Na tombola que é a distribuição dos serviços diários na Fotografia do Público, fui contemplado com uma entrevista a Odete Santos no ano 2000. Telefonei-lhe e marcámos um encontro.
A grande Odete apareceu com a maior das simplicidades. Falámos de tanta coisa que acabámos por nos encontrar também no dia seguinte. Odete queria ser fotografada junto às mulheres que se iam manifestar no terreiro do paço. Percebi que era ali que se sentia bem. Mulher de combate. A Odete era genuína. Não era comunista por acidente. Era comunista inteira. Como muito poucos. Era das mais brilhantes deputadas. Não era uma deputada de bancada. Não era mais uma no meio de tantos. Era uma deputada do terreno. Ligada às pessoas. Ligada à justiça social e à liberdade. Não quis ser fotografada na AR. Quis ser fotografada no palco (não me lembro que sala) e junto ao rio Tejo. Ali, a grande Odete, a brilhante deputada. A obreira da democracia. A mulher da luta. Todos os dias. Junto ao rio, com as gaivotas a voarem em liberdade. A Odete Santos não morreu.
Nunca fui turista em Cuba. Nunca dormi num hotel nem molhei o cu em
Varadero. Ganhei enormes bolhas nas mãos. Rebentaram-se os lábios de
tanto cieiro. Transpirei ao ritmo da catana e da enxada
Em 1994 era um tenro fotógrafo e tinha ganho um prémio em Espanha. Em
Cuba, milhares de Balseros partiam do Malecon em direcção ao
desconhecido. No avião da Ibéria sentia o nervoso miudinho. Gastei todo o
valor do prémio num bilhete para Havana. Era louco. Talvez. Deixei a
minha avó a chorar. Deixei. Mas o que importava se um lado da história
estava em Cuba? Todas as manhãs e a todas as horas, jornais e televisões
debitavam barcos improvisados. Cuba era somente Malecon. E a outra
Cuba? Foi então que parti para Caimito. De catana numa mão e máquina
fotográfica na outra.
Vivíamos o tempo negro. O Período Especial. Lojas vazias. Autocarros
sem peças. Prédios gastos. Luz só de vez em quando. Racionamento de
leite e iogurtes. A palavra de ordem era resolver. E com engenho e
persistência os cubanos resolviam. A música não faltava. Assim como não
faltava a união.
O bloqueio do vizinho e a queda do muro fizeram
de Cuba uma despensa vazia. Não existia quase nada. Desde o simples
sabonete ao barril de petróleo. O que existia em abundância era a
dignidade, e isso foi fundamental para os cubanos. O seu sistema de
saúde e educação que fazem corar um país desenvolvido continuou a
funcionar, a taxa de mortalidade infantil continuou mais baixa que a dos
Estados Unidos, a alimentação chegou a todos. E quando a Rússia fechou
todas as portas, Cuba continuou de portas abertas para receber as
crianças vítimas de Chernobyl e tratá-las nos seus hospitais.
Nunca fui turista em Cuba. Nunca dormi num hotel nem molhei o cu em
Varadero. Ganhei enormes bolhas nas mãos. Rebentaram-se os lábios de
tanto cieiro. Transpirei ao ritmo da catana e da enxada. Fiz quilómetros
de bicicleta. Fiz outros a pé ou de boleia. Percorri quase toda a ilha.
Fui a festas em casas modestas. Entrei em escolas e hospitais. Discuti
muito. Com artistas, com médicos, com varredores de rua, com reformados.
Abracei imensa gente. Beijei com amor. Amor sentido de que algo de
mágico me estava a acontecer. Não sabia o que era e ainda hoje não sei.
O povo cubano é diferente. Não parece deste mundo. Eu, fruto do
capitalismo desenvolvido, sentia-me pequeno perante a grandeza de
tamanha gente. Culta, interessada, inteligente e, coisa rara, humana. Em
cada esquina, em cada quarteirão, numa avenida, num largo, num café,
numa marginal, num quarto, numa cozinha, numa escola, num ministério,
num cabeleireiro, sentia a solidariedade a fervilhar. Respiravam-se
outros valores e fiquei sem respiração quando um velho me convidou a
entrar na sua casa. Olha, tenho casa, televisão, banheiro e até
batedeira. O velho em novo foi criado de americano. Não tinha nada, só
as suas mãos e a força do saber que alguma coisa tinha de mudar. A
revolução deu-lhe quase tudo. Outras tantas faltarão.
Depois de meses a aprender a ser cubano aprendi que nunca lá
chegaria. Numa noite de trovoada, a Ângela, uma negra grande e linda,
olhou-me nos olhos e disse "fica". Não fiquei. Não tinha a grandeza
humana que um cubano tem. Depois de meses em Cuba regressei a Portugal e
todos os santos domingos ia a uma cabine telefónica para ouvir a voz
doce da Ângela.
Um dia a Ângela aterrou na Portela. Foram dias loucos. E numa noite
num hotel em Lisboa olhei-a nos olhos e disse "fica". Não ficou. Tinha
de ajudar Cuba.
O amor impossível findou. Ficamos os dois nos nossos mundos tão
distantes e tão próximos. Nunca mais voltei a aterrar em Havana.