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Tuesday, April 11, 2023

...

Deixaste-me num dia de outono quase inverno. Sem avisares e sem que pudesse prever. A casa fortaleza ficou igual um tempo. Igual por fora e gelada por dentro.
Os dias passaram e tudo mudou. Da casa restam as paredes, ainda altivas, mas no chão só existem pedras. Entre as pedras os nossos corações.
Mais tarde percebi que a casa eras tu. E apressei-me a ir buscar, entre as pedras, o meu coração, que voltei a colocar no meu peito. Para te aquecer...
© ® Maria Morgado

Wednesday, September 23, 2020

Berna


Para ti
em dia de chumbo

Que felicidade eterna...
na planície enorme onde és
em gamas escarlate e grês
estás com tua meninice terna

Há coisas já passadas mas urgentes
como o teu ventre fofo de flores
e chocolate quente onde cravo os dentes
depois de escolher um amor entre os amores

Que alegres são as nuvens dos teus céus
onde afogo vários vícios meus
e encontro alegria acrescentada

Em ti, cidade plena por distante
acho-me como se fora mero amante
chorando a lonjura da mulher passada.

7/11/87

Tuesday, August 25, 2020

Do mistério das coisas


Para ti
em dia soturno

O dia de hoje amanheceu lilás como os lírios que o meu avô plantava no quintal da minha infância.
Vinha todos os dias com as suas grossas e bondosas mãos calejadas acariciar as flores que o prolongavam.
Sempre acreditei que a partir daquele quintal ele queria e podia encher o mundo.
O meu avô morreu há alguns meses atrás, mas os lírios continuam no mesmo sítio, como que à espera das suas mãos.
Quanto a mim, quase deixei de acreditar naquilo que ele me tinha ensinado, porque não obstante ter passado dias, semanas e meses, na busca insana de espécimes semelhantes, em todos os palácios, jardins e nitreiras, mais não consegui do que concluir que, definitivamente, não é possível as flores saltarem as vedações dos quintais.
Até que consegui perceber-te, frágil mas animosa, serena mas lúcida, guerrilheira mas mulher. E reacendeu-se em mim a vontade incontida de juntar os meus lírios aos teus cravos e ainda aos girassóis de alguém e fazer da Terra a nossa plantação.
É pois a ti, mulher-menina-de-sorriso-amargo, que me dirijo com uma confidência a um tempo cruel e necessária.
Uma vez, aquando das minhas surtidas furtivas, pude reparar num pequeno fungo de tal modo encaixado entre duas pedras enormes, que receei que estas o esmagassem. Então usei de toda a minha força para afastar os pedregulhos, mas em balde foi todo o esforço.
Tempo depois retornei ao local e para surpresa minha verifiquei que o pequeno fungo se desenvolvia de tal forma que parecia por si só ser capaz de afastar os dois colossos. Na altura reparei ainda numa pequena flor verde que rompia aquilo e me entrava no olhar.
Passou mais tempo, que ansiosamente fui descontando à espera que me tolhia tantos pensamentos e exaltava outros.
E um dia pude ter a felicidade de ver uma maravilhosa flor vermelha que, explodindo num matizado de vários tons, subia exuberantemente para o céu.
Nessa tarde, quando descia a pé as faldas de Sintra, alguém me tocou no ombro, possivelmente em segundo chamamento, perguntando alguma coisa de castelos, ao que respondi com o meu silêncio.
Eles perceberam e afastaram-se. É que dentro dos meus olhos bailavam sete litros de água.
Depois disto, se me soubeste ler, pegarás certamente no teu amor e na tua espingarda e saltarás definitivamente as barreiras que te separam do sonho, pois só assim poderás alcançar o tempo do pleno ser.
Este escrito, em que te coloco como Govinda da minha existência, é também uma homenagem ao teu estoicismo de mulher e ao facto de durante tantos anos teres conseguido cultivar flores dentro de ti.

25.8.77

Tuesday, December 15, 2009

Para ti, Pedro

Recolho as tuas lágrimas nas minhas mãos. Será esta a dor mais forte? O que é o medo, Mãe?
Que dor é esta que não me sai do peito? Como é o fim?
As lágrimas transformam-se em pérolas que enfio em ouro tecido por todos os amores.
O teu sorriso de menino fez-se homem. O teu olhar ficou baço. Apenas por momentos. Que dor é esta...
As palavras não me saem e apenas chovo. Contigo...


Guarda, 15.8.2009

Thursday, March 19, 2009

MULHER-MAIO

  

Bom dia minha amiga digo em Maio
és uma rosa à beira dum tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a Companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.
Se carregas no ventre um pioneiro
dentro de ti eu fui trabalhador.
 

 José Carlos Ary dos Santos 

  (hoje só poderia colocar aqui este poema...)