Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.
Joaquim Pessoa
Sunday, January 31, 2021
Os Amantes com Casa
Saturday, January 23, 2021
Wednesday, January 20, 2021
POSTAL DO DIA
Carta ao “meu” avô Jerónimo
1.
Caro Jerónimo
Escrevo-lhe esta carta para lhe dizer que seria uma honra poder chamar-lhe pai ou avô.
Uma honra poder dizer ao mundo que o meu sangue era o seu. Que dentro de mim existia alguma coisa de si.
Talvez a coragem.
Talvez a capacidade de sorrir com a bondade dos seus olhos.
Talvez a força das suas mãos de operário.
Talvez o modo como faz acreditar os outros, como se empenha, como se atravessa contra as injustiças.
2.
Não era preciso escrever esta carta.
O que aconteceu, o que foi dito naquele debate por aquela gente que se alimenta do ódio e do ressentimento, por aquele homem ignóbil, acredito que não o influenciou em nada – como poderia?
Ainda assim, Jerónimo…
Como lhe dizer?
Entristeceu-me ouvir.
Fiquei com vergonha por eles. Pelos que aplaudem, pelos urros animalescos, por todo aquele circo.
Não tinha de me dar ao trabalho pois sei que não vale a pena. Mesmo assim quero contar-lhe do orgulho de o ter conhecido.
Do orgulho por perceber que o modo como abraça é genuíno. Ou o modo como abraça sem abraçar. Ou a forma como consegue ouvir os que não pensam como o senhor ou o partido, pela capacidade de fazer pontes sem nunca perder a face, pela tranquilidade com que continua na primeira linha entre os que combatem pelo bem dos mais pobres, dos mais explorados, dos excluídos.
3.
Jerónimo
Nada me faria melhor do que poder dizer ao mundo que no meu Cartão de Cidadão estava o seu apelido.
A sua força.
O seu sofrimento.
Não por não ter orgulho nos meus, mas pela oportunidade de pertença a uma casta do que não torcem.
Com um bocadinho de queijo e um bocadinho de vinho deixaríamos a conversa correr. As minhas perguntas e as suas respostas.
Por isso, os insultos que lhe fizeram naquele comício de extrema-direita, o que aquele canalha disse de si, só fortaleceu a convicção de que vale a pena o combate por uma ideia de bem e de decência.
Jerónimo, um abraço.
Encontramo-nos brevemente.
LO
Monday, January 18, 2021
TOMAR PARTIDO
Tomar partido é irmos à raiz
do campo aceso da fraternidade
pois a razão dos pobres não se diz
mas conquista-se a golpes de vontade.
Cantaremos a força de um país
que pode ser a pátria da verdade
e a palavra mais alta que se diz
é a linda palavra liberdade.
Tomar partido é sermos como somos
é tirarmos de tudo quanto fomos
um exemplo um pássaro uma flor.
Tomar partido é ter inteligência
é sabermos em alma e consciência
que o Partido que temos é melhor.
Ary dos Santos
Sunday, January 03, 2021
Reflexão ou desabafo
Existe uma geração de analfabetos políticos. Jovens que, por uma razão ou outra, me dizem que nunca leram nenhum livro, que não gostam de ler. E, no entanto, VOTAM! Não sabem muito bem em quem, nem porquê, mas vão lá pôr o papelinho.
Pior do que isto é que os pais de alguns destes jovens (que têm idade para serem meus netos) também são analfabetos políticos. Não lêem, não sabem o que se passa no Mundo porque na tv só vêem novelas e quando chega a hora do telejornal mudam para um canal de música. Vejo disto há mais de 20 anos. É a geração que cresceu a ver o big brother. Pior ainda é que alguns pais são professores. E eu pergunto que tipo de formação é que um professor ignorante político pode dar aos seus alunos....
Ouvi um dia destes alguém dizer que os partidos políticos não fazem falta. Que seria tudo mais tranquilo (leia-se, não havia tantas discussões) se não houvesse partidos. Fiquei pálida. Mas não fiquei calada.
Não sei o que é que esta gente pensa que é a democracia. Mas foi esta geração que nós criámos, a seguir ao 25 de Abril. Pergunto-me onde é que errámos.
Esta gente, estes de quem falo e poderiam ser meus filhos e netos, são permeáveis às correntes de opinião que estão na moda. Porque nós, os velhos, somos descartáveis nas ideias. Não que eles as conheçam, mas apenas porque ouvem dizer.
O fascismo está aí, à vista de todos, menos deles. E de outros, que desvalorizam o que nos entra casa adentro.
Talvez estas minhas preocupações sejam apenas minhas e eu esteja a ver um filme de terror. Mas as personagens existem, e VOTAM!
Tenho um nó no peito e não sei como o desfazer...
Aproveitem o sol e vão até à janela ou varanda olhar o horizonte. Enquanto é dia...
Tenham a tarde possível.
Thursday, December 24, 2020
Natal à beira-rio
É o braço do abeto a bater na vidraça!
É o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia!
David Mourão-Ferreira
Cancioneiro de Natal (1971)
Saturday, December 19, 2020
A José Dias Coelho
Seja minha a tua força, irmão
seja meu o teu braço, camarada
Sejam estes muros não um paredão
sejam uma ponte ou mesmo uma estrada.
Seja nela meu o teu anseio, irmão
seja minha a luta que na tua terra travas
seja ela o fruto das coisas que amavas.
Sejam essas coisas, as mesmas, irmão
sejam as que amo aqui nesta cela
seja para sempre a minha na tua mão
seja para todos uma vida bela
seja nela o trigo com a sua cor dourada
sejam as papoilas vermelhas de querer
seja sempre o dia que sucede à madrugada
seja outro o sentido da palavra morrer.
Sejam os mortos aqui ao nosso lado
sejam os seus também os nossos passos
seja em luta o ódio acumulado
sejam retesados nossos membros lassos.
Sejam as colinas de vontade erguidas
seja a sua força a que do amado vem
sejam nossas as tuas palavras queridas
seja minha a tua vontade também.
E não há muros, bombas ou insultos
que detenham as árvores ao nascer da terra
nem façam brotar flores de pensamentos estultos
nem parar o sol. E não será a guerra
com que os lobos sonham em noites de orgia
que impedirão que nasçam.
Das auroras por nascer
das estruturas por erguer
dos caminhos por andar
das flores por brotar
estendem-se as mãos do futuro
que envolvem teu corpo de bandeira.
Alda Nogueira,
(Prisão de Caxias, 1963)
OS MENINOS NASCEM
Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera
sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis,
Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas
para Buchenwald,
inutilmente o fareis:
Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga de sua mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.
Papiniano Carlos
Monday, December 07, 2020
Auto-Retrato
Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.
Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.
Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.
Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.
Ary dos Santos
Monday, November 23, 2020
O Congresso do PCP
Estamos a três dias do início do Congresso do meu Partido.
Será o culminar de muitos meses de trabalho que se iniciou, numa primeira fase, em Março, logo após a reunião do CC e que, partindo dos tópicos identificados na Resolução do Comité Central, teve o envolvimento de todas as organizações e militantes do Partido a contribuírem, com a sua opinião, sugestões e propostas, para a elaboração do projecto de Teses.
Na segunda fase, que decorreu até final de Agosto, foram elaboradas as Teses - Projecto de Resolução Política, que teve em conta o debate e as contribuições recolhidas na primeira fase.
Entre Setembro e Novembro, período a que chamamos a terceira fase de preparação do Congresso, as organizações e militantes do Partido discutiram os documentos a apresentar ao Congresso, propuseram alterações e adendas, e elegeram os Delegados de cada organização, a par da elaboração da lista para o novo Comité Central a ser eleito no Congresso.
Quase nove meses de trabalho. O tempo de uma gestação de um ser humano.
Faltam três dias para o início do Congresso do meu Partido. Serão três os dias de trabalho, que sei será intenso, tanto dos delegados como de todos os militantes que estarão no apoio.
Em tempo de pandemia e por muito que custe a muitos e à Comunicação Social, os comunistas vão reunir-se em Congresso cumprindo todas as medidas de segurança recomendadas pela DGS. E porque somos responsáveis, adaptamo-nos sempre a novas situações, como foi na Festa do Avante e como será no próximo fim de semana, com metade dos delegados e sem convidados. Acompanharei os trabalhos do Congresso do meu Partido pela net.
Faltam três dias para o nosso XXI Congresso. Sonhamos!
Sunday, November 22, 2020
Discurso do filho da puta
I
um pequeno filho da puta;
mas não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da puta.
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da puta.
de resto,
os filhos da puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o pequeno filho da puta.
filho da puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da puta.
o pequeno filho da puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho da puta.
todos os grandes
filhos da puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
pequeno filho da puta
estão em ideia
todos os grandes filhos da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da puta.
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
de resto,
o pequeno filho da puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho da puta:
o pequeno filho da puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da puta.
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da puta,
e não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
há filhos da puta
que já nascem grandes
e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho da puta.
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da puta.
o grande filho da puta
tem orgulho em ser
o grande filho da puta.
os pequenos filhos da puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
dentro do
grande filho da puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da puta,
diz o
grande filho da puta.
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da puta,
diz
o grande filho da puta.
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da puta.
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da puta,
diz o
grande filho da puta.
de resto,
o grande filho da puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da puta:
o grande filho da puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da puta.
Monday, November 02, 2020
Devia morrer-se de outra maneira
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas.
Traje de passeio."
E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…depois os cabelos…)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo…
tão leve…tão subtil…tão pólen…
como aquela nuvem além (veem?) - nesta tarde de Outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…
José Gomes Ferreira
Friday, October 30, 2020
Sentado sobre los muertos
Sentado sobre los muertos
que se han callado en dos meses,
beso zapatos vacíos
y empuño rabiosamente
la mano del corazón
y el alma que lo mantiene.
Que mi voz suba a los montes
y baje a la tierra y truene,
eso pide mi garganta
desde ahora y desde siempre.
Miguel Hernandez
Sunday, September 27, 2020
Filho
“Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar
alguém além de nós mesmos, de como mudar os nossos piores defeitos para
darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem.
Isso mesmo!
Ser pai ou mãe é o maior acto de coragem que alguém pode ter, porque é
expor-se a todo o tipo de dor, principalmente da incerteza de estar
agindo correctamente e do medo de perder algo tão amado.
Perder? Como?
Não é nosso, recordam-se?
Foi apenas um empréstimo!"
José Saramago
Wednesday, September 23, 2020
Berna
Para ti
em dia de chumbo
Que felicidade eterna...
na planície enorme onde és
em gamas escarlate e grês
estás com tua meninice terna
Há coisas já passadas mas urgentes
como o teu ventre fofo de flores
e chocolate quente onde cravo os dentes
depois de escolher um amor entre os amores
Que alegres são as nuvens dos teus céus
onde afogo vários vícios meus
e encontro alegria acrescentada
Em ti, cidade plena por distante
acho-me como se fora mero amante
chorando a lonjura da mulher passada.
7/11/87
Wednesday, September 09, 2020
A roda gigante do Avante!
Ainda o sol não deu os bons dias e já uma matilha de esfarrapados se faz à rua. Trabalhadores de fábrica. Trabalhadores de terra. Pelas pedras espreitam papéis. Saíram clandestinamente do ventre das couves. No adro da igreja espreitam papéis. Nos paralelos da calçada espreitam papéis. São amachucados, escondidos em sapatos ou algibeiras. E quando for possível, longe dos olhares dos abutres, grupos de homens e mulheres rodeiam o papel fino tingido a letras de chumbo. Quem souber juntar letras é o eleito para ler. É necessário aumentos na jorna. Melhores condições na fábrica. Escola para os filhos. Salário igual entre homens e mulheres.
José e os outros descansam os corpos em colchão de palha. Os cães ladram. A porta é arrombada. A polícia de defesa do estado intervém para bem da nação. Aos socos e pontapés, levam José e os outros para as salas bafientas com Salazar e Carmona a olharem. Sorrisos de hiena estampados em molduras pesadas. José e os outros são espancados, torturados. O hálito do agente é ácido. Quem vos mandou fazer os avantes? Foram vocês que montaram a porra da tipografia clandestina? Aquela merda veio de Moscovo? Quem são os vossos chefes? Quem colocou a merda dos avantes na aldeia? Filhos de uma cabra. Comunas de merda. Não vão ficar cá para contar a história. José e os outros não abriram a boca. Cada soco, cada estalada, cada hora de estátua eram anos de silêncio. Levem os gajos. Só comem daqui a três dias. Odeio comunas.
Pela manhã os avantes estavam novamente na vila. O agente de hálito ácido volta a espancar José e os outros. Se não falam, mato-vos. Silêncio e silêncio. José e os outros foram libertados para sempre. De vez. Em abril.
José e os outros continuam a gostar de laranjeiras. Por vezes ainda lançam a semente à terra. Não perderam o jeito nem o gosto. Muito menos a firmeza. José, os outros e tantos outros, lutaram pela liberdade. Combateram como ninguém a escuridão. O medo. A opressão. Lutaram para chegarmos todos até aqui. Um país livre. Livre como o vento ou como um catavento. Um país também de ingratidão. José e os outros resistiram aos socos e à estátua. À fome e à sede. Ao agente de hálito ácido. Também resistem agora. O hálito anda no ar. Cheira-se. Sente-se. Na conversa de café. No comentador limitado. No líder (adoram esta palavra) bafiento. No truque. Na mentira. Na manipulação. Até no pedido de desculpas. Sente-se o agente de hálito ácido a querer pendurar os sorrisos de hiena.
José e os outros, estão cá para os enfrentar. E há muitas pedras para colocar os papéis. Não julgue o agente de hálito ácido que desta vez será fácil. Talvez até seja impossível, enquanto houver quem teime em lutar.
O agente de hálito ácido é todo ele ódio. Tem sede de vingança. José e os outros, pintam letras às cores na Quinta da Atalaia. Não perderam a firmeza. Lutam novamente contra o medo. Pela liberdade. O agente de hálito ácido semeia calhaus em terra de pandemia.
Conheço o José e os outros. A todos eles, dou um abraço de gratidão maior que o mundo. Muitas vezes a roda da vida leva-nos para encontros e desencontros. Como agora. A Festa do Avante. A Festa que eu sempre frequentei e onde sempre me senti bem. A Festa que não devia acontecer este ano. Estamos desencontrados. Mas os dias vão passando e afinal, os socos, as bofetadas, a estátua, as torturas ainda não acabaram. O agente de hálito ácido ainda grita – morte aos comunas! Não posso esquecer o lado da barricada em que estou. Pela amizade e pela solidariedade com homens e mulheres íntegros, José, os outros e tantos outros, estarei na Quinta da Atalaia. No cimo da roda gigante levantarei o punho, em silêncio, como tu José, contra o medo e pela liberdade.
Liberdade!
Adriano Miranda
amiranda@publico.pt
O Raul este ano teve de ir à festa
Sentado numa cadeira de espuma esventrada, ao som do velho rádio a pilhas que só tosse Antena 2, o camarada aguentava a portaria com a inquebrantável disciplina da canção dos Inti-Illimani: Tun tun, quem é? Uma rosa e um cravo… Abra-se a muralha! Tun tun, quem é? O sabre do coronel.... Feche-se a muralha. E fechava mesmo. Quando era preciso, aquela portaria parecia Espanha em 36: «Não passarão!» Outro exagero, naturalmente, mas quem faz turnos de quatro horas militantes depois de oito horas assalariadas, aguenta-se melhor imaginando estas doces comparações desproporcionadas: «temos cabeça dura, os do corpo de engenheiros!». E a verdade é que a implantação da Festa do Avante! é muito assim como a reconstrução da catedral ardida de São Paulo em Londres: era o ano de 1671 e o arquitecto, de nome Christopher Wren, pergunta a um velho que varria o chão qual era a sua tarefa, ao que cantoneiro responde apocrifamente: «eu faço catedrais». O camarada da portaria, preservemos o seu anonimato, é um construtor de catedrais de tubo à face do sonho, um reconstrutor do mundo ardido, e alto lá, que aquilo com ele parece a ponte dos franceses, «mamita mia, que bem te guardam! Querem passar os fascistas? Não passa ninguém!». Com esse sentido de missão histórica ora se levantava ora se tombava a cancela «boa noite camarada!» como quem cantaria «Se me quiseres escrever, já sabes o meu paradeiro: terceira brigada mista, primeira linha de fogo». Que, por sua vez, é outra forma de dizer que, se fosse preciso, defendia-se aquela entrada com todos os meios disponíveis «mesmo que nos espere a dor e a morte, contra o inimigo nos chama o dever! O bem mais precioso é a liberdade: há que defendê-la com fé e com valor. Para as barricadas!» «Nada podem bombas onde sobra coração», mas nada, mesmo nada, poderia tê-lo preparado para o que aconteceu a seguir.
O camarada da portaria nunca tinha visto nada assim. Viu-o mal dobrou ali a esquina do Lidl: subia sozinho. Vinha tão devagar que houve tempo de pensar serenamente. Talvez seja por isso que os alentejanos são sempre mais calmos que, por exemplo e sem ofensa, os transmontanos, que vendados pelas montanhas, são desde tempos imemoriais mais facilmente surpreendidos pelo invasor. A genética dos povos pedinornitos dispensa esse estado de alerta permanente: ainda vai a centúria em Mérida e já a gente a topou do atalaião com a antecedência de construir albarradas e preparar o cerco.
Bem, mas de nada serviu a calma ao camarada da portaria. Quando o homem finalmente chegou ao portão, o camarada saudou-o como se fosse o Jerónimo em pessoa.
- Boa noite camarada, EP e cartão de serviço.
Sem uma palavra, o homem levantou a cabeça muito devagar. Tinha barba de dias por fazer. Uma grande ferida crostada abaixo do olho e, na cara suja, uns olhos esverdeados e baços, que pareciam de alumínio polido. Do alforge saiu uma EP muito amachucada e quase decapitada pelo domingo mas, ainda assim, válida.
- Precisas do cartão de serviço, camarada.
- O que é isso?
- O cartão de serviço é… é o cartão que têm os camaradas que vêm trabalhar. A festa para os visitantes só abre amanhã.
- Eu sei, camarada.
Tranquilizou-o ouvi-lo dizer assim a palavra camarada: os comunistas, para quem não sabe, reconhecem-se pela forma como só eles pronunciam a palavra camarada.
- Então... e eu venho para trabalhar.
Não tinha máscara. A camisa, ensebada e rasgada no ombro, caia-lhe sobre as calças demasiado largas. O camarada da portaria pensou que podia ser um louco. Não, era provavelmente um indigente.
- Ó camarada, desculpa lá… Isto não é assim. Qual é a tua organização?
- Boa Fé, Évora.
- Então e vieste sozinho?
O homem respirou fundo como se tentasse recompilar vários detalhes de uma resposta complexa.
-Vim. Vim na carreira até Setúbal e depois fui andando, andando…
-Vieste a pé desde Setúbal?
- Vim. - E do bornal mostrou um mapa que de tão dobrado parecia feito de guardanapo. Perdi-me aqui - e apontava toscamente - na Serra da Arrábida porque lá ninguém pára o carro.
O camarada da portaria não acreditava, claro.
- É pá. Grande esticão. Quanto tempo é que demoraste?
- Cinco dias, cinco noites. Fui dormindo onde calhava. Ia comendo e bebendo pelos cafés. E já cá estou. Posso-me sentar?
Está mais que provado que «Quem corre por gosto não cansa» é, entre todos os bordões do almanaque, o mais falso e o mais injusto. Tudo cansa, tudo se desfaz. Até as coisas que amamos, ou não fosse o mundo dialéctico e não estivessem até as pedras em perpétua erosão.
O camarada da portaria foi buscar a cadeira esventrada e disse-lhe para esperar. Marcou a extensão da Comissão de Campo, explicou a situação e, com todo o detalhe, descreveu o homem. Os camaradas da Comissão de Campo também não sabiam o que fazer e acharam melhor ligar para os camaradas da Direcção da festa. Os camaradas da Direcção da festa mostraram-se apreensivos: podia ser uma armadilha para denegrir a festa ou romper a disciplina sanitária. Decidiram por isso, ligar para o camarada responsável pela Boa Fé, que estava naturalmente na Festa, e que não acreditou no que estava a ouvir. Esse camarada é o Raul, explicou. Estava muito afastado há anos. Comprava o Avante!, é certo, mas pouco mais podia. Há uma semana, a mulher morreu de cancro: o camarada não está bem.
A Direcção acabou por decidir que o camarada poderia entrar e que lhe devia ser dada uma máscara. Um camarada ficou de tratar da tenda e outro ficou de pedir emprestado um saco-cama. Mas o camarada, que tem nome e efectivamente se chama mesmo Raul, não queria ir dormir nem ir ao posto médico. Queria ajudar.
Tanto insistiu que sentaram-no numa carrinha descapotada a cortes de rebarbadora e levaram-no para a Cidade da Juventude. Porquê para a Cidade da Juventude? Porque à meia noite o camarada fazia anos, explicaram os camaradas que deram a orientação. Não sei o que mais vos diga, foi o que a organização decidiu, camaradas; e eu também não perguntei porquê: às vezes os desígnios da organização são misteriosos.
Quem achar difícil acreditar que isto realmente se pudesse ter passado na Quinta da Atalaia, no dia 3 de Setembro de 2020, nem sonha o que veria se pudesse, do alto dos tempos medievais em que aqui havia mesmo uma torre de atalaia, ver o que esta quinta já viu. Imaginemos nós que tínhamos de explicar aos monges jerónimos que aqui plantaram vinha, que um dia a vinha seria de monges dominicanos, que daqui seriam corridos a pontapé por uma revolução republicana. Imaginemos se tivéssemos de explicar aos Condes de Atalaia, oriundos de outra Atalaia, a de Vila Nova da Barquinha, que ganharam estas terras como compensação por traírem a pátria ao serviço dos Filipes de Espanha, que um dia esta terra não voltaria nunca mais às mãos de mais nenhuma família aristocrática. Imaginemos que tínhamos de explicar aos trabalhadores do senhor Reynolds, patrão da Lisbon Fresh Water Suply, que daqui extraía a cristalina água mineral Águanave, que um dia toda esta terra seria da classe operária e dos comunistas? Pois: a descrença seria mútua.
O camarada da JCP que estava responsável pela implantação é que não achou tanta graça ao mistério. Mas que ajuda é que alguém assim poderia dar? Os camaradas decidem assim as coisas e depois os outros que se desenrasquem, não é? A 24 horas da abertura, a cidade estava atrasada e não havia tempo para estas brincadeiras do oxigénio em pó, do empalmo de 7 vias ou do nivelador de toldos. Mas a orientação é para cumprir, pá, e lá teve o camarada responsável da JCP, contrafeito, de dar uma tarefa ao bizarro camarada.
- Ó camarada, ficas aqui com esta malta. Ponham-no a trabalhar.
E ele, de facto, lá ia ajudando no que sabia. Segurava nas tábuas, passava parafusos, dava opiniões, nem sempre colhidas, ao enxame a fremir de jovens apressados que forravam com contraplacados as paletes do chão.
- Raul, não é? Então vieste a pé desde Setúbal? - era estranho, mesmo para os comunistas, tratá-lo por tu, mas depressa a distância se evaporou. O Raul era operário agrícola, mas até se safava com a madeira. Também tinha estado toda a vida precário. Às vezes sem contrato, sem descontos, sem nada. Entre os que estavam ali da jota a meter chão, havia mais quatro também assim, não operários agrícolas, mas a recibos verdes, com contratos de um ano ou sem contrato nenhum.
- É fodido, pá, se ficas doente, quando envelheces, como é que é? - A pergunta do jovem era retórica, claro está, mas o Raul deu-lhe razão.
Contou-lhes que, quando era puto, guardava os porcos dos senhores para os putos de hoje guardarem os porcos dos netos dos senhores. É a luta de classes. O resto é conversa. Depois tinha andado maltês, a trabalhar de braceiro por esse país fora, a dormir onde calhasse, a viver de côdeas, porra, a ser despedido por dá cá aquela palha e a malta concordou que ainda hoje é esse quero posso e mando. Só com o 25 de Abril é que isto melhorou e até isso nos querem tirar, protestou. E como nós não deixamos, eles, os patrões, detestam-nos. Se nos pudessem ilegalizar, ilegalizavam. Se tivessem de nos matar, matavam.
O discurso do Raul estava a dar cabo dos planos do camarada responsável para terminar a cidade a tempo. À sua volta tinha-se juntado um perigoso aglomerado anti-sanitário de irresponsáveis jovens, alguns sem máscara, todos tisnados de óleo, serradura, tinta e dulcíssimos suores de trabalho militante.
O Raul, disse-lhes, tinha andado a vida toda a combater o fascismo. Tinha estado preso com o Jaime Rebelo, que, tirando partido de ser analfabeto, cortou a própria língua para não poder denunciar os camaradas à PIDE. O Raul contou-lhes que, antes do 25 de Abril, os comunistas ficavam com a vida toda destruída: a carreira, a família, a casa, a liberdade. Tiravam-lhes tudo menos a dignidade. O Raul confessou-lhes que se não fosse a mulher, que ficou com os filhos quando ele esteve preso, e trabalhava de sol a sol para dar de comer às crianças, também não sabia se não teria de ter cortado a própria língua. Quem é que se oferece para explicar ao Raul que isto dos riscos da pandemia são um axioma absoluto e que mais nada importa a não ser ficar em casa?
- Quantos anos estiveste preso?
- Seis, mais qualquer coisa.
Mas foi na prisão que aprendeu a ler. Com os outros, com os camaradas. Haverá prenda mais bonita? Os presos faziam jornais lá dentro e ensinavam uns aos outros. Uma vez foi apanhado, isto no Forte de Peniche, com imprensa do Partido e levou tanta pancada, apontava para a zona dos rins, que achava que morria, mas não morreu. Então este ano teve de vir à festa. Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. Disse assim à mulher «Olha, agora é que vou mesmo» e a mulher, claro, mandou-o ter juízo. Ela, coitada, acabou por não poder vir mesmo.
É meia-noite. A malta da JCP poisou as ferramentas, parou de trabalhar, pôs-se toda de pé. Uma brisa do Norte lambe-lhes suavemente as frontes suadas, transcendendo a realidade. Cerraram-se agora muitos punhos contra o céu estrelado e a juventude canta ao Raul os «Parabéns a você», mas com a melodia da Internacional. O Raul achou graça àquilo e riu-se alto, com alegria verdadeira, como se não tivesse acabado de fazer 95 anos.
António Santos
Sunday, September 06, 2020
A Festa do Avante de 2020
Friday, September 04, 2020
Última intervenção de José Casanova na Festa do Avante
membro do Comité Central e director do Avante!
A mais fraternal e humana Festa do País
São muitas as razões para termos orgulho, um grande orgulho, no nosso Partido. Uma dessas razões é a Festa do Avante! – esta Festa que, desde 1976, passou a ser a menina-dos-olhos do «nosso grande colectivo partidário».
A Festa é o Partido e o Partido está na Festa – e este ano de forma muito especial, já que o tema central da nossa Festa é o Centenário do nascimento do camarada Álvaro Cunhal. Na verdade, toda esta bela cidade da Atalaia é percorrida pela memória dos seus 75 anos de militância revolucionária, traduzidos na construção de uma notável obra teórica e literária e numa entrega ímpar à construção, ao reforço e à defesa do nosso Partido Comunista Português.
Nessa longínqua primeira Festa do Avante!, que construímos na antiga FIL, o camarada Álvaro Cunhal iniciou a sua intervenção no comício de encerramento dizendo: «Esta festa do nosso glorioso Avante!, do nosso glorioso Partido, é a maior, a mais extraordinária, a mais entusiástica, a mais fraternal e humana jamais realizada no nosso País.» De então para cá, 37 anos passados, a Festa do Avante! foi sempre, e cada vez mais, este espaço imenso, extraordinário, entusiástico, de alegria, de liberdade, de fraternidade.
E é assim porque esta é a Festa do PCP, a Festa do Partido da classe operária e de todos os trabalhadores que tem como objectivo supremo a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados; a Festa do nosso grande colectivo partidário, que a constrói e lhe dá vida durante estes três dias inolvidáveis, com o seu trabalho voluntário, militante e solidário, com a sua dedicação, a sua criatividade, a sua militância revolucionária – tudo isto conferindo à Festa uma característica singular: como toda a gente sabe, nenhum outro partido nacional é capaz de realizar uma festa com esta dimensão, com esta beleza, com este conteúdo.
Fraternais saudações
Está aqui muito trabalho, muito trabalho envolvendo muita gente, muita entrega, muito esforço – e há, por isso, muitas saudações a fazer. Por isso, saúdo, em primeiro lugar, os construtores da nossa Festa: os milhares de camaradas e amigos que, em jornadas de trabalho voluntário, ergueram esta bela cidade; e os que a fizeram funcionar durante três dias, num ambiente de convívio, amizade e camaradagem só possível de encontrar em quem transporta consigo um ideal de liberdade, de justiça social, de paz, de solidariedade.
Saudações, igualmente, para todos os visitantes da Festa – militantes do PCP e da JCP, membros de outras forças políticas, designadamente dos nossos aliados na CDU, cidadãos apartidários – os que aqui vieram mais uma vez e os que pela primeira vez nos visitaram, enchendo este espaço e animando-o com a sua presença – e donde se destaca a sempre crescente participação de jovens, a dar mais força e mais futuro à Festa e a permitir-nos dizer que a Festa do Avante! é, cada vez mais, a Festa da Juventude.
A todos desejamos que vão daqui satisfeitos e que voltem para o ano.
Aqui fica também uma saudação e um agradecimento às diversas entidades públicas e privadas que, com o seu apoio, contribuíram para o bom funcionamento da Festa, começando desta vez pelas corporações de bombeiros: a Federação Distrital de Bombeiros, os Bombeiros Mistos do Concelho do Seixal, os Bombeiros Mistos da Amora, os Bombeiros Voluntários de Cacilhas, Trafaria, Sesimbra, Sul e Sueste e Salvação Pública do Barreiro – e estendemos esta saudação a todos os bombeiros que, arriscando as suas vidas e, infelizmente, perdendo-as, até, em vários casos, têm vindo a dar combate corajoso à vaga de incêndios que alastra pelo País.
Saudamos e agradecemos o apoio que nos deram a Fertagus e Sul Fertagus, Transportes Sul do Tejo, Venamar e Amarsul. As centenas de associações, colectividades e federações desportivas. O Núcleo de Física da Instituto Superior Técnico, o Circo Matemático da Associação Ludus. A Guarda Nacional Republicana e a Polícia de Segurança Pública. As juntas de freguesia de Amora, Corroios, Fernão Ferro e Laranjeiro, entre muitas outras. A Câmara Municipal de Lisboa e câmaras municipais da Península de Setúbal – e de forma particular a Câmara Municipal do Seixal. Uma saudação amiga também, para a População da Amora e para os vizinhos da Festa.
Finalmente, uma saudação especial – muito fraterna e muito solidária – para os nossos convidados estrangeiros, camaradas e companheiros de luta que, em representação de partidos comunistas e outras organizações progressistas, nos trouxeram, com a sua solidariedade internacionalista, notícias das lutas travadas pelos seus militantes e pelos seus povos – camaradas e companheiros de luta vindos de: Alemanha, Angola, Bélgica, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, China, Chipre, Coreia, Cuba, Dinamarca, El Salvador, Equador, Espanha, EUA, França, Grã-Bretanha, Grécia, Guatemala, Guiné-Bissau, Holanda, Irão, Irlanda, Itália, Japão, Letónia, Marrocos, Moçambique, Palestina, Peru, Rússia, Sahará Ocidental, Timor Leste, Turquia, Venezuela e Vietname.
A todos estes camaradas e companheiros de luta – e aos muitos que, não podendo estar presentes, nos enviaram saudações – manifestamos a solidariedade dos comunistas portugueses com as lutas que travam nos seus países.
Muitas lutas para travar
1990 foi o ano da realização da primeira Festa do Avante! aqui na Atalaia. Vivíamos, então, um tempo difícil em que, a pretexto dos trágicos acontecimentos a ocorrer nos países socialistas, o nosso Partido era alvo de uma das mais ferozes ofensivas de sempre: diziam uns que o PCP estava em vias de extinção ou que já tinha morrido; diziam outros que ao PCP só restava a opção de deixar de ser comunista…
E enquanto uns e outros cumpriam a sua tarefa de cangalheiros frustrados, o PCP comprava o terreno da Atalaia, graças a uma campanha de fundos à escala nacional, construía aqui a Festa do Avante!, e proclamava cheio de força e determinação: «Assumimos com orgulho a natureza e a identidade do PCP.»
E, no comício de encerramento dessa Festa, o camarada Álvaro Cunhal dizia: «Este ano, para todos nós, a Festa do Avante! tem um sabor novo e contém em si um motivo da nossa alegria. É que a Atalaia é nossa (…) este maravilhoso local será terra firme e certa para a Festa do Avante!».
E assim foi de então para cá: «terra firme e certa para a Festa do Avante!», que continuou a afirmar-se, de forma crescente, como «demonstração do valor irradiante da criatividade, da mensagem cultural, cívica e política, do ambiente e convívio fraterno e humano, da ligação às massas e da influência de massas do Partido Comunista Português».
E não podia ser de outra forma, sendo esta a Festa de um colectivo partidário que é o digno herdeiro das gerações de comunistas que ao longo de décadas construíram este nosso Partido Comunista Português. Um colectivo partidário inspirado no mais belo e humano de todos os ideais; o ideal comunista. Um colectivo partidário que tem como referências maiores do seu projecto e da sua acção, a obra, os ensinamentos e o exemplo de Marx, Engels, Lénine e Álvaro Cunhal. Um colectivo partidário sempre aberto aos muitos e muitos homens, mulheres e jovens que, identificados com os valores e os ideais de Abril, connosco convivem, todos os anos, na Festa do Avante!, e connosco participam na luta pela defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Porque, como afirmou o camarada Álvaro Cunhal na sua última intervenção aqui no Palco 25 de Abril, em 1996: «A Festa do Avante! é nossa, dos comunistas. Mas, a todos os que, não sendo comunistas, querem um futuro melhor para o povo português e a pátria portuguesa, aqui dizemos: a Festa do Avante! é também vossa, porque é a festa da liberdade em que Abril está presente, a festa da confraternização e da confiança no futuro.»
A Festa deste ano foi, como sempre acontece, um espaço de luta e um momento de preparação para novas lutas. E ainda bem que assim foi, porque face à gravidade da situação em que a política das troikas mergulhou o País, temos muito que lutar no futuro imediato – um futuro que começa já amanhã.
Porque amanhã, a luta continua. Então, até amanhã, camaradas.
Setembro 2013
Tuesday, August 25, 2020
Do mistério das coisas
Para ti
em dia soturno
O dia de hoje amanheceu lilás como os lírios que o meu avô plantava no quintal da minha infância.
Vinha todos os dias com as suas grossas e bondosas mãos calejadas acariciar as flores que o prolongavam.
Sempre acreditei que a partir daquele quintal ele queria e podia encher o mundo.
O meu avô morreu há alguns meses atrás, mas os lírios continuam no mesmo sítio, como que à espera das suas mãos.
Quanto a mim, quase deixei de acreditar naquilo que ele me tinha ensinado, porque não obstante ter passado dias, semanas e meses, na busca insana de espécimes semelhantes, em todos os palácios, jardins e nitreiras, mais não consegui do que concluir que, definitivamente, não é possível as flores saltarem as vedações dos quintais.
Até que consegui perceber-te, frágil mas animosa, serena mas lúcida, guerrilheira mas mulher. E reacendeu-se em mim a vontade incontida de juntar os meus lírios aos teus cravos e ainda aos girassóis de alguém e fazer da Terra a nossa plantação.
É pois a ti, mulher-menina-de-sorriso-amargo, que me dirijo com uma confidência a um tempo cruel e necessária.
Uma vez, aquando das minhas surtidas furtivas, pude reparar num pequeno fungo de tal modo encaixado entre duas pedras enormes, que receei que estas o esmagassem. Então usei de toda a minha força para afastar os pedregulhos, mas em balde foi todo o esforço.
Tempo depois retornei ao local e para surpresa minha verifiquei que o pequeno fungo se desenvolvia de tal forma que parecia por si só ser capaz de afastar os dois colossos. Na altura reparei ainda numa pequena flor verde que rompia aquilo e me entrava no olhar.
Passou mais tempo, que ansiosamente fui descontando à espera que me tolhia tantos pensamentos e exaltava outros.
E um dia pude ter a felicidade de ver uma maravilhosa flor vermelha que, explodindo num matizado de vários tons, subia exuberantemente para o céu.
Nessa tarde, quando descia a pé as faldas de Sintra, alguém me tocou no ombro, possivelmente em segundo chamamento, perguntando alguma coisa de castelos, ao que respondi com o meu silêncio.
Eles perceberam e afastaram-se. É que dentro dos meus olhos bailavam sete litros de água.
Depois disto, se me soubeste ler, pegarás certamente no teu amor e na tua espingarda e saltarás definitivamente as barreiras que te separam do sonho, pois só assim poderás alcançar o tempo do pleno ser.
Este escrito, em que te coloco como Govinda da minha existência, é também uma homenagem ao teu estoicismo de mulher e ao facto de durante tantos anos teres conseguido cultivar flores dentro de ti.
25.8.77