Sunday, May 11, 2014
Monday, May 05, 2014
Uma Flor
O meu jardim tem árvores relva flores e um lago. E uma casa.
Quando me passeio por lá olho as flores e vejo-as crescer, a cada dia. Agora os cravos.
A relva amacia-me os pés descalços e o aroma enche-me os pulmões. Terra-mãe.
As árvores são partes de mim plantadas há muito tempo, que cresceram frondosas e me abrigam. Um colo.
Há árvores com muitos anos, outras com menos, mas todas igualmente bonitas. Ouvem-me.
Duas são especiais. Uma enorme e outra mais pequena. Estão perto do lago e abraço-as. A minha casa.
O meu jardim tem todos os aromas e todas as cores. De todas as flores.
Há um canteiro diferente, ao pé do lago e perto das duas árvores. De cravos semeado. Já nascidos.
Mesmo ao lado um outro canteiro tem uma flor prestes a rebentar. De aroma diferente.
No lago do meu jardim está ancorado um barco, que me espera. Entro e remo por entre chorões e nenúfares e patos e cisnes. E há peixes que se escapam.
Toda a noite remei. À espera. Ao fim da manhã atraco o barco e vou ao canteiro ver da flor. Já nasceu.
É filha do amor e da poesia. É uma Margarida e cheira a bébé…
Thursday, May 01, 2014
VIVA O 1º DE MAIO!
Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas
Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu
Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã
Thursday, April 24, 2014
Liberdade
No verde dos campos te semeio
e de mim nasces como um rio
nas ruas te festejo e te premeio
no vermelho dos cravos te sorrio
No amarelo do sol que nos aquece
desenho um malmequer que não desfolho
e ao branco da lua que te esconde
atiro beijos que chegam aos teus olhos
No azul do mar em que me deito
oiço cantos de sereias sem idade
descanso-me na rocha, e é já refeito
que em todas as cores te conquisto, Liberdade!
Friday, April 18, 2014
Música para o fim-de-semana
Os Bravos
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas (x2)
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
P'ra morrer no meio delas
Saturday, April 12, 2014
Música para o fim-de-semana
"Ao alcance das mãos"
Letra e música: Samuel
Na minha vida
há um espaço vazio
Tão cheio de ti
Na minha voz
há um canto de luta
Que é feito p'ra ti
No meu poema
há uma nota suspensa
Um acorde rasgado
vibrando nas cordas
Despertas de sol e surpresa
Por ser já manhã
e estares junto de mim
Meu amor
De ser sem saber
Irmão
Dos teus olhos
parados nos meus
Tão molhados e firmes
Como estes teus dedos
suados e finos
Que aperto tremendo
entre as minhas mãos
Que não se pense
que estou decidido
A mudar de canções
Estamos na mira
das bocas famintas
Dos mesmos canhões
Que já aqui nos feriram
Mas que não matámos
E hoje só esperam
uma sentinela
Que durma no posto de luta
E os deixe lançar-nos ao chão
Meu amor
De ser e ficar
Irmão
Dos teus olhos
parados nos meus
Que vigiam a noite
Sorriem quando chega o dia
E vêem o futuro a chegar
ao alcance das mãos
Há uma flauta chilena
Que grita em cada canção
Há um balanço de samba ferido
Em cada barracão
Há uma trompete
Um batuque africano de guerra
Uma luta tão velha
Que arde a impaciência
de ver disparada
Esta arma invencível
que temos na mão
Meu amor
De ser por dever
Irmão
Dos teus olhos
parados nos meus
Que iluminam a noite
Amanhecem num grito
de amor e de luta
Que voam fronteiras
e rompem prisões
Dos teus olhos
parados nos meus
Tão molhados e firmes
Como estes teus dedos
suados e finos
Que aperto tremendo
entre as minhas mãos
Dos teus olhos
parados nos meus
Que vigiam a noite
Sorriem quando chega o dia
E vêem o futuro a chegar
ao alcance das mãos.
Wednesday, April 09, 2014
Memória de Adriano
Nas tuas mãos tomaste uma guitarra.
Copo de vinho de alegria sã
Sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.
Foste sempre o cantor que não se agarra
O que à Terra chamou amante e irmã
Mas também português que investe e marra
Voz de alaúde e rosto de maçã.
O teu coração de oiro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.
Resta de ti a ilha de um Tesouro
A jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.
(Ary dos Santos)
Sunday, March 30, 2014
Friday, March 21, 2014
Mar
Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.
E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tuesday, March 11, 2014
Mais uma flor
Lua
que me adormece e me embala
No
mar revolto dos sonhos por viver
Deixa
que as ondas venham lamber
Este
corpo que é teu mas que se cala
Mãos
que se entrelaçam deste lado
Sorrisos
que trocamos de olhar absorto
Beijos
que não demos, um nem outro
Em
pas-de-deux fugidio e isolado
No
lado de nós ficará, por fim
Tudo
o que dissemos e fizemos no dia
Em que nos demos o abraço em alegria
Quando
plantámos mais uma flor no teu jardim.
Thursday, March 06, 2014
AO MEU PARTIDO
Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.
Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Ensinaste-me a dormir nas camas duras dos meus irmãos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.
Pablo Neruda
Monday, March 03, 2014
Porque me apetece Eugénio de Andrade (e este poema é tão belo!)
(foto de algasp)
Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que te traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade
Sunday, March 02, 2014
Monday, February 24, 2014
No dia de hoje
No dia de hoje não falo de inquietação
Falo-te de um rio, fonte de vida
Tão pouco falarei da rouca solidão
Prefiro dizer-te a palavra sentida
que se solta das mãos, talvez sofrida
Sei-te homem vagabundo poeta menino
Solidário amigo pássaro e jardim
Sonho vertigem estrada e peregrino
Casa de todos aromas e cores, enfim
saberás um dia assim de mim?
Rasgo o meu peito em palavras de amor
Marés de ir e vir do teu cansaço
Na fogueira de lágrimas calamos a dor
No silêncio aflito o cheiro a sargaço
e no sangue do grito somos o abraço.
Sunday, February 23, 2014
Wednesday, February 19, 2014
Abismo

De tanto cerrar os dentes trinquei o coração.
Que sangra sem parar, como um rio.
Quando nos perdemos. Porque deixei de te ver.
Não sei dos trilhos que caminhas nem das árvores que te abrigam.
Sei de um rio, verde-sangue. Mas não sei da foz nem da fonte.
Perdi-me no meio do nada e não encontro o caminho.
Não sei regressar-me. Os meus passos levam-me à falésia.
E à vertigem. O abismo. O sim e o não.
O silêncio é total e ensurdeço. Nem te oiço.
Mas cheiro-te. E tu salpicas-me de lágrimas. O mar em frente.
Deixo-me cair devagarinho e adormeço.
Sei que quando a maré começar a subir virás lamber-me os pés…
Friday, February 14, 2014
Porque é preciso cantar!
CANTA
Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.
Joaquim Pessoa
Saturday, February 08, 2014
Recomeça...
Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga
Saturday, February 01, 2014
ENTRE NÓS
Entre nós o verde sangue
Derramado nas searas
De um país cansado e exangue
E o vermelho da esperança
De um povo a levantar-se
E entra na roda da dança
Entre nós a alegria
De
um sorriso de criança
Do nascer de um novo dia
Da ternura de um abraço
Do cio fecundo da terra
Desabrochando sem cansaço
Entre nós sempre a certeza
De termos o futuro na mão
De o agarrarmos sem pressa
Ao som da tua canção
Tocada na mais linda viola
Que tens rente ao coração.
Subscribe to:
Posts (Atom)















%2Bart%2Bnouveau%2Bmermaid%2Bpendant%2B%2B(c.1900).b.jpg)







