Monday, July 12, 2010
Para descontrair... em tempo de férias...
SER PORTUGUÊS É:
Levar arroz de frango para a praia.
Guardar as cuecas velhas para polir o carro.
Lavar o carro na rua, ao domingo.
Ter pelo menos duas camisas traficadas da Lacoste e uma da Tommy (de cor amarelo-canário e azul-cueca).
Passar o domingo no shopping.
Tirar a cera dos ouvidos com a chave do carro ou com a tampa da esferográfica.
Viajar pró cu de Judas e encontrar outro Tuga no restaurante.
Receber visitas e ir logo mostrar a casa toda.
Enfeitar as estantes da sala com os presentes do casamento.
Exigir que lhe chamem 'Doutor'.
Exigir que o tratem por Sr. Engenheiro.
Axaxinar o Portuguex ao eskrever.
Gastar 50 mil euros no Mercedes C220 cdi, mas não comprar o kit mãos-livres, porque 'é caro'.
Já ter 'ido à bruxa'.
Filhos baptizados e de catecismo na mão, mas nunca pôr os pés na igreja.
Não ser racista, mas abrir uma excepção com os ciganos.
Conduzir sempre pela faixa da esquerda da auto-estrada (a da direita é para os camiões).
Ir de carro para todo o lado, aconteça o que acontecer, e pelo menos, a 500 metros de casa.
Cometer 3 infracções ao código da estrada, por quilómetro percorrido!!!
Ter três telemóveis.
Gastar uma fortuna no telemóvel mas pensar duas vezes antes de ir ao dentista.
Ir à bola, comprar o bilhete 'prá-geral' e saltar 'prá-central'.
Viver em casa dos pais até aos 30 anos ou mais.
Ser mal atendido num serviço, ficar lixado da vida, mas não reclamar por escrito 'porque não se quer aborrecer'.
Falar mal do Governo eleito e esquecer-se que votou nele.
Viva Portugal, carago...
(recebida por e-mail...)
Sunday, July 11, 2010
Memória de Vinicius
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando
A imensa curva norte-sul
Vou com ela viajando
Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando
É tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo
Um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo
Sereno indo
E se a gente quiser
Ele vai pousar
Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega num muro
E ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
E depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
De uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
Que descolorirá
E se faço chover com dois riscos tenho um guarda-chuva
Que descolorirá
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Que descolorirá
Vinicius de Moraes
(19.10.1913 - 9.7.1980)
Saturday, July 10, 2010
Para ti...
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Hoje deixo-te linhas. Muitas linhas. Todas elas fazem parte da linha da tua vida, cheia de inquietações e medos. Sonhos, mistérios e segredos. Linhas que já percorreste, outras ainda para andar. Cada linha pode ser um afluente no rio que sempre és. Puro na nascente. Fresco a beber. Ternura refrescante quando em dias quentes mergulho em ti. Fonte solidária que me abraça, sempre que preciso.
Hoje deixo-te linhas. Tantas linhas. Algumas que quero ainda percorrer contigo, talvez no areal onde o mar nos beija os pés. Onde desaguas todos os dias, força da natureza feita sonho para saborear. Cada linha pode ser um filho parido sempre com dor. Ou talvez um amor. Quem sabe um grito. Olhar penetrante sorriso menino poeta bailarino. Fonte de ternura e inquietação presente, sempre que preciso.
Hoje deixo-te linhas. Apenas. Gravadas a fogo...
Thursday, July 08, 2010
***
Agora quero sair de ti e não consigo...
Tuesday, July 06, 2010
Espero
Mas ainda te espero.
Vazio ficou o teu lugar junto do meu corpo.
O teu cheiro permanece nos lençóis onde me deito.
Mais uma vez.
Porque ainda te espero.
Sabes que te vou esperar sempre.
Monday, July 05, 2010
Saturday, July 03, 2010
Friday, July 02, 2010
Wednesday, June 30, 2010
Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinicius de Moraes
Monday, June 28, 2010
Porque corre o rio tão longe
Saturday, June 26, 2010
Música para o fim-de-semana
A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha côr
Vermelho!...
A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha côr
Meu coração!...
Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
He Ho! He Ho!
Tudo é garantido
Após a rosa vermelhar
Tudo é garantido
Após o sol vermelhecer...
Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou!
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou...(2x)
A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha côr
Vermelho!...
A côr do meu batuque
Tem o toque, tem o som
Da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão...
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha côr
(Vermelho!)
Meu coração!...
Meu coração é vermelho
Hei! Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
He Ho! He Ho!
Tudo é garantido
Após a rosa vermelhar
Tudo é garantido
Após o sol vermelhecer...
Vermelhou o curral
A ideologia do folclore
Avermelhou!
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício
Da vitória vermelhou...(4x)
Fafá de Belém
Monday, June 21, 2010
Mar ou Vento

Perco-me a olhar a ilha, vazia de mim
Não sei contar quanto tempo é o tempo
Desato o nó e deixo-me chorar assim
Por não te ter, nem ao mar nem ao vento
Ficou comigo o teu cheiro no meu leito
Desfeito pelas mãos do amor no momento
Sangra ainda de dor este meu peito
Por não te ter, nem ao mar nem ao vento
De tudo o que guardei e já não quero
Fica o canto das ondas como um lamento
Que me acolhe e leva para onde te espero
Para depois te ter, seja no mar ou no vento.
(vou ali e depois volto. logo)
Sunday, June 20, 2010
Friday, June 18, 2010
Até amanhã, Camarada!

Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"
(16 de Novembro de 1922 - 18 de Junho de 2010)
Qualquer grito
Wednesday, June 16, 2010
Na Rua, em Luta!
Tuesday, June 15, 2010
Cinzento
Há dias assim. Em que tudo nos parece cinzento, tão cinzento que não vemos para além de nós e do que sentimos. Mas há o Mundo lá fora. À nossa volta. Há uma mão sobre o ombro, uma gargalhada que nos desperta.Apesar do nada poder ser o poema inteiro.
Há noites assim. Em que o cinzento fica preto, de tão escuro. E não queremos ver nada para além do que escrevemos. Mas sentimos. E há Vida lá fora. À nossa volta. Um olhar que te beija. Um abraço que te aquece.
Apesar do nada poder ser o poema inteiro.
Sunday, June 13, 2010
TRÊS POEMAS, MEMÓRIA DE TRÊS HOMENS
O comum da terra
Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.
Eugénio de Andrade
(para Vasco Gonçalves)
Até Amanhã
Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
Eugénio de Andrade

La Lámpara Marina
I
El Puerto Color de cielo
Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalos de ladrillo,
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas,
salpicadas del oro limonero,
del azul ultramar de los navíos.
Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de luto,
retóricos, correctos,
arreando presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo ventanas verdes,
entre montes azules,
la policía
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la sombra.
II
La Cítara Olvidada
Oh Portugal hermoso
cesta de fruta y flores,
emerges
en la orilla plateada del océano,
en la espuma de Europa,
con la cítara de oro
que te dejó Camoens,
cantando con dulzura,
esparciendo en las bocas del Atlántico
tu tempestuoso olor de vinerías,
de azahares marinos,
tu luminosa luna entrecortada
por nubes y tormentas.
III
Los presidios
Pero,
portugués de la calle,
entre nosotros,
nadie nos escucha,
sabes
dónde
está Álvaro Cunhal?
Reconoces la ausencia
del valiente
Militão?
Muchacha portuguesa,
pasas como bailando
por las calles
rosadas de Lisboa,
pero,
sabes dónde cayó Bento Gonçalves,
el portugués más puro,
el honor de tu mar e de tu arena?
Sabes
que existe
una isla,
la isla de la Sal,
y Tarrafal en ella
vierte sombra?
Sí, lo sabes, muchacha,
muchacho, sí, lo sabes.
En silencio
la palabra
anda con lentitud pero recorre
no sólo el Portugal, sino la tierra.
Sí, sabemos,
en remotos países,
que hace treinta años
una lápida
espesa como tumba o como túnica
de clerical murciélago,
ahoga, Portugal, tu triste trino,
salpica tu dulzura
con gotas de martirio
y mantiene sus cúpulas de sombra.
IV
El Mar Y Los Jazmines
De tu mano pequeña en otra hora
salieron criaturas
desgranadas
en el asombro de la geografia.
Así volvió Camoens
a dejarte una rama de jazmines
que siguió floreciendo.
La inteligencia ardió como una viña
de transparentes uvas
en tu raza.
Guerra Junqueiro entre las olas
dejó caer su trueno
de libertad bravía
que transportó el océano en su canto,
y otros multiplicaron
tu esplendor de rosales y racimos
como si de tu territorio estrecho
salieran grandes manos
derramando semillas
para toda la tierra.
Sin embargo,
el tiempo te ha enterrado.
El polvo clerical
acumulado en Coimbra
cayó en tu rostro
de naranja oceánica
y cubrió el esplendor de tu cintura.
V
La Lámpara Marina
Portugal,
vuelve al mar, a tus navíos,
Portugal, vuelve al hombre, al marinero,
vuelve a la tierra tuya, a tu fragancia,
a tu razón libre en el viento,
de nuevo
a la luz matutina
del clavel y la espuma.
Muéstranos tu tesoro,
tus hombres, tus mujeres.
No escondas más tu rostro
de embarcación valiente
puesta en las avanzadas de Océano.
Portugal, navegante,
descubridor de islas,
inventor de pimientas,
descubre el nuevo hombre,
las islas asombradas,
descubre el archipélago en el tiempo.
La súbita
aparición
del pan
sobre la mesa,
la aurora,
tú, descúbrela,
descubridor de auroras.
Cómo es esto?
Cómo puedes negarte
al ciclo de la luz tú que mostraste
caminos a los ciegos?
Tú, dulce y férreo y viejo,
angosto y ancho padre
del horizonte, cómo
puedes cerrar la puerta
a los nuevos racimos
y al viento con estrellas del Oriente?
Proa de Europa, busca
en la corriente
las olas ancestrales,
la marítima barba
de Camoens.
Rompe
las telaranãs
que cubren tu fragrante arboladura,
y entonces
a nosotros los hijos de tus hijos
aquellos para quienes
descubriste la arena
hasta entonces oscura
de la geografía deslumbrante,
muéstranos que tú puedes
atravesar de nuevo
el nuevo mar oscuro
y descubrir al hombre que ha nacido
en las islas más grandes de la tierra.
Navega, Portugal, la hora
llégó, levanta
tu estatura de proa
y entre las islas y los hombres vuelve
a ser camino.
En esta edad agrega
tu luz, vuelve a ser lámpara:
aprenderás de nuevo a ser estrella.
Pablo Neruda
(para Álvaro Cunhal)
Saturday, June 12, 2010
Wednesday, June 09, 2010
A FOME
Eis alguns dados sobre a fome:
- Mais de mil milhões de pessoas passam fome - ou seja: um em cada seis habitantes do planeta passa fome.
- Dessas, morrem todos os dias dezenas de milhares, na sua maioria mulheres e crianças.
- Em cada seis segundos morre uma criança. À fome.
- A imensa maioria dos que morrem à fome é oriunda dos «países mais pobres» - que são mais pobres porque os mais ricos lhes roubam as suas riquezas.
- A fome também marca presença nos «países mais ricos»: dos 10, 9 milhões de crianças com menos de cinco anos que morrem todos os anos nos «países desenvolvidos», 60% morrem em consequência da fome.
«A fome mata mais pessoas do que a sida, a malária e a tuberculose juntas».
Quer isto dizer que o número de vítimas da fome continua a aumentar.
Entretanto, prosseguem as «conferências», os «seminários», os «fóruns», os «anos europeus» e os «anos mundiais» que, desde há muito anos, garantem que vão acabar com a fome - mas que, até agora, apenas conseguiram aumentar as riquezas dos mais ricos.
Quanto a nós por cá... tudo bem:
«A falta de comida já afecta 95 mil crianças»
«O Banco Alimentar está a dar comida a 285 mil pessoas» - são «dez vezes mais do que a média do ano passado» e o brutal aumento deve-se, entre outras coisas, à entrada no reino da fome dos chamados «novos pobres» - que são aqueles que têm emprego e salário fixo, mas cujo rendimento não chega para comer.
É assim a vida no capitalismo que é, há centenas de anos, o sistema dominante.
E assim será enquanto o capitalismo dominar.
Até que as vítimas da fome se levantem e construam «uma terra sem amos»...
retirado do Cravo de Abril
(vou ali e depois volto. logo. logo)
Em termpo: cliquem aqui e revoltem-se!!!
http://www.publico.pt/Sociedade/criancas-vestemse-com-fardas-da-mocidade-para-reviver-100-anos-de-republica_1440933
Um Poema de José Gomes Ferreira. Porque sim!
(A Eterna Criança que me persegue a
pedir esmola. Grito de cólera.)
Ouve, Não-sei-quem:
recuso-me a viver
num mundo assim de lua podre
disfarçado de flores
com repetições de esqueletos
e a Eterna Voz Faminta
aqui na minha frente
- pálida de existir!
Ouve, Não-sei-quem:
e se, depois de tudo isto,
ainda há céu e inferno
ou outra sombra intermédia,
recuso-me terminantemente a morrer
e a entrar nessa comédia!
José Gomes Ferreira
(9.Junho.1900 - 8.Fevereiro.1985)
Tuesday, June 08, 2010
Arde um sonho no meu peito

Arde um sonho no meu peito
que tarda em afogar a mágoa
sei que o sonho para ser perfeito
precisa de muito mais do que água
Arde um sonho no meu peito
e ninguém ouve este grito
passam os momentos a eito
e o sonho ainda arde aflito
Arde um sonho no meu peito
é tempo de secar o olhar
deixo-te um abraço, ao meu jeito,
e mergulho aqui, neste mar.
Sunday, June 06, 2010
Saudade
A saudade é um aperto que nos dói no coração. Que corre nas nossas veias. Que vive dentro de nós, sempre.
A saudade é um mar imenso que engulo para te tragar. Que eu devolvo em cada maré de ir, para te recolher na maré de vir.
E que vive em mim, como um abraço. Para sempre.
Saturday, June 05, 2010
Música para o fim-de-semana
Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza lhe convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
Vinicius de Morais
Thursday, June 03, 2010
Momento...

Foi naquele momento em que nada mais contou
a não ser o amor, que tu
pacientemente
me quiseste, momento em que eu, qual menina,
com o receio dos quinze anos e a vergonha não sei de quê
te quis,
amor já desejado mas não vivido
momento belo, e profundo, e bonito,
o momento em que
nos demos
calmamente
avidamente
um ao outro
como que para recuperar um tempo perdido
que havemos de voltar a ter,
foi naquele momento em que nos amámos pela primeira vez,
esse foi o momento
que tanto ansiávamos...
E Beijo-te!
Wednesday, June 02, 2010
Porque é tão bonito...
afoga-te neles, enquanto te salvo entre os lábios
mas o meu nome é fogo que te arde na boca
aconchega-te no olhar, abraça-me o desejo
e colhe a cor dos molhos de rosas
deixa que se alimentem com murmúrios ofegantes
como mãos ansiosas e húmidas e repete-te em mim
(olha bem nos meus olhos
Vanda Paz
Tuesday, June 01, 2010
OS OLHOS DAS CRIANÇAS
Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.
Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.
Sidónio Muralha
Monday, May 31, 2010
Sunday, May 30, 2010
Adriano - Abril em Maio
Tejo que levas as águas
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes, espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro
Lava palácios vivendas
casebres bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais
Afoga empenhos, favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder dos senhores
que compram corpos e almas
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos corpos destroçados
lava-os com sal e iodo
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Friday, May 28, 2010
Thursday, May 27, 2010
Ary para quem gosta de Ary

Meu amor, meu amor
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a crescer
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.
Wednesday, May 26, 2010
Monday, May 24, 2010
Saudade

Vejo-te ainda e sempre diante de mim
o meu olhar pousa em azul dentro do teu
e as tuas mãos seguram as minhas, trémulas
Vejo-te ainda mesmo quando não estás diante de mim
sinto o abraço ardente que quero seja meu
e os corpos estremecem como se o passado fosse hoje
Vejo-te sempre que quero diante de mim
o teu sorriso cobre-me o corpo em flor, sem véu
e temos ainda tanto para nos descobrirmos...
Saturday, May 22, 2010
Thursday, May 20, 2010
Vento
Perdida de mim sem a noção do tempo
Andarilha vagabunda à chuva como açoite
Mas abro a minha cama para que se deite o vento
Sem saber de ti caminhei pelas escarpas
Ouvindo o mar como se fosse um lamento
De longe chegava-me um som de harpas
E abro a minha cama para que se deite o vento
Sem saber de ti regressei aos meus medos
Perdida dos abraços dos beijos e do tempo
Refaço-me teço-me escapo-me dos teus dedos
Porque abro a minha cama para que se deite o vento.
Wednesday, May 19, 2010
Mostajeiros
Vieram Elas, dizia, porque Eles viriam depois. Um trabalho de última hora que os reteve na cidade grande. E vieram todo o caminho conversando animadamente tão distraídas que iam passando a saída devida mas! a tempo lá apanharam a autoestrada que as levaria à Alcatra. Os estômagos preparados e quase a dar horas...
Já na planície doirada e porque Eles viriam mais tarde que tal um café disse uma pois com uma empada disse a outra. E lá foram às empadas e ao café. Ah, as empadas, 'aquelas' que seriam deglutidas como o melhor manjar. Porque os estômagos já pediam a Alcatra e há que enganá-los com as empadas.
Os Amigos esperavam quem vinha de lonje e a casa cheirava a canela do arroz doce ainda morno e a Alcatra que afinal é acém e que continuava lentamente ao lume. E o gato da vizinha não aparecia...
Finalmente chegou Ele. Só um. Já sabíamos que o outro não viria, contratempos que deverão ser recompensados com outra Alcatra, um dia destes.
Haja alguém que abra o vinho, para respirar. Temos de ir buscar as migas e as empadas dizia o dono da casa e lá foi com o outro. E o gato da vizinha não aparecia...
Alcatra é com massa sovada dizia a dona da casa o que é massa sovada é aquela espécie de pão que está no cesto ah pois ao pé do pãozinho alentejano tão bom para molhar...
Finalmente sentados à mesa com a Alcatra que afinal é acém à frente e a batata doce a massa sovada as migas e as 'outras' empadas. Irresistíveis. De comer uma atrás da outra. E depois a Alcatra, deliciosa, porque tudo o que é feito com amor fica delicioso. E a Alcatra foi feita com amor. E o gato da vizinha que não aparecia...
Está aqui uísque para quem quiser por mim bebo desta aguardente.
Por fim, mesmo no fim, apareceu o gato da vizinha. Não veio ao cheiro da Alcatra, não. Veio atrás do cheiro da aguardente.
O que é que o título deste post tem a ver com a Alcatra que afinal é acém e as empadas e as migas e o arroz doce e o pão de rala e a encharcada e os pastéis de nata e os queijos e tudo o resto? Nada. Ou quase nada.
Mas para digerir tudo isto não há nada como uma aguardente de Mostajeiros!
Monday, May 17, 2010
Do que existe

Existe um sorriso no teu olhar. Como existe um silêncio em cada grito. E um abraço em cada solidão. Dos que se sentem. Dos que nos esmagam. Dos que nos amassam.
Existe um poema no teu corpo. Como existe uma lágrima em cada rosto. E um amor em cada mão. Dos que se vivem. Dos que nos moem. Dos que nos doem.
Existe uma porta sempre aberta. Como existe uma estrada para andar. E um futuro à nossa frente. E uma praça cheia de gente. E as palavras a soltar. E um abraço para te dar.
Saturday, May 15, 2010
Música para o fim-de-semana
Eh! Companheiro
Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma e feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p´ras duas pernas cortar
Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu´rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar
Eh! Companheiro eu falo
eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião
Eh! Companheiro respondo
respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão
Eh! Companheiro vou falar
vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer
Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou p´ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur´cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver
Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p´ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar
Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p´ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.
Monday, May 10, 2010
Os dias do verbo amar

Sei dos caminhos enviezados da vida
que lentamente se desfazem no mar
dos dias sim da alegria vivida
dos dias não que teimam em não cessar
Mas já não sei dos dias do verbo amar
Sei dos escolhos que a vida nos oferece
que lentamente se desfazem no mar
das ausências que a solidão tece
e das certezas que nos fazem sonhar
Mas já não sei dos dias do verbo amar
Sei das noites amargas sem o toque da pele
que lentamente se desfazem no mar
dos corpos cansados do amor e do mel
e das lágrimas que saltam do meu olhar
Porque já não sei dos dias do verbo amar.
(eu vou ali. depois volto, logo logo...)
Saturday, May 08, 2010
Música para o fim-de-semana
DISPARADA
Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...
Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...
Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...
Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...
Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...
Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar
Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...
Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei
Thursday, May 06, 2010
Vento

Sei da embriaguez forte dos abraços
E dos beijos e gemidos lançados ao vento
Em noites por dormir contando os passos
Que nos faltam para chegar, num cante lento
Sei da voz silenciosa em grito doce
E do olhar raso de água, forte e profundo
Às vezes cantando assim como se fosse
A última vez que cantasse para o mundo
Sei de ti, poeta vagabundo deste rio
Semente que renasce sempre a tempo
Raíz de ti flor e fruto breve, e sorrio
Quando te vejo de braços abertos ao vento...
Wednesday, May 05, 2010
M*
Monday, May 03, 2010
Nunca seremos demais

Quantos fomos, quantos somos
importa que a cada instante
todos juntos lado a lado
tenhamos a força bastante
Quantos desceram a avenida
mais uma vez no novo dia
importa a certeza do grito
e o punho erguido com alegria
Temos ainda o sangue a ferver
e recomeçaremos o tudo e o mais
ainda que sejamos bastantes
nunca seremos demais!
Sunday, May 02, 2010
Música de Abril VIII (e Maio!)
Llanto para Alfonso Sastre y todos
Foi quando as madres terríveis
Levantaram a cabeça
Foi quando os sinos dobraram
Nas torres de Saragoça
Foi quando a Guarda Civil
Surgiu no brilho de aço
Que de novo se pintou
A Guernica de Picasso
Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de lutar
Pela Espanha de amanhã
Era a hora de acordar
A voz de Lorca e Machado
Era a hora de atacar
Com a foice e o arado
Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de lutar
Pela Espanha de amanhã
Algures na arena da esperança
Contra os cornos do fascismo
Um poeta abria a dança
Dos passos do heroísmo
Suas palavras agudas
Feriam as carnes da besta
Pois jamais se quedam mudas
As vozes de quem protesta
Algures na arena da esperança
Contra os cornos do terror
Um poeta abria a dança
Das palavras que dão flor
Dizia amigo canção
Pátria alento humanidade
Dizia verdade e pão
Como quem diz liberdade
Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de cantar
Pela Espanha de amanhã
Foi então que do mais fundo
Do ódio do mal do medo
Irrompeu o berro imundo
De quem oprime e não cede
Choveram balas patadas
Correntes golpes mordaças
E palavras embrulhadas
Em insultos e ameaças
Chegaram ferros e facas
Uivos lâmpadas chicotes
Choques agulhas matracas
Baionetas e garrotes
Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de calar
Pela Espanha de amanhã
Algures na arena da esperança
Um poeta foi torturado
Sua alegria a vingança
Seu nome cantor soldado
Algures na arena da esperança
Um poeta foi torturado
Sua alegria a vingança
Seu nome cantor soldado
Não eram cinco da tarde
Nem da noite ou da manhã
Era a hora de cantar
Pela Espanha de amanhã
Saturday, May 01, 2010
Abril é Ary VI. E Maio também!

O Futuro
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
Friday, April 30, 2010
Abril é Ary V

Soneto do Trabalho
Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.
Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.
Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.
Levanta-se meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
Thursday, April 29, 2010
Abril é Ary IV

De pé, oh Companheiro
Cantar aqueles que partiram
é dar força à liberdade
as flores vermelhas que os cobriram
tornaram alegre a saudade.
Foi naquela tarde de Maio
que lhes dissemos adeus
quem disser adeus em Maio
nunca se afasta dos seus.
De pé, de pé oh companheiro!
De pé e punho levantado
o que morreu é o primeiro
a estar de pé ao nosso lado.
Quem tombar no caminho
continua ao nosso lado
partir não é estar sozinho
é lutar acompanhado.
Por isso os que não ficaram
nem calados nem cativos
em Maio não nos deixaram
pois para nós só há vivos.
Na batalha que travamos
não há tristeza nem morte
a bandeira que levamos
é a razão do mais forte.
Baixando à terra com ela
quem morre devolve à terra
a semente ainda mais bela
contra a fome e contra a guerra.
Wednesday, April 28, 2010
Abril é Ary III

Os bonzinhos e os malvados
Dum lado os bonzinhos
com o seu ar sisudo
andando aos passinhos
dentro do veludo.
Do outro os malvados
cabelos ao vento
de fatos coçados
por bom e mau tempo.
Dum lado os bonzinhos
gordinhos, gulosos
comendo pratinhos
muito apetitosos.
Do outro os malvados
a ferrar o dente
em grandes bocados
de chouriço ardente.
Dum lado os bonzinhos
com muito cuidado
a dar beijinhos
com dia aprazado.
Do outro os malvados
a fazer amor
sem dias marcados
com frio ou calor.
Dum lado os bonzinhos
muito estudiosos
dizendo versinhos
em salões ranhosos.
Do outro os malvados
gritando na rua
que os braços estão dados
que a esperança está nua.
Dum lado os bonzinhos
metidos na cama
tomando chazinhos
molhando o pijama.
Do outro os malvados
os que dormem nus
sonhando acordados
com feixes de luz.
Dum lado os bonzinhos
batendo nos tectos
sempre que os vizinhos
são mais incorrectos.
Do outro os malvados
que fazem barulho
despreocupados
ao som do vasculho.
Devo ter por certo
os gostos trocados
detesto os bonzinhos
adoro os malvados.
Tuesday, April 27, 2010
Abril é Ary II
Da alavanca ao tear da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.
Da prensa que se fez para esmagar
à tupia no corpo da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta de uma britadeira.
Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solda
à luz da luta e não do acetileno
nasce este canto imenso e universal
sincopado enérgico fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.
Transformar a matéria é transformar
a própria sociedade que nós fomos
ser operário é apenas saber dar
mais um pouco de nós ao que nós somos.
Um braço é muito mas por si não chega
por trás da nossa mão há uma razão
que faz de cada gesto sempre a entrega
de um pouco mais de força. De mais pão.
Estamos todos num único universo
e não há uns abaixo outros acima
pois se um poema é uma obra em verso
um parafuso é uma obra-prima.
Operários das palavras ou do aço
da terra do minério do cimento
em cada um de nós há um pedaço
da força que só tem o sofrimento.
Vamos cavá-la com a pá das mãos
provar que em cada um nós somos mil
é tempo de alegria meus irmãos
é tempo de pegarmos por Abril.
Monday, April 26, 2010
Sunday, April 25, 2010
Para os que O viveram há 36 anos. Para os que O vivem hoje. Para os que O hão-de saber, um dia!
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
VIVA O 25 DE ABRIL!
Saturday, April 24, 2010
Música de Abril VII
Trova do amor lusíada
Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos da liberdade.
Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar.
Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Friday, April 23, 2010
Música de Abril VI
Fala do Homem Nascido
Venho da terra assombrada
do ventre de minha mãe
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci
Trago boca pra comer
e olhos pra desejar
tenho pressa de viver
que a vida é água a correr
Venho do fundo do tempo
não tenho tempo a perder
minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham
nem forças que me molestem
correntes que me detenham
Quero eu e a natureza
que a natureza sou eu
e as forças da natureza
nunca ninguém as venceu
Com licença com licença
que a barca se fez ao mar
não há poder que me vença
mesmo morto hei-de passar
com licença com licença
com rumo à estrela polar
Thursday, April 22, 2010
Música de Abril V
Menino do Bairro Negro
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar
Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz
Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também
Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego
Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar
Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti
Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver
Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego
Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Wednesday, April 21, 2010
Música de Abril IV
Cantar de emigração
Este parte, aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão
Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai
Coração que tens e sofres
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará
Este parte, aquele parte
E todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
Que possam cortar teu pão
Tuesday, April 20, 2010
Música de Abril III
Ser Solidário
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz
De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção
Ser solidário assim tão longe e perto
No coração de mim por mim aberto
Amando a inquietação que permanece
Pr’além da inquietação que me apetece
De como aqui chegar nada direi
Senão que tu já sentes o que eu sei
Apenas o momento do teu sonho
No amor intemporal que nos proponho
Ser solidário sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime
De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria
Monday, April 19, 2010
Música de Abril II
Canta Camarada
Canta camarada canta
canta que ninguém te afronta
que esta minha espada corta
dos copos até à ponta
Eu hei-de morrer de um tiro
Ou duma faca de ponta
Se hei-de morrer amanhã
morra hoje tanto conta
Tenho sina de morrer
na ponta de uma navalha
Toda a vida hei-de dizer
Morra o homem na batalha
Viva a malta e trema a terra
Aqui ninguém arredou
nem há-de tremer na Guerra
Sendo um homem como eu sou
Saturday, April 17, 2010
Música de Abril I
Canção da Beira Baixa
Era ainda pequenino
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Acabado de nascer.
'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.
'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.
Quando eu já for velhinho
Quando eu já for velhinho
Acabado de morrer
Acabado de morrer.
Olha bem para os meus olhos
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p'ra te ver...
...acabados de morrer.
Olha bem para os meus olhos
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p'ra te ver...
...acabados de morrer.
Era ainda pequenino
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Acabado de nascer.
'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.
'Inda mal abria os olhos
'Inda mal abria os olhos
Já era para te ver...
...acabado de nascer.
Thursday, April 15, 2010
Noite

É de noite que renasço cada dia. É de noite que as palavras me escorrem pelos dedos como se fossem água de um rio caudaloso que corre desenfreado até à foz. Das palavras.
É de noite que me refaço ao pôr da lua. E é de noite que a poesia se solta do meu peito como se fosse um grito que ninguém ouve porque se juntou ao rio e já desaguou no mar.
É de noite que os amores secretos se encontram. Ainda que distantes. Ainda que apenas em pensamento. É de noite que escrevo porque as palavras me regressam em cada maré. E porque gosto deste silêncio...
Tuesday, April 13, 2010
Rente ao coração
Monday, April 12, 2010
UNO
Não creias senão em ti e naquilo que te cerca.
Porque aquilo que te cerca és tu.
E, por mais que te pareça estranho e primitivo,
tu és apenas aquilo que te cerca.
Não creias senão em ti.
Bem sei que há: o eco das montanhas e o mistério das sombras.
Mas o que é o eco das montanhas senão a tua voz?
E o mistério das sombras mais que uma ausência de luz?
Bem sei que para além da ilusão do horizonte
há ainda mais coisas.
Mas não as creias diferentes e superiores a ti:
crê antes que são longe e, sobretudo, coisas como tu.
Não creias no não sei quê:
o não sei quê é sempre qualquer coisa.
O papão do oó das histórias de menino
era afinal um pobre inofensivo
ou uma velha vassoura atrás de uma vidraça.
E a palavra do morto estendido no caixão
era apenas a ruptura duma artéria qualquer.
Os teus braços, tam curtos, estão na terra toda,
e a terra, tam pequena, está em todo o universo.
Não creias em existências para além ou para aquém.
Nem que tu estás aquém ou que tu estás além.
Tu que estás em toda a parte e tudo está em ti.
Mário Dionísio
(«Com Todos os Homens nas Estradas do Mundo»)
Trazido do Cravo de Abril
Saturday, April 10, 2010
Thursday, April 08, 2010
O teu olhar
Wednesday, April 07, 2010
Um video muito especial
Recebi este video por mail. Achei que o devia partilhar convosco.
Pelo menos para pensarmos um pouco...
Tuesday, April 06, 2010
Liberta

Já te tinha dito que não se pode sepultar o amor, porque o amor tem asas.
Os amores voam. Libertam-se. O amor é a liberdade maior que temos: a de amar, Sim!
E as minhas inquietações são as mesmas, e serão as mesmas, porque as horas correm e eu não posso fazer parar os relógios. Muito menos o Tempo.
Hoje acrescentei mais uma inquietação às outras todas. Sinto que as acrescento todos os dias. Inquietações e angústias. Serão dificuldades em aceitar o que se vai passando e que eu não posso mudar. Mas tento...
Angústias dos dias passados a correr e não vividos. Das noites mal dormidas em que não vens e te sonho, apenas. Serão saudades... afinal sou feita de saudades, de angústias, de inquietações. E de amor, também.
Um dia destes vou mergulhar no mar, pois só ele me sabe lavar por dentro.
E só assim me sentirei liberta!






















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