Tuesday, March 31, 2009

*


Se nunca te disse o que são os meus silêncios como os adivinhas?
Como me consegues ler por dentro? Como me sabes do sufoco ou do frio?
Como me sentes o tremer das mãos? E de quando cego? De todas as vezes que calo?
Tenho um nó na garganta. De silêncio e lágrimas feito.
Rasgo-me todos os dias um pouco mais...
...para poder regressar-me na maré cheia do teu abraço...

Monday, March 30, 2009

Dois em um, para descomprimir...


O POEMA DA 'MENTE'

Há um primeiro-ministro que mente.
Mente de corpo e alma, completamente.
E mente de maneira tão pungente
Que a gente acha que ele mente sinceramente.
Mas que mente, sobretudo, impunemente...
Indecentemente... mente.
E mente tão racionalmente,
Que acha que mentindo vida fora,
Nos vai enganar eternamente.


(recebido por email...)

Saturday, March 28, 2009

Recordando Miguel Hernández



Pintada, no vacía:
pintada está mi casa
del color de las grandes
pasiones y desgracias.

Regresará del llanto
adonde fue llevada
con su desierta mesa,
con su ruinosa cama.

Florecerán los besos
sobre las almohadas.

Y en torno de los cuerpos
elevará la sábana
su intensa enredadera
nocturna, perfumada.

El odio se amortigua
detrás de la ventana.

Será la garra suave.

Dejadme la esperanza.

Pintada, no vacía:
pintada está mi casa.



Miguel Hernández foi morto numa prisão de Alicante
30 de Outubro de 1910 - 28 de Março de 1942

Friday, March 27, 2009

Tempo

Tropeço contigo a cada palavra. Sai-me da frente. Já não te posso ver nem de amarelo. Deixaste a roupa espalhada em cada canto, sabes o que vou fazer. Queimá-la. Para purificar este ar nauseabundo. Vou abrir as janelas e deixar entrar o Tempo. Sai-me da frente. Insistes em mandar mensagens, nem as leio nem as abro. Dás-te conta de tudo, mas insistes. Já te disse que não te quero ver. Não suporto as tuas perguntas a tua ironia o teu faz de conta está tudo bem. Sai-me da frente. Amanhã vou comprar flores. Brancas e vermelhas. E receber o Tempo de braços abertos e um cravo na boca.
Será que não percebeste que me despi completamente de ti?

Thursday, March 26, 2009

Cinzento

Há dias assim. Em que tudo nos parece cinzento, tão cinzento que não vemos para além de nós e do que sentimos. Mas há o Mundo lá fora. À nossa volta. Há uma mão sobre o ombro, uma gargalhada que nos desperta.
Apesar do nada poder ser o poema inteiro.
Há noites assim. Em que o cinzento fica preto, de tão escuro. E não queremos ver nada para além do que escrevemos. Mas sentimos. E há Vida lá fora. À nossa volta. Um olhar que te beija. Um abraço que te aquece.
Apesar do nada poder ser o poema inteiro.

Wednesday, March 25, 2009

Baía do teu corpo


De terra chega um cheiro quente...
Recolho as velas dentro do meu peito e
Lanço a ancora, em forma de sonho, até ao fundo desse mar.

Onde estás que te vejo a cor?
Onde estás que te sinto a brisa?

Encosto-te de encontro à alma e bebo dos teus lábios água doce
Levo-te nos meus braços feitos remos contra as marés
Aporto em ti qual baía e assim, deixo-me ficar!


Ricardo_Silva_Reis
(tanto@mar)


Finalmente, Ricardo,
o teu livro chegou-me às mãos...

aqui

Tuesday, March 24, 2009

Contigo


Voltei. Para conhecer o outro lado da viagem.
Dançaremos mais perto das cores e dos cheiros, quando o meu sangue salgado me empurra para o mar.
Agarro-me à rocha que sou. Ou que gostaria de ser. O teu olhar desenha conchas e búzios na areia. Que uma onda lambe, e desfaz.
Percorro o outro lado da viagem que não conheço, nunca parando, nem sabendo se saberei ficar.
Sento-me à tua beira. Porque aqui sei onde estou.
E aqui quero ficar, contigo.

Monday, March 23, 2009

Do outro lado o mar


Do outro lado o mar. Aqui a serra mãe de onde nasces fio de água rio transparente depois. Uma vida inteira para serpenteares ao longo dos montes até chegares à foz. Do outro lado o mar. Aqui o verde primavera e todas as flores selvagens que amas. As árvores que te dão sombra e onde descansas de todos os cansaços. Do outro lado o mar. Acompanho o caminho que tentas encontrar por entre pedras e tojos. Não sossegas enquanto não fazes as tuas margens, onde me sento. Do outro lado o mar. Quanto mais corres mais cresces como se o ar que respiras te alimentasse e fazes o teu leito. Onde acontece vida. Onde sacio a minha sede. Onde amo. Do outro lado o mar. Onde.

Saturday, March 21, 2009

Bom dia Poesia, todos os dias!

Jardim Perdido

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Friday, March 20, 2009

Abraça-me


Vem de mansinho e entra em mim doce e suavemente
Teço-me em todos os fios do cetim que é a tua pele
Abraça-me, até ao fim....

Thursday, March 19, 2009

MULHER-MAIO

  

Bom dia minha amiga digo em Maio
és uma rosa à beira dum tractor
neste campo de Abril onde não caio
a nossa sementeira já deu flor.

Bom dia minha amiga eu sou um gaio
um pássaro liberto pela dor
tu és a Companheira donde saio
mais limpo de mim próprio mais amor.

Bom dia meu amor estamos primeiro
neste tempo de Maio a tempo inteiro
contra o tempo do ódio e do terror.

Se tu és camponesa eu sou mineiro.
Se carregas no ventre um pioneiro
dentro de ti eu fui trabalhador.
 

 José Carlos Ary dos Santos 

  (hoje só poderia colocar aqui este poema...)

Tuesday, March 17, 2009

Descaração







O homem da foto à esquerda é secretário geral da ugt e, por inerência, faz parte dos órgãos dirigentes do ps (o que é inconstitucional) (nota: fiquei a saber que a comissão política do ps, órgão de que faz parte, não é um órgão dirigente. pois não, é um órgão de faz de conta, num partido que faz de conta, num país que querem fazer de conta. ele próprio é um faz de conta).
O homem da foto à direita é secretário geral do ps e, para meu azar, primeiro ministro do meu país.
Este homem, o da direita, disse que não se impressionava com Manifestações como a do dia 13, que reuniu em Lisboa mais de 200 mil trabalhadores. E disse que foi caluniado, blá blá blá (pois, chamámos-lhe mentiroso, e não é?) e que lamentava o aproveitamento político do PCP e do BE, porque havia dirigentes destes dois partidos na Manifestação. Pois, e que a CGTP estava ao serviço do PCP. Pois.
O homem da foto à esquerda esteve em congresso da tendência sindical socialista/ugt na segunda feira. E falou, disse coisas que para este post agora não interessam nada. Foi re-eleito líder desta tendência (ah, como me lembrei agora do José Barata Moura e da cantiga que tão bem expressa esta "tendência"?), o que significa que será re-eleito secretário geral da ugt no congresso do próximo fim-de-semana.
O homem da foto à direita, secretário geral do ps e, para meu azar, primeiro ministro deste país, esteve presente na sessão de encerramento da tendência sindical socialista na ugt (acompanhado do ministro do trabalho). E falou. E disse o que lhe apeteceu.
Quem é que tira aproveitamento político de quê? Quem é que governamentaliza o quê? Quem é que manobra o quê?
Será que ele pensa que somos todos cegos e surdos (já que nos quer mudos...)?
É preciso ter MUITA DESCARAÇÃO!

(fotos da net, claro)

Contra a corrente


Parei para pensar. Porque às vezes é preciso parar de correr. Para pensar. A corrente do rio levava um barco de papel em direcção ao mar. E a corrente cada vez mais forte. E o barco de papel mal se aguentava à tona da água. E eu ali, a pensar.
Uma gargalhada de criança distraiu-me dos meus pensamentos. Ela olhava o barco de papel e ria. Perguntei-lhe se o barco era dela. Disse que não. Então porque ria tanto. Respondeu-me que o barco tinha uma gaivota lá dentro, que só ela via.
Olhei melhor o barco. E vi lá o teu sorriso...

Monday, March 16, 2009

Recordando António Botto

Transformação

É noite: na escuridão
As nuvens parecem fumo
E não deixam ver a Vénus,
Linda estrela da manhã!
Vai rebentar um chuveiro
Porque a ventania puxa
Uma grande tempestade:
Gaivotas em terra, fujo -
E fico ao pé de um guindaste;
Mas, nisto, uma divina claridade
- É o dia que rompe e a luz do Sol
Já numa tira ou faixa cor de rosa
Com misturas de azul e um verde claro
Que eu nunca tinha visto pelos céus!,
A chuva suspendeu, não houve nada
Senão a maravilha sem par
De uma linda madrugada!
Fiquei, sozinho, a fixar
Os astros que se abraçaram
Na luz de um silêncio quente
E em que se ouvia somente
No meu coração cheio de amor,
Mas sempre pronto para amar,
O riso inúmero das ondas
Na infinita vastidão do mar!

António Botto

(17 de Agosto de 1897 - 16 de Março de 1959)

Sunday, March 15, 2009

Um post diferente


Sei das águas de ti flores de todas as primaveras árvores do futuro. Das minhas desaguadas nos mares antes de tempo e em tempos outros. Sei do aconchego da manta urdida de afectos que nos cobre em noites frias. E da vermelha sangue vida que nos envolve em tardes quentes de luta. Mas não sei dos trilhos que vais percorrendo na vida. Às vezes queria perder-me nos meus, mas encontro-te sempre ao virar da esquina. E é bom encontrar-te. Não importa o tempo que demora, mas encontrar-te, sempre...
(foto oferecida por uma amiga)

Saturday, March 14, 2009

Agradecendo prémios...

Este blogue recebeu de "simplesmenteeu", http://sentidodovoo.blogspot.com, os prémios que indico abaixo. Só a generosidade da "simplesmenteeu" pode justificar tamanha oferta.

























Sei dos afectos que estão subjacentes à atribuição destes prémios. A "simplesmenteeu" é minha conhecida de há muito tempo, outra época, outros blogues onde nos encontrávamos madrugada dentro para tomar um chá e comer uma fatia de pão quente, barrada de manteiga e compota. Ou apenas um café.
E porque continuo a encontrar-me madrugada dentro com outros blogues, decidi atribuir-lhes estes prémios. Pelos afectos, pela cumplicidade e pela companhia nocturna, estes prémios vão direitinhos para:
BLUEVELVET - CANTIGUEIRO - CASA DE MAIO - FORUM CIDADANIA - PEDRAS NO SAPATO - SOPROS - ROADS.
Obrigada a todos.
Obrigada "simplesmenteeu". Beijo para ti.

Música para o fim de semana

Friday, March 13, 2009

Brecht, ainda e sempre

Ouvimos dizer

Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado. Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.

Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.

(porque a Amigona mo lembrou um dia destes...)