Friday, February 14, 2014
Porque é preciso cantar!
CANTA
Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.
Joaquim Pessoa
Saturday, February 08, 2014
Recomeça...
Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…
Miguel Torga
Saturday, February 01, 2014
ENTRE NÓS
Entre nós o verde sangue
Derramado nas searas
De um país cansado e exangue
E o vermelho da esperança
De um povo a levantar-se
E entra na roda da dança
Entre nós a alegria
De
um sorriso de criança
Do nascer de um novo dia
Da ternura de um abraço
Do cio fecundo da terra
Desabrochando sem cansaço
Entre nós sempre a certeza
De termos o futuro na mão
De o agarrarmos sem pressa
Ao som da tua canção
Tocada na mais linda viola
Que tens rente ao coração.
Saturday, January 18, 2014
Memória de Ary dos Santos
Ecce Homo
Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.
Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.
Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,
Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.
Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'
No 30º aniversário da sua morte.
Monday, December 30, 2013
Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Mário Quintana
Tuesday, December 24, 2013
Thursday, December 19, 2013
Thursday, December 05, 2013
Thursday, November 28, 2013
Para sempre

Espero-te na foz do rio, onde desaguas. É lá que me encontro. De olhar pousado no futuro. De corpo inteiro. Não te esqueças que todos os rios desaguam no mar. Não importa quanto tempo levam, mas é no mar que desaguam. Onde eu te espero, rio que és. No mar onde o silêncio é interrompido pelas ondas que se desfazem no areal. Que posso ser eu, ou tu. Ou todos nós.
Percorri todos os cais e não te vi. Talvez tivesse passado a desoras. Mas foi o meu tempo. Vento meu onde respiro. Não me inquietam as ausências. Inquietam-me as presenças. As ausências são suaves, as presenças são sangue fervente que me corre (ainda) nas veias. As noites são a minha companhia, manto de estrelas que recolho a cada madrugada. Deixo fluir as águas de mim que correm como ribeiro e um dia serão rio e chegarão ao mar. É lá que pouso o meu olhar, sempre. É no mar que te vejo, que te sinto, que te amo. É no mar que me devolvo a vida. Numa chegada de ficar. Para sempre.
Saturday, November 23, 2013
Música para o fim-de-semana
Uma canção para Portugal!
Acorda,
o teu ombro já não espera
e traduz essa palavra
que me olha...
E é assim que o povo resiste
É lutando que a vida insiste
Sono, sem sonho
Medo, sem coragem
Somos barco à vela
Livres na viagem....
E é assim que o povo resiste
É lutando que a vida insiste
E é gritando sobre o asfalto
Que a nossa voz fala mais alto!
---
E é assim que o povo resiste
É lutando que a vida insiste
E é gritando sobre o asfalto
Que a nossa voz fala mais alto!
Acorda,
o teu ombro já não espera
e traduz essa palavra
que me olha...
Sunday, November 10, 2013
A Lâmpada Marinha
Porto cor de céu
I
Quando desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os tectos,
as janelas
salpicadas do ouro verde dos limões,
do azul ultramarino dos navios,
quando desembarcas,
não conheces,
não sabes que por detrás das janelas
escura,
ronda,
a polícia negra,
os carcereiros de luto
de Salazar, perfeitos
filhos de sacristia a calabouço,
despachando presos para as ilhas,
condenando ao silêncio
pululando
como esquadrões de sombra
sobre janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia,
sob outonais cornucópias,
a polícia,
procurando portugueses,
escarvando o solo,
destinando os homens à sombra.
A cítara esquecida
II
Ó Portugal formoso,
cesta de frutas e flores ?
emerges na prateada margem do oceano,
na espuma da Europa,
com a cítara de ouro
que te deixou Camões,
cantando com doçura,
esparzindo nas bocas do Atlântico
teu tempestuoso odor de vinharia,
de flores cidreiras e marinhas,
tua luminosa lua entrecortada
de nuvens e tormentas.
Os presídios
III
Mas,
português da rua, entre nós,
ninguém
nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Sabes, ou alguém o sabe,
como morreu,
o valente,
Militão?
E sua mulher sabes tu
que enlouqueceu sob torturas?
Moça portuguesa,
passas como que bailando
pelas ruas
rosadas de Lisboa,
mas
sabes,
sabes onde morreu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
honra de teu mar, de tua areia,
sabes
que ninguém volta jamais
da Ilha
da Ilha do Sal,
que Tarrafal se chama
o campo da morte?
Sim, tu sabes, moça,
rapaz, sim to sabes,
em silêncio
a palavra anda com lentidão mas percorre
não só Portugal senão a Terra.
Sim, sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos
uma lápide
espessa como túmulo ou como túnica,
de clerical morcego,
afoga Portugal, teu triste trino,
salpica tua doçura,
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra.
O mar e os jasmins
IV
Da tua pequena mão outrora
saíram criaturas
disseminadas
no assombro da geografia.
Assim, a ti volveu Camões
para deixar-te o ramo de jasmins
sempiterno a florescer.
A inteligência ardeu qual vinho
de transparentes uvas
em tua raça,
Guerra Junqueiro
entre as ondas
deixou cair o trovão
de liberdade bravia
transportando o Oceano a seu cantar,
e outros multiplicaram
teu esplendor de rosais e racimos
como se de teu estreito território
saíssem grandes mãos
derramando sementes
pela terra toda.
Não obstante,
o tempo te soterrou,
o pó clerical
acumulado em Coimbra
caiu sobre teu rosto
de laranja oceânica
e cobriu o esplendor de tua cintura.
A lâmpada marinha
V
Portugal,
volta ao mar, a teus navios
Portugal volta ao homem, ao marinheiro,
volve à terra tua, à tua fragrância,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e da espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres,
não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do Oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de Ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
Aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
tu, descobre-a,
descobridor de auroras.
Como é isso?
Como podes negar-te
ao ciclo da luz tu que mostras-te
caminhos aos cegos?
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e amplo Pai
do horizonte, como
podes fechar a porta
aos novos racimos,
ao vento com estrelas do Oriente?
Proa da Europa, procura
na correnteza
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha que cobrem
tua fragrante copa de verdura
e então
a nós outros, filhos dos teus filhos,
aqueles para quem descobriste a areia
até então escura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que tu podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas maiores ilhas da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volve
a ser caminho.
A esta idade agrega
tua luz, volta a ser lâmpada
aprenderás de novo a ser estrela.
Pablo Neruda
(Poema inserido na campanha internacional para a libertação de Álvaro Cunhal, 1954)
Saturday, November 09, 2013
Memória de Álvaro Cunhal
UMA
CHAMA NÃO SE PRENDE
rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.
Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção
e a sua orientação política
Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
e o vigor da inteligência Responde por si
e pelos seus como quem acusa
e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11 anos seguidos, preso,
14 meses incomunicável,
8 anos em isolamento
E não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
Não cede lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela
Não cede e escreve
A Questão Agrária
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve Até Amanhã, camaradas
o homem livre encarcerado
fugiu enfim
colectivamente
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais foi apanhado
Manuel Gusmão
(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal”)
rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.
Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção
e a sua orientação política
Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
e o vigor da inteligência Responde por si
e pelos seus como quem acusa
e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11 anos seguidos, preso,
14 meses incomunicável,
8 anos em isolamento
E não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
Não cede lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela
Não cede e escreve
A Questão Agrária
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve Até Amanhã, camaradas
o homem livre encarcerado
fugiu enfim
colectivamente
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais foi apanhado
Manuel Gusmão
(de «Três Curtos Discursos em Homenagem Póstuma a Álvaro Cunhal”)
Sunday, October 27, 2013
Tuesday, October 15, 2013
imagina uma ponte que tem do outro lado a democracia
Imagina um país em que os que juram defender a Constituição, são os
mordomos dos monopólios e dos interesses privados que a querem
desfigurar e rasgar. Imagina um país em que o primeiro-ministro
responsável por duplicar a dívida pública, que salvou com o teu dinheiro
banqueiros corruptos, que entregou por uma terceira vez esse país às
mãos do FMI para tapar os buracos abertos pelo desmando da banca e dos
agiotas, é hoje reputado comentador político com direito a programa de
televisão regular.
Imagina um país em que ministros fingem ter cursos superiores. Imagina
um país em que ministros e secretários de estado omitem as suas relações
com a banca e com criminosos. Imagina um país em que os ministros são
indicados pelos mesmos grupos económicos que vivem da tua pobreza. Um
país em que os ministros pedem desculpa a empresários por serem
investigados em crimes. Imagina um país em que os ministros mentem sobre
a sua responsabilidade em contratos ruinosos para o estado que gerem.
Imagina um país em que o partido afirma antes das eleições não pretender
aumentar impostos, despedir funcionários públicos, cortar rendimentos,
pensões de reforma e subsídios para depois de as vencer aumentar os
impostos, despedir funcionários públicos, cortar rendimentos, pensões de
reforma e subsídios. Imagina um país em que um partido com 14% dos
votos determina a política orçamental, económica e educativa e designa
um vice-primeiro-ministro.
Imagina um país que realiza eleições apenas para fingir que é
democrático porque o verdadeiro programa de governo estava já assinado
com entidades estrangeiras. Imagina um país em que três partidos são
poder há 38 anos consecutivos.
Imagina um país que os teus amigos são obrigados a abandonar.
Imagina um país onde só os ricos podem ter direito à saúde, à educação.
Imagina um país em que as empresas públicas são entregues a grupos privados pelo dinheiro que podem produzir em poucos anos.
Imagina um país onde podes ser despedido só porque o patrão tem quem faça o mesmo por menos.
Imagina um país onde as crianças passam fome.
Imagina um país onde mais de 60% da riqueza produzida num ano é
distribuída como rendimento de capital e menos de 40% é distribuída como
rendimento de trabalho. Imagina um país em que a receita fiscal sobre
rendimentos incide em 73% sobre os rendimentos do trabalho e 27% sobre
os de capital.
Imagina um país em que encerram milhares de escolas e metem as crianças a
fazer 3 horas diárias de autocarro para chegar à escola que já não têm
perto de casa. Imagina um país onde não há orçamento de estado para a
cultura e para as artes.
Imagina um país em que se entregam as estradas, os hospitais, as
escolas, os correios, a água, os aeroportos, as telecomunicações, os
aviões, e tudo o mais que te possas lembrar, a grupos não eleitos de
accionistas que gerem o que foi construído com o esforço de todos apenas
para benefício de alguns.
Imagina que vives num país que rouba as poupanças dos seus idosos, de quem trabalhou uma vida inteira e merece descanso.
Imagina que vives num país em que os próprios governantes escolhidos
pelo povo governam para desviar a riqueza para outros países, para
contas bancárias privadas, beneficiando aqueles que destruíram as tuas
empresas, a tua riqueza.
Agora, imagina que vives nesse país.
E que dia 19 há manifestação contra a decadência, contra a exploração e o empobrecimento.
Imagina que no teu país há uma ponte.
Miguel Tiago
(Publicado Terça-feira, 15 de Outubro de 2013, no blog kontra korrente)
Thursday, October 10, 2013
Nocturno
O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele... Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...
Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...
Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....
Imaginei-te assim à beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito...
David Mourão-Ferreira
Monday, September 23, 2013
Memória de Pablo Neruda
Ao meu Partido
Deste-me a fraternidade para com o que não conheço.Acrescentaste à minha a força de todos os que vivem.
Deste-me outra vez a pátria como se nascesse de novo.
Deste-me a liberdade que o solitário não tem.
Ensinaste-me a acender a bondade, como um fogo.
Deste-me a rectidão de que a árvore necessita.
Ensinaste-me a ver a unidade e a diversidade dos homens.
Mostraste-me como a dor de um indivíduo morre com a vitória de todos.
Fizeste-me edificar sobre a realidade como sobre uma rocha.
Tornaste-me adversário do malvado e muro contra o frenético.
Fizeste-me ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Tornaste-me indestrutível, porque, graças a ti, não termino em mim mesmo.
Pablo Neruda
Morreu há precisamente 40 anos.
Saturday, September 21, 2013
Wednesday, September 11, 2013
Faz hoje 40 anos
Para que nunca se esqueça
HOMENAGEM AO POVO DO CHILE
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro
Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança
Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no Povo jamais vencido
– o Povo nunca se rende
mesmo quando morre unido
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Alguns traziam no rosto
um ricto de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
Uma vida à beira-mágoa.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.
José Carlos Ary dos Santos
Monday, September 09, 2013
Corpo de mulher...
Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
pareces-te com o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.
Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.
Pablo Neruda,
in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada"
Friday, September 06, 2013
Wednesday, September 04, 2013
*
"O amor
é uma ave a tremer
nas mãos duma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz."
Eugénio de Andrade
Sunday, August 25, 2013
Pequeno poema
Quando eu nasci, ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais... Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu.
As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe...
(Sebastião da Gama)
Monday, August 19, 2013
Friday, August 16, 2013
Um abraço daqui a Havana
Para receber uns amigos que chegam amanhã. Da Ilha!
Bienvenidos, Anívea y Daniel
Friday, August 09, 2013
Até amanhã, Camarada!
Dia de Nagasaki.
Dia de Urbano Tavares Rodrigues.
Trago na fonte
e estrela do fogo
da minha revolta
Nunca aceitaria qualquer tirania
nem a do dinheiro
nem a do mais justo ditador
nem a própria vida eu aceito…
tal como ela é
com todas as promessas
do amor e da juventude
e a parda doença
de envelhecer
a morte em cada dia
antecipada
Tuesday, August 06, 2013
Hiroshima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada
(Vinicius de Moraes)
Tuesday, July 30, 2013
Porque me faltam as palavras para te dizer...
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.
Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...
Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.
Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"
Thursday, July 25, 2013
Há quatro anos escrevi isto
Neste tempo hoje

Hoje apetecia-me colocar aqui poemas de Brecht. Meia dúzia de poemas de Brecht. Porque todos eles estão mais que actuais e fazem todo o sentido. Mas prefiro dizer palavras que me estão a martelar e querem sair. Faço-lhes a vontade, o trabalho vai esperar cinco minutos (não é muito) e vou deixar as palavras sair.
Neste tempo hoje não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E uma enorme alegria em fazê-lo.
Estou numa zona do país que é o meu em que o trabalho político é difícil, muito difícil. Mas é assim que eu gosto. Nunca gostei de coisas fáceis, não têm sabor. É um trabalho feito contacto a contacto, amigo a amigo, e nunca o subir e descer ruas de pedras irregulares me deu tanto gozo. Sei que há compensações.
Porque neste tempo hoje não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E há uma enorme alegria em fazê-lo.
Há quatro anos, nesta mesma cidade capital de distrito, depois de todas as listas terminadas, do computador estar fechado e de todos nós nos olharmos e respirarmos com um sorriso apareceu um camarada por volta da hora do almoço - as listas seriam entregues no Tribunal às duas da tarde - com uns papéis na mão. Mais uma lista. Onde? Vamos concorrer a Sortelha. O quê? Sortelha? Sim, mas como já fechaste o computador eu faço as listas à mão. Era o que faltava.
Porque neste tempo hoje não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E há uma enorme alegria em fazê-lo.
Volta a abrir o computador e toca de fazer a lista à assembleia de freguesia de Sortelha. Disse na altura que, se metessemos uma pessoa, viria aqui festejar. Não metemos uma, numa lista de sete metemos três! Cada nome para a lista trabalhado até ao fim. Convencer as pessoas, numa zona difícil como esta. Cada voto conquistado a pulso.
Porque há trabalho que tem de ser feito e uma enorme alegria em fazê-lo.
O caminho faz-se caminhando, dizia o poeta.
Venham mais ruas de pedras irregulares e desconjuntadas, para que nestas duas semanas que ainda faltam podermos encontrar e falar e convencer pessoas honestas a fazerem parte das nossas listas. Cada nome é um bem precioso porque significa que essa pessoa não tem medo, aqui. Cada voto uma conquista que sabe tão bem...
E pronto, as palavras já saíram e eu gastei mais de cinco minutos. Logo recupero. Tudo estará pronto a tempo e horas. Sem cansaço, porque não pode haver cansaço. Como tão bem disse Brecht...
Neste tempo hoje em que não há sábados domingos ou feriados. Há trabalho que tem de ser feito. E há uma enorme alegria em fazê-lo...
_________________________
Mantém-se a confiança nas pessoas que abordamos e no resultado do nosso esforço.
Mantém-se a alegria no trabalho que fazemos.
Mas o tempo corre tão depressa...
Sunday, July 21, 2013
Calor
O calor. Os Camaradas. Os Amigos. A forma como somos recebidos. A alegria de estarmos novamente juntos. Apesar do calor.
A preocupação, justa, porque existem alguns atrasos. Mas a certeza de que tudo ficará pronto a tempo e horas. E o calor.
Entro agora na segunda semana de trabalho aqui, preparada para uma avalanche (que eu desejo) de papéis. Chamam-lhe 'processos'. Dificultam-nos a vida o mais possível, fazendo exigências que não fazem a outras forças políticas ou noutros concelhos. Mas nós respondemos! Apesar do calor.
O convívio, tão salutar e apetecido e desfrutado e plenamente vivido em duas ocasiões, os tais 'tempos mortos' em que não há papéis. Convívio à volta da mesa, um cabrito assado e muita conversa e muito colo (que as crianças querem, exigem, gostam de colo, e nós gostamos de o dar). Outro momento de convívio, sempre à volta da mesa, leitão assado na brasa. E o calor.
Faz-se hoje o balanço do que já está feito e do que falta fazer. E é preciso voltar à rua, contactar mais gente. Cada vez mais. Que se vai juntando, lentamente, a nós. Pois que venham, serão bem recebidos. E farão parte das listas. A que outros chamam 'processos'. Para mim, são gente, são Camaradas e Amigos.
O raio do calor é que podia ir embora...
p.s. a foto é o que vejo todos os dias quando chego ao Centro de Trabalho do Partido!
Saturday, July 13, 2013
Música para o fim-de-semana
E agora vou para a minha tarefa do costume. De 4 em 4 anos.
Virei aqui quando houver uns 'intervalinhos' no trabalho.
Até já, Guarda! Até um dia destes, meus Amigos...
Monday, July 08, 2013
Confissão
Lembro-me de ter andado neste campo,
de ter sacudido o sol de dentro das espigas,
de ter ouvido ao longe alguém rir e depois o silêncio,
de sentir que nada se passava ao passar pelos muros,
de não ver ninguém e era a tarde a começar,
de fechar os olhos para me libertar do azul,
e de os abrir como se o céu tivesse outra cor,
de olhar para uma casa como se alguém a habitasse,
e de saber que as janelas se abrem para ninguém,
de perguntar de onde veio a flor que colheste,
sem me lembrar que é o tempo das flores,
de te perguntar quem és sem ouvir uma palavra,
e de ouvir tudo o que a tua respiração me diz,
de teres pousado a cabeça no chão
como se a terra te dissesse um segredo,
e de ter adivinhado o que a terra te disse
quando te olhei, e o teu rosto dizia tudo.
Nuno Júdice
Saturday, July 06, 2013
Monday, July 01, 2013
Enquanto
Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães, andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isso acontecer, e o mais que não se diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA!
António Gedeão
Saturday, June 29, 2013
Monday, June 24, 2013
Dia 360

Saboreio a vida de modo diferente, hoje. Porque o meu corpo também já não é jovem nem insaciável. Mas também não é cobarde e a vida ensinou-me tanto. Vivo a calma que me dá a idade que tenho. Há dias em que os pássaros me vêm buscar e voo com eles. Volto tarde na noite e nada importa. Apenas tu, que me esperas...
Saturday, June 22, 2013
Hino de Caxias
HINO DE CAXIAS
Longos corredores nas trevas percorremos
Sob o olhar feroz dos carcereiros
Mas nem a luz dos olhos que perdemos
Nos faz perder a fé nos companheiros
Vá camaradas mais um passo
Já uma estrela se levanta
Cada fio de vontade são dois braços
E cada braço uma alavanca
Oiço ruírem os muros
Quebrarem-se as grades de ferro da nossa prisão
Treme, carrasco que a morte te espera
Na aurora de fogo da libertação
Como da noite irrompe a madrugada
Como uma flor rasgando o chão da escolha
A nossa voz nas celas soterrada
Já faz no céu a estrela da vitória
Cortam o sol por sobre os nossos olhos
Muros e grades fecham horizontes
Mas nós sabemos onde a vida passa
E a nossa esperança é o mais alto dos montes
Podem rasgar meu corpo à chicotada
Podem calar meu grito enrouquecido
Para viver de alma ajoelhada
Vale bem mais morrer de rosto erguido
(Depois de 11 jovens da JCP serem presos esta noite, no Porto, por estarem a pintar um mural, é só isto que posso deixar aqui. Porque eles andam à solta. à espera que a gente se distraia. E hoje já senti arrepios como no tempo da outra senhora...)
Monday, June 17, 2013
Sempre esperei por ti
Sempre esperei por ti. Pelos sonhos que queríamos sonhar.
No meu leito o silêncio e o frio.
Sempre esperei por ti. Pela vida que queríamos viver.
Nos meus braços a ausência e a saudade.
Sempre esperei por ti. Pelos beijos e pelo amor, que era nosso.
Em mim a dor do impossível.
Sempre esperei por ti. Tenho o teu nome em cada flor e em cada janela.
Mas não te tenho a ti.
No entanto, sempre esperei por ti...
Saturday, June 15, 2013
Música para o fim-de-semana
Esta jovem tem um não-sei-quê que me deixa arrepiada quando a oiço.
Espero que gostem.
Monday, June 10, 2013
O cinzento dos dias

É o cinzento dos dias e a humidade no corpo que nos faz ficar assim. O frio que não escolhe e nos encolhe. A distância que de repente fica mais distante ainda, a uma lonjura difícil de chegar. O mar que deixou de ser azul e nestes dias se pinta de castanho. As ondas que se atiram contra nós em vez de rebentarem suavemente... em espuma de mel.
São dias de fome. E de sede.
São noites de silêncio em que nos ouvimos em gritos calados. São as palavras a rebentarem o peito e a ficarem aprisionadas nos dedos. É o sim e o não sem sabermos porquê.
Abro uma garrafa de tinto antigo, deixo-o aquecer até aos 17 graus. Já cheira a pão quente. O doce de abóbora ainda está morno. Falta o requeijão de Seia. E faltas tu.
Sunday, June 09, 2013
Saturday, June 08, 2013
Monday, June 03, 2013
Palavras
Saturday, June 01, 2013
Música para o fim-de-semana
Recado a Helena
Do frio da cela do forte
Do lado norte por sobre o rio
Por sobre o rio do lado norte
A mão acena por Helena.
Do lado do sul do rio
Na negra pena por Helena:
À rua deitado jaz vazio e frio
O corpo apagado de Helena.
Salgado rio de pranto
Jorrando entre mágoa e mágoa
E uma cidade de espanto
No perfilado recorte
Espelhado no fundo de água
Pára o Tejo à beira-morte
À beira-morte de Helena
E à beira-cela do forte
Onde ainda a mão acena.
Do lado do sul do rio
À rua deitado jaz vazio e frio
O grito em vida amordaçado
No corpo delgado de Helena.
Mão de aceno gradeado
É por nossa condição
Gente de foice e arado
Homens de cais pescadores
Mais os que como nós são
Nos escritórios e fábricas
Dia a dia os construtores
Dos dias desta nação
É por nós que a mão acena
Da beira-morte de Helena
Contra a mão que nos condena.
Para que a morte de Helena
Não venha a ser nossa sorte
Ao sul e ao norte a mão acena
Fechando o punho ao sul e ao norte.
Salgado rio de pranto
Jorrando entre mágoa e mágoa
E uma cidade de espanto
No perfilado recorte
Espelhado no fundo de água
Pára o Tejo à beira-morte
À beira-morte de Helena
E à beira-cela do forte
Onde agora um punho acena.
Do frio da cela do forte
Do lado norte por sobre o rio
Por sobre o rio do lado norte
A mão acena por Helena.
Para que a morte de Helena
Não venha a ser nossa sorte
Ao sul e ao norte a mão acena
Fechando o punho ao sul e ao norte.
Manuel da Fonseca
Monday, May 27, 2013
Um post diferente

Sei das águas de ti flores de todas as primaveras árvores do futuro. Das minhas desaguadas nos mares antes de tempo e em tempos outros. Sei do aconchego da manta urdida de afectos que nos cobre em noites frias. E da vermelha sangue vida que nos envolve em tardes quentes de luta. Mas não sei dos trilhos que vais percorrendo na vida. Às vezes queria perder-me nos meus, mas encontro-te sempre ao virar da esquina. E é bom encontrar-te. Não importa o tempo que demora, mas encontrar-te, sempre...
(foto oferecida por uma amiga)
Friday, May 24, 2013
Thursday, May 23, 2013
Silêncio de vidro

Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
- Menino que sonhava estrelas iguais às minhas –
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
Mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.
(Maria Eugénia Cunhal)
Tuesday, May 21, 2013
******
Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
Maria Eugénia Cunhal
(in Silêncio de Vidro)
Sunday, May 19, 2013
Catarina Eufémia
(Gravura de José Dias Coelho)
CATARINA EUFÉMIA
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
RETRATO DE CATARINA EUFÉMIA
Da medonha saudade da medusa
que medeia entre nós e o passado
dessa palavra polvo da recusa
de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita
a mais prenha de pranto a mais novelo
da língua portuguesa fiz a fita encarnada
que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo
Catarina morrendo alpendurada
do alto de uma foice.
Soror Saudade Viva assassinada
pelas balas do sol
na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói
Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher
de corpo inteiro como ninguém foi
de pedra e alma como ninguém quer.
(José Carlos Ary dos Santos)
CANTAR ALENTEJANO
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p’ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p’ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
(Vicente Campinas)
Saturday, May 18, 2013
Thursday, May 16, 2013
TEMPO FLUVIAL
Se eu definisse o tempo como um rio,
a comparação levar-me-ia a tirar-te
de dentro da sua água, e a inventar-te
uma casa. Poria uma escada encostada
à parede, e sentar-te-ias num dos seus
degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
«Não te apresses: também a água deste
rio é vagarosa, como o tempo que os
teus dedos suspendem, antes de virar
cada página.» Passam as nuvens no céu;
nascem e morrem as flores do campo;
partem e regressam as aves; e tu lês
o livro, como se o tempo tivesse parado,
e o rio não corresse pelos teus olhos.
Nuno Júdice
Tuesday, April 30, 2013
Wednesday, April 24, 2013
Saturday, April 13, 2013
Wednesday, April 10, 2013
Ainda a sessão evocativa de Álvaro Cunhal
No passado sábado, 23 de Março, numa Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa completamente lotada, teve lugar uma sessão cultural evocativa da figura de Álvaro Cunhal, que inicia um ano dedicado às comemorações do centenário do seu nascimento. Não pertencendo nem nunca tendo pertencido ao Partido Comunista Português (PCP) situo-me, porém, no grupo daqueles que consideram que o PCP se inscreve na área política que gostariam de ver o povo português escolher para liderar os destinos do país. Aqui fica o meu registo de interesses para que não haja equívocos com esta nota no GDH.
Com muito gosto aceitei o convite que me
dirigiram para integrar a Comissão Promotora e estive presente na Aula
Magna onde, entre muitas vantagens, beneficiei da oportunidade de ouvir
mais um magnífico discurso do reitor da Universidade, professor Sampaio
da Nóvoa. Guardo de Álvaro Cunhal, do cidadão, do resistente e precursor
do 25 de Abril, do político, do estadista, do intelectual
multifacetado, um profundo respeito. Particularmente agora, quando as
figuras menores que têm passado pelo poder sem honra e sem dignidade vêm
aviltando a imagem dos políticos e da democracia – e este é dos pecados
maiores que lhes devem ser cobrados –, é justo e é pedagógico, evocar
alguém que se empenhou profundamente na política sem mácula, sem
cedências susceptíveis de violarem os princípios, os valores, os
compromissos. Álvaro Cunhal era uma referência para quantos,
independentemente dos sectores ideológicos e partidários em que se
situassem, cultivavam o rigor na gestão da polis, na política, porque
era de uma enorme exigência. Mas começava por ser exigente consigo
próprio. Concordasse-se ou discordasse-se dele, confiava-se nele.
Recordo que, quando partilhei algumas
responsabilidades no país e, com os meus camaradas, discutíamos ou
analisávamos a situação política, o sentimento generalizado em relação a
Álvaro Cunhal era o de que se tratava de um homem de carácter, credível
no que dizia,fiável naquilo com que se comprometia. Aí pela década de
90, quando eu já estava reformado da vida militar e Álvaro Cunhal já
deixara a liderança do PCP, encontrávamo-nos, não com muita frequência
mas com alguma regularidade, por vezes com mais dois ou três amigos.
Eram conversas privadas, interessantíssimas, trocas de impressões
passando em revista as conjunturas nacional e internacional. E Álvaro
Cunhal gostava de frisar o que mais o marcara quando teve de lidar com
os militares na política no período revolucionário e nos anos em que
perdurou o Conselho da Revolução e um militar na presidência da
República: eram homens de palavra. E isso fora decisivo na manutenção de
relações de respeito mútuo.
Há um aspecto que não posso deixar de
registar. Hoje, quando a União Europeia navega em águas agitadas sem
rumo perceptível e em que os chamados países periféricos sofrem as
consequências de decisões que parecem tudo menos inocentes, é oportuno
recordara voz lúcida de Álvaro Cunhal que na altura muitos acusaram de
“velho do Restelo”. Quando os responsáveis políticos embandeiravam em
arco com a adesão à Comunidade Económica Europeia e a entrada no “clube
dos ricos”, quando a maioria do povo português embarcava na euforia da
festa das remessas dos fundos estruturais e se empanturrava em betão a
troco do abandono da agricultura, da extinção da frota pesqueira, do
esvaziamento da marinha mercante, do encerramento de indústrias de base,
Álvaro Cunhal alertava e repetia: os portugueses irão pagar isto. Era
ouvido com cepticismo. Não me excluo, a palavra de Álvaro Cunhal
levava-me a reflectir, mas deixava-me dúvidas.
Álvaro Cunhal tinha razão. Os portugueses estão a pagar isso.
25 de Março de 2013
General Pezarat Correia
http://aviagemdosargonautas.net/
Monday, April 08, 2013
Sessão Cultural Evocativa - Carta aberta
Um dos maiores restos de salazarismo que perdura na
nossa comunicação social, diria mesmo, um dos maiores tiques fascistas
que regressam ostensivamente, é canalhice de, sempre com a desculpa dos
“critérios jornalísticos” censurar e boicotar da pior forma as actividades políticas e culturais que desagradam ao poder e aos donos dos meios de comunicação.
Digo “da pior forma”, porque bastante mais ofensivo do
que uma crítica má, é o fazer-se de conta que um acontecimento... não
aconteceu. Ofensivo pela censura descarada e pelo facto de se ver um
exército de gente que se diz jornalista, pactuando com este estado
(novo) de coisas.
Assim aconteceu, mais uma vez, com o fantástico momento
político/artístico que um elenco “tremendo” de artistas de várias áreas
protagonizou em amizade, camaradagem e espírito de unidade, na sessão
que há dias teve lugar na Aula Magna, em homenagem à figura de Álvaro
Cunhal.
O silêncio que se seguiu na comunicação social foi, como “ouvimos”, verdadeiramente ensurdecedor!
Assim sendo, o nosso companheiro e autor João Monge, que escreveu boa parte do guião que acompanhou todo o espectáculo,
decidiu não se ficar... e escreveu um texto para fazer correr pelas
redes sociais e pela própria comunicação social que nos ignorou. Fê-lo
na forma de uma carta aberta que muitos de nós, participantes ou não, já
assinámos por baixo.
Para não ser injusto para com aqueles que, entretanto,
já juntaram os seus nomes à carta aberta, desde que o texto me chegou às
mãos, direi apenas não há participante que não se reveja neste texto do
João Monge. Aqui fica:
A propósito da Sessão Cultural Evocativa do Centenário de Álvaro Cunhal
CARTA ABERTA A UM AMIGO QUE NÃO SOUBE
Fizeste-me falta, pá! Não por mim, que lá estive, mas
por ti que não soubeste… Eu sei da felicidade que retiras destas coisas
e da partilha que dela fazes. Foi isso que me fez falta: a tua
felicidade.
Sabes como a malta é, pusemos a mesa com microfones e
tudo, chamámos os jornais, chamámos as rádios, chamámos as televisões…
Só para te avisar, pá. Era a forma mais expedita que tínhamos à mão, e
gostávamos tanto de te ter por perto. Mas não, a coisa não saiu, ou saiu
envergonhadamente. Sinais destes tempos sem vergonha.
Depois o Álvaro não é tipo que se ignore e o número
era redondo – o centenário – mas mesmo assim tu ficaste sem saber.
Tiraram-te esse direito.
Foi tão bonita a festa, pá.
Lembras-te daquela tirada do Álvaro que começa assim:
«Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É
criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da
beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca»?
Lembras-te? Foi o nosso guião. Foi o guião dos músicos, dos cantores e
dos actores que passaram pelo palco. A melhor maneira de comemorar a liberdade é exercê-la e, como tu sabes, pá, evocar o Álvaro é projectá-la para os dias que hão-de vir, para as liberdades que hão-de vir. E são tantas, amigo, e são tantas as liberdades que nos faltam…
O Álvaro teve a casa cheia, pelas costuras. Tu sabes
como a malta é, abrimos as portas de casa para que alguém te fizesse
chegar uma pequena luz do que lá se passou. Mas, enfim, foi o costume:
tiraram-te esse direito.
Fizeste-me falta, pá. Mas ainda te vou ver a sorrir.
Temos uma prenda para ti: filmámos tudo. E assim damos um outro sentido à
falta que me fizeste.
É que, como diz o Palma, “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar, a gente vai continuar”.
Um abraço, pá
E até já!
João Monge
Saturday, April 06, 2013
Monday, April 01, 2013
Um poema muito especial
1. UMA CHAMA NÃO SE PRENDE
rodeado de paredes
rodeadas de muros altos
que foram depois muralhas
um preso encarcerado
ao longo da terrível década de 50
inteira
Não cedeu.
Levado a tribunal
em 3 e 10 de Maio de 1950
só então fica a saber que Militão e Sofia
presos com ele torturados não «falaram»
não cederam E que esse grande patriota Militão
Ribeiro fazendo greve da fome foi morto
Perante o tribunal acusa os seus acusadores
Defende o seu Partido a sua acção
e a sua orientação política
Ponto a ponto responde às calúnias
que são os porcos argumentos do ódio
e do terror de estado Ponto a ponto
responde com o orgulho do homem livre
e o vigor da inteligência Responde por si
e pelos seus como quem acusa
e ameaça Ameaça o inimigo que o tem preso
Dos 11 anos seguidos, preso,
14 meses incomunicável,
8 anos em isolamento
E não cedeu Nunca cedeu
Agora na humidade salina da cela
contra o eco do estrondo do mar
que não esquece/e grita/contra a fortaleza
contra a corrente contínua dos dias e das noites
este homem livre é uma chama
uma lâmpara marina
Não cede lê e desenha lê
e estuda e escreve este homem livre
que está preso e é uma chama
açoitada pelo vento e pelo silêncio
numa cela
Não cede e escreve
A Questão Agrária
As lutas de classes em Portugal nos fins da Idade Média
e escreve uma tradução do Rei Lear
e escreve Até Amanhã, camaradas
o homem livre encarcerado
fugiu enfim
colectivamente
a 3 de Janeiro de 1960
e nunca mais foi apanhado
2. AO ENCONTRO DO ENCONTRO
para que eu pudesse fazer o meu caminho pelo
caminho comum e partilhar o tempo
a invenção, o desejo, o trabalho e a luta por
uma terra sem amos
para que nas histórias lidas desde a infância
eu aprendesse a descobrir os meus
a articular aquelas palavras
sobre as quais o confronto ainda não terminou
e assim nos movem para que eu pudesse sentir-me esperado sobre
esta terra tão dilacerantemente bela
e tão insuportavelmente devasta
para que tendo aprendido a falar eu tivesse
podido encontrar os outros na minha língua
para que eu pudesse olhar, estender as mãos
e encontrar o corpo do mundo
como a minha tarefa comum
para que eu viesse e pudesse chegar a esta reunião contínua
esta assembleia de homens
explorados e livres, oprimidos e
livres
foi necessário que a convocatória chegasse até mim
foi necessário que eles continuassem reunidos e me esperassem
foi necessário que tu tivesses vindo e chegado antes
que te tivessem acolhido e te tivessem transformado o nome próprio
em nome comum
3. ELOGIO DA TERCEIRA COISA
entre mim e ti há a terceira coisa
aquela que nos põe ao alcance da mão
os nomes todos das coisas e as coisas sem nome
quando a multidão sagrada dos pronomes pessoais nos
permite dizer nós contra o tempo e o vento
Nós que aos cinco sentidos acrescentamos os outros
Nós a sensibilidade que imagina o comum
quando uma multidão deixa de ser
um rebanho de escravos para começar a ser
uma assembleia de humanos livres
de pé no chão da terra discutimos o que fazer
pelas mãos em concha bebemos a água
onde a luz do sol cintila irisando-a
Nós que para além de ti e de mim somos
a terceira coisa o fantasma o espectro
que lhes continua a assolar o mundo
a terceira coisa: a promessa sem garantias
a invenção do incomum que partilha o comum
o comunismo que vem connosco
e para além de nós recomeça a contar
Manuel Gusmão
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