Sunday, April 19, 2020

A Idade do Confinamento



Nessa noite sonhou com o mar. Quando acordou não se lembrava de como ali tinha chegado nem de por que razão estava sozinho, a nadar na imensidão nocturna de um oceano tranquilo, a milhas de qualquer rochedo ou batel. Só se lembrava de que nadou durante muito tempo, até perder as forças — e acordar.

Tacteou a mesinha de cabeceira sobrelotada: os medicamentos para a ciática, o copo de água que os acompanham, um livro — a foleiríssima edição Europa-América do Rei Édipo — e, finalmente, o fio do carregador cujo rasto o conduziu ao telemóvel. Ainda eram seis, não que isso importasse e, como o pequeno-almoço só chegava às sete, assim no silêncio se deixou ficar. As cumeeiras das rugas projectando sombras fundas na cara envelhecida, iluminada pelo clarão do ecrã sem mensagens, nem notificações, nem internet, nem rede, nem nada a não ser a data: 24/7. Fazia nesse dia três anos.

Como o borralho que ainda esconde a brasa rubra sob a cinza fria de manhã, invadiu-o a recordação de um ódio antigo. O Carlos, o da comunicação, só com 55 anos e aquele sorriso de atrasado mental, a distribuir abraços cínicos e filosofia dos pacotinhos de açúcar, «Aproveita a vida, Carla! Olha que há mais vida sem ser a vender pneus», como se não quisesse saber da penalização de 60%, 0,5 por cada mês antes da hora, «nem sei por onde começar, há tanta coisa que ainda quero fazer» e ele, a responder-lhe arqueando as sobrancelhas e contraindo os lábios mudos, numa reprovação que o Carlos não era assim tão estúpido que não pudesse entender mas a que retorquiu apenas com uma petulante gargalhada, como se se estivesse a rir dele, como se soubesse que aquela merda ia acontecer.

Sentia-se enganado. Qualquer penalização teria sido melhor do que aquela reforma completa «Aproveita a vida, Carla!». Na verdade, tudo teria sido melhor do que a terrível ironia de passar duas décadas a suspirar pela reforma redentora, a sonhar com a tal casinha na Beira onde ninguém lhe maçasse a aposentação dourada nos píncaros dos escalões «nem sei por onde começar, há tanta coisa que ainda quero fazer» para, na data na santa liberdade, ficar preso num quarto «Olha que há mais vida sem ser a vender pneus» de 12 por 10 metros quadrados.

Foi apagar o brasido do ódio no chuveiro. Durante esses três anos tinha aprendido muito. Foi na paixão pelos gregos antigos que descobriu o antídoto para o ódio e a vacina para a loucura. Os helenos pensavam no tempo de uma forma diferente: imaginavam-se a recuar para o futuro de costas em vez de avançar na sua direcção. A palavra opiso, por exemplo, que significa «atrás», era usada pelos gregos para designar não o passado, mas o futuro. Quando o rei Édipo arranca os cabelos por «não poder ver o que está aqui nem o que está para trás» lamenta-se de não conseguir ver nem o presente nem o futuro porque, convenhamos, o que está à nossa frente é visível. O problema é que nós vamos para o futuro a andar para trás. O truque, ensinavam os gregos, não consistia, portanto, em planear o Cronos, o tempo sequencial, mas em identificar o Kairós, a oportunidade irrepetível de cada momento presente.

Cronos devia encolher os ombros: já não era capaz de dizer de trás para a frente, ou da frente para trás, que medidas de isolamento social se sucederam a que renovações do Estados de Emergência e que novas ordens das autoridades de Saúde se traduziram em que remodelações do quarto de confinamento. Algures no primeiro ano, o filho disse-lhe pelo telecomunicador que o decreto da 15.º renovação do Estado de Emergência proibia permanentemente os idosos com mais de 65 anos de sair do quarto de confinamento e ele, que já não vivia à espera de Cronos mas de Kairós, não fez demasiadas perguntas. Até esse ponto, os quartos de confinamento de idosos haviam sido apenas uma recomendação, mas as famílias aparentemente não respeitavam as instruções das autoridades sanitárias e o número de mortos não parava de aumentar. Para travar a formidável mortandade que grassava na terceira idade, o novo decreto impunha penas de prisão para os familiares dos idosos infectados. Não se importou demasiado: dentro da nova normalidade até era um privilegiado: a requisição generalizada impedia incontáveis famílias de cuidar dos seus idosos confinados e o seu filho, ao menos, nunca falhara uma refeição. Quando, passado uns meses, colapsaram todas as telecomunicações à excepção da rádio, isso também não o perturbou, afinal, num mundo devastado pela pandemia, ele mantinha uma vida segura e confortável, preso num quartinho, é certo, mas nos 20% de idosos sobreviventes que, perdendo o libelo grisalho de peso para a segurança social e grande estorvo em geral, passaram a ser vistos como uma relíquia tão frágil e tão rara que se tornava necessário prendê-los a todos. Só se afligiu quando o filho testou positivo, embora assintomático. O coitado não tinha sintomas nem da vida: aos cinquenta anos nem mulher nem filhos nem carreira nem casa própria nem perspectivas de um dia se reformar, como ele. Já no segundo ano, o filho informou-o de que estavam infectados todos os adultos do país em idade activa. De resto, não guardava rancor à sua prisão, um sacrifício necessário para preservar a vida, e muito menos ao seu pobre carcereiro que, obrigado por requisição civil, continuaria a trabalhar infectado, das 8 às 20 horas de segunda a sexta e enquanto o Estado de Emergência durasse. A culpa de tudo aquilo era do vírus. E o vírus não sabia sequer o que era o rancor.

Saído do duche, prosseguiu a leitura. O rei de Tebas, Laio, e a sua mulher, Jocasta, ouvem do oráculo de Delfos a terrível profecia de que o seu bebé recém-nascido, a que dão o nome de Édipo, um dia matará o pai e casará com a própria mãe. Para evitar a desgraça, Laio e Jocasta abandonam o infante à morte na natureza. A criança, contudo, escapa nos braços de um Pastor ao destino que lhe fora traçado e cresce sem saber quem é. Já um jovem, Édipo cruzar-se-á por coincidência com o séquito de Laio, que viaja em anonimato. Por motivo fútil, literalmente uma cedência de passagem num cruzamento, dá-se um confronto em que Édipo rebenta toda comitiva real à porrada e mata Laio, executando parte da profecia vaticinada à sua nascença. Embora Édipo o ignorasse, o seu futuro recuava.

Fechou o livro e vestiu-se. Sentia-se incomodado com alguma coisa que não podia identificar.

— Estás aí? — gritou ao telecomunicador.
— Sim… — afirmou, soporosa, a voz do filho passados alguns segundos.
— Estás bem?
— Estou, estou — abreviou o filho.
— Acordei-te?
— Não, não… O que se passa? — insistiu o mais novo.
— Não sei, não é nada. Acordei estranho, hoje ­— começou o progenitor.
— Mas sentes-te bem?
— Sim, sim… Não é isso — continuou contra uma timidez espessa e opaca — Hoje é o aniversário da minha reforma. Três anos, porra. Se calhar foi isso, não sei. Está tudo bem.

O silêncio sepulcral que crescia no altifalante incomodou-o.

— E como estão as coisas lá fora? — perguntou só para que o filho tivesse de falar.
— Iguais. O governo ontem disse na rádio que estão à espera de pelo menos mais cinco vagas até haver imunização — retorquiu o filho.
— E a vacina?

Novamente, o silêncio preencheu-se de estática a ziziar no telecomunicador como as cigarras no Estio. Ainda não havia vacina. O confinamento era potencialmente perpétuo.

E foi então, nesse preciso momento, que aconteceu. O filho continuava a falar sobre uma manifestação ilegal contra a requisição civil para todos os trabalhadores em idade activa, mas ele tinha deixado de o ouvir: olhava fixamente para o ecrã do telemóvel que mostrava as horas como uma sentença: eram oito horas e dez minutos.

— …e eu até concordei com a requisição ao início: se ninguém fosse trabalhar, em vez de morrerem muitos com o vírus morríamos todos de fome, mas não acho bem que…
— Sabes que horas são? — perguntou subitamente. A sua voz soou clara e calma, cortava como um machado. O filho tardou a responder. As cigarras eléctricas reocuparam o imenso espaço entre os dois — Porque não estás a trabalhar?
— Houve um problema de abastecimento — titubeou o filho — Mandaram-nos ficar só hoje em lay-off. Amanhã já…
— Não. Tu disseste-me que já não havia lay-off. Não me disseste que quando uma empresa pára os trabalhadores são automaticamente requisitados para ocupar o lugar dos mortos?
— Eu sei… — a respiração do filho suava — Nós achamos que é por isso que isto vai dar barraca… O patrão não informou o governo que ia parar e agora…
— Ok.

Conhecia o filho há mais de cinquenta anos. Ao poisar o telecomunicador, sentiu uma espuma ácida a formar-se-lhe no estômago, o coração ardia-lhe e o cérebro latejava. Não sabia porquê, mas tinha a certeza de que o filho estava a mentir.

Cirandava pelo quarto como uma fera enjaulada. Se o filho ficava em casa, a requisição civil não existia e se a requisição civil não era real, que mais não conseguia ele ver nas suas costas? Para serenar a aflição, regressou ao livro: após matar todo um cortejo de desconhecidos na sequência de uma discussão no trânsito, Édipo ouve dizer que, infeliz coincidência, o rei de Tebas havia falecido, pelo que a coroa do reino, bem como a mão da viúva Jocasta, pertenceria a quem conseguisse derrotar a esfinge. A esfinge era um terrível monstro que impunha um embargo ao comércio tebano, impedindo de entrar ou sair da cidade-estado quem não soubesse responder a uma adivinha, provação que reiteradamente terminava no estômago da esfinge. Édipo, claro está, decidiu que seria de bom alvitre tentar também a sua sorte na estrada para Tebas. «Qual é coisa, qual é ela, que de manhã caminha em quatro patas, à tarde em duas e à noite em três?», perguntou o medonho monstro com cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia. Édipo, que, ainda não o dissemos, era tão danado para a porrada como para as adivinhas, sem delongas respondeu: «é o homem! Na infância gatinha, quando é adulto caminha e na velhice apoia-se numa bengalinha». Derrotada por fim, a esfinge precipita-se no abismo, desimpedindo o caminho para Tebas, onde o infeliz leigarraz se casará com Jocasta e se sentará no maldito trono. Estava cumprida a profecia.

Não se conseguia concentrar. Do turbilhão de hipóteses que o zurziam como vespas uma picou-o em cheio no meio da testa: se o filho lhe mentira sobre ir trabalhar, talvez também lhe tivesse mentido sobre a pandemia. Uma e outra vez quis tergiversar o pensamento para diferentes azimutes, mas o veneno da vespa suspicácia já lhe espalhava o seu barrunto pela corrente sanguínea. Deu por si, preso naquele quarto minúsculo, a perguntar-se quanto ao certo seria verdade. Teriam as telecomunicações colapsado mesmo? Diriam os decretos do Estado de Emergência tudo o que o filho lhe relatava? O que sabia ele sobre vírus e pandemias? Quem era ele para disputar o que lhe dizia o filho, a quem dissera a rádio, a quem dissera o Presidente, a quem disseram os cientistas que era preciso fechar os velhos e trabalhar até exaustão? Poderia a pandemia durar para sempre? Ao fim de tanto tempo fechado, sem ouvir nem ver ninguém, a emergência torna-se em normalidade, a excepção converte-se em regra e o confinamento numa verdade tão desnecessária de provar ou discutir como o ar invisível que se respira.

Tinha de ouvi-lo pelos próprios ouvidos.

— Estás aí? — perguntou.— Sim — a voz seca do filho emergiu da estática.
— Quero ouvir a rádio.

A resposta do filho tardou, deixou o titanesco pedido de chumbo caído no chão, e subitamente caiu sobre ele, rápida, assertiva e com força de lei natural.

— Não pode ser, pai. Só temos uma e está comigo. Se ta desse, infectava-te.
— Não quero saber, desinfecta-a — recorreu desapegadadamente.
— O desinfectante está esgotado há dois anos, pai. Porque é que queres a rádio? Eu não te digo as notícias quando as há?
— Não interessa. Limpa-a como puderes. Usa sabonete, usa lixívia, mas traz-ma. Não oiço mais nenhuma voz há três anos. Quero ouvir a rádio. Até pode ficar desse lado da porta com o volume no máximo.
— Isto é por causa daquilo hoje de manhã? — Insurgiu-se o filho.
— Não. Só quero que me tragas a rádio durante uma hora. Estou a pedir-te.
— Não.

Um silêncio de fel borbulhava do telecomunicador, queimava-lhe os ouvidos e secava-lhe a boca.

— Se não me trouxeres imediatamente o rádio, eu vou-me embora.

De pouco serviram a súplicas enraivecidas do filho. Quando se tornou claro que o seu pedido seria indeferido, respirou fundo, colocou a máscara e agarrou na maçaneta da porta corta-fogo que, em três anos, nunca tentara rodar. A mão estremeceu-lhe quando rodou o puxador e um fio de gelo desceu-lhe pela espinha. Estava trancada. Estivera sempre trancada. E pela primeira vez, percebeu que era um prisioneiro. Por isso gritou, até a voz enrouquecer, esmurrou a porta até as mãos lhe sangrarem. Depois chamou pelo filho caído em lágrimas contra a porta como um trapo humano. Assim chorou baixinho durante muitas horas.

Costuma-se dizer que não é por falta de força que os elefantes não arrancam da terra as palancas a que os acorrentam, mas simplesmente porque assumem desde pequeninos que as estacas são impossíveis de arrancar e, quando crescem, nunca mais experimentam. Com ele fora ao contrário. Nunca tentara abrir a porta porque sempre assumira que estava aberta. Caindo por terra essa suposição, desmanchavam-se todas as outras certezas: haveria ainda confinamento obrigatório? Duraria ainda o Estado de Emergência? A requisição civil generalizada seria verdadeira? Existiria mesmo alguma pandemia?

Nessa noite, a primeira em que o filho não lhe trouxe o jantar, deitou-se na cama e retomou a leitura: volvidos muitos anos sobre a coroação de Édipo, uma misteriosa maldição abate-se sobre Tebas: toda a vida se torna estéril. A infecundidade afecta não somente os seres humanos como também as plantas e os animais por igual, matando lentamente a cidade à fome. O oráculo revela aos tebanos que a maldição só poderá ser quebrada descobrindo o assassino do rei Laio. Em busca de respostas, Édipo consulta Tirésias, o famoso profeta cego, que lhe revela ser ele o assassino de seu pai. Quando o anátema de Tirérias se confirma, o mundo de Édipo desmorona-se sob o peso da realidade. Jocasta, sua mãe e mulher, suicida-se e Édipo, incapaz de enfrentar a verdade, arranca os próprios olhos com um alfinete da mulher.

Não faria sentido esperar por Cronos, que devora tudo o que cria, era preciso agir. Édipo segredara-lhe uma ideia ao ouvido.

Na manhã seguinte, aliás como todos os dias, às 7 da manhã, o filho desceu as escadas com o pequeno almoço num tabuleiro: um copo de leite e um pão de leite com queijo e manteiga. Abriu o microondas que, através de duas portas, comunicava com o interior do quarto, permitindo desinfectar os alimentos através de uma fervura rápida, e poisou o pequeno-almoço no prato giratório. A outra porta também estava aberta, violação clara das regras de saúde, e, no chão do quarto, viu o pai, jacente de bruços numa enorme poça daquilo que tanto podia ser sangue como negra pez, não fosse só o sangue cheirar a sangue.

Destrancou a porta desesperado e ajoelhando-se junto ao pai entre soluços embargados e pedidos indecifráveis, agarrou-lhe entre as palmas a cara inerte. Procurava a ferida que tão copiosamente jorrava mas em nenhum lugar se via. Nem nos pulsos, nem no pescoço, nem nos lugares costumeiros dos suicidas convictos, nem sequer no coração, pelo menos a olho nu se visse, que ele há feridas no coração que profusamente sangram e nunca se vêem. Até que numa fracção de segundo, o pai levanta-se de um salto com um vigor juvenil guardado sabe-se lá onde, derruba no charco de sangue o filho meio atónito de cócoras e cruza como um felino o umbral. Antes que o filho pensasse sequer em se levantar, deu duas voltas à chave.

Enquanto estancava a hemorragia que provocara enterrando profundissimamente na coxa uma lâmina de barbear, ouvia os ecos abafados do filho a berrar impropérios e a projectar-se em peso contra a porta. Depois foi à janela. Forçou os olhos a habituarem-se à claridade do céu que não via há 3 anos. A rua imóvel e deserta de gente permanecia sob o mesmo feitiço soporífero. Só os gatos vadios e os estendais adejar os perfumes do detergentes da roupa na tarde de Primavera é que quebravam a ilusão de ter alguém carregado no botão da pausa. A casa também parecia congelada no tempo: o filho não mudara a posição de nada, nem sequer da televisão, que afinal continuava a funcionar normalmente. A pandemia afinal continuava, confirmou o noticiário, e a requisição civil era real, mas nem uma palavra sobre quaisquer medidas de confinamento forçado para os velhos. Algo não batia certo, como uma profecia que parece incompleta sem uma grande razão de existir.

Desceu as escadas, enfiou a cara no microondas e disse ao filho:

— Acho que me deves uma explicação.
— Vais prender-me aqui para sempre? — respondeu o filho sem o encarar. Estava sentado na cama, dobrado sobre si mesmo, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça amparada entre as duas mãos. Dali, parecia estar a ver-se a si próprio na televisão: a barba menos branca, a cabeça menos calva, mas de resto tal pai, tal filho.
— Só se não me explicares porque é que me ias fazer isso a mim.
— Para não te infectar! Para te proteger!
— Não mintas, já estive a ver televisão.

Calmamente, o filho ergueu a cabeça e observou o quarto à sua volta como quem procura imaginar-se a viver numa casa nova. Naquele instante foi como se estivesse a olhar pela fechadura do tempo para o filho pequenino, assim sentadinho na cama do seu quarto, abstraído das profecias que lhe reservava o mundo. O que estava para fazer doeu-lhe tanto que sentiu as glândulas lacrimais em brasa e os ossos gelados e até Cronos, um tipo que devora os próprios filhos, se comoveu perante semelhante visão.

— A requisição geral — começou por fim — depois de meses em casa, fomos obrigados a ir trabalhar. Essa parte é verdade. Na fábrica todos os dias adoeciam trabalhadores. Eram substituídos automaticamente pelos funcionários das empresas que já não conseguiam laborar por problemas de logística, abastecimento ou falta de mão-de-obra. Os números de mortos também eram verdadeiros. Diziam que morrer a economia era pior do que morrermos alguns de nós. Só eles é que não morriam.
— Eles quem?
— O governo, o meu patrão… os ricos deste país. Esses aprenderam a proteger-se rapidamente. Sabes o que é que faziam? Nunca saíam de sítios como este. Maiores, é certo, mas não entendes que te estava a proteger? — perguntou o filho.
— E porque é que eu não podia saber? Porque tiveste de mentir este tempo todo? — devolveu o pai.
— A única escapatória à compulsão ao trabalho da requisição era a reforma antecipada, com um corte de 70 por cento… Só com isso eu não me safava, pai.
— Então prendeste o teu próprio pai para lhe roubares a reforma?!

O filho, como que sentindo os olhares reprovadores dos leitores, desviou os olhos envergonhados e levantou-se perturbado e sem saber que o maior opróbrio não é o seu mas o de um tempo em que os filhos dependem das reformas dos pais para se manterem vivos.

— Prendi-te aqui dentro para não morrer. Se fosse trabalhar ia trabalhar 11 horas por dia até morrer infectado.
— Porque não me pediste?
— Pedir-te uma mesada? Como um adolescente? Pedir-te que pusesses pão no prato de um velho de 58 anos? E tu, vais dizer que me dirias que sim?

Nessa noite sonhou com o mar. Quando acordou, preparou um pão com queijo e um copo de leite, tocou três vezes à porta, colocou o pequeno-almoço no prato giratório do microondas e foi ver televisão. O presidente anunciava a 50.ª renovação do Estado de Emergência, que expandia a iniciativa privada dentro das prisões e autorizava a polícia a fazer buscas sem mandato nas casas suspeitas de ocultaram trabalhadores em idade activa fugidos ao trabalho. Já não se lembrava de quase nada do sonho dessa noite, nem como ali tinha chegado nem por que razão estava sozinho, a nadar na imensidão nocturna de um oceano tranquilo, mas, de alguma forma, o sonho parecia-lhe fazer sentido.

17.4.20  
Ilustração de Renata Candeias

Wednesday, April 15, 2020

Queria tanto ser cubano

Queria tanto ser cubano

Nunca fui turista em Cuba. Nunca dormi num hotel nem molhei o cu em Varadero. Ganhei enormes bolhas nas mãos. Rebentaram-se os lábios de tanto cieiro. Transpirei ao ritmo da catana e da enxada
Em 1994 era um tenro fotógrafo e tinha ganho um prémio em Espanha. Em Cuba, milhares de Balseros partiam do Malecon em direcção ao desconhecido. No avião da Ibéria sentia o nervoso miudinho. Gastei todo o valor do prémio num bilhete para Havana. Era louco. Talvez. Deixei a minha avó a chorar. Deixei. Mas o que importava se um lado da história estava em Cuba? Todas as manhãs e a todas as horas, jornais e televisões debitavam barcos improvisados. Cuba era somente Malecon. E a outra Cuba? Foi então que parti para Caimito. De catana numa mão e máquina fotográfica na outra.

Vivíamos o tempo negro. O Período Especial. Lojas vazias. Autocarros sem peças. Prédios gastos. Luz só de vez em quando. Racionamento de leite e iogurtes. A palavra de ordem era resolver. E com engenho e persistência os cubanos resolviam. A música não faltava. Assim como não faltava a união.

O bloqueio do vizinho e a queda do muro fizeram de Cuba uma despensa vazia. Não existia quase nada. Desde o simples sabonete ao barril de petróleo. O que existia em abundância era a dignidade, e isso foi fundamental para os cubanos. O seu sistema de saúde e educação que fazem corar um país desenvolvido continuou a funcionar, a taxa de mortalidade infantil continuou mais baixa que a dos Estados Unidos, a alimentação chegou a todos. E quando a Rússia fechou todas as portas, Cuba continuou de portas abertas para receber as crianças vítimas de Chernobyl e tratá-las nos seus hospitais.

Nunca fui turista em Cuba. Nunca dormi num hotel nem molhei o cu em Varadero. Ganhei enormes bolhas nas mãos. Rebentaram-se os lábios de tanto cieiro. Transpirei ao ritmo da catana e da enxada. Fiz quilómetros de bicicleta. Fiz outros a pé ou de boleia. Percorri quase toda a ilha. Fui a festas em casas modestas. Entrei em escolas e hospitais. Discuti muito. Com artistas, com médicos, com varredores de rua, com reformados. Abracei imensa gente. Beijei com amor. Amor sentido de que algo de mágico me estava a acontecer. Não sabia o que era e ainda hoje não sei.

O povo cubano é diferente. Não parece deste mundo. Eu, fruto do capitalismo desenvolvido, sentia-me pequeno perante a grandeza de tamanha gente. Culta, interessada, inteligente e, coisa rara, humana. Em cada esquina, em cada quarteirão, numa avenida, num largo, num café, numa marginal, num quarto, numa cozinha, numa escola, num ministério, num cabeleireiro, sentia a solidariedade a fervilhar. Respiravam-se outros valores e fiquei sem respiração quando um velho me convidou a entrar na sua casa. Olha, tenho casa, televisão, banheiro e até batedeira. O velho em novo foi criado de americano. Não tinha nada, só as suas mãos e a força do saber que alguma coisa tinha de mudar. A revolução deu-lhe quase tudo. Outras tantas faltarão.
Depois de meses a aprender a ser cubano aprendi que nunca lá chegaria. Numa noite de trovoada, a Ângela, uma negra grande e linda, olhou-me nos olhos e disse "fica". Não fiquei. Não tinha a grandeza humana que um cubano tem. Depois de meses em Cuba regressei a Portugal e todos os santos domingos ia a uma cabine telefónica para ouvir a voz doce da Ângela.
Um dia a Ângela aterrou na Portela. Foram dias loucos. E numa noite num hotel em Lisboa olhei-a nos olhos e disse "fica". Não ficou. Tinha de ajudar Cuba. O amor impossível findou. Ficamos os dois nos nossos mundos tão distantes e tão próximos. Nunca mais voltei a aterrar em Havana.

Adiós, Fidel!


Thursday, April 09, 2020

Adriano Correia de Oliveira

09 abril 2007

Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira



ADRIANO

Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.

Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.

O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem queria caber e não cabia.

Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.

(Manuel Alegre)


Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu no Porto, a 9 de Abril de 1942. Filho primogénito de Joaquim Gomes de Oliveira, agricultor, e de Laura Correia, doméstica, Adriano passa a infância na Quinta de Porcas, em Avintes (concelho de Vila Nova de Gaia). Em Avintes faz a instrução primária e, depois, no Porto, o curso dos liceus no Colégio Almeida Garrett e no Liceu Alexandre Herculano. É ainda em Avintes que se inicia no teatro amador e colabora na fundação da União Académica de Avintes. Inicia-se também na prática do voleibol – beneficiando dos seus dotes atléticos e da sua altura – vindo mais tarde, já em Coimbra, a ser campeão nacional da modalidade. Em Outubro de 1959, aos 17 anos de idade, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas nunca chegará a concluir o curso.
Passa a desenvolver grande actividade nos organismos estudantis da academia: canta e é solista no Orfeão Académico, fez parte do Grupo Universitário de Danças Regionais e integra o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) onde representa várias peças. A sua primeira ambição musical, ainda caloiro, é tocar viola eléctrica no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica, do qual faziam parte José Niza, Daniel Proença de Carvalho, Rui Ressurreição, Joaquim Caixeiro, entre outros. Como José Niza já ocupava o lugar de guitarrista, Adriano abandona a ideia e dedica-se ao canto, iniciando-se naturalmente pelo fado de Coimbra. Nessa altura vivia-se em Coimbra uma das fases mais ricas da canção feita pelos estudantes. Depois da época áurea – anos 30 – protagonizada por nomes como António Menano, Francisco Menano, Edmundo Bettencourt e Artur Paredes, os anos 50 e 60 conduziram a canção coimbrã ao mais alto nível com vozes como Luiz Goes, Fernando Machado Soares e José Afonso e guitarristas como António Brojo, Eduardo Melo, Jorge Tuna, Jorge Godinho e António Portugal.
Adriano, embora não tendo sido contemporâneo, nos estudos, dos cantores referidos, conviveu com eles, sobretudo com José Afonso e Fernando Machado Soares, os quais, embora já fora de Coimbra, continuavam a manter uma ligação muito estreita com a vida académica e a influenciar os cantores estudantes dos anos
60, dos quais Adriano era companheiro: Barros Madeira, Lacerda e Megre, Sousa Pereira, Vítor Nunes, José Mesquita, José Miguel Baptista, António Bernardino e outros.
Sobre a Coimbra desses anos 60, escreve Manuel Alegre: «Vivia-se, então, quando ele [Adriano] chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão, de mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara dentro de cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais, carregado de perigos e angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por vezes indistintas e confusas, mas que buscavam o seu rosto e a sua forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se barreiras, apertava-se a mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em marcha, algo que nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração sobre que se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura salazarista, por outro o espectro cada vez mais próximo da guerra de África. Ao mesmo tempo chegavam a Coimbra ecos e notícias da luta libertadora de outros povos e também da tomada do paquete Santa Maria por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de manifestações e greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o vendaval da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra, da Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as gerações de Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das ideias, o próprio fluir da História tinham chegado e provocavam um fervilhar de iniciativas, buscas, enfim, uma extrema tensão geradora duma nova mentalidade e duma nova maneira de ser. Foi nessa Coimbra que Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande generosidade e aquela dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei como, talvez por acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de tudo?), começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão, que nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o António Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt».
Com grande sensibilidade para a poesia e para a música popular, dotado de um timbre de voz único e de uma rara expressão em tudo o que interpretava, Adriano, em 1960 – um ano depois de chegar a Coimbra –, grava o seu primeiro disco, um EP com o título "Noite de Coimbra" para a editora Orfeu, de Arnaldo Trindade. O disco inclui quatro temas: "Fado da Mentira" (letra e música de António Menano), "Balada dos Sinos" (letra e música de Eduardo Melo), "Canta Coração" (letra de Eduardo Melo e música do próprio Adriano) e "Chula" (música de António Portugal). Os três primeiros temas tem acompanhamento de António Portugal e Eduardo Melo (guitarras), Durval Moreirinhas e Jorge Moutinho (violas), sendo o último um instrumental de António Portugal. Nos anos de 1961 e 1962 grava mais três EP com fados de Coimbra. Diz Paulo Sucena: «Foram os fados, na verdade, que ensinaram o jovem Adriano a colocar a voz, a respirar nos tempos certos, a atacar, a segurar ou a esvanecer as sílabas musicais, a valorizar fonológica e semanticamente os matizes das palavras, enfim, a dar aos receptores um canto limpo, verbal e musicalmente.»
Participando de corpo inteiro, e de alma e coração, na vida estudantil do início dos anos 60, e na contestação do regime político – que culminou com a greve de 1962 – Adriano cedo se apercebe que a canção era uma forma de intervenção política de grande eficácia. E foi assim que, em plena ditadura, teve a coragem de cantar textos que mais ninguém cantou e que – tal como os de José Afonso – contribuíram para corroer o regime salazarista/marcelista, o mesmo é dizer, para a criação das condições que levariam ao 25 de Abril de 1974. Em 1963, grava o EP "Trova do Vento Que Passa", que além do tema título inclui "Pensamento", "Capa Negra, Rosa Negra" e "Trova do Amor Lusíada" (poemas de Manuel Alegre e composições de António Portugal). António Portugal e Rui Pato são os acompanhantes à guitarra e à viola, respectivamente. A "Trova do Vento Que Passa" (Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não) torna-se rapidamente um dos maiores hinos de resistência e de contestação ao regime ditatorial, a par de "Os Vampiros" de José Afonso, gravado no mesmo ano. Conta o próprio Manuel Alegre: «Por essa altura, andava eu a descobrir a poesia trovadoresca. Encantara-me precisamente o saber oficinal dos poetas-trovadores e a quase inigualável perfeição de algumas cantigas de amor e de amigo. Encantava-me a tal difícil simplicidade de algumas delas. Eram trovas e cantigas que tinham uma música lá dentro e quase se podiam assobiar. (...) E assim nasceram as Trovas. Nasceram por assim dizer quase naturalmente. Estavam na voz do Adriano, na guitarra do António Portugal, no ar novo que se respirava e vivia em Coimbra. Não mais a capa velhinha, feita mortalha para a sepultura. Havia que cantar a capa transformada em bandeira de luta e liberdade. Eram Trovas que os estudantes cantavam em coro. Trovas que já não eram apenas de Coimbra mas de todo o movimento estudantil português». A seguir, Adriano grava mais três EP: "Lira" (1964), "Menina dos Olhos Tristes" (1964) e "Elegia" (1967), marcados pelas duas vertentes que orientarão a sua obra: a canção popular portuguesa, por um lado, e a poesia criada pelos grandes poetas, por outro. Destes discos merecem destaque duas belas baladas em que se denuncia a guerra colonial: "Menina dos Olhos Tristes" (com poema de Reinaldo Ferreira - O soldadinho não volta / do outro lado do mar / O soldadinho já volta / está mesmo quase a chegar / Vem numa caixa de pinho / do outro lado do mar) e "Barcas Novas" (com poema de Fiama Hasse Pais Brandão - De Lisboa sobre o mar / Barcas novas são mandadas / Barcas novas levam guerra / Sobre o mar com suas armas).
Em 1964, Adriano viaja até Paris onde conhece Luís Cília, que permanecerá outra das suas grandes referências e que para ele compõe a música de três temas incluídos no LP "Margem Sul" (1967): "Canção Terceira" (com poema de Manuel Alegre), "Sou Barco" (com poema de Borges Coelho) e "Exílio" (com poema de Manuel Alegre). Deste belo álbum, que conta com as participações de António Portugal (guitarra) e Rui Pato (viola), merecem ainda destaque os temas "Rosa de Sangue" (com poema de António Ferreira Guedes e música de Adriano), "Margem Sul" (com poema de Urbano Tavares Rodrigues e música de Adriano), "Rosa dos Ventos Perdida", (com poema de António Ferreira Guedes e música de Adriano) e "Pedro Soldado" (com poema de Manuel Alegre e música de Adriano).
Sempre activo na vida académica, não tardará a trocar o desporto (sagrara-se campeão nacional de voleibol pela Académica) pelo crescimento envolvimento na luta política. A crise académica de 1969, porém já não o encontrará na cidade do Mondego. Quando lhe falta apenas uma cadeira para terminar o curso de Direito, em 1966, Adriano, já casado com Maria Matilde Leite (de quem terá dois filhos, Isabel e José Manuel), troca Coimbra por Lisboa, para onde pedira transferência de matrícula. Trabalha no gabinete de imprensa da FIL (Feira Internacional de Lisboa) e é produtor da editora onde sempre gravou, a Orfeu. Em 1967, é mobilizado para o serviço militar, sendo incorporado na Escola Prática de Infantaria de Mafra. Será depois transferido para Escola Prática de Cavalaria de Santarém e, por fim, para o Quartel da Ajuda, em Lisboa, de onde sai em 1970.
Em Julho de 1969, afirma à revista Flama: «O que eu pretendo fazer é, honestamente, tentar um caminho, que não seja o único, de renovar a música portuguesa, dando às pessoas algo mais que as "chachadas" alienatórias que por aí se cantam». E concretizando as suas palavras, nesse ano, Adriano tem a grande ousadia de gravar "O Canto e as Armas", um álbum quase integralmente dedicado à poesia de Manuel Alegre, que se encontrava exilado em Argel e quando o próprio Adriano cumpria o serviço militar. Todos os 13 temas do alinhamento foram compostos pelo próprio Adriano e têm acompanhamento à viola de Rui Pato. Baladas como "Raiz", "E a Carne se Fez Verbo", "Peregrinação", "Trova do Vento Que Passa n.º 2" e "As Mãos" rapidamente se tornam hinos de resistência ao Estado Novo. "O Canto e as Armas" é assim uma premonição do que viria a passar-se cinco anos depois na madrugada de 25 de Abril: o canto de Adriano e as armas de Salgueiro Maia, ambos com raízes na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, seriam decisivos para a restauração da democracia e da liberdade em Portugal. Ainda em 1969, Adriano é distinguido com o Prémio Pozal Domingues.
Em 1970, grava o LP "Cantaremos", outro dos álbuns fundamentais da sua discografia, no qual inicia a colaboração com José Niza de resultarão alguns dos mais belos temas do seu repertório. Este disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantar de Emigração" (com poema da galega Rosalía de Castro e música de José Niza), "Fala do Homem Nascido" (com poema de António Gedeão e música de José Niza), "Lágrima de Preta" (com poema de António Gedeão e música de José Niza), "Canção com Lágrimas" (com poema de Manuel Alegre e música de Adriano) e "Como Hei-de Amar Serenamente" (com poema de Fernando Assis Pacheco e música de Adriano). Os instrumentistas foram Rui Pato (viola, viola baixo e viola de 12 cordas) e Tiago Velez (flauta, em "Cantar de Emigração" e "Lágrima de Preta"). Contou ainda com a colaboração de Carlos Alberto Moniz nos arranjos dos temas populares açorianos ("O Sol Perguntou à Lua" e "Sapateia") e de "Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência" (poema de Manuel Alegre e música de Adriano).
Em Outubro de 1971, edita o LP "Gente de Aqui e de Agora", sendo a totalidade das músicas da autoria de José Niza, que as compôs no norte de Angola, durante a Guerra Colonial, onde cumpria o serviço militar como alferes-médico. O álbum, gravado nos Estúdios Polysom, sob a supervisão técnica de Moreno Pinto, inclui um poema de Fernando Assis Pacheco na contracapa e 10 canções no alinhamento, entre as quais "Emigração" (com poema do galego Manuel Curro Enríquez), "E Alegre se Fez Triste" (com poema de Manuel Alegre), "O Senhor Morgado" (com poema de Conde de Monsaraz), "Cana Verde" (com poema de Fernando Miguel Bernardes), "A Vila de Alvito" (com poema de Raul de Carvalho), "Canção Tão Simples" (com poema de Manuel Alegre), "Roseira Brava" (com poema de António Ferreira Guedes) e "História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro" (com poema de António Aleixo). Este álbum representa ainda o início de uma nova fase na obra de Adriano, caracterizada por maiores exigências de natureza estético-musical, por um tratamento mais apurado dos acompanhamentos e arranjos e por uma pesquisa e escolha poética mais exaustiva e diversificada. É o próprio Adriano que, em entrevista a Vieira da Silva (Mundo da Canção, 1971), explicita: «Este disco é um passo enorme em frente. Em todos os aspectos: instrumentação, construção musical (que pertence a José Niza), vocalização (onde houve um trabalho muito mais cuidado do que anteriormente na técnica de cantar). Demorou mais tempo a realizar do que normalmente, porque valia a pena, porque eu sabia que estávamos a trabalhar no caminho certo e com segurança. Com segurança graças exactamente à direcção do José Niza que me podia apontar quando as coisas estavam certas ou não». Neste álbum, Adriano canta pela primeira vez com acompanhamento de orquestras, dirigidas por José Calvário (em "E Alegre se Fez Triste", o primeiro arranjo do maestro, então com vinte anos) e por Thilo Krassman (em "Cantiga de Amigo"), e por pequenos conjuntos instrumentais: viola (José Niza), piano e acordeão (Rui Ressurreição), baixo e harmónica (Thilo Krassman), bateria (José Eduardo L. Cardoso).
Até à queda da ditadura, Adriano não gravará mais discos porque se recusa a enviar os textos à Comissão de Censura. Nesse período saem alguns EP com temas dos álbuns anteriores e um LP intitulado "Fados de Coimbra" (1973) que reúne os fados dos três primeiros EP (editados em 1960 e 1961).
Em 1975, em pleno PREC, Adriano edita o LP "Que Nunca Mais", no qual musica e interpreta nove poemas de Manuel da Fonseca, corolário do trabalho que desenvolvera durante os últimos anos da ditadura. O álbum, gravado nos estúdios da Rádio Triunfo, por José Manuel Fortes, tem a direcção musical e arranjos de Fausto Bordalo Dias e conta com participação musical do próprio Fausto (guitarra acústica, percussão, kazu, coros), Júlio Pereira (guitarra solo, baixo, piano, órgão, bandolim, buzuki, cadeira, coros), Zau e Pantera (percussões), José Luís Simões (trombones de varas), Vitorino Salomé (acordeão) e Carlos Paredes (guitarra portuguesa). O alinhamento começa com "Tejo Que Levas as Águas", cuja letra (vide abaixo), passadas mais de três décadas sobre a Revolução dos Cravos, readquiriu uma surpreendente e preocupante actualidade. O álbum vale a Adriano Correia de Oliveira o Prémio de Melhor Artista do Ano atribuído pela revista britânica "Music Week".
A partir de 1975, Adriano não pára de cantar, quer em Portugal, quer no estrangeiro o que, naturalmente, lhe retira tempo para preparar novas gravações. Quer antes, quer depois do 25 de Abril, pode dizer-se que não existe sítio em Portugal onde Adriano não tenha cantado, a maioria das vezes sem as mínimas condições logísticas e técnicas e sem qualquer compensação monetária. E, por isso, morreu pobre, conta José Niza. Gravará apenas mais dois discos: em 1978, um single intitulado "Notícias d’Abril", com duas composições suas sobre poemas de Alfredo Vieira de Sousa ("Se Vossa Excelência... " e "Em Trás-os-Montes à Tarde"); e em 1980, um álbum de título genérico "Cantigas Portuguesas", em que Adriano retoma e aprofunda a exploração do nosso riquíssimo cancioneiro tradicional que havia iniciado nos anos 60. Os arranjos e a direcção musical são mais uma vez de Fausto Bordalo Dias e entre os instrumentistas contam-se o próprio Fausto e Pedro Caldeira Cabral.
Fiel ao espírito de grupo que sempre o animou, Adriano Correia de Oliveira é, em 1979, um dos fundadores da CantarAbril, cooperativa de músicos ligada ao Partido Comunista Português. Decorridos dois anos, será alvo de um processo pouco digno para a direcção da cooperativa que, pura e simplesmente, decide expulsá-lo. Motivo invocado: uma alegada dívida de 40 contos e a «inadaptação de Adriano à perspectiva mercantilista de mercado». Alguns dos seus colegas de ofício como Luís Cília, Fausto e José Afonso solidarizam-se com ele. A saúde do cantor já está consideravelmente degradada devido ao consumo imoderado de álcool. As suas actuações no último ano de vida, nomeadamente num concerto de apoio aos jornalistas da ANOP, ameaçados de desemprego, são fortemente afectadas por esse problema. A cooperativa ia endossando os convites dirigidos a Adriano para outros cantores da casa. Na altura em que mais precisava de apoio e de ajuda, Adriano vê-se abandonado e atraiçoado por muitos dos seus antigos companheiros de luta. Dois anos mais tarde, numa sessão assinalando o primeiro ano sobre a morte de Adriano Correia de Oliveira, na presença de vários membros da Cantarabril, o jornalista Júlio Pinto, também ex-militante do PCP, acusa de assassinos os que o expulsaram da cooperativa. Adriano seria depois recebido na cooperativa Era Nova, ligada a cantores próximos da extrema-esquerda, como Fausto e José Mário Branco. Mas já de pouco lhe serviu. Morre a 16 de Outubro de 1982, em Avintes, nos braços da mãe, vítima de uma hemorragia no esófago. Tinha 40 anos de idade e deixa vários projectos por realizar, designadamente uma regravação dos seus temas mais antigos.
No ano seguinte, a Orfeu lança um LP duplo contendo 22 temas intitulada "Memória de Adriano" (reeditado em CD pela Movieplay, em 1992). Em 1994, a Movieplay publica a sua "Obra Completa", numa caixa com 7 CDs (organizados tematicamente por José Niza) acompanhados de um livrinho com textos de Manuel Alegre, Paulo Sucena e José Niza. Ainda em 1994, a mesma editora lança uma compilação de 18 temas do cantor, na série "O Melhor dos Melhores". Posteriormente, alguns dos álbuns originais como "O Canto e as armas", "Cantaremos", "Gente de Aqui e de Agora" e "Que Nunca Mais" são também editados em CD.
«A voz do Adriano era uma voz alegre e triste. Solidária e solitária, havia nela ternura e mágoa, esperança e desesperança, amparo e desamparo, festa e luta. E também saudade e fraternidade. Nenhuma outra voz portuguesa, com excepção das de Amália Rodrigues e José Afonso, está tão carregada desse não sei quê antigo que trazemos no sangue, como o apelo do mar e o amor da terra, como a toada e o tom do nosso próprio ser, do seu ritmo secreto, da sua música primordial. Voz de Fado e de destino, herança talvez do mouro e do celta que nos habitam, a voz de Adriano tinha também o masculino apelo do rebate e do combate. Era uma voz que precisava de poesia e de que a poesia precisava», escreve Manuel Alegre. E acrescenta: «Sem a voz de Adriano, muitos dos poemas que os poetas escreveram não teriam chegado onde chegaram. Foi pela sua voz que eles chegaram ao povo e ao país inteiro, a tal ponto que alguns desses poemas deixaram de ter autor para passarem a fazer parte da nossa memória comum e do nosso canto colectivo».
Contudo, os media portuguesas, sobretudo a rádio, muito pouco têm feito em prol da memória de Adriano Correia de Oliveira. Apesar de estar totalmente publicada em CD, a sua riquíssima obra tem sido alvo de um silenciamento, a todos os títulos criminoso, principalmente por estar a ser negada aos mais jovens a oportunidade de tomarem conhecimento do legado de um dos compositores / intérpretes superlativos da música portuguesa de sempre. Em Maio de 2006, lavrei o meu protesto pelo que se estava a passar na rádio pública, designadamente na Antena 1 mas, infelizmente, e apesar de ter enviado uma cópia do texto aos altos responsáveis da estação pública, constato com mágoa e revolta que o grande cantor continua arredado dos alinhamentos de continuidade ("playlists"). Espero que no ano em que se comemoram os 65 anos do seu nascimento e se assinalam os 25 anos da morte, a direcção da RDP encabeçada por Rui Pêgo tenha a lucidez e a sapiência de corrigir a vergonhosa situação, mais própria de um país obscurantista e culturalmente atrasado. Foi também a pensar nisso que tomei a iniciativa de elaborar este texto.


Discografia:

- Noite de Coimbra (EP, Orfeu, 1960)
- Balada do Estudante (EP, Orfeu, 1961)
- Fados de Coimbra (EP, Orfeu, 1961)
- Fados de Coimbra (EP, Orfeu, 1962)
- Trova do Vento Que Passa (EP, Orfeu, 1963)
- Lira (EP, Orfeu, 1964)
- Menina dos Olhos Tristes (EP, Orfeu, 1964)
- Elegia (EP, Orfeu, 1967)
- Adriano Correia de Oliveira (LP, Orfeu, 1967)
- Margem Sul (LP, Orfeu, 1967)
- Adriano Correia de Oliveira (EP, Orfeu, 1968)
- Rosa de Sangue (EP, Orfeu, 1968)
- O Canto e as Armas (LP, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1997)
- Cantaremos (LP, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1999)
- Trova do Vento Que Passa nº. 2 (EP, Orfeu, 1971)
- Cantar de Emigração (EP, Orfeu, 1971)
- Gente de Aqui e de Agora (LP, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1999)
- Batalha de Alcácer Quibir (EP, Orfeu, 1972)
- Lágrima de Preta (EP, Orfeu, 1972)
- O Senhor Morgado (EP, Orfeu, 1973)
- Fados de Coimbra (LP, Orfeu, 1973)
- A Vila de Alvito (EP, Orfeu, 1974)
- Que Nunca Mais (LP, Orfeu, 1975; CD, Movieplay, 1997)
- Para Rosalía (EP, Orfeu, 1976)
- Notícias d’Abril (Single, Orfeu, 1978)
- Cantigas Portuguesas (LP, Orfeu, 1980)
- Memória de Adriano (2LP, Orfeu, 1983; CD, Movieplay, 1992)
- Adriano Correia de Oliveira: O Melhor dos Melhores, vol. 40 (CD, Movieplay, 1994)
- Obra Completa (7CD, Movieplay, 1994)
1. Fados e Baladas de Coimbra
2. Cantigas Portuguesas
3. Trova do Vento Que Passa: Adriano Canta Manuel Alegre (I)
4. O Canto e as Armas: Adriano Canta Manuel Alegre (II)
5. Gente de Aqui e de Agora e Outras Canções: Adriano Canta José Niza
6. Que Nunca Mais: Adriano Canta Manuel da Fonseca
7. A Noite dos Poetas
- Adriano Correia de Oliveira: Clássicos da Renascença, vol. 28 (CD, Movieplay, 2000)
- Vinte Anos de Canções (CD, Movieplay, 2001)


Fontes:
- Literatura inclusa na discografia de Adriano Correia de Oliveira
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Página http://adriano.esenviseu.net/index.asp


Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)

- A Batalha de Alcácer Quibir
- As Balas
- As Mãos
- Balada do Estudante
- Barcas Novas
- Cana Verde
- Canção da Beira Baixa
- Canção com Lágrimas
- Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência
- Canção Tão Simples
- Canção Terceira
- Cantar de Emigração
- Cantar Para Um Pastor
- Charama
- Deus te Salve, Rosa
- E o Bosque se Fez Barco
- Emigração
- Exílio
- Fala do Homem Nascido
- História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro
- Lágrima de Preta
- Margem Sul
- Menina dos Olhos Tristes
- No Vale Escuro
- Pedro Soldado
- Pensamento
- Peregrinação
- Pescador do Rio Triste
- Raiz
- Regresso
- Rosa dos Ventos Perdida
- Roseira Brava
- Rosinha
- Sapateia
- Sou Barco
- Tejo Que Levas as Águas
- Trova do Amor Lusíada
- Trova do Vento Que Passa
- Trova do Vento Que Passa n.º 2
- Tu e Eu Meu Amor
- Vira Velho

(todos os temas in "Obra Completa")



Tejo Que Levas as Águas



Poema: Manuel da Fonseca
Música e voz: Adriano Correia de Oliveira


Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas

Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro

Lava palácios, vivendas
casebres, bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder de uns senhores
que compram corpos e almas

Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas

Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos, corpos destroçados
lava-os com sal e iodo

Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar


(in "Que Nunca Mais", 1975)

___________________________

Outros artistas desta galeria:
Carlos Paredes
Janita Salomé
José Afonso
Luiz Goes
Pedro Barroso



Retirado daqui: http://nossaradio.blogspot.com/2007/04/galeria-da-msica-portuguesa-adriano.html

Monday, April 06, 2020

*


Há-de bater-nos à porta
E antes de abrirmos entrar
Sentar-se à nossa mesa
Convidar-se p’ra jantar

Há-de deitar-se na cama
Sem lençol ou cobertor
Há-de vir de madrugada
A fingir que por amor

Há-de acordar de manhã
Tomar o café connosco
Há-de meter-se no carro
Conduzir a contra-gosto

Há-de passar a jornada
Mesmo ali ao nosso lado
Controlar a nossa luta
“É trabalho ou é cigarro?”

Há-de regressar à noitinha
Como se fosse saudade
Há-de esconder ser mentira
Mascarado de verdade

E se bebermos um copo
Há-de ser pedra de gelo
Fazer-se um abraço amigo
Passando a mão pelo pêlo

E há-de fazer-nos culpados
Pelo desejo que sentirmos
Estejamos nós acordados
Durmamos com quem dormirmos

Há-de invadir-nos o sangue
Percorrer-nos cada veia
Se formos praia ser mar
Se formos mar ser areia

Há-de tornar-se rotina
Como quem nasceu assim
Roubar-nos o corpo e a alma
O agora e o aqui

Hei-de mostrar-lhe que sei
que não passa de cilada
Resistir já é vencer
Mesmo morto hei-de dizer
Que o medo já não me mata

AM 2020

Saturday, March 21, 2020

ADEUS


Fiquem em paz, meus amigos,
fiquem em paz
Eu vou partir
convosco no coração
e a minha luta na cabeça.
Fiquem em paz,
amigos meus,
fiquem em paz.
Não quero ver-vos na praia
alinhados como aves num postal.
Não quero os vossos lenços a acenar, não, isso não.
Vejo-me inteiro nos olhos dos meus amigos.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
adeus sem uma palavra.


As noites vão fechar o ferrolho da porta
Os anos vão criar teias de aranha nas janelas
e eu cantarei na prisão a minha canção de combate.
Tornaremos a ver-nos, amigos, tornaremos a ver-nos.

Juntos, sorrindo, olharemos o sol
bater-nos-emos lado a lado.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
Adeus.

Nazim Hikmet

Sunday, March 08, 2020

REVOLUÇÃO E MULHERES


1. RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.


2. REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.


3. PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descarnar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transistor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fieira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.


4. SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas, e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas do lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.


5. TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quis.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.


6. PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.


7. REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Eles foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro 1975

Maria Velho da Costa, Cravo, Lisboa, Moraes Editores, 1976.

https://youtu.be/KC4DhlU8NbU

Friday, March 06, 2020

Tomar Partido


Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.


Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.

Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.

Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.

Ary dos Santos

Arte poética


A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


Mário Dionísio

Monday, March 02, 2020

clímax


molha na Língua
dois dedos de poesia
toca bem fundo
e suspira.

Miguel Tiago

Friday, February 21, 2020

Uma Pequenina Luz


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha


Jorge de Sena

Sunday, February 16, 2020

Carlos Paredes

23 abril 2007

Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes



GUITARRA (Carlos Paredes)



A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.

Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).

Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar, ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.

Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.

(Manuel Alegre – voz de Carmen Dolores)


Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho de Artur Paredes, empregado bancário e guitarrista, por sua vez também descendente de exímios guitarristas de Coimbra, e de Alice Candeias Duarte Rosas, professora liceal, Carlos aprende a tocar guitarra portuguesa com o pai, com apenas 4 anos, embora a mãe preferisse que se dedicasse ao piano.
Em 1934, a família muda-se para Lisboa e Carlos conclui a instrução primária no Jardim-Escola João de Deus, começando também a ter aulas de violino e piano, mas não se adapta aos instrumentos. Carlos Paredes recorda: «Em pequeno, a minha mãe arranjou-me duas professoras de violino e piano. Eram senhoras muito cultas a quem devo a cultura musical que tenho. Passávamos horas a conversar e uma delas murmurava: "Não sei o que hei-de dizer aos seus pais". Mas aprendi muito com elas». (Jornal de Letras, 17.3.1992). Então, abandona o violino e o piano para se dedicar por inteiro, sob a orientação do pai, à guitarra. Carlos Paredes fala com saudades desses tempos: «Foi com o meu pai que eu aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo langoroso a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada». E acrescenta: «Nesses anos, creio que inventei muita coisa. Criei uma forma de tocar muito própria que é diferente da do meu pai, do meu avô, bisavô e tetravô».
Em 1939, inicia colaboração regular no programa que o pai fazia na Emissora Nacional. Às vezes tinham desentendimentos musicais. Carlos Paredes recorda: «O meu pai chamava-me péssimo acompanhador, porque o fazia andar atrás de mim». Em 1943, termina os estudos secundários num colégio particular, depois de ter frequentado o Liceu Passos Manuel, e faz exame de admissão ao Curso Industrial do Instituto Superior Técnico, que não chega a concluir. Em 1949, torna-se funcionário administrativo do Hospital de S. José, com a categoria profissional de fiel de lavandaria (será promovido a escriturário de 1.ª classe, em 1953). Casa-se e nascem os filhos (terá seis), mas não pára de tocar guitarra, a sua grande paixão.
Se excluirmos as gravações de 1957 em que acompanha o seu pai – mas ainda sem as marcas expressivas que hoje lhe conhecemos – a primeira aparição conhecida em disco de Carlos Paredes acontece em 1958 como acompanhador à guitarra do cantor de Coimbra, Augusto Camacho Vieira, num EP intitulado "Fado de Coimbra", editado pela Valentim de Carvalho. Contando ainda com a participação de António Leão Ferreira à viola, esse EP inclui os seguintes temas: "A Água da Fonte" (Popular / Paulo de Sá), "Adeus a Coimbra" (Edmundo Bettencourt), "Quando os Sinos Dobram" (Eduardo Manuel Tavares de Melo) e "A Luz do Teu Olhar (Súplica)" (Augusto Camacho Vieira).
Em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, de que era de facto militante, e expulso da função pública. Durante os 18 meses em que esteve detido, primeiro no Aljube e depois na prisão de Caxias, andava de um lado para o outro na cela fazendo os gestos de quem toca guitarra, o que levou os companheiros de cárcere a pensar que estaria louco. De facto, o que ele estava a fazer, era a compor músicas mentalmente, como lembra Severiano Falcão, que também se encontrava preso na altura. É libertado no final de 1959, e passa a exercer a profissão de delegado de propaganda médica.
Em 1960, música sua é utilizada na curta-metragem de Cândido da Costa Pinto "Rendas de Metais Preciosos". Com algum nome e carreira atrás de si, Carlos Paredes, edita finalmente, em 1962, o seu primeiro disco a solo, um EP intitulado "Carlos Paredes", com chancela da Alvorada. Com acompanhamento à viola de Fernando Alvim, o disco inclui os seguintes temas: "Variações em Si Menor", "Serenata", "Variações em Lá Menor" e "Danças Portuguesas n.º 1". Nesse mesmo ano, é convidado pelo realizador Paulo Rocha (por recomendação do produtor António da Cunha Telles), para compor a banda sonora do filme "Os Verdes Anos" (estreado comercialmente em Novembro de 1963), cujos temas – "Despertar", "Raiz", "Acção" e "Frustração" – serão publicados em EP, pela Alvorada, no início de 1964. Paulo Rocha lembra: «Ele [Carlos Paredes] leu a história e compôs a música antes de eu filmar, uma música impressionante, e quando eu estava a rodar já tinha a música na minha cabeça. Fiquei com suores frios quando a ouvi». Carlos Paredes fala assim desse trabalho: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas. Eram precisamente essas pessoas com quem eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade».
Nos anos seguintes, continuará a sua colaboração musical no cinema, quer cedendo músicas já gravadas quer compondo de raiz as bandas sonoras: "P.X.O." (1962, curta-metragem de Pierre Kast e Jacques Doniol-Valcroze), "Fado Corrido" (1964, filme de Jorge Brun do Canto), "As Pinturas do Meu Irmão Júlio" (1965, curta-metragem de Manoel de Oliveira), "Mudar de Vida" (1966, filme de Paulo Rocha), "Crónica do Esforço Perdido" (1966, curta-metragem de António de Macedo), "A Cidade" (1968, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Tráfego e Estiva" (1968, curta-metragem de Manuel Guimarães), "The Columbus Route" (1969, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Na Corrente" (1969, documentário televisivo de Augusto Cabrita), "Hello Jim!" (1970, curta-metragem de Augusto Cabrita). Carlos Paredes, com a sua música visceralmente portuguesa, fica assim indelevelmente ligado ao cinema novo português. Diga-se, a título de curiosidade, que o próprio Pier Paolo Pasolini, depois de assistir a um concerto de Carlos Paredes em Bolonha, em Setembro de 1974, virá a fazer-lhe um convite para compor a música de um filme, projecto que não se viria a concretizar devido à morte do realizador, no ano seguinte.
Em Outubro de 1966, Carlos Paredes grava para a Valentim de Carvalho o seu primeiro LP, intitulado "Guitarra Portuguesa", nos estúdios de Paço d'Arcos, com acompanhamento à viola de Fernando Alvim. O disco marca igualmente a primeira colaboração com Hugo Ribeiro, o engenheiro de som que, anos mais tarde, Carlos Paredes diria ter sido o único a saber captar o som da sua guitarra. Hugo Ribeiro fala assim dessa experiência: «Eu ouvia-o e pensava: mas como é que é possível? Eu não percebia como é que ele tirava da guitarra aquele som todo... era a força com que ele tocava, e nem lhe saía uma nota desafinada. Era extraordinário!». Dos 11 temas do álbum merecem destaque: "Melodia n.º 2", "Dança" e "Canção Verdes Anos", talvez o tema mais emblemático de toda a sua produção. O álbum, lançado em 1967, contém um texto do francês Alain Oulman, célebre compositor de Amália Rodrigues, de que transcrevo as seguintes palavras: «A música de Carlos Paredes exprime, a meu ver, mais do que nenhuma outra, a terra e as gentes de Portugal. É intemporal, como a de Theodorakis quando canta a Grécia, como, aliás, deve ser a verdadeira música. Não se pode catalogar a música de Carlos Paredes, nem determinar as suas origens – uma possível influência de música barroca que não esconde a voz pessoal de um homem que ama o seu país profundamente, que se não envergonha de o confessar e que o faz com delicadeza e força viril. A primeira vez que o ouvi tocar foi em casa de Amália Rodrigues que também nunca o ouvira anteriormente. Ficámos todos desfeitos. Amália chorava e dizia que só lhe apetecia bater-lhe – reacção muito frequente nela quando se sente comovida pelo virtuosismo de alguém; nenhum de nós compreendia porque não era ele mais conhecido, pelo menos em Portugal. (...) Com este primeiro LP, possa a "voz" de Carlos Paredes ir longe, bem longe, pois ele canta Portugal com sinceridade absoluta, sem peias, com amor e compreensão que dele fazem um grande e raro artista onde a mediocridade não encontra abrigo».
Do álbum serão retirados, no ano seguinte, três EP: "Romance n.º 2", "Fantasia" e "Porto Santo". Ainda em 1967, ao lado de João Figueiredo Gomes (viola), acompanha à guitarra o cantor Luiz Goes, em três temas do LP "Coimbra de Ontem e de Hoje": "No Calvário" (Fausto José / José Paes de Almeida e Silva), "Canção da Infância" (Armando Goes) e "Balada do Mar" (Luiz Goes).
Em 1969, participa como acompanhador à guitarra e à viola num álbum que em Ary dos Santos diz poemas dele próprio, de D. Dinis, de Camões, entre outros.
Em Outubro de 1970, Carlos Paredes participa como produtor, director musical e acompanhador no LP "Meu País", da cantora Cecília de Melo, sua companheira durante alguns anos, e de quem é o único registo conhecido. O álbum, gravado nos Estúdios de Paço d'Arcos por Hugo Ribeiro e editado pela Decca, é constituído por seis peças tradicionais arranjadas por Paredes e seis melodias originais do guitarrista sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. Uma delas, "O Render dos Heróis", fora escrita para a encenação da peça homónima de José Cardoso Pires.
Em 1971, compõe a música para a peça de Augustin Cuzzani, "O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer", levada à cena pelo Grupo de Teatro de Campolide, e fica igualmente responsável pela escolha da música para as produções do grupo, até 1977.
Em Agosto de 1971, Carlos Paredes grava o seu segundo LP, "Movimento Perpétuo", para a Valentim de Carvalho, com o técnico de som Hugo Ribeiro. Conta com as participações musicais de Fernando Alvim no acompanhamento à viola e de Tiago Velez em flauta (nas duas composições do filme "Mudar de Vida" – tema e música de fundo). Deste magnífico álbum, lançado em Novembro de 1971, fazem ainda parte peças tão sublimes como "Danças Portuguesas n.º 2", "Variações Sob Uma Dança Popular", "António Marinheiro", "Canção" e "Valsa", esta da autoria do seu avô Gonçalo. Diz o próprio Carlos Paredes: «Meu avô, Gonçalo Paredes, é, pode dizer-se, um representante dessa tradição (iniciada por António da Silva Leite, nos fins do século XVIII). A segunda parte da sua valsa, incluída neste disco, foi-lhe acrescentada por meu pai, Artur Paredes, o original renovador da chamada guitarra de Coimbra. São, aliás, influências de ambos, de mistura com propensão pessoal para o virtuosismo e o melodismo de sugestão violinística, que marcam as minhas mais antigas realizações: "Movimento Perpétuo", "Variações em Mi Menor", "Variações em Ré Menor" e "Danças Portuguesas"».
Em Dezembro de 1971, será também editado o single "Balada de Coimbra", com os temas "Balada de Coimbra" (José Eliseu, arr. de Artur Paredes) e "O Fantoche" (Carlos Paredes) gravados nas sessões de "Movimento Perpétuo", mas não incluídos no álbum. Deste, no ano seguinte, são retirados três EP: "Movimento Perpétuo", "Mudar de Vida" e "António Marinheiro".
Em Abril de 1973, Carlos Paredes entra novamente em estúdio para gravar o seu terceiro LP para a Valentim de Carvalho, mas as gravações são interrompidas devido à lendária relutância do músico em estar fechado num estúdio e à sua conhecida auto-exigência de perfeccionista, ficando no entanto terminadas algumas músicas. É o próprio músico que confessa: «A dar espectáculos nunca me tenho recusado, mas gravar... Tenho tendência para pensar que daqui a 3 meses toco melhor do que hoje.» Hugo Ribeiro conta: «Quando entrávamos para estúdio, o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar! "Vamos ver, se calhar, talvez…", dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora, e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: "Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!" Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal».
Após o 25 de Abril de 1974, quando se dá a libertação dos presos políticos, muitos deles são tratados como heróis nacionais. No entanto, Carlos Paredes recusa esse estatuto. Sobre o tempo em que esteve preso nunca gostou muito de falar. Dizia: «há pessoas que sofreram mais do que eu!». É reintegrado no quadro do Hospital de São José (onde permanecerá até à aposentação, em Novembro de 1986), com as funções de arquivista de radiografias, vindo depois a ser promovido a chefe de secção. Uma das colegas de trabalho, Rosa Semião, recorda-se da mágoa que o guitarrista sentia devido à denúncia de que fora alvo: «Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com o homem que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!». Percorre o país, actuando em sessões culturais, musicais e políticas em simultâneo, mantendo sempre uma postura de grande simplicidade e humildade. Comenta Octávio Fonseca Silva: «Por estranho que pareça, até 1984 não realizou um único concerto em Portugal sob a sua exclusiva responsabilidade. Parece algo anedótico mas, para ser devidamente reconhecido no seu país teve de dar provas do seu talento no Olympia de Paris, na Ópera de Sydney, na Exposição Mundial de Osaka e em tantas outras grandes salas do mundo». Carlos Paredes, mais tarde, dirá: «Para se fazer música com prazer tem muita importância a amizade entre as pessoas. Não se pode fazer música friamente e com cálculo, profissionalmente, no mau sentido da palavra, a receber xis à hora. Não pode ser assim». (Se7e, 16.03.1988). Quando o criticavam, por ir para o emprego de autocarro e de Metro, dizia: «Não percebem que se eu não andasse em contacto com as pessoas não fazia as músicas que faço.» Em 1990, acrescentará: «As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e elas aderem. Não há mais nada.» E confessa: «Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra, mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas.» (Público, 20.3.1990).
Em Julho de 1974, Carlos Paredes participa, como acompanhador (guitarra portuguesa, viola de fabrico popular e citolão - uma guitarra portuguesa modificada para abranger simultaneamente as escalas da guitarra portuguesa e da guitarra clássica), no álbum "É Preciso Um País", onde o poeta Manuel Alegre diz poemas de sua autoria. Em 1975, Carlos Paredes colabora também com Adriano Correia de Oliveira no álbum "Que Nunca Mais": a marca inconfundível da sua guitarra está bem patente nos temas "Tejo Que Levas as Águas" e "Recado a Helena".
No mesmo ano, retoma as sessões de gravação para a Valentim de Carvalho interrompidas dois anos antes, mas durante o pouco tempo que está em estúdio apenas regrava algum do material já terminado. O disco ficará de novo por acabar.
Em 1977, uma compilação de Carlos Paredes, intitulada "Meister der Portugiesischen Gitarre", é publicada na então na Alemanha de Leste, pela editora Amiga.
Em 7 de Maio de 1980, estreia-se no Bobino em Paris, acompanhado por Fernando Alvim, na primeira parte de Paco Ibañez, actuação que se prolongará por três semanas. Nesse ano, Carlos Paredes regrava na RDA, com acompanhamento de Carlos Alberto Moniz à viola, o material já gravado em 1973 para a Valentim de Carvalho num álbum intitulado "O Oiro e o Trigo". A edição é feita sem o conhecimento da Valentim de Carvalho, o que leva à ruptura da editora com o artista.
Em 1982, o bailarino Vasco Wellenkamp coreografa música de Carlos Paredes no bailado "Danças para Uma Guitarra". O guitarrista toca ao vivo no palco do Ballet Gulbenkian e parte com ele em digressões pelo mundo. Apaixona-se pela dança: «Já não vou conseguir pensar na música da mesma maneira; a música não está apenas na pauta e nos nossos dedos», diz Paredes a Alice Vieira. «Os bailarinos respiram a música que se toca. Às vezes penso neles como instrumentos de alta precisão.»
Em 1983, é publicado o álbum "Concerto em Frankfurt", gravado ao vivo na Ópera daquela cidade alemã, constituído por bastante material nunca editado em disco (incluindo os seis temas completos nas gravações de estúdio de 1973, se bem que renomeados e com algumas alterações na estrutura). Trata-se de um dos raros registos em palco da carreira do guitarrista e foi gravado sem o conhecimento do músico. Em entrevistas posteriores, o próprio Paredes confessaria que tal decisão acabou por ser pelo melhor – o nervosismo de saber que estava a ser gravado poderia ter afectado a sua performance. É o primeiro disco de Carlos Paredes para a PolyGram, editora com a qual assinou contrato depois da sua saída da Valentim de Carvalho. A edição de "Concerto em Frankfurt" acaba por inviabilizar a edição projectada, pela EMI-Valentim de Carvalho, de "A Montanha e a Planície", um álbum que deveria disponibilizar alguns dos temas que Carlos Paredes gravara em 1973, mas que surgem entretanto registados ao vivo. Em substituição, são reeditados, em duplo-álbum, "Guitarra Portuguesa" e "Movimento Perpétuo", pouco antes do Natal. Ainda em 1983, Carlos Paredes participa no álbum de Carlos do Carmo, "Um Homem no País", compondo e acompanhando à guitarra o "Fado Moliceiro" (poema de Ary dos Santos).
Em Outubro de 1986, é editado pela Polygram, o LP "Invenções Livres", um álbum de improvisações em duo com o pianista António Victorino d'Almeida, gravado por José Manuel Fortes. O encontro entre a guitarra de Paredes e o piano de Victorino d'Almeida resulta num trabalho brilhante e surpreendente, que obtém a aclamação da crítica. O pianista explica: «Carlos Paredes e eu não nos sujeitámos a qualquer espécie de esquema harmónico, rítmico ou formal previamente estabelecido, mas a ideia condutora das "invenções" que – em total liberdade – produzimos, consubstancia-se no diálogo, na atenção, na busca conjunta de uma verdade musical capaz de sobrepor à mera exploração das vozes dos instrumentos ou à originalidade da sua fusão. Pretendemos fazer música, encarando-a como linguagem transmissora de ideias e não como álibi para malabarismos de viciado individualismo».
Em Fevereiro de 1988, sai, pela PolyGram, o álbum "Espelho de Sons", gravado no ano anterior por José Manuel Fortes, e com produção de Tozé Brito, tendo o acompanhamento sido repartido entre Luísa Maria Amaro (viola de cordas de nylon) e Fernando Alvim (viola de cordas de metal). Agrupando as músicas por séries temáticas (Coimbra e o Mondego / Os Amadores / A Canção / O Teatro / Lisboa e o Tejo / A Dança / A Mãe e o Lar / Contrates), Carlos Paredes reutiliza muito do material gravado no "Concerto de Frankfurt" e mesmo composições mais antigas. É o caso de: "Serenata" surgida no primeiro EP a solo (1962), “Verdes Anos” (1963 e 1966), “O Fantoche” (1971) e "Canção de Alcipe", tema alusivo à Marquesa de Alorna criado por Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues para a banda sonora do filme "Bocage" (1936), de Leitão de Barros, que fora originalmente gravado em 1971 mas só editado em 1996 (no CD “Na Corrente”). O álbum entra directamente para o 3.º lugar do top oficial de vendas e virá a ser premiado com um Se7e de Ouro (atribuído pelo Jornal Se7e), na categoria de música popular/tradicional. Em Setembro, uma nova compilação de material inédito de Carlos Paredes é cancelada pela EMI-Valentim de Carvalho. O álbum deveria chamar-se "Salvados", título sugerido pelo próprio Carlos Paredes para reflectir o facto de as gravações serem 'restos' de sessões de estúdio, e também jogando com a sua condição de 'sobreviventes' do incêndio do Chiado que, em 25 de Agosto, destruíra parte dos arquivos da Valentim de Carvalho na Rua Nova do Almada.
Em 1989, o tema "Dança" (do álbum "Guitarra Portuguesa") é escolhido por Paul McCartney para música ambiente da sua digressão mundial.
Ainda em 1989, sai um novo disco de Carlos Paredes, com o título "Asas Sobre o Mundo", em edição especialmente concebida para a TAP Air Portugal (terá lançamento comercial em 1991). O disco é constituído com o material de "Espelho de Sons" e inclui ainda dois temas inéditos, dedicados pelo autor à transportadora aérea portuguesa – "Asas Sobre o Mundo" e "Nas Asas da Saudade".
Em Janeiro de 1990, retomando o conceito de improvisações em dueto, Carlos Paredes grava com o contrabaixista de jazz Charlie Haden, o álbum "Dialogues", para a Polydor. O disco, gravado em Paris, tem a marca de génio de dois grandes músicos mas o diálogo entre os instrumentos é algo desanimador, sobretudo quando comparado com o resultado alcançado em "Invenções Livres". Em 26 de Maio, os músicos voltam a encontrar-se, em concerto no Coliseu de Lisboa, pretexto que a RTP aproveita para a realização de um documentário.
No mês de Dezembro seguinte, Carlos Paredes assina contrato com a EMI-Valentim de Carvalho, regressando à casa onde gravara os seus momentos mais emblemáticos. Inicia, pouco depois, as gravações de material original para um novo álbum, mas as sessões serão suspensas devido à doença, do foro neurológico, que acometerá o guitarrista. Em 30 de Abril de 1991, Carlos Paredes e Luísa Amaro, sua acompanhadora à viola e companheira na vida (desde 1984), participam como convidados especiais no concerto dos Madredeus no Coliseu de Lisboa, de que resultará o duplo CD "Lisboa", editado em 1992. Para a ocasião, Pedro Ayres Magalhães escreveu uma letra inédita para a música de Paredes "Canto de Embalar". Em palco, Carlos Paredes interpretou "Mudar de Vida" e acompanhou o grupo, primeiro, na sua versão de "Canto de Embalar" e, depois, no original dos Madredeus "O Navio".
Em 20 e 21 de Março de 1992, Carlos Paredes regressa aos palcos, em dois concertos no Teatro de São Luiz filmados pela RTP em alta definição. Nos espectáculos, nos quais são estreados quatro novos temas compostos para o novo álbum, Paredes é acompanhado à viola por Luísa Amaro e Fernando Alvim, e participam como convidados Manuel Paulo, Natália Casanova e Nuno Guerreiro em "Cantiga do Maio" (de José Afonso), Mário Laginha em "Porto Santo", Rui Veloso em "Porto Sentido" e o flautista Paulo Curado em "Mudar de Vida". Os concertos serão repetidos a 25 no Teatro Rivoli, no Porto.
A EMI-Valentim de Carvalho reedita em CD uma compilação temática (originalmente editada em 1973) reunindo temas de Carlos Paredes, José Afonso e Luiz Goes. Os temas de Carlos Paredes foram extraídos do seu primeiro álbum, "Guitarra Portuguesa", e são: "Variações em Ré Maior", "Divertimento", "Canção Verdes Anos", "Melodia nº2" e "Fantasia".
Em Dezembro de 1993, é diagnosticada a Carlos Paredes uma mielopatia (hérnias na medula) que lhe prende os movimentos, impossibilitando-o de manejar a guitarra. Fica internado no Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Campo de Ourique, Lisboa. Tinha agendado encontros com o Kronos Concert, com Ravi Shankar e até com Astor Piazzola. «Acho que adoeceu na altura errada», lamenta Luísa Amaro.
Em 1994, Carlos Paredes é distinguido com o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Em Dezembro de 1996, a EMI-VC publica "Na Corrente", compilação que reúne todo o material inédito que Carlos Paredes gravara para a Valentim de Carvalho até 1980, ano em que saiu da editora: os seis temas que haviam ficado completos nas sessões de gravação de 1973 ("A Montanha e a Planície", "Dança dos Montanheses", "Dança dos Camponeses", "Os Senhores da Terra", "Em Memória de Uma Camponesa Assassinada" e "Sede e Morte"), os dois temas do single "Balada de Coimbra / O Fantoche", publicado em 1971 e nunca incluídos em LP, e duas gravações inéditas, "Canção de Alcipe" e "Na Corrente", esta última o único registo em que Carlos Paredes tocou viola a solo. O álbum atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns, da Associação Fonográfica Portuguesa. Ao ouvir os belos temas que constituem este disco, uma interrogação me interpela: quantas composições geniais se terão perdido (ou que não chegaram a nascer, para ser mais preciso), quando Carlos Paredes, no auge das suas faculdades criativas, ocupava muito do seu tempo a desempenhar banais funções administrativas num hospital e a fazer inúmeras actuações no país e no estrangeiro? É caso para dizer que ganharam aqueles que tiveram o privilégio de o ouvir ao vivo, mas ficou a perder a posteridade que só pode fruir da sua arte graças às gravações.
Em Março de 2000, é editada pela Mundo da Canção, uma biografia intitulada "Carlos Paredes: A Guitarra de um Povo", da autoria do crítico musical Octávio Fonseca Silva, com a colaboração fotográfica de Luís Paulo Moura. O livro inclui ainda textos de vários especialistas, o pensamento musical de Paredes, além de um dossier documental com artigos sobre o músico e partituras manuscritas.
Em Dezembro de 2000, é lançado o seu derradeiro trabalho de inéditos, de título genérico "Canção Para Titi", com nove composições, entre as quais figuram "Uma Canção Para Minha Mãe", "Canção Para Titi", "Mar Goês", "Arcos de Jardim" e "Arco de Almedina". O material fora gravado em 1993, quando o músico já se sentia afectado pela doença. Diz o musicólogo Rui Vieira Nery, consultor da edição: «Da experiência da audição concentrada e seguida de todo o material disponível, dos takes interrompidos às sucessivas versões integrais de cada peça, depressa me ficou, contudo, uma sensação de enorme felicidade. Apesar da luta desesperada evidente que Carlos Paredes travava consigo próprio naquelas sessões de 1993 e das limitações técnicas incontornáveis a que a doença já então o submetia, a sua Música impunha-se com uma força verdadeiramente mágica logo a partir dos primeiros compassos – pujante de inspiração e de rasgo, deslumbrante no seu lirismo inconfundível. Lá estava aquele impulso rítmico único, partindo das anacrusas iniciais suspensas no tempo para depois se despenharem no seu tempo forte de resolução e lançarem a partir daí frases longas e ondulantes, sempre ao sabor de uma dicção musical perfeita. Lá estavam aquelas tonalidades menores carregadas de melancolia, salpicadas aqui e além de traços modais e de passagens cromáticas que tornavam o desenrolar da melodia num mistério sempre imprevisível. Lá estava, mesmo que agora por vezes transformado num grito de pássaro ferido, aquele som intenso, vibrado, plangente, e lá estava até, aqui e além, ainda que dramatizado pelo esforço transparecente, um virtuosismo ocasional ainda surpreendente na sua musicalidade inteligente. (...) É de sublinhar muito em particular a maneira como esta Música, privada de um virtuosismo que pudesse valer por si para lá de qualquer outra lógica de construção musical, se depura de tudo o que não é essencial para assentar apenas numa inspiração concentrada onde nada é acessório. E chama-nos também a atenção o modo como Paredes parece regressar aqui a um universo que é o das suas reminiscências de infância, evocando as figuras tutelares da Mãe e da Tia, os espaços familiares da Coimbra da sua meninice, e mesmo, de alguma forma, os sons tradicionais das baladas de Artur e Gonçalo Paredes, seu Pai e seu Avô, tudo isto com um olhar melancólico mas cheio de serenidade que nem a tensão dolorosa que marca alguns momentos da sua execução consegue perturbar. Por tudo isto seria imperdoável que o que constitui verdadeiramente o testamento musical de Carlos Paredes não saísse a público, como documento artístico e humano de uma força emocional rara, para nos dar esta visão final que fecha o círculo de um meio século de carreira. Uma carreira que nos ajudou como poucas neste século a reencontrarmo-nos connosco próprios e com a nossa identidade de portugueses.»
Em Fevereiro de 2003, assinalando os 10 anos sobre o retiro forçado de Carlos Paredes, a EMI-VC lança a sua obra completa sob o título "O Mundo Segundo Carlos Paredes", numa caixa com 8 CD, acompanhada de uma biografia. Além dos temas a solo e das improvisações em dueto, a edição contém também o repertório de outros intérpretes em que Carlos Paredes participou como instrumentista – Augusto Camacho Vieira, Luiz Goes, Ary dos Santos, Cecília de Melo, Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo e Madredeus.
Em Junho de 2003, é lançado pela Universal um disco de homenagem intitulado "Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes", projecto que conta com a participação de nomes tão diferentes como António Pinho Vargas, Gabriel Gomes, Rodrigo Leão, Ricardo Rocha, Mísia, Ana Sofia Varela, José Eduardo Rocha, Carlos Bica, Mário Laginha, Maria João, Gaiteiros de Lisboa, Dead Combo, Sam The Kid, entre outros. A guitarra portuguesa chega assim, e de uma só vez, aos universos do jazz, do fado, da música tradicional, da electrónica e do 'hip hop', dando continuidade a uma preocupação que Carlos Paredes sempre teve presente enquanto músico – a transposição de barreiras invisíveis. Ainda em matéria de tributos, merecem referência o músico Pedro Jóia que em Fevereiro de 2001 gravou, para a Farol Música, o CD "Variações Sobre Carlos Paredes" com versões em guitarra clássica de nove temas do compositor de "Verdes Anos", e a fadista Mísia com o álbum "Canto" (Warner Jazz France, 2003) composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes, quase todas pelo poeta Vasco Graça Moura.
Carlos Paredes vem a falecer em Lisboa, a 23 de Julho de 2004, aos 79 anos de idade. O Governo decreta um dia de luto nacional. «Portugal teve no Carlos Paredes a genialidade, sensibilidade, poder de composição, uma belíssima técnica, e interpretação. Ele cumpriu os pontos que tinha a cumprir nesta passagem pela Terra», disse Luísa Amaro. E acrescentou: «Era um homem muito bom e muito simples, que deu uma contribuição muito grande para a cultura portuguesa». O cantor Luís Cília, que acompanhou Carlos Paredes como amigo e como profissional em vários recitais, faz votos de que «a guitarra do Paredes fique e seja para sempre lembrada». «Conheci o Paredes quando cheguei de Paris e uma das coisas que me chocou foi que um homem com o seu génio não vivesse da sua arte», acrescentou Luís Cília à agência Lusa, lamentado que, em Portugal, artistas como Carlos Paredes «não vivam no paraíso que os merece».
Em 2006, o cineasta Edgar Pêra realiza o documentário "Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes", editado em DVD.
«A música que faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em que eu vivo, e passará a ser encarada de outra forma quando essas circunstâncias desaparecerem. É uma coisa que, se perdurar graças aos discos, ficará apenas com o valor de documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel Freire. E já ficarei muito orgulhoso se, daqui a muitos anos, puder ser entendido como um compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época...» (Se7e, 5.10.1983). Na verdade, a música de Carlos Paredes, como acontece com toda a grande arte, tem na sua essência a marca da intemporalidade (como disse Alain Oulman) e ficará como um dos mais autênticos testemunhos musicais da portugalidade, a par dos mais sublimes fados de Amália Rodrigues.


Discografia:

- Fado de Coimbra (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1958) (com Augusto Camacho Vieira)
- Carlos Paredes (EP, Alvorada, 1962)
- Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos (EP, Alvorada, 1964)
- Guitarra Portuguesa (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1967, 1983; CD, EMI-VC, 1987, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Romance n.º 2 (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Fantasia (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Porto Santo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Espiral Op. 70 (LP, Espiral/Decca, 1969) (com Ary dos Santos)
- Meu País (LP, Decca, 1970) (com Cecília de Melo)
- Movimento Perpétuo (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971, 1983; CD, EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Balada de Coimbra / O Fantoche (single, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971)
- Movimento Perpétuo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Mudar de Vida (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- António Marinheiro (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Carlos Paredes / Artur Paredes (LP, Alvorada, 1972) (seis temas de Carlos Paredes, na face A + seis temas de Artur Paredes, na face B)
- Carlos Paredes / José Afonso / Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992, "Encontros Em Coimbra", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) (compilação colectiva)
- É Preciso Um País (LP, col. A Voz e o Texto, Decca/Valentim de Carvalho, 1974; CD, EMI-VC, 1994) (com Manuel Alegre)
- Meister der Portugiesischen Gitarre (LP, Amiga/RDA, 1977) (compilação)
- O Oiro e o Trigo (LP, Amiga/RDA, 1980)
- Concerto em Frankfurt (LP, Philips/PolyGram, 1983; CD, Philips/PolyGram, 1990)
- Invenções Livres (LP, Philips/PolyGram, 1986; CD, Philips/PolyGram, 1994) (com António Victorino d'Almeida)
- Espelho de Sons (LP/CD, Philips/PolyGram, 1988)
- Asas Sobre o Mundo (CD, Philips/PolyGram, 1989; LP, Philips/PolyGram, 1990)
- Dialogues (LP/CD, Polydor, 1990) (com Charlie Haden)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36 (CD, Movieplay, 1994) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs a solo de Carlos Paredes e de um EP de Artur Paredes, editado em 1957)
- Na Corrente (CD, EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra (CD, EMI-VC, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) (compilação)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. Clássicos da Renascença, vol. 72 (CD, Movieplay, 2000) (mesmo conteúdo do CD da col. O Melhor dos Melhores)
- Canção Para Titi - Os Inéditos de 1993 (CD, EMI-VC, 2000)
- Uma Guitarra com Gente Dentro: Antologia (CD, Universal, 2002) (compilação)
- Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963 (CD, Movieplay, 2003) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs em nome próprio, editados pela Alvorada)
- O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993 (Livro/8CD, EMI-VC, 2003)
1. Despertar
2. Na Corrente
3. Danças
4. As Mãos
5. Improvisos
6. Asas
7. Diálogos
8. Memórias
- Uma Guitarra Portuguesa (DVD, RTP/Immortal, 2006) (gravado no São Luiz, em 1992)
- Antologia 62/89 (2CD, Universal, 2007)
- A Voz da Guitarra (2CD, Universal, 2010) (compilação)

[acrescentada em 23-Jul-2014]


Fontes:
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Literatura inclusa na discografia de Carlos Paredes
- Página http://puxapalavrainextenso.blogspot.com/2004/07/carlos-paredes-morreu-biografia-e.html



Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)

- A Montanha e a Planície (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente")
- Acção (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- António Marinheiro (in "Movimento Perpétuo")
- Balada de Coimbra (in "Na Corrente")
- Canção de Alcipe (in "Na Corrente")
- Canção Verdes Anos (in "Guitarra Portuguesa")
- Canto de Embalar (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto de Rua (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Amanhecer (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Rio (in "Concerto em Frankfurt")
- Dança (in "Guitarra Portuguesa")
- Dança dos Camponeses (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente" / "Asas Sobre o Mundo")
- Dança dos Montanheses (in "Na Corrente")
- Dança Palaciana (in "Concerto em Frankfurt")
- Danças Portuguesas n.º 1 (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Danças Portuguesas n.º 2 (in "Movimento Perpétuo")
- Em Memória de Uma Camponesa Assassinada (in "Na Corrente")
- Fado Moliceiro (in "Asas Sobre o Mundo")
- In Memoriam (in "Concerto em Frankfurt")
- Melodia n.º 2 (in "Guitarra Portuguesa")
- Mudar de Vida - tema (in "Movimento Perpétuo")
- Mudar de Vida - música de fundo (in "Movimento Perpétuo")
- Nas Asas da Saudade (in "Asas Sobre o Mundo")
- O Fantoche (in "Na Corrente")
- Os Senhores da Terra (in "Na Corrente")
- Sede (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Sede e Morte (in "Na Corrente")
- Serenata (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Serenata no Tejo (in "Asas Sobre o Mundo")
- Valsa (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sob Uma Dança Popular (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sobre o Mondego (in "Asas Sobre o Mundo")
- Variações sobre o Mondego n.º 1 (in "Asas Sobre o Mundo")
- Verdes Anos (in "Asas Sobre o Mundo")



Canção Verdes Anos



Música e guitarra portuguesa: Carlos Paredes
Viola: Fernando Alvim


(instrumental)


(in "Guitarra Portuguesa", 1967)

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Outros artistas desta galeria:
Adriano Correia de Oliveira
Janita Salomé
José Afonso
Luiz Goes
Pedro Barroso


Retirado daqui: http://nossaradio.blogspot.com/2007/04/galeria-da-msica-portuguesa-carlos.html