Tuesday, May 12, 2026
Friday, May 08, 2026
Férias
Era uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar como um abraço.
Era a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.
Era um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão
E bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.
Ary dos Santos, O sangue das Palavras
Sunday, May 03, 2026
Pavana para uma burguesa defunta
Monday, April 20, 2026
O Amor em Visita
Friday, April 17, 2026
Lisboa, Meu Amor
Thursday, April 02, 2026
Esta Lei
Ainda que não houvéssemos feito
mais nada desde o século XVI,
erigimos este corpo de leis
invulgarmente justas e certas,
em nome da vontade popular.
A lei democraticamente escrita
pelos representantes legítimos de um povo
e o rosto que esse povo levanta
perante as outras nações.
Resplandecente de esperança e dignidade,
esta lei há-de fazer-nos maiores
do que somos na adversidade e dependência,
porque os homens são construídos ou destruídos
pelas leis que os obrigam e abrigam.
Esta é uma Constituição aventurosa,
projecto de vida certa
deste povo para este povo.
Estes são os novos mandamentos
a que ater-nos durante a longa travessia
até à justiça de todas as leis do mundo.
Mais uma vez chegamos primeiro,
acaso sem ter com quê.
Mas destruir estas tábuas seria
destruir algo daquilo em que sempre
fomos grandes – a capacidade de inscrever
o sonho realizável
na memória e no assombro dos outros povos.
Maria Velho da Costa
Tuesday, March 31, 2026
Uma flor de verde pinho
Dar-te o mais lindo nome português
Podia dar-te um nome de rainha
Que este amor é de Pedro por Inês
Para este fogo, amor, para este rio
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou e eu sem navio
Que não há taça, amor, para este vinho
Não há guitarras nem cantar de amigo
Não há flor, não há flor de verde pinho
Não há palavras para escrever esta canção
Gostar de ti é um poema que não escrevo
Que há um rio sem leito e eu sem coração
Para este fogo, amor, para este rio
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou e eu sem navio
Que não há taça, amor, para este vinho
Não há guitarras nem cantar de amigo
Não há flor, não há flor de verde pinho
Monday, March 30, 2026
Novo Fado Alegre
Não cantaremos nunca mais o fado antigo
Agora
Em cada verso há um homem que não chora
E o futuro é o sítio onde se mora
Cantar é ser um pássaro de esperança
Poisado no olhar duma criança
Que de olhar nunca se cansa
Vou te dizer palavras loiras como o trigo
Hoje cantar é aprender a estar contigo
Agora
Cada palavra tem o gosto duma amora
Que a gente apanha e morde pela vida fora
Cantar é ter um sol dentro da voz
E repartir o sol por todos nós
Cantar é não estarmos sós
Amiga
Vou te bater com as palavras ao postigo
Escuta o sentido das notícias que te digo
Cada canção terá a força duma aurora
Que a gente acende e leva pela vida fora
Cantar é ser um pássaro de esperança
Poisado no olhar duma criança
Que de olhar nunca se cansa
Amigo
Não tenhas medo do cansaço ou do castigo
A nossa voz dá-nos calor, dá-nos abrigo
A hora
É de mandarmos a saudade e o choro embora
E noutro fado desgarrarmos vida fora
A hora
É de mandarmos a saudade e o choro embora
E noutro fado desgarrarmos vida fora
Sunday, March 29, 2026
No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
Existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da Senhora da Agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor, mas não recito
E os sonos inquietos de quem falha
Existe um canto, chão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
O canto em vozes juntas, vozes certas
Canção de uma só letra
E um só destino a embarcar
No cais da nova nau das descobertas
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera do futuro
Saturday, March 28, 2026
Cantiga de Maio
Friday, March 27, 2026
Os Lobos e Ninguém
Cresceu nas pedras
Falou sozinho com a voz de relento
Soube do sabor da morte, da sorte e do vento.
Cresceu calado
Dormiu sozinho na terra batida
Marchou descalço no pó dos caminhos da vida.
Guardou os rebanhos dos lobos à chuva e ao frio
Suou tardes de terra dura na ponta do estio
Comeu do pão magro
Da magra soldada
Largou a enxada
Largou o noivado
Largou p´ra cidade mais perto
Para um pão mais certo.
Malhou no ferro
Abriu trincheiras, estradas.
Sonhou.
Andou no mato perdeu a infância.
Matou.
Marchou caldo
Dormiu sozinho na terra batida
Caiu descalço no pó dos caminhos da vida.
E os lobos lá longe.
E as asas de abutre sem cara.
E o medo na tarde, na farda, no corpo, na arma
Soldado na morte
Do mato no norte
Na sorte do vento
No fogo da terra
Nascido descalço
Crescido nas pedras
Dormido sozinho
No pó do caminho
Enxada
Pão magro
Relento
Soldado
Na ponta do estio.
E o medo na tarde
E os lobos lá longe.
E as asas de abutre sem cara.
José Luís Tinoco
Thursday, March 26, 2026
Estrela da Tarde
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça
E o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria
Ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza!
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!
Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'
Wednesday, March 25, 2026
Onde é Que Tu Moras?
Tuesday, March 24, 2026
Maria-criada, Maria-senhora
Disse adeus aos pais, adeus à montanha
Por trinta dinheiros desceu à cidade
Maria-criada para servir às ordens,
Maria-mulher de menor idade.
Maria tão só numa casa cheia,
Maria tão cheia de se sentir só
Entrega o seu corpo, quer criar raízes
Oferece amor e recebe dó.
Maria que chora, que se entrega a outros,
E a cada domingo não os vê voltar,
Maria que aprende a usar o corpo
Por mais dez dinheiros, para se enfeitar
Perdida por um, perdida por mil
A família longe, sem saber de nada,
Maria-senhora para servir à hora,
Veste-se de seda, já não é criada. (bis)
Tozé Brito










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