Monday, August 20, 2012

Meu galope é em frente


Direis que não é poesia
e a
mim que importa?
Eu canto porque a voz nasce e tem de libertar-se.
E
grito porque respondo
às
lanças que me espetam
e aos
braços que me chamam,
E
porque, dia e noite, minhas mãos e meus olhos,
por estranhas telegrafias,
dos
cantos mais ignotos
e das
linhas perdidas
e dos
campos esquecidos
e dos
lagos remotos,
e dos
montes,
recebem longas
mensagens e comunicações:
para que grite e cante.
O meu grito e meu canto é a voz de milhões.
Por isso que me importa?
Eu canto e cantarei o que tiver a cantar
e
grito e gritarei o que tiver a gritar
e
falo e falarei o que tiver a falar.
Direis que não é poesia.
E a
mim que importa
se
eu estou aqui apenas para escancarar a porta
e
derrubar os muros?
E a
mim que importa
se
vós sois afinal o que hei-de ultrapassar
e
esmigalhar
em nome
de
todos os futuros?
Eu sigo e seguirei,
como um doido ou um anjo,
obstinado e heróico a caminho de nós
em palavras e acções
por todos os vendavais
e
temporais
e
multidões
nos cantos mais ignotos
e nas
linhas perdidas
e
nos campos esquecidos
e
nos lagos remotos
e
nos montes
-
por terra, mar e ar.
Direis que não é poesia
E a
mim que importa!
Convosco ou não, meu galope é em frente.
Pertenço a
outra raça, a outro mundo, a outra gente.
É andar, é andar!

Mário Dionísio

Sunday, August 19, 2012

Memória de Federico Garcia Lorca




Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.
Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.

Los toros se han revelado,
la impotencia llora y llama,
y desde un río de sangre
hay una voz que reclama, ¡ay!
hay una voz que reclama
la importancia de un amigo,
poeta de cien mil lunas,
garganta dura y hombruna,
gitano de profesión, ¡ay!
por quien hoy rompo yo la voz.

Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.

Se te escapó la mañana
por detrás de la alcazaba,
caminando ya sin prisas,
amaestrando sonrisas, ¡ay!
amaestrando sonrisas;
y se tiñeron los campos
verdes de la primavera
cuando la nación entera
cabalgó sobre tu llanto ¡ay!
Tú poeta, y ellos tantos...

Verde que te quiero verde, ¡ay!
verde que te quiero verde.

Hoy el verso me reclama
una luz y una llamada,
un canto de cuerpo y alma
como el que el tuyo cantaba, ¡ay!
como el que el tuyo cantaba.

Y el pueblo llora la calma,
y canta porque se ahorca,
y hace tu muerte inmortal
cada vez que alguien te nombra
Federico García Lorca.


Patxi Andion
 

Saturday, August 18, 2012

Música para o fim-de-semana




Não é a primeira vez que coloco aqui esta cantiga. Não será a última...

Monday, August 13, 2012

Ainda não dissemos tudo



A serpente persegue a sombra da águia
até ao lugar onde é mais profunda a raiz da água.
Porque escondes o teu livro
quando folheias o coração?
Em que lugar amadurecem cachos de surpresa
durante a ausência dos teus dedos?
Esta manhã é soberba
de sonhos e de cães.
Espero por ti depois das horas de ternura
para mais ternura ainda.
Espero por ti depois do amor
para fazermos mais amor.
Façamos café, depois do fogo.
Temos, dos outros, as nossas mãos.
Herdámos a vida de mulheres e de homens antes de nós
e a outros homens e as outras mulheres não deixaremos
apenas o vento como herança.
O que vês na água?
Com quê construíste a tua casa?
Em que manhã fizeste perguntas ao teu filho?
A serpente continua perseguindo
a sombra da águia.
De quem é o objecto que deténs em tua mão?
Porque cresce a tristeza nos teus ombros?
Esse rio que passa à tua porta e chama por ti
é um rio de sangue
com um caudal de corpos inocentes.
As suas margens são agrestes mas a tua infelicidade
não deixa que lhes descubras os punhais.
Há em ti o mesmo rio.
Não poderás dar um passo, longe ou perto,
sem que firas a tua carne
ou magoes mais os ossos já antes magoados.
Tu tens as tuas próprias margens.
Por favor, destrói as tuas margens.
Acende uma fogueira para que dentro dos teus olhos
possas sentar-te comigo em redor do fogo.
A lua calou-se. Está morta.
Morreram com ela metade dos poetas
e a nova poesia será escrita pelos que sobreviveram.
Verás passar pela tua noite
os mais humildes, os mais sacrificados, aqueles que,
conhecendo o medo,  não aceitam as privações e a miséria.
Não poderás voltar-te para o lado e adormecer.
Não deves voltar-te para o lado e tentar esquecer.
Há quanto tempo não escutas a tua fala?
Que espécie de claridade adquiriste para as tuas janelas?
Hoje não é o último dia.
Corre agora a serpente
sobre a sombra da águia. Para lá da tua bebida
morrem povos com sede.
Há milhares de criaturas mortas
nos restos das tuas refeições.
Ajudas a assassinar rios, pássaros e muitos dos teus irmãos
com um simples encolher de ombros.
Constroem-se toneladas de bombas na tua indiferença.
Envenenam-se oceanos para teu conforto.
Por toda a parte se polui o ar de vales e montanhas
para fabricar a tua asfixia.
De onde retirarás mais diamantes? Da boca dos cadáveres?
Em que morte
deixarás apodrecer a tua vida?
A serpente desafia
a sombra da águia.
A nossa manhã continua soberba
de sonhos e de cães.
Façamos café, depois do fogo.
E conversemos. Ainda não
dissemos tudo.

Joaquim Pessoa

in "Inéditos" de "125 POEMAS,
Antologia poética",
Litexa Editora, 3ª ed.


Monday, August 06, 2012

ARTE DE NAVEGAR


Vê como o Verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.

Eugénio de Andrade

Wednesday, August 01, 2012

Sem título



primeiro foi a tua roupa interior,
depois levaste os vestidos,
as blusas, a escova de penteares os cabelos após o duche.
depois levaste o corpo que vestias e que despias,
os cabelos, os olhos, finalmente.
depois a casa ficou mais fria,
como um remoinho de coisa nenhuma,
onde tudo se esgota inexoravelmente para o vazio.
depois, mesmo depois de teres ido,
abandonou-me o cheiro que deixaste nos lençóis.

lentamente, vai-se a alma que aqui morava,
e definha a que me habita.
 
Miguel Tiago

Friday, July 27, 2012

Música para o fim-de-semana




Me esta doliendo una pena
Y no la puedo parar
y se revuelve en silencio
tumba abierta en soledad
y quiero hacerla cometa
para poderla volar ...

Me esta ganando esta pena
y no la quiero ceder
y busca por ser palabra
y es por hacerse entender
en brazos de mi guitarra
y la tengo que esconder ...

Y en mi guitarra quisiera
dejar la pena llorar
hacerla surco en el tiempo
hacerla tiempo en el mar
hacer con la mar un viento
que se la pueda llevar

Me esta doliendo una pena
acunada en el portal
de este vacio sonoro
que no sabe adonde va
de este vacio que lloro
por quererlo remediar ...

Y en mi guitarra quisiera
Dejar la pena llorar
romper la monotonia
de este pueblo en carnaval
de este pueblo que me duele
cada dia mas y mas
Y que es una imensa pena
y me tengo que callar..

Me esta doliendo una pena
Y me tengo que callar...

Wednesday, July 25, 2012

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Conhecemo-nos no Sindicato, há quase 40 anos.
Trabalhámos no mesmo edifício, em escritórios diferentes.
Convidei-a para assistir a um Congresso do meu Partido, acompanhei-a nos intervalos dos trabalhos, e a seguir inscreveu-se ela no Partido. Pertencemos ao mesmo Organismo durante muitos anos. Trabalhávamos na organização sábados, domingos e feriados, sempre que preciso.
E íamos no final da tarde ou para minha casa ou para casa dela, onde estavam as filhas e o companheiro. Foi um convívio diário de muitos, muitos anos.
Quis a vida que eu mudasse de escritório, depois veio a reforma e encontrávamo-nos nas manifestações. Ah, e na Festa! No ano passado lá estava ela, a Nita, a mostrar a Festa aos netos.
A última vez que a vi foi nos Restauradores, no final de uma manifestação. Já estava também reformada. Combinámos falar-nos para reviver os velhos tempos. Um dia.
Hoje, a Nita estava de férias quando, de repente, deixou de respirar. Já não vamos reviver os velhos tempos. Nem lhe darei o último abraço...

Friday, July 13, 2012

Astúrias em Madrid



A razão e a força.

É por haver gente de tamanha altivez, verticalidade e coragem que não perco a esperança.

Uma foto a oferecer aos cobardes e vendidos para pendurarem no cimo da sua cobardia.

Exemplos, entre muitos, para que os resignados, os desiludidos ou sem horizontes se apercebam de que nada é eterno, que a luta não é fácil mas que o futuro é assim que se constrói.

UM ABRAÇO DE EMOÇÃO PARA TODOS OS QUE LUTAM
(post completamente surripiado daqui)

Tuesday, July 10, 2012

Rio de mim...

 
Esperando que  voltes a ser rio e desagues nos meus abraços...

Sunday, June 17, 2012

A COR DA LUTA!




VERMELHA QUE TE QUERO ASSIM!!!

Friday, June 15, 2012

Música para este fim de semana



Aprendimos a quererte
desde la histórica altura
donde el sol de tu bravura
le puso cerco a la muerte.

Aquí se queda la clara,
la entrañable transparencia,
de tu querida presencia
Comandante Che Guevara.

Tu mano gloriosa y fuerte
sobre la historia dispara
cuando todo Santa Clara
se despierta para verte.

Vienes quemando la brisa
con soles de primavera
para plantar la bandera
con la luz de tu sonrisa.

Tu amor revolucionario
te conduce a nueva empresa
donde esperan la firmeza
de tu brazo libertario.

Seguiremos adelante
como junto a ti seguimos
y con Fidel te decimos:
!Hasta siempre, Comandante!

(longe. mas depois volto)

Thursday, June 14, 2012

Memória de Che Guevara



Último discurso de Che.

Wednesday, June 13, 2012

Memória de Álvaro Cunhal

ENTRE AS FLORES DE JUNHO

Álvaro Cunhal. As tuas cinzas jazem num canteiro No último combate com a fatalIdade No derradeiro encontro das Quatro Estações Assim te semeaste nos Jardins da Terra Assim respondeste às bandeiras nos túmulos numa tarde de sol para todos nós Entre as flores de Junho

Álvaro

Saiu uma nuvem de adeus No crematório Entre as jacarandás Vestidas de roxo

Álvaro

Tu sabias que eras pó criaDor Tu sabias que eras breve mas jamais ausEnte

Álvaro

Não vale a pena dizer que não morreste Vale a pena dizer o que deve ser dito Que nos ensinaste a viVer e a morrer

Álvaro

Não repetirei os passos da tua vida Não recontarei os passos da tua morte Somente lembrarei que a História da Humanidade e a História de Portugal estiveram no teu cortejo e bem se vê que continuarão a precisar do teu nome Para escreVer o nome do Homem

Álvaro

Lámpara Marina em cada anoitecer Na melancolia recliNada nas janelas de Lisboa

Álvaro

Dir-te-ei Continuas presEnte no mundo Embora te tenhas ausentado em Junho

Álvaro

Nunca será em vão chOrar por ti Mas cantaremos todos os dias Até que amanhã seja já hoje


César Principe
resistir.info

Monday, June 11, 2012

Memória de Vasco Gonçalves


O Comum da Terra

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
de cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

Monday, June 04, 2012

ILHA




Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias


David Mourão-Ferreira

(pausa na pausa. aqui estou...)

Tuesday, May 29, 2012

Distante

(foto da Andreia Mukanda roubada ao Pedro Branco)

Pouso o meu olhar no rio. Bebo-o como se tivesse muita sede. Deixo que me corra nas veias e passeio-me pelas ruas com o rio dentro.
Levo os meus passos pelas avenidas. As que quero rever e as que desejo descobrir. Deixo que os sons da cidade se confundam com a luz que me deixa quase cega.
Respiro este ar e guardo o cheiro para mim. É o que quero levar, o cheiro. Choro todas as lágrimas de sangue e deixo que os braços a meu lado me abracem. Nestes braços estão todos os vossos braços. E os vossos abraços.
E volto, com o rio a correr-me nas veias, com as ruas percorrendo-me o corpo, com a luz no meu olhar e o cheiro na minha boca. Receberei o beijo que guardarei para sempre.
E para sempre vos deixo, hoje, o meu abraço. Tão especial, hoje.

Tuesday, May 22, 2012

Porque me apetece Brecht



O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe,
da farinha, da renda de casa, dos sapatos, dos remédios,
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e
enche o peito de ar dizendo que odeia a política.
Não sabe, o idiota,
que da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
e o pior de todos os bandidos
que é o político vigarista, aldrabão,
o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.


(Bertold Brecht)

(ainda em pausa. mais ou menos 'forçada'...)
 

Saturday, May 19, 2012

Memória de Catarina



Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p´ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

Friday, May 11, 2012

............






(apenas uma interrupção na pausa...)

Wednesday, May 09, 2012

A Noite na Ilha


Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.


Pablo Neruda

(faço uma pausa. necessária. 
preciso de ir até à ilha. um dia eu volto)

Monday, May 07, 2012

Nunca seremos demais!


Quantos fomos, quantos somos
importa que a cada instante
todos juntos lado a lado
tenhamos a força bastante

Quantos desceram a avenida
mais uma vez no novo dia
importa a certeza do grito
e o punho erguido com alegria

Temos ainda o sangue a ferver
e recomeçaremos o tudo e o mais
ainda que sejamos bastantes
nunca seremos demais!

Saturday, May 05, 2012

M*


Flor de Abril. Em Maio!

Um amor tanto! Todo! Sempre! Mais!

Thursday, May 03, 2012

Noite


É de noite que renasço cada dia. É de noite que as palavras me escorrem pelos dedos como se fossem água de um rio caudaloso que corre desenfreado até à foz. Das palavras.
É de noite que me refaço ao pôr da lua. E é de noite que a poesia se solta do meu peito como se fosse um grito que ninguém ouve porque se juntou ao rio e já desaguou no mar.
É de noite que os amores secretos se encontram. Ainda que distantes. Ainda que apenas em pensamento. É de noite que escrevo porque as palavras me regressam em cada maré. E porque gosto deste silêncio...

Wednesday, May 02, 2012

.....


Ontem foi 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Dia que tem as suas raízes na luta dos trabalhadores que saíram para as ruas em Chicago, em 1886, exigindo a redução da jornada para oito horas de trabalho.
Ontem foi 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Dia que se pode comemorar no nosso país, em Liberdade, depois do 25 de Abril de 1974. Houve algumas centenas de trabalhadores que desceram a avenida da Liberdade. Outros, muitos milhares, subiram a avenida Almirante Reis até à Alameda. Outros ainda, um pouco por todo o país, preferiram correr atrás de uma cenoura a que chamaram desconto de 50%.
Ontem foi dia 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Trinta e oito anos depois de Abril sinto-me agoniada. De tristeza, de revolta, de raiva. Sei que daqui a pouco, quando acordar, tudo isto que sinto agora se transformará numa força enorme. Numa vontade de redobrar a Luta. Numa confiança crescente.
Ontem foi dia 1º de Maio. Dia do Trabalhador. Tanto caminho a fazer para despertar consciências. Ainda...


Monday, April 30, 2012

Abril é Ary! E Maio também!


O Futuro

Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

Wednesday, April 25, 2012

...

O dia foi cinzento. Como cinzenta e escura foi a noite. É esta a cor que me vai perseguir mais umas horas, é em cinza que te vais tornar daqui a pouco, e eu recolho-me no abraço que nunca mais nos daremos.
Pauso-me. Para fazer o que tem de ser feito.

Tuesday, April 24, 2012

Tempo de Abril



25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen


Friday, April 20, 2012

A um Homem de Abril




"a Vasco Gonçalves”

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

Wednesday, April 18, 2012

Poema Quadragésimo


Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.


Joaquim Pessoa
(Do livro Guardar o Fogo, a publicar)

Monday, April 16, 2012

O lado de nós

Lua que me adormece e me embala
No mar revolto dos sonhos por viver
Deixa que as ondas me venham lamber
Este corpo que é teu mas que se cala

Mãos que se entrelaçam deste lado
Sorrisos que trocamos de olhar absorto
Beijos que não demos, um nem outro
Em pas-de-deux fugidio e isolado

No lado de nós ficará, por fim
Tudo o que dissemos e fizemos um dia
E em que nos demos o abraço em alegria
Quando plantámos mais uma flor no teu jardim.


Friday, April 13, 2012

Música para o fim-de-semana



Clareia manhã
O sol vai esconder a clara estrela
Ardente, pérola do céu refletindo teus olhos
A luz do dia a contemplar teu corpo
Sedento, louco de prazer e desejos
Ardentes

Wednesday, April 11, 2012

Este lago de ti


Percorres as palavras e o tempo como se fosse a última vez. Sei da dor de ter tanta dor a rasgar o peito.
Pousas o olhar no rio que queres mar e lago ao mesmo tempo. E vejo duas lágrimas quentes a escorrerem no leito.
Caminhas passo largo nas ruas que reconheces e queres rever. E a saudade de tudo a apertar o coração.
Oiço os teus gritos silenciosos e da tua boca nasce outra canção. Rasgas-te de tanta inquietação.
Respiras o ar em busca de novo fôlego de nova vida. Raiz de ti! Que continuas de pé e és árvore quando estendes os braços e abraças os teus frutos. Que com sorrisos te vão sarando a cicatriz.
Com tempo no tempo e a tempo voltarás sempre a nascer. E sei que já és feliz!

É deste lago de ti que te sorrio. E te abraço, num abraço que é só nosso.
(as lágrimas também podem aquecer o peito...)

Monday, April 09, 2012

Fala-me do vento

Fala-me do vento. Do que me inunda os sonhos do dia e me inquieta na noite. Do que sopra em todas as direcções menos na minha. Do que te envolve e assobia quando as tempestades te assolam.
Fala-me do vento. Do que respiro para ter a sensação de que te engulo. Do que me bate forte na cara logo de manhã para acordar. Do que te entra no olhar e te faz sorrir assim.
Fala-me do vento. Do que abraço todas as noites quando me deito. Do que na tua ausência dorme sempre comigo neste leito.
Fala-me do vento. Desse que, devagarinho, te faz entrar em mim.

Saturday, April 07, 2012

Música para o fim-de-semana



Dia da Criação

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


Vinicius de Moraes

Thursday, April 05, 2012

Escrevo...


Escrevo o amor na areia de qualquer praia

que um dia foi só nossa a noite inteira

clandestinos amantes onde a onda se espraia

incendiando a palavra de qualquer maneira

Escrevo a saudade a sal e sangue

e espero por ti em todas as marés

amanheço-me entre pedras exausta e exangue

de te escrever nas ondas que me beijam os pés.

Escrevo-te ao fim do dia, a hora morta

E embora sabendo que não me lês

nem te lembres do amor que a gente fez

Escrever para ti é tudo que me importa...

Monday, April 02, 2012

Nós


Guardo estes nós dentro do peito. Nós que foram laços, mas que fui atando cada vez mais. Para que nunca saissem de mim. Para que ficassem para sempre.

Guardo estes nós dentro do peito. São nós que não desfaço, porque são o meu conforto em horas outras. Quando me perco nas noites. Quando me falta o nosso abraço. 

Guardo estes nós dentro do peito. Nós dos amores da saudade da luta da memória dos segredos. Porque são a minha vida. E por isso são cheios de tanto...



Saturday, March 31, 2012

Música para o fim-de-semana


Ó, mana, deixa eu ir
ó, mana, eu vou só
ó, mana, deixa eu ir
para o sertão do Caicó

Eu vou cantando
com uma aliança no dedo
eu aqui só tenho medo
do mestre Zé Mariano

Mariazinha botou flores na janela
pensando em vestido branco
véu e flores na capela.

Thursday, March 29, 2012

Há 38 anos, no Coliseu de Lisboa



A 29 de Março de 1974, o Coliseu, em Lisboa, enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com «Grândola, Vila Morena».

daqui

Tuesday, March 27, 2012

Não te resisto...


Sabes que não te resisto. Porque teimas em aparecer quando quase caiste no esquecimento. Agora que te vejo despertas-me os sentidos e o desejo toma conta de mim. Fecho os olhos e pela memória passam os prazeres que disfrutei contigo, de volta de ti, os meus dedos acariciando a tua pele tostada, o teu cheiro, o desejo o desejo o desejo...
Sabes que não te resisto. Se fosses amigo de verdade não me aparecias assim, quase dizendo 'toma-me'. Ferve-me o sangue enquanto toco o teu corpo quente e mais uma vez sei que vou quebrar tudo o que disse e vou voltar a ter-te nas mãos e gozar o prazer único de te envolver com a minha boca, sentindo o teu cheiro e o desejo o desejo o desejo...
Sabes que não te resisto. Mas hoje vou acabar com este martírio de te ver e não te ter ou de te ter e deixar de ter. Porque hoje é o teu último dia. Não voltes nunca mais a aparecer-me assim, como se viesses do nada. Afinal é fácil, basta pegar numa faca, cortar-te em fatias, barrar cada uma e comer-te, pão quente!

(não, ainda não regressei. foi só uma vontade de... pão quente :) )

Friday, March 23, 2012

NÃO PASSAM MAIS!!!!!!

Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!

E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!

Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!

Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
o trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!

E em nome das conquistas
vindas dos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.
Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!

Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos quer trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.

(Ary dos Santos)
(O sangue das palavras)

(post pré-programado)


Tuesday, March 20, 2012

As vezes que forem precisas...






ACORDAI!

Acordai
Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raíz!

Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...

Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.

ACORDAI!


José Gomes Ferreira

(ainda distante. depois volto.)

Wednesday, March 14, 2012

Tempo de Elis



Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus,
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei prá maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua.


(vou ali. depois volto.)

Monday, March 12, 2012

Faltam-me as palavras


Faltam-me as palavras para te dizer o que sinto. Mas basta que me olhes e podes ler-me por dentro. Falta-me o teu corpo para que as minhas mãos te atravessem. Mas faço-me ponte e estarei em breve a teu lado. Falta-me a tua voz para me acordar cedinho ou para o beijo de boa noite. Mas invento-me a cada instante e estás sempre dentro de mim.
Dos rios que navegámos faço margens cheias de árvores e flores e montes cheios de pedras e urze. E desenho-te. Das estradas que percorremos fiz um caminho único, onde passo a passo chegarei ao fim. E sorris-me. Dos mares em que mergulhámos deixo que a natureza os transforme em mantos de mansidão ou de revolta. E amo-te.
Faltam-me as palavras. Faltam-me as mãos. Faltas-me tu. Falta-me tanto...

Friday, March 09, 2012

Música para o fim-de-semana



Bom fim-de-semana. Comprido...

Thursday, March 08, 2012

Poema em Homenagem ao Dia da Mulher


Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas lutam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não aceitam um "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem sapatos novos para
que os seus filhos os possam ter.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando os seus filhos adoecem
e alegram-se quando os seus filhos ganham prémios.
Elas ficam contentes ao falarem de um aniversário
ou de um novo casamento.

Pablo Neruda

Wednesday, March 07, 2012

Tuesday, March 06, 2012

No 91º aniversário do meu Partido!


MEU GLORIOSO PARTIDO


Meu glorioso Partido
Comunista Português,
ao dares-me à vida sentido,
deste-me a vida outra vez.

Na multidão já fui só.
Hoje, em mim, sou multidão.
Basta-me aceitar que sou
como os demais homens são.

O olhar antes estreito
em redor passou-me a ver.
Meu coração no meu peito,
oiço-te noutros bater.

A voz que isolada era
fundia-a numa maior.
Fez-se-me a dor primavera
e a desconfiança amor.

A própria pátria que eu tinha,
idêntica a não ter nada,
de alheia voltou a minha,
pelo teu dom reconquistada.

Meu glorioso Partido
Comunista Português,
ao dares-me à vida sentido,
deste-me a vida outra vez.


Armindo Rodrigues

Monday, March 05, 2012

Há dias assim...



Não gosto dos dias assim. Húmidos e ácidos. Recolho-me em concha e espero que venhas. Sem pressas, já que o tempo é tanto.
Acendo a lareira e abro um vinho antigo. Como o amor que nos damos. Deixo-o respirar e sirvo-o em duas túlipas. Ao longe o mar.
Retomo a leitura do livro na página em que falas da vida. Talvez eu deva falar da morte. Da que sinto nos rostos de quem dorme na rua.
Não sei quanto tempo já passou desde que te espero. O vinho nos copos, a lareira crepita. Ao longe o mar, que me chama.
Sabes que não gosto dos dias assim. Ácidos e húmidos. Dispo-me de mim porque tu não vens. Abro a porta e saio. Vagueio sem tempo e sem norte. O mar chama-me e eu mergulho. E fico, no abraço imenso que me deste. Porque hoje, meu amor, o mar és tu...

Saturday, March 03, 2012

Música para o fim-de-semana



María en el corazón


Línea 4 "San Bernardo"
y apagándose el verano,
los dos metros se pararon.
Y yo, sentado, mirando.

Sentada en el tren contrario,
también me estaba mirando.
Sonreí, sonrió, y supe
que no estaba soñando.

Pobré a cerrar los ojos
por ver si se evaporaba,
y el destino, en un antojo,
la mantuvo en la ventana.

Dijo su nombre en un gesto
que ni dijo, ni se oía,
pero yo sentí un estruendo,
y el estruendo repetía:

María.
Dijo en silencio.
María.
Repetí ileso.

María.
Sencillamente.
Y yo ileso.
Milagrosamente.

Yo le propuse bajarnos
y sonó como un disloque.
Ella bajó la cabeza,
negando, con un reproche.

Luego volvió a sonreír,
y se dio la vuelta en vuelo,
pintando en el aire olores,
revueltos como pañuelos.

Silbó el metro y de repente,
lo que no empezó, acababa.
Y María entre la gente,
se fue junto a su ventana.

Yo me quedé en el vagón,
moviendo la testa en vano.
María en el corazón.
Y el corazón en la mano.

María.
Dijo en silencio.
María.
Repetí ileso.

María.
Sencillamente.
Y yo ileso.
Milagrosamente.

Thursday, March 01, 2012

Eu luminoso não sou



Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Secreto e intratável das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras-d'água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.


José Saramago
(in Provavelmente Alegria)