Friday, August 21, 2026
Pássaro Azul
Tuesday, August 18, 2026
Discurso de Vasco Gonçalves em Almada, 1975
Atravessa o nosso País uma crise grave, política, económica e social. Crise de autoridade, igualmente. Membro do Directório não exporei o meu ponto sobre o que se passa no seio das nossas Forças Armadas. Não o farei por razões de ética militar, de dignidade e, sobretudo, porque sou membro do Movimento das Forças Armadas e é como tal que aqui estou. Sou membro das Forças Armadas e essa tem sido a maior honra que eu tive na minha vida. Trata-se de uma questão de moral, já que, para mim, moral e política vão de par, não se podem dissociar.
É verdade que, procedendo assim, estou a singularizar-me, a destoar na festa provinciana que leva certos políticos a exibirem publicamente as mazelas para suscitarem simpatias e apoios e a confiarem mesmo aos mais diversos órgãos da informação estrangeiros os seus hipotéticos pavores, os seus medos apocalípticos e, de um modo geral, por mais que os disfarcem em tiradas de fervor democrático, os seus ressentimentozinhos de ambiciosos frustrados.
Enfim, essa gente é como é e eu sou membro do Movimento das Forças Armadas. Não satisfeitos com a total liberdade de que desfrutam no País, tais indivíduos, ao verem que o tempo trabalha contra os seus interesses de politiqueiros ávidos de poder, transformaram-se, sem vergonha, nos principais fornecedores das oficinas reaccionárias que, em Portugal e no estrangeiro, porfiam em lançar o descrédito sobre o nosso empreendimento patriótico, a que deitámos ombros desde o 25 de Abril para que cada português seja livre e feliz.
Ontem houve quem servisse Castela contra a arraia-miúda, hoje há quem deseje colocar as classes laboriosas portuguesas na situação de fogueiros da fornalha da Europa capitalista. Desprovida de sensibilidade popular, essa gente que não tem, sequer, a fibração nacional de escolher melhor os seus confidentes e os seus cúmplices. Fala a torto e a direito, espalha boatos, implora a intervenção estrangeira nos assuntos pátrios e tudo isso, pretendem eles, porque a nossa revolução está em perigo às mãos do "gonçalvismo".
Essa gente é o que é e eu sou membro do Movimento das Forças Armadas. Não respondo, pois, aos seus ataques pessoais. Digo, porém, efectivamente, que a nossa revolução estará em perigo - e de morte - enquanto eles teimarem em dividir as classes laboriosas, em intimidar a pequena e a média burguesias, em dividir o Movimento das Forças Armadas, em destroçar a aliança Povo-MFA e também a fornecer a órgãos de informação adversos ao nosso processo revolucionário, as elucubrações delirantes e malévolas do seu espírito pequeno-burguês.
O socialismo que queremos consiste também na possibilidade de cada cidadão ser um homem de qualidade, de ser um homem de lisura, um homem limpo, um homem íntegro, um homem transparente. Só é livre aquele que respeita e enaltece o que há de grande e de belo e de humano nos outros homens.
É, pois, de lamentar que homens com quem a revolução deveria contar, que tinham o dever de se encontrar lado a lado com os outros revolucionários, civis e militares, não hesitem em estabelecer alianças de facto com os inimigos que ontem combateram, só com o propósito de quererem impedir que as classes trabalhadoras tomem o seu destino nas suas próprias mãos, esquecendo, até, que, em última análise, e por mais mostras de arrependimento que vierem a dar, não se esquivarão, mais dia, menos dia, à sanha dos inimigos do povo português.
Mantendo-me fiel ao princípio de deixar que sejam os outros a cometer as más acções e, também, porque sei que, através da minha pessoa, é o Movimento das Forças Armadas que eles pretendem atingir, não responderei, jamais, aos autores dos insultos de que sou alvo. A cada um a sua moral.
No dia em que se escrever a história destes últimos quinze meses e se trouxer a lume as traças e as manhas de alguns dos seus actores e figurantes, uns cujos nomes andam nas gazetas nacionais e estrangeiras, como paladinos da revolução e da liberdade, outros conspirando nos corredores e nos cantos da sombra, haverá decerto quem fique surpreendido. No entanto, para a grande maioria do nosso povo, a quem não se pode enganar eternamente, a boa-fé, as revelações que se fizerem não serão mais do que a confirmação daquilo que ele já há muito suspeita.
Altos responsáveis chegaram a afirmar que tinham necessidade de recorrer aos órgãos estrangeiros para saber o que se passava em Portugal. Mas, em nítida contradição com estas declarações, esses mesmos responsáveis, talvez por distracção, afirmaram, após curta ausência do nosso País, não possuírem elementos para apreciar a situação, pois não tinham tido acesso aos jornais portugueses durante o tempo que tinham estado no estrangeiro. Tais pequenas distracções passam, porém, despercebidas à maioria menos atenta e o Governo nunca pretendeu polemizar entrando na denúncia directa e constante de todas as contradições e manobras tácticas que a ele são movidas pelos seus detractores.
Há que reconhecer que esse foi um erro do Governo: permanecer quieto e indiferente à calúnia sem sequer defender-se na esperança, um pouco idealista, de que só a verdade é revolucionária. Isso não significa que mudemos, agora, de opinião. Mas achamos que, para além do carácter revolucionário da verdade, não podemos ignorar que a mentira é uma das grandes armas da contra-revolução, sendo o nosso dever combatê-la, incansavelmente. Sabemos como tem sido, ultimamente, explorado esse estratagema, o estratagema do boato, da calúnia, da notícia infundamentada.
Certa Imprensa portuguesa roça hoje quase pela obscenidade, o que faz temer que ela venha a tornar-se perigosamente fascista a muito breve prazo. Os métodos são, pelo menos, muito semelhantes. O argumento sereno provoca o insulto dirigido. À política fundamentada, substitui-se o fantasma ridicularizador. A divina verdade, a intimidação psicológica, técnicas estas, muito do agrado das estratégias que apelam mais para os instintos do que para a razão. Sim, em rigor não podemos dizer que haja liberdade de informação em Portugal, mas o importante a acentuar é que essa falta de liberdade que lamentamos, não é a mesma falta de liberdade que os nossos detractores apontam.
A falsa liberdade que deploramos é um mau uso que se faz das liberdades que conquistámos com o 25 de Abril e que rapidamente se transformaram em permissividade irresponsável e em libertinagem, porque, não devemos esquecer, a liberdade não é, de forma alguma, o direito fácil. Aprende-se, praticando-a, mas é preciso que haja consciência e que ela constitua um longo percurso e que não basta tirar os açaimos para que ela surja em toda a sua inteireza e responsabilidade. Entenda-se que a, liberdade não deverá ser definida em termos apenas negativos, ou seja: como ausência de restrições. A liberdade é isso, mas não é só isso. Se fosse só isso, rapidamente degeneraria em obediência aos impulsos mais imediatos.
A ausência de restrições é uma condição de liberdade, mas, mais do que isso, há que definir a liberdade em termos positivos, e essa definição passa pela responsabilidade. Ora uma liberdade que exija como contrapartida, a responsabilidade, é o que não existe actualmente entre nós. E é essa situação que se procura manter, com a tal táctica, de insistir na acusação de que a informação não é livre. Numa palavra: afirma-se que a Imprensa não é livre para lhe tirar credibilidade e, simultaneamente, para garantir a libertinagem irresponsável dos sectores da informação que, objectivamente, servem o fascismo. A táctica é subtil e tem dado os seus frutos.
Atravessamos, pois, uma crise grave, mas já atravessámos outras. As várias crises por que foi passando o processo revolucionário e que tiveram no 28 de Setembro e no 11 de Março a sua expressão mais aguda, foram acabando com a conjuntura favorável que existia no dia 25 de Abril de 74. Ao longo do tempo as posições foram-se tornando mais claras, os campos de luta mais abertos, as opções mais urgentes e mais difíceis e a revolução encontra-se no momento decisivo quando, depois de se ter definido como socialista pôs claramente a questão central de qualquer revolução socialista: a do acesso progressivo ao poder pelos trabalhadores.
Na verdade, o projecto de ligação Povo-MFA, aprovado pela Assembleia Plenária do Movimento das Forças Armadas, mais não é, do que a aprovação, a legalização do caminho para o acesso progressivo dos trabalhadores ao poder.
A questão coloca-se entre os que são socialistas nos actos e os que são socialistas nas palavras. A questão não é, pois, de oposição entre Vasco Gonçalves e Fulano ou Vasco Gonçalves e Sicrano. Não se trata, pois, de um problema de individualidades. A questão, repito, não é esta. A questão é mais profunda, só se pode pôr no campo da luta de classes, no campo da opção de classe, pondo as coisas claramente.
Há quem pertencendo, originariamente, à burguesia, esteja disposto a pôr em causa, todos os seus privilégios, os privilégios da classe a que pertence, e pôr-se ao serviço das classes trabalhadoras. E há aqueles que, embora reclamando-se do marxismo, das classes trabalhadoras e do socialismo, só o fazem para não perderem os seus privilégios e para salvarem os privilégios da classe e das camadas sociais a que pertencem.
A pequena e certas camadas da média burguesia não devem temer o acesso progressivo dos trabalhadores ao Poder, através da via da transição para o socialismo, no decorrer da qual poderão exercer a sua actividade, e aí serão progressivamente estabelecidas as relações de produção socialista.
No sistema de capitalismo monopolista de Estado em que se viveu, a pequena burguesia era, sistematicamente, expropriada e proletarizada pelo capital monopolista. A sua sobrevivência era uma questão de tempo. Quantos pequenos comerciantes, industriais e agricultores não foram arruinados e forçados a meterem-se ao caminho da emigração.
As perspectivas que se abrem hoje à pequena burguesia e a sectores da média burguesia são outras: a de, por uma via pacífica, ascenderem progressivamente à sociedade sem classes, na qual gozarão exactamente dos mesmos direitos do resto da população.
Na fase intermédia de transição, como aliados da vanguarda constituída pelos trabalhadores e pelo Movimento das Forças Armadas, terão um papel importante a desempenhar na construção da nova sociedade. Assim o queiram compreender.
É perante este panorama que o V Governo Provisório foi formado e entrou em funções. E foi perante um golpe de baixa política, o "documento dos nove", que iniciou a sua acção. Eu devo dizer que chamo a isto um golpe de baixa política porque esse documento foi metido precisamente nas vésperas do novo Governo tomar posse, para se evitar que esse Governo tomasse posse.
Não é que não deva haver liberdade de discussão e de crítica. Com toda essa liberdade, eu sou o primeiro defensor dela. A crítica e a autocrítica devem-se exercer amplamente. Mas, agora, meter documentos com determinadas finalidades quando o País está na crise em que se encontra, isso é que é baixa política.
Referi-me à acção do Governo. A acção que, até agora, se pode pautar exemplar, pois, apesar do mar encapelado em que se tem de mover, trabalha entusiasticamente e cheio de fervor patriótico no sentido de cumprir honradamente a missão em que foi investido por Sua Excelência o Presidente da República.
Eu devo aqui afirmar que vós tendes um Governo feito de patriotas, de grandes lutadores, de autênticos revolucionários, um Governo coeso como nunca tivemos nenhum depois do 25 de Abril. Este Governo é formado por homens de coragem, por homens que não estiveram a perguntar pelos programas, pelas linhas, pelas metas, homens que estiveram prontos a servir a sua Pátria no momento de crise. E desejo aqui salientar em nome de todos, essa pessoa austera que é o professor Teixeira Ribeiro, esse homem insigne que não hesitou em vir para o Governo, precisamente, no momento mais grave que atravessamos depois do 25 de Abril.
Desejo dizer-vos, também, que, neste momento, não temos a oposição dentro do próprio Governo.
É um Governo sem compromissos partidários, o que não quer dizer que os seus homens sejam apolíticos. Não, a política deles é eminentemente nacional e revolucionária. Nunca me senti tão ligado a um Governo como este e sobre este Governo empenho toda a minha honra.
Mas é claro que para a actuação do Governo é necessária a existência de um poder forte e neste momento esse poder e autoridade só as Forças Armadas o podem dar. Sem a satisfação desta condição, o V Governo Provisório não funcionará e também não funcionará qualquer outro Governo - chamem-lhe Provisório ou de Salvação Nacional, tenha como primeiro-ministro quem tiver.
Chegou o momento em que os revolucionários, estejam onde estiverem, têm de assumir as suas responsabilidades perante o povo e as classes trabalhadoras do nosso País.
A onda de agitação e violência que grassa no País tem de acabar!
As autoridades militares têm o dever de honra de actuar firmemente, para que a História mais tarde não venha a considerá-las cúmplices das forças reaccionárias e antipatrióticas.
Só garantindo a ordem se pode salvaguardar a integridade física dos cidadãos, a propriedade individual, os mais elementares direitos que foram restituídos a cada um de nós no 25 de Abril.
Há uma situação muito semelhante entre a implantação do nazismo na Alemanha e a que se vive agora em Portugal. Na Alemanha era o anti-semitismo que explorava os mais baixos sentimentos do povo. Aqui, é o anticomunismo que durante decénios foi a arma de agitação de que se serviram os fascistas para manter o povo no obscurantismo e na ignorância.
Não tenhamos ilusões de que, se voltar o fascismo, este será ainda mais feroz (é ver o caso do Chile) do que antes do 25 de Abril. Teremos mais ferozes do que antes a PIDE, a Censura, a exploração das classes laboriosas e dos pequenos comerciantes, industriais e agricultores; perderemos a reforma agrária, as nacionalizações, o direito à greve, o direito de livre associação e reunião, o direito à formação de partidos políticos, o direito à liberdade de expressão e pensamento, etc. Numa palavra, os mais elementares direitos dos cidadãos.
Sim, Portugal vive de novo o perigo do fascismo. A onda de agitação que tem coberto largas zonas do País tem grandes semelhanças com as situações pré-fascistas que se têm vivido na Europa.
É necessário que todos os portugueses democratas, progressistas e patriotas tenham bem consciência dos perigos que atravessamos, e que se unam! Que se unam na defesa das conquistas alcançadas depois do 25 de Abril.
À frente de todos, os trabalhadores - operários, camponeses, pescadores-, na vanguarda do processo de democratização do País e de transição para o socialismo.
A paralisação do trabalho das 11 às 11 e 30 proposta pela Inter-sindical para amanhã é uma acção que eu considero justa de defesa do nosso povo contra o perigo fascista.
(fala de improviso)
Sempre tenho combatido o anticlericalismo. O sr. cardeal-patriarca de Lisboa sabe-o bem pelas conversas que tem tido comigo. Reconhecemos que temos cometido alguns erros em certas campanhas de dinamização cultural, por exemplo, e a decisão de não entregar a Rádio Renascença ao Patriarcado foi, quanto a mim, um erro grave.
Contudo os erros que cometemos não justificam de modo nenhum a campanha que determinados membros da Igreja, e dos mais eminentes, têm ultimamente desenvolvido.
Nós pensamos que a Igreja pela sua missão evangélica deve ser uma aliada da Revolução democrática e socialista portuguesa, que só pretende acabar com a exploração do homem pelo homem. Ora isto é um objectivo evangélico. Como ficarmos calados perante a acção temporal profundamente reaccionária de alguns párocos de aldeia que, dos púlpitos ou em gazetas paroquiais, semeiam o ódio em vez do amor ao próximo.
Quando foi da formação do V Governo Provisório, procurei que dois padres fizessem parte do mesmo. Esses padres aceitaram sem qualquer hesitação, o que revela o seu espírito patriótico e o elevado conceito em que têm a sua acção social - de acordo, aliás, com o Concílio Vaticano II e o espírito da Igreja moderna. Porém, a hierarquia considerou que tal não devia acontecer, e eu, com grande mágoa, abandonei a ideia, a fim de não criar qualquer problema entre o Estado e a Igreja. Contudo, do V Governo, fazem parte católicos progressistas.
Exorto daqui os católicos progressistas, amigos da sua Pátria e do seu povo, que participem activamente na obra de reconstrução nacional a que deitámos ombros. O País que queremos é um País para todos os portugueses, tanto para os crentes como para os ateus. É para todos!
Neste preciso momento em que vivemos os maiores ataques até hoje desencadeados pela reacção, temos de receber na nossa Pátria milhares e milhares de portugueses, retornados de Angola. Não se atribua ao 25 de Abril esta difícil situação, mas antes às condições específicas em que aquele território tem sido descolonizado, entre as quais avulta o desejo do MFA de que Angola ascenda à independência livre do neocolonialismo.
É necessário que haja um amplo movimento de solidariedade nacional encabeçado pelos sindicatos e forças políticas e cívicas progressistas no sentido de absorver esses milhares de compatriotas que se prevê que retornem. O patriotismo e a solidariedade devem dar-se os braços com estes homens e mulheres que na sua maioria também foram vítimas do fascismo.
É necessário que para a defesa da Revolução portuguesa que esses nossos compatriotas sejam integrados na nossa sociedade de pleno direito como irmãos e que não sejam olhados como antigos exploradores de pretos. É verdade que alguns o eram, mas o traço dominante desses portugueses é o de seres humanos que perderam a maior parte dos seus haveres e do produto do seu trabalho.
Paira, por assim dizer, uma epidemia em Portugal: é a dos planos. Essa planite aguda, essa mania dos planos que desacredita a verdadeira planificação, faz parte - não nos enganemos - da ideologia pequeno-burguesa que substitui o acto pelo verbo afiambrado com o fim de impedir a caminhada do povo para o futuro.
Isto não significa que não deva haver planos; não se pode caminhar na via de transição para o socialismo sem um plano que, basicamente, caracterize a mudança das relações de produção, ao mesmo tempo que o desenvolvimento económico e social. De resto, quando foi aberta a crise do IV Governo, esse plano estava justamente a ser estudado, tendo o seu calendário de elaboração sido aprovado por esse mesmo IV Governo...
As alterações estruturais da nossa economia ou seja alterações nas relações de produção e a progressão da intervenção do Estado, a necessidade de estabilizar a economia, de evitar a sua estagnação e recuo em face da quebra da iniciativa privada e da deliberada sabotagem por parte do capital monopolista e latifundiário mas, por outro, o movimento das massas trabalhadoras no sentido de se libertarem da exploração capitalista. Assim o tão falado ritmo do avanço do processo revolucionário no sector económico é marcado pela própria reacção contra o processo e pela tomada de consciência política dos trabalhadores.
O desenvolvimento da intervenção do Estado na economia surge como uma necessidade histórica para a solução dos problemas económicos nacionais; a eliminação dos monopólios e latifúndios, as sucessivas nacionalizações e o início da Reforma Agrária, que abrem o caminho à fase de transição para o socialismo, aparecem como um imperativo nacional, como o único meio para estabilizar e permitir o desenvolvimento da economia e libertar os trabalhadores das relações de produção a que estavam submetidos.
Compreende-se a perturbação existente entre os pequenos e médios comerciantes, agricultores e industriais, em face das opiniões divergentes sobre o futuro da iniciativa privada, formuladas por várias correntes de opinião a que os meios de comunicação social oferecem por vezes relevo desproporcionado com a importância dessas correntes.
Os governos anteriores e o V Governo Provisório nunca deixaram, porém, de afirmar a importância de manter e de fomentar a iniciativa privada, cujo campo de actuação e estruturas estatais de orientação e coordenação serão claramente estabelecidas pelo Governo.
Isto passou-se devido ao facto de nestes partidos se encontrarem os indivíduos militantes mais aptos mais activos para ocuparem naquele momento aqueles lugares e ser necessário substituir rapidamente as direcções fascistas.
Poderá dizer-se que nos lugares de dirigentes deixados vagos pelo saneamento e nos lugares novos que foram criados, foram colocados só individualidades dos partidos referidos? Bastará olharmos para a composição desses quadros dirigentes nos diversos ministérios para verificarmos que neles se encontram individualidades das mais diversas tendências políticas. O mesmo se passa nos quadros dirigentes das empresas públicas e nacionalizadas.
Tudo tem sido dito, tudo está a ser feito para travar e deter o nosso processo de marcha em frente por um Portugal mais próspero e mais feliz, por uma Pátria mãe de todos os portugueses e mais extremosa com aqueles que a constroem dia a dia com o suor do seu trabalho, os camponeses, os operários, os pescadores, os pequenos e médios industriais, comerciantes e agricultores.
A este processo chamamos nós "Processo Revolucionário de transição para o Socialismo", porque na realidade se trata de revolucionar um modo de vida baseado na exploração de todos os produtores; porque se trata de pôr fim ao despotismo de meia dúzia de ricaços - para que os milhões de trabalhadores sejam enfim prósperos, livres e felizes; porque se trata de criar condições de vida para que mais nenhum português se veja obrigado a expatriar-se a fim de ganhar o sustento dos seus.
Só o Socialismo, criando novos postos de trabalho, aumentando a riqueza nacional, libertando cada um de nós da exploração alheia, fará com que nunca mais um português abandone mulher e filhos para ir vender a sua força de trabalho longe da terra natal.
Por isso e aproveitando a presença na nossa Pátria de milhares de compatriotas que vieram passar um mês de merecidas férias, quero afirmar solenemente (e mais uma vez) que os seus bens, o produto do seu trabalho são sagrados! Exortá-los também a repudiar, tanto em Portugal como nos países onde ganham a vida, os que tentam semear a divisão entre os emigrantes, os que tentam separar os emigrantes da sua mãe Pátria.
A Revolução - a nossa Revolução - é do Povo Português.
O tempo do paternalismo, dos mandões, dos senhores da revolução, dos donos do País, acabou!
Por isso o Povo tem o direito de exigir que o MFA - seu braço armado - defenda a Revolução, sob pena de deixar de ser o MFA.
Viva a unidade no seio das Forças Armadas!
Viva a unidade entre os partidos progressistas!
Viva a unidade de todos os trabalhadores!
Viva a aliança Povo-MFA!
Viva a nossa Pátria! (1)
(1) Discurso de Vasco Gonçalves em Almada, 18 de agosto de 1975
Sunday, August 16, 2026
Poema a Ramiro Correia

Thursday, August 06, 2026
Hiroxima
Nos limites da razão
onde os homens produzem monstros
todos nos sentimos escombros
do maior terrorismo da História
humana.
Nasceu a manhã mais cruel da mais
inocente madrugada
a manhã mais negra do que a noite
do absurdo.
O inferno rasgou o sol e a lua
os rostos e os braços
arrancou as árvores
secou os rios e as fontes
enchendo a cidade de sangue e
corpos em pedaços.
Um mar de gente ... no corpo nu da
solidão
gente só... no ventre da multidão
olhos vidrados de lágrimas e pânico
correndo... fugindo...
para onde... para o nada...
para o abismo da escuridão
sobre restos de sonhos e pedaços de
vida
espalhados pelo chão
onde a dor fincou as garras
abafando os gritos em catedrais de
cinzas.
O fim de tudo entrou pelas portas e
janelas
e comeu tudo...
comeu as casas que caíram
as mãos que deixaram de brincar
comeu os olhos que deixaram de
olhar
e as bocas que deixaram de respirar.
Tudo era dentro e tudo era fora
na amplidão do desespero
não havia mães nem filhos nas
entranhas da aflição
não havia rumo nem caminho
no deserto infindo da maldição.
Tudo se fez pó
não ficou pedra sobre pedra
e nem pedras havia no chão
já o chão não era chão
mas o fundo abismo de uma cratera
onde tudo era estendal de morte
sem porta de entrada sem porta de
saída
sem tempo sem norte sem vida
sem ruas sem movimento
sem fímbria de céu ou de mar.
O nada entrou no coração
que deixou de bater no peito de
muitos mil
ao peso de cinquenta quilos de
urânio
e toneladas de glória americana
erguendo até ao cume da barbárie
a bandeira mais cruel da natureza
humana.
Uma fria luz de prata atravessou o
mundo
perfurou a mente e as ideias
em seco lamento de gemido sem
remédio
como latido de cão atirado ao vento.
E o mundo dormiu suavemente...
e ainda hoje não acordou.
Entre milhares de bombas e
estrondosos hinos
o mundo de olhos cegos e ouvidos
moucos
ainda dorme...
nada mais ouvindo que o silêncio dos
assassinos.
Adão Cruz
Thursday, July 30, 2026
Entre nós
Derramado nas searas
De um pais cansado e exangue
E o vermelho da esperança
De um povo a levantar-se
E entra na roda da dança
Entre nós a alegria
De um sorriso de criança
Do nascer de um novo dia
Da ternura de um abraço
Do cio fecundo da terra
Desabrochando sem cansaço
Entre nós sempre a certeza
De termos o futuro na mão
De o agarrarmos sem pressa
Ao som da tua canção
Tocada na mais linda guitarra
Que tens rente ao coração.
Maria Morgado
Sunday, July 12, 2026
Nos 122 anos de Pablo Neruda

Tuesday, July 07, 2026
Centenário do Padre José da Felicidade Alves
Sessão Pública nas Caldas da Rainha
Foi assinalado a semana passada o centenário de José da Felicidade Alves, notável figura de padre católico e resistente antifascista, nascido em 1925 em Salir de Matos, freguesia rural do concelho das Caldas da Rainha.
A Sessão Pública naquela cidade contou com a presença de mais de três dezenas de pessoas, designadamente camaradas do seu partido, o PCP, em que militou até à sua morte em 1998, e outros democratas, alguns deles crentes de religiões diversas.
A Sessão teve como enquadramento uma intervenção de Edgar Silva, que na Universidade Católica acompanha a acção e história dos “católicos de vanguarda”, nas suas múltiplas estruturas e linhas de orientação, na luta contra a ditadura e na crise do fascismo, que foram tratadas designadamente na sua tese de doutoramento «“Vendaval de Utopias” Os Católicos da Revolução e o PCP», que deu origem a um ensaio do autor, que foi também apresentado nesta iniciativa.
A Sessão Pública foi animada por diversas intervenções que documentaram e problematizaram a figura de José da Felicidade Alves, o seu contexto e a época histórica que viveu, o seu contributo na vida da Igreja e na luta que conduziu ao 25 de Abril e a sua projecção no presente e no futuro do País.
José da Felicidade Alves foi padre e professor nos seminários dos Olivais e Almada e Pároco dos Jerónimos, em Belém, Lisboa, escolhido pelo então Cardeal Cerejeira, de que era próximo, para aquela importante paróquia - onde avultavam o Presidente Américo Tomás e vários ministros da ditadura.
De “homem do regime”, a partir de 1961, o Padre Felicidade faz um percurso de tomada de consciência e denúncia da guerra colonial, as suas intervenções são a causa de conflitos crescentes com o fascismo, ao mesmo tempo que se aproxima das posições do Concílio Vaticano II, incluindo nas missas na sua Igreja. As pressões e o cerco conservador e fascista apertam-se. A PIDE faz escutas e relatórios e propõe-se prendê-lo, o que só veio a concretizar em 1970, por um período curto, foi depois julgado e absolvido em 1973.
José da Felicidade Alves intervém na Igreja e na sociedade, denuncia a “guerra colonial, a PIDE, a censura” e pede para o País uma “revolução político-social”. Defende para a Igreja católica um “movimento revolucionário” “gerado pela acção de Deus, através dos profetas e de Jesus”. A partir de 1965 vai-se consumando a rutura entre o Cardeal Cerejeira e o Pároco de Belém, que vem a culminar com a suspensão a divinis da sua paróquia em 1968 e a excomunhão em 1970, por decisão do cardeal Cerejeira.
José da Felicidade Alves prossegue um rumo de intervenção crescente, aproxima-se do MDP-CDE e do PCP, intervém nas frentes da luta pela democracia, pela libertação dos presos políticos e na luta pela Paz, no País e internacionalmente, em Bruxelas e Moscovo, onde esteve em 1970, em defesa da Paz e do desarmamento. Em 1968 encontra-se com Álvaro Cunhal em Paris, que lhe disse no final dessa conversa “mantenha-se sempre fiel ao Senhor Jesus”. De volta a Portugal, participa na organização dos católicos progressistas, designadamente com os cadernos GEDOC, de que são publicados onze números sem autorização do regime, em 1969-1970, com Teotónio Pereira, Pereira de Moura, Sophia de Mello Breyner e outros, tratando temas do Vaticano II e da luta contra a guerra, até à sua apreensão e proibição pela PIDE.
Nas eleições legislativas fabricadas pelo regime em 1973, Felicidade Alves foi um proeminente opositor ao “Estado Novo” como candidato e dirigente do Movimento Democrático Português (MDP/CDE), esteve fortemente envolvido na “campanha eleitoral” da oposição democrática, sendo uma voz destacada em comícios e congressos. Após o 25 de Abril, continuou a intervir na vida política pelo MDP/CDE.
Nessa fase da sua vida José da Felicidade Alves, sempre discreto e coerente, foi um importantíssimo estudioso da história de Lisboa e dedicou grande parte da sua vida à investigação histórica, artística e patrimonial da capital portuguesa. O seu valioso contributo como olisipógrafo e historiador de arte foi amplamente reconhecido, tendo sido eleito Académico Correspondente da Academia Nacional de Belas-Artes em 1994.
Felicidade Alves com contactos com o PCP desde a década de 1960, aderiu formalmente ao Partido após o 25 de Abril, na década de 1970, e daí em diante, com uma militância recatada mas firme, manteve-se no Partido até à sua morte, em Dezembro de 1998. No seu funeral, por sua exigência, a urna foi coberta com a bandeira do PCP.
Uns meses antes, em Junho de 1998, José da Felicidade Alves conseguiu concretizar o seu casamento católico com a sua esposa desde 1970, Maria Elisete Alves, hoje com 102 anos - que alegou a idade para não participar nesta Sessão Pública - foi o Cardeal D. José Policarpo, que presidiu à cerimónia de casamento e gravou então, em letras de ouro, a homenagem à história de vida, coragem, coerência e luta deste homem extraordinário - “ vendaval de utopias”.
José da Felicidade Alves foi um católico da revolução, empenhado num projecto progressiva e de transformação a longo prazo, coerente, “isento de cobardia ou oportunismo” que lutou até ao fim pelos valores do humanismo, da liberdade e solidariedade. Foi agraciado pelo Estado com a Comenda da Ordem da Liberdade e pela Câmara de Lisboa com o Prémio Júlio Castilho de Olisipografia, há pequenas ruas com o seu nome em Campolide em Lisboa, na Cruz Quebrada em Oeiras e em S. Brás na Amadora, um curto reconhecimento público para a sua extraordinária importância e coerência, e que importaria alargar como ficou dito pelos participantes desta justíssima e muito significativa Sessão Pública nas Caldas da Rainha.
6 de julho de 2026











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