É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.
É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.
(Natália Correia – voz de Afonso Dias)
José Afonso, de nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos,
nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, filho de José Nepomuceno Afonso
dos Santos, magistrado, e de Maria das Dores Dantas Cerqueira,
professora primária. Em 1930 os pais vão para Novo Redondo (actual
Sumbe), Angola, onde o pai havia sido colocado como Delegado do
Ministério Público. Por razões de saúde, José Afonso permanece em
Aveiro, na casa do Largo das Cinco Bicas, confiado à tia Gigé e ao tio
Chico, um "republicano anticlerical e anti-sidonista". Por insistência
da mãe, em 1932, e já com três anos e meio de idade, segue para Angola,
no vapor Mouzinho, acompanhado por um tio advogado que ia em lua-de-mel,
e que o deixa ao abandono vindo a agarrar-se a um sacerdote, a única
pessoa que lhe presta atenção. Permanece três anos na antiga colónia
portuguesa, e aí inicia a instrução primária. José Afonso diz que esta
permanência em África deixou uma marca profunda na sua vida: «a África
era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim,
contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram
as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em
barcaças, etc., etc. (...) A África como entidade física é uma coisa que
pesou muito na minha vida e nas minhas recordações». Em 1936 regressa a
Aveiro, passando a viver na casa de uma tia materna. No ano seguinte,
com 8 anos de idade, vai de novo ao encontro dos pais e dos irmãos,
agora em Moçambique, mais concretamente na cidade de Lourenço Marques
(actual Maputo). Os irmãos serão uma presença forte na vida de José
Afonso: João, mais velho, é uma figura próxima da estrutura do clã, que o
apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida;
Mariazinha, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas
cartas que lhe escreve. Regressa a Portugal, passados dois anos, desta
vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de
Belmonte. É nesta vila da Beira Baixa que Zeca conclui a quarta classe e
prepara o exame de admissão ao liceu. O tio, salazarista convicto e
comandante da Legião Portuguesa, fá-lo envergar a farda da Mocidade
Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca
mais tarde. Não obstante, é neste período que José Afonso toma contacto
com as canções tradicionais que virão a ter uma grande importância na
sua obra.Em 1940, com 11 anos de idade, vai para Coimbra para prosseguir
os estudos ficando instalado em casa da tia Avrilete. É matriculado no
Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e aí conhece
António Portugal e Luiz Goes, ambos mais novos do que ele. A família
deixa Moçambique e parte para Timor, onde o pai vai exercer as funções
de juiz. A irmã Mariazinha vai com os pais, enquanto seu irmão João vem
para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, no âmbito da
Segunda Guerra Mundial, José Afonso fica sem notícias dos pais durante
três anos, até ao final da guerra, em 1945.Nesse mesmo ano (andava no
6.º ano do liceu) começa a cantar serenatas, o que lhe dá não só
estatuto mas também privilégios praxistas. José Afonso, a quem chamavam
"bicho-cantor" ("bicho" era a designação praxística para os estudantes
liceais), gozava, por exemplo, do privilégio de não ser "rapado" pelas
trupes que, depois do pôr-do-sol, saíam para as ruas da cidade à procura
de "bichos" e caloiros. Em acumulação, Zeca beneficiava também desse
tratamento especial, por jogar futebol nos juniores da Académica. O
cantor recorda essa fase da sua vida: «As minhas primeiras veleidades de
cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as
em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia-dúzia de
meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma
guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do
hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões
atentas e respeitosas.» (Autobiografia, 1967)
Em 1948, após dois chumbos, completa o curso dos liceus. Conhece Maria
Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a
casar em segredo, por oposição dos pais, e para grande escândalo das
tias. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica. Em 1949
inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de
Letras. Viaja até Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão
Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o
primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e trabalha como revisor no
Diário de Coimbra. A condição de estudante e de trabalhador fá-lo tomar
consciência dos problemas sociais que o marcariam de forma decisiva:
«Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa
economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões
dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de
fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os
estudantes regressavam. (...) Lembro-me do estatuto de estudante que
era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da
situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as
desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão
poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina,
um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à
medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com
os meus dois filhos no Beco da Carqueja». Em 1953 são editados os seus
primeiros trabalhos discográficos – dois discos de 78 rotações com fados
de Coimbra, com chancela da Alvorada, gravados na delegação regional de
Coimbra da Emissora Nacional, no ano anterior. Cada disco inclui dois
fados, sendo "Fado das Águias", com letra e música de José Afonso, a sua
primeira composição gravada.Também em 1953, é mobilizado para o serviço
militar obrigatório sendo colocado em Mafra. E desde logo o jovem José
Afonso revela a sua postura antimilitarista, em carta dirigida ao pai:
«A espingarda que me foi confiada e que tenho de tratar como se tratam
os cavalos de corrida é, para mim, um mistério intrincado, com culatra,
cursores, percutores, cavilhas de segurança e o diabo a sete. E isto que
tanto repugna à minha natureza pacífica e contemplativa!» Depois da
recruta recebe guia de marcha para Macau, mas não chega a ser mobilizado
por motivos de saúde, vindo a ser colocado num quartel de Coimbra. Da
sua vida militar, recordará: «Eu fui o menos classificado de todo o
curso por falta de aprumo militar». No ano lectivo 1955/56, e para
assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o
curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde. Inicia-se o
processo de separação e posterior divórcio de Amália (formalizado a 1 de
Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor
desta sua experiência conjugal.Em 1956 é editado, pela Alvorada, o seu
primeiro EP intitulado "Fados de Coimbra", em que tem como
acompanhadores António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel
Pepe e Levy Baptista (violas). José Afonso canta "Incerteza" (Tavares de
Melo), "Mar Largo" (Paulo de Sá), "Aquela Moça da Aldeia" (António
Menano) e "Balada" (Popular açoriana/José Afonso).
Em 1956/57 é professor em Aljustrel, seguindo-se nos anos subsequentes
Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro. José Afonso fala assim da sua
experiência enquanto docente: «A minha acção como professor era mais de
carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar
como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que
exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Por
dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos (José Manuel e
Helena) para Moçambique, para junto dos avós. Nesse ano fica
impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Durante um
mês integra a digressão da Tuna Académica em Angola, mas não canta
apenas fados de Coimbra. «O Zeca era um dos vocalistas do Conjunto
Ligeiro da Tuna e cantava canções como "Adeus Mouraria", o seu maior
sucesso, acompanhado ao piano, baixo, bateria, acordeão e guitarra
eléctrica. Actuávamos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma
de sua cor, imitando a orquestra de mambos de Perez Prado, o máximo da
altura. Acabada esta cena de 'show-biz', vestíamos rapidamente a capa e
batina e íamos para a serenata, mutantes do sol para a lua» conta José
Niza. Na viagem de regresso, no Paquete Pátria, convive com a poetisa
Natália Correia, que mais tarde lhe dedicará um poema (transcrito em
epígrafe). «Sob o luar quente dos trópicos, íamos à noite para a ré do
navio, com violas, vinho e poesia: o Zeca cantava; e a Natália – cabelos
ao vento, deusa grega, nessa altura e sem exagero, uma das mulheres
mais belas do planeta – dizia poemas», recorda José Niza.Em 1959 começa a
frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares.
Em 1960, e depois de quatro anos sem gravar, lança o EP "Balada do
Outono", com chancela da Rapsódia, tendo sido acompanhado pelas
guitarras de António Portugal e Eduardo Melo e as violas de Manuel Pepe e
Paulo Alão. Além da balada que dá título ao disco, com letra e música
de José Afonso, o EP inclui os temas populares "Vira de Coimbra" e "Amor
de Estudante" e ainda um instrumental, "Morena".
O disco inaugura o movimento da balada coimbrã e é um marco na História
da música portuguesa. A propósito da "Balada do Outono" (Águas das
fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar) escreve
Manuel Alegre: «A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música
ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo
muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de
amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de
mudança». Faz nova digressão a Angola, com o Orfeão Académico, durante a
qual toma verdadeira consciência da realidade colonial. José Niza
recorda: «Fomos encontrar uma Angola diferente. Tinha-se dado a
independência do Congo Belga e todo o território estava cheio de
retornados belgas. A PIDE tinha-se instalado em Luanda e noutras
cidades. E sentiam-se no ar, nas entrelinhas das conversas, nos olhares,
os sinais de que alguma coisa iria acontecer». No ano seguinte
rebentava a Guerra Colonial.José Afonso segue atentamente a crise
estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, António
Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural
da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois
filhos, Joana e Pedro. É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da
Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os
tons maiores. Passei a fazer canções maiores». Para o álbum colectivo
"Coimbra Orfeon of Portugal", editado pela Monitor (dos Estados Unidos),
José Afonso grava dois temas – "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" – em que
rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas
baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval
Moreirinhas.
Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de
fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José
Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta
Esmeralda Amoedo. Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras
de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: "Implicações
Substancialistas na Filosofia Sartriana". Em 1962 e 1963 são editados
dois EP intitulados "Baladas de Coimbra", com Rui Pato à viola, dos
quais fazem parte as belíssimas "Menino d'Oiro", "No Lago do Breu",
"Canção do Vai... e Vem" e "Menino do Bairro Negro", esta última
inspirada nos meios sociais miseráveis do Bairro do Barredo, no Porto. A
balada "Os Vampiros", incluída no EP de 1963, tornar-se-á, juntamente
com a "Trova do Vento que Passa" (gravada no mesmo ano por Adriano
Correia de Oliveira), um dos símbolos maiores da resistência
antifascista até ao advento da liberdade. Em Maio de 1964, José Afonso
actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se
inspira para fazer a canção "Grândola, Vila Morena", que viria a ser no
dia 25 de Abril de 1974 a segunda senha do Movimento das Forças Armadas
(MFA) para o arranque da operação militar que derrubaria o regime
ditatorial. É editado o EP "Cantares de José Afonso", o único para a
Valentim de Carvalho, que inclui "Coro dos Caídos", "Canção do Mar",
"Maria" (dedicada a Zélia) e "Ó Vila de Olhão", sempre com Rui Pato à
viola. A acutilância da letra de "Ó Vila de Olhão" faz com que o disco
seja proibido pela Censura. Na reedição desse EP, a faixa em causa é
substituída por uma versão instrumental executada pelo Conjunto de
Guitarras de Jorge Fontes. As três primeiras baladas viriam a ser também
incluídas numa compilação colectiva com Carlos Paredes e Luiz Goes
(editada em 1973 e reeditada em CD pela EMI-VC, em 1992). A Discoteca
Santo António, através da etiqueta Ofir, publica o LP "Baladas e
Canções", gravado nos Estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia (reeditado em
CD pela EMI-VC em 1997). É o primeiro álbum a sério de José Afonso, com
12 temas, entre os quais "Canção Longe", "Os Bravos", "Balada Aleixo",
"Balada do Outono" (em versão instrumental), "Na Fonte Está Lianor" (com
poema de Luís de Camões), "Minha Mãe", "Altos Castelos", "O Pastor de
Bensafrim" e "A Ronda dos Paisanos". No final do Verão de 1964, muda-se
com Zélia para Lourenço Marques, onde reencontra os seus filhos e os
pais. Durante dois anos dá aulas na cidade da Beira. Em Moçambique
desenvolve intensa actividade anticolonialista e relaciona-se, entre
outros, com os pintores Malangatana e António Quadros (poeta João Pedro
Grabato Dias), vindo este a contribuir com algumas letras para o
repertório do cantor. Aí compõe a música para a peça de Bertolt Brecht
"A Excepção e a Regra", traduzida e encenada por Luiz Francisco Rebello,
cujas canções virá posteriormente a gravar. Em 1966, é publicado pela
Nova Realidade, de Tomar, o livro "José Afonso: Cantares", organizado
por Manuel Simões, reunindo as letras das baladas de José Afonso, com
notas do próprio autor sobre a génese de cada uma delas. Em 1967,
esgotado pelo sistema colonial, regressa a Lisboa, deixando o filho mais
velho, José Manuel, confiado aos avós. José Afonso recorda assim a sua
última fase africana: «Se houve alguma coisa em África que me marcou
definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado
para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia
como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser
um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. [...]
Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África,
aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande
que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois
passos do oprimido». É colocado como professor em Setúbal, e a par das
funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades
da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com
relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal.
Entretanto, sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante
20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a
notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial. O PCP convida-o a
aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de
classe. «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos
ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na
Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um
lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os
Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram
necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do
poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgiria após o
derrube do poder, não sabia.» Mais uma vez confrontado com necessidades
de subsistência, é obrigado a dar explicações e a encarar mais
seriamente a carreira musical, designadamente através da gravação de
discos. Cientes da situação, Rui Pato e António Portugal contactam
várias editoras, incluindo aquelas para as quais Zeca já gravara antes,
mas todas lhes fecham as portas, com medo da PIDE. Então, em desespero
de causa, vão ao Porto falar com Arnaldo Trindade, da etiqueta Orfeu,
para a qual Adriano Correia de Oliveira, já gravava há anos. A proposta
era nem mais nem menos que a gravação de "Cantares do Andarilho".
Arnaldo Trindade aceita a ideia, assume os riscos e propõe um contrato
sui generis: José Afonso comprometia-se a gravar um álbum por ano e em
troca passaria a receber, mensalmente, 15 mil escudos (uma quantia nada
desprezível, na altura). E foi através deste vínculo à Orfeu, para a
qual gravou mais de 70 por cento da sua obra, que Zeca alcançou a
estabilidade económica que nunca tivera, e de que tanto precisava em
face dos seus encargos familiares. No Natal de 1968, é lançado o
sugestivamente intitulado "Cantares do Andarilho", com Rui Pato à viola,
sem dúvida alguma, um dos melhores álbuns da sua discografia. Deste
disco fazem parte, entre outros, temas como "Natal dos Simples", "Balada
do Sino", "Canção de Embalar", "Endechas a Bárbara Escrava (com poema
de Luís de Camões), "Chamaram-me Cigano" e "Vejam Bem". Em 1969, a
Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento
sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como
nas acções dos estudantes em Coimbra. Em 1969, participa no 1.º Encontro
da "Chanson Portugaise de Combat", em Paris. Publica o álbum "Contos
Velhos, Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes" que contém a
canção popular "Canta Camarada". Em "Contos Velhos, Rumos Novos", e
fazendo jus ao título, José Afonso continua e aprofunda a exploração do
repertório da tradição popular ("Oh! Que Calma Vai Caindo", "S. Macaio",
"Deus Te Salve, Rosa", "Lá Vai Jeremias"), ao mesmo tempo que põe em
música uma plêiade de escritores eruditos: Airas Nunes ("Bailia"),
Fernando Miguel Bernardes ("Qualquer Dia"), Lope de Vega ("No Vale de
Fuenteovejuna"), Luís Andrade Pignatelli ("Era de Noite e Levaram") e
Ary dos Santos ("A Cidade"). Além de Rui Pato (viola, marimbas,
harmónica), o álbum tem as participações de Sousa Colaço (2.ª viola),
José Fortunato (cavaquinho), Adácio Pestana (trompa) e Teresa Paula
Brito (voz). Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros
instrumentos que não a viola ou a guitarra. O cantor recebe o prémio da
Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e
1971.Em 1970 é editado o LP "Traz Outro Amigo Também", gravado em
Londres, nos estúdios da Pye Records, o primeiro sem Rui Pato, impedido
pela PIDE de viajar, por causa do seu envolvimento na crise académica de
1969. Será substituído por Carlos Correia (Bóris), antigo músico de
rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi. No acompanhamento,
participa também Filipe Colaço, na 2.ª viola. Além do tema-título, o
alinhamento inclui temas como "Maria Faia", "Canto Moço", "Epígrafe para
a Arte de Furtar" (com poema de Jorge de Sena), "Moda do Entrudo",
"Canção do Desterro" e "Verdes São os Campos" (com poema de Luís de
Camões). Num texto apenso ao álbum, o dramaturgo Bernardo Santareno
escreve: «A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima,
portuguesa sem mácula. Realmente é a "pureza" a nota maior desta arte:
pureza de voz, pureza de poema, pureza de música. Neste disco, um dos
mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: trova antiga
purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a
justiça vai de bandeira. [...] Ele [José Afonso] é hoje o mais autêntico
trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém
melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações
de amor, de paz, de justiça, de verdade.»
Na capital britânica, José Afonso conhece os brasileiros Gilberto Gil e
Caetano Veloso, que aí se encontravam exilados por motivos políticos. Em
Março de 1970, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso, por
unanimidade, o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra
artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce
em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa».
Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular. No Natal
de 1971, é lançado o LP "Cantigas do Maio", gravado em Herouville
(perto de Paris), no Strawberry Studio, um dos mais caros e afamados da
Europa. Com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, o álbum
conta com a participação de Carlos Correia (Bóris) (viola, coros e
passos), Michel Delaporte (darbuka, bongo berbere, tumbas, tamborim
brasileiro e adufe), Christian Padovan (baixo eléctrico), Tony Branis
(trompete), Jacques Granier (flauta), Francisco Fanhais (coros, passos,
apitos de fole e guimbarda (tipo de berimbau)) e José Mário Branco
(coros, passos, acordeão, órgão Hammond, piano Ferder). Além de
"Grândola, Vila Morena", o disco inclui temas tão emblemáticos como
"Cantigas do Maio", "Cantar Alentejano" (em homenagem a Catarina
Eufémia, assassinada pela GNR), "Maio, Maduro Maio" e "Mulher da Erva". É
geralmente considerado o melhor álbum de José Afonso e representa o
momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais
enriquecidas e elaboradas. A editora Nova Realidade publica o livro
"Cantar de Novo". No final de 1972, sai o LP "Eu Vou Ser Como a
Toupeira", gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, sob a direcção
musical de José Niza e com a participação de Carlos Alberto Moniz, Maria
do Amparo, José Jorge Letria, Teresa Silva Carvalho, Benedicto, um
cantor galego amigo de Zeca, e do grupo Aguaviva, de Manolo Diaz. Deste
álbum fazem parte, entre outros, os temas "A Morte Saiu à Rua" (em
homenagem ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE
numa rua de Alcântara), "Ó Minha Amora Madura", "No Comboio Descendente"
(com poema de Fernando Pessoa) e o belíssimo "Fui à Beira do Mar" (vide
letra abaixo). Em 1973, José Afonso continua a sua "peregrinação",
cantando um pouco por todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela
PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio.
Na prisão política, escreve o poema "Era Um Redondo Vocábulo", um dos
temas mais belos do álbum seguinte, "Venham Mais Cinco". Gravado em
Paris, no Studio Aquarium, em Outubro de 1973, o disco é constituído
integralmente por temas da autoria de José Afonso (letra e música) e
conta de novo com arranjos e direcção musical de José Mário Branco e na
participação musical figuram o próprio José Mário Branco (fole do João,
percussões, piano, voz do alto, coros, pandeireta, órgão Hammond, piano
Pipper, efeitos de sopro), Yório Gonçalves (viola) e ainda uma miríade
de músicos estrangeiros, sendo de destacar Michel Delaporte nas
percussões. O tema-título tem a participação vocal de Janine de Waleyne,
solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da
altura, na opinião de José Niza. Além do conhecido tema que dá nome ao
álbum, merecem destaque três outros temas, autênticas pérolas do
repertório de José Afonso: o citado "Era Um Redondo Vocábulo", "Adeus ó
Serra da Lapa" e "Que Amor Não me Engana".
A 29 de Março de 1974, o Coliseu de Lisboa enche-se para ouvir José
Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire,
José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com
"Grândola, Vila Morena". Militares do MFA estão entre a assistência e
escolhem "Grândola" para senha do golpe militar que está em congeminação
e que se concretizará, daí a menos de um mês, na madrugada de 25 de
Abril. No dia do espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa,
organizadora do evento, de que eram proibidas as representações dos
temas "Venham Mais Cinco", "Menina dos Olhos Tristes", "A Morte Saiu à
Rua" e "Gastão Era Perfeito". Curiosamente, a "Grândola, Vila Morena"
era autorizada.
No final de 1974, é editado o álbum "Coro dos Tribunais", gravado em
Londres, novamente na Pye Records, com arranjos e direcção musical, pela
primeira vez, de Fausto Bordalo Dias e com a participação musical do
próprio Fausto (guitarra acústica, coros) e ainda de Michel Delaporte
(percussões), Vitorino (teclados, 2.ª voz solo, coros), Carlos Alberto
Moniz (2.ª viola, coros), Yório Gonçalves (2.ª viola), Adriano Correia
de Oliveira (coros) e José Niza (coros). São incluídas no disco duas
canções brechtianas (da peça "A Excepção e a Regra") que José Afonso
musicou em Moçambique no período entre 1964 e 1967: "Coro dos Tribunais"
e "Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)".
Em 1974/75, Zeca Afonso envolve-se directamente nos movimentos populares
e no PREC (Processo Revolucionário Em Curso), mas faz questão de não se
filiar em qualquer dos sectarismos partidários existentes. Canta no dia
11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados e estabelece uma
colaboração estreita com a LUAR (Liga de Unidade e Acção
Revolucionária), através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da
organização. A LUAR edita o single "Viva o Poder Popular", com "Foi na
Cidade do Sado" no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias
Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum
"República", gravado em Roma nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de
1975, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco
destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal "República"
ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório
das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, este
álbum inclui "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" (versão de
Francisco Fanhais da célebre canção de Geraldo Vandré), "Se os Teus
Olhos se Vendessem", "Foi no Sábado Passado", "Canta Camarada", "Eu
Hei-de Ir Colher Macela", "O Pão Que Sobra à Riqueza", "Os Vampiros",
"Senhora do Almortão", "Letra para Um Hino" e "Ladainha do Arcebispo".
Além de Francisco Fanhais, este disco teve o contributo de diversos
músicos italianos. Em 1976, Zeca apoia a candidatura presidencial de
Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e ex-comandante do
COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980.
Ainda em 1976, grava o álbum "Com as Minhas Tamanquinhas", sendo as
letras e as composições todas da sua autoria. Conta com a colaboração de
Cecília Barreira, Fausto Bordalo Dias, Fernando Gonzalez, José Luís
Iglésias, José Niza, Júlio Pereira, Luís Duarte, Michel Delaporte, Ramon
Galarza, Vitorino e ainda de Quim Barreiros, nos temas de inspiração
folclórica. Este álbum é, na opinião de José Niza, «um disco de combate e
de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado,
talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 30 anos, isto é, hoje». É a
"ressaca" do PREC. O próprio José Afonso dirá mais tarde: «Eu sempre
disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um
homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o
compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento
histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com
quem ele canta». E acrescenta: «Admito que a revolução seja uma utopia,
mas no meu dia-a-dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível.
Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que
nível for».
O álbum "Enquanto Há Força", gravado em 1978, com o apoio de Fausto
Bordalo Dias nos arranjos e direcção musical, representa mais um exemplo
da fase cronista e panfletária do cantor, ligada às suas preocupações
anti-colonialistas e anti-imperialistas, a que não escapa uma crítica
mordaz à Igreja Católica (no tema "Arcebispíada"). Participam no disco
excelentes músicos e cantores: Michel Delaporte (percussões), Fausto
(guitarra eléctrica, guitarra acústica, coros), José Luís Iglésias
(guitarra acústica), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral
(guitarra portuguesa, sistre, viola e alaúde), Rão Kyao (flautas), Luís
Duarte (baixo), Dimas Pereira (acordeão), Yório Gonçalves (coros),
Adriano Correia de Oliveira (coros) e Sérgio Godinho (coros), entre
outros; e ainda o Grupo de Cantigas do Centro Cultural da Anadia.
Em 1979 é lançado o álbum "Fura Fura", gravado em Setembro e Outubro do
ano anterior, em que José Afonso contou com a colaboração de Júlio
Pereira nos arranjos e direcção musical e dos Trovante nos arranjos de
três temas ("As Sete Mulheres do Minho", "O Cabral Fugiu para Espanha" e
"De Quem Foi a Traição"). A execução instrumental é de Júlio Pereira
(cavaquinho, guitarras acústicas, violas, baixo, reco-reco, chocalho,
timbalões) e de elementos do grupo Trovante – Luís Represas (bandolim,
cavaquinho, 2.ª voz, coros), João Gil (viola, viola braguesa), Artur
Costa (baixo, palheta, adufe, flautas de bisel) e Manuel Faria
(acordeão). Nota ainda para a participação de António Chaínho (guitarra
portuguesa), José Maria Nóbrega (viola), Naomi Anner e Carlos Zíngaro
(violinos), Guilherme Vicente (flauta de amolador), Tomás Pimentel
(trompete), Rui Cardoso (flauta transversal), Guilherme Inês
(tumbadoras, ferrinhos) e Celso de Carvalho (violoncelo). Dos doze temas
do alinhamento, oito são de música para teatro, compostos para as peças
"Zé do Telhado" e "Guerras de Alecrim e Manjerona", levadas à cena na
Barraca e na Comuna, respectivamente. José Afonso actua em Bruxelas no
Festival da Contra-Eurovisão.
Em 1981, e após dois anos sem discos, reconcilia-se com a canção de
Coimbra e com a guitarra ao gravar "Fados de Coimbra e Outras Canções",
álbum composto maioritariamente por clássicos de Edmundo Bettencourt e
no qual reinterpreta também três temas já anteriormente gravados:
"Senhora do Almortão", "Balada do Outono" e "Vira de Coimbra". Com
acompanhamento de Octávio Sérgio (guitarra) e Durval Moreirinhas (viola)
em todos os temas, no "Vira de Coimbra" participam também Júlio Pereira
(cavaquinho) e Janita Salomé (viola). Trata-se da mais bela versão do
fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a
Edmundo Bettencourt, dedicatários do álbum. Actua em Paris, no Théatre
de la Ville. Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas de
esclerose lateral amiotrófica, doença que se caracteriza por uma
progressiva atrofia muscular de que resulta geralmente a morte, por
asfixia. Actua em Bourges, França, no Festival de Printemps. Em 29 de
Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu dos Recreios, com
José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António
Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto Bordalo
Dias, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio
Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum "Ao Vivo no
Coliseu".No Natal desse ano, sai "Como Se Fora Seu Filho", álbum que
constitui o seu testemunho estético-político e revela em definitivo o
rosto humano da Utopia ("Cidade sem muros nem ameias / gente igual por
dentro / gente igual por fora"). Com arranjos e direcção musical de
Júlio Pereira, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e de José Afonso,
no trabalho colaboram Júlio Pereira (guitarra eléctrica, guitarra
acústica, polymoog, baixo, reco-reco, tamborete, viola braguesa), Fausto
(guitarra eléctrica, guitarra acústica, percussões, 2.ª voz), Sérgio
Mestre (guitarra acústica, flauta), Carlos Zíngaro (violino), Pedro
Caldeira Cabral (guitarra portuguesa), Janita Salomé (polymoog, 2.ª voz,
coros), José Mário Branco (flauta vietnamita, pífaro, flautas de bisel,
piano, percussões), Rui Cardoso (saxofones, clarinete baixo), Rui
Júnior (percussões), Francisco Fanhais (coros), entre outros. Algumas
das canções do alinhamento haviam sido escritas para a peça "Fernão
Mentes?" do grupo de teatro A Barraca. No mesmo ano, é publicado o livro
"Textos e Canções", com a chancela da Assírio e Alvim, que inclui
muitos poemas que José Afonso não chegou a musicar. Contra a sua
vontade, é publicado pela Foto Sonoro um maxi-single, "Zeca em Coimbra",
com material de um espectáculo dado pelo cantor no Parque de Santa
Cruz, na Lusa Atenas, a 27 de Maio, em que também participaram António
Bernardino ("Tenho Barcos, Tenho Remos"), Luís Marinho ("Traz Outro
Amigo Também") e ainda António Portugal e António Brojo (guitarras) e
Aurélio Reis, Luís Filipe e Rui Pato (violas). A cidade de Coimbra
atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta
sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Fernando
Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta
muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso.
O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a
Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário.
Mário Soares tentará de novo condecorá-lo, a título póstumo, em 1994,
com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusa, alegando que se
José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua
morte que seria condecorado.Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino
oficial (fora expulso em 1968), tendo sido destacado para dar aulas de
História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Em 1985 é
gravado aquele que viria a ser seu último álbum, "Galinhas do Mato", com
arranjos, direcção musical e produção de Júlio Pereira e José Mário
Branco. Zeca já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído
por Luís Represas ("Agora"), Helena Vieira ("Tu Gitana"), Janita Salomé
("Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação"), José Mário
Branco ("Década de Salomé", em dueto com Zeca), Né Ladeiras ("Benditos")
e Catarina e Marta Salomé ("Galinhas do Mato"). No elenco instrumental
contam-se: Júlio Pereira (violas acústicas e eléctricas, banjo, baixo,
adufe, sintetizador, computador de ritmo), José Mário Branco (adufe,
guizos almofadados, latas), Janita Salomé (darbuka, adufe), Carlos
Zíngaro (violino), Fernando Ribeiro (acordeão), António Emiliano
(piano), Sérgio Mestre (flauta transversal), Paulo Curado (flauta
transversal), José Pedro Caiado (flautas doces), Adácio Pestana
(trompa), Tomás Pimentel (trompete), José Oliveira (trombone), Carlos
Martins (saxofone alto), Rui Cardoso (saxofone tenor), Sílvio Pleno
(clarinete), David Gausden (baixo), João Nuno Represas (tumbadoras,
darbuka, latas) João Seixas (adufe) e Guilherme Inês (bateria). Nos
coros, participam ainda Cramol (Coro da Biblioteca Operária Oeirense) e
Tóinas. Apesar de ser o derradeiro, "Galinhas do Mato" revela-se um dos
discos mais efusivos e extrovertidos de José Afonso, o que para tal
muito contribui o protagonismo que é dado às percussões e aos sopros.
Em 1986, apoia a candidatura presidencial de Maria de Lurdes
Pintassilgo, católica progressista. José Afonso vem a falecer no dia 23
de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada,
vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos de idade. O funeral
realiza-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola
Secundária de S. Julião para o Cemitério da Senhora da Piedade, em
Setúbal. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida
por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi
transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José
Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais.A 18 de Novembro é criada,
por iniciativa de Alípio de Freitas (homenageado no tema homónimo do
álbum "Com as Minhas Tamanquinhas"), a Associação José Afonso com o
objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no
campo das Artes. No ano seguinte a Câmara Municipal da Amadora institui o
Prémio José Afonso destinado a galardoar um álbum inédito de música
portuguesa, cujos temas tenham como referência a cultura e História
portuguesas, tal como a obra do patrono. Fausto Bordalo Dias, Vitorino,
Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia
Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes
do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais, José
Medeiros e Brigada Victor Jara, contam-se entre os já contemplados.Duas
semanas depois da morte do cantor, a Transmédia edita "Agora e Sempre", o
primeiro triplo álbum da história discográfica portuguesa. A edição é
constituída pelos álbuns "Como Se Fora Seu Filho" (1983), "Galinhas do
Mato" (1985) e "Ao Vivo no Coliseu" (1983), este com um alinhamento
diferente. Nesse mesmo ano, a Movieplay lança em CD os 11 álbuns
gravados para a Orfeu (até 1981), tendo também sido editado pela Edisco o
CD "Os Vampiros", com as baladas dos três EP da Rapsódia (1960-63),
tais como "Os Vampiros", "Menino d'Oiro", "Canção do Vai... e Vem",
"Senhor Poeta", "Tenho Barcos, Tenho Remos", "Menino do Bairro Negro",
"No Largo do Breu" e "Balada do Outono". Em 1996, a Movieplay reúne
finalmente em CD sob o título "De Capa e Batina", os fados de Coimbra
dos três primeiros discos (1953-56) e ainda os temas "Menina dos Olhos
Tristes" e "Canta Camarada", do single editado pela Orfeu em 1969. Em
1997, assinalando os dez anos sobre a morte de José Afonso, a EMI-VC
lança em CD o álbum "Baladas e Canções", originalmente editado pela Ofir
em 1967.José Afonso, como pioneiro de uma estética musical alternativa
ao "nacional cançonetismo" (como lhe chamou João Paulo Guerra) e pelo
contributo inovador que deu na redescoberta e valorização da música de
raiz tradicional, será sempre recordado como um dos nomes maiores da
História da música portuguesa. Testemunham-no as homenagens e tributos
de quem sido alvo ao longo dos anos, com novas versões de temas seus,
sendo de referir os seguintes álbuns: "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" (1977 –
Teresa Silva Carvalho), "Ousadias" (1986 – Naná Sousa Dias), "Filhos da
Madrugada Cantam José Afonso" (1994 – Madredeus, Frei Fado d’El Rei,
Brigada Victor Jara, Opus Ensemble, Diva, Delfins, Sétima Legião,
Resistência, UHF, Tubarões, etc.), "Maio Maduro Maio" (1995 – José Mário
Branco, Amélia Muge e João Afonso, gravado no S. Luiz em 1994),
"Utopia" (2004 – Vitorino e Janita Salomé, gravado no CCB em 1998), "A
Jazzar no Zeca" (2004 – Zé Eduardo Unit), "Que Viva o Zeca" (2007 – Erva
de Cheiro), "A Terra do Zeca" (2007 – Terra d’Água / Davide Zaccaria,
com Maria Anadon, Lúcia Moniz, Filipa Pais, Dulce Pontes e Uxía), "Co’as
Tamanquinhas do Zeca" (2007 – Couple Coffee), "Senhor Poeta" (2007 –
Frei Fado d’El Rei), "Com Zeca no Coração" (2007 - Banda Futrica),
"Convexo" (2007 – Jacinta) e "Abril" (2007 – Cristina Branco).
Discografia:
- Fados de Coimbra - 2 vols. (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962) (colectivo)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992 (compilação colectiva)
- Venham Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República (LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975) (não editado em Portugal)
- Com as Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976 (gravado ao vivo)
- Enquanto Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura (LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Baladas e Fados de Coimbra (LP-33 rpm, Edisco, 1982); Os Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- José Afonso (2LP, Orfeu, 1983; 2CD, Movieplay, 2001; Farol, 2007) (colectânea)
- Ao Vivo no Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983) (gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985 (inclui os álbuns: Como
Se Fora Seu Filho / Galinhas do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Zeca Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993) (concerto quase integral)
- De Capa e Batina (CD, Movieplay, 1996)
Fontes:
- Site da Associação José Afonso (http://www.aja.pt/)
- Literatura inclusa na discografia de José Afonso
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Cidade (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- A Formiga no Carreiro (in "Venham Mais Cinco")
- Adeus ó Serra da Lapa (in "Venham Mais Cinco")
- Bailia (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Balada do Outono (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Balada do Sino (in "Cantares do Andarilho")
- Canção de Embalar (in "Cantares do Andarilho")
- Canção do Mar (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Canção do Vai... e Vem (in "Os Vampiros")
- Canção Longe (in "Baladas e Canções")
- Cantigas do Maio (in "Cantigas do Maio")
- Canto Moço (in "Traz Outro Amigo Também")
- Chamaram-me Cigano (in "Cantares do Andarilho")
- Endechas a Bárbara Escrava (in "Cantares do Andarilho")
- Era um Redondo Vocábulo (in "Venham Mais Cinco")
- Escandinávia Bar-Fuzeta (in "Galinhas do Mato")
- Fui à Beira do Mar (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- Fura Fura (in "Fura Fura")
- Já o Tempo se Habitua (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Maio, Maduro Maio (in "Cantigas do Maio")
- Maria (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Menino d'Oiro (in "Os Vampiros")
- Menino do Bairro Negro (in "Os Vampiros")
- Mulher da Erva (in "Cantigas do Maio")
- No Comboio Descendente (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- No Largo do Breu (in "Os Vampiros")
- Ó Minha Amora Madura (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- O Pastor de Bensafrim (in "Baladas e Canções")
- Os Bravos (in "Baladas e Canções")
- Os Vampiros (in "Os Vampiros")
- Quanto é Doce (in "Fura Fura")
- Que Amor Não me Engana (in "Venham Mais Cinco")
- Saudades de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Traz Outro Amigo Também (in "Traz Outro Amigo Também")
- Tu Gitana (in "Galinhas do Mato")
- Vejam Bem (in "Cantares do Andarilho")
- Venham Mais Cinco (in "Venham Mais Cinco")
- Verdes São os Campos (in "Traz Outro Amigo Também")
- Vira de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
Fui à Beira do Mar
Letra, música e voz: José Afonso
Fui à beira do mar
Ver o que lá havia;
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:
"Ó cantador alegre,
Que é da tua alegria?
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria!"
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia;
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia.
Desde então a bater
No meu peito, em segredo,
Sinto uma voz dizer:
"Teima, teima sem medo!"
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"
João Eduardo Salomé Vieira nasceu na vila alentejana de Redondo, a 17 de
Maio de 1947. Filho de José Vieira, ourives, relojoeiro e marceneiro, e
de Sofia Salomé, doméstica, Janita, como ficará afectuosamente
conhecido, é o mais novo de cinco irmãos todos eles herdeiros de uma
forte tradição musical familiar. A mãe, excelente cantora, e o pai, que
tocava bandolim e cantava o fado de Coimbra, incutiram nos filhos o
gosto pela música, a tal ponto que todos eles passariam, amadora ou
profissionalmente, por carreiras musicais (Vitorino será o que alcançará
maior notoriedade).
Apesar de cantar desde os 9 anos de idade, a veia artística de Janita só
é verdadeiramente assumida aos 16 anos ao ingressar, como baterista e
vocalista, no conjunto Planície, um grupo de baile constituído pelos
seus dois irmãos mais velhos Zezinho e Baíco (Manuel), e ainda Evaristo
Carrajeta, Abílio Delca, Magalhães e Manuel Monarca.
Em 1965, aos 18 anos de idade, Janita ruma a Lisboa para trabalhar como
funcionário judicial no Tribunal da Boa Hora e, passados dois anos, é
recrutado para o serviço militar sendo mobilizado para a guerra colonial
em Moçambique. «Na cidade de Tete havia serviços recreativos do
exército que promoviam espectáculos e procuravam entre os militares quem
mostrasse as suas artes, e eu participei num espectáculo desses. Cantei
um poema de Manuel Alegre, "As Mãos", e logo a seguir mandaram-me
prender». Mas acabou por não ficar detido: «Quem me safou foi um cabo
enfermeiro que conhecia bem o comandante da região operacional...».
No regresso de África, em 1972, fixa-se no Redondo, para trabalhar como
ajudante de notário e passa a integrar os Vagabundos do Ritmo, um grupo
de baile que se dedica a tocar versões de êxitos românticos da altura e
de nomes estrangeiros como Bee Gees e Beatles. Ainda sem um caminho
musical definido, será depois do 25 de Abril de 1974 que Janita
encontrará o seu rumo ao encontrar-se José Afonso que o inspira a
investigar e a trabalhar a tradição musical popular. Durante dois anos
participa como acompanhante do autor de "Grândola, Vila Morena" em
numerosos espectáculos, comícios e sessões de esclarecimento. Em 1976,
participa como cantador e alto em "Semear Salsa ao Reguinho", o primeiro
álbum do irmão Vitorino com quem continuará sempre a colaborar quer em
discos quer em actuações ao vivo.
Em 1977, funda com Vitorino e os outros irmãos um grupo que se dedica a
perpetuar a tradição do cante alentejano, os Cantadores de Redondo, cuja
actividade se mantém até aos dias de hoje. Gravam o disco etnográfico
"O Cante da Terra", editado em 1978. Em 1980, dá-se nova revolução na
vida de Janita: abandona o emprego na função pública e
profissionaliza-se como músico. Motivo: um convite de José Afonso para
integrar o grupo que o acompanhava em palco, substituindo Henri Tabot
nas guitarras (Júlio Pereira e Guilherme Inês são os outros músicos de
Zeca). No mesmo ano, grava o seu primeiro disco em nome próprio,
"Melro", para a Orfeu, com a supervisão técnica de Moreno Pinto e Jorge
Barata. Incluindo um tema da sua autoria ("Alvorada em Abril") e outro
de Vitorino ("Homens do Largo"), o disco é composto de duas partes
distintas: uma dedicada à música de matriz alentejana e outra, numa
inesperada opção, a fados de Coimbra (de António Menano, Francisco
Menano e António de Sousa), cujo gosto lhe fora incutido pelo pai na
juventude. Realce também para o tema "Poema para Florbela", em que
Janita musica e canta um poema de Manuel da Fonseca, também ele um
alentejano de gema. Com direcção musical de José Afonso, Vitorino e
Janita Salomé, o álbum tem a participação instrumental de Pedro Caldeira
Cabral (guitarra portuguesa, campaniça e viola), Sílvio Pleno
(clarinetes), Luís Caldeira Cabral (flautas), Vitorino, Carlos e Janita
Salomé (adufes e trancanholas). Nos fados de Coimbra, os acompanhadores
foram Octávio Sérgio (guitarra), Durval Moreirinhas e Fernando Alvim
(violas). Lançado em plena explosão do rock português, o álbum passa
relativamente despercebido: Janita ainda é olhado como «o irmão do
Vitorino».
Faz digressões no estrangeiro com José Afonso, Pedro Caldeira Cabral e
Vitorino, e participa, em 1981, nos álbuns "Cavaquinho" e "Fados de
Coimbra e Outras Canções", respectivamente de Júlio Pereira e José
Afonso. E será justamente nesse ano, em Paris, quando acompanhava José
Afonso, que tudo se torna claro. Janita assiste, deslumbrado, a um
concerto de um grupo de Marrocos e aí nasce a sua paixão pela música
árabe. Encontra finalmente a estrela que norteará a sua música: a
procura dos laços que unem a tradição popular alentejana com a música
tradicional magrebina, numa meritória tentativa de trazer à tona os
vestígios deixados na nossa música pelos Árabes durante os séculos em
que permaneceram na Península Ibérica, mais concretamente no território
que hoje constitui o sul de Portugal. Em Fevereiro de 1982, faz a
primeira viagem ao Norte de Africa, a que se seguirão outras. Janita
conta: «Em Marrocos descobri o ancestral do Alentejo, de alguma forma,
na fisionomia daquela gente, na maneira de estar, na gastronomia e
deixei-me envolver e trouxe comigo tudo isso, toda essa experiência –
aprendi inclusive a tocar todos aqueles instrumentos, aprendi muitas
técnicas com músicos, camponeses magrebinos». E assim nasce o LP "A
Cantar ao Sol", gravado por António Pinheiro da Silva para a Valentim de
Carvalho, nos Estúdios de Paço d’Arcos. Lançado em Dezembro de 1983,
este segundo álbum de Janita tem uma repercussão bem superior à do disco
de 1980. Com produção de João Gil (na altura, músico do grupo Trovante)
e composições do próprio Janita Salomé, nos temas de autor, o trabalho
conta com a participação instrumental de Júlio Pereira (violas
acústicas, braguesas, ovation), Pedro Caldeira Cabral (alaúde, ghaita),
Sérgio Mestre (flauta), José Manuel Marreiros (piano), Carlos Zíngaro
(violino) e Janita Salomé (percussões). Era desejo de Janita associar ao
trabalho músicos de Casablanca, que conhecera nas suas viagens, mas
devido a questões orçamentais isso acabou por não se concretizar. Além
dos temas tradicionais ("Extravagante", "Pavão", "S. João" e "Saias")
fazem parte do alinhamento: "Tardes de Casablanca" (poema de Hipólito
Clemente), "Cantar ao Sol" (poema de João Manuel Pinheiro), "Não É Fácil
o Amor" (poema de Luís Andrade Pignatelli à vide em baixo), "Quando
Chegou a Lua Cheia" (poema de Janita Salomé), e "Na Palestina"
(instrumental com vocalizos). A apresentação do trabalho dá-se num
espectáculo realizado na Aula Magna que esgota a lotação. O álbum é
considerado um dos melhores trabalhos da música popular portuguesa do
ano e vale a Janita Salomé três prémios: Se7e de Ouro (atribuído pelo
Jornal Se7e) na categoria de música popular/tradicional e Prémio
Revelação das revistas "Música & Som" e "Nova Gente".
Em 1985, e dando continuidade à exploração das raízes árabes, Janita
grava o álbum "Lavrar em Teu Peito", para EMI-Valentim de Carvalho, sob a
supervisão técnica de António Pinheiro da Silva. Novamente com produção
de João Gil e composições de Janita Salomé, o disco conta ainda com as
participações de José Peixoto (arranjos, viola, alaúde, caixa de arroz),
Júlio Pereira (violas), Paulo Curado (flauta), Pedro Caldeira Cabral
(charamela, lira e flauta indiana, viola campaniça), Rui Júnior (maraca e
prato), Fernando Júdice (contrabaixo), José Manuel Marreiros (piano), e
ainda os irmãos Vitorino e Carlos Salomé. Janita, por seu lado, toca
diversos instrumentos árabes de percussão – bendir, taarija e darabuka.
Os poemas são de Luís Andrade Pignatelli ("Como se fosses de linho
doce...", "O que ficou no ar parado..."), Hipólito Clemente ("Árvores no
Deserto"), José Bebiano ("O Poder"), António José Forte ("Poema") e
Al-Mu’tamid ("A uma escrava que lhe ocultou o Sol"), insigne poeta do
séc. XI, nascido em Beja, e considerado um dos maiores vultos culturais
do Al-Andaluz. O poema de Al-Mu’tamid foi retirado do livro "Portugal na
Espanha Árabe", do historiador António Borges Coelho, uma importante
fonte de inspiração do cantor. O álbum integra também uma versão do tema
"Mulher da Erva", de José Afonso, e ainda de "E Alegre se Fez Triste"
(com poema de Manuel Alegre), primeiramente cantado por Adriano Correia
de oliveira, prematuramente desaparecido em 1982. Do alinhamento fazem
ainda parte dois temas populares alentejanos ("Moda da Lavoura" e
"Saias") e "Conta-me contos, ama…", um belíssimo tema a capella sobre
poema de Fernando Pessoa, composto para a peça "O Esfinge Gorda", de
Mário Viegas. Curiosamente, o grande actor também participa no álbum
recitando o poema "O Poder", de José Bebiano. Em entrevista a Fernando
Sobral (Diário de Notícias, 15.10.1985), Janita chama a atenção para a
importância do legado árabe na nossa tradição oral: «Há toda uma cultura
de transmissão oral que vai ficando e que chega até nós. Na fúria da
reconquista cristã tudo o que pertencesse aos Mouros era destruído e
queimado. Eram os Infiéis. Mas alguma coisa ficou. Para além da cultura
registada, fabricada, havia uma cultura anónima, popular, que foi
ficando. E os árabes legaram-nos uma cultura muito rica que não tem sido
reconhecida, mesmo ao nível do ensino. Espero que este meu álbum,
"Lavrar em Teu Peito", contribua um pouco para que esta situação se
inverta.»
Em 1985, Janita é um dos principais colaboradores, como cantor e
instrumentista (darbuka e adufe), na gravação do álbum "Galinhas do
Mato", de José Afonso, que devido à doença já não conseguiu cantar todos
os temas. "Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação" são os
temas a que Janita empresta a sua inconfundível voz.
Em 1987, grava "Olho de Fogo", o seu quarto álbum a solo, editado pela
Transmédia. Com produção e direcção musical de José Mário Branco e a
colaboração de José Peixoto e João Lucas nos arranjos, Janita canta
poemas da sua autoria ("Azul Branco", "Quando a luz fechou os olhos"),
de Luís Andrade Pignatelli ("Os Amantes", "Cantata"), José Bebiano
("Poema") e continua a resgatar a poesia do Al-Andaluz: Ibn Sara
("Estrela Cadente", "O Zéfiro e a Chuva") e Al-Mu’tamid ("Ao Passar
Junto da Vide"). Integram também o alinhamento duas versões de temas
tradicionais ("Senhora do Almortão" e "Saias do Freixo em Gibraltar").
Entre os instrumentistas, além de Janita Salomé (bendir, darbuka, adufe)
e José Mário Branco (harpa sequenciada, sintetizador, timbalão)
contam-se João Lucas (piano, sintetizadores), José Peixoto (guitarra
acústica, baixo, harpa sequenciada, piano-marimba), Irene Lima
(violoncelo), Carlos Zíngaro (violino), Fernando Flores (contrabaixo),
António Serafim (oboé), Paulo Curado (flauta, sax soprano e tenor),
Tomás Pimentel (trompete, flugelhorn), José Martins (percussões), entre
outros. Nas vozes colaboraram os irmãos Vitorino e Carlos Salomé e as
filhas de Janita, Marta e Catarina Salomé. De assinalar também o arranjo
da compositora Constança Capdeville em "Senhora do Almortão", tema
tradicional da Beira Baixa, a região de Portugal que, segundo os
etnomusicólogos, melhor conseguiu conservar a influência árabe (adufes,
por exemplo). A apresentação pública do disco terá lugar na Aula Magna
(Lisboa) e no Teatro Carlos Alberto (Porto). O álbum vale ao cantor o
Troféu Nova Gente para o melhor intérprete masculino de música ligeira.
No tocante a actuações no estrangeiro, realce para a participação no
Printemps de Bourges (França), numa noite ibérica, e ainda quatro
concertos em Madrid.
A ruptura com a Valentim de Carvalho, por iniciativa do artista, tem
como consequência um interregno de quatro anos na edição de discos.
Durante esse período, de 1987 a 91, e embora continue a dar concertos a
solo ou ao lado de Vitorino, Janita explorará uma nova modalidade
artística, o teatro, quer compondo música para algumas produções, quer
surgindo inclusive como actor do grupo A Barraca, desempenhando o papel
do cigano Miguel, na peça "Margarida do Monte", de Marcelino Mesquita.
Para esta encenação de Hélder da Costa, Janita musica também dois temas,
"Cante Cigano" e "Margarida no Convento" (posteriormente incluídos no
álbum "Lua Extravagante"). Uma experiência que, em boa verdade,
revisitou depois de ter deixado a sua marca na banda sonora do filme "A
Moura Encantada" (1985), com realização de Manuel Costa e Silva e
argumento de António Borges Coelho, bem como no documentário "O Pão e o
Vinho" (1981), realizado por Ricardo Costa, em que participou como
actor.
Em 1991, Janita regressa aos estúdios para gravar "A Cantar à Lua", para
a Edisom, um álbum exclusivamente dedicado ao fado de Coimbra. Após a
exploração das pontes com a cultura árabe, um mergulho na memória
pessoal através da canção coimbrã dos anos 20 e 30, que aprendera com o
pai. Acompanhado nas guitarras por António Brojo e António Portugal,
dois guitarristas históricos de Coimbra, e nas violas por Luís Filipe
Ferreira e Humberto Matias, Janita Salomé interpreta clássicos como
"Crucificado" (Fortunato Roma da Fonseca / Edmundo de Bettencourt),
"Canção do Alentejo" (Popular / Edmundo de Bettencourt), "Fado dos
Passarinhos" (Francisco Menano / António Menano), "Fado de Anto"
(António Nobre / Francisco Menano), "Samaritana" (Álvaro Leal / Edmundo
de Bettencourt) e "Fado das Fogueiras" (Augusto Gil / Francisco Menano).
No mesmo ano, sai o álbum "Lua Extravagante", onde Janita surge ao lado
de Vitorino, Carlos Salomé e Filipa Pais, num projecto vocacionado para o
cruzamento da música tradicional portuguesa com a urbana. Além dos
temas "Cante Cigano" e "Margarida no Convento", inicialmente compostos
para a peça "Margarida do Monte", Janita contribui para o disco com um
inédito, "A Bela do Castelo Sem Portas", escrevendo a letra e a música. O
grupo dará um concerto em Lovaina, Bélgica, que será transmitido pela
rádio pública daquele país. Sobre este belo disco escreveu Fernando
Magalhães (Público, 11.12.1991): «Música lunar. Da noite e das marés da
voz, Vitorino, Janita e Carlos Salomé, e Filipa Pais cantam o lado
nostálgico do ser português. É um disco de canto sofrido, de doridas
harmonias. É também a prova de que é possível, em Portugal, fazer discos
que voltam as costas à moda e ao efémero. Em "Lua Extravagante" não há
canções que pisquem o olho à salada radiofónica. Há somente, e não é
pouco, a dignidade do canto e da música vivida por dentro. A transmissão
de experiências que dizem da maneira como costumávamos ser. Cruzam-se
vivências da cidade (Lisboa, sempre presente, até nos antigos azulejos
da cervejaria Trindade, que a capa, belíssima retrata) e do campo. As
palavras do povo encontram-se com as do poeta Pessoa, no fado e na
distância. Em frente, o escuro da noite e a ilusão do mar.»
Em 1992, Janita participa num espectáculo na exposição mundial de
Sevilha, a convite da comissão portuguesa, mas na sequência de sugestão
dos organizadores espanhóis.
Em 1994, com o álbum "Raiano" (Farol Música), agora sob a produção de
Fernando Júdice (viola baixo dos Trovante), Janita Salomé retoma o
percurso de cruzamento das tradições populares portuguesas e andaluzas,
tendo como pano de fundo a marcada influência árabe no sul peninsular.
«As nossas raízes passam muito pela presença dos povos na Península
Ibérica. Eles deixaram muitas marcas da sua cultura e eu, neste
percurso, deixei-me fascinar pela história e tenho continuado a procurar
as nossas origens através da cultura árabe». Exceptuando o tema
tradicional "Extravagante", todas as músicas foram compostas por Janita
Salomé que também assina a letra do tema "Do Outro Lado da Fronteira",
nome que faz inteiramente jus ao título do disco. Nos restantes temas do
alinhamento, Janita canta a poesia de Natália Correia ("Credo"), Carlos
Mota de Oliveira ("Poema oferecido a meus amigos"), Herberto Hélder
("Ninguém tem mais peso que o seu canto"), Manuel Alegre ("Tão Pouco e
Tanto", "Ciganos", "Utopia") e Manuel da Fonseca ("Poente"). Com a
colaboração de Mário Delgado nos arranjos, no elenco de instrumentistas
contam-se o próprio Janita Salomé (bendir, darabuka, taarija), Dudas
(guitarra de 12 cordas, guitarra clássica, alaúde), Mário Delgado
(guitarra de 12 cordas, guitarra clássica, guitarra eléctrica), José
Peixoto (guitarra clássica), Paulo Jorge Santos (guitarra portuguesa),
João Falcato (piano, sintetizador), Luís Branco (violino), Carlos
Barreto (contrabaixo), Filipe Valentim (teclados), Paulo Jorge Ferreira
(baixo eléctrico), Vasco Gil (acordeão, sintetizador), Filipa Pais
(voz), Paulo Curado (flautas, saxofone soprano), Alexandre Frazão
(bateria), José Salgueiro (percussões) e Carlos Guerreiro (ponteiras).
Este disco valerá a Janita Salomé o Prémio Blitz 94 para Melhor Voz
Masculina.
Em 1996, Janita junta a sua voz às de Pedro Barroso e Manuel Freire no
tema "Cantos de Oxalá", incluído no álbum "Cantos d’Oxalá", de Pedro
Barroso.
Em 1997, participa no duplo álbum "Voz & Guitarra" (Farol Música),
com os temas "Os Homens do Largo" e "Não É Fácil o Amor", acompanhado à
guitarra clássica, respectivamente por Pedro Jóia e Mário Delgado.
Participa também no álbum de Miguel Medina, "Três Estórias à Lareira"
(Farol Música, 1997), cantando dois temas: "Tema do Marinheiro" e "Tema
de Fernão de Magalhães".
No ano seguinte, Janita é um dos convidados especiais do grupo Frei Fado
d’El Rei, na gravação do álbum "Encanto da Lua": toca bendir e faz os
vocalizos do tema "Perdido em Miragem".
Janita Salomé que cumpriu o serviço militar em Moçambique, é um dos
participantes no disco "Canções Proibidas: o Cancioneiro do Niassa"
(EMI-VC, 1999), com as canções de campo da guerra colonial, projecto
idealizado por João Maria Pinto e onde pontificam também Rui Veloso,
Carlos do Carmo e Paulo de Carvalho, entre outros. Janita dá voz a dois
temas: "O Fado do Miliciano" e "Erva lá na Picada", este último em
parceria com João Maria Pinto. Integra também o projecto colectivo
"Músicas de Sol e Lua", ao lado de Sérgio Godinho, Vitorino, Filipa Pais
e Rão Kyao, cuja apresentado pública tem lugar em Bona, no Festival da
Lusofonia, a 11 de Julho de 1999. Também na Alemanha, Janita integra,
juntamente com Vitorino, o espectáculo de coros alentejanos que inaugura
a Exposição Mundial de Hanôver, em 2000.
No mesmo ano, e ao fim de seis anos sem lançar discos, Janita regressa
com o álbum colectivo "Vozes do Sul", um trabalho de celebração do cante
alentejano, nas suas diferentes formas, inteiramente composto por modas
tradicionais tais como "Ao Romper da Bela Aurora", "Na Rama do
Alecrim", "Menina Florentina", "Cavaleiro Real", "Eu Hei-de Amar uma
Pedra" e "Meu Alentejo Querido". Concebido e produzido por Janita
Salomé, o disco conta com as colaborações de grupos corais e
etnográficos como Grupo da Casa do Povo de Serpa, Cantadores de Redondo,
Os Camponeses de Pias e As Camponesas de Castro Verde. Participam
também o tocador de viola campaniça Manuel Bento, Bárbara Lagido,
Catarina e Marta Salomé (filhas de Janita), Patrícia Salomé (sobrinha),
Filipa Pais e Vitorino, e ainda Carlos Guerreiro (sanfona), Jens Thomas
(piano), Mário Delgado (guitarra acústica, viola), Carlos Bica
(contrabaixo) e músicos dos Corvos, entre outros. O disco estava pronto
desde 1998 mas só saiu em 2000 porque não foi fácil arranjar editora. A
edição foi da Capella, uma etiqueta ligada aos estúdios Audiopro. O
álbum é distinguido, no ano seguinte, com o Prémio José Afonso,
atribuído ao melhor álbum de música de inspiração popular portuguesa, o
que também serve para mostrar que a maioria das editoras em Portugal
estão interessadas em tudo, menos em apostar na música de qualidade.
Em 2001, Janita participa no disco "Canções de Embalar" (MVM Records),
organizado por Nuno Rodrigues, onde interpreta o tema "Matita" em
parceria com Sara Tavares; e faz os vocalizos do tema "Mouro Amor", para
o álbum "Feito à Mão", do brasileiro Rodrigo Lessa. Dois anos depois, e
a convite de Sebastião Antunes, do grupo Quadrilha, participará também
no tema "Mértola", incluído no CD "A Cor da Vontade" (Vachier &
Associados, 2003).
Em Maio de 2003, Janita regressa finalmente aos discos em nome próprio,
com um álbum soberbo intitulado "Tão Pouco e Tanto", editado pela
Capella, onde inclui seis regravações ("Tardes de Casablanca", "A uma
escrava que lhe ocultou o Sol", "Senhora do Almortão", "Cante Cigano",
"O Zéfiro e a Chuva" e "Não É Fácil o Amor") e cinco temas inéditos. São
eles: "Paisagem com Homem" (poema de Manuel Alegre), "União Europeia
(Adeus cal)" (poema de Carlos Mota de Oliveira), "Cerejeira das Cerejas
Pretas Miúdas" (poema de Carlos Mota de Oliveira), "Fala do Amor
Alentejano" (poema de Hélia Correia) e "Sinal de Ti" (poema de Sophia de
Mello Breyner Andresen). Todas as composições são da autoria de Janita
Salomé e na prestação instrumental contam-se o próprio Janita Salomé
(bendir, daadô, taarija), Pedro Jóia (guitarra acústica, alaúde), José
Peixoto (guitarra acústica, guitarra clássica portuguesa), Mário Delgado
(guitarra acústica), Ricardo Rocha (guitarra portuguesa), Paulo Jorge
Ferreira (baixo eléctrico), Paulo Curado (flautas, saxofone soprano),
Denys Stetsenko (violino), Lúcio Studer Ferreira (viola d’arco), Nelson
Ferreira (violoncelo), João Luís Lobo e Vicky (percussões), entre
outros. Nota ainda para a participação especial de José Mário Branco, no
arranjo do tema "O Zéfiro e a Chuva", e de Dulce Pontes que faz dueto
com Janita no tema "Senhora do Almortão". Das muitas versões que já se
fizeram deste conhecido tema tradicional, incluindo as de José Afonso,
esta é provavelmente a mais bem conseguida. Aliás, o disco é, no seu
conjunto, uma verdadeira obra-prima, uma referência obrigatória da
música portuguesa. Efectivamente, trata-se de um trabalho que, com maior
depuração e aprimoramento, retoma o cruzamento das linguagens
meridionais presentes nos seus discos mais emblemáticos e que estava
suspenso desde o álbum "Raiano". «Fascina-me a história e a cultura
mediterrânica, o cruzar e o sobrepor de civilizações, a riqueza cultural
que se acumulou neste espaço singular, a maneira de ser e de estar dos
povos mediterrânicos, que se expressa desde a música à gastronomia e ao
vinho. Mantenho uma forte ligação ao cantar cigano, ao cante alentejano,
ao flamenco, de certa forma também ao fado. Acredito que há um fio
condutor que une todas essas formas de cantar e de sentir a música. É
esse universo que me fascina e que julgo estar reproduzido neste
trabalho.» (Diário de Notícias, 21.06.2003).
O CD é altamente elogiado pela crítica especializada e entra na lista
dos melhores discos do ano. Em Março de 2004, Janita Salomé apresenta-o
no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém: uma noite inesquecível
com convidados especiais como Jorge Palma, Vitorino e Pedro Jóia.
No âmbito das comemorações dos 30 anos da Revolução dos Cravos, em Abril
de 2004, a EMI-VC lança o álbum "Utopia", integrando canções de José
Afonso, cantadas por Janita Salomé e Vitorino, em dois concertos no
Centro Cultural de Belém, dados seis anos antes, em Fevereiro de 1998.
Neste tributo a Zeca Afonso, a par de temas mais conhecidos como "Canção
de Embalar", "A Morte saiu à Rua" ou "Canto Moço" foram também
incluídos, e propositadamente, temas menos divulgados como "Os Eunucos",
"Carta a Miguel Djéjé" ou "Rio Largo de Profundis".
Em 2006, Janita Salomé é um dos convidados especiais da Brigada Victor
Jara para participar no álbum "Ceia Louca": canta o "Romance de Dona
Mariana", um dos mais belos romances tradicionais do Algarve.
Em Março de 2007, sai o CD "Vinho dos Amantes" (ed. Som Livre), novo
trabalho de originais que concretiza uma ideia conceptual: celebrar o
néctar dos deuses tendo como ponto de partida a grande poesia portuguesa
e mundial. Janita explica esta sua opção temática: «A ode ao vinho tem
sentido num país vinícola como Portugal, tendo nós o vinho com uma
presença tão forte na nossa cultura. Não sou pioneiro, provavelmente
outros músicos e outros compositores já o fizeram. Mas de outra maneira,
porque as formas podem ser tão variadas como diversa é a poesia e a
literatura sobre o vinho». Mas adverte: «A embriaguez que se exalta é a
da amizade, do amor e dos prazeres da vida, mas com conhecimento e
inteligência».
O universo musical de "Vinho dos amantes" extravasa os ambientes
alentejanos e arábico-andaluzes: «Afastei-me, um pouco, da matriz
mediterrânea. Mas resolvi percorrer outros caminhos, outras
experimentações. Considero que é uma sonoridade mais explicitamente
portuguesa. Por outro lado, procurei fazer melodias mais acessíveis, com
uma estrutura de canção. Há algumas sonoridades que até a mim me
surpreenderam, como o tema de abertura, "Maçãs de Zagora", com um
ambiente de blues [arranjo de Mário Delgado]. Gosto imenso de blues e
até considero que é do melhor que a América tem...». E acrescenta:
«Experimentei também uma sonoridade pop, mas não rock, que está bem
patente na parte final do último tema ["Caminho III"]. Foram muitos anos
a ouvir os discos dos Pink Floyd.» (Jornal de Notícias, 13.03.2007).
Além de um poema da sua autoria ("Escadinhas do Alto"), Janita canta a
poesia de Carlos Mota de Oliveira ("Maçãs de Zagora"), do chinês Li Bai
("A Estrela do Vinho"), de Charles Baudelaire ("Embriagai-vos", "O Vinho
dos Amantes"), Anacreonte ("Fragmentos"), Hélia Correia ("No Banquete",
"Ode ao Vinho"), António Aleixo, Francisco Hélder Pimenta e populares
anónimos ("Quadras"), José Jorge Letria ("O Mapa Errante") e Camilo
Pessanha ("Caminho III"). Todas as composições são da autoria de Janita
Salomé que também toca guitarra clássica e percussões. No elenco de
instrumentistas contam-se Mário Delgado (guitarra de 12 cordas, guitarra
eléctrica, kalimba), Ni Ferreirinhas (guitarra clássica), Ruben Alves
(piano, acordeão), João Paulo Esteves da Silva (piano), Ricardo Dias
(guitarra portuguesa), Fernando Abreu (guitarra clássica), Amadeu
Magalhães (viola braguesa), Luís Cunha (violino), Daniel Salomé
(clarinete), Yuri Daniel (contrabaixo, baixo eléctrico), Jacinto Santos
(tuba), Vicki (bateria, percussões), Vitorino (acordeão) e músicos da
Brigada Victor Jara. Carlos Mota de Oliveira, um dos poetas que Janita
mais tem cantado, também colabora activamente no disco recitando o poema
de Baudelaire "Embriagai-vos". Referência ainda às participações
especiais de Jorge Palma, Rui Veloso e José Carvalho que ao lado de
Vitorino e Janita Salomé formam o coro dos amantes do vinho, que canta
"No Banquete". Trata-se de um belo trabalho discográfico, mas
infelizmente muito pouco divulgado na rádio, a qual sonega a nossa
melhor música, aquela que se pode sorver como um bom vinho, e insiste em
promover massivamente as zurrapas musicais, seja as vindas de fora seja
as produzidas cá dentro. A este propósito diz-nos o próprio Janita:
«Ouve-se muito mais a tendência anglo-americana, o pop-rock, ou então
músicas cantadas em português, mas com essas mesmas raízes. Esta
situação é profundamente injusta porque a música portuguesa tem
qualidade e tem diversidade tal que lhe permite ser mais divulgada e
dada a conhecer aos jovens.»
Compositor e intérprete de excepção, Janita Salomé é detentor de uma voz
ímpar (potente, vibrante, melismática), que muitos consideram a melhor
voz masculina portuguesa. Sem cedências à facilidade e a modas efémeras,
a sua obra revela uma inegável coerência artística e, embora não sendo
vasta, constitui um dos mais ricos e originais contributos para o
património discográfico português. Diz o músico: «a minha obra não é
extensa mas é intensa». E a somar a isso, a ele se deve igualmente o
contributo pioneiro na exploração das raízes árabes da música
portuguesa, que abriu caminho a outros, de que Eduardo Ramos talvez seja
o melhor exemplo. Estas razões deviam ser mais do que suficientes para
que o músico/cantor se encontrasse entre as figuras da nossa música mais
estimadas e acarinhadas no seu próprio país. Todavia, e apesar de
aclamado pela crítica avalizada, o artista conta-se entre os nomes que
mais têm sofrido às mãos dos fazedores de playlists das principais
rádios portuguesas, incluindo a estação pública. No caso concreto da
Antena 1, a sua deliberada exclusão dos alinhamentos de continuidade e
espaços musicais (já só passa no programa "Lugar ao Sul"), além de
injusta e inadequada para um artista de mérito reconhecido e
inquestionável, constitui acima de tudo um acto de incultura, que assume
particular gravidade porque praticado numa entidade que vive de
dinheiros públicos.
Discografia:
- O Cante da Terra (LP, Orfeu, 1978) (com o Grupo de Cantadores do Redondo)
- Melro (LP, Orfeu, 1980; CD, Movieplay, 1993)
- A Cantar ao Sol (LP, EMI-VC, 1983; CD, EMI-VC, 1995)
- Lavrar em Teu Peito (LP, EMI-VC, 1985; CD, EMI-VC, 2001)
- Olho de Fogo (LP, Transmédia, 1987)
- A Cantar à Lua (CD, Edisom, 1991)
- Lua Extravagante (CD, EMI-VC, 1991) (com Vitorino, Carlos Salomé e Filipa Pais)
- Raiano (CD, Farol, 1994)
- Vozes do Sul (CD, Capella, 2000)
- Tão Pouco e Tanto (CD, Capella, 2003)
- Utopia (CD, EMI-VC, 2004) (com Vitorino, gravado ao vivo no CCB em Fevereiro de 1998)
- Vinho dos Amantes (CD, Som Livre, 2007)
Fontes:
- Site oficial de Janita Salomé (http://janita.salome.googlepages.com/)
- Blogue de Janita Salomé (http://janitasalome.blogspot.com/)
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Literatura inclusa na discografia de Janita Salomé
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Estrela do Vinho (in "Vinho dos Amantes")
- A uma escrava que lhe ocultou o Sol (in "Lavrar em Teu Peito"; Tão Pouco e Tanto)
- Alegria da Criação (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- Ao Romper da Bela Aurora (in "Vozes do Sul")
- Árvores no Deserto (in "Lavrar em Teu Peito")
- Caminho III (in "Vinho dos Amantes")
- Cantar ao Sol (in "A Cantar ao Sol")
- Cante Cigano (in "Tão Pouco e Tanto")
- Cantiga dos camponeses (in "Vozes do Sul")
- Cerejeira das Cerejas Pretas Miúdas (in "Tão Pouco e Tanto")
- Ciganos (in "Raiano")
- Como se fosses de linho doce... (in "Lavrar em Teu Peito")
- Conta-me contos, ama… (in "Lavrar em Teu Peito")
- Credo (in "Raiano")
- E Alegre se Fez Triste (in "Lavrar em Teu Peito")
- Extravagante (in "A Cantar ao Sol"; "Raiano")
- Fala do Amor Alentejano (in "Tão Pouco e Tanto")
- Fragmentos (in "Vinho dos Amantes")
- Homens do Largo (in "Melro"; "Voz & Guitarra")
- Maçãs de Zagora (in "Vinho dos Amantes")
- Moda do Entrudo (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- Mouro Amor (in "Feito à Mão", de Rodrigo Lessa)
- Mulher da Erva (in "Lavrar em Teu Peito")
- Não É Fácil o Amor (in "A Cantar ao Sol"; "Voz & Guitarra"; Tão Pouco e Tanto)
- Ninguém tem mais peso que o seu canto (in "Raiano")
- No Banquete (in "Vinho dos Amantes")
- O Poder (in "Lavrar em Teu Peito")
- O Zéfiro e a Chuva (in "Tão Pouco e Tanto")
- Pavão (in "A Cantar ao Sol")
- Perdido em Miragem (in "Encanto da Lua", de Frei Fado d’El Rei)
- Poema oferecido a meus amigos (in "Raiano")
- Poema para Florbela (in "Melro")
- Poente (in "Raiano")
- Quadras (in "Vinho dos Amantes")
- Saias (Alto Alentejo) (in "Lavrar em Teu Peito")
- Saias (Beira Baixa) (in "A Cantar ao Sol")
- Saias do Freixo (in "Melro")
- Senhora do Almortão (in "Tão Pouco e Tanto")
- Tardes de Casablanca (in "A Cantar ao Sol"; "Tão Pouco e Tanto")
- Tarkovsky (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- União Europeia (Adeus cal) (in "Tão Pouco e Tanto")
- Utopia (in "Raiano")
Não É Fácil o Amor
Letra: Luís de Andrade (Pignatelli)
Música e voz: Janita Salomé
Não é fácil o amor, melhor seria
Arrancar um braço, fazê-lo voar,
Dar a volta ao mundo, abraçar
Todo o mundo, fazer da alegria
O pão nosso de cada dia, não copiar
Os gestos do amor, matar a melancolia
Que há no amor, querer a vontade fria
Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar
O amor, o destino de cada um não ter
Destino nenhum, ser a própria imagem
Do amor, pôr o coração ao largo, não sofrer
Os males do amor, não vacilar, ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste, não é fácil o amor
Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.
Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.
O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem queria caber e não cabia.
Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.
(Manuel Alegre)
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu no Porto, a 9 de Abril de
1942. Filho primogénito de Joaquim Gomes de Oliveira, agricultor, e de
Laura Correia, doméstica, Adriano passa a infância na Quinta de Porcas,
em Avintes (concelho de Vila Nova de Gaia). Em Avintes faz a instrução
primária e, depois, no Porto, o curso dos liceus no Colégio Almeida
Garrett e no Liceu Alexandre Herculano. É ainda em Avintes que se inicia
no teatro amador e colabora na fundação da União Académica de Avintes.
Inicia-se também na prática do voleibol – beneficiando dos seus dotes
atléticos e da sua altura – vindo mais tarde, já em Coimbra, a ser
campeão nacional da modalidade. Em Outubro de 1959, aos 17 anos de
idade, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra,
mas nunca chegará a concluir o curso.
Passa a desenvolver grande actividade nos organismos estudantis da
academia: canta e é solista no Orfeão Académico, fez parte do Grupo
Universitário de Danças Regionais e integra o CITAC (Círculo de
Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) onde representa várias peças. A
sua primeira ambição musical, ainda caloiro, é tocar viola eléctrica no
Conjunto Ligeiro da Tuna Académica, do qual faziam parte José Niza,
Daniel Proença de Carvalho, Rui Ressurreição, Joaquim Caixeiro, entre
outros. Como José Niza já ocupava o lugar de guitarrista, Adriano
abandona a ideia e dedica-se ao canto, iniciando-se naturalmente pelo
fado de Coimbra. Nessa altura vivia-se em Coimbra uma das fases mais
ricas da canção feita pelos estudantes. Depois da época áurea – anos 30 –
protagonizada por nomes como António Menano, Francisco Menano, Edmundo
Bettencourt e Artur Paredes, os anos 50 e 60 conduziram a canção coimbrã
ao mais alto nível com vozes como Luiz Goes, Fernando Machado Soares e
José Afonso e guitarristas como António Brojo, Eduardo Melo, Jorge Tuna,
Jorge Godinho e António Portugal.
Adriano, embora não tendo sido contemporâneo, nos estudos, dos cantores
referidos, conviveu com eles, sobretudo com José Afonso e Fernando
Machado Soares, os quais, embora já fora de Coimbra, continuavam a
manter uma ligação muito estreita com a vida académica e a influenciar
os cantores estudantes dos anos
60, dos quais Adriano era companheiro: Barros Madeira, Lacerda e Megre,
Sousa Pereira, Vítor Nunes, José Mesquita, José Miguel Baptista, António
Bernardino e outros.
Sobre a Coimbra desses anos 60, escreve Manuel Alegre: «Vivia-se, então,
quando ele [Adriano] chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão
histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão,
de mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara
dentro de cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais,
carregado de perigos e angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por
vezes indistintas e confusas, mas que buscavam o seu rosto e a sua
forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se barreiras, apertava-se a
mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em marcha, algo que
nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova
consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração
sobre que se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura
salazarista, por outro o espectro cada vez mais próximo da guerra de
África. Ao mesmo tempo chegavam a Coimbra ecos e notícias da luta
libertadora de outros povos e também da tomada do paquete Santa Maria
por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de manifestações e
greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o vendaval
da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da
Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional
autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra,
da Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as
gerações de Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das
ideias, o próprio fluir da História tinham chegado e provocavam um
fervilhar de iniciativas, buscas, enfim, uma extrema tensão geradora
duma nova mentalidade e duma nova maneira de ser. Foi nessa Coimbra que
Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande generosidade e aquela
dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei como, talvez por
acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de tudo?),
começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o
António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre
inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão,
que nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o
António Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt».
Com grande sensibilidade para a poesia e para a música popular, dotado
de um timbre de voz único e de uma rara expressão em tudo o que
interpretava, Adriano, em 1960 – um ano depois de chegar a Coimbra –,
grava o seu primeiro disco, um EP com o título "Noite de Coimbra" para a
editora Orfeu, de Arnaldo Trindade. O disco inclui quatro temas: "Fado
da Mentira" (letra e música de António Menano), "Balada dos Sinos"
(letra e música de Eduardo Melo), "Canta Coração" (letra de Eduardo Melo
e música do próprio Adriano) e "Chula" (música de António Portugal). Os
três primeiros temas tem acompanhamento de António Portugal e Eduardo
Melo (guitarras), Durval Moreirinhas e Jorge Moutinho (violas), sendo o
último um instrumental de António Portugal. Nos anos de 1961 e 1962
grava mais três EP com fados de Coimbra. Diz Paulo Sucena: «Foram os
fados, na verdade, que ensinaram o jovem Adriano a colocar a voz, a
respirar nos tempos certos, a atacar, a segurar ou a esvanecer as
sílabas musicais, a valorizar fonológica e semanticamente os matizes das
palavras, enfim, a dar aos receptores um canto limpo, verbal e
musicalmente.»
Participando de corpo inteiro, e de alma e coração, na vida estudantil
do início dos anos 60, e na contestação do regime político – que
culminou com a greve de 1962 – Adriano cedo se apercebe que a canção era
uma forma de intervenção política de grande eficácia. E foi assim que,
em plena ditadura, teve a coragem de cantar textos que mais ninguém
cantou e que – tal como os de José Afonso – contribuíram para corroer o
regime salazarista/marcelista, o mesmo é dizer, para a criação das
condições que levariam ao 25 de Abril de 1974. Em 1963, grava o EP
"Trova do Vento Que Passa", que além do tema título inclui "Pensamento",
"Capa Negra, Rosa Negra" e "Trova do Amor Lusíada" (poemas de Manuel
Alegre e composições de António Portugal). António Portugal e Rui Pato
são os acompanhantes à guitarra e à viola, respectivamente. A "Trova do
Vento Que Passa" (Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que
diz não) torna-se rapidamente um dos maiores hinos de resistência e de
contestação ao regime ditatorial, a par de "Os Vampiros" de José Afonso,
gravado no mesmo ano. Conta o próprio Manuel Alegre: «Por essa altura,
andava eu a descobrir a poesia trovadoresca. Encantara-me precisamente o
saber oficinal dos poetas-trovadores e a quase inigualável perfeição de
algumas cantigas de amor e de amigo. Encantava-me a tal difícil
simplicidade de algumas delas. Eram trovas e cantigas que tinham uma
música lá dentro e quase se podiam assobiar. (...) E assim nasceram as
Trovas. Nasceram por assim dizer quase naturalmente. Estavam na voz do
Adriano, na guitarra do António Portugal, no ar novo que se respirava e
vivia em Coimbra. Não mais a capa velhinha, feita mortalha para a
sepultura. Havia que cantar a capa transformada em bandeira de luta e
liberdade. Eram Trovas que os estudantes cantavam em coro. Trovas que já
não eram apenas de Coimbra mas de todo o movimento estudantil
português». A seguir, Adriano grava mais três EP: "Lira" (1964), "Menina
dos Olhos Tristes" (1964) e "Elegia" (1967), marcados pelas duas
vertentes que orientarão a sua obra: a canção popular portuguesa, por um
lado, e a poesia criada pelos grandes poetas, por outro. Destes discos
merecem destaque duas belas baladas em que se denuncia a guerra
colonial: "Menina dos Olhos Tristes" (com poema de Reinaldo Ferreira - O
soldadinho não volta / do outro lado do mar / O soldadinho já volta /
está mesmo quase a chegar / Vem numa caixa de pinho / do outro lado do
mar) e "Barcas Novas" (com poema de Fiama Hasse Pais Brandão - De Lisboa
sobre o mar / Barcas novas são mandadas / Barcas novas levam guerra /
Sobre o mar com suas armas).
Em 1964, Adriano viaja até Paris onde conhece Luís Cília, que
permanecerá outra das suas grandes referências e que para ele compõe a
música de três temas incluídos no LP "Margem Sul" (1967): "Canção
Terceira" (com poema de Manuel Alegre), "Sou Barco" (com poema de Borges
Coelho) e "Exílio" (com poema de Manuel Alegre). Deste belo álbum, que
conta com as participações de António Portugal (guitarra) e Rui Pato
(viola), merecem ainda destaque os temas "Rosa de Sangue" (com poema de
António Ferreira Guedes e música de Adriano), "Margem Sul" (com poema de
Urbano Tavares Rodrigues e música de Adriano), "Rosa dos Ventos
Perdida", (com poema de António Ferreira Guedes e música de Adriano) e
"Pedro Soldado" (com poema de Manuel Alegre e música de Adriano).
Sempre activo na vida académica, não tardará a trocar o desporto
(sagrara-se campeão nacional de voleibol pela Académica) pelo
crescimento envolvimento na luta política. A crise académica de 1969,
porém já não o encontrará na cidade do Mondego. Quando lhe falta apenas
uma cadeira para terminar o curso de Direito, em 1966, Adriano, já
casado com Maria Matilde Leite (de quem terá dois filhos, Isabel e José
Manuel), troca Coimbra por Lisboa, para onde pedira transferência de
matrícula. Trabalha no gabinete de imprensa da FIL (Feira Internacional
de Lisboa) e é produtor da editora onde sempre gravou, a Orfeu. Em 1967,
é mobilizado para o serviço militar, sendo incorporado na Escola
Prática de Infantaria de Mafra. Será depois transferido para Escola
Prática de Cavalaria de Santarém e, por fim, para o Quartel da Ajuda, em
Lisboa, de onde sai em 1970.
Em Julho de 1969, afirma à revista Flama: «O que eu pretendo fazer é,
honestamente, tentar um caminho, que não seja o único, de renovar a
música portuguesa, dando às pessoas algo mais que as "chachadas"
alienatórias que por aí se cantam». E concretizando as suas palavras,
nesse ano, Adriano tem a grande ousadia de gravar "O Canto e as Armas",
um álbum quase integralmente dedicado à poesia de Manuel Alegre, que se
encontrava exilado em Argel e quando o próprio Adriano cumpria o serviço
militar. Todos os 13 temas do alinhamento foram compostos pelo próprio
Adriano e têm acompanhamento à viola de Rui Pato. Baladas como "Raiz",
"E a Carne se Fez Verbo", "Peregrinação", "Trova do Vento Que Passa n.º
2" e "As Mãos" rapidamente se tornam hinos de resistência ao Estado
Novo. "O Canto e as Armas" é assim uma premonição do que viria a
passar-se cinco anos depois na madrugada de 25 de Abril: o canto de
Adriano e as armas de Salgueiro Maia, ambos com raízes na Escola Prática
de Cavalaria de Santarém, seriam decisivos para a restauração da
democracia e da liberdade em Portugal. Ainda em 1969, Adriano é
distinguido com o Prémio Pozal Domingues.
Em 1970, grava o LP "Cantaremos", outro dos álbuns fundamentais da sua
discografia, no qual inicia a colaboração com José Niza de resultarão
alguns dos mais belos temas do seu repertório. Este disco inclui temas
tão emblemáticos como "Cantar de Emigração" (com poema da galega Rosalía
de Castro e música de José Niza), "Fala do Homem Nascido" (com poema de
António Gedeão e música de José Niza), "Lágrima de Preta" (com poema de
António Gedeão e música de José Niza), "Canção com Lágrimas" (com poema
de Manuel Alegre e música de Adriano) e "Como Hei-de Amar Serenamente"
(com poema de Fernando Assis Pacheco e música de Adriano). Os
instrumentistas foram Rui Pato (viola, viola baixo e viola de 12 cordas)
e Tiago Velez (flauta, em "Cantar de Emigração" e "Lágrima de Preta").
Contou ainda com a colaboração de Carlos Alberto Moniz nos arranjos dos
temas populares açorianos ("O Sol Perguntou à Lua" e "Sapateia") e de
"Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência" (poema
de Manuel Alegre e música de Adriano).
Em Outubro de 1971, edita o LP "Gente de Aqui e de Agora", sendo a
totalidade das músicas da autoria de José Niza, que as compôs no norte
de Angola, durante a Guerra Colonial, onde cumpria o serviço militar
como alferes-médico. O álbum, gravado nos Estúdios Polysom, sob a
supervisão técnica de Moreno Pinto, inclui um poema de Fernando Assis
Pacheco na contracapa e 10 canções no alinhamento, entre as quais
"Emigração" (com poema do galego Manuel Curro Enríquez), "E Alegre se
Fez Triste" (com poema de Manuel Alegre), "O Senhor Morgado" (com poema
de Conde de Monsaraz), "Cana Verde" (com poema de Fernando Miguel
Bernardes), "A Vila de Alvito" (com poema de Raul de Carvalho), "Canção
Tão Simples" (com poema de Manuel Alegre), "Roseira Brava" (com poema de
António Ferreira Guedes) e "História do Quadrilheiro Manuel Domingos
Louzeiro" (com poema de António Aleixo). Este álbum representa ainda o
início de uma nova fase na obra de Adriano, caracterizada por maiores
exigências de natureza estético-musical, por um tratamento mais apurado
dos acompanhamentos e arranjos e por uma pesquisa e escolha poética mais
exaustiva e diversificada. É o próprio Adriano que, em entrevista a
Vieira da Silva (Mundo da Canção, 1971), explicita: «Este disco é um
passo enorme em frente. Em todos os aspectos: instrumentação, construção
musical (que pertence a José Niza), vocalização (onde houve um trabalho
muito mais cuidado do que anteriormente na técnica de cantar). Demorou
mais tempo a realizar do que normalmente, porque valia a pena, porque eu
sabia que estávamos a trabalhar no caminho certo e com segurança. Com
segurança graças exactamente à direcção do José Niza que me podia
apontar quando as coisas estavam certas ou não». Neste álbum, Adriano
canta pela primeira vez com acompanhamento de orquestras, dirigidas por
José Calvário (em "E Alegre se Fez Triste", o primeiro arranjo do
maestro, então com vinte anos) e por Thilo Krassman (em "Cantiga de
Amigo"), e por pequenos conjuntos instrumentais: viola (José Niza),
piano e acordeão (Rui Ressurreição), baixo e harmónica (Thilo Krassman),
bateria (José Eduardo L. Cardoso).
Até à queda da ditadura, Adriano não gravará mais discos porque se
recusa a enviar os textos à Comissão de Censura. Nesse período saem
alguns EP com temas dos álbuns anteriores e um LP intitulado "Fados de
Coimbra" (1973) que reúne os fados dos três primeiros EP (editados em
1960 e 1961).
Em 1975, em pleno PREC, Adriano edita o LP "Que Nunca Mais", no qual
musica e interpreta nove poemas de Manuel da Fonseca, corolário do
trabalho que desenvolvera durante os últimos anos da ditadura. O álbum,
gravado nos estúdios da Rádio Triunfo, por José Manuel Fortes, tem a
direcção musical e arranjos de Fausto Bordalo Dias e conta com
participação musical do próprio Fausto (guitarra acústica, percussão,
kazu, coros), Júlio Pereira (guitarra solo, baixo, piano, órgão,
bandolim, buzuki, cadeira, coros), Zau e Pantera (percussões), José Luís
Simões (trombones de varas), Vitorino Salomé (acordeão) e Carlos
Paredes (guitarra portuguesa). O alinhamento começa com "Tejo Que Levas
as Águas", cuja letra (vide abaixo), passadas mais de três décadas sobre
a Revolução dos Cravos, readquiriu uma surpreendente e preocupante
actualidade. O álbum vale a Adriano Correia de Oliveira o Prémio de
Melhor Artista do Ano atribuído pela revista britânica "Music Week".
A partir de 1975, Adriano não pára de cantar, quer em Portugal, quer no
estrangeiro o que, naturalmente, lhe retira tempo para preparar novas
gravações. Quer antes, quer depois do 25 de Abril, pode dizer-se que não
existe sítio em Portugal onde Adriano não tenha cantado, a maioria das
vezes sem as mínimas condições logísticas e técnicas e sem qualquer
compensação monetária. E, por isso, morreu pobre, conta José Niza.
Gravará apenas mais dois discos: em 1978, um single intitulado "Notícias
d’Abril", com duas composições suas sobre poemas de Alfredo Vieira de
Sousa ("Se Vossa Excelência... " e "Em Trás-os-Montes à Tarde"); e em
1980, um álbum de título genérico "Cantigas Portuguesas", em que Adriano
retoma e aprofunda a exploração do nosso riquíssimo cancioneiro
tradicional que havia iniciado nos anos 60. Os arranjos e a direcção
musical são mais uma vez de Fausto Bordalo Dias e entre os
instrumentistas contam-se o próprio Fausto e Pedro Caldeira Cabral.
Fiel ao espírito de grupo que sempre o animou, Adriano Correia de
Oliveira é, em 1979, um dos fundadores da CantarAbril, cooperativa de
músicos ligada ao Partido Comunista Português. Decorridos dois anos,
será alvo de um processo pouco digno para a direcção da cooperativa que,
pura e simplesmente, decide expulsá-lo. Motivo invocado: uma alegada
dívida de 40 contos e a «inadaptação de Adriano à perspectiva
mercantilista de mercado». Alguns dos seus colegas de ofício como Luís
Cília, Fausto e José Afonso solidarizam-se com ele. A saúde do cantor já
está consideravelmente degradada devido ao consumo imoderado de álcool.
As suas actuações no último ano de vida, nomeadamente num concerto de
apoio aos jornalistas da ANOP, ameaçados de desemprego, são fortemente
afectadas por esse problema. A cooperativa ia endossando os convites
dirigidos a Adriano para outros cantores da casa. Na altura em que mais
precisava de apoio e de ajuda, Adriano vê-se abandonado e atraiçoado por
muitos dos seus antigos companheiros de luta. Dois anos mais tarde,
numa sessão assinalando o primeiro ano sobre a morte de Adriano Correia
de Oliveira, na presença de vários membros da Cantarabril, o jornalista
Júlio Pinto, também ex-militante do PCP, acusa de assassinos os que o
expulsaram da cooperativa. Adriano seria depois recebido na cooperativa
Era Nova, ligada a cantores próximos da extrema-esquerda, como Fausto e
José Mário Branco. Mas já de pouco lhe serviu. Morre a 16 de Outubro de
1982, em Avintes, nos braços da mãe, vítima de uma hemorragia no
esófago. Tinha 40 anos de idade e deixa vários projectos por realizar,
designadamente uma regravação dos seus temas mais antigos.
No ano seguinte, a Orfeu lança um LP duplo contendo 22 temas intitulada
"Memória de Adriano" (reeditado em CD pela Movieplay, em 1992). Em 1994,
a Movieplay publica a sua "Obra Completa", numa caixa com 7 CDs
(organizados tematicamente por José Niza) acompanhados de um livrinho
com textos de Manuel Alegre, Paulo Sucena e José Niza. Ainda em 1994, a
mesma editora lança uma compilação de 18 temas do cantor, na série "O
Melhor dos Melhores". Posteriormente, alguns dos álbuns originais como
"O Canto e as armas", "Cantaremos", "Gente de Aqui e de Agora" e "Que
Nunca Mais" são também editados em CD.
«A voz do Adriano era uma voz alegre e triste. Solidária e solitária,
havia nela ternura e mágoa, esperança e desesperança, amparo e
desamparo, festa e luta. E também saudade e fraternidade. Nenhuma outra
voz portuguesa, com excepção das de Amália Rodrigues e José Afonso, está
tão carregada desse não sei quê antigo que trazemos no sangue, como o
apelo do mar e o amor da terra, como a toada e o tom do nosso próprio
ser, do seu ritmo secreto, da sua música primordial. Voz de Fado e de
destino, herança talvez do mouro e do celta que nos habitam, a voz de
Adriano tinha também o masculino apelo do rebate e do combate. Era uma
voz que precisava de poesia e de que a poesia precisava», escreve Manuel
Alegre. E acrescenta: «Sem a voz de Adriano, muitos dos poemas que os
poetas escreveram não teriam chegado onde chegaram. Foi pela sua voz que
eles chegaram ao povo e ao país inteiro, a tal ponto que alguns desses
poemas deixaram de ter autor para passarem a fazer parte da nossa
memória comum e do nosso canto colectivo».
Contudo, os media portuguesas, sobretudo a rádio, muito pouco têm feito
em prol da memória de Adriano Correia de Oliveira. Apesar de estar
totalmente publicada em CD, a sua riquíssima obra tem sido alvo de um
silenciamento, a todos os títulos criminoso, principalmente por estar a
ser negada aos mais jovens a oportunidade de tomarem conhecimento do
legado de um dos compositores / intérpretes superlativos da música
portuguesa de sempre. Em Maio de 2006,
lavrei o meu protesto pelo que se estava a passar na rádio pública,
designadamente na Antena 1 mas, infelizmente, e apesar de ter enviado
uma cópia do texto aos altos responsáveis da estação pública, constato
com mágoa e revolta que o grande cantor continua arredado dos
alinhamentos de continuidade ("playlists"). Espero que no ano em que se
comemoram os 65 anos do seu nascimento e se assinalam os 25 anos da
morte, a direcção da RDP encabeçada por Rui Pêgo tenha a lucidez e a
sapiência de corrigir a vergonhosa situação, mais própria de um país
obscurantista e culturalmente atrasado. Foi também a pensar nisso que
tomei a iniciativa de elaborar este texto.
Discografia:
- Noite de Coimbra (EP, Orfeu, 1960)
- Balada do Estudante (EP, Orfeu, 1961)
- Fados de Coimbra (EP, Orfeu, 1961)
- Fados de Coimbra (EP, Orfeu, 1962)
- Trova do Vento Que Passa (EP, Orfeu, 1963)
- Lira (EP, Orfeu, 1964)
- Menina dos Olhos Tristes (EP, Orfeu, 1964)
- Elegia (EP, Orfeu, 1967)
- Adriano Correia de Oliveira (LP, Orfeu, 1967)
- Margem Sul (LP, Orfeu, 1967)
- Adriano Correia de Oliveira (EP, Orfeu, 1968)
- Rosa de Sangue (EP, Orfeu, 1968)
- O Canto e as Armas (LP, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1997)
- Cantaremos (LP, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1999)
- Trova do Vento Que Passa nº. 2 (EP, Orfeu, 1971)
- Cantar de Emigração (EP, Orfeu, 1971)
- Gente de Aqui e de Agora (LP, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1999)
- Batalha de Alcácer Quibir (EP, Orfeu, 1972)
- Lágrima de Preta (EP, Orfeu, 1972)
- O Senhor Morgado (EP, Orfeu, 1973)
- Fados de Coimbra (LP, Orfeu, 1973)
- A Vila de Alvito (EP, Orfeu, 1974)
- Que Nunca Mais (LP, Orfeu, 1975; CD, Movieplay, 1997)
- Para Rosalía (EP, Orfeu, 1976)
- Notícias d’Abril (Single, Orfeu, 1978)
- Cantigas Portuguesas (LP, Orfeu, 1980)
- Memória de Adriano (2LP, Orfeu, 1983; CD, Movieplay, 1992)
- Adriano Correia de Oliveira: O Melhor dos Melhores, vol. 40 (CD, Movieplay, 1994)
- Obra Completa (7CD, Movieplay, 1994)
1. Fados e Baladas de Coimbra
2. Cantigas Portuguesas
3. Trova do Vento Que Passa: Adriano Canta Manuel Alegre (I)
4. O Canto e as Armas: Adriano Canta Manuel Alegre (II)
5. Gente de Aqui e de Agora e Outras Canções: Adriano Canta José Niza
6. Que Nunca Mais: Adriano Canta Manuel da Fonseca
7. A Noite dos Poetas
- Adriano Correia de Oliveira: Clássicos da Renascença, vol. 28 (CD, Movieplay, 2000)
- Vinte Anos de Canções (CD, Movieplay, 2001)
Fontes:
- Literatura inclusa na discografia de Adriano Correia de Oliveira
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Página http://adriano.esenviseu.net/index.asp
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Batalha de Alcácer Quibir
- As Balas
- As Mãos
- Balada do Estudante
- Barcas Novas
- Cana Verde
- Canção da Beira Baixa
- Canção com Lágrimas
- Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência
- Canção Tão Simples
- Canção Terceira
- Cantar de Emigração
- Cantar Para Um Pastor
- Charama
- Deus te Salve, Rosa
- E o Bosque se Fez Barco
- Emigração
- Exílio
- Fala do Homem Nascido
- História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro
- Lágrima de Preta
- Margem Sul
- Menina dos Olhos Tristes
- No Vale Escuro
- Pedro Soldado
- Pensamento - Peregrinação
- Pescador do Rio Triste
- Raiz
- Regresso
- Rosa dos Ventos Perdida
- Roseira Brava
- Rosinha
- Sapateia
- Sou Barco
- Tejo Que Levas as Águas
- Trova do Amor Lusíada
- Trova do Vento Que Passa
- Trova do Vento Que Passa n.º 2
- Tu e Eu Meu Amor
- Vira Velho
(todos os temas in "Obra Completa")
Tejo Que Levas as Águas
Poema: Manuel da Fonseca
Música e voz: Adriano Correia de Oliveira
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro
Lava palácios, vivendas
casebres, bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais
Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder de uns senhores
que compram corpos e almas
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos, corpos destroçados
lava-os com sal e iodo
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar