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Tuesday, March 31, 2026

Uma flor de verde pinho

 
Eu podia chamar-te pátria minhaDar-te o mais lindo nome portuguêsPodia dar-te um nome de rainhaQue este amor é de Pedro por Inês
Mas não há forma, não há verso, não há leitoPara este fogo, amor, para este rioComo dizer um coração fora do peito?Meu amor transbordou e eu sem navio
Gostar de ti é um poema que não digoQue não há taça, amor, para este vinhoNão há guitarras nem cantar de amigoNão há flor, não há flor de verde pinho
Não há barco nem trigo não há trevoNão há palavras para escrever esta cançãoGostar de ti é um poema que não escrevoQue há um rio sem leito e eu sem coração
Mas não há forma, não há verso, não há leitoPara este fogo, amor, para este rioComo dizer um coração fora do peito?Meu amor transbordou e eu sem navio
Gostar de ti é um poema que não digoQue não há taça, amor, para este vinhoNão há guitarras nem cantar de amigoNão há flor, não há flor de verde pinho

Manuel Alegre

Saturday, April 13, 2024

Romance de uma árvore à beira do caminho

Perto de Espinho havia uma árvore
havia uma árvore à beira do caminho.
E havia um buraco naquela árvore
perto de Espinho.

(E o povo sabia que havia um buraco
naquela árvore à beira do caminho.)

Mas quando vieram os embuçados
à procura de um médico em terras de Espinho
ninguém disse nada sobre o homem escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Esta é uma história que todos sabem
em terras de Espinho.
Esta é a história de uma árvore
à beira do caminho.

Era noite cerrada noite negra
era noite de morte no caminho.
E de repente chegaram os embuçados:
procuravam um médico em terras de Espinho.

Era noite sem lua noite de emboscada
noite de um homem não andar sozinho.
As bocas fecharam-se ninguém contou nada.
Era noite de embuçados no caminho.

Disseram ao povo que havia um ferido.
Mostraram as mãos: seria sangue? Seria vinho?
E ninguém foi chamar o médico escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Era noite sem lua noite de sangue
era noite de esperas no caminho
embuçados chegaram. Embuçados partiram.
Procuravam um médico em terras de Espinho.

Já corre um mensageiro para aquela árvore
à beira do caminho.

Há embuçados. Falaram dum ferido.
Mas o sangue que vimos era vinho.

Já o médico sai do seu buraco
naquela árvore à beira do caminho.
(ai a noite sem lua
ai o sangue que tem a cor do vinho.)

Catorze balas o esperavam
catorze balas o mataram nessa noite em Espinho.
E nunca mais o médico se escondeu
naquela árvore à beira do caminho.

Mas todos os anos na mesma noite
em que o sangue correra nessa aldeia de Espinho
mãos invisíveis vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.

De novo vieram os embuçados
de novo mataram em terras de Espinho.
Quando se foram já não havia
aquela árvore à beira do caminho.

Mas no dia seguinte no mesmo sítio
onde o médico se escondia perto de Espinho
as mãos dos pobres vinham plantar
outra árvore à beira do caminho.

Manuel Alegre

Sunday, October 01, 2017

Nambuangongo, meu amor


Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
e a cabeça cortada e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo 
tempo exactamente em cima do nosso tempo.
Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.

Manuel Alegre

Friday, October 16, 2015

Memória da voz da ternura


Soneto a Adriano

Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.


Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.


O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem quer caber e não cabia.


Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.


Manuel Alegre