Monday, August 14, 2023

As Mãos do Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.
E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...
Mário Quintana

Saturday, August 12, 2023

RENDIÇÃO

Vem, camarada, vem
render-me neste sonho de beleza!
Vem olhar doutro modo a natureza
e cantá-la também!
Ergue o teu coração como ninguém;
Fala doutro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!
Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei,
e cobri-a de versos e de espanto.
Mas, se o facho é maior na tua mão,
vem camarada irmão,
erguer sobre os meus versos o teu canto.
Miguel Torga

Tuesday, August 08, 2023

OS ESTIVADORES

Só eles suam mas só eles sabem
o preço de estar vivo sobre a terra
Só nessas mãos enormes é que cabem
as coisas mais reais que a vida encerra
Outros rirão e outros sonharão
podem outros roubar-lhes a alegria
mas a um deles é que chamo irmão
na vida que em seus gestos principia
Onde outrora houve o deus e houve a ninfa
eles são a moderna divindade
e o que antes era pura linfa
é o que sobra agora da cidade
Vede como alheios a tudo o resto
compram com o suor a claridade
e rasgam com a decisão do gesto
o muro oposto pela gravidade
Ode marítima é que chamo à ode
escrita ali sobre a pedra do cais
A natureza é certo muito pode
mas um homem de pé pode bem mais
Ruy Belo
(27 de fevereiro de 1933 – 8 de agosto de 1978)

***

A cidade dormiu cedo.
A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em frente.
Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi.
No trapiche as crianças já dormem.
A paz da noite envolve os esposos.
O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a morte está próxima.
Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor.
Mas no coração dos dois meninos não há nenhum medo.
Somente paz, a paz da noite da Bahia.
Então a luz da lua se estendeu sobre todos,
as estrelas brilharam ainda mais no céu,
o mar ficou de todo manso
(talvez que Iemanjá tivesse vindo também a ouvir música)
e a cidade era como que um grande carrossel
onde giravam em invisíveis cavalos os Capitães da Areia.
Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos,
soltando palavrões e fumando pontas de cigarro,
eram, em verdade, os donos da cidade,
os que a conheciam totalmente,
os que totalmente a amavam,
os seus poetas.
Jorge Amado
(do livro Capitães da Areia)

Monday, August 07, 2023

Turbilhão


Sombras.
Rolos de fumo.
A forja escancara a boca
A vomitar sem rumo
Incandescência louca.
O ferro a dilatar-se
Em contorsão
Sob o malho pesado a martelar
Toma forma.
Ritmo!
Vibração!
Estalidos secos das correias
Que se cruzam no ar
Vertigem!...
Feições endurecidas
A cismar
Constantemente.
Recolho-me
E deixo o pensamento
Rodopiar co' a máquina...
Depressa!
Rotação!
Em meu cérebro torneio
O veio
Da vida em combustão.

ANTÓNIO DIAS LOURENÇO
(25 de Março de 1915 – 07 de Agosto de 2010)

Sunday, August 06, 2023

POEMA SEXAGÉSIMO QUARTO

O poema ama-se a si mesmo, ama
a terra, o indecente brilho dos animais, o cio
do inverno, o parto alegre do mês de março, o ciúme
que o basalto tem da esmeralda.
O poema veste-se com a luz das árvores, e é árvore,
é folha, é pena, é pássaro, é ovo que apetece à fala.
Diz-te, poema, a ti mesmo. Diz o que quero dizer
da liberdade que trago nas entranhas a namorar-me
o sangue. A tua dor não é dor nenhuma.
A tua dor é uma alegria poderosa,
como a dos pastores,
a das crias, a
dos raios,
a do triunfo da inveja.

Ah, meu poema, meu poema quase eu,
quase irmão, tão perto de ser uma criança, um adulto,
de ser um interminável preço a pagar pela vida.
Rasgo-me, rasgo a minha pele, a minha carne
para te oferecer a nostalgia dos cisnes, o
prazer bruto da armadilha
e a insuspeita alegria da primeira manhã.
Escrevo. Escrevo e
não sei fazer mais nada. Escrevo
e faço amor.
As palavras conhecem-me,
têm agora a cor melada dos meus olhos,
profundo âmbar que dormiu com as estrelas.

Há um mediterrâneo em mim
que espera pelo teu corpo, pela luz sombria
do teu sexo, e pelo teu próprio
nome. O desejo de ti é uma morte viva, exaltação
da vida do poeta, eternidade imensa, intensa, luz
repentina de uma constelação acomodada num verso,
precisamente esse que despreza o destino e não
te espera,
não aguarda pela revelação do teu amor,
mas que caminha em ti e se move nos teus passos
entre o deslumbramento e a simplicidade,
felicidade que aos versos mais inesperados
passa, sem razão,
despercebida.

Joaquim Pessoa
in 'Guardar o Fogo'

Wednesday, August 02, 2023

Teresa Torga

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua
A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela
Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala
Dizem que se chama Teresa
Seu nome e Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga
Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que a diga António Capela
T'resa Torga T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
José Afonso


Sunday, July 23, 2023

Amigos

Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!
Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

Friday, July 21, 2023

NO CAMINHO COM MAIAKÓVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Eduardo Alves da Costa

Saturday, July 15, 2023

Cantar da emigração


Este vaise i aquel vaise
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad.
E nais que non teñen fillos
E fillos que non tén pais.
E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.
Rosalía de Castro
in Follas Novas, 1880
Rosalia partiu há 138 anos.
15 de Julho de 1885

Sunday, July 09, 2023

Dia da Criação

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
Vinicius de Moraes
(43 anos sem Vinicius. Sempre com Vinicius)

Friday, June 23, 2023

A Grande Greve do Couço

 



Foi há 65 anos a mais importante luta travada no mundo rural durante o fascismo

A Grande Greve do Couço
Em Junho de 1958, aquando das eleições para a Presidência da República e depois de Arlindo Vicente ter promovido a união da sua candidatura à do General Humberto Delgado, tendo em conta a necessidade do reforço das posições democráticas, o povo do Couço, tal como milhares de portugueses, mobilizou-se contra o fascismo, organizado pelo seu Partido de sempre, o PCP.
No dia 23 de Junho, para assinalar os 54 anos das lutas do povo do Couço acontecidas em 1958, o ano da Grande Greve, a Comissão de Freguesia do PCP levou a cabo uma caminhada de memória pelos locais dos grandes acontecimentos dessas heróicas jornadas de luta.
Às onze badaladas que marcavam a hora, a Rua de Angola, que acolhe o Centro de Trabalho do PCP no Couço, encheu-se de gente. Empunhando as bandeiras do seu Partido, rubras, essa massa humana dirigiu-se para o local onde era a garagem dos «Olímpios», na Rua Eng.º Aleixo Pais – o mesmo local em que, há mais de meio século, se realizou uma sessão pública de propaganda da candidatura do General Humberto Delgado.
Até lá, em passo descontraído, contava-se histórias, apurava-se recordações, falava-se do passado numa perspectiva de futuro. À medida que se avançava, outros se juntavam, engrossando a acção que prestava jus ao passado que foi de luta e cuja memória se quer preservar, como exemplo para as novas gerações.
Liliana de Sousa, da Comissão de Freguesia do PCP, fez o relato dos acontecimentos. Era, então, 6 de Junho de 1958, uma sexta-feira. Após a «despegada» dos trabalhadores, estes concentraram-se na rua principal para receber os oradores da Oposição Democrática para um comício de encerramento da campanha eleitoral. Apesar do aparato de repressão feroz, com a aldeia apinhada de elementos da GNR e pides, centenas de pessoas juntaram-se para assistir ao comício. «Esta foi, de facto, a única aldeia do País onde foi feito um comício eleitoral da Oposição Democrática», salientou a comunista, informando que, já à noite, na garagem dos «Olímpios», acotovelavam-se duas centenas e meia de pessoas para ouvir os intervenientes. A restante população que, não cabendo no pequeno espaço, ficou na rua foi sendo dispersada pelas autoridades fascistas. Lá dentro falavam os oradores e foi lida uma saudação da população do Couço à candidatura do General Humberto Delgado.
«Tivemos de ir cinco ou seis vezes a Santarém, uma vez que as sessões tinham de ser autorizadas pelo Governo Civil do distrito», afirmou Joaquim José Dias. Sobre aquele dia, recordou que os patrões «não queriam que os trabalhadores despegassem mais cedo para ir ao comício», o que acabou por acontecer. «As pessoas, segundo se conta, como era hábito na altura e para se defenderem, traziam pedras no bolso. Depois do comício terminar, os participantes depositaram as pedras, formando um monte, que nos dias seguintes foi visitado pelas populações, em sinal de resistência», acrescentou Liliana de Sousa.
O resultado mais expressivo do País
A segunda paragem da «caminhada da memória» foi junto à Escola Primária, que reportava para o dia 8 de Junho, dia da votação. Ali, os delegados da Oposição Democrática vigiavam o acto eleitoral e, por pressão das cerca de 400 pessoas que se juntavam à porta do edifício da Escola, foi possível forçar a publicação de resultados no Couço. A candidatura do General Humberto Delgado foi vencedora com mais de 80 por cento dos votos, sendo que nos resultados nacionais o fascismo atribuía falsamente uns meros 23 por cento à candidatura democrática. «Foi o resultado mais expressivo do País», salientou Arménio Marques Silva, manifestando «muita saudade» por aquele dia e «pelas pessoas que estiveram aqui comigo». Sobre aqueles tempos, o militante do PCP frisou que «a República foi um grande avanço, mas aquilo que era essencial e mais interessava às classes trabalhadoras não chegou a mudar assim tanto». Isso só aconteceu com o 25 de Abril de 1974.
Entre o dia da votação e o dia da Greve, que teve lugar a 23 de Junho, muitas foram as reuniões clandestinas organizadas pelo PCP, algumas com centenas de jovens e mulheres, designadamente no local da Serra da Burra, com o intuito de preparar a resposta à monumental burla fascista.
«O povo não arredou pé»
A terceira paragem, junto ao monumento do Povo ao Couço, assinalou a declaração da Grande Greve (23 de Junho). Nessa manhã, naquela que foi a Praça de Jorna, foram detidos João Camilo, já referenciado como militante comunista, e três homens que não dispersaram à ordem da GNR. De imediato, uma multidão, com cerca de 1500 pessoas, concentrou-se à porta do posto para exigir a libertação imediata dos presos. «O povo juntou-se, cercando o posto da GNR. A PIDE e a guarda ainda tentaram sair de jipe, mas o povo não arredou pé. Eles tiveram medo de matar alguém, porque sabiam que não saíam daqui vivos», recordou Manuel Braz.
Uma mulher, rodeada de outras e de crianças, chegou mesmo a agarrar-se ao cano da arma de um tenente da GNR para evitar que este disparasse sobre a população.
Nesse dia e nessa noite, alguns homens da Freguesia do Couço cortaram os fios telefónicos do posto, com o intuito de isolar a aldeia de comunicações com um exterior. «Acabámos por levar a nossa avante, e eles foram obrigados a soltar os camaradas, que foram levados em ombros pelas ruas do Couço», sublinhou o militante comunista.
«Esta foi uma luta muito linda e necessária para quem vive do seu trabalho. Nós éramos uns autênticos escravos», acrescentou Manuel Braz, enfatizando que também agora «é preciso lutar» porque «o capital é desmesurado, e as medidas de austeridade que nos querem impor nunca terminam».
Diamantino Ramalho, já à porta do antigo quartel da GNR, referiu, por seu lado, os grupos de homens e mulheres que, organizados, se dirigiram aos «ranchos», explicando que havia uma Greve declarada contra a burla eleitoral, e todos aderiram. A pé, chegaram a Coruche, à Barragem de Montargil e às obras dos canais do Sorraia. Aos jovens, Diamantino Ramalho apelou a que «se juntem, que não fujam», para «chegar ao que é necessário atingir». Diamantino Ramalho, terminou citando Álvaro Cunhal, que, na inauguração do Monumento ao Povo do Couço, terá dito: «O Couço em si é todo um monumento».
Luta com objectivos políticos
José Casanova, natural da Freguesia do Couço, director do Jornal Avante! e membro do Comité Central do PCP, valorizou o facto de, pela primeira vez, as mulheres terem participado «em grande número, na luta e na sua organização», assim como os jovens, e deu conta de que aquela Greve envolveu cerca de oito mil trabalhadores. «Esta foi a maior luta camponesa no tempo da fascismo, sendo a primeira a realizar-se com objectivos assumidamente políticos», destacou, frisando que «as organizações de base têm um peso muito grande na vida e na acção do Partido», tanto em 1958 como agora, em 2012.
Numa mensagem aos comunistas, que «lutaram em 1958, que conquistaram as oito horas de trabalho, a Reforma Agrária, logo a seguir ao 25 de Abril», José Casanova apelou ao «esforço» e ao «trabalho» de cada um «para que o Partido se reforce, para que chegue mais longe, e se assuma na vanguarda da luta», de modo a «honrar e dignificar as lutas do passado, particularmente a Grande Greve, cuja importância ultrapassa a freguesia do Couço, o concelho de Coruche e o distrito de Santarém».
Dar resposta aos problemas
A caminhada terminou em ambiente de grande combatividade, com todos a cantarem o Hino do Caxias, de resistência ao fascismo, mas a iniciativa continuou no Centro de Trabalho do PCP com um almoço que juntou muitas dezenas de pessoas. Ali, Pedro Silva, responsável pela organização do Couço, deixou um repto: «Os camaradas que têm memória destes acontecimentos devem transmitir, colectivamente, estes ensinamentos às futuras gerações, para que estes possam prosseguir a luta que estamos a travar e teremos de travar no futuro. Façamos desta data uma espécie de aniversário do Partido, e que daqui para a frente possamos sempre comemorar a Grande Greve do Couço.»
Tomaram ainda a palavra Luís Alberto Ferreira, presidente da Junta de Freguesia, que alertou para o encerramento de serviços públicos da Freguesia, e José Casanova, que destacou a «vaga de prisões» que aconteceu no Couço, como «não houve em nenhuma parte do País», e a «coragem» do povo, que «deve merecer a nossa admiração». «Devemos orgulhar-nos muito disto, e trazer para o presente estes exemplos do passado», sublinhou, terminando: «Nós precisamos de ser mais fortes organicamente, interventivamente, ideologicamente. Precisamos de estar melhor preparados para dar resposta à situação que hoje nos é colocada, perante esta política de direita que há mais de 30 anos está a devastar o País.»
Jornal "Avante", 28 de Junho de 2012

Monday, June 19, 2023

79 anos de Chico - Morte e Vida Severina

 A luta pela reforma agrária no Brasil é uma das bandeiras do Movimento Social. O poeta retrata de forma triste e melancólica, em que momento o agricultor consegue seu pedaço de terra.

Funeral de um Lavrador (Composição: João Cabral de Melo Neto e Chico Buarque/1966) Intérprete: Chico Buarque Esta cova em que estás com palmos medida É a conta menor que tiraste em vida É a conta menor que tiraste em vida É de bom tamanho nem largo nem fundo É a parte que te cabe deste latifúndio É a parte que te cabe deste latifúndio Não é cova grande, é cova medida É a terra que querias ver dividida É a terra que querias ver dividida É uma cova grande pra teu pouco defunto Mas estarás mais ancho que estavas no mundo estarás mais ancho que estavas no mundo É uma cova grande pra teu defunto parco Porém mais que no mundo te sentirás largo Porém mais que no mundo te sentirás largo É uma cova grande pra tua carne pouca Mas a terra dada, não se abre a boca É a conta menor que tiraste em vida É a parte que te cabe deste latifúndio É a terra que querias ver dividida Estarás mais ancho que estavas no mundo Mas a terra dada, não se abre a boca.




Tuesday, June 13, 2023

ENTRE AS FLORES DE JUNHO



As tuas cinzas jazem num canteiro No último combate com a fatalIdade No derradeiro encontro das Quatro Estações Assim te semeaste nos Jardins da Terra Assim respondeste às bandeiras nos túmulos numa tarde de sol para todos nós Entre as flores de Junho

Álvaro

Saiu uma nuvem de adeus No crematório Entre as jacarandás Vestidas de roxo

Álvaro

Tu sabias que eras pó criaDor Tu sabias que eras breve mas jamais ausEnte

Álvaro

Não vale a pena dizer que não morreste Vale a pena dizer o que deve ser dito Que nos ensinaste a viVer e a morrer

Álvaro

Não repetirei os passos da tua vida Não recontarei os passos da tua morte Somente lembrarei que a História da Humanidade e a História de Portugal estiveram no teu cortejo e bem se vê que continuarão a precisar do teu nome Para escreVer o nome do Homem

Álvaro

Lámpara Marina em cada anoitecer Na melancolia recliNada nas janelas de Lisboa

Álvaro

Dir-te-ei Continuas presEnte no mundo Embora te tenhas ausentado em Junho

Álvaro

Nunca será em vão chOrar por ti Mas cantaremos todos os dias Até que amanhã seja já hoje 


César Príncipe

(desenho de Francisco Simões)

Álvaro
Não vale a pena dizer que não morreste Vale a pena dizer o que deve ser dito Que nos ensinaste a viVer e a morrer
Álvaro
Não repetirei os passos da tua vida Não recontarei os passos da tua morte Somente lembrarei que a História da Humanidade e a História de Portugal estiveram no teu cortejo e bem se vê que continuarão a precisar do teu nome Para escreVer o nome do Homem
Álvaro
Lámpara Marina em cada anoitecer Na melancolia recliNada nas janelas de Lisboa
Álvaro
Dir-te-ei Continuas presEnte no mundo Embora te tenhas ausentado em Junho
Álvaro
Nunca será em vão chOrar por ti Mas cantaremos todos os dias Até que amanhã seja já hoje
César Príncipe

Sunday, June 11, 2023

É claro que soube


É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube
Mas tanto me custou desPedir-me Mas tanto me impediu de te rever É claro que nem telefonei à Aida Pensei em redimir-me com uma carta sem pêsames Logo que a resPIRAção autorizasse os meus dedos a escreVer o teu nome É claro que continuas meu companheiro O da vida esperada O da morte inesperada Não te vou recorDar os tempos em que os sonhos eram ilegais e que tu e outros legalizaram Cumprindo o deVer das armas que raramente se usam para sonhar É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube Estou em Agosto e quero dizer àqueles que te apeLidaram de louco Que realmente bem vistas as coisas Só um louco é justo Só um louco é herói Só um louco é poeta E tu Companheiro Cometeste a louCura de aMar o teu Povo Num tempo em que outros Às claras e em segredo Se punham ao serViço do eu e do medo
Recordamos a tua gravata aos ventos da Ibéria Os teus gestos de um Novo Estio na hora de aproFunDar o sonho ou vogar à superfície Depois de Setembro Depois de Março Depois do Passado É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube É claro que exististe antes de nascer e que existirás depois de morrer Porque não és somente um nome a fixar na História mas um nome para transforMar a História Soubeste ser Português e ser Universal Soubeste ser General e ser Soldado Soubeste ser Engenheiro e ser Operário Assim Foste o Governante a quem chamámos Chamaremos Companheiro Porque tu foste propriedade e não proprietário de multidões Porque o teu sonho não foi anDar aos ombros das multidões Mas anDar com as multidões aos ombros Além disso Companheiro Foste um General com Biblioteca Por isso Poetas Escritores Pintores Cantores te dedicaram as elegias inaugurais
É claro que viveste e eu soube É claro que morreste e eu soube
Porque eu já sabia que eras o Vasco da Índia Que fora ignOrada em todas as partidas Eu sabia que declaraste ALMADA o Novo Promontório O das especiarias de cravos O das caraVelas sem escravos Foi então que os senhores de muitos séculos se ALVOroçaram com o Adamastor O Gonçalvismo Sim Senhor E claMARam por socorro aos restantes Senhores do Mundo Foi então que perceberam que se aproximava No meio de Camponeses e SolDados Artistas Professores Funcionários Operários e Marinheiros Cristãos e Ateus com fé no Homem A tempestade temida pelos Geógrafos desde o desenho dos primeiros mapas Temiam eles Ainda temem que o sol não inunde apenas as praias
E que à beira-mar irrompa um arco-íris
ProclAmando
Existe
Um Mês chAmado Abril
Existe
Um Homem chAmado Vasco
César Príncipe