Saturday, January 22, 2022

Das minhas memórias


 Das minhas memórias

Tinha eu feito 13 anos ainda não há dois meses quando este assalto se deu. Na Escola, 1º tempo (8:30), aula de Religião e Moral. Oiço uma colega da fila detrás dizer 'faz qualquer coisa, não queremos ter aula'. E começámos a 'bichanar' a quatro (eram cadeiras de duas alunas) e a professora, a famosa D. Celeste, que também nos dava Culinária (que para sermos mulherzinhas tínhamos de saber cozinhar, bordar, coser, fazer renda, tratar dos filhos e do marido - para isso éramos educadas) a D. Celeste, dizia eu, mandava-me calar. E eu virava-me para a frente, sendo que logo a seguir me esticava para a fila detrás e respondia à minha colega mantendo uma conversa de nada, só para não termos aquela aula.
Às tantas a D. Celeste ouviu qualquer coisa que lhe pareceu ter a ver com o assalto ao Santa Maria (tínhamos ouvido na rádio mas não percebíamos peva do que se estava a passar) e disse, 'Morgadinha, aqui nesta aula só tratamos de assuntos sérios'. E eu, do alto dos meus 13 anos e meia dúzia de semanas, respondo-lhe: 'Mas quer algum assunto mais sério do que o assalto ao Santa Maria?'.
Ficou a D. Celeste pálida uns momentos e vai sentar-se na secretária, não sem antes ter dito, de braço esticado e indicando a porta da sala de aula 'Já prá rua!'....
E eu vim. Mais uma falta a vermelho, e acho que foi aqui e neste dia que comecei a tentar perceber porquê tamanho castigo...
Dizem que eu era fresca.....

Monumento a Vasco Gonçalves

 

Associação quer criar monumento a
Vasco Gonçalves em Lisboa
projetado por Álvaro Siza
 
Manuel Begonha afirmou que "face à atual ascensão das forças de extrema-direita, entende a
associação que as ideias de Vasco Gonçalves devem ser preservadas".
 
17 Janeiro 2022 — 16:12

A Associação Conquistas da Revolução quer criar um monumento para recordar a vida e obra do general Vasco Gonçalves (1921-2005), projeto cuja elaboração foi aceite pelo arquiteto Álvaro Siza e que vai ser apresentado à Câmara Municipal de Lisboa.
 
Contactado esta segunda-feira pela agência Lusa, Manuel Begonha, presidente da associação criada em 2012 para preservar a memória, vida e obra do militar e político que foi primeiro-ministro durante quatro governos provisórios a seguir à Revolução do 25 de Abril, indicou que na quinta-feira, em Lisboa, vai realizar-se uma reunião para preparar o processo a entregar ao presidente da autarquia, Carlos Moedas.
 
"As celebrações do centenário do nascimento já estão a decorrer desde 2021, com várias iniciativas, mas a criação do monumento ao pensamento relevante deste homem seria o ponto alto, e muito importante, para avivar a memória de um exemplo, sobretudo para os jovens", sublinhou o responsável da associação.
 
Sobre o convite feito ao arquiteto Álvaro Siza, Begonha disse: "Já falámos com ele e mostrou-se muito satisfeito por ter sido escolhido para desenhar o monumento, até porque ele era amigo de Vasco Gonçalves".
 
Da comissão de honra das comemorações, que tem como lema "a moral e a política vão de par e não se podem dissociar", fazem parte militares e civis que estiveram em lados diferentes da Revolução do Cravos.
 
A lista, composta por uma centena de pessoas, desde a área da cultura, militar e política, inclui, além de Álvaro Siza, Dinis de Almeida, Duran Clemente ou Mário Tomé, mas também militares do lado do "grupo dos nove", como Vasco Lourenço, presidente da Associação 25 de Abril.
 
O historiador António Borges Coelho, o arqueólogo Cláudio Torres, dirigentes políticos como Carlos Carvalhas e Jerónimo de Sousa, do PCP, Heloísa Apolónia (PEV), a atriz Maria do Céu Guerra, Manuela Cruzeiro e Pilar del Rio também integram esta comissão.
 
Questionado sobre as razões pelas quais a cidade deveria acolher um monumento a Vasco Gonçalves, o presidente da Associação Conquistas da Revolução apontou várias: "Foi do grupo dos que constituíram o MFA [Movimento das Forças Armadas, movimento militar responsável pela Revolução do 25 de Abril de 1974], era o oficial mais graduado, ocupou todas as funções públicas que na altura era possível ter, até chegar a primeiro-ministro de quatro governos provisórios".
 
Além disso, "deu cumprimento ao programa do MFA, teve projeção internacional, e com ele se fizeram as grandes transformações do país, parte das quais ainda estão na Constituição Portuguesa".
 
Manuel Begonha sustentou ainda que, "face à atual ascensão das forças de extrema-direita, entende a associação que as ideias de Vasco Gonçalves devem ser preservadas".
 
"A 'serpente' foi apenas queimada, não foi morta. Ela permanece, portanto. Nós não queremos voltar ao passado", comentou, referindo-se à "difusão de ideias de teor fascista".
 
Na sua opinião, "há um contributo relevante para a sociedade que ainda pode ser dado pela história" do general Vasco dos Santos Gonçalves, nascido em Lisboa, a 03 de maio de 1921, e que morreu em Almancil, a 11 de junho de 2005.
 
Vasco Gonçalves foi chefe dos Governos Provisórios entre 18 de julho de 1974 e 10 de setembro de 1975, e o seu nome era aclamado nas manifestações e comícios durante o PREC em 'slogans' como "força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço", de uma canção interpretada por Maria do Amparo e Carlos Alberto Moniz.
 
O período em que chefiou o governo ficou conhecido por "gonçalvismo" e ficou marcado principalmente pelo combate aos monopólios e aos latifúndios.
 
A nacionalização da banca e dos seguros, a par da aceleração da Reforma Agrária, foram decisões emblemáticas do "gonçalvismo", ainda hoje sinónimo de extremismo de esquerda para as forças de direita.
 
Na próxima quinta-feira, a associação vai reunir a sua comissão executiva criada para dar seguimento ao projeto do monumento, e eleger uma delegação que irá pedir audiência ao presidente da CML para entregar a proposta.
 
Questionado pela Lusa sobre quem irá custear a construção do monumento, o presidente da associação disse: "Não sabemos. Por isso estamos na expectativa desta reunião com a câmara de Lisboa".

Tuesday, January 18, 2022

A Bandeira Comunista

 A Bandeira Comunista

A folha manuscrita aqui reproduzida é a única existente do original de A Bandeira Comunista de José Carlos Ary dos Santos.

Um dos mais conhecidos poemas de Ary e seguramente dos mais queridos dos militantes do PCP, A Bandeira foi escrito em condições que merecem ser recordadas.

Na segunda-feira, 11 de Agosto de 1975 o Centro de Trabalho do PCP em Braga foi destruído e incendiado após um ataque comandado por um grupo operacional do ELP, como mais tarde veio a ser revelado por numerosas investigações e directamente reconhecido por alguns dos membros do comando directamente envolvidos.

O «Avante!» enviara no fim de semana anterior para Braga um seu colaborador fotógrafo, uma vez que corriam insistentes boatos de incidentes em Braga na segunda-feira por (como sucedeu em diversos outros actos terroristas) ser dia de feira. Tendo resolvido pernoitar no Porto, o repórter chegou a Braga a meio da manhã verificando então que os provocadores haviam já desencadeado as agressões e que o Centro de Trabalho (onde se encontravam numerosos militantes) estava já cercado.

Apedrejamentos e tentativas de fogo posto sucederam-se ao longo do dia, tendo – de forma equívoca nunca inteiramente esclarecida – os defensores do Centro acabado por ser retirados por uma força militar que deixou o edifício entregue aos fascistas que completamente o destruíram e incendiaram.

Tomado pelos provocadores como um repórter que lhes era favorável, o fotógrafo do «Avante!» pôde assim obter ao longo do dia as mais extraordinárias imagens da violência fascista à solta, muitas das quais foram publicadas na edição seguinte do «Avante!», a 14 de Agosto.

Para essa mesma quinta-feira, a Direcção da Organização Regional de Lisboa convocara para o hoje Pavilhão Carlos Lopes um comício de solidariedade com os camaradas das organizações atingidas pelo terrorismo e de exigência de medidas de salvaguarda da ordem democrática.

Na redacção do «Avante!» decidimos montar num dos átrios do Pavilhão uma exposição com ampliações das fotos de Braga, de que só uma pequena parte havia sido publicada no jornal. Feitas as ampliações, colocou-se o problema das legendas – que acabou a ser um duplo problema...

A questão era que as imagens tinham uma força tal que qualquer palavra, qualquer frase parecia estar ali a mais. Contudo...

Lembrámo-nos então, telefonou-se ao Zé Carlos para a Espiral, agência de publicidade onde trabalhava, e dissemos-lhe do problema: «Não serias capaz de fazer aí qualquer coisa, uns versos com força, isto não há legendas que resolvam isto...». «Esperem lá um bocado que eu já ligo.»

Meia hora depois o telefone tocava e ouvia-se o vozeirão do outro lado: «Então vejam lá se esta coisa serve.»

Era A Bandeira Comunista. Copiada ao telefone, dactilografada e ampliada, iniciou nessa noite de luta um caminho que não findou jamais.

A bandeira comunista

Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

Ary dos Santos

 

Monday, January 17, 2022

VIAGEM


I

Capitão, aqui estou.

Comigo, a bagagem:
No saco de marujo trago um naco de pão
dentro do peito a ânsia da viagem.

II

Venho de longe, sabes, de tão longe
de países que não existem nos mapas.
Percorri rotas, cortei a nado os mares mais temerosos
e cheguei
cansada e desperta da viagem.

Aqui estou
inteira.

Na intimidade do chão, da comida saboreada,
porque não é apenas comida
mas um pretexto para fazer gestos em comum
Para sentir o prazer de os repetir - os repartir

Até quando...
prefiro não pensar

Por agora
fico-me
no imenso prazer de partilhar.

III

Lá fora
no frio da noite sei que a lua nasceu
sei que no cais há barcos que esperam
e gente, como nós, a aguardar a hora impossível da partida.

Maria Eugénia Cunhal

Friday, December 31, 2021


Se não puderes ser um pinheiro, no topo da colina,
Sê um arbusto no vale — mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um arbusto, se não puderes ser uma árvore.

Se não puderes ser um arbusto, sê um pouco de relva,
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser almíscar, sê, então, apenas uma tília —
Mas a tília mais viva do lago!

Não podemos ser todos capitães; temos que ser tripulação.
Há algo para todos nós aqui.
Há grandes e pequenas obras a realizar,
E é a próxima a tarefa que devemos empreender.

Se não puderes ser uma estrada, sê apenas uma senda.
Se não puderes ser Sol, sê uma estrela;
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso —
Mas sê o melhor do que quer que sejas!

Douglas Malloch


Wednesday, December 15, 2021

TERRA


- O que fazes, Luís?
O que fazes com a terra do quintal?
- Uma casa, pai. Uma casinha de barro.
- Para quem a fazes, meu filho?
- Para o primo António.
Ao lado será a nossa
E depois a de Josefa
E a de Elias depois
E outra para quem vier
Que queira poiso e guarida
Uma cama, uma sanefa
Pois esta rua tem vida
Quanto mais vida tiver
Outra do filho de alguém
Que ainda está por nascer
Para que a rua não pare
Nunca pare de crescer
Será a Rua Direita
Do barro que a terra der
Nem muito larga nem estreita
A palmo, mas bem medida
Com entrada, com saída
Feita de homem e mulher
Em cada porta um ditado
Pintado num azulejo
Cada casa o seu telhado
Cada casa o seu desejo
Para que rua engravide
Antes de chegar ao rio
Num largo onde tudo cabe
A que vou chamar rossio

Com quatro cantos virados
Para os pontos cardeais
Um para poetas vidrados
E para loucos que tais
Quero um canto para pintores
Desses que inventam as cores
Das papoilas e do sonho
No terceiro canto eu ponho
Uma cantiga de festa
Que é o que a voz empresta
À lua quando se esconde
Debaixo do nosso chão
E nós não temos por onde
Dar mais voz ao coração
O quarto canto é vazio
Não lhe ponho nada a jeito
Não é bem do meu feitio
Fazer tudo tão perfeito
Nem tudo deve ter forma
Deixo vazio um lugar
Para quem só sabe andar
Com o olhar fora da norma

É aqui que desagua
A nossa Rua Direita
Que não é larga nem estreita
É como um colo de mãe
Tem esse jeito também
Um jeito de nos abraçar
Que eu sem querer nem saber
Faça as ruas que fizer
Todas a ela vão dar

Primeiro a Rua da Escola
Onde me levaste, então
Para um dia ser alguém
Onde eu um dia também
Hei-de levar pela mão
Alguém à minha carteira
Para manter a linha inteira
Que sustenta o coração

Depois a Rua do Posto
Rua dos nossos avós
Para que as rugas do rosto
Corram no sentido certo
Corram para dentro de nós
Até ao dia em que a última
Maçã deixar de bater
Por cada fruto caído
Sabemos que a vida vai
Como a rua ter sentido

Quero a Rua da Fábrica
Ninho de azeite e de pão
Onde aqueles que lá estão
Têm um lugar à mesa
Conquistando a natureza
Que a Natureza aos demais
Sejam flores ou animais
Rios, montanhas, desertos
Fez diferentes e estão certos
Por ela ter a ciência
Que no fundo, na essência
Nós somos todos iguais

Por fim a Rua da Esperança
A mais bonita, sem fim
Onde quem quer acredita
Ver numa pedra um jardim
Plantar os versos de um hino
Regar com água do rosto
Ver nascer um violino
Das cinzas de um fogo-posto
E que toda a nossa terra
Com a esperança que inventei
Caiba onde não cabe a guerra
Caiba num verso da Lei

E se o mau tempo vier
Estragar a casa que fiz
Junto-me com quem estiver
E volto a fazer de raiz.

João Monge


Saturday, December 04, 2021

Sunday, November 14, 2021

E se a inteligência artificial o atropelar. De quem é a culpa?

Há vários automóveis sem condutor em teste e há cada vez mais aplicações para a inteligência artificial e esta torna-se crescentemente mais independente dos humanos. Como é que a moral as leis e a ciência estão a tomar precauções para um mundo em que as máquinas mandam mais? 

À medida que os carros se tornam autónomos, até que ponto devem responder pelas suas acções? Os computadores podem ser sujeitos de direito? Como devem ser programados para decidir numa situação quem salvam e quem podem sacrificar? Foi sobre estas matérias que um órgão ligado à ONU (Organização das Nações Unidas) reuniu, em 27 de outubro, em busca de respostas

A questão não é nova do ponto de vista da filosofia moral, mas o desenvolvimento rápido da Inteligência Artificial (IA) e das suas aplicações, na vida de todos os dias, está a tornar mais urgente que se pense e legisle em relação a isso.

A Comissão Europeia (CE) está atualmente a trabalhar na primeira legislação do mundo para regulamentar a IA em geral. A proposta em discussão aborda os riscos desta tecnologia e define obrigações claras em relação a seus usos específicos, é o chamado Artificial Intelligence Act.

No início de Outubro, foi lançada uma nova iniciativa sobre IA para Segurança Rodoviária liderada pela UIT (União Internacional das Telecomunicações), pelo enviado especial da ONU para segurança rodoviária, e pelo enviado da ONU para tecnologia. O objetivo é incentivar os esforços públicos e privados para usar tecnologias de IA que aumentem a segurança rodoviária para todos os usuários das rodovias. Estas devem ser aplicáveis a países pobres e em vias de desenvolvimento.


Elon Musk anuncia robot humanóide para executar as tarefas "perigosas ou aborrecidas"

O custo de veículos com direção totalmente autónoma permanecerá muito alto para adoção em larga escala em países de baixa rendimento até 2030, quando as metas da ONU para reduzir pela metade as mortes nas estradas deverão ser atingidas. Mas muitos dos dados que podem ser recolhidos sobre veículos autónomos, disse, ao site da televisão pública suíça, swissinfo.ch , Bryn Balcombe, presidente do grupo temático sobre IA para direção autónoma e assistida na União Internacional de Telecomunicações (UIT), sediada em Genebra.

“É por isso que estamos realmente interessados em expandir o papel do grupo de trabalho, para começar a analisar como podemos adotar essas tecnologias, mas implantar as mais importantes e mais valiosas nesses países para termos resultados até 2030”.

O famoso dilema moral e ético da situação de acidente onde é possível salvar o condutor e atropelar peões, ou vice-versa, ganhou todo um novo campo de discussão desde que a decisão passou a poder ser tomada não apenas pelo condutor, mas pelo próprio automóvel.

Estes estudos não são novos, já em 2016, o MIT (acrónimo em inglês do Instituto de Tecnologia de Massachusetts) lançou um inquérito chamado Moral Machine, no qual perguntava a pessoas de todo o mundo que tipo de decisões os automóveis autónomos deviam tomar em situações complicadas onde tivessem que decidir “quem matar”. 

A moral e os números

A questão deu bastante que falar na altura, recriando problemas hipotéticos do tipo: se um carro autónomo estiver na iminência de matar uma pessoa, deverá evitar matá-la, mesmo que para isso tenha que chocar com uma parede e potencialmente matar os ocupantes? E se em vez de uma pessoa for um grupo de crianças; ou um criminoso; ou um reputado administrador de empresas?

A questão glosa um célebre dilema moral da filosofia, chamado o “The Trolley Problem” (o problema do comboio), em que alguém teria que decidir entre várias situações em diversos cenários: ou matava cinco trabalhadores que estavam amarrados numa linha ou matava um outro que estava num ramal; ou salvava as pessoas que estavam num comboio, atirando uma pessoa gorda para a linha.

O filósofo Stevan S. Gouveia, professor da Universidade do Minho e autor de vários livros, entre os quais, “Homo Ignarus: Ética Racional para um Mundo Irracional”, explica, ao Contacto, as implicações do dilema e a sua aplicação à IA.

“ Os dilemas do trolley (comboio) ou do carro desgovernado, que foi inventada por uma filósofa a Philippa Foot, fazem pensar num cenário em que há um comboio que vai desgovernado numa linha e há cinco trabalhadores que estão ali que não podem fugir e depois há uma pessoa que pode mudar a agulha e decidir que o comboio se possa desviar para uma linha secundária onde existe apenas um trabalhador, e aí Philippa Foot pergunta-nos o que devemos fazer nesta situação? E a maior parte das pessoas decide matar essa pessoa para salvar as cinco. Mas depois o cenário tem outra possibilidade, temos também cinco pessoas que podem ser mortas, mas temos uma ponte com uma pessoa obesa ou muito forte que se for empurrada para a linha, irá salvar as cinco pessoas mas irá morrer. E nós aqui temos que tomar uma decisão. Aqui é curioso, se no primeiro cenário cerca de 90% das pessoas decidia que mudava a agulha, mas temos apenas uma minoria das pessoas que decide empurrar uma pessoa para salvar outras cinco.”

O objectivo inicial de Philippa Foot não era produzir legislação nem regras, era simplesmente “mostrar que nós somos bastante incoerentes em termos de juízos morais. Não somos bons a fazer juízos morais”, nota o filósofo.

Mas obviamente que o dilema permite pensar como proceder em relação aos carros autónomos: “é uma discussão que pode não ter uma solução filosófica ótima, mas que a maior parte dos especialistas inclina-se para uma solução pragmática: isto é pode não haver sempre a melhor solução, mas ela deve ser igual e coerente para ser aplicada a todos os produtores de automóveis autónomos. Por exemplo, os tribunais alemães avançaram recentemente que independentemente o que aconteça o carros autónomo têm sempre de travar. Numa situação de dilema têm sempre de travar”.

Embora estes casos nos permitam pensar questões práticas e implicações morais, eles são mais situações limites que acontecimentos reiterados, como nos faz notar Steven S. Gouveia: “ É importante esclarecer que este tipo de dilemas na vida real serão sempre muito poucos, e que os carros autónomos pelo contrário tenderão a diminuir a sinistralidade, liquidando o erro humano. Salvarão muito mais vidas do que as possíveis vítimas que existirão numa espécie de vazio moral de um dilema.”.

Uma posição sobre a raridade e a falta de perigo dos carros autónomos que o professor Arlindo Oliveira, especialista em IA, que dirigiu o Instituto Superior Técnico e que actualmente preside ao INESC- Instituto de Engenharia e Sistemas de Computadores, comunga.

“O problema não é novo, não tem a ver com o carro autónomo, a diferença é que a pessoa não tem tempo de reagir, enquanto um computador tem, em princípio tempo de reagir. O problema coloca-se explicitamente porque temos de programar e definir essas situações e as fronteiras são muito ténues, mas na prática até se trata de um avanço, porque, neste momento, quando se dá uma situação de uma pessoa com carro, ela vai pela ribanceira abaixo ou atropela uma pessoa, porque não tem tempo para tomar uma reação racional. Agora , com as máquinas, trata-se de aplicar as regras que nós gostaríamos que fossem seguidas – como estão no estudo publicado pelo MIT na revista “Nature” – e programar os carros para que essas regras sejam cumpridas, para tomarem as melhores opções em geral. Em princípio, isso vai salvar vidas.”, explicou ao Contacto.

Os resultados desse estudo, de 2016, publicado na revista “Nature” são curiosos e mostram que as conclusões morais das pessoas não estão separadas dos contextos sociais e das vivências nos diversos países. Se por um lado, confirmam uma tendência moral global de dar prioridade às vidas humanas face à vida de animais, valorizar os grupos de pessoas em contraponto aos indivíduos, e proteger prioritariamente as crianças.

Por outro lado, há diferenças regionais. Nos países mais ricos, as pessoas tendem a preferir salvar uma pessoa com estatuto elevado face a um “mendigo”; nos países mais pobres essa tendência inverte-se.

São resultados que deverão ser analisados em detalhe, já que será inevitável que, por iniciativa própria dos fabricantes destes sistemas, ou por legislação, este tipo de questões tenha que ser considerada na programação dos carros.

Recorde-se que a primeira ideia de leis que condicionariam o funcionamento de máquinas autónomas nasceram nas páginas da literatura. As três leis da robótica são, na verdade, três regras idealizadas pelo escritor Isaac Asimov a fim de permitir o controle e limitar os comportamentos dos robôs que este dava vida nos seus livros de ficção científica.

As três diretivas que Asimov fez implantarem-se nos “cérebros positrônicos” dos robôs dos seus livros são:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal.

2ª Lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, excepto nos casos em que entrem em conflito com a Primeira Lei.

3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

Na realidade e em termos de automóveis autónomos, até 2016, o único país que já tinha legislado sobre isto era Alemanha, em que o legislador considerou que todas as vidas devem ser consideradas como tendo valor igual, e que por isso não será admissível que um carro escolhesse salvar um rico face a um pobre.

Mas de igual modo, a legislação alemã sobre o tema também prevê que o veículo autónomo não daria prioridade a salvar uma criança face a matar uma pessoa mais velha.

Em relação, a se o carro deve salvar os ocupantes ou pessoas exteriores as leis ainda não são claras, mas a Mercedes já tinha deixado muito expressa a sua escolha comercial: os seus futuros veículos autónomos vão salvar os condutores (e sacrificar os peões), uma opção que contentará apenas aqueles que dão dinheiro à empresa e condenará os demais cidadãos. 

A moral faz a lei?

No novo estudo realizado pela a ONU, no final de Outubro, pretende-se ir mais além, tentar não só determinar as balizas éticas para a legislação para este tipo de veículos, mas também apurar quem tem responsabilidades sobre possíveis desastres. É possível culpabilizar as máquinas ou apenas se elas tiverem consciência?

“Escrevi um livro sobre esse assunto, chamado ’Homo Ignarus, Ética Racional para um Mundo Irracional’, em que analiso que nós, nos nossos códigos jurídicos e mesmo em termos de senso comum, adaptamos a ideia em que um ser é um sujeito de direito apenas se for consciente. E nós sabemos que hoje em dia grande parte dos robôs e tecnologia que usamos não são conscientes, e , por isso, nós dizemos logo à partida que é absurdo responsabilizar uma máquina que fabrica um carro, porque não faz sentido nenhum, o operador dessas máquina é que deve ser responsabilizado se alguma coisa acontecer com essa máquina.”, explica Steven S. Gouveia, acrescentando que isso, devido ao desenvolvimento tecnológico não deve ser sempre assim, “nós temos que fazer um salto meta-ético: passar de uma ética da consciência, para uma ética da não consciência, em que o que importa é que se uma determinada acção tem alguma consequência ética. Então deve ser julgada moralmente, independentemente do que seja o autor. Se esse actor, e isso é que é importante, tiver uma autonomia suficientemente razoável – nós sabemos que os seres humanos têm uma autonomia razoável e sabemos que a tecnologia caminha para essa autonomia razoável- independentemente dela ser consciente ou não, devemos pensar em formas de responsabilizar também a própria tecnologia.”.

Para o filósofo isso passa por ter uma ideia de uma responsabilidade partilhada. “Defendo um conceito a que chamo de responsabilidade distribuída. Nós não vamos deixar de atribuir responsabilidade a actores específicos, mas vamos também passar a atribuir responsabilidade a redes de actores. Dando o exemplo do carro autónomo: não será só o carro autónomo que será responsabilizado, será também quem o produz, quem permite que ele possa existir e circular, ou seja os governos, será também quem o pensou e se a tecnologia demonstrar que comete demasiados erros, para além de responsabilizar, é preciso colocar a questão de que será que esta tecnologia faz sentido continuar a existir.”

No entanto, esta evolução jurídica encontra-se praticamente congelada, devido à maioria dos responsáveis políticos acharem que a autonomia das máquinas não é suficiente para lhes atribuir responsabilidade. O que não implica que seja um conceito em debate.

“A questão do direito e da sua aplicação dele às máquinas tem sido muito discutida, houve um relatório do Parlamento Europeu, salvo erro de 2016, em que se levantam os direitos e dos deveres das máquinas. Esse relatório não teve seguimento nos documentos mais recentes da Comissão Europeia, que ignoram essa questão. Nós, no IST, temos um grupo de trabalho com a Faculdade de Direito da Universidade Católica em que temos discutido muito estas questões. Neste momento, o entendimento generalizado é que é prematuro considerar esses sistemas como sujeitos autónomos de direito, como as pessoas. A filosofia dominante é que os sistemas são ferramentas e não são sujeitos de direito.”, conta o professor Arlindo Oliveira.

Mas este entendimento dominante pode mudar com o progresso da própria tecnologia. “Estão-se a fazer avanços significativos sobre o que é a consciência, e eventualmente no futuro vamos ter a possibilidade de criar máquinas conscientes, em primeiro lugar é um problema antigo que não tem uma resolução óbvia e passa até pela definição do que é a consciência. Não é algo que é possível imediatamente, e podemos até chegar à conclusão que mesmo que possamos criar máquinas conscientes, não as queremos criar. Finalmente, se criarmos máquinas conscientes a questão legal e a questão do direito é uma questão relevante, mas há outras questões também relevantes se temos o direito de as criar e de as desligar”, defende.

O grupo temático que tem reunido, nos últimos meses em Genebra, inclui cerca de 350 participantes internacionais representando a indústria automóvel, de telecomunicações, universidades e os órgãos reguladores. Estão a elaborar uma proposta para uma norma técnica internacional, uma recomendação da UIT, para o monitorização do comportamento dos veículos autónomos na estrada.

O projeto de norma do grupo visa apoiar os regulamentos internacionais e os requisitos técnicos que os órgãos da Comissão Económica para a Europa da ONU (UNECE) são responsáveis pela atualização dos veículos autónomos.

O grupo apresentará sua proposta à UIT no início do próximo ano, quando o órgão internacional decidirá se deve transformá-la em uma recomendação, que poderá então ser tomada como referência pelos reguladores dos vários países.

A pressa está directamente ligada ao desenvolvimento rápido deste tipo de veículos e da convicção da indústria e da UIT que a Inteligência Artificial pode reduzir em muito as mortes nas estradas.

A UIT, que inclui 193 países-membros e mais de 900 empresas privadas, universidades e outras organizações, espera convencer a ONU das virtudes das suas ideias e da própria inteligência artificial.

Mas todas as tecnologias comportam os seus perigos. Ao mesmo tempo que se discutem e produzem carros autónomos, já existem armas autónomas, como drones, que podem actuar sem monitorização humana. O que leva a muita gente pretender exercer um princípio de precaução em relação ao desenvolvimento da IA.

Angela Müller, gerente da AlgorithmWatch Suíça, uma organização sem fins lucrativos que monitora sistemas de IA e seu impacto na sociedade, defende, num depoimento à swissinfo.ch, que partes da narrativa, de organizações como a UIT, tendem a desviar o debate da necessidade de haver estruturas de controle dos limites para a IA. “Quando se opta por usar uma narrativa, de que a IA salvará o mundo, então a solução será apenas investir na investigação e produção da IA”, sem colocar as devidas perguntas.

A transparência sobre como os sistemas de condução baseados em IA funcionam é fundamental para se ter um debate público baseado em fatos. É por isso que Müller saúda investigações abertas ao público e que se concentra em explicar como os sistemas de IA tomam decisões e qual é seu impacto sobre os seres humanos.

É uma situação que está longe de se limitar apenas aos carros autónomos. Está provado que os algoritmos das redes sociais têm tido um efeito perverso em relação aos crescimento de discursos do ódio na sociedade e as grandes empresas tecnológicas têm mostrado uma grande aversão em tornar essas escolhas de programação dos algoritmos abertas e escrutináveis.

 

Controlar democratimente a tecnologia

João Jerónimo Machadinha Maia fez o doutoramento com uma tese sobre “Transumanismo e pós-humanismo: descodificação política de uma problemática contemporânea”, e explica que o avanço tecnológico não é independente das relações de poder nas sociedades em que acontece. E que a vontade de regulação ética e moral não é sempre a mesma e afronta necessariamente grupos poderosos.

“Uma coisa é falarmos do que é desejável outra coisa é falarmos do que é provável. O avanço tecnológico e científico nem sempre caminha de mãos dadas com a ética e com a própria moral. Há pressões de caracter social, económico e político para o desenvolvimento de certo tipo de tecnologias. Hoje já assistimos a determinados desenvolvimentos que são muito discutíveis não só do ponto de vista ético ou moral, mas até do ponto de vista jurídico, segundo a lei ou direito internacional. Veja-se o que está a acontecer com os drones em operações militares. Muitas vezes para além de atingirem alvos militares atingem civis. Mas quem fala dos drones pode falar de outros avanços científicos e tecnológicos que têm vindo a servir apenas alguns grupos sociais e humanos, não servindo a humanidade ou a sociedade na sua generalidade, e nessa medida causam fracturas e desigualdades sociais muito significativas, como no campo da terapêutica e da saúde.”

Para o investigador é necessário que a tecnologia possa ter um controle democrático e que o seu desenvolvimento não escape aos humanos.

“É fundamental que a inteligência artificial se mantenha dentro do controle humano. Um drone não tem um senso de moral como nós seres humanos temos. Por muito sofisticados que sejam , há um determinado grau de automatismo no seu funcionamento que não se coaduna com a nossa moral e o nosso juízo. Nessa medida, há determinado tipo de princípios que já estão a ser delineados que têm a ver com o controlo e com a reversibilidade, de modo que não haja coisas que escapem ao controlo da sociedade humana.”, alerta João Maia.


por Nuno RAMOS DE ALMEIDA/ 13.11.2021

Thursday, November 04, 2021

Sobre o livro 'Levantado do chão'

"Acho que do chão se levanta tudo, até nós nos levantamos. E sendo o livro como é - um livro sobre o Alentejo - e querendo eu contar a situação de uma parte da nossa população, num tempo relativamente dilatado, o que vi foi todo o esforço dessa gente de cujas vidas eu ia tentar falar é no fundo o de alguém que pretende levantar-se. Quer dizer: toda a opressão económica e social que tem caracterizado a vida do Alentejo, a relação entre o latifúndio e quem para ele trabalha, sempre foi - pelo menos do meu ponto de vista - uma relação de opressão. A opressão é, por definição, esmagadora, tende a baixar, a calcar. O movimento que reage a isto é o movimento de levantar: levantar o peso que nos esmaga, que nos domina. Portanto, o livro chama-se Levantado do Chão porque, no fundo, levantam-se os homens do chão, levantam-se as searas, é no chão que semeamos, é no chão que nascem as árvores e até do chão se pode levantar um livro."
 
José Saramago, sobre o livro 'Levantado do chão'.

Saturday, October 16, 2021

Memória de Adriano

Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa de amanhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
o que à terra chamou amante e irmã
mas também português que investe e marra
voz de alaúde rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro
a jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.

Ary dos Santos

(há 39 anos também era sábado, e chovia)

Monday, October 11, 2021

***

Primeiro, os nazistas vieram buscar os comunistas,
mas, como eu não era comunista, eu me calei.
Depois, vieram buscar os judeus,
mas, como eu não era judeu, eu não protestei.
Então, vieram buscar os sindicalistas,
mas, como eu não era sindicalista, eu me calei.
Então, eles vieram buscar os católicos e,
como eu era protestante, eu me calei.
Então, quando vieram me buscar...
Já não restava ninguém para protestar.

Martin Niemoller

Tuesday, September 28, 2021

Pequena elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

Monday, September 13, 2021

Não tenho medo da morte

Não tenho medo da morte
Mas sim medo de morrer

Qual seria a diferença

Você há de perguntar

É que a morte já é depois

Que eu deixar de respirar

Morrer ainda é aqui

Na vida, no sol, no ar

Ainda pode haver dor

Ou vontade de mijar


A morte já é depois

Já não haverá ninguém

Como eu aqui agora

Pensando sobre o além

Já não haverá o além

O além já será então

Não terei pé nem cabeça

Nem fígado, nem pulmão

Como poderei ter medo

Se não terei coração?


Não tenho medo da morte

Mas medo de morrer, sim

A morte e depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu

O derradeiro ato meu

E eu terei de estar presente
Assim como um presidente

Dando posse ao sucessor

Terei que morrer vivendo

Sabendo que já me vou


Então nesse instante sim

Sofrerei quem sabe um choque

Um piripaque, ou um baque
Um calafrio ou um toque

Coisas naturais da vida

Como comer, caminhar

Morrer de morte matada

Morrer de morte morrida

Quem sabe eu sinta saudade

Como em qualquer despedida.

 


Sunday, September 12, 2021

Uma pequenina luz

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha

Jorge de Sena

Wednesday, September 01, 2021

Dez chamamentos ao amigo

 Dez chamamentos ao amigo
(in Júbilo, memória, noviciado da paixão)

I
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem

Te olhei. E há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

II
Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

III
Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia

E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo

Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga

E amavio contente o amor teria sido

IV
Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.

Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.

Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.

Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página

Ilustrada da revista
Editorial, jornal
Teia cindida.

Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.

V
Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.

VI
Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade

Que nunca me soubeste?

VII
Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?

Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes

Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?

VIII
De lulas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura

Intocada meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exato.

Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem

A enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando

— Fazedor de desgosto —
Que eu te esqueça.

IX
Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquiteto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria da solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatas

Sobre-existindo apenas
Porque à noite retomo a minha verdade:
Teu contorno, teu rosto, álgido sim

E por isso, quem sabe, tão amado.

X
Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus

Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
De graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim

E me perdoa de ti a indiferença.

Hilda Hilst 

Da poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2017

Wednesday, August 25, 2021

***

Morrer é tão natural como nascer. E são talvez os dois únicos actos completamente solitários durante toda a vida. O que não é 'natural' é que se morra antes de tempo. Mas aí teríamos de definir o que é 'antes de tempo'... e talvez nunca fosse o tempo...