de lhe pedirem. Acredito que existe uma só sede
e muitas maneiras de a extinguir, e que se por erro cair num
precipício, poucas possibilidades tenho de me
arrepender. Ensinou-me a vida que se me humilhar
não posso esperar dos outros mais que humilhação. E que
poderei retirar ouro de uma rocha mas não posso exigir
que ela me dê água. Tenho percebido que o silêncio é de ouro
num mercado de palavras baratas. E que os olhos ricos
em lágrimas são pobres em sono. Que é mais difícil
reconhecer a qualidade que defini-la, e que para ser elogiado
basta que dê um pouco de mim ou até menos
do que um pouco. Sei ainda que, para o pássaro,
o céu e a árvore têm as mesmas raízes,
que o tempo que amadurece os frutos
amadurece também os homens e, por isso,
aquilo que perdi continua a ser meu
enquanto o procurar.

Joaquim Pessoa 

in Vou-me embora de mim, 2ª ed.
Litexa Editora.


Wednesday, May 19, 2021

Canção


Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!

Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam corvos o horizonte!

Na fome negra das searas rubras
ai a papoula, ai a Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.

Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.

Papiniano Carlos

Friday, April 02, 2021

Cantiga de Abril


Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
a conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz do cemitério
toda prisão e censura,
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Jorge de Sena