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Wednesday, August 11, 2021

A orientação é beber café

A orientação é beber café

O corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz.

«Interrogatório», em <em>Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar</em>, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978)
«Interrogatório», em Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978) João Abel Manta

Já uma estrela se levanta: a gota primeira, que no chão desenhou uma circunferência e, reflectindo o embalo da lâmpada, cintilou solitária no cimento. “Isso um comunista já sabe”, pensou, “agora é boca fechada”. Uma silhueta que ali não estava cruzou a gota no chão. Ela tinha ficado deitada na areia — não sabia porque se lembrava desse Verão agora — e ele nadou para longe, para além da rebentação, para além de perder o pé, para além da Eduarda ser só um pontinho na praia levantado, a tentar

— Ó chefe, este gajo é mudo. É melhor soltá-lo já com um pedido de desculpas.

— Outro? Veja lá primeiro se não é só mouco. Repare que ele nem olha para nós! Se calhar o homem nem sonha que estão três senhores aqui a falar com ele, interessados nele, preocupados com

Recitou mentalmente, prodígios de memorização a que a clandestinidade obriga, o Se Fores Preso Camarada, as regras dos comunistas detidos: “«a polícia tudo faz para reduzir os presos a farrapos humanos e a delatores». Por muito pior passaram camaradas meus e não racharam. O Jorge, pá, o estado em que ele dali saiu... e não falou. E eu? Venho com o quê? Como é que a gente cantava? Padroeira dos mineiros, vê lá, vê lá como venho eu. Duas bofetadas e duas noites sem dormir. O Jorge, pá, que durante o interrogatório recitava poesia para dentro. Tira o chapéu milionário, vai o enterro a passar. Os gajos a fazerem-lhe perguntas e ele mudo, a tentar recitar o Ary na cabeça, e os PIDES a olhar para ele como quem diz «onde é que este gajo está?». Está bem que eu não sei Ary, mas sei as nossas canções… Foi a filha de um operário que morreu a trabalhar. Ou seja, não mostrar medo.”

Nesse instante, uma enorme pancada atingiu-o no ouvido e o corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz. Quase adormecia, não fossem as algemas a mantê-lo sentado enquanto um silvo grave como o rumorejo do mar no búzio desligava generosamente todos os sons: uma estranha sensação de paz, sair dali e estar sozinho a ouvir o mar e a sentir a água quente a acariciar-lhe o ouvido e a descer pelas maçãs do rosto. Quando a escuridão começou a desvanecer-se e a visão começou a voltar, percebeu que afinal deus não se tinha arrependido de nada, mas tinha crescido a circunferência no chão. Era uma estrela que já se levantava.

Apercebeu-se que nesse espelho negro, para além da sua imagem e da dos seus torturadores, moviam-se outros reflexos difusos, nebulosos, inexplicáveis. Levantaram-lhe a cabeça pelos cabelos: era o inspector-adjunto, o Esser, já nesta altura lhe sabia o nome. A vertigem do movimento deixou-o tão confuso que pareceu-lhe ouvir o grito preocupado da Eduarda, “Volta para trás!”, a chamá-lo da praia. Sorriu. Lá atrás, o Saraiva ria-se muito ufano, e cortava o ar com o varapau, reencenando o golpe para o dactilógrafo, que ainda sem nada para dactilografar, assistia em silêncio.

— Pronto, pronto — rouquejou o Esser — Não leve a mal: o Tavares descontrola-se com estas coisas, tem sangue quente. Consegue ouvir-me?

Recordou-se de que estava na António Maria Cardoso quando, atrás de si, ouviu o outro a entusiasmar-se com uma nova actuação:

— Viste, Saraiva? Parecia uma pinha!

— Então vamos lá ter uma conversa de homem para homem. Isto aqui é assim: toda a gente fala, amigo. Uns, passadas duas horas; outros, passado um dia; também há uns que só falam passados 30, mas esses já vão tarde. Você vai com três dias. Por fraco já não passa e no meio é que está a virtude, costuma dizer-se. Por isso sugiro que atalhemos caminho: só preciso que me explique porque estava há quatro horas sentado num café. Que você é do Partido já sabemos. Sabemos tudo sobre si. A questão é

— A minha tarefa é beber café — declarou tão ríspido que se surpreendeu a si próprio e ao Saraiva mais ainda, não tanto por ser este o seu primeiro interrogatório mas porque, por desorientação do detido, calhou ser nos seus olhos que poisaram os dele a resplandecer de sangue como um tição que soprando a cinza volta a incandescer.

 “Acho que tenho o crânio partido, acho que morro aqui”, pensou, “Eduarda, desculpa, meu amor. Eu sei que… Calma… tem calma… Isto está a terminar. Vamos pensar noutra coisa…”

— Vês, Tavares? Afinal não só não é mudo como ainda tem sentido de humor! Então a sua tarefa é beber café. Está certo. Então diga-me lá com quem? Se me disser que

Mentalmente, continuou a recordar as palavras do panfleto: “«Cada membro do Partido sabe que, se falar ao ser preso, transforma-se imediatamente em auxiliar da polícia: um traidor da sua classe que como tal será julgado pelo povo». Como é que a gente cantava? Dá-me uma gotinha” 

— Olha para o senhor inspector quando ele fala contigo, caralho! — uivou agudo o Tavares, e forçou-lhe brutalmente a ponta do bastão dentro da boca. Pingaram no chão muitas gotas de sangue.

“dessa que eu oiço correr”, continuou a pensar, “I”

— Ó Tavares tenha calma — sugeriu o Esser, bonacheirão, tirando da lapela o crachá esmaltado que avisava ser Internacional esta Polícia — traga-me uma cadeira — e cantarolava — Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim — e sentou-se atrás dele — pela voz do som tremendo das tubas, clamor sem fim — e agarrou numa mão algemada — Lá vamos, que o sonho é lindo — e prendeu-lhe o indicador — Lá vamos, cantando e rindo — e espetou o alfinete do crachá muito fundo sob a unha.

Foi a primeira vez que gritou, um grito enlouquecido de dentes partidos e medo, que fez estremecer cada átomo e empurrou contra a parede a cadeira do dactilógrafo e até o Tavares calou. Só o Esser não parecia perturbado: continuava a revolver-lhe a carne como um mecânico que aperta porcas num corpo, aproveitando-se de sermos assim tão frágeis que basta pressionar, não mais que um milímetro, qualquer coisa mais dura que as nossas carnes macias e logo elas sangram e cedem. Mas ele não.

“Vais aguentar”, pensou, “vais aguentar. Não os deixes ver-te chorar. Vá, como é que era? Vê lá como venho eu, vê lá companheiro, vê lá, vê lá como venho, eu. Eu não quero que vejam como eu venho”

Um sorriso perverso insinuou-se nos lábios do Tavares quando reparou no dactilógrafo. Tinha as palmas da mão simetricamente poisadas na mesa de cada lado da máquina de escrever. Estava pálido.

— Tem calma, puto: isto só custa a primeira. Eles gritam sempre assim. Queres um cigarro? — O Saraiva recusou. — O Esser tem de pô-lo a cantar ainda hoje senão a coisa fica feia para o nosso lado. Está aí um gajo de Lourenço Marques que se queixou ao director-geral que as técnicas do Esser para pôr

— Obriga-me a envolver outras pessoas nisto — ameaçou o Esser — Que culpa é que a sua mulher… Eduarda não é? Que culpa é que ela tem disto? Olhe que depois o que acontecer entre ela e aqui o Tavares é na sua consciência que fica, não é na do Partido. O que dizes, Tavares?

“Eduarda, meu grande amor”, pensou, “escrevo-te agora a carta de amor possível. Memorizo-a no coração para entregar-ta em mão. E começo-a assim: peço desculpa por tudo. Pelo que já aconteceu e o que poderá ainda acontecer. A única coisa verdadeira que a PIDE me disse é que tu não tens culpa.”

— Com quem é que você ia beber café?! — berrou o Esser — Saiba que prendemos uma

“Desta vez vamos abalar daqui: para muito longe, para viver um amor de novo tipo nos anos que nos resta, porque não é só em tempo se mede a força de trabalho, mas também o amor. Se Portugal não quer o sonho porque lutámos, faremos nós com ele uma vida em que a tua liberdade seja a minha condição e em que cada um de nós um receba o amor de que precisa dando o amor de que é capaz”

— Ó Saraiva, ligue-me lá à mulher dele.

“Amor da minha vida, minha camarada, meu colectivo, minha vanguarda e retaguarda, minha companheira: não consigo escrever-te agora a carta de amor que tu mereces, mas quando voltar escrever-te-ei muitas mais, longas e bonitas, porque carta que é carta de amor nunca é carta final”

— Estou sim? Olá menina… Não está a reconhecer a voz?

“«A polícia não emprega somente a violência e o terror”», recordou, “«não se limita às torturas físicas que, por piores que sejam». Trago a camisa rubra, de sangue de um companheiro, vê lá. «A polícia explora todas as fraquezas humanas, excita os sentimentos mais vis e recorre a todas as mentiras»”.

— Diga-me lá: acha que isto tudo vale a pena? Dá cabo da sua carreira, estraga a vida à sua mulher… e para quê? Você acha mesmo que vem aí uma revolução? Desde 1928 que dizem isso! Estamos em 74. Conhece algum partido comunista que tenha feito uma revolução 53 anos depois de ter nascido? Na Rússia o partido bolchevique tinha 14 anos. Em Cuba o 26 de Julho tinha 4. O partido mais velho foi o chinês, que fez a revolução com 28 anos e até

“Podem calar o meu grito enrouquecido, podem cortar o meu corpo à chicotada”

— Olhe à sua volta — e com a palma da mão circundou a sala — você vê muitas revoluções a estalarem por aí? Proletários a tomarem palácios? Operários a ocuparem fábricas? — riu-se — Vocês perderam o comboio da história. Acabou. O Estado Novo venceu e você perdeu, senão não estava aqui.

“Oiço ruírem os muros quebrarem as grades de ferro da nossa prisão”

— Pronto, Tavares, Saraiva, cheguem lá aqui que já só temos uma hora. Vamos fazer uma sessão espírita, a ver se o espectro do comunismo nos diz alguma coisa.

Rindo-se, o Tavares puxou o braço do Saraiva, mas o dactilógrafo recuou:

— Agora não consigo. — Cada vez mais pálido, tinha a fronte empapada de cabelo e suor.

— Não consegues ou não queres? — rugiu o Tavares — Vais desobedecer a uma ordem?!

O dactilógrafo, petrificado, olhou para o Tavares e depois para o Esser, que o fitava inexpressivo. A tensão acumulou-se e estufou o ar com uma irrespirável calma tensa até o Saraiva, agoniado, obedeceu.

Os três homens rodearam o detido e foi o Esser quem falou:

— Espectro do comunismo, comunica connosco! — E começaram os três homens a bater-lhe. Os golpes vinham de todas as direcções e acertavam-lhe na nuca, no nariz, na boca, nos olhos e na testa, onde já afloravam remendos brancos de osso. Quando pararam e, a custo, abriu os olhos pisados, a circunferência de sangue no chão era já uma estrela levantada, um gargalo negro de poço onde via o próprio reflexo e em que não se reconheceu.

“«Qualquer homem digno sabe que é preferível a morte física à morte moral. É melhor morrer como revolucionário sob os golpes da reacção do que degradar-se e descer ao papel repugnante do delator»”

E no entanto, sentiu-se quebrar. Teria falado, mas a pancada deixara-o tão confuso que já não sabia nada: nem onde estava, nem que orientação era a sua. Quando tentou falar só lhe saiu um soluço.

“E como é que venho eu?”, pensou, “não venho como Edgar André, a gritar aos carrascos «Eu não quero misericórdia! Vivi como lutador e como lutador morrerei», nem como Lepa Radic, com o nó ao pescoço a ameaçar «Os meus camaradas dar-vos-ão os seus nomes quando me vierem vingar», nem com o grito de Stjepan Filipović ao pelotão de fuzilamento «Morte ao fascismo! Liberdade para o povo!», nem com a serenidade do Che «Acalma-te e aponta bem: vais matar um homem». Vê lá como venho eu.

O Saraiva teve de sair da sala, não sem antes o Tavares lhe deitar um olhar de desprezo, e foi chorar e vomitar numa sanita. O que fez neste dia não contará a ninguém até ao dia em que morrer.

— Espectro do comunismo, qual era a tua orientação? — insistiu o Esser.

“Não importa”, pensou, “Um comunista está na vida como um morto de licença”

— A minha orientação é beber café — repetiu, mais alto, desafiante, quase morto.

O Tavares ia bater-lhe novamente, mas o Esser travou-o.

— Que cheiro… ó chefe, o gajo tá todo mijado. Porcos do caralho. Agora limpavas com a língua.

— Não podemos matá-lo — decretou o Esser — Vamos antes dar-lhe aqui uma poçãozinha.

Retirou uma seringa do estojo. Da agulha saltaram gotas de um líquido amarelado.

— Onde estou? — olhava as paredes com espanto e tentava em vão soltar-se — Eduarda?

O Saraiva tinha voltado. Notava-se que tinha lavado a cara. Sentou-se à máquina de escrever e o Tavares, divertido, segredou-lhe:

— Vais querer ver este baile. Chamam-lhe o soro da verdade: é uma merda que a CIA nos arranjou. Os gajos do Ultramar dizem que isto é placebo… querem correr com o Esser por causa disto, que os tipos alucinam e depois já não dizem coisa com coisa. Mas a verdade é que lá cantar, eles cantam

A agulha não encontrou resistência e o soro foi empurrado por veias e artérias até ao coração para logo ser bombeado até ao cérebro, mas deus continuava sem arrependimentos.

— Vamos voltar ao momento da sua detenção. Diga-me onde está e o que está a fazer.

O suspeito abriu os olhos. Respirava já só com dificuldade. Olhou para a gotinha, não de água doce nem mar salgado, que no chão se fizera grande e, como se fitasse bola de cristal, ou entranhas de coelho, ou folhas do chá na chávena, ou só uma grande, grande estrela que já se levantara do chão, respondeu:

— Já vos disse: estou a beber café — Afirmou-se-lhe a voz sólida e nítida como tronco de carvalho.

— Muito bem. Então vamos recuar quatro horas. O que é que está a fazer?

— Ainda estou a beber a café.

O dactilógrafo transido lançava contra as teclas uma violenta trovoada.

— Não brinque comigo! Você quer morrer aqui? Vá mais para atrás. Volte atrás no tempo! Ou ande com a fita para a frente tanto quanto precisar, mas diga-me o onde está e o que está a fazer!

— Estou… — perscrutava movimentos e sombras na poça de sangue — estou a fazer um jornal.

— Muito bem — Notava-se-lhe a satisfação na voz — Agora olhe à volta e diga-me onde está.

 — Não… Não… Não estou. Estou a rebentar o portão de uma prisão com um carro blindado.

— Este já não volta. Está a alucinar — comentou o Tavares.

— Estou… estou a fugir do forte de Peniche por um lençol. Estou a escrever uma carta com o meu próprio sangue. Estou numa manifestação de um milhão de pessoas nos Aliados. Estou a apregoar o Avante no Cais do Sodré. Estou sentado na relva a assistir ao comício do Partido. Estou a discursar do palanque na Assembleia. Estou num piquete de greve e numa greve da fome. Estou a comer papel bíblia e a morrer na frigideira. Estou a fazer cem anos e a nascer outra vez. Estou na Caparica, onde a polícia bateu num miúdo, e estou no Pinheiro Torres, onde a pobreza dos pais condena à nascença as crianças. Estou a morrer muitas mortes, Estou a celebrar a independência das colónias. Estou a descer a Rua do Arsenal com cravos e soldados e estou a defender uma sede do Partido cercada de fogo e estou nas mesas de voto a contar boletins com muito cuidado e estou a ser eleito delegado sindical e estou a prender-vos a todos em celas onde nunca serão torturados e estou a nadar de volta em direcção à praia. Estou a dizer-vos que isto não há-de durar para sempre. Eu estou a cumprir a minha orientação. E a minha orientação é beber café.

António Santos

(abril abril)

Wednesday, September 09, 2020

O Raul este ano teve de ir à festa

A tarefa do camarada era simples: esta quinta só entra nesta quinta quem tiver Entrada Permanente e cartão de serviço. «Não interessa se é da SIC ou da ASAE. Até podia ser o Jerónimo: antes da abertura, quem não tiver EP e cartão de serviço, não entra». Exagerada sentença que inventei eu agora, nanja consta que alguma vez tenha sido dita, pelo menos neste século, mas avante, que a isso já lá vamos. Se o camarada da portaria sonhasse como a simplicíssima tarefa estava prestes a ficar complicada, preferiria mil vezes a inflexível aplicação do igual tratamento estatutário, cortando o passo ao secretário-geral. Exageros à parte, o camarada estava ali com a inteira noção da importância da tarefa que lhe fora confiada, além do mais nestes tempos, tão propícios à provocação, à mentira e à infiltração que é como as excepções ou, como dizem os cabrões dos americanos, como a lata das minhocas: se deixas sair a primeira, logo a segunda escorrega. A anterior justifica sempre a seguinte e, quando damos por nós, esta merda parece a praia de Carcavelos. As orientações são gerais, são para todos e são para se cumprir, e esta já me disse mesmo o camarada, não estou a inventar, que se sentia ali responsável por manter seguros os portões da zona libertada, investido da autoridade colectiva de 50 mil militantes comunistas.
Sentado numa cadeira de espuma esventrada, ao som do velho rádio a pilhas que só tosse Antena 2, o camarada aguentava a portaria com a inquebrantável disciplina da canção dos Inti-Illimani: Tun tun, quem é? Uma rosa e um cravo… Abra-se a muralha! Tun tun, quem é? O sabre do coronel.... Feche-se a muralha. E fechava mesmo. Quando era preciso, aquela portaria parecia Espanha em 36: «Não passarão!» Outro exagero, naturalmente, mas quem faz turnos de quatro horas militantes depois de oito horas assalariadas, aguenta-se melhor imaginando estas doces comparações desproporcionadas: «temos cabeça dura, os do corpo de engenheiros!». E a verdade é que a implantação da Festa do Avante! é muito assim como a reconstrução da catedral ardida de São Paulo em Londres: era o ano de 1671 e o arquitecto, de nome Christopher Wren, pergunta a um velho que varria o chão qual era a sua tarefa, ao que cantoneiro responde apocrifamente: «eu faço catedrais». O camarada da portaria, preservemos o seu anonimato, é um construtor de catedrais de tubo à face do sonho, um reconstrutor do mundo ardido, e alto lá, que aquilo com ele parece a ponte dos franceses, «mamita mia, que bem te guardam! Querem passar os fascistas? Não passa ninguém!». Com esse sentido de missão histórica ora se levantava ora se tombava a cancela «boa noite camarada!» como quem cantaria «Se me quiseres escrever, já sabes o meu paradeiro: terceira brigada mista, primeira linha de fogo». Que, por sua vez, é outra forma de dizer que, se fosse preciso, defendia-se aquela entrada com todos os meios disponíveis «mesmo que nos espere a dor e a morte, contra o inimigo nos chama o dever! O bem mais precioso é a liberdade: há que defendê-la com fé e com valor. Para as barricadas!» «Nada podem bombas onde sobra coração», mas nada, mesmo nada, poderia tê-lo preparado para o que aconteceu a seguir.
O camarada da portaria nunca tinha visto nada assim. Viu-o mal dobrou ali a esquina do Lidl: subia sozinho. Vinha tão devagar que houve tempo de pensar serenamente. Talvez seja por isso que os alentejanos são sempre mais calmos que, por exemplo e sem ofensa, os transmontanos, que vendados pelas montanhas, são desde tempos imemoriais mais facilmente surpreendidos pelo invasor. A genética dos povos pedinornitos dispensa esse estado de alerta permanente: ainda vai a centúria em Mérida e já a gente a topou do atalaião com a antecedência de construir albarradas e preparar o cerco.
Bem, mas de nada serviu a calma ao camarada da portaria. Quando o homem finalmente chegou ao portão, o camarada saudou-o como se fosse o Jerónimo em pessoa.
- Boa noite camarada, EP e cartão de serviço.
Sem uma palavra, o homem levantou a cabeça muito devagar. Tinha barba de dias por fazer. Uma grande ferida crostada abaixo do olho e, na cara suja, uns olhos esverdeados e baços, que pareciam de alumínio polido. Do alforge saiu uma EP muito amachucada e quase decapitada pelo domingo mas, ainda assim, válida.
- Precisas do cartão de serviço, camarada.
- O que é isso?
- O cartão de serviço é… é o cartão que têm os camaradas que vêm trabalhar. A festa para os visitantes só abre amanhã.
- Eu sei, camarada.
Tranquilizou-o ouvi-lo dizer assim a palavra camarada: os comunistas, para quem não sabe, reconhecem-se pela forma como só eles pronunciam a palavra camarada.
- Então... e eu venho para trabalhar.
Não tinha máscara. A camisa, ensebada e rasgada no ombro, caia-lhe sobre as calças demasiado largas. O camarada da portaria pensou que podia ser um louco. Não, era provavelmente um indigente.
- Ó camarada, desculpa lá… Isto não é assim. Qual é a tua organização?
- Boa Fé, Évora.
- Então e vieste sozinho?
O homem respirou fundo como se tentasse recompilar vários detalhes de uma resposta complexa.
-Vim. Vim na carreira até Setúbal e depois fui andando, andando…
-Vieste a pé desde Setúbal?
- Vim. - E do bornal mostrou um mapa que de tão dobrado parecia feito de guardanapo. Perdi-me aqui - e apontava toscamente - na Serra da Arrábida porque lá ninguém pára o carro.
O camarada da portaria não acreditava, claro.
- É pá. Grande esticão. Quanto tempo é que demoraste?
- Cinco dias, cinco noites. Fui dormindo onde calhava. Ia comendo e bebendo pelos cafés. E já cá estou. Posso-me sentar?
Está mais que provado que «Quem corre por gosto não cansa» é, entre todos os bordões do almanaque, o mais falso e o mais injusto. Tudo cansa, tudo se desfaz. Até as coisas que amamos, ou não fosse o mundo dialéctico e não estivessem até as pedras em perpétua erosão.
O camarada da portaria foi buscar a cadeira esventrada e disse-lhe para esperar. Marcou a extensão da Comissão de Campo, explicou a situação e, com todo o detalhe, descreveu o homem. Os camaradas da Comissão de Campo também não sabiam o que fazer e acharam melhor ligar para os camaradas da Direcção da festa. Os camaradas da Direcção da festa mostraram-se apreensivos: podia ser uma armadilha para denegrir a festa ou romper a disciplina sanitária. Decidiram por isso, ligar para o camarada responsável pela Boa Fé, que estava naturalmente na Festa, e que não acreditou no que estava a ouvir. Esse camarada é o Raul, explicou. Estava muito afastado há anos. Comprava o Avante!, é certo, mas pouco mais podia. Há uma semana, a mulher morreu de cancro: o camarada não está bem.
A Direcção acabou por decidir que o camarada poderia entrar e que lhe devia ser dada uma máscara. Um camarada ficou de tratar da tenda e outro ficou de pedir emprestado um saco-cama. Mas o camarada, que tem nome e efectivamente se chama mesmo Raul, não queria ir dormir nem ir ao posto médico. Queria ajudar.
Tanto insistiu que sentaram-no numa carrinha descapotada a cortes de rebarbadora e levaram-no para a Cidade da Juventude. Porquê para a Cidade da Juventude? Porque à meia noite o camarada fazia anos, explicaram os camaradas que deram a orientação. Não sei o que mais vos diga, foi o que a organização decidiu, camaradas; e eu também não perguntei porquê: às vezes os desígnios da organização são misteriosos.
Quem achar difícil acreditar que isto realmente se pudesse ter passado na Quinta da Atalaia, no dia 3 de Setembro de 2020, nem sonha o que veria se pudesse, do alto dos tempos medievais em que aqui havia mesmo uma torre de atalaia, ver o que esta quinta já viu. Imaginemos nós que tínhamos de explicar aos monges jerónimos que aqui plantaram vinha, que um dia a vinha seria de monges dominicanos, que daqui seriam corridos a pontapé por uma revolução republicana. Imaginemos se tivéssemos de explicar aos Condes de Atalaia, oriundos de outra Atalaia, a de Vila Nova da Barquinha, que ganharam estas terras como compensação por traírem a pátria ao serviço dos Filipes de Espanha, que um dia esta terra não voltaria nunca mais às mãos de mais nenhuma família aristocrática. Imaginemos que tínhamos de explicar aos trabalhadores do senhor Reynolds, patrão da Lisbon Fresh Water Suply, que daqui extraía a cristalina água mineral Águanave, que um dia toda esta terra seria da classe operária e dos comunistas? Pois: a descrença seria mútua.
O camarada da JCP que estava responsável pela implantação é que não achou tanta graça ao mistério. Mas que ajuda é que alguém assim poderia dar? Os camaradas decidem assim as coisas e depois os outros que se desenrasquem, não é? A 24 horas da abertura, a cidade estava atrasada e não havia tempo para estas brincadeiras do oxigénio em pó, do empalmo de 7 vias ou do nivelador de toldos. Mas a orientação é para cumprir, pá, e lá teve o camarada responsável da JCP, contrafeito, de dar uma tarefa ao bizarro camarada.
- Ó camarada, ficas aqui com esta malta. Ponham-no a trabalhar.
E ele, de facto, lá ia ajudando no que sabia. Segurava nas tábuas, passava parafusos, dava opiniões, nem sempre colhidas, ao enxame a fremir de jovens apressados que forravam com contraplacados as paletes do chão.
- Raul, não é? Então vieste a pé desde Setúbal? - era estranho, mesmo para os comunistas, tratá-lo por tu, mas depressa a distância se evaporou. O Raul era operário agrícola, mas até se safava com a madeira. Também tinha estado toda a vida precário. Às vezes sem contrato, sem descontos, sem nada. Entre os que estavam ali da jota a meter chão, havia mais quatro também assim, não operários agrícolas, mas a recibos verdes, com contratos de um ano ou sem contrato nenhum.
- É fodido, pá, se ficas doente, quando envelheces, como é que é? - A pergunta do jovem era retórica, claro está, mas o Raul deu-lhe razão.
Contou-lhes que, quando era puto, guardava os porcos dos senhores para os putos de hoje guardarem os porcos dos netos dos senhores. É a luta de classes. O resto é conversa. Depois tinha andado maltês, a trabalhar de braceiro por esse país fora, a dormir onde calhasse, a viver de côdeas, porra, a ser despedido por dá cá aquela palha e a malta concordou que ainda hoje é esse quero posso e mando. Só com o 25 de Abril é que isto melhorou e até isso nos querem tirar, protestou. E como nós não deixamos, eles, os patrões, detestam-nos. Se nos pudessem ilegalizar, ilegalizavam. Se tivessem de nos matar, matavam.
O discurso do Raul estava a dar cabo dos planos do camarada responsável para terminar a cidade a tempo. À sua volta tinha-se juntado um perigoso aglomerado anti-sanitário de irresponsáveis jovens, alguns sem máscara, todos tisnados de óleo, serradura, tinta e dulcíssimos suores de trabalho militante.
O Raul, disse-lhes, tinha andado a vida toda a combater o fascismo. Tinha estado preso com o Jaime Rebelo, que, tirando partido de ser analfabeto, cortou a própria língua para não poder denunciar os camaradas à PIDE. O Raul contou-lhes que, antes do 25 de Abril, os comunistas ficavam com a vida toda destruída: a carreira, a família, a casa, a liberdade. Tiravam-lhes tudo menos a dignidade. O Raul confessou-lhes que se não fosse a mulher, que ficou com os filhos quando ele esteve preso, e trabalhava de sol a sol para dar de comer às crianças, também não sabia se não teria de ter cortado a própria língua. Quem é que se oferece para explicar ao Raul que isto dos riscos da pandemia são um axioma absoluto e que mais nada importa a não ser ficar em casa?
- Quantos anos estiveste preso?
- Seis, mais qualquer coisa.
Mas foi na prisão que aprendeu a ler. Com os outros, com os camaradas. Haverá prenda mais bonita? Os presos faziam jornais lá dentro e ensinavam uns aos outros. Uma vez foi apanhado, isto no Forte de Peniche, com imprensa do Partido e levou tanta pancada, apontava para a zona dos rins, que achava que morria, mas não morreu. Então este ano teve de vir à festa. Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. Disse assim à mulher «Olha, agora é que vou mesmo» e a mulher, claro, mandou-o ter juízo. Ela, coitada, acabou por não poder vir mesmo.
É meia-noite. A malta da JCP poisou as ferramentas, parou de trabalhar, pôs-se toda de pé. Uma brisa do Norte lambe-lhes suavemente as frontes suadas, transcendendo a realidade. Cerraram-se agora muitos punhos contra o céu estrelado e a juventude canta ao Raul os «Parabéns a você», mas com a melodia da Internacional. O Raul achou graça àquilo e riu-se alto, com alegria verdadeira, como se não tivesse acabado de fazer 95 anos.

António Santos

Sunday, April 19, 2020

A Idade do Confinamento



Nessa noite sonhou com o mar. Quando acordou não se lembrava de como ali tinha chegado nem de por que razão estava sozinho, a nadar na imensidão nocturna de um oceano tranquilo, a milhas de qualquer rochedo ou batel. Só se lembrava de que nadou durante muito tempo, até perder as forças — e acordar.

Tacteou a mesinha de cabeceira sobrelotada: os medicamentos para a ciática, o copo de água que os acompanham, um livro — a foleiríssima edição Europa-América do Rei Édipo — e, finalmente, o fio do carregador cujo rasto o conduziu ao telemóvel. Ainda eram seis, não que isso importasse e, como o pequeno-almoço só chegava às sete, assim no silêncio se deixou ficar. As cumeeiras das rugas projectando sombras fundas na cara envelhecida, iluminada pelo clarão do ecrã sem mensagens, nem notificações, nem internet, nem rede, nem nada a não ser a data: 24/7. Fazia nesse dia três anos.

Como o borralho que ainda esconde a brasa rubra sob a cinza fria de manhã, invadiu-o a recordação de um ódio antigo. O Carlos, o da comunicação, só com 55 anos e aquele sorriso de atrasado mental, a distribuir abraços cínicos e filosofia dos pacotinhos de açúcar, «Aproveita a vida, Carla! Olha que há mais vida sem ser a vender pneus», como se não quisesse saber da penalização de 60%, 0,5 por cada mês antes da hora, «nem sei por onde começar, há tanta coisa que ainda quero fazer» e ele, a responder-lhe arqueando as sobrancelhas e contraindo os lábios mudos, numa reprovação que o Carlos não era assim tão estúpido que não pudesse entender mas a que retorquiu apenas com uma petulante gargalhada, como se se estivesse a rir dele, como se soubesse que aquela merda ia acontecer.

Sentia-se enganado. Qualquer penalização teria sido melhor do que aquela reforma completa «Aproveita a vida, Carla!». Na verdade, tudo teria sido melhor do que a terrível ironia de passar duas décadas a suspirar pela reforma redentora, a sonhar com a tal casinha na Beira onde ninguém lhe maçasse a aposentação dourada nos píncaros dos escalões «nem sei por onde começar, há tanta coisa que ainda quero fazer» para, na data na santa liberdade, ficar preso num quarto «Olha que há mais vida sem ser a vender pneus» de 12 por 10 metros quadrados.

Foi apagar o brasido do ódio no chuveiro. Durante esses três anos tinha aprendido muito. Foi na paixão pelos gregos antigos que descobriu o antídoto para o ódio e a vacina para a loucura. Os helenos pensavam no tempo de uma forma diferente: imaginavam-se a recuar para o futuro de costas em vez de avançar na sua direcção. A palavra opiso, por exemplo, que significa «atrás», era usada pelos gregos para designar não o passado, mas o futuro. Quando o rei Édipo arranca os cabelos por «não poder ver o que está aqui nem o que está para trás» lamenta-se de não conseguir ver nem o presente nem o futuro porque, convenhamos, o que está à nossa frente é visível. O problema é que nós vamos para o futuro a andar para trás. O truque, ensinavam os gregos, não consistia, portanto, em planear o Cronos, o tempo sequencial, mas em identificar o Kairós, a oportunidade irrepetível de cada momento presente.

Cronos devia encolher os ombros: já não era capaz de dizer de trás para a frente, ou da frente para trás, que medidas de isolamento social se sucederam a que renovações do Estados de Emergência e que novas ordens das autoridades de Saúde se traduziram em que remodelações do quarto de confinamento. Algures no primeiro ano, o filho disse-lhe pelo telecomunicador que o decreto da 15.º renovação do Estado de Emergência proibia permanentemente os idosos com mais de 65 anos de sair do quarto de confinamento e ele, que já não vivia à espera de Cronos mas de Kairós, não fez demasiadas perguntas. Até esse ponto, os quartos de confinamento de idosos haviam sido apenas uma recomendação, mas as famílias aparentemente não respeitavam as instruções das autoridades sanitárias e o número de mortos não parava de aumentar. Para travar a formidável mortandade que grassava na terceira idade, o novo decreto impunha penas de prisão para os familiares dos idosos infectados. Não se importou demasiado: dentro da nova normalidade até era um privilegiado: a requisição generalizada impedia incontáveis famílias de cuidar dos seus idosos confinados e o seu filho, ao menos, nunca falhara uma refeição. Quando, passado uns meses, colapsaram todas as telecomunicações à excepção da rádio, isso também não o perturbou, afinal, num mundo devastado pela pandemia, ele mantinha uma vida segura e confortável, preso num quartinho, é certo, mas nos 20% de idosos sobreviventes que, perdendo o libelo grisalho de peso para a segurança social e grande estorvo em geral, passaram a ser vistos como uma relíquia tão frágil e tão rara que se tornava necessário prendê-los a todos. Só se afligiu quando o filho testou positivo, embora assintomático. O coitado não tinha sintomas nem da vida: aos cinquenta anos nem mulher nem filhos nem carreira nem casa própria nem perspectivas de um dia se reformar, como ele. Já no segundo ano, o filho informou-o de que estavam infectados todos os adultos do país em idade activa. De resto, não guardava rancor à sua prisão, um sacrifício necessário para preservar a vida, e muito menos ao seu pobre carcereiro que, obrigado por requisição civil, continuaria a trabalhar infectado, das 8 às 20 horas de segunda a sexta e enquanto o Estado de Emergência durasse. A culpa de tudo aquilo era do vírus. E o vírus não sabia sequer o que era o rancor.

Saído do duche, prosseguiu a leitura. O rei de Tebas, Laio, e a sua mulher, Jocasta, ouvem do oráculo de Delfos a terrível profecia de que o seu bebé recém-nascido, a que dão o nome de Édipo, um dia matará o pai e casará com a própria mãe. Para evitar a desgraça, Laio e Jocasta abandonam o infante à morte na natureza. A criança, contudo, escapa nos braços de um Pastor ao destino que lhe fora traçado e cresce sem saber quem é. Já um jovem, Édipo cruzar-se-á por coincidência com o séquito de Laio, que viaja em anonimato. Por motivo fútil, literalmente uma cedência de passagem num cruzamento, dá-se um confronto em que Édipo rebenta toda comitiva real à porrada e mata Laio, executando parte da profecia vaticinada à sua nascença. Embora Édipo o ignorasse, o seu futuro recuava.

Fechou o livro e vestiu-se. Sentia-se incomodado com alguma coisa que não podia identificar.

— Estás aí? — gritou ao telecomunicador.
— Sim… — afirmou, soporosa, a voz do filho passados alguns segundos.
— Estás bem?
— Estou, estou — abreviou o filho.
— Acordei-te?
— Não, não… O que se passa? — insistiu o mais novo.
— Não sei, não é nada. Acordei estranho, hoje ­— começou o progenitor.
— Mas sentes-te bem?
— Sim, sim… Não é isso — continuou contra uma timidez espessa e opaca — Hoje é o aniversário da minha reforma. Três anos, porra. Se calhar foi isso, não sei. Está tudo bem.

O silêncio sepulcral que crescia no altifalante incomodou-o.

— E como estão as coisas lá fora? — perguntou só para que o filho tivesse de falar.
— Iguais. O governo ontem disse na rádio que estão à espera de pelo menos mais cinco vagas até haver imunização — retorquiu o filho.
— E a vacina?

Novamente, o silêncio preencheu-se de estática a ziziar no telecomunicador como as cigarras no Estio. Ainda não havia vacina. O confinamento era potencialmente perpétuo.

E foi então, nesse preciso momento, que aconteceu. O filho continuava a falar sobre uma manifestação ilegal contra a requisição civil para todos os trabalhadores em idade activa, mas ele tinha deixado de o ouvir: olhava fixamente para o ecrã do telemóvel que mostrava as horas como uma sentença: eram oito horas e dez minutos.

— …e eu até concordei com a requisição ao início: se ninguém fosse trabalhar, em vez de morrerem muitos com o vírus morríamos todos de fome, mas não acho bem que…
— Sabes que horas são? — perguntou subitamente. A sua voz soou clara e calma, cortava como um machado. O filho tardou a responder. As cigarras eléctricas reocuparam o imenso espaço entre os dois — Porque não estás a trabalhar?
— Houve um problema de abastecimento — titubeou o filho — Mandaram-nos ficar só hoje em lay-off. Amanhã já…
— Não. Tu disseste-me que já não havia lay-off. Não me disseste que quando uma empresa pára os trabalhadores são automaticamente requisitados para ocupar o lugar dos mortos?
— Eu sei… — a respiração do filho suava — Nós achamos que é por isso que isto vai dar barraca… O patrão não informou o governo que ia parar e agora…
— Ok.

Conhecia o filho há mais de cinquenta anos. Ao poisar o telecomunicador, sentiu uma espuma ácida a formar-se-lhe no estômago, o coração ardia-lhe e o cérebro latejava. Não sabia porquê, mas tinha a certeza de que o filho estava a mentir.

Cirandava pelo quarto como uma fera enjaulada. Se o filho ficava em casa, a requisição civil não existia e se a requisição civil não era real, que mais não conseguia ele ver nas suas costas? Para serenar a aflição, regressou ao livro: após matar todo um cortejo de desconhecidos na sequência de uma discussão no trânsito, Édipo ouve dizer que, infeliz coincidência, o rei de Tebas havia falecido, pelo que a coroa do reino, bem como a mão da viúva Jocasta, pertenceria a quem conseguisse derrotar a esfinge. A esfinge era um terrível monstro que impunha um embargo ao comércio tebano, impedindo de entrar ou sair da cidade-estado quem não soubesse responder a uma adivinha, provação que reiteradamente terminava no estômago da esfinge. Édipo, claro está, decidiu que seria de bom alvitre tentar também a sua sorte na estrada para Tebas. «Qual é coisa, qual é ela, que de manhã caminha em quatro patas, à tarde em duas e à noite em três?», perguntou o medonho monstro com cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia. Édipo, que, ainda não o dissemos, era tão danado para a porrada como para as adivinhas, sem delongas respondeu: «é o homem! Na infância gatinha, quando é adulto caminha e na velhice apoia-se numa bengalinha». Derrotada por fim, a esfinge precipita-se no abismo, desimpedindo o caminho para Tebas, onde o infeliz leigarraz se casará com Jocasta e se sentará no maldito trono. Estava cumprida a profecia.

Não se conseguia concentrar. Do turbilhão de hipóteses que o zurziam como vespas uma picou-o em cheio no meio da testa: se o filho lhe mentira sobre ir trabalhar, talvez também lhe tivesse mentido sobre a pandemia. Uma e outra vez quis tergiversar o pensamento para diferentes azimutes, mas o veneno da vespa suspicácia já lhe espalhava o seu barrunto pela corrente sanguínea. Deu por si, preso naquele quarto minúsculo, a perguntar-se quanto ao certo seria verdade. Teriam as telecomunicações colapsado mesmo? Diriam os decretos do Estado de Emergência tudo o que o filho lhe relatava? O que sabia ele sobre vírus e pandemias? Quem era ele para disputar o que lhe dizia o filho, a quem dissera a rádio, a quem dissera o Presidente, a quem disseram os cientistas que era preciso fechar os velhos e trabalhar até exaustão? Poderia a pandemia durar para sempre? Ao fim de tanto tempo fechado, sem ouvir nem ver ninguém, a emergência torna-se em normalidade, a excepção converte-se em regra e o confinamento numa verdade tão desnecessária de provar ou discutir como o ar invisível que se respira.

Tinha de ouvi-lo pelos próprios ouvidos.

— Estás aí? — perguntou.— Sim — a voz seca do filho emergiu da estática.
— Quero ouvir a rádio.

A resposta do filho tardou, deixou o titanesco pedido de chumbo caído no chão, e subitamente caiu sobre ele, rápida, assertiva e com força de lei natural.

— Não pode ser, pai. Só temos uma e está comigo. Se ta desse, infectava-te.
— Não quero saber, desinfecta-a — recorreu desapegadadamente.
— O desinfectante está esgotado há dois anos, pai. Porque é que queres a rádio? Eu não te digo as notícias quando as há?
— Não interessa. Limpa-a como puderes. Usa sabonete, usa lixívia, mas traz-ma. Não oiço mais nenhuma voz há três anos. Quero ouvir a rádio. Até pode ficar desse lado da porta com o volume no máximo.
— Isto é por causa daquilo hoje de manhã? — Insurgiu-se o filho.
— Não. Só quero que me tragas a rádio durante uma hora. Estou a pedir-te.
— Não.

Um silêncio de fel borbulhava do telecomunicador, queimava-lhe os ouvidos e secava-lhe a boca.

— Se não me trouxeres imediatamente o rádio, eu vou-me embora.

De pouco serviram a súplicas enraivecidas do filho. Quando se tornou claro que o seu pedido seria indeferido, respirou fundo, colocou a máscara e agarrou na maçaneta da porta corta-fogo que, em três anos, nunca tentara rodar. A mão estremeceu-lhe quando rodou o puxador e um fio de gelo desceu-lhe pela espinha. Estava trancada. Estivera sempre trancada. E pela primeira vez, percebeu que era um prisioneiro. Por isso gritou, até a voz enrouquecer, esmurrou a porta até as mãos lhe sangrarem. Depois chamou pelo filho caído em lágrimas contra a porta como um trapo humano. Assim chorou baixinho durante muitas horas.

Costuma-se dizer que não é por falta de força que os elefantes não arrancam da terra as palancas a que os acorrentam, mas simplesmente porque assumem desde pequeninos que as estacas são impossíveis de arrancar e, quando crescem, nunca mais experimentam. Com ele fora ao contrário. Nunca tentara abrir a porta porque sempre assumira que estava aberta. Caindo por terra essa suposição, desmanchavam-se todas as outras certezas: haveria ainda confinamento obrigatório? Duraria ainda o Estado de Emergência? A requisição civil generalizada seria verdadeira? Existiria mesmo alguma pandemia?

Nessa noite, a primeira em que o filho não lhe trouxe o jantar, deitou-se na cama e retomou a leitura: volvidos muitos anos sobre a coroação de Édipo, uma misteriosa maldição abate-se sobre Tebas: toda a vida se torna estéril. A infecundidade afecta não somente os seres humanos como também as plantas e os animais por igual, matando lentamente a cidade à fome. O oráculo revela aos tebanos que a maldição só poderá ser quebrada descobrindo o assassino do rei Laio. Em busca de respostas, Édipo consulta Tirésias, o famoso profeta cego, que lhe revela ser ele o assassino de seu pai. Quando o anátema de Tirérias se confirma, o mundo de Édipo desmorona-se sob o peso da realidade. Jocasta, sua mãe e mulher, suicida-se e Édipo, incapaz de enfrentar a verdade, arranca os próprios olhos com um alfinete da mulher.

Não faria sentido esperar por Cronos, que devora tudo o que cria, era preciso agir. Édipo segredara-lhe uma ideia ao ouvido.

Na manhã seguinte, aliás como todos os dias, às 7 da manhã, o filho desceu as escadas com o pequeno almoço num tabuleiro: um copo de leite e um pão de leite com queijo e manteiga. Abriu o microondas que, através de duas portas, comunicava com o interior do quarto, permitindo desinfectar os alimentos através de uma fervura rápida, e poisou o pequeno-almoço no prato giratório. A outra porta também estava aberta, violação clara das regras de saúde, e, no chão do quarto, viu o pai, jacente de bruços numa enorme poça daquilo que tanto podia ser sangue como negra pez, não fosse só o sangue cheirar a sangue.

Destrancou a porta desesperado e ajoelhando-se junto ao pai entre soluços embargados e pedidos indecifráveis, agarrou-lhe entre as palmas a cara inerte. Procurava a ferida que tão copiosamente jorrava mas em nenhum lugar se via. Nem nos pulsos, nem no pescoço, nem nos lugares costumeiros dos suicidas convictos, nem sequer no coração, pelo menos a olho nu se visse, que ele há feridas no coração que profusamente sangram e nunca se vêem. Até que numa fracção de segundo, o pai levanta-se de um salto com um vigor juvenil guardado sabe-se lá onde, derruba no charco de sangue o filho meio atónito de cócoras e cruza como um felino o umbral. Antes que o filho pensasse sequer em se levantar, deu duas voltas à chave.

Enquanto estancava a hemorragia que provocara enterrando profundissimamente na coxa uma lâmina de barbear, ouvia os ecos abafados do filho a berrar impropérios e a projectar-se em peso contra a porta. Depois foi à janela. Forçou os olhos a habituarem-se à claridade do céu que não via há 3 anos. A rua imóvel e deserta de gente permanecia sob o mesmo feitiço soporífero. Só os gatos vadios e os estendais adejar os perfumes do detergentes da roupa na tarde de Primavera é que quebravam a ilusão de ter alguém carregado no botão da pausa. A casa também parecia congelada no tempo: o filho não mudara a posição de nada, nem sequer da televisão, que afinal continuava a funcionar normalmente. A pandemia afinal continuava, confirmou o noticiário, e a requisição civil era real, mas nem uma palavra sobre quaisquer medidas de confinamento forçado para os velhos. Algo não batia certo, como uma profecia que parece incompleta sem uma grande razão de existir.

Desceu as escadas, enfiou a cara no microondas e disse ao filho:

— Acho que me deves uma explicação.
— Vais prender-me aqui para sempre? — respondeu o filho sem o encarar. Estava sentado na cama, dobrado sobre si mesmo, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça amparada entre as duas mãos. Dali, parecia estar a ver-se a si próprio na televisão: a barba menos branca, a cabeça menos calva, mas de resto tal pai, tal filho.
— Só se não me explicares porque é que me ias fazer isso a mim.
— Para não te infectar! Para te proteger!
— Não mintas, já estive a ver televisão.

Calmamente, o filho ergueu a cabeça e observou o quarto à sua volta como quem procura imaginar-se a viver numa casa nova. Naquele instante foi como se estivesse a olhar pela fechadura do tempo para o filho pequenino, assim sentadinho na cama do seu quarto, abstraído das profecias que lhe reservava o mundo. O que estava para fazer doeu-lhe tanto que sentiu as glândulas lacrimais em brasa e os ossos gelados e até Cronos, um tipo que devora os próprios filhos, se comoveu perante semelhante visão.

— A requisição geral — começou por fim — depois de meses em casa, fomos obrigados a ir trabalhar. Essa parte é verdade. Na fábrica todos os dias adoeciam trabalhadores. Eram substituídos automaticamente pelos funcionários das empresas que já não conseguiam laborar por problemas de logística, abastecimento ou falta de mão-de-obra. Os números de mortos também eram verdadeiros. Diziam que morrer a economia era pior do que morrermos alguns de nós. Só eles é que não morriam.
— Eles quem?
— O governo, o meu patrão… os ricos deste país. Esses aprenderam a proteger-se rapidamente. Sabes o que é que faziam? Nunca saíam de sítios como este. Maiores, é certo, mas não entendes que te estava a proteger? — perguntou o filho.
— E porque é que eu não podia saber? Porque tiveste de mentir este tempo todo? — devolveu o pai.
— A única escapatória à compulsão ao trabalho da requisição era a reforma antecipada, com um corte de 70 por cento… Só com isso eu não me safava, pai.
— Então prendeste o teu próprio pai para lhe roubares a reforma?!

O filho, como que sentindo os olhares reprovadores dos leitores, desviou os olhos envergonhados e levantou-se perturbado e sem saber que o maior opróbrio não é o seu mas o de um tempo em que os filhos dependem das reformas dos pais para se manterem vivos.

— Prendi-te aqui dentro para não morrer. Se fosse trabalhar ia trabalhar 11 horas por dia até morrer infectado.
— Porque não me pediste?
— Pedir-te uma mesada? Como um adolescente? Pedir-te que pusesses pão no prato de um velho de 58 anos? E tu, vais dizer que me dirias que sim?

Nessa noite sonhou com o mar. Quando acordou, preparou um pão com queijo e um copo de leite, tocou três vezes à porta, colocou o pequeno-almoço no prato giratório do microondas e foi ver televisão. O presidente anunciava a 50.ª renovação do Estado de Emergência, que expandia a iniciativa privada dentro das prisões e autorizava a polícia a fazer buscas sem mandato nas casas suspeitas de ocultaram trabalhadores em idade activa fugidos ao trabalho. Já não se lembrava de quase nada do sonho dessa noite, nem como ali tinha chegado nem por que razão estava sozinho, a nadar na imensidão nocturna de um oceano tranquilo, mas, de alguma forma, o sonho parecia-lhe fazer sentido.

17.4.20  
Ilustração de Renata Candeias