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Friday, April 28, 2023

27.Abril.1974 - LIBERTAÇÃO DOS PRESOS POLÍTICOS


00:30 - FORTE DE CAXIAS
1 Abel Henriques Ferreira
2 Acácio Frajono Justo
3 Albano Pedro Gonçalves Lima
4 Álvaro Monteiro Rodrigues Pato
5 Amado de Jesus Ventura Silva
6 António Luís Cotri
7 António Manso Pinheiro
8 António Manuel Gomes Rocha
9 António Pinheiro Montero
10 António Vieira Pinto
11 Armando Mendes
12 Carlos Alberto da Silva Coutinho
13 Carlos Biló Pereira
14 Carlos Manuel Oliveira Santos
15 Carlos Manuel Simões Manso
16 Ernesto Carlos Conceição Pereira
17 Eugénio Manuel Ruivo
18 Ezequiel Castro e Silva
19 Fernando Piedade Carvalho
20 Fernando Domingues Roque
21 Fernando José Penim Redondo
22 Fernando Nunes Pereira
23 Fernando Pinheiro Correia
24 Figueiredo Filipe
25 Henrique Manuel P. Sanchez
26 Hermínio Palma Inácio
27 Horácio Crespo Pedrosa Faustino
28 Ivo Bravo Brainovic
29 João Boitout de Resende
30 João Duarte Pereira
31 João Filipe Brás Frade
32 João Pedro de Lemos Santos Silva
33 Joaquim Brandão Osório de Castro
34 Joaquim Gorjão Duarte
35 José Adelino da Conceição Duarte
36 José Alberto Costa Carvalho
37 José Casimiro Martins Ribeiro
38 José Ferreira Fernandes
39 José Luís Saldanha Sanches
40 José Manuel Martins Estima
41 José Manuel Tengarrinha
42 José Oliveira da Silva
43 José Rebelo dos Reis Lamego
44 Liliana de São José Teles Palhinhas
45 Luís Filipe Rodrigues C. Guerra
46 Luís Manuel Vítor dos S. Moita
47 Manuel Gomes Serrano
48 Manuel José Coelho S. Abraços
49 Manuel Martins Felizardo
50 Manuel Miguel Judas
51 Manuel Policarpo Guerreiro
52 Manuel Santos Guerreiro
53 Marcos Rolo Antunes
54 Margarida Alpoim Aranha
55 Maria Fátima Pereira Bastos
56 Maria Elvira Barreira Ferreira Maril
57 Maria Fernanda Dâmaso de Almeida Marques Figueiredo
58 Maria Helena Neves
59 Maria Helena Vasconcelos Nunes Vidal
60 Maria Manuela Soares Gil
61 Maria Rodrigues Morgado
62 Maria Rosa Pereira Marques Penim Redondo
63 Maria Ventura Henriques
64 Maria Vítor Moita
65 Mário Abrantes da Silva
66 Mateus Branco
67 Miguel António Jasmins Pereira Rodrigues
68 Norberto Vilaverde Isaac
69 Nuno Teotónio Pereira
70 Orlando Bernardino Gonçalves
71 Pedro Mendes Fernandes
72 Rafael dos Santos Galego
73 Ramiro Antunes Raimundo
74 Ramiro Gregório Amendoeira
s/n Ramiro Morgado (A) [consultar nota no fim]
s/n Sérgio Ribeiro
75 Vítor Manuel Caetano Dias
76 Vítor Manuel Jesus Rodrigues
77 Vítor Serra Lopes

INTERNADOS NA PRISÃO-HOSPITAL DE CAXIAS
78 António Dias Lourenço
79 José Alves Tavares Magro (preso há vinte anos)
80 Miguel Camilo
81 Rogério Dias de Carvalho

MADRUGADA - FORTE DE PENICHE
82 Ângelo Veloso
83 António Cândido Coutinho
84 António Gervásio
85 António Gonçalves Tomás
86 António Metelo Perez
87 Carlos Cardoso Gonçalves
88 Carlos Domingos Soares da Costa
89 Carlos Saraiva da Costa
90 Dinis Miranda
91 Filipe Viegas Aleixo (A)
92 Francisco Manuel Cardoso Braga Viegas
93 Francisco Martins Rodrigues (A)
94 Garcia Neto
95 Horácio Rufino
96 João Duarte de Carvalho
97 João Eurico Bernardo Fernandes
98 João Pulido Valente
99 Joaquim Duarte «Alfaiate»
100 José Brasido Palma
101 José Manuel Caneira Iglésias
102 José Pedro Correia Soares
103 José Simões de Sousa
104 Licínio Pereira da Silva
105 Luís Filipe Fraga da Silva
106 Luís Miguel Vilã
107 Manuel Drago
108 Manuel Pedro
109 Nelson Rosário dos Anjos
110 Pedro Campos Alves
111 Pedro Mendes da Ponte
112 Raul Domingos Caixinhas
113 Rui Benigno Paulo da Cruz
114 Rui d'Espinay (A)
115 Rui Teves Henriques
116 Sebastião Lima Rego
(A) só ficaram definitivamente em liberdade ao começo da noite do dia 27
(até àquele momento estiveram com residência fixa em casa dos seus advogados)

A todos eles a minha eterna e comovida gratidão.

VIVA A LIBERDADE!
Fazendo minhas as palavras da Rita, que novamente vou buscar, "...seres com um profundo sentido de justiça e uma imensa capacidade de abnegação; indivíduos para quem o bem-estar próprio ou dos filhos vale tanto quanto o bem-estar de todos e para quem o primeiro não existe sem o segundo. Nem sequer se trata de abdicar de uma vida tranquila em prol dos outros; são indivíduos para quem a vida não é tranquila enquanto não houver justiça, igualdade e liberdade."

Wednesday, August 11, 2021

A orientação é beber café

A orientação é beber café

O corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz.

«Interrogatório», em <em>Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar</em>, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978)
«Interrogatório», em Caricaturas portuguesas dos anos de Salazar, de João Abel Manta, edição O Jornal (1978) João Abel Manta

Já uma estrela se levanta: a gota primeira, que no chão desenhou uma circunferência e, reflectindo o embalo da lâmpada, cintilou solitária no cimento. “Isso um comunista já sabe”, pensou, “agora é boca fechada”. Uma silhueta que ali não estava cruzou a gota no chão. Ela tinha ficado deitada na areia — não sabia porque se lembrava desse Verão agora — e ele nadou para longe, para além da rebentação, para além de perder o pé, para além da Eduarda ser só um pontinho na praia levantado, a tentar

— Ó chefe, este gajo é mudo. É melhor soltá-lo já com um pedido de desculpas.

— Outro? Veja lá primeiro se não é só mouco. Repare que ele nem olha para nós! Se calhar o homem nem sonha que estão três senhores aqui a falar com ele, interessados nele, preocupados com

Recitou mentalmente, prodígios de memorização a que a clandestinidade obriga, o Se Fores Preso Camarada, as regras dos comunistas detidos: “«a polícia tudo faz para reduzir os presos a farrapos humanos e a delatores». Por muito pior passaram camaradas meus e não racharam. O Jorge, pá, o estado em que ele dali saiu... e não falou. E eu? Venho com o quê? Como é que a gente cantava? Padroeira dos mineiros, vê lá, vê lá como venho eu. Duas bofetadas e duas noites sem dormir. O Jorge, pá, que durante o interrogatório recitava poesia para dentro. Tira o chapéu milionário, vai o enterro a passar. Os gajos a fazerem-lhe perguntas e ele mudo, a tentar recitar o Ary na cabeça, e os PIDES a olhar para ele como quem diz «onde é que este gajo está?». Está bem que eu não sei Ary, mas sei as nossas canções… Foi a filha de um operário que morreu a trabalhar. Ou seja, não mostrar medo.”

Nesse instante, uma enorme pancada atingiu-o no ouvido e o corpo desmanchou-se como se boneco de engonços fosse e ali morresse de alívio, porque ao fim do terceiro dia por fim, deus, arrependido do uso dado pela PIDE à primeira criação, tivesse desfeito a luz. Quase adormecia, não fossem as algemas a mantê-lo sentado enquanto um silvo grave como o rumorejo do mar no búzio desligava generosamente todos os sons: uma estranha sensação de paz, sair dali e estar sozinho a ouvir o mar e a sentir a água quente a acariciar-lhe o ouvido e a descer pelas maçãs do rosto. Quando a escuridão começou a desvanecer-se e a visão começou a voltar, percebeu que afinal deus não se tinha arrependido de nada, mas tinha crescido a circunferência no chão. Era uma estrela que já se levantava.

Apercebeu-se que nesse espelho negro, para além da sua imagem e da dos seus torturadores, moviam-se outros reflexos difusos, nebulosos, inexplicáveis. Levantaram-lhe a cabeça pelos cabelos: era o inspector-adjunto, o Esser, já nesta altura lhe sabia o nome. A vertigem do movimento deixou-o tão confuso que pareceu-lhe ouvir o grito preocupado da Eduarda, “Volta para trás!”, a chamá-lo da praia. Sorriu. Lá atrás, o Saraiva ria-se muito ufano, e cortava o ar com o varapau, reencenando o golpe para o dactilógrafo, que ainda sem nada para dactilografar, assistia em silêncio.

— Pronto, pronto — rouquejou o Esser — Não leve a mal: o Tavares descontrola-se com estas coisas, tem sangue quente. Consegue ouvir-me?

Recordou-se de que estava na António Maria Cardoso quando, atrás de si, ouviu o outro a entusiasmar-se com uma nova actuação:

— Viste, Saraiva? Parecia uma pinha!

— Então vamos lá ter uma conversa de homem para homem. Isto aqui é assim: toda a gente fala, amigo. Uns, passadas duas horas; outros, passado um dia; também há uns que só falam passados 30, mas esses já vão tarde. Você vai com três dias. Por fraco já não passa e no meio é que está a virtude, costuma dizer-se. Por isso sugiro que atalhemos caminho: só preciso que me explique porque estava há quatro horas sentado num café. Que você é do Partido já sabemos. Sabemos tudo sobre si. A questão é

— A minha tarefa é beber café — declarou tão ríspido que se surpreendeu a si próprio e ao Saraiva mais ainda, não tanto por ser este o seu primeiro interrogatório mas porque, por desorientação do detido, calhou ser nos seus olhos que poisaram os dele a resplandecer de sangue como um tição que soprando a cinza volta a incandescer.

 “Acho que tenho o crânio partido, acho que morro aqui”, pensou, “Eduarda, desculpa, meu amor. Eu sei que… Calma… tem calma… Isto está a terminar. Vamos pensar noutra coisa…”

— Vês, Tavares? Afinal não só não é mudo como ainda tem sentido de humor! Então a sua tarefa é beber café. Está certo. Então diga-me lá com quem? Se me disser que

Mentalmente, continuou a recordar as palavras do panfleto: “«Cada membro do Partido sabe que, se falar ao ser preso, transforma-se imediatamente em auxiliar da polícia: um traidor da sua classe que como tal será julgado pelo povo». Como é que a gente cantava? Dá-me uma gotinha” 

— Olha para o senhor inspector quando ele fala contigo, caralho! — uivou agudo o Tavares, e forçou-lhe brutalmente a ponta do bastão dentro da boca. Pingaram no chão muitas gotas de sangue.

“dessa que eu oiço correr”, continuou a pensar, “I”

— Ó Tavares tenha calma — sugeriu o Esser, bonacheirão, tirando da lapela o crachá esmaltado que avisava ser Internacional esta Polícia — traga-me uma cadeira — e cantarolava — Lá vamos, cantando e rindo, levados, levados, sim — e sentou-se atrás dele — pela voz do som tremendo das tubas, clamor sem fim — e agarrou numa mão algemada — Lá vamos, que o sonho é lindo — e prendeu-lhe o indicador — Lá vamos, cantando e rindo — e espetou o alfinete do crachá muito fundo sob a unha.

Foi a primeira vez que gritou, um grito enlouquecido de dentes partidos e medo, que fez estremecer cada átomo e empurrou contra a parede a cadeira do dactilógrafo e até o Tavares calou. Só o Esser não parecia perturbado: continuava a revolver-lhe a carne como um mecânico que aperta porcas num corpo, aproveitando-se de sermos assim tão frágeis que basta pressionar, não mais que um milímetro, qualquer coisa mais dura que as nossas carnes macias e logo elas sangram e cedem. Mas ele não.

“Vais aguentar”, pensou, “vais aguentar. Não os deixes ver-te chorar. Vá, como é que era? Vê lá como venho eu, vê lá companheiro, vê lá, vê lá como venho, eu. Eu não quero que vejam como eu venho”

Um sorriso perverso insinuou-se nos lábios do Tavares quando reparou no dactilógrafo. Tinha as palmas da mão simetricamente poisadas na mesa de cada lado da máquina de escrever. Estava pálido.

— Tem calma, puto: isto só custa a primeira. Eles gritam sempre assim. Queres um cigarro? — O Saraiva recusou. — O Esser tem de pô-lo a cantar ainda hoje senão a coisa fica feia para o nosso lado. Está aí um gajo de Lourenço Marques que se queixou ao director-geral que as técnicas do Esser para pôr

— Obriga-me a envolver outras pessoas nisto — ameaçou o Esser — Que culpa é que a sua mulher… Eduarda não é? Que culpa é que ela tem disto? Olhe que depois o que acontecer entre ela e aqui o Tavares é na sua consciência que fica, não é na do Partido. O que dizes, Tavares?

“Eduarda, meu grande amor”, pensou, “escrevo-te agora a carta de amor possível. Memorizo-a no coração para entregar-ta em mão. E começo-a assim: peço desculpa por tudo. Pelo que já aconteceu e o que poderá ainda acontecer. A única coisa verdadeira que a PIDE me disse é que tu não tens culpa.”

— Com quem é que você ia beber café?! — berrou o Esser — Saiba que prendemos uma

“Desta vez vamos abalar daqui: para muito longe, para viver um amor de novo tipo nos anos que nos resta, porque não é só em tempo se mede a força de trabalho, mas também o amor. Se Portugal não quer o sonho porque lutámos, faremos nós com ele uma vida em que a tua liberdade seja a minha condição e em que cada um de nós um receba o amor de que precisa dando o amor de que é capaz”

— Ó Saraiva, ligue-me lá à mulher dele.

“Amor da minha vida, minha camarada, meu colectivo, minha vanguarda e retaguarda, minha companheira: não consigo escrever-te agora a carta de amor que tu mereces, mas quando voltar escrever-te-ei muitas mais, longas e bonitas, porque carta que é carta de amor nunca é carta final”

— Estou sim? Olá menina… Não está a reconhecer a voz?

“«A polícia não emprega somente a violência e o terror”», recordou, “«não se limita às torturas físicas que, por piores que sejam». Trago a camisa rubra, de sangue de um companheiro, vê lá. «A polícia explora todas as fraquezas humanas, excita os sentimentos mais vis e recorre a todas as mentiras»”.

— Diga-me lá: acha que isto tudo vale a pena? Dá cabo da sua carreira, estraga a vida à sua mulher… e para quê? Você acha mesmo que vem aí uma revolução? Desde 1928 que dizem isso! Estamos em 74. Conhece algum partido comunista que tenha feito uma revolução 53 anos depois de ter nascido? Na Rússia o partido bolchevique tinha 14 anos. Em Cuba o 26 de Julho tinha 4. O partido mais velho foi o chinês, que fez a revolução com 28 anos e até

“Podem calar o meu grito enrouquecido, podem cortar o meu corpo à chicotada”

— Olhe à sua volta — e com a palma da mão circundou a sala — você vê muitas revoluções a estalarem por aí? Proletários a tomarem palácios? Operários a ocuparem fábricas? — riu-se — Vocês perderam o comboio da história. Acabou. O Estado Novo venceu e você perdeu, senão não estava aqui.

“Oiço ruírem os muros quebrarem as grades de ferro da nossa prisão”

— Pronto, Tavares, Saraiva, cheguem lá aqui que já só temos uma hora. Vamos fazer uma sessão espírita, a ver se o espectro do comunismo nos diz alguma coisa.

Rindo-se, o Tavares puxou o braço do Saraiva, mas o dactilógrafo recuou:

— Agora não consigo. — Cada vez mais pálido, tinha a fronte empapada de cabelo e suor.

— Não consegues ou não queres? — rugiu o Tavares — Vais desobedecer a uma ordem?!

O dactilógrafo, petrificado, olhou para o Tavares e depois para o Esser, que o fitava inexpressivo. A tensão acumulou-se e estufou o ar com uma irrespirável calma tensa até o Saraiva, agoniado, obedeceu.

Os três homens rodearam o detido e foi o Esser quem falou:

— Espectro do comunismo, comunica connosco! — E começaram os três homens a bater-lhe. Os golpes vinham de todas as direcções e acertavam-lhe na nuca, no nariz, na boca, nos olhos e na testa, onde já afloravam remendos brancos de osso. Quando pararam e, a custo, abriu os olhos pisados, a circunferência de sangue no chão era já uma estrela levantada, um gargalo negro de poço onde via o próprio reflexo e em que não se reconheceu.

“«Qualquer homem digno sabe que é preferível a morte física à morte moral. É melhor morrer como revolucionário sob os golpes da reacção do que degradar-se e descer ao papel repugnante do delator»”

E no entanto, sentiu-se quebrar. Teria falado, mas a pancada deixara-o tão confuso que já não sabia nada: nem onde estava, nem que orientação era a sua. Quando tentou falar só lhe saiu um soluço.

“E como é que venho eu?”, pensou, “não venho como Edgar André, a gritar aos carrascos «Eu não quero misericórdia! Vivi como lutador e como lutador morrerei», nem como Lepa Radic, com o nó ao pescoço a ameaçar «Os meus camaradas dar-vos-ão os seus nomes quando me vierem vingar», nem com o grito de Stjepan Filipović ao pelotão de fuzilamento «Morte ao fascismo! Liberdade para o povo!», nem com a serenidade do Che «Acalma-te e aponta bem: vais matar um homem». Vê lá como venho eu.

O Saraiva teve de sair da sala, não sem antes o Tavares lhe deitar um olhar de desprezo, e foi chorar e vomitar numa sanita. O que fez neste dia não contará a ninguém até ao dia em que morrer.

— Espectro do comunismo, qual era a tua orientação? — insistiu o Esser.

“Não importa”, pensou, “Um comunista está na vida como um morto de licença”

— A minha orientação é beber café — repetiu, mais alto, desafiante, quase morto.

O Tavares ia bater-lhe novamente, mas o Esser travou-o.

— Que cheiro… ó chefe, o gajo tá todo mijado. Porcos do caralho. Agora limpavas com a língua.

— Não podemos matá-lo — decretou o Esser — Vamos antes dar-lhe aqui uma poçãozinha.

Retirou uma seringa do estojo. Da agulha saltaram gotas de um líquido amarelado.

— Onde estou? — olhava as paredes com espanto e tentava em vão soltar-se — Eduarda?

O Saraiva tinha voltado. Notava-se que tinha lavado a cara. Sentou-se à máquina de escrever e o Tavares, divertido, segredou-lhe:

— Vais querer ver este baile. Chamam-lhe o soro da verdade: é uma merda que a CIA nos arranjou. Os gajos do Ultramar dizem que isto é placebo… querem correr com o Esser por causa disto, que os tipos alucinam e depois já não dizem coisa com coisa. Mas a verdade é que lá cantar, eles cantam

A agulha não encontrou resistência e o soro foi empurrado por veias e artérias até ao coração para logo ser bombeado até ao cérebro, mas deus continuava sem arrependimentos.

— Vamos voltar ao momento da sua detenção. Diga-me onde está e o que está a fazer.

O suspeito abriu os olhos. Respirava já só com dificuldade. Olhou para a gotinha, não de água doce nem mar salgado, que no chão se fizera grande e, como se fitasse bola de cristal, ou entranhas de coelho, ou folhas do chá na chávena, ou só uma grande, grande estrela que já se levantara do chão, respondeu:

— Já vos disse: estou a beber café — Afirmou-se-lhe a voz sólida e nítida como tronco de carvalho.

— Muito bem. Então vamos recuar quatro horas. O que é que está a fazer?

— Ainda estou a beber a café.

O dactilógrafo transido lançava contra as teclas uma violenta trovoada.

— Não brinque comigo! Você quer morrer aqui? Vá mais para atrás. Volte atrás no tempo! Ou ande com a fita para a frente tanto quanto precisar, mas diga-me o onde está e o que está a fazer!

— Estou… — perscrutava movimentos e sombras na poça de sangue — estou a fazer um jornal.

— Muito bem — Notava-se-lhe a satisfação na voz — Agora olhe à volta e diga-me onde está.

 — Não… Não… Não estou. Estou a rebentar o portão de uma prisão com um carro blindado.

— Este já não volta. Está a alucinar — comentou o Tavares.

— Estou… estou a fugir do forte de Peniche por um lençol. Estou a escrever uma carta com o meu próprio sangue. Estou numa manifestação de um milhão de pessoas nos Aliados. Estou a apregoar o Avante no Cais do Sodré. Estou sentado na relva a assistir ao comício do Partido. Estou a discursar do palanque na Assembleia. Estou num piquete de greve e numa greve da fome. Estou a comer papel bíblia e a morrer na frigideira. Estou a fazer cem anos e a nascer outra vez. Estou na Caparica, onde a polícia bateu num miúdo, e estou no Pinheiro Torres, onde a pobreza dos pais condena à nascença as crianças. Estou a morrer muitas mortes, Estou a celebrar a independência das colónias. Estou a descer a Rua do Arsenal com cravos e soldados e estou a defender uma sede do Partido cercada de fogo e estou nas mesas de voto a contar boletins com muito cuidado e estou a ser eleito delegado sindical e estou a prender-vos a todos em celas onde nunca serão torturados e estou a nadar de volta em direcção à praia. Estou a dizer-vos que isto não há-de durar para sempre. Eu estou a cumprir a minha orientação. E a minha orientação é beber café.

António Santos

(abril abril)