Monday, February 26, 2024

História e Letra de Roda Viva – Chico Buarque

 


Um pouco da História de Roda Viva

Roda Viva foi apresentada ao público, pela primeira vez, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967. A música ficou com a 3ª colocação na disputa, perdendo apenas para Ponteio (Edu Lobo e Capinam), que foi a primeira colocada, e Domingo no Parque (Gilberto Gil).

Mas a canção faz parte da peça musical homônima de Chico Buarque, que foi encenada pelo Teatro Oficina, com direção de José Celso Martinez Corrêa. No texto, temos a história de um artista que, explorado pela indústria cultural, vive o auge da fama, mas vem a ser descartado depois, e levado à morte no final.

O que inspirou a composição de Roda Viva

Foi dessa forma que Chico resolveu expressar sua insatisfação com a vida no show business que passou a conhecer depois de A Banda, quando virou uma estrela da música, extremamente tietado e fazendo muitos shows Brasil afora. Por isso, ao observarmos um primeiro rascunho da letra, notamos que não há uma conotação política nos versos, e sim a constatação de um artista exausto, que não se sente mais dono do próprio destino, porque chegou a roda-viva, como um redemoinho, tirando tudo da ordem imaginada.

Claro que sem conhecer o que motivou a composição, e sabendo um pouco de história do Brasil, tudo nos leva a pensar que a tal roda-viva é claramente uma alusão ao regime militar. Não é necessariamente, mas pode ser também. Afinal, a letra dá voz a um personagem frustrado, que não pode realizar sua existência livremente, porque uma força contrária causa a desordem, de modo  opressor e arbitrário, logo, ditatorial.

Os ataque contra a peça Roda-Viva

A peça estreou em janeiro de 1968, no Rio de Janeiro. Porém, durante a temporada em São Paulo, membros do CCC (comando de caça aos comunistas), em um ato terrorista, invadiram o teatro, destruíram o cenário, e agrediram todos os artistas e alguns espectadores. Isso voltaria a acontecer em Porto Alegre. Daí então, por segurança, o espetáculo foi cancelado de vez.

Ou seja, depois de sofrer tamanha violência, como não acreditar que a roda-viva não diz respeito à  força bruta, repressora e abusiva, tão característica do regime militar e de seus apoiadores?

O Sucesso de Roda Viva

Num primeiro momento, a ideia de Chico Buarque, ao escrever uma peça rebelde e provocativa, era se desvincular da imagem de bom moço que tinham colado nele. Contudo, no fim das contas, Roda Viva o consagrou ainda mais como artista. E não foi à toa.

Para a apresentação no Festival, Chico pediu a Magro, do grupo MPB-4, que fizesse o arranjo da canção. O resultado foi uma música consagradora. Pois ela ganhou uma bela introdução do grupo vocal, pra depois Chico e o MPB-4 (Magro, Miltinho, Aquiles e Ruy Faria) se revezarem cantando.

E depois de criar um clímax através da repetição do refrão, trazendo a plateia pra cantar junto, a música acabava de repente, abria um breve silêncio para, então, irromper os aplausos. Final apoteótico. Tudo isso sem falar na participação do grupo Som Três, com o piano fundamental de César Camargo Mariano.

Quem gravou Roda Viva

A canção Roda Viva foi gravada, com esse arranjo e o grupo MPB-4, no disco “Chico Buarque de Hollanda – Volume 3”, em 1968, e é praticamente a versão definitiva da música.

Mas outros grandes artistas também fizeram gravações significativas de Roda Viva. Entre tantas outros, destacamos: Quarteto em Cy com Toquinho & Vinícius de Moraes (1974); Ivan Lins (1991); Ney Matogrosso, em um disco somente com canções do Chico (1996); Maria Bethânia (1999); e por Fernanda Porto em uma versão remix (2004) que, na época, tocou bastante no rádio.

Juíza duvidou que Roda Viva é de Chico Buarque

Em 2022 ocorreu um caso bastante curioso. O deputado federal Eduardo Bolsonaro utilizou Roda Viva em um vídeo nas redes sociais. O compositor da música, por sua vez, entrou com um processo na justiça pedindo que a publicação fosse removida pois não havia concedido autorização para uso.

A juíza Monica Ribeiro Teixeira, entretanto, indeferiu o pedido do artista, alegando “ausência de documento indispensável à propositura da demanda, qual seja, documento hábil a comprovar os direitos autorais do requerente sobre a canção Roda Viva.” O advogado do cantor recorreu da decisão.

Informações Gerais

Ano de Lançamento:
1967.

Gênero:
Samba-Canção.

Compositores:
Chico Buarque (1944- )

Gravações Representativas:
Chico Buarque; MPB-4; Quarteto em Cy; Ivan Lins; Ney Matogrosso; Maria Bethânia; Fernanda Porto.


Letra de Roda-Viva.

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá.

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir.

Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá.

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou.

A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá.

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou.

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá.

Roda mundo, roda gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração


Para Ver e Ouvir:

Versão de Chico Buarque e MPB-4 no III Festival de MPB.

Monday, February 19, 2024

O beijo

 

Greta Zimmer Friedman morreu em 2016, aos 92 anos.
George Mendonsa morreu a 18 de Fevereiro de 2019, com 95 anos.
A foto é da autoria de Alfred Eisenstaedt, foi captada no Times Square, a 14 de agosto de 1945, dia em que o Japão se rendeu oficialmente aos EUA e em que foi declarado o fim da Segunda Guerra Mundial.

Wednesday, February 14, 2024

Os assassínios no PREC


Nélson Teixeira foi o único dos quatro filhos de Rosinda Teixeira que dormiu em casa na madrugada de sexta-feira, 21 de maio de 1976. A família morava no lugar de Arnozela, São Martinho do Campo, localidade no meio do coração das populações dos operários da indústria têxtil.


A bomba explodiu às três horas da manhã e foi tão potente que se ouviu a 50 quilómetros de distância.

Os pais de Nélson foram projetados para fora da cama. O soalho deu de si, a casa ficou toda em chamas. O filho tentou entrar no quarto dos pais. Tentou forçar a porta sem sucesso. “Só me lembro de escutar a minha mãe a dizer ‘ai, Jesus’. Foram as últimas palavras que lhe ouvi.”

O fogo envolvia tudo. Ainda teve forças para abrir a janela e cair desamparado. O corpo do pai tombou também do parapeito da janela, parecendo um homem-tocha. Ficaram ambos a arder entre a erva e as couves. António Teixeira , 49 anos na altura, ficou com queimaduras de terceiro grau. A mãe, Rosinda Teixeira, morreu nas chamas.

Os explosivos plásticos tinham sido postos por baixo do quarto do casal. Um engenho idêntico ao que tinha deflagrado, uma semana antes, na Embaixada de Cuba em Lisboa, matando duas pessoas.

O homem que tinha perpetrado o atentado em São Martinho do Campo, um dos muitos que cometeu, era Ramiro Moreira, antigo segurança do PPD (atual PSD), e em algumas dessas ações acompanhara-o Manuel Macedo, dirigente do MDLP. Moreira foi militante n.º 7 do PPD e responsável da segurança; foi expulso por Sá Carneiro, em novembro de 1975, por pertencer ao MDLP.

O atentado de São Martinho do Campo fora “encomendado” a essa organização por um industrial da zona. O alvo era o operário têxtil e pai de Nélson.

“António Teixeira, marido de Rosinda, a vítima mortal na noite fatídica de maio de 1976, começara a trabalhar para ele [esse empresário] em 1949 e notara a grosseria dos modos, os maus-tratos aos empregados, o assédio sexual às operárias. ‘Ele chamava ao gabinete as que lhe interessavam, mas muitas não lhe davam hipótese. Chegava a agredi-las à chapada na frente de toda a gente’, ilustra Nélson Teixeira [filho da mulher assassinada], a partir de histórias escutadas ao pai e a outros empregados. O descaro incluía mulheres grávidas e casadas, ouvir-se-ia mais tarde em tribunal”, relata Miguel Carvalho no seu livro Quando o Portugal Ardeu, em que se investigam os crimes da rede bombista de extrema-direita responsável por muitos assassínios durante o PREC.

“Os vários ‘exércitos’ da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no país entre maio de 1975 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de 10 mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. Os partidos de esquerda, como o PS, com o PCP à cabeça, foram os alvos preferenciais de quase 80% das bombas incendiárias, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro”, contabiliza Miguel Carvalho no seu livro.

Uma das estruturas responsável por esta dezena de assassínios e quase 600 ações terroristas nos anos depois da revolução foi o MDLP, a que pertenceu o antigo deputado do Chega Diogo Pacheco de Amorim. A organização foi condenada em tribunal pelo assassínio do padre Max e da estudante Maria de Lurdes.

Quando, no debate entre os líderes do PCP e do Chega, André Ventura resolve acusar o PCP de inúmeros assassínios no PREC, está visivelmente a tentar desviar a atenção das acusações de Paulo Raimundo, bastante mais verdadeiras, do seu apoio às medidas contra reformados e trabalhadores durante os governos de Passos Coelho.
Ventura não ficou por aqui, finalizando a sua intervenção a dizer que todas as situações em que o PCP esteve no poder “acabaram em morte, em roubo e destruição”.

A verdade é que, no caso dos anos posteriores à Revolução de Abril de 1974, pode André Ventura procurar os cúmplices destes atos dentro do seu próprio partido.
O MDLP estava ao serviço de certos empresários para castigar operários e até pôr bombas, como em São Martinho do Campo. O Chega é mais prosaico, recebe dinheiro de um conjunto largo de grandes patrões, mas é mais para confundir as coisas e fazer uma muralha de fumo, em que a pequena corrupção permita escapar a grande corrupção não criminalizada dos interesses instalados em Portugal.

Durante os governos da troika que André Ventura apoiou, um conjunto de empresas estratégicas foi alienado por meia dúzia de patacos. Em poucos anos, a REN, EDP e ANA deram dividendos milionários, que permitiram pagar o dinheiro que custaram aos grupos empresariais que as compraram. Várias inspeções do Tribunal de Contas concluíram que o Estado e os contribuintes foram privados de uma enorme riqueza. Tudo isto foi feito com o silêncio, na altura, do atual líder do Chega.

Como é também verdade que ficou mudo perante os cortes às remunerações dos reformados, polícias, professores e trabalhadores nos anos do governo de Passos Coelho.

É isso que ele não soube explicar durante o debate com Paulo Raimundo e que o levou a reescrever a história dos anos que se seguiram à revolução, inventando coisas.

Ventura sabe que a mentira, por mais que seja mentira, é mais difícil de corrigir do que de propagar. Aprendeu isso com Bolsonaro e com a extrema-direita de outros países.

Nuno Ramos de Almeida, DN 11.2.2024

Tuesday, February 13, 2024

NOITE DOS MASCARADOS


- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!


- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!


Chico Buarque

Sunday, February 11, 2024

Lego


 Entregue a quem gosta...

Thursday, February 08, 2024

Uma mulher de carne azul


(De "Eléctrico" num carro para Campolide. Dia sexual)
Um mulher de carne azul,
semeadora de luas e de transes,
atravessou o vidro
e veio, voadora,
Sentar-se no meu colo
na nudez reclinada
dum desdém de espelhos.
(Mas que bom! Ninguém suspeita
que levo uma mulher nua nos joelhos.)
José Gomes Ferreira

Saturday, February 03, 2024

Nasci para te amar

 
Nasci para te amar. Sempre.
Para te beber gota a gota. Nas noites.
Para te abraçar assim. Nos dias.
Nasci para morrer contigo. Hoje.
Esmago-me no beijo da tua boca. Aberta.
Estremeço-me e contigo morro. Agora.
Nasceremos outra vez. Sempre…

Sunday, January 21, 2024

Lenine

 


"Tínhamos chegado perto do Cinema Gato Preto. De qualquer parte, de súbito, abriram-se as portas de um pátio, umas portas de madeira, altas, imensas. Era perto de nós, ou na nossa frente, ou do outro lado, lá em baixo, não sei. Dessas portas saíram camiões, homens. E ouvi um grito. Eram de certeza várias pessoas que tinham gritado ao mesmo tempo, mas eu julguei ouvir um único grito. Um único ser gritou, mais forte que a rua imensa, iluminada, animada, mais forte que a noite e o frio: Lénine morreu!
O que se passou depois? Vi os acontecimentos aos pedaços, e não cronologicamente, todos ao mesmo tempo. O que ouvi também. Arrancavam-se os jornais das mãos daqueles que tinham saído das portas de madeira. Um eléctrico parou diante de mim. Ficou vazio num instante. Todos os eléctricos pararam. Todos vazios. Não ouço nada. Um velho chora, tira o gorro, aperta-o contra o coração. É calvo. Chora. Os trenós pararam. Os trenós estão vazios. Os cinemas esvaziam-se, a multidão parece fugir a um incêndio. E os restaurantes e as casas. Tudo se lança para a rua. A Avenida Tverskoi cobriu-se de gente, as pessoas juntam-se, empurram-se em redor dos vendedores de jornais. Sentado no estribo de um eléctrico, um guarda-freio chora. A rapariga de faces vermelhas que encontrámos há pouco chora. Kerime chora com um jornal na mão, mas eu nada ouço, tudo o que vejo parece desenrolar-se num imenso aquário. Alguém caiu. Outro. As pessoas lançam-se nos braços umas das outras, chorando, vejo-as, mas não ouço qualquer som. Alguém me puxa pelo braço.
Volto-me, é uma velha enrugada, baixinha, vestida de uma peliça, com a cabeça envolta num xaile. Puxa-me pelo braço, diz-me qualquer coisa com a sua boca sem dentes, não percebo. Inclino-me para ela. Pergunta-me com a voz de uma criança de seis anos, com o medo de uma criança de seis anos: “Lénine morreu?” Aceno que sim com a cabeça. “Morreu…” Julgo que vai benzer-se, mas não, largou o meu braço: “Que desgraça para nós…” Repete: “Que desgraça…” Que desgraça! Que desgraça! A voz torna-se mais forte, alarga, alarga, cresce como o génio dos contos que surge da garrafa mágica, depois perde-se subitamente, e então não ouço. No dia do enterro do meu avô ouvi soluçar dez, talvez vinte pessoas ao mesmo tempo; pode-se imaginar cem pessoas soluçando no mesmo instante, mas uma cidade inteira a chorar numa única voz, esse ruído não se pode ouvir mais que alguns minutos. Ou talvez não se ouça, mas o instinto leva-nos a não o ouvir mais para salvar os nossos nervos e a nossa razão, para não enlouquecermos, e não é já essa voz que ouvimos, mas soluços aqui e além.(…)
Levaram Lénine para Kollomi Zal. Dos quatro cantos do país, os comboios trazem pessoas a Moscovo, todos os que querem ver Lénine pela última vez. (…) Nas ruas, nas praças, noite e dia ardem fogueiras gigantescas. Noite e dia, as filas de homens avançam para a Kolloni Zal. As ambulâncias transportam ao hospital os doentes e os enregelados. (…) É Krupskaia quem eu vejo primeiro. Está de pé diante dos montões de flores, os seus cabelos grisalhos, lisos, separados por uma risca, o vestido caindo a direito. Os braços ao lado do corpo. Os seus olhos salientes muito abertos, estão fixados num ponto. Olhei para onde ela olhava, vi Lénine. A sua testa, a sua testa amarela, incrivelmente larga: curva como o universo. Lénine estava deitado de costas, as mãos cruzadas no peito. Vi-lhe a condecoração da bandeira Vermelha.”
Nazim Hikmet, poeta comunista turco.
Foi num 21 de Janeiro. Foi há 100 anos.

A BRUXA


As tetas são balofas almofadas
recheadas de esterco e de patranhas
da boca fogem bichas trituradas
pelo próprio veneno das entranhas.

As pernas são varizes sustentadas
pela putrefacção das bastas banhas
os olhos duas ratas esfomeadas
e as mãos peludas  tal como as aranhas.

Nasce do estrume e vive para o estrume
a língua peçonhenta larga fel
e é uma corda que ela-própria-puxa.

Sai-lhe da boca pus e azedume
tem pústulas espalhadas pela pele
e é filha de si própria. É uma bruxa.

Ary dos Santos

Thursday, January 18, 2024

SONETO PRESENTE


Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.

Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

J. C. Ary dos Santos

Wednesday, January 03, 2024

A fuga de Peniche


 

A fuga da prisão de Peniche foi há 64 anos.
Evadiram-se, para voltarem à luta, os seguintes dirigentes do PCP:
Álvaro Cunhal
Carlos Costa
Francisco Martins Rodrigues
Francisco Miguel
Guilherme da Costa Carvalho
Jaime Serra
Joaquim Gomes
José Carlos
Pedro Soares
Rogério de Carvalho

(desenho de Margarida Tengarrinha, feito sob pormenores fornecidos por AC) 

Sunday, December 31, 2023

POEMA CXIV


Abri a porta e não havia espaço.
Alguém tinha posto ali uma montanha. Não
em frente, mas ali mesmo. A três, quatro metros
iniciava-se uma encosta e só saindo a porta se podia
ver o cume. Quer isto dizer que agora vejo a vida
de outra forma? Que apenas depois de sair de mim
poderei sobreviver ou resgatar-me?
Ou quer dizer que me sinto sem saída e que terei
de transpor uma montanha para atingir a liberdade
que só pode alcançar-se do outro lado? Não sei.
Gostava de chegar a tempo de conhecer a resposta.
Nem poderei dizer "não me interessa" ou "para quê
pensar nisso", ou ainda "tudo não passou de um sonho,
agora acordaste, Joaquim, pára com essa conversa
outra vez."
Se te dói alguma coisa, não pares, continua
porque tudo é doloroso a começar pela dúvida. Tens
expectativas, todos os palermas têm expectativas,
alguma coisa tens de fazer mesmo que nada tenha
resultado nas últimas cinco vezes. Respira, se quiseres
respirar, com a coragem de quem assina um papel
em branco e cuida da tua alma como um enfermeiro
ou um técnico de manutenção.
Eu também sei que não temos de fechar os olhos
e partir, porque nos podemos escolher a nós mesmos,
o que pode ser doloroso mas não é difícil, e temos
de tentar, temos sempre de tentar agarrar a felicidade
porque ela não chega quando nós menos a esperamos,
mas quando nos esforçamos e queremos muito que
ela chegue. Quando não estás pronto, nada resulta.
Até o amor é como um sapo sempre de um lado da noite
para o outro, carregando o que de mais sujo e feio
existe em nós. Procura então com coragem uma forma
de não estares na vida à socapa e ficares a assistir.
O truque está em saber ver a diferença.
Não queiras permanecer no mesmo sítio
a cantar a mesma canção, sem ir a lado algum.
Desse modo nada importará, porque o que realmente
importa já nem sequer te apetece procurar. E se
investires muito nas perguntas e pouco nas respostas,
serás um mendigo que tudo tem e nada possui.
Não dobres a medo o cabo dos trabalhos, porque
a tua memória é líquida mas não se lembra daquela luz
que se esconde na água nem sabe de que lado fica
a nascente dos pássaros que poisam nos sentidos
das coisas que regressam.
Se quiseres falar, eu estou aqui.
No território onde podes contar coisas
em que ninguém acredita e onde eu posso deixar
os meus versos até àqueles que não gostam de poesia.
Não continues especialista em envergonhar-te
perante ti mesmo. Precisas de uma vida nova,
de uma mudança séria que não deixe tudo outra vez
como estava vinte e quatro horas antes.
Como é que isto soa na tua cabeça?
Enquanto fores vivo podes aprender, mas
não exijas perfeição em nada. O que é fabuloso
continuará a sê-lo enquanto pensares que o é. Tudo
está em ti sempre prestes a partir, mas a tua
pequena galinha poderá ser muito maior
e mais gorda que a dos teus vizinhos.
Uma família é um abraço.
Estende o pensamento para os teus.
Para a tua aldeia. Para o teu mundo. És uma criança,
não podes lutar contra outras. Se o fizeres,
não vais querer parar. E a seguir não vais poder
respirar. Continua a ser o teu braço direito e lembra-te
de que há coisas que não podemos deixar de discutir.
E há outras de que nunca queremos saber.
Desejamos firmemente um tratamento especial
mas por vezes a vida dá passos muito grandes,
demasiado grandes para que possamos acreditar,
e o normal nunca será normal se te sentires
anormal.
A culpa é como uma mãe
autêntica, sempre a querer colar-se a nós
e a lembrar-nos o que não deveríamos ter feito,
como se todos os dias fossem véspera de Natal. E
se Jesus ressuscitou, por que não ter, ao menos, expectativas?
Como te disse, todos os palermas têm
expectativas, mas deixa lá, pode até acontecer
que abras a porta e não vejas a montanha ou que,
sequer, isso tenha afinal algum significado.
De qualquer modo,
também gostei de falar contigo.
Joaquim Pessoa
in O POUCO É PARA ONTEM (Litexa, 2008)

Friday, December 29, 2023

lembro-me do futuro

escrevi estes versos para os meus filhos
cujos nomes são desconhecidos
da maior parte
do tempo persiste na memória apenas o passado que se acumula sob as finas camadas do presente
mas sabe os seus nomes quem luta pelo futuro.
e nós, nós habitamos todo o tempo, e somos daquela porção da humanidade cuja memória guarda já o brilho da luz, o cheiro, e a história de amanhã. nós somos aqueles de quem as mãos, na verdade, são asas.
(in convocatória)

Wednesday, December 27, 2023

A Odete Santos não morreu

 

Na tombola que é a distribuição dos serviços diários na Fotografia do Público, fui contemplado com uma entrevista a Odete Santos no ano 2000. Telefonei-lhe e marcámos um encontro.
A grande Odete apareceu com a maior das simplicidades. Falámos de tanta coisa que acabámos por nos encontrar também no dia seguinte. Odete queria ser fotografada junto às mulheres que se iam manifestar no terreiro do paço. Percebi que era ali que se sentia bem. Mulher de combate.
A Odete era genuína. Não era comunista por acidente. Era comunista inteira. Como muito poucos. Era das mais brilhantes deputadas. Não era uma deputada de bancada. Não era mais uma no meio de tantos. Era uma deputada do terreno. Ligada às pessoas. Ligada à justiça social e à liberdade.
Não quis ser fotografada na AR. Quis ser fotografada no palco (não me lembro que sala) e junto ao rio Tejo.
Ali, a grande Odete, a brilhante deputada. A obreira da democracia. A mulher da luta. Todos os dias. Junto ao rio, com as gaivotas a voarem em liberdade.
A Odete Santos não morreu. 

Adriano Miranda

Sunday, December 24, 2023

Natal...

Elas andam a trabalhar numa fona há dois ou três dias, sem o descanso necessário. Primeiro as compras, depois a cozinha. Fazem sonhos rabanadas aletria arroz doce coscorões azevias e só não fazem o bolo rei porque lhes falta o tempo. São os homens a ir buscar o bolo rei que elas encomendaram. Levantaram-se cedo e começaram logo ainda não saíram da cozinha e os homens a perguntar quando é que se almoça. Fazem-lhe um bife (as que podem) rápido e nem se sentam à mesa, porque há que começar a levar para a sala de jantar o serviço de porcelana e os copos que se usam uma ou duas vezes por ano. Tudo do enxoval. Quantos sonhos ficaram pelo caminho. A esta hora já descascaram as batatas, arranjaram a couve, os tachos estão em cima do fogão que será ligado daqui a pouco para cozer o bacalhau. E eles sentados no sofá a verem televisão. Elas põem a mesa com a toalha que usam uma vez por ano, o serviço de porcelana e os copos. Têm de caber quinze. Os três filhos chegarão dentro de pouco tempo com os respectivos parceiros e dois filhos cada um. Vai ser uma festa pois vai mas ninguém pensa que elas estão de pé há mais de dez horas e ainda têm pela frente mais seis ou sete horas de trabalho até poderem ir descansar um pouco sim porque amanhã o almoço é igualmente lá em casa e elas têm de se levantar às sete ou oito para voltarem a por a mesa, repor os doces e acender o fogão onde se irá assar o perú, que elas têm temperado há dois dias. Eles levantam-se mais tarde, chegam à cozinha e pedem o pequeno almoço, depois fumam um cigarro e vão à vida deles. Voltam a aparecer quando são chamados para a mesa. Elas não veem mais nada a não ser os ponteiros do relógio avançarem e os filhos estão quase a chegar e o arroz de passas ainda está por fazer e ela tem ainda de tomar um duche. É tão lindo o Natal quando elas trabalham assim e eles dizem ponham os olhos na vossa mãe, que é uma mulher como deve ser. Felizmente à noite o jantar vai ser o que sobejou do almoço e do jantar da véspera. Despediram-se ao final do dia e elas mal aguentam pensar que amanhã é já daqui a meia dúzia de horas... e que o trabalho as espera.

(Isto é ficcionado. Mas conheço muita gente que se encaixa aqui.)
(Fui interrompida várias vezes enquanto escrevia este texto. Não o li nem vou ler. Sei que me perdi pelo meio, espero que não se note muito.) 😃