Carta a um Super-herói
Faz hoje 7 anos e 1 mês que te vi pela
primeira vez. Quando soube que estavas quase a nascer, deixei tudo e
corri para ser das primeiras pessoas que tu visses, para que soubesses
logo ali que poderias contar comigo para tudo. E poucos minutos depois
de vires ao mundo, ali estava eu a contemplar-te, completamente
apaixonada e rendida aos teus olhos rasgados e feições perfeitas. Foi a
primeira vez que senti o mais puro amor incondicional.
E desde
então foi um crescendo de amor. Pelos teus olhos e sorriso via-se o amor
que te envolvia, a felicidade nos teus passos confiantes, a
inteligência em cada aprendizagem tua, a doçura na tua voz e a alegria
em tudo o que fazias.
Lembras-te dum dia que estávamos os dois
sentados no sofá a conversar, tinhas uns 5 anos e o teu primo meia dúzia
de meses e tu, a olhar para ele me dizes: "Ó tia, porque não tiveste o
primo mais cedo para eu poder brincar mais com ele..." e que resposta te
poderia dar?! "Tens razão, meu amor, mas agora vais ter muito tempo
para brincar com ele." E se brincaram... e que paciência a tua... porque
ele não te largava um instante! Nele vejo muito de ti... no que veste,
nos brinquedos e nas brincadeiras, mas acima de tudo no olhar, no mesmo
olhar feliz!
Tenho pensado muito nessa resposta que te dei e numa
frase que o teu tio costuma dizer: "Temos uma vida toda para isso..." e
acabamos por ir adiando as coisas. Contigo aprendi que não se pode
adiar, que o que é agora amanhã pode já não ser. Dói-meu saber que não
te liguei para me contares como foi conheceres os jogadores do Benfica
(mas vi o video umas 30 vezes), que não te disse vezes suficientes que
te adorava e que tinha muito orgulho em ti e no Super-T em que te
transformaste, "até porque, achava eu, iríamos ter uma vida toda para
isso..."
Custa-me pensar naquilo que não fizeste e no tanto que ainda tinhas
para fazer. No almoço de aniversário do teu pai; na festa de pijama que
íamos fazer em minha casa; no passeio ao jardim zoológico com o teu
primo e os teus avós; na tua festa do 7º aniversário (e todas as
seguintes) com todas as pessoas que te adoram; no aprenderes a ler e a
escrever; o ver-te tornar adolescente e depois num homem. Era assim que
deveria ser... tinhas tanto para ser, para viver!
Sabes Super-T,
este mês tem sido muito difícil. Com toda a certeza o mais difícil da
minha vida. Quando me perguntam: "Está tudo bem?" A minha resposta
imediata é "Está tudo bem, obrigada!", mas por dentro só eu sei como
estou destroçada. A vida não é a mesma, não pode ser a mesma! Partiu
contigo uma parte de mim.
Quero muito acreditar que um dia vou
voltar a ver esse teu sorriso a dizer: "Olá tia, tive saudades tuas!" e
abraçar-te até tu te fartares.
Ahh... e não te preocupes, estamos
todos a tomar conta dos teus pais e da tua mana e a tentar que os dias
deles voltem a amanhecer a sorrir...
Se não te importares, de vez em quando vou-te escrevendo estas cartas para sentir que estamos sempre juntos.
Beijinhos da tia que te adora!!!
Ps. Quando tiveres matado essas saudades todas do avô Zé e tiveres um
tempinho livre, manda um pouco desses teus super-poderes, que aqui em
baixo estamos a precisar.
Joana Correia
Saturday, June 22, 2019
Tuesday, June 11, 2019
Carvalhesa
Carvalhesa - Texto de Ruben de Carvalho
31 Maio 2001
Em Março de 1985 a Comissão Política do CC do PCP criou um grupo de trabalho com o objectivo de se tentar criar um tema musical para a campanha eleitoral para as eleições legislativas desse ano e que desse identidade sonora às diversas manifestações, desde os carros de som até aos indicativos de tempos de antena.
A primeira ideia dessa equipa foi a de encontrar um tema de música tradicional portuguesa a que se pudesse dar um tratamento instrumental no estilo do que entretanto se começara a chamar MPP, Música Popular Portuguesa. Vivia-se então um momento de grande criatividade em termos de música popular, na esteira de Zeca Afonso e Sérgio Godinho, os trabalhos dos Trovante, de Júlio Pereira, de Fausto tinham criado uma sonoridade tão nova quanto portuguesa e que conseguia um resultado inteiramente surpreendente: conquistava público em todo o País e em todas as áreas culturais. Pelas suas raízes no folclore despertava eco nas audiências culturalmente fixadas em raízes e padrões rurais com a mesma facilidade com que desencadeava o entusiasmo de plateias juvenis que de bom grado trocavam a batida rock por surpreendentes linhas rítmicas bebidas em adufes e Zés-Pereiras.
Pensou-se assim procurar um dos temas tradicionais que Lopes-Graça harmonizara para o Coro da Academia de Amadores de Música, assegurando mais uma significante ligação entre duas épocas e dois estilos, ligados pela comum paixão pelo património popular e pela comum identificação ideológica e política com os interesses do povo português. Optou-se em primeiro lugar por uma conhecidíssima melodia, a do «Canta, camarada, canta». Sabe-se como esta velha canção de contrabandistas transmontanos adquirira durante o fascismo um cunho claramente progressista, não apenas pelo facto de a Lopes-Graça se dever a sua divulgação, mas também pelo uso do vocativo «camarada».
A ideia era que o arranjo fosse puramente instrumental, mas defrontou-se a dificuldade de a melodia possuir letra tradicional e bem conhecida entre os democratas - sendo praticamente inevitável que a sua execução coral acabasse a generalizar-se. E se nada vinha de mal ao mundo se num comício da então APU se cantasse «canta, camarada canta/canta que ninguém te afronta», já parecia polémico que no mesmo local se atroasse os ares afirmando «eu hei-de morrer de um tiro/ou de uma faca de ponta»... E se não seriam de prever críticas ao «viva a malta, trema a terra/daqui
ninguém arredou», as coisas poder-se-iam complicar com o «quem há-de temer a guerra/sendo um homem como eu sou»...
Passou-se então à consulta do livro «Cancioneiro Popular Português» de Michel Giacometti (Círculo de Leitores. Lisboa, 1981). Piano em frente, lá se foi procurando e, uma semana decorrida, pelas três da manhã, a «Carvalhesa» deve ter soado pela primeira vez fora de Trás-os-Montes, de onde é natural. Em Julho desse ano gravou-se a primeira versão e editou-se um maxi-single de vinyl.
Como se explica no folheto que acompanhou essa primeira edição, verificou-se, porém, ainda antes da gravação, um «caso». Poucos dias depois da escolha, tinha-se procurado nos discos dos «Arquivos Sonoros Portugueses», de Giacometti e Lopes-Graça, se lá estaria a «Carvalhesa» gravada em versão original e popular - e estava! Imediatamente se decidiu pedir a Giacometti uma cópia da gravação e ter-se-ia um excelente lado B do maxi-single.
Contudo, ao ouvir o disco dos «Arquivos», verificou-se com grande perplexidade que a «Carvalhesa» que o gravador de Giacometti registara em Trás-os-Montes e ali se reproduzia não era manifestamente aquela cuja pauta se encontrava no livro e que se iria utilizar. O mistério seria decifrado dias mais tarde pelo próprio Giacometti.
No início deste século, um jovem maestro e compositor alemão, nascido em Berlim em 1882, fixou-se em Nova Iorque. Estudara em Berlim e Munique, apenas com 20 anos era maestro assistente da ópera de Stuttgart e, em 1905, começa a desempenhar idênticas funções no New York Metropolitan. O seu nome - Kurt Schindler.
O trabalho de Schindler nos Estados Unidos foi profícuo em numerosas áreas. Criou, em 1909, o coro da MacDowell Church (rebaptizado Schola Cantorum em 1912) que desempenhou importantíssimo papel na divulgação e recuperação coral clássica e moderna, foi organista do famoso Temple Emanu-El de Nova Iorque, compôs, dirigiu.
No final da década de 20, o laureado maestro largou a sua confortável vida de músico reconhecido e respeitado na grande metrópole e embarcou para a Europa para fazer investigação etnográfica - em Espanha! A escolha do local não é surpreendente: a música espanhola, coral e de órgão, estivera sempre no centro dos interesses de Schindler, tanto quanto a música tradicional, para a qual fora profundamente influenciado pelo seu professor de adolescência Max Friedlander.
De gravador de discos de alumínio debaixo do braço, Schindler percorreu durante os anos de 1931 e 32 as Astúrias, Navarra, o Norte da península, e, em 1932, atravessando as difusas raias transmontanas, acabou por entrar em Portugal onde prosseguiu o seu trabalho. Infelizmente, porém, o gravador avariara-se e Schindler fez a sua recolha em Trás-os-Montes apenas mediante transcrições musicais.
Regressado aos EUA, viria a falecer em 1935. Postumamente, a Columbia University editou o resultado das suas investigações em «Folk Music and Poetry of Spain and Portugal» (Columbia University. Hispanic Institut in the United States. New York, 1941. Existe uma reedição do Centro de Cultura Tradicional. Salamanca, 1991. Vd. http://digilib.nypl.org/dynaweb/ead/music/musschindle).
Mais de vinte anos depois, em 1958, um etnólogo natural de Ajaccio, na Córsega, que acabara de dirigir uma missão internacional de estudo do folclore das ilhas mediterrânicas, descobriu o livro de Schindler nas prateleiras da biblioteca do Museu do Homem, em Paris. Meses depois, sobraçando o primeiro gravador Nagra (ainda de manivela!) a aparecer em Portugal, Michel Giacometti seguia as pisadas de Schindler no Nordeste transmontano e entrava pela primeira vez num país que iria adoptar como seu e que o iria adoptar como um dos seus filhos.
Nessas primeiras andanças por Trás-os-Montes, Giacometti foi ainda encontrar a memória do investigador americano que por ali andara duas décadas antes. E o seu tecnológico microfone era comparado, pelos músicos populares que gravou, com a fascinação que sobre eles exercera aquele estrangeiro que escrevia sinais num papel enquanto os escutava para depois, quase misteriosamente, repetir exactamente os mesmos sons lendo os pontos e riscos que anotara...
Em 1981, Giacometti teve finalmente possibilidades de editar o seu «Cancioneiro Popular Português» e fê-lo com a probidade de intelectual e de homem de ciência que era: nele não inclui exclusivamente os registos efectuadas durante o seu trabalho e a sua colaboração com Fernando Lopes-Graça, mas sim uma selecção geral - definida por critérios de rigor e qualidade - do trabalho de quantos contribuíram para a recolha de melodias criadas pelo povo português. E ali se encontram mesmo recolhas de homens que, fixando embora a voz do povo, bem pouco a respeitavam, como o caso do desconfiado musicólogo amador que, nos anos 60, informou pressuroso a PIDE de que pelas suas terras andava pregando a subversão um francês que recolhia melodias e tradições... Giacometti sorria, quando contava: «Mandei-lhe o livro, telefonou-me, agradecendo, desfazendo-se em desculpas, tentando explicar aquilo ..» E, investigador apaixonado e generoso, concluía: «É de direita, mas é um bom homem. E muito sério nas recolhas que fez.»
A «Carvalhesa» foi uma das peças objecto de selecção. Exactamente na mesma aldeia (Tuiselo, perto de Vinhais - Bragança) onde em 1932 Schindler recolhera a melodia publicada em «Folk Songs...», Giacometti havia recolhido em 1970 uma outra, a que os seus executantes populares atribuíam o mesmo nome, mas inteiramente diferente.
O facto não é estranho. Como se afirma nas notas do «Cancioneiro», «a "CarvaIhesa", dança de quatro laços, era, com a "Murinheira" e o "Passeado", o baile preferido da região. O instrumento tradicional a acompanhar estas danças era a gaita de foles». Ou seja, a «Carvalhesa» é essencialmente uma dança, para a qual se conhecem duas melodias, mas que poderá mesmo ter sido dançada com outras entretanto perdidas. Face às duas versões, Giacometti entendeu ser mais interessante a recolhida por esse compositor alemão que fora o ausente cicerone da sua descoberta de Portugal. E, página 217 do «Cancioneiro, tema 166, lá ficaria a «Carvalhesa» recolhida por Kurt Schindler.
O arranjo da «Carvalhesa» gravado em 1985 acompanhou a actividade política do PCP em sucessivas campanhas eleitorais, na Festa do «Avante!», cujos palcos sempre abre e encerra e dos quais se tornou verdadeiramente emblemática.
Ruben de Carvalho
Julho de 2001
Wednesday, June 05, 2019
Tenho medo de perder a maravilha
Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de estátua e aquele acento
que de noite me imprime em plena face
de teu alento a solitária rosa.
Tenho pena de ser nesta ribeira
tronco sem ramos; e o que mais eu sinto
é não ter a flor, polpa, ou argila
para o gusano do meu sofrimento.
Se és o tesouro meu que oculto tenho
se és minha cruz e minha dor molhada,
se de teu senhorio sou o cão,
não me deixes perder o que ganhei
e as águas decora de teu rio
com as folhas do meu outono esquivo.
Federico García Lorca
Monday, May 27, 2019
*******
Não tenhas medo do escuro, Tomás.
O tio não sabe ao certo de que é feito este escuro que enegreceu as nossas vidas, mas sei que a tua luz prevalecerá, ainda que longe da nossa vista.
Sei que viverás na lembrança e no coração daqueles que tiveram o privilégio de contigo privar.
Desde logo, viverás na lembrança e no coração dos teus pais. E que pais
tens tu, Tomás! Que corajosos, que fortes, que resilientes! A dimensão
do seu amor por ti é algo inexplicável e impossível de traduzir em
palavras!! Como angustiante é a dor que os seus olhos denunciam e os
seus abraços confidenciam...
Viverás na lembrança e no coração dos teus avós, para quem serás sempre o seu primeiro e mais velho netinho. Da tua tia, para quem serás sempre o menino dos seus olhos. Não sabes como me rasgou por dentro ter que lhes dizer que não voltariam a ver o teu sorriso iluminado, o teu olhar contagiante, a tua doce tranquilidade...
Viverás na lembrança e no coração dos teus amigos e familiares, que não te largaram nestes últimos dias em que o mundo pareceu querer desabar. Que continuam agarrados aos teus pais, a ampará-los neste momento em que o vazio se torna cada vez mais ensurdecedor...
Os teus professores, os teus médicos, os teus enfermeiros, ninguém conseguiu ficar indiferente a esses teus olhos rasgados pela doçura e encanto.
Olho pela janela e vejo-te vestido de Super-Homem a sorrir-me e a acenar-me, enquanto rasgas o céu montado num dinossauro e escoltado pelas águias da vitória. Deixa-me sonhar Tomás, que já só me restam dúvidas que haja chão que nos ampare a queda...
Rogério Charraz
Viverás na lembrança e no coração dos teus avós, para quem serás sempre o seu primeiro e mais velho netinho. Da tua tia, para quem serás sempre o menino dos seus olhos. Não sabes como me rasgou por dentro ter que lhes dizer que não voltariam a ver o teu sorriso iluminado, o teu olhar contagiante, a tua doce tranquilidade...
Viverás na lembrança e no coração dos teus amigos e familiares, que não te largaram nestes últimos dias em que o mundo pareceu querer desabar. Que continuam agarrados aos teus pais, a ampará-los neste momento em que o vazio se torna cada vez mais ensurdecedor...
Os teus professores, os teus médicos, os teus enfermeiros, ninguém conseguiu ficar indiferente a esses teus olhos rasgados pela doçura e encanto.
Olho pela janela e vejo-te vestido de Super-Homem a sorrir-me e a acenar-me, enquanto rasgas o céu montado num dinossauro e escoltado pelas águias da vitória. Deixa-me sonhar Tomás, que já só me restam dúvidas que haja chão que nos ampare a queda...
Rogério Charraz
Sunday, May 19, 2019
AO RETRATO DE CATARINA
Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta
Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido
Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura
Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto
Carlos Aboim Inglez
Sunday, May 05, 2019
10 anos de Margarida
Uma flor
O meu jardim tem árvores relva flores e um lago. E uma casa.
Quando me passeio por lá olho as flores e vejo-as crescer, a cada dia. Agora os cravos.
A relva amacia-me os pés descalços e o aroma enche-me os pulmões. Terra-mãe.
As árvores são partes de mim plantadas há muito tempo, que cresceram frondosas e me abrigam. Um colo.
Há árvores com muitos anos, outras com menos, mas todas igualmente bonitas. Ouvem-me.
Duas são especiais. Uma enorme e outra mais pequena. Estão perto do lago e abraço-as. A minha casa.
O meu jardim tem todos os aromas e todas as cores. De todas as flores.
Há um canteiro diferente, ao pé do lago e perto das duas árvores. De cravos semeado. Já nascidos.
Mesmo ao lado um outro canteiro tem uma flor prestes a rebentar. De aroma diferente.
No lago do meu jardim está ancorado um barco, que me espera. Entro e remo por entre chorões e nenúfares e patos e cisnes. E há peixes que se escapam.
Toda a noite remei. À espera. Ao fim da manhã atraco o barco e vou ao canteiro ver da flor. Já nasceu.
É filha do amor e da poesia. É uma Margarida e cheira a bebé…
Amámos-te quando te soubemos
Amámos-te quando te víamos crescer sem te ver
Amámos-te quando te soubemos princesa
Amámos-te flor de Abril em Maio
Amámos-te no teu cheiro de bebé
Amámos-te em cada passo bailarina
Amámos-te em cada sorriso e em cada abraço
Amámos-te em cada desenho que fizeste
Amámos-te em cada estória que nos disseste
Amamos-te sempre, porque é impossível não te amar.
Thursday, April 25, 2019
A Hora das Gaivotas
Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
É noite
É a espada líquida da noite
- Chicharro com pão dormido, camarada...
pão dormido...
As gaivotas ensaiam o voo tresloucado
dos papagaios de papel
Parecem ter medo de poisar,
de dar descanso ao seu coração suspenso:
O medo de calar por dentro
- ... e rabanadas com três dias
- Tudo nos serve para medir o tempo
Eles não sonham...
É a mais líquida de todas as noites
Nada se conforma no seu próprio destino:
As casas,
O mar,
As gaivotas,
Os homens...
Tudo parece convergir para o ninho inevitável
onde todas as coisas regressam à sua razão de ser:
A Liberdade
(A Patética de Tchaikovsky escorre de um velho gira-discos para as paredes do refeitório)
- É tão louco este mundo, camarada
1893, 1893. O ano da Patética, o ano do Grito de Edvard Munch
O maior grito da humanidade
- O inexplicável grito de todos nós
Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e, protegidas pelos pais,
adivinham por detrás das cortinas
um sinal que dê sentido a tudo
Ninguém sabe o que espera mas toda a gente espera em silêncio
É como se a terra soubesse
que há dias em que o mundo tem de ser redondo
3 de Janeiro de 1960
Às sete em ponto da tarde
Adagio–Allegro non troppo
- Nada me passa na garganta, só um grito mudo...
- A estrada ainda está deserta, nem uma luz... Mas ele há-de vir!
- Somos 10, estamos contados
- Contemo-nos de novo:
Álvaro,
Jaime,
Joaquim,
Carlos,
Francisco,
José,
Guilherme,
Pedro,
Rogério,
Francisco.
E eu, e tu, e quem atrás de nós vier
E todos os que hão-de nascer
Com uma côdea no céu-da-boca
É por isso que o mar espalha a sua toalha bordada
na praia, aos nossos pés
para, da sua eterna sabedoria, nos prendar com a nossa igualdade
Allegro com grazia
- Pai, olha aquele carro, olha aquele carro
- Apaga a luz, apaga a luz...
- Vem com a mala aberta, devagarinho, devagarinho... -
Vem do lado das docas...
- Pai, repara, as gaivotas pousaram todas...
-... e parou em frente ao forte
É a hora das gaivotas É a hora das gaivotas
- O homem está a sair do carro, pai...
- Sim. Vai fechar a mala, certamente...
- Olha, as gaivotas, com o som da mala a fechar, levantaram voo novamente
- São misteriosas as campainhas do destino
Allegro molto vivace
Em todas as casas há um coração suspenso
pelo medo e pela saudade
e uma boca amarrada às paredes cegas
- Francisco, rasga esses lençóis
que nos fizeram para sudários.
Todas as palavras são medidas
como as sardinhas
e quase nunca é domingo
- Vá, tu sabes dar os nós de pescador
Une as tiras e dá-lhes um nó no meio
para que as mãos encontrem mais firmeza
A terrina ocupa o centro da mesa
as crianças são servidas primeiro
Apenas o tilintar das colheres
abre feridas no silêncio das casas
E as côdeas de pão dormido
quando estalam no céu-da-boca
- Somos 10, estamos contados
A corda tem de servir 10 vezes, camarada
O jantar é em silêncio
Mas quando o cavalo azul galopa pelas muralhas
ouve-se a sua pulsação
a estalar o coração das gentes
- Pai, posso ir à janela?
- O carro já se foi embora. Não há nada para ver. Acaba a sopa
- Há, pai! As gaivotas não se calam
E as ondas batem sem conta certa
- Deixa-me apagar a luz...
- Pai, passaram dois carros grandes mesmo agora. Um seguiu em frente e o outro está parado à porta da vizinha com as luzes apagadas
- Esperam alguém. É gente de bem
Finale — Adagio lamentoso
- Não olhes para baixo, camarada
E o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
- Pai, há uma corda a baloiçar na parede do forte...
Em todas as casas há um coração suspenso
e um lugar vazio à mesa
- Isso, conta os nós... tu sabes a conta certa
Não olhes para baixo
- Pai, o homem pôs o carro a trabalhar...
Os gritos das gaivotas cobrem com um véu de tule
os ruídos dos ossos contra as pedras
É a natureza do lado certo
- Pai, outro homem... e outro... e outro...
É o medo contaminado pela esperança
e a espada líquida da noite virada de feição
- Pai, ajuda-me... não entendo, não entendo...
- É a hora das gaivotas, meu amor!
João Monge
Wednesday, April 24, 2019
Thursday, March 21, 2019
No dia Mundial da Poesia
A Forma Justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "O Nome das Coisas"
Saturday, March 02, 2019
AMOR
Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.
Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -.
Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
e mais.
Pablo Neruda
Saturday, January 19, 2019
Adeus
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.
E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade
Monday, December 24, 2018
Litania para o Natal de 1967
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo
David Mourão-Ferreira
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo
David Mourão-Ferreira
Sunday, December 23, 2018
Monday, December 10, 2018
Declaração Universal dos Direitos Humanos
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;
Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do homem;
Considerando que é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;
Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;
Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;
Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos do homem e das liberdades fundamentais;
Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:
A Assembleia Geral
Proclama a presente Declaração Universal dos Direitos do Homem como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.
- Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.
- Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.
- Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.
- Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
- Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.
- Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
- Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
- Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
- A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
- O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.
- A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado.
- Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade.
- Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.
- Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
- Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
- Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
- Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país.
- A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos; e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.
- Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
- Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
- Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
- Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para a defesa dos seus interesses.
- Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
- A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimónio, gozam da mesma protecção social.
- Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
- A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
- Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos.
- Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
- Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.
- O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade.
- No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.
- Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
Friday, December 07, 2018
Soneto presente
Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
José Carlos Ary dos Santos
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
José Carlos Ary dos Santos
Saturday, November 10, 2018
Nos 105 anos de Alvaro Cunhal
"De onde nos vem a nós, comunistas portugueses, esta alegria de viver e de lutar? O que nos leva a considerar a actividade partidária como um aspecto central da nossa vida? O que nos leva a consagrar tempo, energias, faculdades, atenção, à actividade do Partido? O que nos leva a defrontar, por motivo das nossas ideias e da nossa luta, todas as dificuldades e perigos, a arrostar perseguições, e, se as condições o impõem, a suportar torturas e condenações e a dar a vida se necessário?
A alegria de viver e de lutar vem-nos da profunda convicção de que é justa, empolgante e invencível a causa por que lutamos.
O nosso ideal, dos comunistas portugueses, é a libertação dos trabalhadores portugueses e do povo português de todas as formas de exploração e opressão.
É a liberdade de pensar, de escrever, de afirmar, de criar. É o direito à verdade.
É colocar os principais meios de produção, não ao serviço do enriquecimento de alguns poucos para a miséria de muitos mas ao serviço do nosso povo e da nossa pátria.
É erradicar a fome, a miséria e o desemprego.
É garantir a todos o bem-estar material e o acesso à instrução e à cultura.
É a expansão da ciência, da técnica e da arte. É assegurar à mulher a efectiva igualdade de direitos e de condição social.
É assegurar à juventude o ensino, a cultura, o trabalho, o desporto, a saúde e a alegria.
É criar uma vida feliz para as crianças e anos tranquilos para os idosos.
É afirmar a independência nacional na defesa intransigente da integridade territorial, da soberania, da segurança e da paz e no direito do povo português a decidir do seu destino.
É a construção em Portugal de uma sociedade socialista correspondendo às particularidades nacionais e aos interesses, às necessidades, às aspirações e à vontade do povo português — uma sociedade de liberdade e de abundância, em que o Estado e a política estejam inteiramente ao serviço do bem e da felicidade do ser humano."
Álvaro Cunhal,
O Partido com Paredes de Vidro
O nosso ideal, dos comunistas portugueses, é a libertação dos trabalhadores portugueses e do povo português de todas as formas de exploração e opressão.
É a liberdade de pensar, de escrever, de afirmar, de criar. É o direito à verdade.
É colocar os principais meios de produção, não ao serviço do enriquecimento de alguns poucos para a miséria de muitos mas ao serviço do nosso povo e da nossa pátria.
É erradicar a fome, a miséria e o desemprego.
É garantir a todos o bem-estar material e o acesso à instrução e à cultura.
É a expansão da ciência, da técnica e da arte. É assegurar à mulher a efectiva igualdade de direitos e de condição social.
É assegurar à juventude o ensino, a cultura, o trabalho, o desporto, a saúde e a alegria.
É criar uma vida feliz para as crianças e anos tranquilos para os idosos.
É afirmar a independência nacional na defesa intransigente da integridade territorial, da soberania, da segurança e da paz e no direito do povo português a decidir do seu destino.
É a construção em Portugal de uma sociedade socialista correspondendo às particularidades nacionais e aos interesses, às necessidades, às aspirações e à vontade do povo português — uma sociedade de liberdade e de abundância, em que o Estado e a política estejam inteiramente ao serviço do bem e da felicidade do ser humano."
Álvaro Cunhal,
O Partido com Paredes de Vidro
Tuesday, October 30, 2018
Memória de Miguel Hernandez
Cancion ultima
Pintada, no vacía:
pintada está mi casa
del color de las grandes
pasiones y desgracias.
Regresará del llanto
adonde fue llevada
con su desierta mesa
con su ruidosa cama.
Florecerán los besos
sobre las almohadas.
Y en torno de los cuerpos
elevará la sábana
su intensa enredadera
nocturna, perfumada.
El odio se amortigua
detrás de la ventana.
Será la garra suave.
Dejadme la esperanza
MIGUEL HERNANDEZ
(30.10.1910 - 28.3.1942)
Friday, October 19, 2018
Serra Mãe
"O agoiro do
bufo, nos penhascos,
foi o sinal da
Paz.
O silêncio
baixou do Céu,
mesclou as
cores todas o negrume,
o folhado
calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.
e a Serra adormeceu.
(…)
Na noite
calma,
a poesia da
Serra adormecida
vem
recolher-se em mim.
E o combate
magnífico da Cor,
que eu vi de
dia;
e o casamento
do cheiro a maresia
com o perfume
agreste do alecrim;
e os gritos
mudos das rochas
sequiosas que
o Sol castiga
- passam a
dar-se em mim.
(…)
A minha alma
sente-se beijada
pela poalha da
hora do Sol-pôr,
sente-se a
vida das seivas e a alegria
que faz cantar
as aves na quebrada;
e a solidão
augusta que me fala
pela mata
cerrada,
aonde o ar no
peito se me cala,
desceu da
Serra e concentrou-se em mim.
(…)"
Sebastião da Gama - poeta da Arrábida
Thursday, September 27, 2018
Não olhes o meu sorriso
Não olhes o meu sorriso assim
Não procures a memória e esse cheiro
Vezes sem conta que chove em mim
O desencontro de um nascer derradeiro
Não me olhes, não!
Que carrego todo o mar que dentro existe
Perdido na corrente e quem sabe na ilusão
De saber-me o tanto que é ser-se triste
O tanto que é ser amor e dor
O tanto que se encostou num fim.
Não olhes o meu sorriso assim...
Por favor.
Pedro Branco
Tuesday, September 11, 2018
Chile, 45 anos
................
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.
Ary dos Santos
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11 de setembro de 1973,
45 anos,
memória,
Salvador Allende
Saturday, September 08, 2018
Foi uma vez no Alto da Ajuda....
Fez ontem 32 anos foi sábado. Ainda não tinha 40 anos, podia tudo e o Mundo era meu. E calçava uns ténis all star...
A Festa no Alto da Ajuda, no ano em que houve raios laser sobre o Palco 25 de Abril. Que nesse ano foi do lado direito da avenida que subia até lá acima. Entrei de serviço na quinta feira, dia 5, a fazer logo de manhã o que era necessário. Sabia que me esperava uma noite de 'segurança' à 'máquina' dos laser, um cilindro enorme, cor de laranja, resguardado num grande rectângulo feito com estacas e corda à volta. Nunca tinha feito segurança a uma máquina!!!!! Mas lá fiquei, eu e outros Camaradas, toda a noite.
Na manhã de sexta feira vim a casa tomar duche e mudar de roupa, voltei a calçar os ténis, fui buscar uma madrilena a Sta. Apolónia e voltei para a Festa. Não sei que tarefas fiz nesse dia, sei que estive na Madeira (onde me chamaram para provar a poncha) e antes da Festa abrir ainda fui comprar tapetes de trapos e outras peças de artesanato para decorar o restaurante das delegações internacionais. Depois foi um duche rápido, com água fria, vestir roupa lavada e... calçar os all star.
Sete ou oito horas depois cheguei a casa, éramos bastantes, uns oito ou dez. Banho para todos. Comer qualquer coisa. Conversar um pouco. Os primeiros a terem sono (três) ocuparam a cama. Os outros, com sacos cama, foram-se aconchegando em colchões de campismo pelo chão da sala.
No dia seguinte, dia 7, tinha um turno de segurança num dos pontos da rede que rodeava a Festa. Levantei-me, mas não conseguia andar. Os pés tinham o triplo do tamanho. Tinham sido cerca de 40 horas com os all star calçados.... e não me restou alternativa senão ir para a Festa de chinelos turcos!
Fez 32 anos ontem, e era sábado. Ainda não tinha 40 anos, podia tudo e o Mundo era meu...
Saturday, September 01, 2018
Caminho da manhã
"Caminho da manhã
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível."
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Livro Sexto, 1962
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível."
Sophia de Mello Breyner Andresen
in Livro Sexto, 1962
Tuesday, August 21, 2018
AMIGO
Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão.
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill
Monday, August 13, 2018
Há um ano...
Calor. Vento. Fogo. Fumo. Cinza. Vento. Muito vento. Fogo. Homens guerreiros. Homens cansados. Eucalipto. Pinhal. Inverno seco. Vento. Mais uma folha incendiada que voa. Eucalipto. Eucalipto. Guardas florestais que não há. E só oiço a voz do meu Camarada Agostinho Lopes a falar do ordenamento florestal. Dizem que tem razão, pois tem. Mas na prática zero. Não há. Bombeiros. Calor. Vento. Fumo. Cinza. Fogo. Fogo. Fogo. Ardeu, ardeu tudo. Não só uns palheiros. Alimento para o gado. Seca. Onde está o verde dos campos. Como vão os animais alimentar-se. Mato. Pinhal. Pinhal e mato. Água. O fumo não deixa ver nada. Na estrada não se vê nada. Casas destruídas. Vidas destruídas. Não quero falar dos que já não estão cá. Mas penso nas famílias e no horror por que passaram. Ferreira do Zêzere. Casal da Serra. Abrantes. Parada de Pinhão. Mação. Pedrógão Grande. Podia juntar aqui mais cinquenta nomes. Tudo negro. Onde está o verde das árvores. Vento. Vento com cinza. Tudo negro. Eucaliptos. Eucaliptos. Pinheiros. Homens cansados. Porque não chove? Porque não chove? Onde está o verde esperança deste país? Resta-nos o vermelho sangue. O vermelho luta. O vermelho. E o preto, de tudo queimado.
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Pedrógão
Friday, July 27, 2018
A Santiago de Cuba
¡Es Santiago de Cuba!
¡No os asombréis de nada!
¡Por allí anda la madre de los héroes!
¡Por allí anda Mariana!
¡Estaréis ciegos si no veis ni sentís
su firme y profunda mirada...!
¡Estaréis sordos si no escucháis sus pasos;
si no oís su tremenda palabra!
¡Fuera! ¡Fuera de aquí!
¡No aguanto lágrimas!
Así exclamó aquel día, junto al cuerpo de Antonio
—¡de Antonio, nada menos, que sangraba
herido mortalmente!— cuando todas
las mujeres allí gemían y lloraban...!
¡Fuera! ¡Fuera de aquí!
¡No aguanto lágrimas!
Es Santiago de Cuba!
¡No os asombréis de nada!
Allí las madres brillan
como estrellas heridas y enlutadas.
Recogieron el cuerpo de sus hijos
derribados por balas mercenarias,
y, después; en la llama del entierro;
iban cantando el himno de la Patria.
¡También lo iban, junto a ellas,
el corazón, sin sueño, de Mariana...!
¡Fuera! ¡Fuera de aquí!
¡No aguanto lágrimas!
Hay muertos que aunque muertos,
no están en sus entierros;
¡hay muertos que no caben en las tumbas cerradas y las rompen,
y salen, con los cuchillos de sus huesos,
para seguir guerreando en la batalla...!
¡Únicamente entierran los muertos a sus muertos!
¡Pero jamás los entierra la Patria!
¡La Patria viva, eterna,
no entierra nunca a sus propias entrañas...!
¡Es Santiago de Cuba!
¡No os asombréis de nada!
¡Los ojos de las madres están secos
como ríos sin agua!
¡Están secos los ojos de todas las mujeres!
Son fuentes por la cólera agostadas
que están oyendo el grito
heroico de Mariana:
“¡Fuera! ¡Fuera de aquí!
¡No aguanto lágrimas!”
¡Venid! ¡Venid, clarines!
¡Venid! ¡Venid, campanas!
¡Venid, lirios del fuego,
a saludar las rosas de vuestras propias llamas!
Manuel Navarro Luna
¡No os asombréis de nada!
Allí las madres brillan
como estrellas heridas y enlutadas.
Recogieron el cuerpo de sus hijos
derribados por balas mercenarias,
y, después; en la llama del entierro;
iban cantando el himno de la Patria.
¡También lo iban, junto a ellas,
el corazón, sin sueño, de Mariana...!
¡Fuera! ¡Fuera de aquí!
¡No aguanto lágrimas!
Hay muertos que aunque muertos,
no están en sus entierros;
¡hay muertos que no caben en las tumbas cerradas y las rompen,
y salen, con los cuchillos de sus huesos,
para seguir guerreando en la batalla...!
¡Únicamente entierran los muertos a sus muertos!
¡Pero jamás los entierra la Patria!
¡La Patria viva, eterna,
no entierra nunca a sus propias entrañas...!
¡Es Santiago de Cuba!
¡No os asombréis de nada!
¡Los ojos de las madres están secos
como ríos sin agua!
¡Están secos los ojos de todas las mujeres!
Son fuentes por la cólera agostadas
que están oyendo el grito
heroico de Mariana:
“¡Fuera! ¡Fuera de aquí!
¡No aguanto lágrimas!”
¡Venid! ¡Venid, clarines!
¡Venid! ¡Venid, campanas!
¡Venid, lirios del fuego,
a saludar las rosas de vuestras propias llamas!
Manuel Navarro Luna
Thursday, July 26, 2018
Hay un almanaque lleno de 26
¿Cuestión de julios?
Más o menos siempre es julio.
¿Cuestión de hombres más o menos?
Por ahí andan.
¿Cuestión de decisiones?
Más o menos, casualmente,
momento más ser humano suman 26.
¿Cuestión de seres superiores?
No lo creo.
¿Cuestión de hombres con “H” grande?
Eso sí.
Si le cupiera más de un corazón
a un ser humano,
cada de uno de ellos
tuvo de seguro 26.
Amanece,
y a cualquier hora se siente,
pero ahora está amaneciendo.
¿Cuestión de esquemas y valores?
No lo dudo.
¿Cuestión de haber nacido a tiempo?
Puede ser.
¿Cuestión de mostrarse similares?
Siempre hay tiempo:
hay un almanaque lleno de días 26.
Amanece.
Noel Nicola (1968)
PRAIA GIRÓN
Praia Girón:
no dia seguinte
ao sangue vertido pelo teu punho potente,
já derrotada a invasão,
já esmagada, com furor crescente,
a nefanda traição,
quisemos ver a tua fronte,
a tua estrela enfurecida na torrente
da cólera! E ver teu coração,
Praia Girón!
Foi um trágico baptismo!
E tu não foste praia, mas abismo!
Um abismo colérico de fuzis agrários!
O estrondo feroz de um cataclismo,
entre lôbregos cantos funerários,
não só para o crime dos cobardes mercenários
mas para a força vil do imperialismo!
Ali ficou destruída
e transformada em lodo e em latrina!
Pela primeira vez vencida
por um pequeno povo da América Latina!
Vimos o rosto das tuas pedras calcinadas;
em Soplillar e em Pálpite barracas destruídas,
como se os traidores, as hediondas manadas
de gangsters, as manadas
de violentos fulheiros, usassem as jornadas
do crime para vê-las destruídas!
E sim! Contra eles era
o fogo principal da investida!
Contra os camponeses, a primeira
descarga. E a segunda para a nobre vida,
para a vida da classe obreira!
Porque são os humildes, com os puros e abertos
cálices acesos no seu limpo decoro,
os que com mais pujança e músculos despertos
defendem o tesouro da Pátria! Não o ouro
que do burguês defende cada poro
contra a Pátria, não! Para o operário
e para o camponês
nunca será o dinheiro
o primeiro,
mas a Pátria e o seu feliz destino!
Mas vimos também, Praia Girón tremenda,
na Playa Larga e em San Blas o mesmo
que em ti vimos: a grande, a estupenda
derrota mercenária e do imperialismo!
O teu rosto era a esplêndida ufania
dos rebeldes heróicos e da polícia
de Havana valente e dos valentes milicianos!
E de rastos sobre a vil hipocrisia,
os putrefactos gusanos!
De nada lhes serviram as armas infernais,
barcos, aviões, tanques, metralhadoras e fuzis,
que lhes deram as forças imperiais
de Kennedy! Tão vis, tão covardes e vis
gusanos não puderam segurá-las nas mãos
quando os atacámos. A maior parte delas
veio para nós a golpes de relâmpagos.
Dos relâmpagos dos milicianos!
Mas nas tuas mãos as vimos, Praia Girón! As vimos,
enquanto os escuros gusanos se arrastavam!
E com grande orgulho de Pátria e de bandeira
essa clara manhã de ti nos despedimos.
Manuel Navarro Luna
E tu não foste praia, mas abismo!
Um abismo colérico de fuzis agrários!
O estrondo feroz de um cataclismo,
entre lôbregos cantos funerários,
não só para o crime dos cobardes mercenários
mas para a força vil do imperialismo!
Ali ficou destruída
e transformada em lodo e em latrina!
Pela primeira vez vencida
por um pequeno povo da América Latina!
Vimos o rosto das tuas pedras calcinadas;
em Soplillar e em Pálpite barracas destruídas,
como se os traidores, as hediondas manadas
de gangsters, as manadas
de violentos fulheiros, usassem as jornadas
do crime para vê-las destruídas!
E sim! Contra eles era
o fogo principal da investida!
Contra os camponeses, a primeira
descarga. E a segunda para a nobre vida,
para a vida da classe obreira!
Porque são os humildes, com os puros e abertos
cálices acesos no seu limpo decoro,
os que com mais pujança e músculos despertos
defendem o tesouro da Pátria! Não o ouro
que do burguês defende cada poro
contra a Pátria, não! Para o operário
e para o camponês
nunca será o dinheiro
o primeiro,
mas a Pátria e o seu feliz destino!
Mas vimos também, Praia Girón tremenda,
na Playa Larga e em San Blas o mesmo
que em ti vimos: a grande, a estupenda
derrota mercenária e do imperialismo!
O teu rosto era a esplêndida ufania
dos rebeldes heróicos e da polícia
de Havana valente e dos valentes milicianos!
E de rastos sobre a vil hipocrisia,
os putrefactos gusanos!
De nada lhes serviram as armas infernais,
barcos, aviões, tanques, metralhadoras e fuzis,
que lhes deram as forças imperiais
de Kennedy! Tão vis, tão covardes e vis
gusanos não puderam segurá-las nas mãos
quando os atacámos. A maior parte delas
veio para nós a golpes de relâmpagos.
Dos relâmpagos dos milicianos!
Mas nas tuas mãos as vimos, Praia Girón! As vimos,
enquanto os escuros gusanos se arrastavam!
E com grande orgulho de Pátria e de bandeira
essa clara manhã de ti nos despedimos.
Manuel Navarro Luna
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65º aniversário Moncada,
Manuel Navarro Luna,
poesia
Thursday, July 12, 2018
Memória de Pablo Neruda
Ao meu Partido
Deste-me a fraternidade com os desconhecidos.
Juntaste a mim a força de todos os que vivem.
Voltaste a dar-me a pátria como num nascimento.
Deste-me a liberdade que não tem quem está só.
Ensinaste-me a acender a bondade como o lume.
Deste-me a retidão de que precisava a árvore.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diferença dos irmãos.
Mostraste-me como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir na cama dura dos que são meus irmãos.
Fizeste-me construir sobre a realidade como sobre a rocha.
Fizeste-me inimigo do malvado e muro do colérico.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e como é possível a alegria.
Fizeste-me indestrutível pois contigo não termino em mim próprio.
Pablo Neruda
Monday, July 02, 2018
Memória de Sophia
Mar
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Thursday, June 14, 2018
DIZEM ALGUNS…
Wednesday, June 13, 2018
Homenagem a Alvaro Cunhal
ENTRE AS FLORES DE JUNHO
As tuas cinzas jazem num canteiro No último combate com a fatalIdade No derradeiro encontro das Quatro Estações Assim te semeaste nos Jardins da Terra Assim respondeste às bandeiras nos túmulos numa tarde de sol para todos nós Entre as flores de Junho
Álvaro
Saiu uma nuvem de adeus No crematório Entre as jacarandás Vestidas de roxo
Álvaro
Tu sabias que eras pó criaDor Tu sabias que eras breve mas jamais ausEnte
Álvaro
Não vale a pena dizer que não morreste Vale a pena dizer o que deve ser dito Que nos ensinaste a viVer e a morrer
Álvaro
Não repetirei os passos da tua vida Não recontarei os passos da tua morte Somente lembrarei que a História da Humanidade e a História de Portugal estiveram no teu cortejo e bem se vê que continuarão a precisar do teu nome Para escreVer o nome do Homem
Álvaro
Lámpara Marina em cada anoitecer Na melancolia recliNada nas janelas de Lisboa
Álvaro
Dir-te-ei Continuas presEnte no mundo Embora te tenhas ausentado em Junho
Álvaro
Nunca será em vão chOrar por ti Mas cantaremos todos os dias Até que amanhã seja já hoje
César Príncipe
Monday, June 11, 2018
Homenagem a Vasco Gonçalves
É claro que soube
É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube
Mas tanto me custou desPedir-me Mas tanto me impediu de te rever É claro que nem telefonei à Aida Pensei em redimir-me com uma carta sem pêsames Logo que a resPIRAção autorizasse os meus dedos a escreVer o teu nome É claro que continuas meu companheiro O da vida esperada O da morte inesperada Não te vou recorDar os tempos em que os sonhos eram ilegais e que tu e outros legalizaram Cumprindo o deVer das armas que raramente se usam para sonhar É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube Estou em Agosto e quero dizer àqueles que te apeLidaram de louco Que realmente bem vistas as coisas Só um louco é justo Só um louco é herói Só um louco é poeta E tu Companheiro Cometeste a louCura de aMar o teu Povo Num tempo em que outros Às claras e em segredo Se punham ao serViço do eu e do medo
Recordamos a tua gravata aos ventos da Ibéria Os teus gestos de um Novo Estio na hora de aproFunDar o sonho ou vogar à superfície Depois de Setembro Depois de Março Depois do Passado É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube É claro que exististe antes de nascer e que existirás depois de morrer Porque não és somente um nome a fixar na História mas um nome para transforMar a História Soubeste ser Português e ser Universal Soubeste ser General e ser Soldado Soubeste ser Engenheiro e ser Operário Assim Foste o Governante a quem chamámos Chamaremos Companheiro Porque tu foste propriedade e não proprietário de multidões Porque o teu sonho não foi anDar aos ombros das multidões Mas anDar com as multidões aos ombros Além disso Companheiro Foste um General com Biblioteca Por isso Poetas Escritores Pintores Cantores te dedicaram as elegias inaugurais
É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube
Porque eu já sabia que eras o Vasco da Índia Que fora ignOrada em todas as partidas Eu sabia que declaraste ALMADA o Novo Promontório O das especiarias de cravos O das caraVelas sem escravos Foi então que os senhores de muitos séculos se ALVOroçaram com o Adamastor O Gonçalvismo Sim Senhor E claMARam por socorro aos restantes Senhores do Mundo Foi então que perceberam que se aproximava No meio de Camponeses e SolDados Artistas Professores Funcionários Operários e Marinheiros Cristãos e Ateus com fé no Homem A tempestade temida pelos Geógrafos desde o desenho dos primeiros mapas Temiam eles Ainda temem que o sol não inunde apenas as praias
E que à beira-mar irrompa um arco-íris
ProclAmando
Existe
Um Mês chAmado Abril
Existe
Um Homem chAmado Vasco
César Príncipe
Sunday, June 03, 2018
Nós
Guardo estes nós dentro do peito. Nós que foram laços, mas que fui atando cada vez mais. Para que nunca saíssem de mim. Para que ficassem para sempre.
Guardo estes nós dentro do peito. São nós que não desfaço, porque são o meu conforto em horas outras. Quando me perco nas noites. Quando me falta o nosso abraço.
Guardo estes nós dentro do peito. Nós dos amores da saudade da luta da memória dos segredos. Porque são a minha vida. E por isso são cheios de tanto...
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