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Tuesday, March 31, 2026

Uma flor de verde pinho

 
Eu podia chamar-te pátria minhaDar-te o mais lindo nome portuguêsPodia dar-te um nome de rainhaQue este amor é de Pedro por Inês
Mas não há forma, não há verso, não há leitoPara este fogo, amor, para este rioComo dizer um coração fora do peito?Meu amor transbordou e eu sem navio
Gostar de ti é um poema que não digoQue não há taça, amor, para este vinhoNão há guitarras nem cantar de amigoNão há flor, não há flor de verde pinho
Não há barco nem trigo não há trevoNão há palavras para escrever esta cançãoGostar de ti é um poema que não escrevoQue há um rio sem leito e eu sem coração
Mas não há forma, não há verso, não há leitoPara este fogo, amor, para este rioComo dizer um coração fora do peito?Meu amor transbordou e eu sem navio
Gostar de ti é um poema que não digoQue não há taça, amor, para este vinhoNão há guitarras nem cantar de amigoNão há flor, não há flor de verde pinho

Manuel Alegre

Monday, March 30, 2026

Novo Fado Alegre

 
Amiga, abre também a tua voz e vem comigoNão cantaremos nunca mais o fado antigoAgoraEm cada verso há um homem que não choraE o futuro é o sítio onde se moraCantar é ser um pássaro de esperançaPoisado no olhar duma criançaQue de olhar nunca se cansa
AmigaVou te dizer palavras loiras como o trigoHoje cantar é aprender a estar contigoAgoraCada palavra tem o gosto duma amoraQue a gente apanha e morde pela vida foraCantar é ter um sol dentro da vozE repartir o sol por todos nósCantar é não estarmos sósAmigaVou te bater com as palavras ao postigoEscuta o sentido das notícias que te digo
AgoraCada canção terá a força duma auroraQue a gente acende e leva pela vida foraCantar é ser um pássaro de esperançaPoisado no olhar duma criançaQue de olhar nunca se cansaAmigoNão tenhas medo do cansaço ou do castigoA nossa voz dá-nos calor, dá-nos abrigoA horaÉ de mandarmos a saudade e o choro emboraE noutro fado desgarrarmos vida foraA horaÉ de mandarmos a saudade e o choro emboraE noutro fado desgarrarmos vida fora

Ary dos Santos

Sunday, March 29, 2026

No teu poema

 
No teu poemaExiste um verso em branco e sem medidaUm corpo que respira, um céu abertoJanela debruçada para a vida
No teu poemaExiste a dor calada lá no fundoO passo da coragem em casa escuraE, aberta, uma varanda para o mundo
Existe a noiteO riso e a voz refeita à luz do diaA festa da Senhora da AgoniaE o cansaçoDo corpo que adormece em cama fria
Existe um rioA sina de quem nasce fraco ou forteO risco, a raiva e a luta de quem caiOu que resisteQue vence ou adormece antes da morte
No teu poemaExiste o grito e o eco da metralhaA dor que sei de cor, mas não recitoE os sonos inquietos de quem falha
No teu poemaExiste um canto, chão alentejanoA rua e o pregão de uma varinaE um barco assoprado a todo o pano
Existe um rioO canto em vozes juntas, vozes certasCanção de uma só letraE um só destino a embarcarNo cais da nova nau das descobertas
Existe um rioA sina de quem nasce fraco ou forteO risco, a raiva e a luta de quem caiOu que resisteQue vence ou adormece antes da morte
No teu poemaExiste a esperança acesa atrás do muroExiste tudo o mais que ainda me escapaE um verso em branco à espera do futuro

José Luís Tinoco

Saturday, March 28, 2026

Cantiga de Maio

 
Trago dentro da garganta
As letras do teu nome
Quando um homem se levanta
Grita fúria em vez de fome
Só a força das palavras
Fez do medo esta verdade
Quando é teu o chão que lavras
O arado é liberdade
Meu país vontade corcel de saudade vencida
Meu povo em viagem ganhando a coragem perdida
Meu trigo meu canto meu maio de espanto doendo
Meu abril tão cedo tão tarde meu medo morrendo
Meu amor ausente meu beijo por dentro queimado
Num tempo tão lento tardamos no vento até quando
Até quando?
Trago as palavras desertas
Na canção que eu inventei
E nas duas mãos abertas
Estas veias que rasguei
Por isso o meu sangue corre
Na seiva da primavera
Sou um homem que não morre
Sou um povo que não espera
Meu país vontade corcel de saudade vencida
Meu povo em viagem ganhando a coragem perdida
Meu trigo meu canto meu maio de espanto doendo
Meu abril tão cedo tão tarde meu medo morrendo
Meu amor ausente meu beijo por dentro queimado
Num tempo tão lento tardamos no vento até quando
Até quando?

Joaquim Pessoa

Friday, March 27, 2026

Os Lobos e Ninguém

 

Cresceu nas pedras
Falou sozinho com a voz de relento
Soube do sabor da morte, da sorte e do vento.
Cresceu calado
Dormiu sozinho na terra batida
Marchou descalço no pó dos caminhos da vida.
Guardou os rebanhos dos lobos à chuva e ao frio
Suou tardes de terra dura na ponta do estio
Comeu do pão magro
Da magra soldada
Largou a enxada
Largou o noivado
Largou p´ra cidade mais perto
Para um pão mais certo.
Malhou no ferro
Abriu trincheiras, estradas.
Sonhou.
Andou no mato perdeu a infância.
Matou.
Marchou caldo
Dormiu sozinho na terra batida
Caiu descalço no pó dos caminhos da vida.
E os lobos lá longe.
E as asas de abutre sem cara.
E o medo na tarde, na farda, no corpo, na arma
Soldado na morte
Do mato no norte
Na sorte do vento
No fogo da terra
Nascido descalço
Crescido nas pedras
Dormido sozinho
No pó do caminho
Enxada
Pão magro
Relento
Soldado
Na ponta do estio.
E o medo na tarde
E os lobos lá longe.
E as asas de abutre sem cara.


José Luís Tinoco

Thursday, March 26, 2026

Estrela da Tarde

 
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca tardando-lhe o beijo morria.
Quando à boca da noite surgiste na tarde qual rosa tardia
Quando nós nos olhámos, tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos, unidos, ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia.

       Meu amor, meu amor
       Minha estrela da tarde
       Que o luar te amanheça
       E o meu corpo te guarde.
       Meu amor, meu amor
       Eu não tenho a certeza
       Se tu és a alegria
       Ou se és a tristeza.
       Meu amor, meu amor
       Eu não tenho a certeza!

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram
E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo morreram.

       Meu amor, meu amor
       Minha estrela da tarde
       Que o luar te amanheça
       E o meu corpo te guarde.
       Meu amor, meu amor
       Eu não tenho a certeza
       Se tu és a alegria
       Ou se és a tristeza.
       Meu amor, meu amor
       Eu não tenho a certeza!

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto
É por ti que adormeço e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas'

Wednesday, March 25, 2026

Onde é Que Tu Moras?

 
Meu amor dormindo
Meu sonho acordado
Teu ventre parindo
Um cravo encarnado.
Onde é que tu moras
Meu lençol de espanto
Por quem é que choras
Quando eu te canto.
Aqui
À procura de ti nesta canção
Vou dando tudo em troca desse não
Que faz do meu poema solidão.
Aqui
Tão só como a certeza em que te espero
Dentro de mim renasce o desespero
Por tudo o que eu não amo o que eu não quero.
Aqui
Entre rosas de raiva e de tormento
Trago anéis de silêncio e sofrimento
Conto as forcas de sangue que há no vento.
Aqui
Tenho a fúria nos dedos desenhada
Farei do nosso amor a barricada
Perdendo quase tudo quase nada.
Meu amor dormindo
Meu sonho acordado
Teu ventre parindo
Um cravo encarnado.
Onde é que tu moras
Meu lençol de espanto
Por quem é que choras
Quando eu te canto.
Meu azul doendo
Meu barco parado
Pássaro morrendo
Mas sem ter voado.

Joaquim Pessoa

Tuesday, March 24, 2026

Maria-criada, Maria-senhora

 

Disse adeus aos pais, adeus à montanha
Por trinta dinheiros desceu à cidade
Maria-criada para servir às ordens,
Maria-mulher de menor idade.
Maria tão só numa casa cheia,
Maria tão cheia de se sentir só
Entrega o seu corpo, quer criar raízes
Oferece amor e recebe dó.
Maria que chora, que se entrega a outros,
E a cada domingo não os vê voltar,
Maria que aprende a usar o corpo
Por mais dez dinheiros, para se enfeitar
Perdida por um, perdida por mil
A família longe, sem saber de nada,
Maria-senhora para servir à hora,
Veste-se de seda, já não é criada. (bis)


Tozé Brito