Na passagem do 4º aniversário da morte de SOPHIA, o Cravo de Abril presta a sua homenagem àquela que é uma figura de primeira grandeza da POESIA portuguesa de todos os tempos.
Assinalamos esta data com a publicação do notável texto lido por
SOPHIA,
em 11 de Julho de 1964, no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa
de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia a
LIVRO SEXTO:
«A
coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro
do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha.
Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade
irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de
imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.
Mais
tarde, a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu
próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse
esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e
acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso.
Dizer que a obra de
arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A
obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre
a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um
círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real
fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz,
evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta.
Quem procura uma
relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente
levado, pelo espírito de verdade que o anima, procurar uma relação
justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é
logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. É apenas uma
questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a
poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça
pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde
sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética.
Vemos que
no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras.
Diz o coro de Ésquilo: "Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado
com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça." Pois a justiça
se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo
onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que,
segundo Dante, move o sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa
confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo.
Se
em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão, também em
frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é
íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si
mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a
unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum
código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas,
porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em
que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de
tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do
pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a
poesia do nosso tempo diz: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos
desastres." Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima
estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista
não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de
marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da
convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e
o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como
melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma
obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a
formação duma consciência comum. Mesmo que ele fale somente de pedras ou
de brisas, a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos
apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por
direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos
aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua
comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre
Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E
tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar,
saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar
aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.»
2.7.2008