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Sunday, May 05, 2024

1º de Maio de 1982 no Porto

 O sangrento 1º de Maio do Porto e os mortos esquecidos de 1982

O sangrento 1º de  Maio do Porto e os mortos esquecidos de 1982
Durante duas horas, homens fardados e sem freio batem e disparam às cegas. Os jornalistas “comem como os outros”, dirá um deles. Afinal, justifica, estavam ali “para bater e não para chamar ambulâncias”. Nem o serviço de Urgência do Hospital de Santo António é poupado: entram espumando e carregam sobre familiares de feridos.

O dia é 30 de abril de 1982. D. António Ferreira Gomes, bispo resignatário do Porto, recebe a medalha de ouro da cidade. A companhia Seiva Trupe estreia A Dama de Copas. O Coliseu anuncia boxe profissional a 250 escudos o bilhete, para maiores de 14. O Porto amanhece soalheiro, mas tem a noite pendente dos meses de brasa vividos por conta da guerra inflamada por dirigentes sindicais, políticos e editores de jornal: pela primeira vez, com a ajuda do Governo Civil, a UGT conquista à CGTP o direito de comemorar o “Dia do Trabalhador” em plena baixa.

“Risco de confrontos”, alerta-se nas primeiras páginas dos jornais. A “polícia de choque”, dita de Intervenção, avança da capital para o Porto munida de escudos, bastões, G-3, pistolas e gases lacrimogénios. Há comícios marcados de véspera e na Avenida dos Aliados desenham-se trincheiras: os apaniguados de Torres Couto, então secretário-geral da UGT instalam-se em frente ao edifício da Câmara Municipal, protegidos por um cordão policial. A CGTP ocupa a outra fatia da “sala de visitas” da cidade. Um cordão humano de “intersindicais” insulta e protesta contra o aparato policial, junto ao evento da UGT. “A baixa é do povo!”, gritam.

São nove horas da noite. A RTP transmite Plantão de Polícia e anuncia, para depois, o concurso Toma Lá, Dá Cá. O boxe já começou no Coliseu.

O comando distrital da PSP assume as operações e dispersa alguns agitadores à bastonada, sem grandes escaramuças. Às 23 horas, Ramos Rocha, comandante das forças no terreno, adivinha um resto de noite calmo: “Não deve haver mais problemas”, afirma. Magalhães Teixeira, comissário e responsável direto pelos pelotões da “polícia de choque” em diversas artérias de acesso à baixa, tem outros planos. Sem fazer caso da aparente tranquilidade e das ordens superiores para atuar apenas em “caso extremo”, ordena a carga policial. Rua a rua. Sem olhar a quem.

Para descrever o cenário que se seguiu, a Procuradoria-Geral da República não poupou nas palavras: “[Os polícias] agrediram indiscriminadamente todas as pessoas que se encontravam à sua frente, à bastonada e a pontapé, e às vezes com obscenidades, independentemente do sexo e idade; quer arremessassem pedras ou nada fizessem; quer fossem em fuga ou simplesmente estivessem paradas, mormente abrigadas em paragens de autocarros ou nas soleiras dos prédios. Todos eram agredidos, muitas vezes de forma selvática e por mais de um elemento policial contra a mesma pessoa, mesmo que esta se encontrasse prostrada no chão e indefesa”. Fim de citação.

Durante duas horas, homens fardados e sem freio batem e disparam às cegas. Os jornalistas “comem como os outros”, dirá um deles. Afinal, justifica, estavam ali “para bater e não para chamar ambulâncias”. Nem o serviço de Urgência do Hospital de Santo António é poupado: entram espumando e carregam sobre familiares de feridos. Foi necessária a intervenção de médicos e enfermeiros para que a violência parasse. “Pareciam cães”, lembra uma manifestante. Alguns policias dizem-se também agredidos e feridos, mas são apenas tratados a “torsões lombares” causadas pela brutalidade com que usaram os bastões.

Passa da meia-noite quando Pedro Vieira, 24 anos, operário têxtil e dirigente sindical, sai do cinema com a namorada. É apanhado pelos acontecimentos e vê-se obrigado a fugir à sanha policial. Os amigos fazem o mesmo. Ele desata a correr a caminho da ponte D. Luíz I, em direção a Gaia, onde mora. Um polícia dispara e atinge­-o, pelas costas. Alvejado, Pedro corre ainda alguns metros, amparado pelos amigos. Por pouco tempo. Cai minutos depois, inerte, em consequência de lesões no tórax.

Quase duas horas mais tarde, Mário Gonçalves, 17 anos, olha, incrédulo, para as cenas que se desenrolam à sua frente. É vendedor ambulante, não é manifestante, observa apenas, enquanto conversa com os amigos, bem perto da Estação de São Bento. A agitação amedronta-o. Os amigos correm e ele, atrás de um muro, espreita. Um polícia dispara. E corre a confirmar o feito, olhar vazio num rosto de sangue. “Foi uma coisa horrível. O meu filho mais pequeno até se mijou com os nervos, de medo”, conta uma vizinha do morto ao jornalista Manuel António Pina. Mário não estava a fazer nada. Era filho de gente simples, humilde. Anos depois, a família há de contentar-se com uma indemnização, “a primeira vez que o Estado assumiu, de algum modo, a responsabilidade por excessos da polícia”, precisou, em tempos, o advogado José Afonso.

A 1 de Maio de 1982, a morte saiu à rua. Feridos, foram às dezenas. Podia ter sido pior, comentou-se, à época: “Vi um polícia tentar atingir uma pessoa pelas costas. E só não o fez porque a arma encravou no momento do disparo”, recorda Alfredo Mendes, antigo jornalista do DN, repórter na noite sangrenta do Porto. Inquiriu-se, investigou-se, nada. Só as balas extraídas dos cadáveres falam: o calibre é usado apenas por graduados (comissários, chefes de esquadra e sub-chefes) do Corpo de Intervenção.

O País ferve. O Governo da Aliança Democrática (AD), presidido por Pinto Balsemão, “lança a polícia na rua, deixa que agentes enfurecidos persigam gente desarmada”, lê-se no editorial do semanário O Jornal, que reclama o apuramento dos factos até às últimas consequências. Ramalho Eanes, Presidente da República, indigna-se. Pede-se a demissão de Ângelo Correia, Ministro da Administração Interna, então figura de anedotário nacional por causa de uma fantasiosa “revolta dos pregos”, fake news da época. Mas o homem não se demite.

Maio adentro, CGTP e UGT responsabilizam-se mutuamente. Rui Oliveira e Costa, homem próximo de Torres Couto, acusa a Intersindical de utilizar trabalhadores “como carne para canhão”. O Governo lava as mãos.

Sucedem-se as crises no seio da coligação governamental, o País arde em greves, manifestações. As notícias dão conta das dificuldades de Ramalho Eanes, inquilino de Belém, para deitar água nas várias fervuras. Mário Soares é o líder da oposição. Álvaro Cunhal é o secretário-geral do PCP. Mas a esquerda só concorda na divergência. UGT e CGTP radicalizam acusações. A crise económica é real. Noticia-se o saneamento de dirigentes sindicais, o despedimento de mulheres grávidas. Os acontecimentos do Porto, quase poderia dizer-se, são um retrato da época. Carregado nas tintas.

Entretanto, o Papa João Paulo II está para chegar. A CGTP pede uma audiência a Sua Santidade, pois pretende relatar-lhe, de viva voz, as horas sangrentas do Porto. “Agenda carregada”, respondem do Vaticano. O bispo também não recebe. O pároco da Sé, esse, recusa dizer missa em homenagem aos mortos do 1º de Maio.

O funeral das vítimas entope as principais artérias da baixa da cidade. As ruas irrigam-se de protestos. O País veste de luto. Torres Couto comenta: “Foi uma passeata de dois caixões pela cidade”.

(A partir de um artigo publicado na VISÃO, a 24 de Abril de 2002)

Miguel Carvalho

Visão, 30.04.2019 às 17h24

Thursday, November 17, 2022

Intervenção de JS no funeral de JC

Intervenção de Jerónimo de Sousa, Secretário-Geral do PCP
no Funeral de José Casanova

16 Novembro 2014

Aqui estamos para prestar a justa e devida homenagem ao José Casanova. Para a Cândida, para os filhos Catarina e Miguel, a mais sentida palavra de pesar ainda que sabendo que palavras não há para preencher o vazio que o José Casanova lhes deixa, mas também a este imenso colectivo de camaradas e amigos que habituou à sua inesquecível presença.

Aqui viemos hoje, não para nos despedirmos de um camarada, mas para afirmar que embora partindo do convívio com os seus camaradas, os seus amigos e em particular com a sua família, o José Casanova estará presente em todos e em cada um dos muitos momentos que nos reunirão para continuar os combates e a luta que ele sempre abraçou. Deixou de estar entre nós um homem bom, um amigo solidário, um combatente antifascista e construtor de Abril, um Comunista. Mas o seu percurso de vida, de militante e dirigente do PCP perdurará em todos e em cada um de nós para prosseguirmos a luta de emancipação social que o animou.

Natural de uma terra de lutadores que inscreveram o Couço num dos mais emblemáticos locais de resistência contra a opressão e a iniquidade do regime fascista, Casanova que bem cedo aderiu ao PCP tem o seu percurso de vida ligado à luta pela liberdade e a democracia. Com 19 anos iniciou a sua participação na União da Juventude Portuguesa tendo integrado a sua Direcção.

Assumiu como jovem comunista, nas candidaturas de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, papel destacado tendo desempenhado diversas tarefas partidárias no País nas décadas de 50 e 60 do Século passado. Preso pela PIDE em 1960, julgado e condenado a dois anos de prisão, Casanova permaneceu cerca de seis anos detido tendo passado pelas cadeias do Porto, Caxias e Peniche. Exilado na Bélgica no início da década de 70 aí prosseguiu a actividade partidária tendo sido presidente da Associação dos Portugueses Emigrados na Bélgica e mantendo contactos com os movimentos de libertação das ex-colónias.

Com o 25 de Abril José Casanova regressa a Portugal para prosseguir no nosso País a luta. Membro do Comité Central desde 1976 e da Comissão Política de 1979 a 2008, José Casanova foi, entre outras tarefas, responsável pelas Organizações Regionais de Lisboa (entre 1989 e 1996), de Santarém (em 1997 e 1998) tendo ainda, no início dos anos 2000 tido a responsabilidade pelo acompanhamento das regiões autónomas dos Açores e da Madeira. José Casanova foi director do «Avante!», órgão central do PCP entre 1997 e Fevereiro deste ano. Era actualmente responsável pela Comissão Nacional de Cultura.

Participante activo no exaltante processo de transformação social que a Revolução de Abril constituiu, José Casanova esteve associado às muitas batalhas, tarefas e luta que, primeiro no processo revolucionário, depois na resistência ao processo contra-revolucionário, mobilizaram o Partido, os trabalhadores e os democratas. Participante desde a primeira hora na Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril ainda na década de 70, Casanova integrou a Comissão Coordenadora da FEPU e da APU tendo desenvolvido um importante papel no trabalho unitário e de convergência com muitos outros democratas.

Homem de imensa cultura, aquela cultura que se ergue de uma vivência inseparável do pulsar do que de mais genuíno brota da incomparável sabedoria dos trabalhadores e do povo de onde vinha, José Casanova deixa-nos também a sua produção no campo literário com os romances “Aquela Noite de Natal”, “O Caminho das Aves” e “O Tempo das Giestas”, bem como outras obras, nomeadamente o livro sobre Catarina Eufémia, recentemente editado.

José Casanova honrou, pelo seu exemplo e dedicação, pelo seu espírito de militância e capacidade política, pela sua intervenção e entrega à luta, as melhores tradições da classe operária, dos trabalhadores e do povo português.

Uma opção que nestes tempos difíceis em que querem impor um futuro de declínio e retrocesso social ao País e a Portugal ganha redobrada importância.

Hoje, como em poucos outros momentos, a luta em que com o Casanova participámos em defesa dos valores de Abril, pela ruptura com a política de direita pela construção de uma alternativa e uma política patrióticas e de esquerda assume particular e decisiva importância.

Uma luta para afirmar direitos que com Abril conquistámos, para dar combate à exploração capitalista que lança para o empobrecimento e para a emigração centenas de milhares de portugueses, para devolver aos jovens o direito de poder ter futuro no seu País, para libertar Portugal da submissão e da dependência.

Essa luta sem tréguas que continuamos a travar para abrir caminho a um Portugal com futuro, para combater falsas alternativas, para ampliar a consciê ncia sobre os reais problemas e responsáveis pela situação a que o País foi conduzido, para alargar a convergência dos democratas e patriotas na afirmação de um Portugal desenvolvido e soberano, tendo o socialismo no horizonte. Muitos, entre outros objectivos de luta, que com o Casanova partilhámos e que saberemos estar a altura de lhe poder dizer, num futuro mais ou menos próximo, “conseguimos Zé”!

Aqui estamos, não para lhe dizer Adeus, mas até sempre, neste reencontro de todos os dias na luta que nos unirá. Com a profunda convicção de que a sua morte não apagará um percurso de vida marcada pela inteira dedicação à luta pela Liberdade, a Democracia, o Socialismo e o Comunismo.
Homens e comunistas assim não morrem.

O José Casanova sabia que o seu Partido de sempre, o seu projecto, o seu ideal, iria prosseguir para além das nossas vidas!

Perduram em cada um de nós neste combate que nos une, na luta que continua.

Até sempre, camarada José!