Sunday, November 01, 2026

Mudar de vida

 
Hesitei se havia de escrever esta canção
Porque a vida não se pode resumir numa canção
Mudar de vida?
Mudar de vida é uma questão que ainda não está resolvida
Mas o que é a minha vida, se não a própria vida que está contida em toda a força perdida, em toda a vida perdida, consumida, passada, repassada, ultrapassada como se não fosse vida...
A minha vida? Não há!
Uma vida mesmo vida só pode ser um espaço que está dentro dum abraço que se dá ou não se dá
Vida verdadeiramentе é sempre a vida da gentе que penosamente, insistentemente, inexplicavelmente, vai fazendo andar a roda que fabrica a vida toda
Uma vida separada se parada
Se a vida seca e mais nada
Se for vida distraída, alienada, sozinha, irrelevante e auto-ignorada, já não é vida vivida
Uma vida separada, não é vida nem é nada
São corpos minerais, nem plantas nem animais
Pois quem vive distraído à conta do seu umbigo
Quem não é capaz de dar a vida pela vida dum amigo
Está sozinho com os outros, está sozinho consigo
(pelo menos é assim que eu vejo as coisas)
Então? Mudar de vida pra quê?
Em tudo o que foi vivido procuramos um sentido
O que essa vida nos diz, uma matriz, um pendor, um sonho, um amor ou um desamor, uma paixão, uma razão... ou uma Grande Razão!
Por baixo de cada vida há essa roda que gira com os ratinhos lá dentro a fazer a roda andar
As coisas materiais, as coisas essenciais
O pão, a casa, os sinais que são a vida directa
A existência concreta
As coisas que estão à mão, que nos parecem normais
A paz, o pão, a saúde, a habitação
Então? Mudar de vida?
Mudar de vida
Mudar de vida
Acordar
Acordar o pensamento
Vida verdadeiramente é sempre a vida da gente que penosamente, insistentemente, inexplicavelmente, vai fazendo andar a roda que fabrica a vida toda
Muitos de nós nem dão conta...
Achamos isso normal...
Mas afinal... e a hora de trabalho que há em cada coisinha?
E o cansaço da mãe com as panelas na cozinha?
Como se chama a Judite que me fez esta camisa?
Onde está o Eduardo que fez este projector?
E onde para o Vladimir que ergueu aquela parede?
Estão não sei onde!
Do outro lado daquilo a que nós chamamos vida!
A vida deles, para nós, não é bem vida...
É, digamos assim, mercadoria produzida...
São umas coisas!
Umas coisas que vivem sei lá onde, sei lá como... Viverão?
Essa gente, tirando alguma excepção, não está confortavelmente aqui sentada à minha frente a ouvir a minha canção
Vai vendo telenovelas, olhos perdidos no espaço, a digerir o cansaço, a descansar do vazio...
São corpos desbotados, destinados a serem recarregados
Que amanhã é outro dia em que vão trocar, por pão
Ou tudo ou nada
Mais e mais mercadoria, fabricada, montada, embalada e transportada
Que para eles não vale nada!
Estes de que falo são 66 % da gente do meu país
Há mais 24 % que sobrevivem nas pregas do pesadelo
Sobram 10
Dos 10%, são 8 os que duma ou doutra forma levam cheios de arrogância as migalhas de biscoito que são o seu resgate de esperança
Estão nas tintas para tudo, a começar por si próprios...
Ficam os tais 2 %, os que a gente nunca vê, mas que nos vêem a todos
Quem fabrica um parafuso, uns sapatos, uma estrada, qualquer coisa fabricada
Recebe um x pela hora, pelo gesto, pela vida emprestada
Que não é vida nem nada
Amortizado o capital constante
Pagas as despesas todas
Incluindo o esperto que teve a ideia
Fica então a mais-valia
Que é a demasia entre o valor da mercadoria e os gastos do patrão - o esperto que teve a ideia, o "empreendedor" que pôs os outros a viver para ele...
Porquê? Porque os valores são outros...
-Quais são os teus valores, Zé Luis?
-Os meu valores?
-Sim, quais são os teus valores?
-Ah, o amor, a liberdade, a igualdade, a fraternidade
A amizade
A justiça, ora aí está, a justiça
Ah e também a honestidade!
-E tu aí, quais são os teus valores?
-Os meus valores?
-Sim, quais são os teus valores?
-Os meus valores estão na bolsa de valores...
(Ao que isto chegou...)
Nos anos 20 do século do mesmo nome
Para tentar deter o flagelo social da sífilis
Que dizimava pobres e exércitos
O biólogo alemão Ehrlich fechou-se no laboratório
Tentou uma experiência, e falhou
Tentou duas, falhou
Três, quatro, cinco, seis, falhou sempre
Até que conseguiu um tratamento:
Chamou-se tratamento "Ehrlich 606"
Mas ainda não conseguia curar a doença sem matar o doente
Então Ehrlich continuou
Mais uma, e outra, e outra...
A cura, finalmente conseguida, chamou-se "Ehrlich 914"
Quantas vezes já tentámos nós?
914?
Ainda não...
606?
Ainda não...
Mas talvez, quem sabe, dez, vinte?
Qual é o preço da esperança?
Acordai, acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis
Vinde no clamor das almas viris arrancar a flor que dorme na raiz!
Estamos de punhos fechados, mas temos as mãos nos bolsos...
Então?
Mudar de vida?
Mudar de vida
Mudar de vida ....
[...]
Não disputeis, curvado o corpo todo, as migalhas da mesa do banquete
Erguei-vos e tomai lugar à mesa!
Mudar de vida!
Mudar de vida!
Levar o sonho de Antero às mulheres do Vale de Ave, às da Zara, às da Maconde, às da Rohde
Aos homens da Pereira da Costa
Aos jovens da Cova da Moura, da Arrentela, da Apelação e da Alta de Lisboa, meus irmãos!
Aos homens da Auto-Europa e da Azambuja
Ao milhão de desprezados
Ao lixo do capital
Aos seres humanos dispensáveis, descartáveis, recicláveis
A esses olhares perdidos dos nossos telejornais
Levar o sonho de Antero aos humilhados e ofendidos
Erguei-vos e tomai lugar à mesa!
Libertar a mais valia que está na mercadoria!
Mostrar a vida escondida por baixo do sofrimento!
Acordar a força
Acordar a força motriz
A energia matriz
Donde nasce o movimento
A raiz...
Mudar de vida!
Mudar de vida!
Mudar de vida
Mudar de vida
Dar
Dar um pontapé na morte!
Mudar de vida
Mudar de vida
Romper
Romper o cordão da sorte!
Mudar de vida
Mudar de vida
Dar
Dar as mãos para o caminho!
Mudar de vida
Mudar de vida
Mudar
Que isto não muda sozinho!
Mudar de vida
Mudar de vida
Pôr
Pôr em marcha o movimento!
Mudar de vida
Mudar de vida
Acordar
Acordar o pensamento!

José Mário Branco

Thursday, October 29, 2026

Aos mortos vivos de Cabo Verde


A 29 de Outubro de 1936, chegavam ao campo de concentração do Tarrafal os primeiros presos. O Campo da Morte Lenta tinha sido inaugurado. 
Passam hoje 90 anos...

Aos mortos vivos do Tarrafal
Ao cabo de Cabo Verde
dobrado o cabo da guerra
quando o mar sabia a sede
e o sangue sabia a terra
acabou por ser mais forte
a esperança perseguida
porque aconteceu a morte
sem que se acabasse a vida.
Ao cabo de Cabo Verde
no campo do Tarrafal
é que o futuro se ergue
verde-rubro Portugal
é que o passado se perde
na tumba colonial,
ao cabo de Cabo Verde
não morreu o ideal.
Entre o chicote e a malária
entre a fome e as bilioses
os mártires da classe operária
recuperam suas vozes.
E vêm dizer aqui
do cabo de Cabo Verde
que não morreram ali
porque a esperança não se perde.
Bento Gonçalves torneiro
ainda trabalhas o ferro
deste povo verdadeiro
sem a ferrugem do erro.
Caldeira de nome Alfredo
fervilham no teu caixão
contra o ódio e contra o medo
gérmens de trigo e de pão.
E tu também Araújo
e tu também Castelhano
e também cada marujo
que morreu a todo o pano.
Todos vivos! Todos nossos!
vinte trinta cem ou mil
nenhum de vós é só ossos
sois todos cravos de Abril!
No campo do Tarrafal
no sítio da frigideira
hasteava Portugal
a sua maior bandeira.
Bandeira feita em segredo
com as agulhas das dores
pois o tempo do degredo
mudava o sentido ás cores:
o verde de Cabo Verde
o chão da reforma agrária
e o Sol vermelho esta sede
duma água proletária.
Do cabo de Cabo Verde
chegam tão vivos os mortos
que um monumento se ergue
para cama dos seus corpos.
Pois se o sono é como o vento
que motiva um golpe de asa
é a vida o monumento
dos que voltaram a casa.
José Carlos Ary dos Santos

(poema feito quando da trasladação para Portugal dos restos mortais dos 32 resistentes assassinados no Tarrafal)

Sunday, October 25, 2026

Acampas e acampadas

 
May be an image of crowd
























Depois de ver em directo o que se passou em Lisboa e no Porto esta madrugada, a minha noite foi de pesadelos. E voltei a 1973, à Rua Joaquim António de Aguiar, a caminho do Marquês de Pombal, para uma concentração da CDE. Foi quando apareceu um 'creme nívea' saindo de lá o maltez soares, com o seu pingalim. Percebi que só havia duas hipóteses: ou fugia ou levava 'porrada', como os manifestantes levaram ontem.
Fugi. Corri. Muito. Quando parei estava no Largo do Rato. Não sei como lá cheguei, não sei quais as ruas por onde fugi.
Esta madrugada voltei a ver muitos potenciais maltezes soares a dar bastonadas, balas de borracha e outras cenas frente a grupos de pessoas que estavam pacificamente no Rossio e na Praça D. João.
Este não é o meu país de Abril!
(foto do Egídio Santos)

Thursday, October 15, 2026

Não nos deixam cantar


Não nos deixam cantar, Robeson
meu canário com asas de águia
Meu irmão negro com dentes de pérola
Não nos deixam cantar as nossas canções.
Têm medo, Robeson
medo da aurora, medo de olhar
medo de ouvir, medo de tocar.
Têm medo de amar,
medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.
(Decerto que também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como é que tu lhe chamas, Robeson?)
Têm medo da semente e da terra,
medo da água que corre,
medo da lembrança.
A mão de um amigo que não deseja
nem desconto nem comissão nem moratória
igual a um pássaro quente
não apertou nunca a sua mão.
Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Têm medo, meu canário com asas de águia,
Têm medo das nossas canções, Robeson…
Nazim Hikmet

Thursday, October 08, 2026

Carta de Camilo Cienfuegos al Che


Carta de Camilo Cienfuegos al Che
Abril 24/58
Che, Hermano del alma:
Recibí tu nota, veo que Fidel te ha puesto al frente de la Escuela Militar, mucho me alegra, pues de ese modo podremos contar en el futuro con soldados de primera.
Cuando me dijeron que venías a “hacernos el regalo de tu presencia”, no me agradó mucho. Tú has desempeñado un papel principalísimo en esta contienda, si te necesitamos en esta etapa insurreccional, más te necesita Cuba cuando la guerra termine, bien hace el Gigante en cuidarte.
Mucho me gustaría estar siempre a tu lado, fuiste por mucho tiempo mi jefe y siempre lo seguirás siendo. Gracias a ti tengo la oportunidad de ser ahora más útil, haré lo indecible por no hacerte quedar mal.
Tu eterno chicharrón,
Camilo

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Thursday, September 24, 2026

1ª Festa do Avante!


A 24 de Setembro de 1976, o PCP erguia a Festa que Portugal nunca tinha visto.
Há precisamente 50 anos abríamos as portas da 1º Festa do Avante! na FIL, em Lisboa. Em 1976, contra todas as evidências em contrário, a Festa do jornal que resistiu na clandestinidade durante 48 anos - o Avante! - nascia como esperança para a construção do Portugal de Abril, celebrando a liberdade. Festa da cultura, da solidariedade, da amizade e da alegria, a sua natureza política foi determinante para responder à urgência democrática e à força da vontade popular. Era a possibilidade daquilo que juntos conseguimos fazer com as nossas próprias mãos.
50 anos depois, a Festa continua cada vez mais viva e sempre a olhar para o futuro. É por isso que todos os anos a Festa nos surpreende com a sua constante novidade, com a imensa juventude que nos faz dizer, sem hesitar, que não há Festa como esta.

(do site Festa do Avante)

Wednesday, September 23, 2026

Peço silêncio


Agora deixem-me tranquilo.
Agora acostumem-se sem mim.
Eu vou fechar os olhos
E só quero cinco coisas,
Cinco raízes preferidas.
Uma é o amor sem fim.
A segunda é ver o Outono.
Não posso ser sem que as folhas
Voem e voltem à terra.
A terceira é o grave Inverno,
A chuva que amei, a carícia
Do fogo no frio silvestre.
Em quarto lugar o Verão
Redondo como uma melancia.
A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem amada,
Não quero dormir sem teus olhos,
Não quero ser sem que me olhes:
Eu troco a Primavera
Pra que tu me fiques olhando.
Amigos, isso é tudo o que quero.
É quase nada e quase tudo.
Agora, se querem, que se vão.
Vivi tanto que um dia
Terão de esquecer-me com força,
Apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.
Mas porque peço silêncio
Não creiam que vou morrer:
Pois é exactamente o contrário:
Acontece que vou viver.
Acontece que sou e que sigo.
Não será, pois, senão que dentro
De mim crescerão cereais,
Primeiro os grãos que rompem
A terra para ver a luz,
Porém a mãe terra é escura:
E dentro de mim sou escuro:
Sou como um poço em cujas águas
A noite deixa suas estrelas
E segue só pelo campo.
Trata-se de que tanto vivi
Que quero viver outro tanto.
Nunca me senti tão sonoro,
Nunca tive tantos beijos.
Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.
Deixem-me só com o dia.
Peço permissão para nascer.
Pablo Neruda

Friday, September 11, 2026

Os onzes de Setembro

 
Há 25 anos estava na Berlenga. E como havia uma enorme afluência de turistas à ilha, e consequentemente ao restaurante, fui para trás do balcão ajudar a tirar cafés.
A certa altura o Manel (concessionário do Pavilhão Mar e Sol) chamou-me para eu ver a televisão. O barulho era muito e pareceu-me estar a ver um filme de ficção. Os clientes centraram a atenção no aparelho, quase junto do tecto, o Manel subiu o som e fez-se silêncio (quase) absoluto. As imagens ainda hoje me chocam. E os atentados às torres gémeas foram (e ainda são) tema de conversa naquele dia e nos que se seguiram.
Mas eu também me lembro que, num outro 11 de Setembro, em 1973, aconteceu um outro atentado em Santiago do Chile, melhor dizendo um golpe militar, que culminou com a morte do Presidente Salvador Allende, eleito democraticamente. E que só no dia seguinte soubemos do acontecido pelo jornal 'República'. Não houve televisões a noticiarem, muito menos a fazerem directos, e o pior de tudo era mesmo NÃO PODER TROCAR INFORMAÇÃO fosse com quem fosse, NEM TELEFONAR A AMIGOS, pois podia haver pides e bufos em qualquer esquina ou casa. E as paredes tinham, na época, ouvidos.
No atentado de há 25 anos, que ocorreu precisamente a esta hora, morreram cerca de 3.000 (TRÊS MIL) pessoas.
No golpe militar no Chile, o bombardeamento ao palácio La Moneda ocorreu por volta das 4 da tarde em Portugal (meio dia em Santiago). Morreram 60.000 (SESSENTA MIL) pessoas.
Vivi isto tudo, tenho memória e não perdoo!

O dia em que não morri - revista piauí

Saturday, September 05, 2026

Daqui deste deserto em que persisto


Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada

António Ramos Rosa