Thursday, September 24, 2026

1ª Festa do Avante!


A 24 de Setembro de 1976, o PCP erguia a Festa que Portugal nunca tinha visto.
Há precisamente 50 anos abríamos as portas da 1º Festa do Avante! na FIL, em Lisboa. Em 1976, contra todas as evidências em contrário, a Festa do jornal que resistiu na clandestinidade durante 48 anos - o Avante! - nascia como esperança para a construção do Portugal de Abril, celebrando a liberdade. Festa da cultura, da solidariedade, da amizade e da alegria, a sua natureza política foi determinante para responder à urgência democrática e à força da vontade popular. Era a possibilidade daquilo que juntos conseguimos fazer com as nossas próprias mãos.
50 anos depois, a Festa continua cada vez mais viva e sempre a olhar para o futuro. É por isso que todos os anos a Festa nos surpreende com a sua constante novidade, com a imensa juventude que nos faz dizer, sem hesitar, que não há Festa como esta.

(do site Festa do Avante)

Wednesday, September 23, 2026

Peço silêncio


Agora deixem-me tranquilo.
Agora acostumem-se sem mim.
Eu vou fechar os olhos
E só quero cinco coisas,
Cinco raízes preferidas.
Uma é o amor sem fim.
A segunda é ver o Outono.
Não posso ser sem que as folhas
Voem e voltem à terra.
A terceira é o grave Inverno,
A chuva que amei, a carícia
Do fogo no frio silvestre.
Em quarto lugar o Verão
Redondo como uma melancia.
A quinta coisa são teus olhos,
Matilde minha, bem amada,
Não quero dormir sem teus olhos,
Não quero ser sem que me olhes:
Eu troco a Primavera
Pra que tu me fiques olhando.
Amigos, isso é tudo o que quero.
É quase nada e quase tudo.
Agora, se querem, que se vão.
Vivi tanto que um dia
Terão de esquecer-me com força,
Apagando-me do quadro negro:
Meu coração foi interminável.
Mas porque peço silêncio
Não creiam que vou morrer:
Pois é exactamente o contrário:
Acontece que vou viver.
Acontece que sou e que sigo.
Não será, pois, senão que dentro
De mim crescerão cereais,
Primeiro os grãos que rompem
A terra para ver a luz,
Porém a mãe terra é escura:
E dentro de mim sou escuro:
Sou como um poço em cujas águas
A noite deixa suas estrelas
E segue só pelo campo.
Trata-se de que tanto vivi
Que quero viver outro tanto.
Nunca me senti tão sonoro,
Nunca tive tantos beijos.
Agora, como sempre, é cedo.
Voa a luz com suas abelhas.
Deixem-me só com o dia.
Peço permissão para nascer.
Pablo Neruda

Friday, September 11, 2026

Os onzes de Setembro

 
Há 25 anos estava na Berlenga. E como havia uma enorme afluência de turistas à ilha, e consequentemente ao restaurante, fui para trás do balcão ajudar a tirar cafés.
A certa altura o Manel (concessionário do Pavilhão Mar e Sol) chamou-me para eu ver a televisão. O barulho era muito e pareceu-me estar a ver um filme de ficção. Os clientes centraram a atenção no aparelho, quase junto do tecto, o Manel subiu o som e fez-se silêncio (quase) absoluto. As imagens ainda hoje me chocam. E os atentados às torres gémeas foram (e ainda são) tema de conversa naquele dia e nos que se seguiram.
Mas eu também me lembro que, num outro 11 de Setembro, em 1973, aconteceu um outro atentado em Santiago do Chile, melhor dizendo um golpe militar, que culminou com a morte do Presidente Salvador Allende, eleito democraticamente. E que só no dia seguinte soubemos do acontecido pelo jornal 'República'. Não houve televisões a noticiarem, muito menos a fazerem directos, e o pior de tudo era mesmo NÃO PODER TROCAR INFORMAÇÃO fosse com quem fosse, NEM TELEFONAR A AMIGOS, pois podia haver pides e bufos em qualquer esquina ou casa. E as paredes tinham, na época, ouvidos.
No atentado de há 25 anos, que ocorreu precisamente a esta hora, morreram cerca de 3.000 (TRÊS MIL) pessoas.
No golpe militar no Chile, o bombardeamento ao palácio La Moneda ocorreu por volta das 4 da tarde em Portugal (meio dia em Santiago). Morreram 60.000 (SESSENTA MIL) pessoas.
Vivi isto tudo, tenho memória e não perdoo!

O dia em que não morri - revista piauí

Saturday, September 05, 2026

Daqui deste deserto em que persisto


Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia,
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada

António Ramos Rosa