Saturday, February 04, 2017

HAVEMOS DE VOLTAR


Às casas, às nossas lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar.
Às nossas terras
vermelhas do café
brancas de algodão
verdes dos milharais
havemos de voltar.
Às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar.
Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar.
À frescura da mulemba
às nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar.
À marimba e ao quissange
ao nosso carnaval
havemos de voltar.
À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar.
Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente.
Agostinho Neto 

Wednesday, January 18, 2017

Kyrie


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos

Saturday, January 14, 2017

CONVERSA COM A CHUVA


(Poema infanto-juvenil escrito no outono de 1974 durante as
primeiras chuvas, depois de perder a minha mãe em Julho,
e que permanece inédito.)
*
Gota a gota se faz o teu vestido de água
cobrindo toda a terra: as florestas,
os vales, as montanhas. Gota a gota
te tornas rio e oceano e depois nuvem
e rio e oceano uma vez mais.
E quando és nuvem
rasgas o teu vestido lá no céu
entornando pequenas pérolas de água
que depressa todo o chão bebe e transforma
na seiva que alimenta a jovem macieira
ou o grande castanheiro
e todas as árvores que erguem
os seus ramos para o céu
como se fossem braços
para te abraçar e festejar depois
fazendo desabrochar as flores brancas
vermelhas, lilazes, amarelas ou azuis
com que a primavera se veste para
oferecer ao verão frutos muito doces
que são a água de mãos dadas com a terra
no alto de uma árvore.
Às vezes quando dormimos
os teus pequenos dedos tocam na vidraça
e acordam-nos
como se quisessem entrar
e ter uma casa
ou como se andasses a fugir do frio
e estivesses cansada de ser empurrada
pelo vento.
É por isso que quase sempre
tenho vontade de abrir-te a janela
e falar contigo
para que me contes tudo o que viste
no fundo dos rios
ou no alto das nuvens
como desceste as encostas das montanhas
em que sítio das planícies te escondeste
à espera de voar
voar
voar
voar
como um pássaro transparente
ou como se fizesses um truque de magia.
Há quem não goste de ti
mas eu sim: eu amo-te e adoro ver-te
cair sobre as flores que
lavam a cabeleira perfumada
e guardam minúsculas gotinhas como diamantes
para cortejar depois o sol.
Eu gosto de ficar horas a olhar-te
e de ver as pessoas passarem apressadas
com sombrinhas coloridas
ou com enormes e tristes guarda-chuvas pretos
e penso que as que usam sombrinhas alegres
são como eu: acham que a chuva é uma festa.
A festa da alegria das árvores.
E é por isso que
quando chove o céu se enfeita com
uma bandeira de todas as cores que é
o arco-íris.
Mas também os camponeses gostam de ti
e de te ver poisar nos campos
sobre a sementeira ou o pomar
e mesmo os pinheiros muito altos e direitos
com aquele ar de quem não se interessa
se sentem felizes por se cobrirem depois de pinhas
e ficarem muito verdes
com um belo tronco escuro
como se tivessem comprado um fato novo.
E se é verdade que molhas os sapatos das pessoas
e entras pelos buracos das casas pobres
onde vivem pessoas mais pobres do que as casas
tu não és culpada.
Isso não.
Culpadas são aquelas pessoas
que nunca têm tempo para olhar a chuva
as pessoas sisudas e egoístas
que não se importam nada com a vida dos outros
a não ser com a daqueles
tão distraídas como elas.
Tu não tens culpa. Tu gostas
de toda a gente
porque és como as pessoas boas: generosa
transparente e simples. Só que
por vezes bebes muito no mar
bebes
bebes
e engordas as nuvens
que de tão cheias não cabem lá no céu
e andam
desastradamente umas contra as outras
fazendo trovoada
numa enorme discussão de relâmpagos.
Assim mesmo
eu cá em baixo fico fascinado com a tua luz
e admirado como consegues ter essa voz grossa
que se ouve a quilómetros e quilómetros
de distância. Mas nunca tenho medo
porque sei que não estás zangada
e lembro-me que por vezes
dentro do meu corpo há um barulho assim
quando as vísceras andam às voltas porque
também eu comi mais do que devia.
E quando acabas
os rios estão mais cheios e levam
os barcos mais depressa
os peixes saltam a medir forças com a corrente
e transbordam as albufeiras das barragens
com a tua água
que irá produzir energia eléctrica
uma espécie de relâmpago que entra depois
nas nossas casas
sem nenhum barulho
e dura todo o tempo que quisermos.
Porém muita gente que lê ou escreve até tarde
ou vê televisão
e não gosta da chuva
não se lembra que és tu que trabalhas
entre o céu e a terra
para que possamos ter de noite
uma claridade igual à de todos os dias.
É por tudo isto chuva que eu te amo
e quando passa muito tempo sem te ver
sinto-me já cheio de saudades
e fico impaciente
esperando na minha janela
por vezes esperando muito
mas assim que tu chegas é como
quando a alegria chega ao meu coração
ou recebo uma carta de um amigo
ou ainda
como se a minha mãe que já não tenho
voltasse de muito longe
para me beijar.
Joaquim Pessoa
 in CONVERSA COM A CHUVA (a editar)

Thursday, December 22, 2016

Lagoa



São rios que brotam do teu ventre de mulher e correm por montes e vales até se espraiarem em lago que corre para o mar. Em dias de acalmia o caudal é menor e podem sempre voltar à nascente, desaguando nesse ventre já cansado como se fosses foz. Em noites de tempestade a senhora das águas ergue-se e o mar, violento e imperativo, rasga-te novamente e penetra-te como sempre o fez, para morrer em teus braços. Abre-se o ventre, centro de ti, e deixas correr as águas como se fossem filhos. E nada os detém até se libertarem, adultos e felizes, no encontro com a maior e mais fecunda das vidas: o mar!

Monday, December 19, 2016

Memória de José Dias Coelho


A José Dias Coelho

Seja minha a tua força, irmão
seja meu o teu braço, camarada
Sejam estes muros não um paredão
sejam uma ponte ou mesmo uma estrada.


Seja nela meu o teu anseio, irmão
seja minha a luta que na tua terra travas
seja ela o fruto das coisas que amavas.

Sejam essas coisas, as mesmas, irmão
sejam as que amo aqui nesta cela
seja para sempre a minha na tua mão
seja para todos uma vida bela
seja nela o trigo com a sua cor dourada
sejam as papoilas vermelhas de querer
seja sempre o dia que sucede à madrugada
seja outro o sentido da palavra morrer.

Sejam os mortos aqui ao nosso lado
sejam os seus também os nossos passos
seja em luta o ódio acumulado
sejam retesados nossos membros lassos.

Sejam as colinas de vontade erguidas
seja a sua força a que do amado vem
sejam nossas as tuas palavras queridas
seja minha a tua vontade também.

E não há muros, bombas ou insultos
que detenham as árvores ao nascer da terra
nem façam brotar flores de pensamentos estultos
nem parar o sol. E não será a guerra
com que os lobos sonham em noites de orgia
que impedirão que nasçam.

Das auroras por nascer
das estruturas por erguer
dos caminhos por andar
das flores por brotar
estendem-se as mãos do futuro
que envolvem teu corpo de bandeira.

(Alda Nogueira, Prisão de Caxias, 1963)

Thursday, December 01, 2016

Cabalgando con Fidel


Cabalgando con Fidel

Dicen que en la plaza en estos días
Se les ha visto cabalgar a Camilo y a Martí
Y delante de la caravana
Lentamente sin jinete
Un caballo para ti.


Vuelven las heridas que no sanan
En los hombres y mujeres que no te dejaremos ir
Hoy el corazón nos late a fuera
Y tu pueblo aunque le duela no te quiere despedir.

Hombre, los agradecidos te acompañan
Como anhelaremos tus hazañas
Ni la muerte cree que se apoderó de ti.
Hombre aprendimos a saberte eterno
Así como lo vi en Jesús Cristo
No hay un solo altar sin una luz por ti.

No quiero decirte Comandante
Ni barbudo ni gigante
Todo lo que se de ti.
Hoy quiero gritarte padre mío
No te sueltas de mi mano
Aún no se andar bien sin ti.

Hombre, los agradecidos te acompañan
Como anhelaremos tus hazañas
Ni la muerte cree que se apoderó de ti.
Hombre aprendimos a saberte eterno
Así como lo vi en Jesús Cristo
No hay un solo altar sin una luz por ti.

Hombre, los agradecidos te acompañan
Como anhelaremos tus hazañas
Ni la muerte cree que se apoderó de ti.
Hombre aprendimos a saberte eterno
Así como lo vi en Jesús Cristo
No hay un solo altar sin una luz por ti.

Dicen que la plaza esta mañana
Ya no caben más corceles
Llegando de otro confín
Una multitud desesperada
De héroes de espaldas aladas
Que se han dado cita aquí,
Y delante de la caravana lentamente sin jinete
un caballo para ti.

Raúl Torres

Saturday, November 26, 2016

Fidel Castro




13 de Agosto de 1926 - 25 de Novembro de 2016


HASTA SIEMPRE, COMANDANTE !

Tuesday, November 15, 2016

Memória de José Casanova




A palavra Camarada

Camarada é uma palavra bonita. Sempre. E assume particular beleza e significado quando utilizada pelos militantes comunistas.

O camarada é o companheiro de luta - da luta de todos os dias, à qual dá o conteúdo de futuro, transformador e revolucionário que está na razão da existência de qualquer partido comunista.

O camarada é aquele que, na base de uma específica e concreta opção política, ideológica, de classe, tomou partido - e que sabe que o seu lugar é o do seu partido, que a sua ideologia é a da classe pela qual optou.

O camarada é aquele com cujo apoio solidário contamos em todos os momentos - seja qual for o ponto da trincheira que ocupemos e sejam quais forem as dificuldades e os perigos com que deparamos.

O camarada é aquele que nos ajuda a superar as falhas e os erros individuais - criticando-nos com uma severidade do tamanho da fraternidade contida nessa crítica.

O camarada é aquele que, olhando à sua volta, não vê espelhos... - vê o colectivo - e sabe que, sem ter perdido a sua individualidade, integra uma outra nova e criativa individualidade, soma de múltiplas individualidades.

O camarada é aquele que, vendo a sua opinião minoritária ou isolada, mas julgando-a certa, não desiste de lutar por ela - e que trava essa luta no espaço exacto em que ela deve ser travada: o espaço democrático, amplo, fraterno e solidário, da camaradagem.

O camarada é aquele que, tão naturalmente como respira, faz da fraternidade um caminho, uma maneira de ser e de estar - e que, por isso mesmo, não necessita de a apregoar e jamais a invoca em vão.

O camarada é aquele que olhamos nos olhos sabendo, de antemão, que lá iremos encontrar solicitude, camaradagem, lealdade - e sabemos que esse olhar é uma fonte de força revolucionária.

O camarada é aquele a cuja porta não necessitamos de bater - porque a sabemos sempre aberta à camaradagem.

O camarada é aquele que jamais hesita entre o amigo e o inimigo - seja qual for a situação, seja qual for o erro cometido pelo amigo, seja qual for a razão do inimigo.

O camarada é o que traz consigo, sempre, a palavra amiga, a voz fraterna, o sorriso solidário - e que sabe que a amizade, a fraternidade, a solidariedade, são valores humanos intrínsecos ao ideal comunista.

O camarada é aquele que é revolucionário - e que não desiste de o ser mesmo que todos os dias lhe digam que o tempo que vivemos é coveiro das revoluções.

Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.

José Casanova

(in Avante!, 20.6.2002)

Sunday, November 13, 2016

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.


A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.


A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.


O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.


Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.


Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.


No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.


O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.


Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.


A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.


Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


Manoel de Barros

Saturday, October 22, 2016

As ruínas dos pavilhões no parque das Caldas da Rainha

Edifícios abandonados: as ruínas dos pavilhões no parque das Caldas da Rainha

O arquiteto que mandou construir o edifício sonhava em fazer da cidade uma estância termal, mas isso nunca aconteceu.
Foto de Paulo Santos/Pr0j3ct URBEX

Quem entra pela primeira vez no Parque Dom Carlos I, bem no centro histórico das Caldas da Rainha, não deixa de reparar naquele imponente edifício. Mesmo em frente ao lago, numa das laterais do jardim, os pavilhões são um projeto arquitetónico tão imponente que até já houve quem o comparasse a Hogwarts, a escola de Harry Potter do universo de J. K. Rowling. Infelizmente, há muito tempo que não se vê vivalma nos corredores. Neste edifício, restam apenas os vidros partidos, as salas inundadas de papelada que já ninguém acha importante e o desastre de um projeto que nunca chegou a desempenhar as funções para que foi desenhado.

A história dos pavilhões do Parque Dom Carlos I deve-se a um único homem: Rodrigo Maria Berquó, um engenheiro e arquiteto de origens açorianas que nasceu em 1839. Não há consenso sobre se nasceu em Lisboa ou no Rio de Janeiro, no entanto não restam dúvidas de que Berquó era bem português: a mãe chamava-se D. Maria Teresa Caldas e o pai era D. João Maria Berquó, Marquês de Cantagalo, por ordem de D. Pedro I do Brasil.

Rodrigo Maria Berquó era um homem interessante. Formado em arquitetura e engenharia, fazia parte da elite nacional e passou vários anos em Cascais, Sintra e Viseu. Gostava de música, corridas de touros e de tiro, sendo também reconhecido pelas suas capacidades atléticas e desportivas.

Foi no inverno de 1888 que Berquó chegou à vila (na altura ainda era apenas uma vila) das Caldas da Rainha. Com 49 anos, tinha sido chamado para assumir a direção do estabelecimento das águas da cidade, o Hospital Real.
“Chegado às Caldas a 5 de novembro de 1888, presidiu no mesmo dia à primeira reunião como presidente da administração do Hospital Real das Caldas da Rainha”, recorda André Filipe da Cruz Barros na tese de mestrado “O impulso das águas: contributo para a identidade das Caldas da Rainha”, publicado em 2014.

Rodrigo Berquó já tinha dado provas do seu trabalho na coordenação do projeto das termas das Caldas da Felgueira, no distrito de Viseu, onde tinha estado nos últimos sete anos. Tinha experiência, portanto. Mas as suas orientações políticas também não passaram despercebidas.

“A sua ligação ao Partido Progressista, então com José Luciano de Castro no governo, não terá sido alheia à nomeação, que aparecia aos olhos dos progressistas como uma oportunidade de reforçar a sua influência na região”, escreveu Hugo Franco Araújo, num artigo publicado na “Revista Portuguesa de História” em 2012.

Além da administração do Hotel Termal, Rodrigo Berquó foi também chamado para coordenar a recuperação do antigo Passeio da Copa, o jardim que atualmente conhecemos por Parque D. Carlos I. O objetivo era claro: era preciso revitalizar aquela zona, apostando na criação de uma área de recreio para quem frequentava o Hospital Termal (atual Hospital Termal Rainha D. Leonor). Nesta época, as Caldas da Rainha já eram reconhecidas pela qualidade das suas águas termais, e atraía muitos visitantes na época balnear.

Só que Rodrigo Berquó era ambicioso. Ele não queria revitalizar apenas o Passeio da Copa, queria transformá-lo num parque inglês que fosse uma referência em Portugal e lá fora. Um espaço de lazer e com capacidade para praticar inúmeras atividades seria o pormenor perfeito para revitalizar o hospital, torná-lo mais competitivo lá fora e colocar a vila das Caldas da Rainha no mapa – e a competir lado a lado com as grandes estâncias termais da Europa.

Berquó andava de olho no que se fazia lá fora. Em França, por exemplo, país que o arquiteto visitou em várias ocasiões, os hospitais termais com hotéis e balneários incorporados, e rodeados por amplas zonas verdes, eram um sucesso. Um jardim espetacular seria ótimo. Mas e se lá dentro estivesse o Hospital Termal, a desempenhar também as funções de hotel?

O Passeio da Copa era o local ideal para implementar um projeto assim. No entanto, o anúncio não foi bem recebido. A população ficou desconfiada, com receio que o novo espaço de alojamento lhes estragasse o negócio: durante a época balnear, havia quem aproveitasse para receber os turistas em casa, de modo a ganhar assim algum dinheiro extra. Concorrência era a última coisa que queriam.

No início, a imprensa ficou do seu lado. “(…) As Caldas ficará possuindo um dos primeiros estabelecimentos termais e hospitalares da Europa. E dizemos um dos primeiros da Europa porque podemos afirmá-lo sem receio de contradição: as mais afamadas estações balneares da França e da Alemanha não tem a proficuidade das termas nem as magníficas condições climatéricas das nossas Caldas da Rainha”, escreveu

“O Caldense” a 2 de abril de 1893. “Oxalá pois que nenhuma dificuldade imprevista venha embaraçar o engrandecimento do hospital das Caldas da Rainha que mais uma vez o repetimos é desse engrandecimento que principalmente depende a riqueza vital desta terra.”

Infelizmente, foi apenas no início. Mas já lá vamos. O projeto seguiu em frente e, em 1889, Rodrigo Berquó conseguiu o feito de chegar a Presidente da Câmara, acumulando ao mesmo tempo as funções que desempenhava no hospital. Na altura, as ligações entre o Hospital Termal e a Câmara Municipal eram quase promíscuas, havendo pessoas que desempenhavam cargos tanto de um lado como no outro.

Berquó foi mais longe do que todos os outros ao acumular os dois cargos de chefia. No entanto, não aguentou o mandato até ao fim. As pressões, jogos de interesses e debates sobre o porquê de estar a gastar tanto dinheiro em obras públicas levaram à sua demissão dois anos depois, em 1891. Nesta altura, a imprensa já o crucificava. E não era a única.

Rafael Bordalo Pinheiro foi um dos maiores críticos à obra de Berquó. “V. Exª. Desculpe mas eu pensava que a estação thermal das Caldas se devia tornar agradável a todas as pessoas que as quizessem utilizar, pensava que no parque se deviam arranjar caffés, distracções theatros, concertos, ruas bem calçadas, onde não houvesse poeira”, escreveu o artista português na revista humorística “O António Maria”, publicada a 17 de setembro de 1894.

Pior: conforme conta Cláudia Feio no artigo “Os Pavilhões do Parque (Caldas da Rainha) e a Problemática da sua Conservação”, publicado em 2010, “Bordalo criou para Berquó uma série de epítetos jocosos como: ‘Pharaó das Caldas’, ’Mazalipatão’, ’Eu sou o Pá/ O Chá o Grão/O Grão Pachá/Mazalipatão’; ’Capitão-mór no Club’ e ‘Rodriguinho do campo’, ‘Supremo Arquitecto das Caldas’; ‘O Prelado das Caldas’; ‘O Anjo do Extermínio’, entre outros ‘mimos’.”

Talvez fosse um homem incompreendido para o seu tempo. Talvez tenha ido um pouco longe demais. Fosse como fosse, as questões urbanísticas da vila eram de facto muito importantes para Rodrigo Berquó. E ele recusava-se a desistir. Em junho de 1892 o parque foi inaugurado, recebendo o nome Parque D. Carlos I. Nesse mesmo ano foi aprovado oficialmente o projeto do novo Hospital Termal, que hoje conhecemos como Pavilhões do Parque. Um ano depois, foi lançada a primeira pedra.

Não foi fácil. Além da polémica, havia casas no local que era preciso expropriar, por isso o processo demorou mais tempo do que o previsto. As obras arrancaram a sério após a época balnear de 1894.

O projeto de Rodrigo Berquó propunha a construção de sete pavilhões, destinados a enfermarias, uma galeria com 55 metros de comprimento e instalações sanitárias. Até haveria uma torre para observatório meteorológico. Os edifícios começaram a ser construídos em tijolo e pedra, mas também de vigas de ferro e cerâmica, pormenores inovadores na época.

Quando faltava pouco para os pavilhões do Parque D. Carlos I ficarem prontos, as obras pararam de repente.

A 17 de março de 1896, Rodrigo Berquó sofreu um ataque cardíaco e teve morte imediata. Tinha 57 anos. O médico José Filipe de Andrade Rebelo assumiu a administração do Hospital Termal e, consequentemente, das obras. Sem saber o que fazer, pediu ajuda ao capitão de engenharia Basílio Alberto de Souza Pinto, que concluiu que o melhor seria terminar as obras. Apesar do estado avançado dos edifícios, o orçamento estipulado já tinha sido ultrapassado e seria preciso perder muito mais tempo e dinheiro na finalização do projeto.

“A falta de apoio do Estado e supostamente o aparecimento de outras concepções de âmbito funcional e estético, terão deixado este equipamento à sua eterna condição de edifício inacabado”, escreveu Jorge Mangorrinha, autor do livro “Pavilhões do Parque, Património e Termalismo nas Caldas da Rainha”, de 1999. Ficavam assim por construir o sétimo pavilhão e o Observatório Meteorológico.

Foi um final triste para o sonho de Rodrigo Berquó: nas décadas seguintes, os pavilhões fizeram tudo menos receber doentes. Ficaram marcadas pela instabilidade, com a implantação da República e as duas guerras mundiais. A má gestão das entidades responsáveis pelo espaço também não ajudou.

Apesar de tudo, o espaço não ficou inutilizado – simplesmente nunca chegou a ser uma estância termal. Entre 1901 e 1902 recebeu o seu primeiro ocupante, a Escola de Boéres, entre 1918 e 1926 tornou-se na casa do Regimento de Infantaria N.º 5 – que regressaria mais tarde, entre 1927 até ao início da década de 50. Nas décadas seguintes, foi ainda ali que funcionaram o Posto de Turismo, a primeira redação da “Gazeta das Caldas”, associações e até uma biblioteca.

O seu residente mais duradouro – e o último a sair – foi a Escola Técnica Empresarial do Oeste. Ocupou os edifícios, embora não na totalidade, durante 85 anos. O adeus aconteceu em 2005 e, desde então, o edifício está ao abandono.

Quanto a Rodrigo Berquó, se no seu tempo foi aparentemente um homem mal amado, hoje é visto como um herói. Para quem vive nas Caldas da Rainha, ele foi muito mais do que um arquiteto — ele foi o homem que mudou a cidade para sempre. As inovações técnicas, arquitetónicas, sanitárias e higiénicas revolucionou a vida dos caldenses.

O projeto de vida de Rodrigo Berquó, que nunca chegou a tornar-se realidade, celebra em 2016 uns impressionantes 120 anos de existência, mas há 11 que ficaram esquecidos. Se as ocupações temporárias desgastaram os pavilhões, o abandono degradou-os.

Mas talvez não seja assim por muito mais tempo. A 28 de setembro, o governo revelou que pretende reabilitar os Pavilhões do Parque. A iniciativa surge na sequência do programa Revive, uma parceria entre os Ministérios da Economia, da Cultura e das Finanças, que pretende reabilitar edifícios abandonados. No total, 30 locais vão ficar disponíveis para serem concessionados a privados (nacionais e estrangeiros), que ainda assim terão de se comprometer a reabilitar, preservar e conservar o património que continuará a pertencer ao estado.

Enquanto as obras não arrancam, a NiT mostra-lhe as imagens do abandono. As fotografias foram tiradas por Paulo Santos, um dos administradores da página Lugares Abandonados e autor da página Pr0j3ct URBEX em abril de 2015.

Recorde os artigos sobre o Palácio da ComendaAquaparqueRestaurante Panorâmico, Hotel Foz da SertãSanatórios do CaramuloÁguas de RadiumPresídio da TrafariaPavilhão Carlos LopesMosteiro de SeiçaEscola Secundária Afonso DominguesPalácio de D. ChicaQuinta das ÁguiasRARET e o hospital psiquiátrico de Paredes de Coura, todos abandonados.

texto: Marta Gonçalves Miranda 

https://www.nit.pt/fora-de-casa/na-cidade/10-22-2016-edificios-abandonados-as-ruinas-dos-pavilhoes-no-parque-das-caldas-da-rainha

Sunday, October 16, 2016

34 anos sem ti! E tanta saudade....




Adriano Correia de Oliveira

não sei cantar para ti como cantaste
numa noite coimbrã de fogo aceso
corações eles foram tantos que tocaste
tal o meu também voando estando preso


vens de um tempo das afrontas sufocadas
de grilhões prendendo mãos e pensamento
nesse tempo em que ao som de guitarradas
descobrimos ser tão livres como o vento

era um tempo de combate e duras pedras
já cantavam na tão velha escadaria
era negra-negra a noite e as capas negras
mas em cada olhar a esperança se fez dia

na denúncia do algoz soltando amarras
como arauto no combate à força bruta
a tua voz na plangência das guitarras
ia unindo a alma e o corpo à mesma luta

era de Maio essa cor que então cantavas
ou de Abril nesse Inverno descontente
e o calor de rubras flores onde voavas
era o azul de um novo céu de nova gente

eram cores e sons de Abril que já trazias
num assombro de poesias perturbadas
e cantavas naus giestas e alegrias
que fazias ser em nós gume de espadas

à razão deste voz que não se guarda
pressentindo um pulsar que se inquieta
foste o canto a arma e a mão que não se atarda
o percurso firme e tenso de uma seta

ao canto deste a vida e foste esperança
conjugaste em tom diverso o verbo dar
e adivinho o Adriano na criança
que ali corre vida fora junto ao mar

porque somos feitos só de terra e barro
já partiste irmão maior mas entretanto
se nas cinzas se amortalha aquele cigarro
fica em nós presente o grito do teu canto.

Jorge Castro

Friday, October 14, 2016

Balada das onze e meia


Onze e meia: meia hora
para acabar este dia.
Meia hora ainda é hoje.
Meia hora é amanhã.

Às onze e meia da noite
vai haver muita pancada
num bar da Rua das Pretas.

Vai haver muita mudança
nos decretos aprovados.

Às onze e meia da noite
no quarto não se ouve nada
mas no berço uma criança
dorme o sono dos poetas
que andam subalimentados.

Às onze e meia da noite
direi vinte e três e trinta.

Acordo o galo vermelho
com dois murros no pescoço.

Canta, canta, meu pelintra
o dia de hoje é tão velho
que amanhã já estamos mortos.

Às onze e meia da noite
os ódios nunca estão fartos.

Às onze e meia da noite
a morte anda lá por fora
a pedir contas à vida
e os polícias têm medo
da própria sombra que pisam.

Onze e meia. Está na hora.

No relógio ainda é cedo.

Os ponteiros não deslizam.

Às onze horas e meia
esperamos por amanhã.
Chega a noite para a ceia
com dois pezinhos de lã.

Passam gatunos, canalhas
com seus múltiplos perfis.

Caem corpos e navalhas
no silêncio dos lancis.

Onze e meia. A meia hora
que falta, nunca mais passa.

Não passa. Nunca mais passa.
Eu sei lá quanta desgraça
se apodera em meia hora
das ruelas e dos becos
que apodrecem na cidade!

São onze e meia. É agora
que os olhos verdes dos cegos
pressentem a claridade.

Às onze e meia da noite
o vento não bate à porta
nem quer saber de mais nada.
Às onze e meia da noite
no bar da Rua das Pretas
continua a haver pancada.

Às onze e meia da noite
os cães disputam a dente
uma cadela aluada.

Às onze e meia da noite
há travestis no Rossio
à pesca dos marinheiros
que deixaram o navio
e fazem ondas de cio
no sangue dos paneleiros.

Bateram as onze e meia.

Só faltam trinta minutos.

Acende-se a lua cheia
na Rua dos Sapateiros.

São onze e meia da noite
e eu quero ficar contigo
entre lençóis de algodão.

Fincar no flanco uma espora.

Cavalgar por meia hora.

Dar rédeas ao coração.

Às onze e meia da noite
é tempo de solidão.

E nas entranhas do medo
fazem-se filhos diversos.
Como um padeiro faz versos
ou um poeta faz pão.

Às onze e meia da noite.

Às onze e meia da noite
recebem-se embaixadores
e à mesma hora os porteiros
afugentam os trapeiros
vestidos de malfeitores.

Às onze e meia da noite
a Primavera passou-se
para o lado do Outono.
E uma Maria qualquer
nas alamedas do sono
cansada de ser mulher
às onze e meia matou-se.

Em ponto. São onze e meia.

Esta noite os redimidos
hão-de fazer por esquecer.

Bem comidos e bebidos
não tardam a adormecer.

E um frasco de comprimidos
na mesa de cabeceira
vai ajudar os sentidos
a cozer a bebedeira.

Às onze e meia da noite.

Às onze e meia da noite
num gabinete privado
(como a irmã cotovia)
o tipo que está ao lado
cantou tudo o que sabia
para subir de ordenado.

Às onze e meia da noite
rastejam cobras na lama
onde afocinham as putas
Senhoras Donas da Cama.
Mas as putas que são putas.
Não as que têm a fama.

São onze e meia da noite.

Já só falta meia hora.

Apenas trinta minutos.

Às onze e meia da noite
ponho a tristeza de lado
e uma gravata de seda.

Quero ouvir cantar o fado.

Quero dar uma facada
no galo da consciência.

Quero menos paciência
e um pouco mais de loucura.

E enquanto são onze e meia
ainda dura a pancada
no bar da rua das pretas
os putos fazem punhetas
em jeito de habilidade
apenas com quatro dedos.
E descobrem os segredos
de nascerem portugueses
filhos de um povo adiado.

Feitos aqui e agora.

Quando falta meia hora
para acabar o passado.


joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982

Thursday, October 06, 2016

Tuesday, September 27, 2016

Arrábida


abrir um oceano no meio de continentes
e fazer da terra serra
do que era fundo do mar
elevar no ar uma onda e fúria latentes
um penedo de infinitas conchas
que ousam levantar-se
verticais
e ter no extremo ocidente o mais belo cais
uma rocha um substrato um convento
convento, o retiro dos homens que querem estar mesmo ali
à mão de semear do deus que lhes sopra o vento
no rosto, na encosta sul, na face do azul
e do tempo
do tempo que esculpiu escarpas e algares
e povoou de folhas o solo que aceita filtrados os raios do sol
sobre o musgo
talvez do suão ainda nasçam aqueles medronhos
a semente mediterrânica de alecrim
e da pedra humedecida veja nascer o brilho
de onde vim
árabe
mas mais antigo que as regiões as religiões
um refúgio mãe uma concha nossa
a placenta.


Miguel Tiago

Sunday, September 11, 2016

O 11 de Setembro que eu quero recordar


 
 

Ne plus écrire enfin attendre le signal
Celui qui sonnera doublé de mille octaves
Quand passeront au vert les morales suaves
Quand le Bien peignera la crinière du Mal

Quand les bêtes sauront qu'on les met dans des plats
Quand les femmes mettront leur sang à la fenêtre
Et hissant leur calice à hauteur de leur maître
Quand elles diront: "Bois en mémoire de moi"

Quand les oiseaux septembre iront chasser les cons
Quand les mecs cravatés respireront quand même
Et qu'il se chantera dedans les hachélèmes
La messe du granit sur un autel béton

Quand les voteurs votant se mettront tous d'accord
Sur une idée sur rien pour que l'horreur se taise
Même si pour la rime on sort la Marseillaise
Avec un foulard rouge et des gants de chez Dior

Alors nous irons réveiller
Allende Allende Allende Allende

Quand il y aura des mots plus forts que les canons
Ceux qui tonnent déjà dans nos mémoires brèves
Quand les tyrans tireurs tireront sur nos rêves
Parce que de nos rêves lèvera la moisson

Quand les tueurs gagés crèveront dans la soie
Qu'ils soient Président ci ou Général de ça
Quand les voix socialistes chanteront leur partie
En mesure et partant vers d'autres galaxies


Quand les amants cassés se casseront vraiment
Vers l'ailleurs d'autre part enfin et puis comment
Quand la fureur de vivre aura battu son temps
Quand l'hiver de travers se croira au printemps

Quand de ce Capital qu'on prend toujours pour Marx
On ne parlera plus que pour l'honneur du titre
Quand le Pape prendra ses évêques à la mitre
En leur disant: "Porno latin ou non je taxe"

Quand la rumeur du temps cessera pour de bon
Quand le bleu relatif de la mer pâlira
Quand le temps relatif aussi s'évadera
De cette équation triste où le tiennent des cons
Qu'ils soient mathématiques avec Nobel ou non
C'est alors c'est alors que nous réveillerons

Allende Allende Allende Allende...

Thursday, August 25, 2016

Nasceu-te um Filho


Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou - já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
- ri-te de ambas, que um filho é imortal.


Jorge de Sena

Thursday, July 21, 2016

- sem título -


É preciso coração para escrever. 
Às vezes o coração aperta-se-nos tanto que estrangula as palavras...

Sunday, June 26, 2016

Dia 360


Saboreio a vida de modo diferente, hoje. Porque o meu corpo também já não é jovem nem insaciável. Mas também não é cobarde e a vida ensinou-me tanto. Vivo a calma que me dá a idade que tenho. Há dias em que os pássaros me vêm buscar e voo com eles. Volto tarde na noite e nada importa. Apenas tu, que me esperas...

Saturday, June 11, 2016

O comum da terra



Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade
(para Vasco Gonçalves)

Friday, June 03, 2016

Tu



Há uma memória de ti para recordar
Há um espaço em mim para te receber
Há dois braços para um abraço te dar
E há todo o resto da vida para te viver.

Vinte e dois anos contigo. Sempre.