Sunday, February 22, 2015

*


Mais do que um sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.


E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.


Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor. 


David Mourão-Ferreira

Monday, February 09, 2015

CONVERSA COM A CHUVA



(Poema infanto-juvenil escrito no outono de 1974 durante as
primeiras chuvas, depois de perder a minha mãe em Julho,
e que permanece inédito.)


Gota a gota se faz o teu vestido de água
cobrindo toda a terra: as florestas,
os vales, as montanhas. Gota a gota
te tornas rio e oceano e depois nuvem
e rio e oceano uma vez mais.
E quando és nuvem
rasgas o teu vestido lá no céu
entornando pequenas pérolas de água
que depressa todo o chão bebe e transforma
na seiva que alimenta a jovem macieira
ou o grande castanheiro
e todas as árvores que erguem
os seus ramos para o céu
como se fossem braços
para te abraçar e festejar depois
fazendo desabrochar as flores brancas
vermelhas, lilases, amarelas ou azuis
com que a primavera se veste para
oferecer ao verão frutos muito doces
que são a água de mãos dadas com a terra
no alto de uma árvore.
Às vezes quando dormimos
os teus pequenos dedos tocam na vidraça
e acordam-nos
como se quisessem entrar
e ter uma casa
ou como se andasses a fugir do frio
e estivesses cansada de ser empurrada
pelo vento.
É por isso que quase sempre
tenho vontade de abrir-te a janela
e falar contigo
para que me contes tudo o que viste
no fundo dos rios
ou no alto das nuvens
como desceste as encostas das montanhas
em que sítio das planícies te escondeste
à espera de voar
voar
voar
voar
como um pássaro transparente
ou como se fizesses um truque de magia.
Há quem não goste de ti
mas eu sim: eu amo-te e adoro ver-te
cair sobre as flores que
lavam a cabeleira perfumada
e guardam minúsculas gotinhas como diamantes
para cortejar depois o sol.
Eu gosto de ficar horas a olhar-te
e de ver as pessoas passarem apressadas
com sombrinhas coloridas
ou com enormes e tristes guarda-chuvas pretos
e penso que as que usam sombrinhas alegres
são como eu: acham que a chuva é uma festa.
A festa da alegria das árvores.
E é por isso que
quando chove o céu se enfeita com
uma bandeira de todas as cores que é
o arco-íris.
Mas também os camponeses gostam de ti
e de te ver poisar nos campos
sobre a sementeira ou o pomar
e mesmo os pinheiros muito altos e direitos
com aquele ar de quem não se interessa
se sentem felizes por se cobrirem depois de pinhas
e ficarem muito verdes
com um belo tronco escuro
como se tivessem comprado um fato novo.
E se é verdade que molhas os sapatos das pessoas
e entras pelos buracos das casas pobres
onde vivem pessoas mais pobres do que as casas
tu não és culpada.
Isso não.
Culpadas são aquelas pessoas
que nunca têm tempo para olhar a chuva
as pessoas sisudas e egoístas
que não se importam nada com a vida dos outros
a não ser com a daqueles
tão distraídas como elas.
Tu não tens culpa. Tu gostas
de toda a gente
porque és como as pessoas boas: generosa
transparente e simples. Só que
por vezes bebes muito no mar
bebes
bebes
e engordas as nuvens
que de tão cheias não cabem lá no céu
e andam
desastradamente umas contra as outras
fazendo trovoada
numa enorme discussão de relâmpagos.
Assim mesmo
eu cá em baixo fico fascinado com a tua luz
e admirado como consegues ter essa voz grossa
que se ouve a quilómetros e quilómetros
de distância. Mas nunca tenho medo
porque sei que não estás zangada
e lembro-me que por vezes
dentro do meu corpo há um barulho assim
quando as vísceras andam às voltas porque
também eu comi mais do que devia.
E quando acabas
os rios estão mais cheios e levam
os barcos mais depressa
os peixes saltam a medir forças com a corrente
e transbordam as albufeiras das barragens
com a tua água
que irá produzir energia eléctrica
uma espécie de relâmpago que entra depois
nas nossas casas
sem nenhum barulho
e dura todo o tempo que quisermos.
Porém muita gente que lê ou escreve até tarde
ou vê televisão
e não gosta da chuva
não se lembra que és tu que trabalhas
entre o céu e a terra
para que possamos ter de noite
uma claridade igual à de todos os dias.
É por tudo isto chuva que eu te amo
e quando passa muito tempo sem te ver
sinto-me já cheio de saudades
e fico impaciente
esperando na minha janela
por vezes esperando muito
mas assim que tu chegas é como
quando a alegria chega ao meu coração
ou recebo uma carta de um amigo
ou ainda
como se a minha mãe que já não tenho
voltasse de muito longe
para me beijar.

Joaquim Pessoa

(De CONVERSA COM A CHUVA, a editar brevemente,
integrado na comemoração dos meus 40 Anos de Poesia
publicada em livro (1975-2015).

Tuesday, February 03, 2015

*


Matas-me todas as noites e em todas as manhãs renasço nas memórias que se avivam sempre que te leio escrevo-te um poema que apago e logo refaço em álcool tabaco figuras difusas e tu sempre no meio.
Inevitável lembrar o teu corpo e o teu sorriso rodopiando na sala onde a dança era alegria olhos malandros de um olhar profundo e vivo e a certeza que assim vivíamos todas as noites até ser o dia.

Wednesday, January 28, 2015

A Bandeira Comunista





Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.

Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.
À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.
Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.
E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.

José Carlos Ary dos Santos

Wednesday, January 21, 2015

Vento e Poesia



Quando eu souber da cor do vento
e o vir passar na minha rua
pedir-lhe-ei que entre, com tempo
e cubro-o com a manta que é tua
Quando eu souber do sabor do vento
guardá-lo-ei fechado no coração
para que possas saborear, com tempo
e fazer-lhe um poema, talvez uma canção
Quando eu souber do canto do vento
seja na montanha, no campo ou no mar
escrevê-lo-ei na areia, a tempo
de vir uma onda rebelde e o apagar.
Para que tu possas descobrir, um dia,
que o vento, se quiser, também é poesia.

Sunday, January 18, 2015

Desespero


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

Saturday, January 10, 2015

Esta Gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo


Sophia de Mello Breyner Andresen

Wednesday, December 31, 2014

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A morte faz-se de silêncio e de água.
Porque a vida se faz da água e do grito.
O poeta nasce sempre que os seus poemas são lidos...


Bom Ano a todos!

Monday, December 29, 2014

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Nunca o amor foi tão urgente. 
Nunca andámos tão distraídos como agora. 
Nunca o egoísmo e a mentira foram tão fortes como agora. 
É urgente derrubar muros. 
É urgente darmos as mãos. 
É urgente o amor!

(depois de reler Eugénio de Andrade)

Sunday, December 21, 2014

NATAL DE 1971


Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?


Jorge de Sena

Wednesday, December 17, 2014

Los cinco



Há dias que nos surpreendem. Tudo o que tinha que fazer hoje de tarde passou para amanhã. A tarde toda foi frente ao mar. A falar com o Editor. A ler livros. Frente ao mar, que estava bravo. E a ilha em frente. E eu a lembrar-me da Ilha outra e de amigos de lá.

Não sabia que, quando chegasse a casa, teria a melhor notícia dos últimos tempos: os 3 estão em casa. Os cubanos que faltavam, claro. Um mês e dois dias depois de já não poderes saber, meu querido Amigo e Camarada, o melhor e maior amigo de Cuba em Portugal, eles voltaram à Pátria amada.

Depois foi o corropio de telefonemas. De e para a Ilha do lado de lá. Estamos a comemorar aqui, no nordeste brasileiro e lá. Hoje é dia de Festa! Da Festa que, sendo deles, é também nossa. Hoje sou toda coração! E mar, salgado de felicidade!

Como vês, Editor, tinhas razão para ter escrito 'um dia especial'. Só não sabias quão especial era, é, o dia de hoje, para nós!

Viva o Povo Cubano!

Tuesday, December 16, 2014

História Antiga


Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.


E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.

Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

Wednesday, December 10, 2014

...............

AS EMPADAS (ou, por sugestão aceite, Uma estória, entre outras, de umas empadas trazidas de Montemor-o-Novo para a Quinta dos Cuidados)

Finalmente o encontro. Marcado e cancelado várias vezes, para acertar datas. Vieram do centro do norte e do sul e o calor humano encheu a sala. Com uma vista a perder de vista. E sentaram-se à mesa, os doze que estavam e todos os que não estavam, para degustar as iguarias por que andavam a salivar há que tempos... e o pão de ló é bom com whisky.
Conversa franca e aberta. Falando de tudo e de nada mas aproveitando cada momento. Pedaços de vida contados vividos talvez sofridos, afinal a vida é tudo isto. E o convívio. E as viagens que se fazem e outras que imaginamos, com o mar logo ali em baixo, era azul, era mar, com certeza. E o calor pedia um mergulho. Mergulharam na conversa... e o pão de ló é bom com whisky.
O corpo a ficar mole. E a conversa a rolar, sobre tudo, sobre todos, e as crianças sempre ali as presentes e as que já o foram, porque sairam para o jardim. Para brincar, que é o que as crianças sabem fazer melhor. Devíamos aprender com elas, que ainda sabem sonhar e inventar estórias. E os nossos nunca mais se resolvem...
A criança que ficou na sala, cheia de crianças dentro, saltitava de colo para colo. Queria cantar e dançar, sei lá, talvez para espantar o sono que a invadia. Mas continuava a resistir. Ao sono. À conversa dos adultos, teimando em chamar a atenção para ela. E os nossos nunca mais se resolvem...
Depressa a tarde chegou ao fim. Ao tempo de partir. Seguiriam os doze que estavam e todos os que não estavam para o sul o norte e o centro. E vieram os abraços já com saudades do tempo que tinha sido aquele dia. De convívio, de camaradagem, de amena cavaqueira. Sempre regada com um excelente vinho.
O que tem o título deste post a ver com o seu conteúdo? Nada.
Mas as empadas são deliciosas, o pão de ló é bom com whisky e os nossos nunca mais se resolvem.
Ah, e não falei das empadas, que estavam excelentes...

Saturday, November 29, 2014

Arame



Que nunca se cale a ternura das palavras
e nunca se desfaçam os sonhos que trazes nas mãos
que das lágrimas que te escorrem se façam sementes
que ao cairem no chão possam ser fecundadas
pelas águas dos rios que te trespassam
e de novo possam surgir as árvores de verde folhagem
para abrigarem todos os pássaros quando chegar a primavera
não haverá mais gritos nem medos nem espadas
todas as crianças voltarão a brincar nas ruas
e a Natureza voltará em todo o seu esplendor
como se nunca tivesse havido um arame…

Sunday, November 16, 2014

O meu Amigo partiu...




Amigo

Amigo
É mais que uma palavra, é uma aragem de esperança

Amigo
É mais que um irmão, é um “sempre presente”

Amigo
É mais que o sol ou a lua, a chuva ou o vento

Amigo é terra, porque fecunda e dá fruto
É mãe, porque protege
É mar, porque é vida

Amigo é tanto!

Amigo é ar, porque respira
É fogo, porque aquece
É partilha, porque cúmplice

Amigo é abraço
Amigo é ternura
Amigo, sem cansaço
É a forma de amor mais pura

Amigo é tanto que nem cabe na palma da mão! 


O meu último abraço para ti, Zé. Do tamanho do Mundo!



Monday, November 10, 2014

UMA CHAMA NÃO SE PRENDE


Rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram já muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
ao longo desses anos que só agora
começavam
Não cedeu.
Levado a tribunal
em 2 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele e torturados não “falaram”
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo a greve da fome foi morto.
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção e direcção
a sua orientação política
Responde ás calúnias rasteiras
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
a coragem da clareza e o vigor da inteligência
Responde por si e pelos seus
como quem acusa e ameaça
Ameaça o inimigo que o tem preso
que o terá encarcerado 11 anos seguidos
14 meses incomunicável
E 8 anos em tenebroso
Isolamento
E não cedeu Nunca cedeu

Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/ e grita/ contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
contra a solidão dos homens já
meio submersos e
o piar dos corvos
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
não cede e lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela Não cede e escreve
A Questão Agrária,
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve Até amanhã, camaradas

Uma semana depois, a 9 de Maio
o homem livre encarcerado
excepcional e comum, o dirigente
Da gente comum, que se agiganta perante
aqueles esbirros sombrios,
aquele bando de tartufos, pálidos
representantes dos fazedores de
leis iníquas e injustas
e, subtraindo-lhes o tribunal e a ordem
do mundo que
p’ra ele tinham estabelecido
declara enfim
«no que me diz pessoalmente respeito
também alguma coisa fica provado:
É que como membro do PCP, como filho
Adoptivo do proletariado,
Cumpri os meu deveres
para com o meu partido e o meu povo.
É isto que interessa fique provado, porque é só
ante o meu partido
e o meu povo
que respondo pelos meus actos
Vamos ser julgados e certamente
Condenados. Para nossa alegria
Basta saber que o nosso povo pensa
que se alguém deve ser, julgado e condenado, por agir contra os
interesses do povo e do país, por querer arrastar Portugal a uma
guerra criminosa, por utilizar meios inconstitucionais e ilegais, por
empregar o terrorismo, esse alguém não somos nós, comunistas.
O nosso povo pensa que se alguém deve ser julgado por tais
crimes, então que se sentem os fascistas no banco dos réus, então
que se sentem no banco dos réus os actuais governantes da
nação e o seu chefe Salazar.
O homem livre encarcerado
Fugirá enfim
numa fuga colectiva
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais
foi apanhado.

Manuel Gusmão

Wednesday, November 05, 2014

Sátira aos homens quando estão com gripe


Pachos na testa, terço na mão
Uma botija, chá de limão
Zaragatoas, vinho com mel
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher
Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer
Mede-me a febre, olha-me a goela
Cala os miúdos, fecha a janela
Não quero canja, nem a salada
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada
Se tu sonhasses, como me sinto
Já vejo a morte, nunca te minto
Já vejo o inferno, chamas diabos
Anjos estranhos, cornos e rabos
Vejo os demónios, nas suas danças
Tigres sem listras, bodes de tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes, que foi aquilo!
Não é a chuva, no meu postigo
Ai Lurdes, Lurdes, fica comigo
Não é o vento, a cirandar
Nem são as vozes, que vêm do mar
Não é o pingo de uma torneira
Põe-me a santinha, à cabeceira
Compõe-me a colcha, fala ao prior
Pousa o Jesus, no cobertor
Chama o doutor, passa a chamada
Ai Lurdes, Lurdes, nem dás por nada
Faz-me tisanas, e pão-de-ló
Não te levantes, que fico só
Aqui sozinho a apodrecer
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

(António Lobo Antunes)

Tuesday, October 28, 2014

Sigamos o cherne


Sigamos o cherne, minha amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

Alexandre O’Neill

Thursday, October 23, 2014

A palavra Camarada


Camarada é uma palavra bonita. Sempre. E assume particular beleza e significado quando utilizada pelos militantes comunistas.

O camarada é o companheiro de luta - da luta de todos os dias, à qual dá o conteúdo de futuro, transformador e revolucionário que está na razão da existência de qualquer partido comunista.

O camarada é aquele que, na base de uma específica e concreta opção política, ideológica, de classe, tomou partido - e que sabe que o seu lugar é o do seu partido, que a sua ideologia é a da classe pela qual optou.

O camarada é aquele com cujo apoio solidário contamos em todos os momentos - seja qual for o ponto da trincheira que ocupemos e sejam quais forem as dificuldades e os perigos com que deparamos.

O camarada é aquele que nos ajuda a superar as falhas e os erros individuais - criticando-nos com uma severidade do tamanho da fraternidade contida nessa crítica.

O camarada é aquele que, olhando à sua volta, não vê espelhos... - vê o colectivo - e sabe que, sem ter perdido a sua individualidade, integra uma outra nova e criativa individualidade, soma de múltiplas individualidades.

O camarada é aquele que, vendo a sua opinião minoritária ou isolada, mas julgando-a certa, não desiste de lutar por ela - e que trava essa luta no espaço exacto em que ela deve ser travada: o espaço democrático, amplo, fraterno e solidário, da camaradagem.

O camarada é aquele que, tão naturalmente como respira, faz da fraternidade um caminho, uma maneira de ser e de estar - e que, por isso mesmo, não necessita de a apregoar e jamais a invoca em vão.

O camarada é aquele que olhamos nos olhos sabendo, de antemão, que lá iremos encontrar solicitude, camaradagem, lealdade - e sabemos que esse olhar é uma fonte de força revolucionária.

O camarada é aquele a cuja porta não necessitamos de bater - porque a sabemos sempre aberta à camaradagem.

O camarada é aquele que jamais hesita entre o amigo e o inimigo - seja qual for a situação, seja qual for o erro cometido pelo amigo, seja qual for a razão do inimigo.

O camarada é o que traz consigo, sempre, a palavra amiga, a voz fraterna, o sorriso solidário - e que sabe que a amizade, a fraternidade, a solidariedade, são valores humanos intrínsecos ao ideal comunista.

O camarada é aquele que é revolucionário - e que não desiste de o ser mesmo que todos os dias lhe digam que o tempo que vivemos é coveiro das revoluções.



Camarada é uma palavra bonita - é uma palavra colectiva: é tu, eu, nós: é o Partido. O nosso. O Partido Comunista Português.




José Casanova

(in Avante!, 20.6.2002)

Thursday, October 16, 2014

Memória de Adriano


 
Em memória de Adriano
 
Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
O que à terra chamou amante e irmã
Mas também português que investe e marra
Voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de oiro veio do Douro
Num barco de vindimas de cantigas
Tão generosas como a liberdade

Resta de ti a ilha dum tesouro
A jóia com as pedras mais antigas
Não é saudade, não! É amizade...
 
José Carlos Ary dos Santos