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Tuesday, October 22, 2024

Das minhas memórias

 
Neste mesmo mês de Outubro, há 25 anos, fui pela primeira vez trabalhar nas autárquicas do distrito da Guarda. Aquele trabalho chato, mas muito gratificante, que é o de fazer listas com as candidaturas a 14 concelhos e 242 freguesias.
Hoje telefonei a uma Camarada (que quando sabia que eu ia ficar a trabalhar noite dentro, em todos os anos que lá trabalhei, me levava ao final da tarde pasteis de bacalhau) porque o filho fazia anos e queria dar-lhe os parabéns.
Acabei por falar com o aniversariante, que faz hoje 35 anos!!!! E não é que o jovem se mete comigo? Disse-me, a determinada altura da conversa, "pois é, quando eu te fui ajudar a primeira vez e te mostrei o trabalho disseste-me 'quem se mete a trabalhar com putos...', é que eu tinha agrafado as listas todas ao contrário..."
Rimos. O miúdo tinha 9 anos e queria ajudar. Agrafar papel não custa nada. Não sei que voltas ele deu às listas, depois foi só desagrafar e voltar a agrafar como a lei exige.
Ontem tinham-me perguntado o que me ligava à Guarda.
Para além de tudo o resto, é também esta cena, e outras, mais tarde, com 'camaradinhas' que hoje têm 18 ou 15 anos, e que também sempre queriam ajudar.
Está prometido, Daniel, um dia destes os km fazem-se pela A23.

Wednesday, August 21, 2024

Amiga

Quando já nada resta
nem o cavalinho de pau
em que guardámos
os sonhos das crianças
Quando o fumo da cidade
nos dói de pólvora e estilhaços
porque das chaminés não sobra
nem sequer o preconceito
Ergue-se ainda, confusa e serena,
uma esperança, uma amiga,
a glória e a raiva
vermelha e doce
que nos incendeia a vida.
CG
28.11.1977

Saturday, January 22, 2022

Das minhas memórias


 Das minhas memórias

Tinha eu feito 13 anos ainda não há dois meses quando este assalto se deu. Na Escola, 1º tempo (8:30), aula de Religião e Moral. Oiço uma colega da fila detrás dizer 'faz qualquer coisa, não queremos ter aula'. E começámos a 'bichanar' a quatro (eram cadeiras de duas alunas) e a professora, a famosa D. Celeste, que também nos dava Culinária (que para sermos mulherzinhas tínhamos de saber cozinhar, bordar, coser, fazer renda, tratar dos filhos e do marido - para isso éramos educadas) a D. Celeste, dizia eu, mandava-me calar. E eu virava-me para a frente, sendo que logo a seguir me esticava para a fila detrás e respondia à minha colega mantendo uma conversa de nada, só para não termos aquela aula.
Às tantas a D. Celeste ouviu qualquer coisa que lhe pareceu ter a ver com o assalto ao Santa Maria (tínhamos ouvido na rádio mas não percebíamos peva do que se estava a passar) e disse, 'Morgadinha, aqui nesta aula só tratamos de assuntos sérios'. E eu, do alto dos meus 13 anos e meia dúzia de semanas, respondo-lhe: 'Mas quer algum assunto mais sério do que o assalto ao Santa Maria?'.
Ficou a D. Celeste pálida uns momentos e vai sentar-se na secretária, não sem antes ter dito, de braço esticado e indicando a porta da sala de aula 'Já prá rua!'....
E eu vim. Mais uma falta a vermelho, e acho que foi aqui e neste dia que comecei a tentar perceber porquê tamanho castigo...
Dizem que eu era fresca.....

Wednesday, December 10, 2014

...............

AS EMPADAS (ou, por sugestão aceite, Uma estória, entre outras, de umas empadas trazidas de Montemor-o-Novo para a Quinta dos Cuidados)

Finalmente o encontro. Marcado e cancelado várias vezes, para acertar datas. Vieram do centro do norte e do sul e o calor humano encheu a sala. Com uma vista a perder de vista. E sentaram-se à mesa, os doze que estavam e todos os que não estavam, para degustar as iguarias por que andavam a salivar há que tempos... e o pão de ló é bom com whisky.
Conversa franca e aberta. Falando de tudo e de nada mas aproveitando cada momento. Pedaços de vida contados vividos talvez sofridos, afinal a vida é tudo isto. E o convívio. E as viagens que se fazem e outras que imaginamos, com o mar logo ali em baixo, era azul, era mar, com certeza. E o calor pedia um mergulho. Mergulharam na conversa... e o pão de ló é bom com whisky.
O corpo a ficar mole. E a conversa a rolar, sobre tudo, sobre todos, e as crianças sempre ali as presentes e as que já o foram, porque sairam para o jardim. Para brincar, que é o que as crianças sabem fazer melhor. Devíamos aprender com elas, que ainda sabem sonhar e inventar estórias. E os nossos nunca mais se resolvem...
A criança que ficou na sala, cheia de crianças dentro, saltitava de colo para colo. Queria cantar e dançar, sei lá, talvez para espantar o sono que a invadia. Mas continuava a resistir. Ao sono. À conversa dos adultos, teimando em chamar a atenção para ela. E os nossos nunca mais se resolvem...
Depressa a tarde chegou ao fim. Ao tempo de partir. Seguiriam os doze que estavam e todos os que não estavam para o sul o norte e o centro. E vieram os abraços já com saudades do tempo que tinha sido aquele dia. De convívio, de camaradagem, de amena cavaqueira. Sempre regada com um excelente vinho.
O que tem o título deste post a ver com o seu conteúdo? Nada.
Mas as empadas são deliciosas, o pão de ló é bom com whisky e os nossos nunca mais se resolvem.
Ah, e não falei das empadas, que estavam excelentes...

Friday, October 23, 2009

... e não consigo...


Entraste devagarinho dentro de mim. E eu deixei.
Inundaste-me com a alegria de um menino. E eu sorri.
Dançámos todas as danças que havia para inventar. Estremeci
e o teu coração bateu forte, apressado.

No vai e vem das marés andámos por caminhos proibidos. E tu sabias.
Demos as mãos com a ternura do amor primeiro. O nosso.
Pintámos esse amor com o vermelho da paixão. Vivido.
Das palavras que nos dissemos só uma ficou acordada. Falo da saudade.
Todas as outras adormeceram no tempo no dia na hora que não escolhemos.
Vejo os teus olhos que me sorriem e tu não me vês.
Dou-te um abraço apertado que tu não sentes.
Beijo-te o corpo sem te tocar e amo-te!
Mantenho o teu cheiro, que guardo com todos os sentidos.
Vives rente ao meu coração que ainda bate descompassado, por ti.
Agora sou eu que quero sair de dentro de mim.
Estilhaçar-me em mil pedaços.
… e não consigo…

Tuesday, September 22, 2009

Regresso-me


Regresso-me sempre aos mesmos lugares, tu sabes. Os das minhas memórias, intensas. Aos lugares do nosso amor maduro inteiro madurado. No tempo, pelo tempo, pela vida.
Regresso-me a nós no vento norte na brisa do mar. Que sempre nos acolheu, aqui ou além. Intenso e inteiro continuas dentro de mim. A única maneira de guardar o amor.
Regresso sempre ao tempo de reconstruir. Aos caminhos que percorremos. Que guardam o teu cheiro. Onde me sorris a cada momento. Porque nada se desfaz. Porque tudo se refaz...

Wednesday, September 09, 2009

A INVENÇÃO DO AMOR


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

...

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua

...

Algures no labirinto a cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

...

Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo

DANIEL FILIPE
In: A Invenção do Amor e Outros Poemas

Wednesday, June 03, 2009

Momento...


Foi naquele momento em que só o amor contou, que tu pacientemente me quiseste, momento em que eu te quis, amor tão desejado momento belo, e profundo, e bonito, o momento em que nos demos calmamente avidamente um ao outro
Foi naquele momento em que nos amámos pela primeira vez e este o amanhecer mais bonito da nossa vida
E esse foi o momento...

Friday, May 15, 2009

Acabei de o ver, e ele é tão bom...



Despierta niño, arriba, que llega el alba
Despierta niño, arriba, que espera España.
Que espera España, sí, te está esperando,
el tiempo es tu aliado, y se está acabando.

Levántate, comienza la soldadura,
entre la España quieta y la del hierro,
entre la de los llanos, la de altura,
entre la del taller y la del rezo.

Levanta, carga, suena, ausculta y salva,
escribe, canta, cuenta, potencia y anda.
Que hay una España gris que se nos muere
y otra que resucita, como de nieve.

Despierta niño, arriba con la esperanza,
que la España del chiste hay que enterrarla,
que está cantando el gallo la madrugada
y hay una España nueva que te reclama,
que hay una España nueva que te reclama.

Thursday, October 23, 2008

… e não consigo…


Entraste devagarinho dentro de mim. E eu deixei.
Inundaste-me com a alegria de um menino. E eu sorri.
Dançámos todas as danças que havia para inventar. Estremeci
e o teu coração bateu forte, apressado.
No vai e vem das marés andámos por caminhos proibidos. E tu sabias.
Demos as mãos com a ternura do amor primeiro. O nosso.
Pintámos esse amor com o vermelho da paixão. Vivido.
Das palavras que nos dissemos só uma ficou acordada. Falo da saudade
Todas as outras adormeceram no tempo no dia na hora que não escolhemos
Vejo os teus olhos que me sorriem e tu não me vês.
Dou-te um abraço apertado que tu não sentes.
Beijo-te o corpo sem te tocar e amo-te!
Mantenho o teu cheiro, que guardo com todos os sentidos.
Vives rente ao meu coração que ainda bate descompassado, por ti.
Agora sou eu que quero sair de dentro de mim.
Estilhaçar-me em mil pedaços.
… e não consigo…