Bertolt Brecht Hoje,
o escritor que deseje combater a mentira e a ignorância tem de lutar,
pelo menos, contra cinco dificuldades. É-lhe necessária a coragem de
dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em
sufocá-la; a inteligência de reconhecê-la, quando por toda a parte a
ocultam; a arte de torná-la manejável como uma arma; o discernimento
suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz;
finalmente, precisa ter habilidade para difundir entre eles. Estas
dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo;
aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até
os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da
sua ação.
1 – A coragem de dizer a verdade
É
evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e
nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos
poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à
tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que
tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário
do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser
célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de
celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema
opressão costumam serem também aquelas em que os grandes e nobres temas
estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é
exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar
de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos
trabalhadores e o seu alojamento.
Quando
os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é
corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos
que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os
alto-falantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do
que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais por quê?
Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que
pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas
deformidades. É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a
nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos
perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição
parece-lhes uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são maus, dado
que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua
virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência.
Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude,
pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a
umidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram
vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A
verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada
como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela
convém justamente à mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade
é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra
coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em
algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que
era preciso dizer.
Não se carece de muita coragem para deplorar
em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador,
nos lugares onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito.
Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre
eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os
seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face
dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas. Reclamam em termos
gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de
receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles.
Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e
fatos, se para encontrá-la forem precisos estudos e muito esforço, então
essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de
exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que
permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima
noção dela.
2 – A inteligência de reconhecer a verdade
Como
é difícil dizer a verdade, já que por toda a parte a sufocam, dizê-la
ou não parece à maioria uma simples questão de honestidade. Muitas
pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem a
segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não se pode dizer
que seja fácil encontrar a verdade.
Em primeiro lugar, já não é
fácil descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo, as
grandes nações civilizadas vão soçobrando uma após outra na pior das
barbáries diante dos olhos pasmados do universo.
Acresce ainda o
fato de todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais
horríveis, pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra
exterior que só deixará um montão de escombros no lugar onde outrora
havia o nosso continente. Esta é uma verdade que não admite dúvidas, mas
é claro que existem outras verdades. Por exemplo: não é falso que as
cadeiras sirvam para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para
baixo. Muitos poetas escrevem verdades deste gênero. Assemelham-se a
pintores que esboçassem naturezas mortas a bordo dum navio em risco de
naufragar. A primeira dificuldade de que falamos não existe para eles e,
contudo, têm a consciência tranquila. “Esgalham” o quadro num desprezo
soberano pelos poderosos, mas também sem se deixarem impressionar pelos
gritos das vítimas. O absurdo do seu comportamento engendra neles um
“profundo” pessimismo que se vende bem; os outros é que têm motivos para
se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem.
Já nem sequer é fácil reconhecer que as suas verdades dizem respeito ao
destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades soam
normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com coisas
essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar
de importância aos temas de que trata.
Só
olhando os quadros de muito perto é que podemos discernir a
simplicidade do que dizem: “Uma cadeira é uma cadeira” e “Ninguém pode
impedir a chuva de cair de cima para baixo”. As pessoas não encontram
ali a verdade que merece a pena ser dita.
Alguns se consagram
verdadeiramente às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou à
pobreza, e, no entanto, não conseguem encontrar a verdade. Faltam-lhe
conhecimentos. As velhas superstições não os largam, assim como os
preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma forma
bela. Acham o mundo complicado em demasia, não conhecem os dados nem
distinguem as relações. A honestidade não basta; são precisos
conhecimentos que se podem adquirir e métodos que se podem aprender.
Todos os que escrevem sobre as complicações desta época e sobre as
transformações que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialética
materialista, a economia e a história. Estes conhecimentos podem
adquirir-se nos livros e através da aprendizagem prática, por mínima que
seja a vontade necessária. Muitas verdades podem ser encontradas com a
ajuda de meios bastante mais simples, através de fragmentos de verdades
ou dos dados que conduzem à sua descoberta. Quando se quer procurar, é
conveniente ter-se um método, mas também se pode encontrar sem método e
até sem procura. Contudo, através dos diversos modos como o acaso se
exprime, não se pode esperar a representação da verdade que permite aos
homens saber como devem agir. As pessoas que só se empenham em anotar os
fatos insignificantes são incapazes de tornar manejáveis as coisas
deste mundo. O objetivo da verdade é uno e indivisível. As pessoas que
apenas são capazes de dizer generalidades sobre a verdade não estão à
altura dessa obrigação.
Se alguém está pronto a dizer a verdade e é capaz de a reconhecer, ainda tem de vencer três dificuldades.
3 – A arte de tornar a verdade manejável como uma arma
O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são as
consequências que isso implica no que diz respeito à conduta prática.
Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar
consequências falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o
qual em certos países reina um estado de coisas nefasto, resultante da
barbárie. Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie que
alagou certos países com a violência de um fenômeno natural.
Os
que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento, uma
terceira força justaposta ao capitalismo e ao socialismo (e que os
domina). Para quem partilha esta opinião, não só o movimento socialista,
mas também o capitalismo teriam podido, se não fosse o fascismo,
continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirmação
fascista, de uma capitulação perante o fascismo. O fascismo é uma fase
histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência, algo de novo e
ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a existência do
capitalismo assume a forma do fascismo, e não é possível combater o
fascismo senão enquanto capitalismo, senão enquanto forma mais nua, mais
cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.
Como se
poderá dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa
verdade se abstém de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo?
Qual será o alcance prático dessa verdade?
Aqueles que estão
contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a
barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem
receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a
vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem
contentes, basta que o açougueiro lave as mãos antes de servir a carne.
Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas
são contra a barbárie.
As
recriminações contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia
episódica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não
são possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do raro
privilégio de manter relações de propriedade capitalistas por processos
aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os
serviços que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante o
recurso à violência, quer dizer, aí a democracia chega para garantir a
propriedade privada dos meios de produção. O monopólio das fábricas, das
minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições bárbaras; digamos
que em alguns lugares a democracia torna essas condições menos
visíveis. A barbárie torna-se visível logo que o monopólio já só pode
encontrar proteção na violência nua.
Certas nações que conseguem
preservar os monopólios bárbaros sem renunciar às garantias formais do
direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura,
acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram desculpar o
seu país natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes
será útil nas guerras vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a
verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel
contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa
época, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será
exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que
a conclusão do seu blábláblá aponta para a destruição desse país
inteiro e de todos os seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata,
não escolhe os culpados).
O homem frívolo, que não conhece a
verdade, exprime-se através de generalidades, em termos nobres e
imprecisos. Encanta-o perorar sobre “os” alemães ou lançar-se em grandes
tiradas sobre “o” Mal, mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem
frívolo fala, ficamos embaraçados, sem saber que fazer de semelhantes
ditames. Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alemão? E
lá por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta espécie as
grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores, a barbárie vem da
barbárie e desaparece graças à educação moral que vem da educação. Que
miséria a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação prática
e, no fundo, não se dirigem a ninguém.
Não
nos admiremos que se digam de esquerda, “mas” democratas, os que só
conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades. A “esquerda
democrática” é outra destas generalidades-álibis onde correm a
acoitarem-se as pessoas inconsequentes, isto é, os incapazes de viver
até as últimas consequências as verdades que quer a esquerda, quer a
democracia contêm. Reclamar-se alguém da “esquerda democrática”
significa, em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para
revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.
Não
é a mim, fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me vão
apresentar o fascismo como uma espécie de força motriz natural
impossível de dominar. A obscuridade dessas descrições esconde as
verdadeiras forças que produzem as catástrofes. Um pouco de luz, e logo
se vê que são homens a causa das catástrofes. Pois é, amigos: vivemos
num tempo em que o homem é o destino do homem.
O
fascismo não é uma calamidade natural, que se possa compreender a
partir da “natureza” humana. Mas mesmo confrontados com catástrofes
naturais, há um modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela
para as suas qualidades combativas.
O cronista de grandes
catástrofes como o fascismo e a guerra (que não são catástrofes
naturais) deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades
que os que possuem os meios de produção infligem às massas imensas dos
que trabalham e não os possuem.
Se se pretende dizer eficazmente a
verdade sobre um mau estado de coisas, é preciso dizê-la de maneira que
permita reconhecer as suas causas evitáveis. Uma vez reconhecidas as
causas evitáveis, o mau estado de coisas pode ser combatido.
4 – Discernimento suficiente para escolher os que tornarão a verdade eficaz
Tirando ao escritor a preocupação pelo destino dos seus textos, as
tradições seculares do comércio da coisa escrita no mercado das opiniões
deram-lhe a impressão de que a sua missão terminava logo que o
intermediário, cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos
outros a obra acabada. O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser
ouvir. Na verdade, ele falava e quem podia pagar ouvia-o. Nem todos
ouviam as suas palavras, e os que as ouviam não estavam dispostos a
ouvir tudo o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão, mas
mesmo assim ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a
acentuar que “escrever a alguém” tornou-se pura e simplesmente
“escrever”. Ora não se pode escrever a verdade e basta: é absolutamente
necessário escrevê-la a “alguém” que possa tirar partido dela. O
conhecimento da verdade é um processo comum aos que leem e aos que
escrevem. Para dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir boas
coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem a ouve. E
para nós que escrevemos, é essencial saber a quem a dizemos e quem no-la
diz.
Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas
àqueles que o consideram o pior estado de coisas, e é desses que devemos
aprender a verdade. Devemos não só dirigir-nos às pessoas que têm uma
certa opinião, mas também aos que ainda a não têm e deviam tê-la, ditada
pela sua própria situação. Os nossos auditores transformam-se
continuamente! Até se pode falar com os próprios carrascos quando o
prêmio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo de
estar com os assassinos se torna muito grande. Os camponeses da Baviera
não costumam querer nada com revoluções, mas quando as guerras duram
demais e os seus filhos, no regresso, não arranjam trabalho nas quintas,
tem sido possível ganhá-los para a revolução.
Para quem escreve,
é importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave,
lamentoso, de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem,
estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais miserável.
Em nada o anima a cantilena dos que, não sendo seus inimigos, não são
certamente seus companheiros de luta. A verdade é guerreira, não combate
só a mentira, mas certos homens bem determinados que a propagam.
5 – Habilidade para difundir a verdade
Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a
terem encontrado, porventura fatigados com o esforço necessário para lhe
dar uma forma manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos
interesses defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário o
uso de manhas e estratagemas para difundi-la. Frequentemente, é assim
que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi
necessário recorrer a “truques” para espalhar a verdade, quando os
poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la. Confúcio falsificou um
velho calendário histórico nacional, apenas lhe alterando algumas
palavras. Quando o texto dizia: “o senhor de Kun condenou à morte o
filósofo Wan por ter dito frito e cozido”, Confúcio substituía “condenou
à morte” por “assassinou”. Quando o texto dizia que o Imperador Fulano
tinha sucumbido a um atentado, escrevia “foi executado”. Com este
processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção da história.
Na
nossa época, aquele que em vez de “povo”, diz “população”, e em lugar
de “terra”, fala de “latifúndio”, evita já muitas mentiras, limpando as
palavras da sua magia de pacotilha. A palavra “povo” exprime uma certa
unidade e sugere interesses comuns; a “população” de um território tem
interesses diferentes e opostos. Da mesma forma, aquele que fala em
“terra” e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as
mentiras dos poderosos, porque não fala do preço do trabalho e das
sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos ricaços das cidades e
não aos dos camponeses que se matam a tornar fértil o “paraíso”.
“Latifúndio” é a expressão justa: torna a trapaça menos fácil. Nos
lugares onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez de “disciplina”,
a palavra “obediência”, já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é
possível, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a
obediência. Do mesmo modo, “dignidade humana” vale mais do que “honra”:
com a primeira expressão o indivíduo não desaparece tão facilmente do
campo visual; por outro lado, conhece-se de sobra o gênero de canalha
que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que
prodigalidade os gordos desonrados distribuem “honrarias” pelos
famélicos que os engordam.
Ao substituir avaliações inexatas de
acontecimentos nacionais por notações exatas, o método de Confúcio ainda
hoje é aplicável. Lenin, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar,
quis descrever a exploração e a opressão da ilha Sakalina pela burguesia
russa. Substituiu “Rússia” por “Japão” e “Sakalina” por “Coréia”. Os
métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os
métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não foi proibida,
porque o Japão era inimigo da Rússia. Muitas coisas que não podem ser
ditas na Alemanha a propósito da Alemanha podem sê-lo a propósito da
Áustria. Há muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.
Voltaire
combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino
sobre a Donzela de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem
dúvida foram necessários para Joana d’Arc permanecer virgem no exército,
na Corte e no meio dos frades.
Pela elegância do seu estilo e a
descrição de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes
dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que lhes fornecia os
meios de levar essa vida dissoluta. Mais e melhor deu assim às suas
obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram
destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores
favoreciam ou toleravam a difusão dos livros proibidos, e desse modo
sacrificavam a polícia que protegia os seus prazeres. E o grande
Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o ateísmo epicurista
confiava muito na beleza dos seus versos.
Não há dúvida de que um
alto nível literário pode servir de salvo-conduto à expressão de uma
ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Então, pode ser
indicado baixá-lo intencionalmente. É o que acontece, por exemplo,
quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz à socapa,
em lugares discretos, a descrição dos males da sociedade. O grande
Shakespeare baixou o seu nível por considerações bem mais fracas, quando
tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com que a mãe de
Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare
pretendia que Coriolano desistisse do seu projeto, não por causa de
razões sólidas ou de uma emoção profunda, mas por uma certa fraqueza de
caráter que o entregava aos seus velhos hábitos. Encontramos igualmente
em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de
Marco Antônio perante o corpo de César, quando repete com insistência
que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo
tempo o seu ato, e a descrição do ato provoca mais impressão que a do
autor.
Jonathan
Swift propôs numa das suas obras o seguinte meio de garantir o
bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los
como carniça no talho. Através de minuciosos cálculos, provava que se
podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada. Swift
armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar
abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos. O leitor
podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift,
sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências
decorrentes de certas concepções.
São consideradas baixas as
atividades úteis aos que são mantidos no fundo da escala: a preocupação
constante pela satisfação de necessidades; o desdém pelas honrarias com
que procuram engodar os que defendem o país onde morrem de fome; a falta
de confiança no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a
falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador; o
protesto contra a obrigação de ter um comportamento de idiotas; a
indiferença para com a família, quando de nada serve a gente
interessar-se por ela. Os esfomeados são acusados de gulodice; os que
não têm nada a defender, de covardia; os que duvidam dos seus
opressores, de duvidar da sua própria força; os que querem receber a
justa paga pelo seu trabalho, de preguiça, etc.
Numa época como a
nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria, têm de
evitar que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão sempre a
falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar à prisão
antes que a sua busca atinja o governo. Mas é sempre possível opormo-nos
à conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as
circunstâncias, que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até
na descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme à
verdade, quando se incorporam à natureza as coisas criadas pelo homem.
Recapitulação
A
grande verdade da nossa época (só seu conhecimento em nada nos faz
avançar, mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade
importante) é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele
se mantêm pela violência determinadas relações de propriedade dos meios
de produção. De que serve escrever frases corajosas mostrando que é
bárbaro o estado de coisas em que nos afundamos (o que é verdade), se a
razão de termos caído nesse estado não se descortina com clareza? É
nossa obrigação dizer que, se se tortura, é para manter as relações de
propriedade. Claro que ao dizermos isso perdemos muitos amigos; aqueles
que são contra a tortura porque julgam ser possível manter sem ela as
relações de propriedade (o que é falso).
Devemos dizer a verdade
sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país a fim de tornar
possível a ação que as fará desaparecer, isto é, que transformará as
relações de propriedade.
Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações de propriedade e
estão mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários e
aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários
dos meios de produção, embora associados aos lucros e benefícios da
exploração de quem produz. E, é claro, devemos proceder com astúcia.
Devemos
resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, já
que não podemos procurar a verdade sobre condições bárbaras sem pensar
nos que sofrem essas condições e estão dispostos a utilizar esse
conhecimento. Além disso, temos de pensar em apresentar-lhes a verdade
sob uma forma susceptível de se transformar numa arma nas suas mãos, e
simultaneamente com a astúcia suficiente para que a operação não seja
descoberta e impedida pelo inimigo.
São estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.