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Saturday, January 25, 2025

Chico Buarque: a Festa do «Avante!» 1980 foi a «maior plateia»

 

Chico Buarque regressa a Portugal, 38 anos depois de ter ficado «apavorado», e depois rendido, com uma das maiores plateias da sua vida, num concerto de «clima perfeito» e pelo qual nem cobrou cachê.


«Depois do concerto, ele reconheceu que foi especial e disse: "Nunca mais se vai repetir uma coisa destas". Não sei se foram os astros, houve ali um clima perfeito naquilo tudo, e o Chico, pela atitude dele, foi fundamental», contou à Lusa o jornalista António Macedo, que acompanhou o músico brasileiro nos dias que passou em Portugal, que culminaram no concerto de encerramento da Festa do Avante!, a 13 de Julho de 1980.


O concerto, o primeiro de Chico Buarque em Portugal depois do 25 de Abril de 1974, reuniu uma «embaixada» de músicos brasileiros, com Edu Lobo, os MPB 4 e Simone, como conta um dos responsáveis pela programação da festa anual do PCP, Ruben de Carvalho: «O Chico é um pai de santo, vai toda a gente atrás».

Para o «clima perfeito» terão concorrido o momento histórico, com os «brasileiros cheios de "pica"» contra a ainda vigente ditadura militar – rumo ao movimento «Diretas, já» –, aponta Ruben de Carvalho, a química entre os músicos gerada numa viagem recente a Angola, ainda muito presente, e a emoção da morte de Vinicius de Moraes, dias antes do concerto que se realizou no Alto da Ajuda, então recinto da Festa do Avante!.

O concerto foi encenado por Ruy Guerra, o cineasta moçambicano que levou o Cinema Novo para o Brasil, e os ensaios decorreram no antigo edifício do Teatro Aberto, em Lisboa.

António Macedo assistiu a esses ensaios, passou muito tempo com Chico Buarque, que estava instalado com a mulher, Marieta Severo, e as filhas, no Hotel Penta – «só me faltou dormir com ele» –, e acompanhou-o numa visita ao recinto do Alto da Ajuda, antes do início da Festa do Avante!.

«Quando olhou para aquela vastidão de terreno à frente, ele que é um tipo muito envergonhado, que não gosta de concertos, disse: "Isto é tudo para o povo?"», conta.

Estava «completamente apavorado», recorda António Macedo, que se lembra de lhe ter ouvido um «Eu não canto». Cantou. «Transcendeu-se. Esteve praticamente duas horas em palco», lembra, naquela que António Macedo escreveu para o jornal Se7e ter sido «a maior plateia» que Chico jamais tivera pela frente.

António Macedo lembra um alinhamento «em crescendo nas canções políticas»: «A parte final do concerto começa com o Apesar de Você, é para aí a sexta antes do fim, e depois ele começa a ligar isso com Portugal, canta o Fado Tropical, estreia a Morena de Angola – é a primeira vez que a canção é cantada pelo Chico, já era conhecida porque tinha sido cantada pela Clara Nunes.»

O relato do jornal O Diário refere também as canções Geni e o ZepelimConstruçãoRoda VivaCio da TerraCálice, e, naturalmente, Tanto Mar.

AbrilAbril

1 de Junho de 2018

Quem era a Geni do Zepelim


De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Co'os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geleia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo –- Mudei de ideia

– Quando vi nesta cidade
– Tanto horror e iniquidade
– Resolvi tudo explodir
– Mas posso evitar o drama
– Se aquela formosa dama
– Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
– e isso era segredo dela –
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni

Geni é uma personagem da peça Ópera do Malandro, de Chico Buarque. Trata-se de uma travesti que vive pelos covis da malandragem carioca, ao redor dos puteiros e das prostitutas, dos bandidos e contrabandistas.

Sua índole é boa, sua força é tremenda para aguentar todas as porradas da vida. Geni é, no fundo, uma vencedora, uma resistente. Mas Geni também tem seus podres, suas mentiras, suas falcatruas. A ironia é também uma forma de sobreviver.

A canção com que Chico presentou sua personagem, Geni e o Zepelim, é uma belíssima parábola da trajetória desta pessoa expulsa para as margens da vida por ser o que é, mas que, por um dia, tem seu momento de epifânico, saindo da invisibilidade que lhe é imposta.

Saiba mais em nosso site:
https://tinyurl.com/bdenehw6

Wednesday, June 19, 2024

Nos 80 anos de Chico



Hoje o amigo Chico Buarque completa 80 anos de vida.
Muitos parabéns ao artista brasileiro!

Lanzarote, 19 de março de 1997
Meu caro Chico,
Acabámos de ouvir a belíssima música e as belíssimas palavras de Levantados do Chão. Ouvimo-las emocionados, como se as estivessem cantando todos os homens e mulheres sem terra desse dorido Brasil. Graças ao teu talento e ao teu coração generoso, a gente sofredora do campo tem agora o seu hino. Oxalá ele venha a ser cantado e ouvido em todas as partes do mundo onde falta a justiça e o direito é negado. Quanto a mim, ficar-te-ei para sempre agradecido por teres dado à tua canção o título de um livro meu. Podes imaginar a alegria que isso me dá. E também o orgulho.
Recebe o nosso fraterno abraço,

José Saramago
In "Saramago, os seus nomes" (Porto Editora e Companhia das Letras, 2022) 

LEVANTADOS DO CHÃO
Milton "Bituca" Nascimento e Chico Buarque
Como então? Desgarrados da terra?
Como assim? Levantados do chão?
Como embaixo dos pés uma terra
Como água escorrendo da mão?
Como em sonho correr numa estrada?
Deslizando no mesmo lugar?
Como em sonho perder a passada
E no oco da Terra tombar?
Como então? Desgarrados da terra?
Como assim? Levantados do chão?
Ou na planta dos pés uma terra
Como água na palma da mão?
Habitar uma lama sem fundo?
Como em cama de pó se deitar?
Num balanço de rede sem rede
Ver o mundo de pernas pro ar?
Como assim? Levitante colono?
Pasto aéreo? Celeste curral?
Um rebanho nas nuvens? Mas como?
Boi alado? Alazão sideral?
Que esquisita lavoura! Mas como?
Um arado no espaço? Será?
Choverá que laranja? Que pomo?
Gomo? Sumo? Granizo? Maná?


Monday, February 26, 2024

História e Letra de Roda Viva – Chico Buarque

 


Um pouco da História de Roda Viva

Roda Viva foi apresentada ao público, pela primeira vez, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967. A música ficou com a 3ª colocação na disputa, perdendo apenas para Ponteio (Edu Lobo e Capinam), que foi a primeira colocada, e Domingo no Parque (Gilberto Gil).

Mas a canção faz parte da peça musical homônima de Chico Buarque, que foi encenada pelo Teatro Oficina, com direção de José Celso Martinez Corrêa. No texto, temos a história de um artista que, explorado pela indústria cultural, vive o auge da fama, mas vem a ser descartado depois, e levado à morte no final.

O que inspirou a composição de Roda Viva

Foi dessa forma que Chico resolveu expressar sua insatisfação com a vida no show business que passou a conhecer depois de A Banda, quando virou uma estrela da música, extremamente tietado e fazendo muitos shows Brasil afora. Por isso, ao observarmos um primeiro rascunho da letra, notamos que não há uma conotação política nos versos, e sim a constatação de um artista exausto, que não se sente mais dono do próprio destino, porque chegou a roda-viva, como um redemoinho, tirando tudo da ordem imaginada.

Claro que sem conhecer o que motivou a composição, e sabendo um pouco de história do Brasil, tudo nos leva a pensar que a tal roda-viva é claramente uma alusão ao regime militar. Não é necessariamente, mas pode ser também. Afinal, a letra dá voz a um personagem frustrado, que não pode realizar sua existência livremente, porque uma força contrária causa a desordem, de modo  opressor e arbitrário, logo, ditatorial.

Os ataque contra a peça Roda-Viva

A peça estreou em janeiro de 1968, no Rio de Janeiro. Porém, durante a temporada em São Paulo, membros do CCC (comando de caça aos comunistas), em um ato terrorista, invadiram o teatro, destruíram o cenário, e agrediram todos os artistas e alguns espectadores. Isso voltaria a acontecer em Porto Alegre. Daí então, por segurança, o espetáculo foi cancelado de vez.

Ou seja, depois de sofrer tamanha violência, como não acreditar que a roda-viva não diz respeito à  força bruta, repressora e abusiva, tão característica do regime militar e de seus apoiadores?

O Sucesso de Roda Viva

Num primeiro momento, a ideia de Chico Buarque, ao escrever uma peça rebelde e provocativa, era se desvincular da imagem de bom moço que tinham colado nele. Contudo, no fim das contas, Roda Viva o consagrou ainda mais como artista. E não foi à toa.

Para a apresentação no Festival, Chico pediu a Magro, do grupo MPB-4, que fizesse o arranjo da canção. O resultado foi uma música consagradora. Pois ela ganhou uma bela introdução do grupo vocal, pra depois Chico e o MPB-4 (Magro, Miltinho, Aquiles e Ruy Faria) se revezarem cantando.

E depois de criar um clímax através da repetição do refrão, trazendo a plateia pra cantar junto, a música acabava de repente, abria um breve silêncio para, então, irromper os aplausos. Final apoteótico. Tudo isso sem falar na participação do grupo Som Três, com o piano fundamental de César Camargo Mariano.

Quem gravou Roda Viva

A canção Roda Viva foi gravada, com esse arranjo e o grupo MPB-4, no disco “Chico Buarque de Hollanda – Volume 3”, em 1968, e é praticamente a versão definitiva da música.

Mas outros grandes artistas também fizeram gravações significativas de Roda Viva. Entre tantas outros, destacamos: Quarteto em Cy com Toquinho & Vinícius de Moraes (1974); Ivan Lins (1991); Ney Matogrosso, em um disco somente com canções do Chico (1996); Maria Bethânia (1999); e por Fernanda Porto em uma versão remix (2004) que, na época, tocou bastante no rádio.

Juíza duvidou que Roda Viva é de Chico Buarque

Em 2022 ocorreu um caso bastante curioso. O deputado federal Eduardo Bolsonaro utilizou Roda Viva em um vídeo nas redes sociais. O compositor da música, por sua vez, entrou com um processo na justiça pedindo que a publicação fosse removida pois não havia concedido autorização para uso.

A juíza Monica Ribeiro Teixeira, entretanto, indeferiu o pedido do artista, alegando “ausência de documento indispensável à propositura da demanda, qual seja, documento hábil a comprovar os direitos autorais do requerente sobre a canção Roda Viva.” O advogado do cantor recorreu da decisão.

Informações Gerais

Ano de Lançamento:
1967.

Gênero:
Samba-Canção.

Compositores:
Chico Buarque (1944- )

Gravações Representativas:
Chico Buarque; MPB-4; Quarteto em Cy; Ivan Lins; Ney Matogrosso; Maria Bethânia; Fernanda Porto.


Letra de Roda-Viva.

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá.

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir.

Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá.

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou.

A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá.

Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou.

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá.

Roda mundo, roda gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração


Para Ver e Ouvir:

Versão de Chico Buarque e MPB-4 no III Festival de MPB.

Tuesday, February 13, 2024

NOITE DOS MASCARADOS


- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!


- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!

Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.

Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!


Chico Buarque

Monday, June 19, 2023

79 anos de Chico - Morte e Vida Severina

 A luta pela reforma agrária no Brasil é uma das bandeiras do Movimento Social. O poeta retrata de forma triste e melancólica, em que momento o agricultor consegue seu pedaço de terra.

Funeral de um Lavrador (Composição: João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque/1966) Intérprete: Chico Buarque Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio É a parte que te cabe deste latifúndio Não é cova grande, é cova medida É a terra que querias ver dividida É a terra que querias ver dividida É uma cova grande pra teu pouco defunto Mas estarás mais ancho que estavas no mundo estarás mais ancho que estavas no mundo É uma cova grande pra teu defunto parco Porém mais que no mundo te sentirás largo Porém mais que no mundo te sentirás largo É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada, não se abre a boca É a conta menor que tiraste em vida É a parte que te cabe deste latifúndio É a terra que querias ver dividida Estarás mais ancho que estavas no mundo Mas a terra dada, não se abre a boca.




Monday, April 24, 2023

Chico Buarque dedica Prémio Camões aos artistas "humilhados pela estupidez" do antigo governo brasileiro



Chico Buarque dedica Prémio Camões aos artistas "humilhados pela estupidez" do antigo governo brasileiro

O músico e escritor brasileiro Chico Buarque de Hollanda recebeu hoje o Prémio Camões, quatro anos depois de ter sido distinguido, numa cerimónia realizada no Palácio de Queluz, com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa e Lula da Silva.
No Palácio de Queluz, Chico Buarque recebeu hoje o Prémio Camões. Galardoado em 2019, a cerimónia de entrega nunca se realizou depois de ter feito várias críticas às políticas culturais do anterior Presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que na altura se recusou a assinar o diploma, cuja entrega formal estava prevista para abril de 2020.
A falar por último, depois de Manuel Frias Martins, Marcelo Rebelo de Sousa e de Lula da Silva, Chico Buarque dedicou o prémio a todos os artista que "foram humilhados por estupidez e obscurantismo" durante a presidência de Jair Bolsonaro.
Brincando que se começava a questionar se algum dia receberia o prémio por terem passado quatro anos desde que foi anunciado, o escritor e compositor descreveu esse período como um tempo em que os anos pareciam mais longos por causa da pandemia.
“Ao que se refere ao meu país, quatro anos de governo funesto levaram uma eternidade [a passar], porque foi um tempo em que o tempo parecia andar para trás. Aquele governo foi derrotado nas urnas, mas nem por isso nos podemos nos distrair, porque a ameaça fascista persiste no pais e um pouco por toda a parte”, afirmou o músico brasileiro.
Referindo-se ao antigo Presidente brasileiro, Chico Buarque ainda afirmou que este teve a “rara fineza” de não sujar o diploma do prémio com a sua assinatura, deixando o “espaço em branco para a assinatura do nosso Presidente Lula”.
O presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, falou nesta cerimónia, começando por lembrar que neste "dia há 49 anos foi o último da ditadura, mas que é mais um assinalável encontro entre o Portugal e o Brasil em democracia”. O presidente português fez referências ainda a Jair Bolsonaro, antigo presidente do Brasil, afirmando que "os que não gostaram do Camões atribuído a Chico Buarque, caíram no absurdo".
Por fim, o presidente português comparou o Prémio Camões atribuído a Chico Buarque com o Nobel atribuído a Bob Dylan e ainda pediu desculpa ao músico brasileiro, novamente com referências a Jair Bolsonaro: “Meu caro amigo, me perdoe por favor este atraso [na entrega do prémio].”, afirmou Marcelo.
O Presidente do Brasil, Lula da Silva, em visita a Portugal, também esteve presente no Palácio de Queluz. Tal como Marcelo, Lula da Silva referência o seu antecessor, afirmando que "O prémio devia ter sido entregue em 2019. Todos sabemos porque não foi”.
Apesar disso, Lula da Silva explica que é "uma enorme honra" e que a entrega do prémio é assim "o regresso da democracia ao Brasil. Uma vitória do talento contra a censura".
O presidente do júri do Prémio Camões de 2019, o académico português Manuel Frias Martins, destacou a ética e o alcance humanístico da obra de Chico Buarque nas suas mais diversas vertentes.
Defendendo que o premiado “marcou a cultura portuguesa do último meio século”, Frias Martins afirmou que os poemas que constam das canções de Chico Buarque “são abraços que unem continentes onde se estuda a língua portuguesa em toda a sua riqueza e variedade”.
O académico desejou que a atribuição do prémio, “que peca por tardia mas não por imerecida”, sirva para “reforçar a união das nações que se entendem em português”.
“Obrigado, Chico Buarque, por toda a arte e beleza que nos trouxe”, concluiu o presidente do júri, composto ainda por Clara Rowland (Portugal), Antonio Cícero e Antonio Hohlfeldt (Brasil), Ana Paula Tavares (Angola) e Nataniel Ngomane (Moçambique).

ANTONIO COTRIM/LUSA 

Thursday, May 01, 2014

VIVA O 1º DE MAIO!




Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã

Friday, February 17, 2012

Música para o fim-de-semana



O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

(Chico Buarque)

Saturday, March 26, 2011

Friday, November 12, 2010

Música para o fim-de-semana



O CIO DA TERRA

Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão

Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel

Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão

Milton Nascimento / Chico Buarque

Saturday, September 25, 2010

Música para o fim-de-semana


Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá ...

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...

(pedindo desculpa pela qualidade do video...)

Saturday, July 17, 2010

Música para o fim-de-semana



Funeral de um lavrador

Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo
estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
Porém mais que no mundo te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada, não se abre a boca.

(vou ali ao lado...)

Friday, February 12, 2010

Música para o fim-de-semana. O Chico, porque sim!


Homengem ao Malandro

Eu fui fazer um samba em homenagem
à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais.
Eu fui à Lapa e perdi a viagem,
que aquela tal malandragem não existe mais.
Agora já não é normal, o que dá de malandro
regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial,
malandro candidato a malandro federal,
malandro com retrato na coluna social;
malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá mal.
Mas o malandro para valer, não espalha,
aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central

Saturday, November 14, 2009

Friday, June 19, 2009

Música para o fim de semana



Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando e também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol

Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta

A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo o pessoal
Adeus

Sunday, October 12, 2008

Música para um domingo



Deixo-vos dois nomes maiores da música brasileira.
Uma cantiga gravada em 1976!