Tuesday, February 17, 2026

Depus a Máscara

 
Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.
Álvaro de Campos, in "Poemas"

Sunday, February 15, 2026

UM DIA DIFERENTE

 
Amanhã
quando nascer um hino de alegria
em todos os olhares
de todas as crianças
quando o meu sangue vermelho
e a minha boca vermelha
se transformarem
e quando amadurecerem nos meus braços
as espigas dos meus dedos
e os homens finalmente se encontrarem
e se chamarem de novo irmãos
e quando houver em cada pensamento
a raiz futura de um poema
e uma verdade pura em cada beijo
e em cada beijo uma canção de paz
amanhã
meu amor minha pátria meu poema
cantaremos a cada aurora
um dia diferente.
Joaquim Pessoa

Friday, February 06, 2026

CAMILO

 
I
Jinete en el aire fino,
¿dónde estará, dónde cayó,
el comandante Camilo,
que no lo sé yo?
Entre la tierra y el cielo,
¿adónde fue donde voló
el comandante Cienfuegos,
que no lo sé yo?
II
Sin cruz vino la muerte,
sin sepultura, nada.
Un rayo apenas de luz inerte,
su vacía, su redonda mirada.
(Lentas guitarras de ardor marítimo
llegan llorando a llorar conmigo.
Llegan violetas color obispo:
morado luto mortuorio fijo.
Raudos machetes de amargo filo
y girasoles luto amarillo).
III
Duerme, descansa en paz —dice la mansa
costumbre de las flores, la que olvida
que un muerto nunca descansa
cuando es un muerto lleno de vida.
Ahí viene, avanza el río
de su barba serena.
Suena su voz, su permanente voz resuena,
arde en la patria pura un gran fulgor de estío.
Se oye ¡Partir!, que ordena
y partimos. ¡Avanzar!, y avanzamos.
Todos lo mientan, dicen:
—Puño de piedra, resplandor de paloma,
el aletear del corazón te damos;
oh joven padre, toma
nuestra violenta sangre en peso: ¡Vamos!
Nicolás Guillén

Não te esqueças nunca

 
Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina
O pinhal a coluna a veemência divina
O templo o teatro o rolar de uma pinha
O ar cheirava a mel e a pedra a resina
Na estátua morava tua nudez marinha
Sob o sol azul e a veemência divina
Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima
O horror o terror a suprema ignomínia
Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, February 04, 2026

Questões de princípio

 
Não me exijam
que diga
o que não digo

não queiram
que escreva
o meu avesso

não ordenem
que aceite
o que recuso

não esperem
que me cale
e obedeça

Maria Teresa Horta

Sunday, February 01, 2026

Desencanto

 
Eu faço versos como quem chora
De desalento, de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto
Meu verso é sangue, volúpia ardente
Tristeza esparsa, remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.
E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca
Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!
Manoel Bandeira

Tuesday, January 27, 2026

Relembrar Auschwitz


Vagueiam nus
em Auschwitz,
perdidos no silêncio infame,
os corpos dos nossos irmãos
aguardando disformes
o prenúncio da morte.
Arrastam-se lentamente
presos num corpo despojado
de dignidade que já foi seu.
Imploram aos carcereiros
obreiros da iniquidade,
alivio para a dor lancinante
que dilacera as entranhas
da humanidade.
Erguem-se em Auschwitz
as vozes dos inocentes
que padeceram a crueldade
hedionda do Holocausto.
Repousam em Auschwitz
as cinzas da história
que nunca devíamos
ter deixado acontecer!
Daniel Bastos

Thursday, December 25, 2025

Elegia de Natal

 
Era também de noite Era também Dezembro
Vieram-me dizer que o meu irmão nascera
Já não sei afinal se o recordo ou se penso
que estou a recordá-lo à força de o dizerem
Mas o teu berço foi o primeiro presépio
em que pouco depois o meu olhar pousava
Não era mais real do que existirem prédios
nem menos irreal do que haver madrugadas
Dezembro retornava e nunca soube ao certo
se o intruso era eu se o intruso eras tu
Quase aceitava até que alguém te supusesse
mais do que meu irmão um gémeo de Jesus
Para ti se encenava o palco da surpresa
Entravas no papel de que eu ia descrendo
Mas sabia-me bem salvar a tua crença
E era sempre de noite Era sempre em Dezembro
Entretanto em que mês em que dia é que estamos
Que verdete corrói prédios e madrugadas
De que muro retiro o musgo desses anos
que entre os dedos depois se me desfaz em água
Para onde levaste a criança que foste
Em vez da tua voz que ciprestes são estes
Como dizer Natal se te não vejo hoje
Como dizer Natal agora que morreste
David Mourão-Ferreira

Wednesday, December 24, 2025

**


Feliz desobediência e Próspera resistência!
Que a liberdade, a dignidade e a rebeldia 
vos acompanhem! 

Tuesday, December 23, 2025

Poema de Natal

 
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes

Wednesday, December 17, 2025

Massacre de Wiriyamu

 
A 16 de dezembro de 1972 teve lugar um dos episódios mais tenebrosos do colonialismo português, conhecido como “Massacre de Wiriyamu”. Uma operação, com o nome de código “Marosca”, que envolveu aviação, elementos dos comandos e agentes da PIDE/DGS, decorreu na zona de Tete, no Norte de Moçambique, visando cinco aldeias: Wiriyamu, Juwau, Djemusse, Riacho e Chaworha.
Depois de lançadas bombas sobre a aldeia de Wiriyamu, entraram em ação os militares dos Comandos e seguiu-se a barbárie. O morticínio estender-se-ia às referidas quatro povoações ao longo do rio Zambeze sob variadas e desumanas formas. Centenas de pessoas são chacinadas, entre elas mulheres e crianças. Muitas são fechadas dentro das cubatas onde morrem carbonizadas por ação de granadas incendiárias, outras são simplesmente fuziladas. Soldados destroem palhotas, infraestruturas e aldeias, saqueiam bens, abrem fogo sobre pessoas cujos corpos são depois colocados, com alguns vivos pelo meio, em piras funerárias para serem consumidos pelo fogo.
385 pessoas terão morrido, cerca de um terço dos 1350 habitantes das cinco aldeias. A listagem das vítimas e o relato dos acontecimentos são apurados por Domingo Kansande e pelo padre Domingos Ferrão que faz chegar as informações a padres espanhóis e holandeses. O massacre seria divulgado pelo também padre inglês Adrian Hastings no jornal britânico “The Times”, a 10 de julho de 1973, dias antes da visita de Marcelo Caetano a Londres. O caso chegaria ainda à Organização das Nações Unidas.
🔎 Consulta o documento, datilografado, sobre os Massacres de Chawola, Wiriyamu e Juwau, patente no nosso arquivo digital. Fundo BMRR – Biblioteca-Museu República e Resistência:
📷 Monumento em memória, Wiriyamu. DR



Wednesday, December 10, 2025

Na noite de Madrid

 
Na noite de Madrid eu vi um homem morto
Jazia ali como uma afronta para os vivos
que voltavam dos bares com música nos olhos
com estrelas na testa e festa nos ouvidos
e passavam de táxi a boa velocidade
Há quanto tempo o homem jazeria ali
à superfície escura do asfalto
já meio devolvido à terra nossa mãe?
Não o cobria o manto dos heróis
nenhum clarim tocara em sua honra
Como o confortaria a santa madre igreja?
Tombara apenas imolado ao dia-a-dia
Pagara com a vida a paz da consciência
de toda uma cidade que dormia
E ele crescia alastrava na estrada
e assumia inesperadas proporções
quando há bem pouco ainda se reduzia ao dia
Quem seria? Quem fora?
Que jornal conteria a imensidão do nome
de quem como um insulto ali jazia?
Que pensamentos próximos tivera?
E o que levaria ele nos bolsos?
Donde viria? Sorriria? Onde ia?
Fora criança? Sonharia ser feliz?
Mudaria de vida na manhã seguinte?
Brincara alguma vez naquela mesma rua?
Fora criança ali onde profundamente o vi?
Teria soluções para problemas que tivesse?
Seria porventura um bom chefe de família?
Disporia da consideração da vizinhança?
Era bom funcionário? Homem de futuro?
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não conseguiria ver nem as estrelas
nem ao menos a luz dos citadinos candeeiros
Havia curiosos e polícia havia uma ambulância inútil
para quem como cama só teria a pedra fria
«Aonde vai?» - perguntou-me o homem do táxi
«- Eu tenho cinco mil pesetas - respondi-lhe
Leve-me pelas ruas da cidade até nascer o sol
talvez ele possa dizer-me alguma coisa
daquelas muitas coisas que gostava de saber
(o sol é hoje uma das minhas poucas soluções)
Passe longe do corpo por favor»
Lembrei-me de leituras soterradas
de súbito subiram-me à memória cenas esquecidas
Samaritano eu? Mais um levita
que calmo procurava a promessa do dia
Inquietação ou pena? Sombra de metafísica?
Política? Moral? Lição? Comportamento?
Queria alguma coisa? Não sabia
Posso-vos garantir que não sabia
Só sabia que olhava e nenhum mar havia
 
Ruy Belo

Saturday, December 06, 2025

O Captain! My Captain!

 
O Captain! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.
My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
Walt Whitman

Thursday, December 04, 2025

O acidente de Camarate

 
Faz hoje 45 anos estava a jantar na Tia Matilde, a comemorar o aniversário de um amigo. De repente a televisão começou a dar uma música estranha… e ficámos à espera do que se seguiria. E seguiu-se a notícia. E o Freitas do Amaral (lembro-me quem eram os seus guarda-costas) a dizer imediatamente que estava afastada a hipótese de atentado.
Terminado o jantar íamos para o comício de encerramento da campanha do Eanes (pois!!!!!!) que se realizaria no Rossio.
Pelo sim, pelo não, saímos do metro na Avenida. E por ali ficámos. O pessoal que tinha ido para o Rossio já vinha de regresso. O Comício tinha sido, naturalmente, cancelado.
Por ali ficámos mais um tempo, ora dentro do CTV para ver notícias, ora cá fora a comentá-las.
Acabei a noite em Camarate, o mais perto possível da casa que ficou destelhada pela queda da asa do Cessna, falando com o pessoal que por ali andava e vivia e ainda com a polícia.
Fiquei logo com uma opinião diferente da que foi avançada pelo Freitas….

Monday, November 10, 2025

A LÂMPADA MARINHA

 
Porto cor de céu
I
Quando de­sem­barcas
em Lisboa,
céu ce­leste e rosa rosa,
es­tuque branco e ouro,
pé­talas de la­drilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as ja­nelas
sal­pi­cadas do ouro verde dos li­mões,
do azul ul­tra­ma­rino dos na­vios,
quando de­sem­barcas,
não co­nheces,
não sabes que por de­trás das ja­nelas
es­cura,
ronda,
a po­lícia negra,
os car­ce­reiros de luto
de Sa­lazar, per­feitos
fi­lhos de sa­cristia a ca­la­bouço,
des­pa­chando presos para as ilhas,
con­de­nando ao si­lêncio
pu­lu­lando
como es­qua­drões de sombra
sobre ja­nelas verdes,
entre montes azuis,
a po­lícia,
sob ou­to­nais cor­nu­có­pias,
a po­lícia,
pro­cu­rando por­tu­gueses,
es­car­vando o solo,
des­ti­nando os ho­mens à sombra.
A cí­tara es­que­cida
II
Ó Por­tugal for­moso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na pra­teada margem do oceano,
na es­puma da Eu­ropa,
com a cí­tara de ouro
que te deixou Ca­mões,
can­tando com do­çura,
es­par­zindo nas bocas do Atlân­tico
teu tem­pes­tuoso odor de vi­nharia,
de flores ci­dreiras e ma­ri­nhas,
tua lu­mi­nosa lua en­tre­cor­tada
de nu­vens e tor­mentas.
Os pre­sí­dios
III
Mas,
por­tu­guês da rua, entre nós,
nin­guém
nos es­cuta,
sabes
onde
está Álvaro Cu­nhal?
Sabes, ou al­guém o sabe,
como morreu,
o va­lente,
Mi­litão?
E sua mu­lher sabes tu
que en­lou­queceu sob tor­turas?
Moça por­tu­guesa,
passas como que bai­lando
pelas ruas
ro­sadas de Lisboa,
mas
sabes,
sabes onde morreu Bento Gon­çalves,
o por­tu­guês mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes
que nin­guém volta ja­mais
da Ilha
da Ilha do Sal,
que Tar­rafal se chama
o campo da morte?
Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim to sabes,
em si­lêncio
a pa­lavra anda com len­tidão mas per­corre
não só Por­tugal senão a Terra.
Sim, sa­bemos,
em re­motos países,
que há trinta anos
uma lá­pide
es­pessa como tú­mulo ou como tú­nica,
de cle­rical mor­cego,
afoga Por­tugal, teu triste trino,
sal­pica tua do­çura,
com gotas de mar­tírio
e mantém suas cú­pulas de sombra.
O mar e os jas­mins
IV
Da tua pe­quena mão ou­trora
saíram cri­a­turas
dis­se­mi­nadas
no as­sombro da ge­o­grafia.
Assim, a ti volveu Ca­mões
para deixar-te o ramo de jas­mins
sem­pi­terno a flo­rescer.
A in­te­li­gência ardeu qual vinho
de trans­pa­rentes uvas
em tua raça,
Guerra Jun­queiro
entre as ondas
deixou cair o trovão
de li­ber­dade bravia
trans­por­tando o Oceano a seu cantar,
e ou­tros mul­ti­pli­caram
teu es­plendor de ro­sais e ra­cimos
como se de teu es­treito ter­ri­tório
saíssem grandes mãos
der­ra­mando se­mentes
pela terra toda.
Não obs­tante,
o tempo te so­terrou,
o pó cle­rical
acu­mu­lado em Coimbra
caiu sobre teu rosto
de la­ranja oceâ­nica
e co­briu o es­plendor de tua cin­tura.
A lâm­pada ma­rinha
V
Por­tugal,
volta ao mar, a teus na­vios
Por­tugal volta ao homem, ao ma­ri­nheiro,
volve à terra tua, à tua fra­grância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz ma­tu­tina
do cravo e da es­puma.
Mostra-nos teu te­souro,
teus ho­mens, tuas mu­lheres,
não es­condas mais teu rosto
de em­bar­cação va­lente
posta nas avan­çadas do Oceano.
Por­tugal, na­ve­gante,
des­co­bridor de Ilhas,
in­ventor de pi­mentas,
des­cobre o novo homem,
as ilhas as­som­bradas,
des­cobre o ar­qui­pé­lago no tempo.
A sú­bita
Apa­rição
do pão
sobre a mesa,
a au­rora,
tu, des­cobre-a,
des­co­bridor de au­roras.
Como é isso?
Como podes negar-te
ao ciclo da luz tu que mos­tras-te
ca­mi­nhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
es­treito e amplo Pai
do ho­ri­zonte, como
podes fe­char a porta
aos novos ra­cimos,
ao vento com es­trelas do Ori­ente?
Proa da Eu­ropa, pro­cura
na cor­ren­teza
as ondas an­ces­trais,
a ma­rí­tima barba
de Ca­mões.
Rompe
as teias de aranha que co­brem
tua fra­grante copa de ver­dura
e então
a nós ou­tros, fi­lhos dos teus fi­lhos,
aqueles para quem des­co­briste a areia
até então es­cura
da ge­o­grafia des­lum­brante,
mostra-nos que tu podes
atra­vessar de novo
o novo mar es­curo
e des­co­brir o homem que nasceu
nas mai­ores ilhas da terra.
Na­vega, Por­tugal, a hora
chegou, le­vanta
tua es­ta­tura de proa
e entre as ilhas e os ho­mens volve
a ser ca­minho.
A esta idade agrega
tua luz, volta a ser lâm­pada
apren­derás de novo a ser es­trela.
(PABLO NERUDA)
* Poema de Pablo Neruda inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954.
Nesta campanha internacional participaram muitos outros intelectuais progressistas da época, entre os quais o escritor brasileiro Jorge Amado.


Friday, October 17, 2025

Paisagem

As traineiras abrigam-se na barra
os mastros em fantástico arvoredo.
São peixes coloridos de brinquedo
e eu o triste rapaz que solta a amarra.

Os telhados reúnem-se no largo,
assembleia de pobres e crianças.
Em falas, cantos, cobram-se esperanças.
Homens chegam do mar com rosto amargo.

Lá em baixo a vaga escreve na muralha
a história destes muros. Toda em brios
salta adiante o Baleal e falha.

E, na gávea da velha Fortaleza,
fico a seguir o rumo dos navios,
num choro de asas de gaivota presa...

António Borges Coelho