Thursday, February 29, 2024
Monday, February 26, 2024
História e Letra de Roda Viva – Chico Buarque
Um pouco da História de Roda Viva
Roda Viva foi apresentada ao público, pela primeira vez, no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record, em 1967. A música ficou com a 3ª colocação na disputa, perdendo apenas para Ponteio (Edu Lobo e Capinam), que foi a primeira colocada, e Domingo no Parque (Gilberto Gil).
Mas a canção faz parte da peça musical homônima de Chico Buarque, que foi encenada pelo Teatro Oficina, com direção de José Celso Martinez Corrêa. No texto, temos a história de um artista que, explorado pela indústria cultural, vive o auge da fama, mas vem a ser descartado depois, e levado à morte no final.
O que inspirou a composição de Roda Viva
Foi dessa forma que Chico resolveu expressar sua insatisfação com a vida no show business que passou a conhecer depois de A Banda, quando virou uma estrela da música, extremamente tietado e fazendo muitos shows Brasil afora. Por isso, ao observarmos um primeiro rascunho da letra, notamos que não há uma conotação política nos versos, e sim a constatação de um artista exausto, que não se sente mais dono do próprio destino, porque chegou a roda-viva, como um redemoinho, tirando tudo da ordem imaginada.
Claro que sem conhecer o que motivou a composição, e sabendo um pouco de história do Brasil, tudo nos leva a pensar que a tal roda-viva é claramente uma alusão ao regime militar. Não é necessariamente, mas pode ser também. Afinal, a letra dá voz a um personagem frustrado, que não pode realizar sua existência livremente, porque uma força contrária causa a desordem, de modo opressor e arbitrário, logo, ditatorial.
Os ataque contra a peça Roda-Viva
A peça estreou em janeiro de 1968, no Rio de Janeiro. Porém, durante a temporada em São Paulo, membros do CCC (comando de caça aos comunistas), em um ato terrorista, invadiram o teatro, destruíram o cenário, e agrediram todos os artistas e alguns espectadores. Isso voltaria a acontecer em Porto Alegre. Daí então, por segurança, o espetáculo foi cancelado de vez.
Ou seja, depois de sofrer tamanha violência, como não acreditar que a roda-viva não diz respeito à força bruta, repressora e abusiva, tão característica do regime militar e de seus apoiadores?
O Sucesso de Roda Viva
Num primeiro momento, a ideia de Chico Buarque, ao escrever uma peça rebelde e provocativa, era se desvincular da imagem de bom moço que tinham colado nele. Contudo, no fim das contas, Roda Viva o consagrou ainda mais como artista. E não foi à toa.
Para a apresentação no Festival, Chico pediu a Magro, do grupo MPB-4, que fizesse o arranjo da canção. O resultado foi uma música consagradora. Pois ela ganhou uma bela introdução do grupo vocal, pra depois Chico e o MPB-4 (Magro, Miltinho, Aquiles e Ruy Faria) se revezarem cantando.
E depois de criar um clímax através da repetição do refrão, trazendo a plateia pra cantar junto, a música acabava de repente, abria um breve silêncio para, então, irromper os aplausos. Final apoteótico. Tudo isso sem falar na participação do grupo Som Três, com o piano fundamental de César Camargo Mariano.
Quem gravou Roda Viva
A canção Roda Viva foi gravada, com esse arranjo e o grupo MPB-4, no disco “Chico Buarque de Hollanda – Volume 3”, em 1968, e é praticamente a versão definitiva da música.
Mas outros grandes artistas também fizeram gravações significativas de Roda Viva. Entre tantas outros, destacamos: Quarteto em Cy com Toquinho & Vinícius de Moraes (1974); Ivan Lins (1991); Ney Matogrosso, em um disco somente com canções do Chico (1996); Maria Bethânia (1999); e por Fernanda Porto em uma versão remix (2004) que, na época, tocou bastante no rádio.
Juíza duvidou que Roda Viva é de Chico Buarque
Em 2022 ocorreu um caso bastante curioso. O deputado federal Eduardo Bolsonaro utilizou Roda Viva em um vídeo nas redes sociais. O compositor da música, por sua vez, entrou com um processo na justiça pedindo que a publicação fosse removida pois não havia concedido autorização para uso.
A juíza Monica Ribeiro Teixeira, entretanto, indeferiu o pedido do artista, alegando “ausência de documento indispensável à propositura da demanda, qual seja, documento hábil a comprovar os direitos autorais do requerente sobre a canção Roda Viva.” O advogado do cantor recorreu da decisão.
Informações Gerais
Ano de Lançamento:
1967.
Gênero:
Samba-Canção.
Compositores:
Chico Buarque (1944- )
Gravações Representativas:
Chico Buarque; MPB-4; Quarteto em Cy; Ivan Lins; Ney Matogrosso; Maria Bethânia; Fernanda Porto.
Letra de Roda-Viva.
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu.
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá.
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir.
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá.
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.
A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou.
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá.
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.
O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou.
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá.
Roda mundo, roda gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração
Para Ver e Ouvir:
Versão de Chico Buarque e MPB-4 no III Festival de MPB.
Monday, February 19, 2024
O beijo
Greta Zimmer Friedman morreu em 2016, aos 92 anos.
George Mendonsa morreu a 18 de Fevereiro de 2019, com 95 anos.
A foto é da autoria de Alfred Eisenstaedt, foi captada no Times Square, a 14 de agosto de 1945, dia em que o Japão se rendeu oficialmente aos EUA e em que foi declarado o fim da Segunda Guerra Mundial.
Friday, February 16, 2024
Wednesday, February 14, 2024
Os assassínios no PREC
Nélson Teixeira foi o único dos quatro filhos de Rosinda Teixeira que dormiu em casa na madrugada de sexta-feira, 21 de maio de 1976. A família morava no lugar de Arnozela, São Martinho do Campo, localidade no meio do coração das populações dos operários da indústria têxtil.
A bomba explodiu às três horas da manhã e foi tão potente que se ouviu a 50 quilómetros de distância.
Os pais de Nélson foram projetados para fora da cama. O soalho deu de si, a casa ficou toda em chamas. O filho tentou entrar no quarto dos pais. Tentou forçar a porta sem sucesso. “Só me lembro de escutar a minha mãe a dizer ‘ai, Jesus’. Foram as últimas palavras que lhe ouvi.”
O fogo envolvia tudo. Ainda teve forças para abrir a janela e cair desamparado. O corpo do pai tombou também do parapeito da janela, parecendo um homem-tocha. Ficaram ambos a arder entre a erva e as couves. António Teixeira , 49 anos na altura, ficou com queimaduras de terceiro grau. A mãe, Rosinda Teixeira, morreu nas chamas.
Os explosivos plásticos tinham sido postos por baixo do quarto do casal. Um engenho idêntico ao que tinha deflagrado, uma semana antes, na Embaixada de Cuba em Lisboa, matando duas pessoas.
O homem que tinha perpetrado o atentado em São Martinho do Campo, um dos muitos que cometeu, era Ramiro Moreira, antigo segurança do PPD (atual PSD), e em algumas dessas ações acompanhara-o Manuel Macedo, dirigente do MDLP. Moreira foi militante n.º 7 do PPD e responsável da segurança; foi expulso por Sá Carneiro, em novembro de 1975, por pertencer ao MDLP.
O atentado de São Martinho do Campo fora “encomendado” a essa organização por um industrial da zona. O alvo era o operário têxtil e pai de Nélson.
“António Teixeira, marido de Rosinda, a vítima mortal na noite fatídica de maio de 1976, começara a trabalhar para ele [esse empresário] em 1949 e notara a grosseria dos modos, os maus-tratos aos empregados, o assédio sexual às operárias. ‘Ele chamava ao gabinete as que lhe interessavam, mas muitas não lhe davam hipótese. Chegava a agredi-las à chapada na frente de toda a gente’, ilustra Nélson Teixeira [filho da mulher assassinada], a partir de histórias escutadas ao pai e a outros empregados. O descaro incluía mulheres grávidas e casadas, ouvir-se-ia mais tarde em tribunal”, relata Miguel Carvalho no seu livro Quando o Portugal Ardeu, em que se investigam os crimes da rede bombista de extrema-direita responsável por muitos assassínios durante o PREC.
“Os vários ‘exércitos’ da contrarrevolução, alguns avulsos, foram responsáveis por 566 ações violentas no país entre maio de 1975 e abril de 1977, uma média de 24 atos de terrorismo por mês, quase um por dia, causando mais de 10 mortes e prejuízos incalculáveis no património de vítimas e instituições. Os partidos de esquerda, como o PS, com o PCP à cabeça, foram os alvos preferenciais de quase 80% das bombas incendiárias, espancamentos, apedrejamentos e atentados a tiro”, contabiliza Miguel Carvalho no seu livro.
Uma das estruturas responsável por esta dezena de assassínios e quase 600 ações terroristas nos anos depois da revolução foi o MDLP, a que pertenceu o antigo deputado do Chega Diogo Pacheco de Amorim. A organização foi condenada em tribunal pelo assassínio do padre Max e da estudante Maria de Lurdes.
Quando, no debate entre os líderes do PCP e do Chega, André Ventura resolve acusar o PCP de inúmeros assassínios no PREC, está visivelmente a tentar desviar a atenção das acusações de Paulo Raimundo, bastante mais verdadeiras, do seu apoio às medidas contra reformados e trabalhadores durante os governos de Passos Coelho.
Ventura não ficou por aqui, finalizando a sua intervenção a dizer que todas as situações em que o PCP esteve no poder “acabaram em morte, em roubo e destruição”.
A verdade é que, no caso dos anos posteriores à Revolução de Abril de 1974, pode André Ventura procurar os cúmplices destes atos dentro do seu próprio partido.
O MDLP estava ao serviço de certos empresários para castigar operários e até pôr bombas, como em São Martinho do Campo. O Chega é mais prosaico, recebe dinheiro de um conjunto largo de grandes patrões, mas é mais para confundir as coisas e fazer uma muralha de fumo, em que a pequena corrupção permita escapar a grande corrupção não criminalizada dos interesses instalados em Portugal.
Durante os governos da troika que André Ventura apoiou, um conjunto de empresas estratégicas foi alienado por meia dúzia de patacos. Em poucos anos, a REN, EDP e ANA deram dividendos milionários, que permitiram pagar o dinheiro que custaram aos grupos empresariais que as compraram. Várias inspeções do Tribunal de Contas concluíram que o Estado e os contribuintes foram privados de uma enorme riqueza. Tudo isto foi feito com o silêncio, na altura, do atual líder do Chega.
Como é também verdade que ficou mudo perante os cortes às remunerações dos reformados, polícias, professores e trabalhadores nos anos do governo de Passos Coelho.
É isso que ele não soube explicar durante o debate com Paulo Raimundo e que o levou a reescrever a história dos anos que se seguiram à revolução, inventando coisas.
Ventura sabe que a mentira, por mais que seja mentira, é mais difícil de corrigir do que de propagar. Aprendeu isso com Bolsonaro e com a extrema-direita de outros países.
Nuno Ramos de Almeida, DN 11.2.2024
Tuesday, February 13, 2024
NOITE DOS MASCARADOS
- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.
- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!
Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:
- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.
- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!
Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Chico Buarque
Sunday, February 11, 2024
Thursday, February 08, 2024
Uma mulher de carne azul
Saturday, February 03, 2024
Nasci para te amar
Para te beber gota a gota. Nas noites.
Para te abraçar assim. Nos dias.
Nasci para morrer contigo. Hoje.
Esmago-me no beijo da tua boca. Aberta.
Estremeço-me e contigo morro. Agora.
Nasceremos outra vez. Sempre…
Sunday, January 21, 2024
Lenine
A BRUXA
recheadas de esterco e de patranhas
da boca fogem bichas trituradas
pelo próprio veneno das entranhas.
As pernas são varizes sustentadas
pela putrefacção das bastas banhas
os olhos duas ratas esfomeadas
e as mãos peludas tal como as aranhas.
Nasce do estrume e vive para o estrume
a língua peçonhenta larga fel
e é uma corda que ela-própria-puxa.
Sai-lhe da boca pus e azedume
tem pústulas espalhadas pela pele
e é filha de si própria. É uma bruxa.
Ary dos Santos
Thursday, January 18, 2024
SONETO PRESENTE
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
J. C. Ary dos Santos
Friday, January 12, 2024
A história de Al Berto: “O poeta que escrevia contra o medo”
Se fosse vivo, teria feito ontem 76 anos. Hoje publicamos a história de Al Berto.
Quis o acaso que o poeta Al Berto, pseudónimo literário de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nascesse em Coimbra, em 1948, onde o pai estudava medicina. Aos quatro anos ficou órfão de pai, tendo este falecido num trágico acidente de automóvel.
O escritor passou a infância e adolescência na vila da costa alentejana de Sines, de onde eram oriundos os progenitores. A mãe, ainda muito jovem, auxiliada pelos avós maternos, ficou a cuidar de Al Berto e de dois filhos mais novos, apesar dos avós paternos terem tentado tirar-lhe a custódia dos filhos.
Acabaram por repartir todos a educação das crianças: os Raposo, pelo lado materno, de baixo estrato social, e os Pidwell Tavares, uma família aristocrática de Sines, uma miscigenação de latifundiários e empresários da indústria conservaria. Da avó paterna, de origem inglesa, uma mulher de personalidade muito forte, ríspida e distante, mas muito rica: com casa senhorial, com biblioteca, quinta e jardim, criados e carro com motorista, jamais se esqueceria.
Al Berto começou a ler cedo e cedo a deixar-se viciar pelo prazer da leitura. Porém, brincou também muito, viu muito cinema, ouviu muita música, dançou muito, e passou por todos os exageros próprios dos adolescentes, com os irmãos e os amigos. Isto, sempre com o mar como pano de fundo. O mar do qual nunca conseguiu viver longe…Fez o ensino primário numa escola oficial em Sines e aos doze anos foi para um colégio interno.
Em 1965, dando expressão a um gosto muito grande pelo desenho, pelas aguarelas e pelos guaches, que lhe vinha da infância, entrou na Escola Artística António Arroio, em Lisboa. No ano seguinte frequentou também o Curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas Artes, na mesma cidade.
Em 1967, com 19 anos, exilou-se em Bruxelas, primeiro na qualidade de estudante – frequentou o curso de pintura monumental na École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels – e, como refugiado político, para fugir à incorporação militar e à Guerra Colonial. Eram os anos da utopia do Maio de 68: uma época de grande agitação social, política e cultural. Durante o exílio viajou com frenesi, efetuando uma série de viagens pela Europa: Espanha (sobretudo Málaga e Barcelona), Grécia, Países Baixos, Inglaterra, Itália… Nesse périplo europeu começou a escrever um diário. Hábito que nunca mais abandonaria… Nesse tempo iniciou o seu afastamento da pintura e a sua aproximação à escrita. Decisão que acabaria por concretizar-se em 1971: “Como a pintura é muito demorada de executar, requer outros meios, mais caros, à escrita basta o papel e caneta, começou assim a minha mudança para a literatura”, justificou. “E depois a isto tudo junta-se que de facto em 71 (…) havia um diário de viagens imenso. Não era só escrito era desenhado e era onde eu arrecadava praticamente tudo o que eu encontrava pelo caminho: desde fotografias a postais, a nomes de pensões, de ruas, mapas de cidades, etc. E comecei a me aperceber que nesse imenso diário, digamos assim, havia material que tinha uma qualidade e que não era propriamente um registo imediato, mas sim, apontava-me para outras preocupações.”
A passagem da pintura para a literatura implicou uma espécie de morte e renascimento, uma brecha que se abriu. Isso explica a adoção, a partir daí, do nome dividido em dois: Al Berto. Tal como explicou: “Senti necessidade de abrir a brecha com uma coisa que era muito minha e abri o nome ao meio, uma cisão num determinado percurso. Foi a maneira de não esquecer esse abismo. Depois, Al Berto, dito à francesa, Al Bertô, é mesmo árabe e é anónimo. E há qualquer coisa no anonimato que me seduz.
E o nome funciona bem em termos de se reter. ”Mais tarde, esclareceria: “Tinha medo de estar sozinho e escrevia. (…) Escrevia por medo e contra o medo. (…) Tenho o caderno onde escrevo assente numa prancheta de madeira. Espera-me uma infindável noite, escrevo contra o medo.”
O poeta regressou definitivamente a Portugal, sete meses após a revolução democrática, no dia 17 de novembro de 1975, instalando-se em Sines. Na vila, que se transformara de terra de pescadores e marinheiros num enorme complexo industrial, abriu uma livraria/editora, a que deu o nome de “Tanto Mar”. Aí, publicou livros seus e de outros autores, de certa forma marginais ao sistema editorial dominante, abordando sem pudor determinados tabus sociais e opostos às poéticas do rigor e da contenção.
O projeto da livraria durou apenas um ano. Em 1977 fechou-a e partiu para Lisboa. Iniciariam nessa época as suas deslocações pendulares entre Lisboa e Sines, numa inquietação permanente, numa busca sôfrega pela paz que nunca encontraria.
Quando Francisco José Viegas (em entrevista para a revista Ler nº 5, de 1989) lhe perguntou: “Quando está em Sines e quando está em Lisboa? Por que razão se divide entre Sines e Lisboa?”, responderia: “A noite tem a ver com o Genet. A fuga, com Rimbaud. O lado místico com Bataille. Sade, com o imprevisto. O lado excessivo (as drogas, o álcool, embora esteja muito calmo desde há dez anos…), com Baudelaire. Um dia vou para um convento. Visto um hábito branco, muito branco, e entro para um convento. Vai ser o meu futuro: para um convento que tenha uma escola de canto gregoriano… ”A literatura de Al Berto esteve sempre associada à sua vida, à aventura. Escrever nunca se dissociou de viver. Nos poemas retratava-se de corpo inteiro. Confessava-se. E confessava-se de um modo às vezes incómodo, pela marginalidade assumida. A narrativa do poeta maldito, melancólico-depressivo, atraído pelo abismo, apaixonado pela noite, pelo lado lunar: procedendo a uma violenta exaltação do seu sofrimento, do seu desamparo. Tornando-os insuportavelmente presentes. Escarafunchando a ferida, permanentemente aberta. Combatendo o mal com mal. Sem esperança.
Em 1981, voltou de novo a Sines e alojou-se na Quinta de Santa Catarina, a quinta dos avós Pidwell Tavares. Nesse ano, entrou para a Câmara Municipal de Sines como animador cultural. Mais tarde, entre 1992 e 1994, depois de ter coordenado o núcleo cultural da autarquia e de ter exercido diversas funções no Centro Cultural Emmerico Nunes (pintor modernista que curiosamente viria a casar com uma prima avó de Al Berto), que ajudou a criar, acabaria por assumir a presidência da direção do referido Centro. Entretanto, a sua popularidade como poeta foi aumentando e a sua poesia alvo de um crescendo constante nos elogios e nos destaques publicitários. Ao longo da sua vida, Al Berto colaborou em diversas revistas e jornais, participou em inúmeros debates, encontros de poesia e sessões de leitura, fez traduções e publicou alguns livros de prosa, teatro e, sobretudo, de poesia.
Em 1987, poeta já consagrado, foi galardoado com o prémio PEN-Club de Poesia, pelo livro “O Medo” que reúne todo o seu trabalho poético de 1974 a 1986 (sendo adicionados em posteriores edições novos escritos do autor), em 1992 recebeu de Mário Soares a medalha de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, e em 1995 a Medalha de Mérito Municipal atribuída pelo executivo da Câmara Municipal de Sines.
Morreu em 1997, com 49 anos, em Lisboa, no dia 13 de junho, dia de Santo António, dia do nascimento de Fernando Pessoa, vítima de um linfoma que lhe tinha sido diagnosticado alguns meses antes. Al Berto passou poeticamente pelo mundo. Rebelde, errante, ávido, excessivo, solitário, ensimesmado, cheio de desejos libertários, consumido pelos sentidos da existência.
Paulo Marques
Saturday, January 06, 2024
CARLOS PAULO
A minha vida
“Há seis meses sofri um AVC, no teatro A Comuna, em pleno palco. Eu fazia a última parte da peça sentado numa cadeira, falando com o público. Quando as luzes se apagaram, tentei levantar-me mas era como se a minha perna esquerda tivesse desaparecido. Não sentia dor, mas uma insensibilidade total. Ainda fui aos aplausos, amparado de ambos os lados, pensando que tinha tido uma cãibra.
Fiz reabilitação diária num centro perto de Mafra, onde estive internado, mas ali sentia-me deslocado, perdido. Consegui a admissão aqui na Casa do Artista e faço fisioterapia em Entrecampos. Estou o melhor que posso, mas longe de me sentir bem. É como se estivesse de fora de mim a assistir a isto, a este meu andar amparado num tripé, sem me reconhecer nele.
O AVC abalou-me também psicologicamente, porque me veio impedir de fazer uma das coisas de que mais gosto: caminhar! Para além disso, tirou-me a vontade para quase tudo, até a capacidade de ler. Sinto-me esvaziado. O meu esforço actual já não é só físico, é também não perder a intenção de ultrapassar isto, por causa do Teatro, que é a minha vida.
Faço Teatro desde os 16 anos. Quando não estou a atuar, caminho pelas ruas da cidade. Vivia sozinho, mas nunca fiz da casa um lar, apenas um abrigo onde eu pernoitava. Adorava deambular, observar pessoas e, quando se proporcionava, conversar com elas, inusitadamente. Eu sou de pessoas, não de coisas materiais. Tenho telemóvel só para atender chamadas e nem carro tenho. Duas palavras me definem: ator e caminhante. Adorava apanhar o metro no Rossio, sair na Alameda e descer a Almirante Reis a pé. É na rua que sinto o mundo, não dentro de casa.
Há quase 50 anos que tomo o pequeno almoço no Café Gelo, no Rossio, espaço de tertúlia de grandes intelectuais portugueses. Os empregados já nem me perguntam o que quero. Quando está um tempo agradável, venho fumar o meu cigarro fora.
Num desses dias amenos, vi uma senhora a gesticular. Olhou para mim e disse-me: ‘Eu não sou doida! Eu falo sozinha para não enlouquecer!’ Convidei-a para se sentar ao meu lado e estivemos duas horas e meia a conversar. Despedimo-nos num abraço, ela de lágrimas nos olhos.”
Doze passas
“Eu vivo atento às pessoas e vejo que elas se cruzam num vaivém constante mas não se olham. Faz falta mais troca de olhares e ouvidos para escutar.
Gosto também de observar o comportamento humano porque isso enriquece a minha capacidade interpretativa. Eu tenho de conseguir colocar-me nos diferentes personagens com o maior realismo possível.
De todas as pessoas se aprende, porque são tão diversas quantas as que estão numa plateia a assistir. Costumo dizer aos jovens atores: quando uma sala está cheia, nós não sabemos a cor da pele, o sexo, a idade, a religião, a orientação sexual ou política. Ali, todas as pessoas são apenas seres humanos que respeitamos profundamente. Isso é que é bonito: o respeito pelo ser humano.
Nesse aspecto, o Teatro, como a cultura em geral, une as pessoas, não as divide. A única limitação é a dificuldade que os mais desfavorecidos têm de chegar a ela. Mas foi também por isso que eu e o João Mota fundámos A Comuna há 51 anos. Fizemos acordos com Juntas de Freguesia para facilitar o acesso a pessoas de baixa condição económica. O João foi o meu grande amor, com quem estive 18 anos. Fizemos vida conjunta, mas afastámo-nos porque já éramos mais irmãos que outra coisa. Foi de tal forma uma relação importante, que além de fundarmos A Comuna, ele adoptou como filho um sobrinho meu, na altura com 4 anos, com quem ainda vive.
Depois dele, já não voltei a fazer vida conjunta. Optei por ficar sozinho, mas não solitário. Tinha o Teatro, os transeuntes, os amigos - paixões que eu sublimo - um mundo para observar… e uma família maravilhosa.
Sou um de sete irmãos, todos próximos e ligados. O meu pai era ultraconservador mas a minha mãe compensava em tudo. Conheceram-se em África. Casaram tinha ela 17 anos, três meses depois de conhecer o meu pai, e viveram uma eterna paixão.
Ela foi exemplar na maneira como nos educou. Dizia sempre: ‘Eu tenho sete filhos, mas cada um é um.’ E tratava cada filho da maneira mais acertada, com respeito, sentimento que hoje une os irmãos.
Se o meu Natal ainda tem alegria, devo-o à família que tenho. Já as doze passas vão todas para o mesmo desejo: voltar a ser autónomo!”
Carlos Paulo | Nós nos Outros
Apoiarte - Casa do Artista
Wednesday, January 03, 2024
A fuga de Peniche
A fuga da prisão de Peniche foi há 64 anos.
Evadiram-se, para voltarem à luta, os seguintes dirigentes do PCP:
Álvaro Cunhal
Carlos Costa
Francisco Martins Rodrigues
Francisco Miguel
Guilherme da Costa Carvalho
Jaime Serra
Joaquim Gomes
José Carlos
Pedro Soares
Rogério de Carvalho
(desenho de Margarida Tengarrinha, feito sob pormenores fornecidos por AC)
Sunday, December 31, 2023
POEMA CXIV
Friday, December 29, 2023
lembro-me do futuro
Wednesday, December 27, 2023
A Odete Santos não morreu
A Odete era genuína. Não era comunista por acidente. Era comunista inteira. Como muito poucos. Era das mais brilhantes deputadas. Não era uma deputada de bancada. Não era mais uma no meio de tantos. Era uma deputada do terreno. Ligada às pessoas. Ligada à justiça social e à liberdade.
Não quis ser fotografada na AR. Quis ser fotografada no palco (não me lembro que sala) e junto ao rio Tejo.
Ali, a grande Odete, a brilhante deputada. A obreira da democracia. A mulher da luta. Todos os dias. Junto ao rio, com as gaivotas a voarem em liberdade.
A Odete Santos não morreu.






















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