Friday, August 30, 2019

Carta - Petição da URAP


Ex-Presos Políticos protestam contra a criação do Museu Salazar

Carta enviada ao Primeiro Ministro e ao Presidente da Assembleia da República a 12 de Agosto de 2019, e hoje divulgada à Comunicação Social, assinada por 204 ex-presos políticos.

Exmo. Senhor Primeiro-Ministro
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República
Lisboa, 12 de Agosto de 2019

Os abaixo-assinados, ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista – de que Salazar foi principal mentor e responsável – o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um “Museu Salazar” feito pelo Presidente da Câmara de Santa Comba Dão e apelam ao Governo para que, em conformidade com o relatório aprovado por unanimidade, em Julho de 2008, pela Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República e com normas da Constituição da República Portuguesa, intervenha para impedir a concretização desse projeto que, longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista, se prefigura como um instrumento ao serviço do seu branqueamento e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril.
Quando em muitos países se assiste ao renascer de forças fascistas e fascizantes, o país precisa, não de instrumentos de propaganda do fascismo – que a Constituição da República expressamente proíbe – mas de meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer o cortejo de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas.
Os abaixo-assinados apelam ainda a todos os democratas e amantes da liberdade que se manifestem contra a criação, nos termos em que tem vindo a ser anunciado, desse memorial ao ditador.

Adelino Pereira da Silva
Afonso Rodrigues
Aguinaldo Cabral
Aguinaldo Espada de Oliveira Santos
Aires de Aguiar Bustorff
Albertino Almeida
Alberto Borges
Alexandre Jorge Almeida
Alexandre José Pirata
Alfredo Caldeira
Alfredo Guaparrão
Alfredo de Matos
Alice Capela
Álvaro Monteiro
Álvaro Pato
Américo Joaquim Brás
Américo Leal
Ana Abel
António Almeida
António Antunes Canais
António Borges Coelho
António Caçola Alcântara
António Cerqueira
António Espirito Santo
António Gervásio
António Graça
António Inácio Baião
António José Baltazar Condeço
António Lenine Moiteiro
António Melo
António Pedro Braga
António Ramalho Alcântara
António Redol
António Rodrigues Canelas
António Rodrigues Correia
António Santos
António Santos Pereira
António Velhinho Ventura
Armando Cerqueira
Arménio Marques Gil
Armando de Lacerda
Artur Monteiro de Oliveira
Artur Pinto
Aurélio Pato
Aurora Rodrigues
Bárbara Judas
Camilo Mortágua
Carlos Brito
Carlos Campos Rodrigues Costa
Carlos Coutinho
Carlos Marum
Carlos Myre Dores
Carlos Oliveira Santos
Clemente Alves
Conceição Matos
Cristiano de Freitas
Daniel Cabrita
Danilo Matos
Diana Andringa
Domingos Abrantes
Domingos Lopes
Domingos Pinho
Duarte Nuno Clímaco Pinto
Eduardo Baptista
Eduardo Ferreira
Eduardo Meireles
Elídia Rosa Caeiro
Emília Brederode
Encarnação Raminho
Estevão A. P. Caeiro Oca
Eugénia Varela Gomes
Eugénio Ruivo
Feliciano David
Fernando Almeida Simões
Fernando Baeta Neves
Fernando Chambel
Fernando Correia
Fernando Cortez Pinto
Fernando Flávio Espada
Fernando Martins Adão
Fernando Miguel Bernardes
Fernando Rosas
Fernando Vicente
Filipe Augusto Neves do Carmo
Filipe Mendes Rosas
Firmino Martins
Francisco Braga
Francisco Bruto da Costa
Francisco Carrasco dos Santos
Francisco do Carmo Martins
Francisco Lobo
Francisco Melo
Francisco Nilha Jorge
Francisco Silva Alves
Graça Érica Rodrigues
Helena Cabeçadas
Helena Neves
Helena Pato
Herculano Neto Silva
Humberto Rui Moreira
Isabel do Carmo
Jaime Fernandes
Jaime Serra
João Augusto Aldeia
João Carrasco Caeiro
João Queirós
João Viegas
Joaquim Barata
Joaquim Henrique Rodrigues
Joaquim Jorge Araújo
Joaquim Judas
Joaquim Labaredas
Joaquim Monteiro Matias
Joaquim P. Pinto Isidro
Joaquim Santos
Jorge Carvalho
Jorge Querido
Jorge Neto Valente
Jorge Seabra
Jorge Silva Melo
Jorge Vasconcelos
José A . Guimarães Morais
José Carlos Almeida
José Eduardo Baião
José Eduardo Brissos
José Ernesto Cartaxo
José Guimarães Morais
José Jaime Fernandes
José Lamego
José Leitão
José Luís Machado Feronha
José Manuel Serra Picão de Abreu
José Marcelino
José Mário Branco
José Marques
José Oliveira
José Revés
José Ribeiro Sineiro
José Teodósio Cachochas
José Pedro Soares
Justino Pinto de Andrade
Laura Valente
Lígia Calapês
Luís Firmino
Luís Fonseca
Luís Moita
Luís Figueiredo
Luísa Oliveira
Manuel Candeias
Manuel Custódio Jesus
Manuel Ferreira Gonçalves
Manuel Henriques Estevão
Manuel José Brás
Manuel Pedro
Manuel Pedro Baião
Manuel Policarpo Guerreiro
Manuel Quinteiro Gomes
Manuel Ruivo
Manuel dos Santos Guerreiro
Manuela Bernardino
Maria da Conceição Moita
Maria Custódia Chibante
Maria Dulce Antunes
Maria Emilia Miranda de Sousa
Maria Fernanda Dâmaso Marques
Maria da Graça Marques Pinto
Maria Guilhermina Ferreira Galveias
Maria Helena Rocha Soares
Maria Hermínia de Sousa Santos
Maria Isabel Areosa Feio de Barros
Maria João Gerardo
Maria José Pinto Coelho da Silva
Maria João Lobo
Maria José Ribeiro
Maria Luíza Sarsfield Cabral
Maria de Lurdes Clarisse
Maria Lourença Cabecinha
Maria Margarida Barbosa de Carvalho Pino
Mário Abrantes
Mário Araújo
Mário de Carvalho
Mário Lino
Matilde Bento
Miguel Guimarães
Miriam Halpern Pereira
Modesto Navarro
Nozes Pires
Nuno Luís Silva
Nuno Pereira da Silva Miguel
Nuno Potes Duarte
Óscar Manuel Romualdo
Óscar Vieira
Osvaldo Osório
Paula Correia
Pedro Borges
Raúl Carvalho
Sara Amâncio
Saúl Nunes
Sérgio Ribeiro
Sérgio Valente
Teresa Dias Coelho
Teresa Tito de Morais
Úrsula da Conceição Farinha
Vasco Paiva
Violante Saramago Matos
Vítor Dias
Vítor Zacarias

Wednesday, August 28, 2019

O último abraço que me dás

Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele

Para Luís Costa
O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

Sunday, August 25, 2019

Nasceu-te um Filho


Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida.
Se a não chegaste a conhecer, se a vida
ta não mostrou - já não conhecerás

a dor terrível de a saber escondida
até no puro amor. E esquecerás,
se alguma vez adivinhaste a paz
traiçoeira de estar só, a pressentida,

leve e distante imagem que ilumina
uma paisagem mais distante ainda.
Já nenhum astro te será fatal.

E quando a Sorte julgue que domina,
ou mesmo a Morte, se a alegria finda
- ri-te de ambas, que um filho é imortal.

Jorge de Sena, in 'Visão Perpétua'

Thursday, August 22, 2019

sem título



dói-me o pulmão esquerdo do planeta
e o amazonas.


o fascismo mata. mais que monóxido de carbono.

Miguel Tiago

Monday, August 19, 2019

Túmulo de Lorca


Em ti choramos os outros mortos todos
Os que foram fuzilados em vigílias sem data
Os que se perdem sem nome na sombra das cadeias
Tão ignorados que nem sequer podemos
Perguntar por eles imaginar seu rosto
Choramos sem consolação aqueles que sucumbem
Entre os cornos da raiva sob o peso da força

Não podemos aceitar. O teu sangue não seca
Não repousamos em paz na tua morte
A hora da tua morte continua próxima e veemente
E a terra onde abriram a tua sepultura
É semelhante à ferida que não fecha

O teu sangue não encontrou nem foz nem saída
De Norte a Sul de Leste a Oeste
Estamos vivendo afogados no teu sangue
A lisa cal de cada muro branco
Escreve que tu foste assassinado

Não podemos aceitar. O processo não cessa
Pois nem tu foste poupado à patada da besta
A noite não pode beber nossa tristeza
E por mais que te escondam não ficas sepultado

Sophia de Mello Breyner Andresen

Friday, August 16, 2019

Woodstock




Foram 3 dias de 'paz e música', que começaram a 15 de Agosto de 1969. Há 50 anos!
Jimi Hendrix, Janis Joplin, Carlos Santana, Joan Baez, The Who, Ravi Shankar, Joe Cocker, Credence Clearwater Revival, Joni Mitchel, Crosby, Stills, Nash & Young foram apenas alguns dos músicos que passaram pela fazenda da cidade de Bethel, interior de New York, de 15 a 18 de Agosto de 1969.
Foi há 50 anos, em Woodstock!


https://youtu.be/MwIymq0iTsw

Tuesday, August 06, 2019

Hiroshima




 6 de Agosto de 1945. 8h16, horário do Japão. O bombardeiro norte americano B-29 lança a “Little Boy” sobre Hiroshima, sede do comando militar do Japão Imperial. A explosão matou cerca de 100 mil pessoas. 35 mil ficaram feridas. Mais de 60 mil pessoas faleceram até ao final daquele ano, por causa dos efeitos da chuva radioactiva.
Repito, o bombardeiro norte americano B-29, que foi chamado de Enola Gay!

Tuesday, July 02, 2019

Centenário de Sophia




Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen

Saturday, June 22, 2019

Carta a um Super-herói

Carta a um Super-herói

Faz hoje 7 anos e 1 mês que te vi pela primeira vez. Quando soube que estavas quase a nascer, deixei tudo e corri para ser das primeiras pessoas que tu visses, para que soubesses logo ali que poderias contar comigo para tudo. E poucos minutos depois de vires ao mundo, ali estava eu a contemplar-te, completamente apaixonada e rendida aos teus olhos rasgados e feições perfeitas. Foi a primeira vez que senti o mais puro amor incondicional.

E desde então foi um crescendo de amor. Pelos teus olhos e sorriso via-se o amor que te envolvia, a felicidade nos teus passos confiantes, a inteligência em cada aprendizagem tua, a doçura na tua voz e a alegria em tudo o que fazias.

Lembras-te dum dia que estávamos os dois sentados no sofá a conversar, tinhas uns 5 anos e o teu primo meia dúzia de meses e tu, a olhar para ele me dizes: "Ó tia, porque não tiveste o primo mais cedo para eu poder brincar mais com ele..." e que resposta te poderia dar?! "Tens razão, meu amor, mas agora vais ter muito tempo para brincar com ele." E se brincaram... e que paciência a tua... porque ele não te largava um instante! Nele vejo muito de ti... no que veste, nos brinquedos e nas brincadeiras, mas acima de tudo no olhar, no mesmo olhar feliz!

Tenho pensado muito nessa resposta que te dei e numa frase que o teu tio costuma dizer: "Temos uma vida toda para isso..." e acabamos por ir adiando as coisas. Contigo aprendi que não se pode adiar, que o que é agora amanhã pode já não ser. Dói-meu saber que não te liguei para me contares como foi conheceres os jogadores do Benfica (mas vi o video umas 30 vezes), que não te disse vezes suficientes que te adorava e que tinha muito orgulho em ti e no Super-T em que te transformaste, "até porque, achava eu, iríamos ter uma vida toda para isso..."

Custa-me pensar naquilo que não fizeste e no tanto que ainda tinhas para fazer. No almoço de aniversário do teu pai; na festa de pijama que íamos fazer em minha casa; no passeio ao jardim zoológico com o teu primo e os teus avós; na tua festa do 7º aniversário (e todas as seguintes) com todas as pessoas que te adoram; no aprenderes a ler e a escrever; o ver-te tornar adolescente e depois num homem. Era assim que deveria ser... tinhas tanto para ser, para viver!

Sabes Super-T, este mês tem sido muito difícil. Com toda a certeza o mais difícil da minha vida. Quando me perguntam: "Está tudo bem?" A minha resposta imediata é "Está tudo bem, obrigada!", mas por dentro só eu sei como estou destroçada. A vida não é a mesma, não pode ser a mesma! Partiu contigo uma parte de mim.
Quero muito acreditar que um dia vou voltar a ver esse teu sorriso a dizer: "Olá tia, tive saudades tuas!" e abraçar-te até tu te fartares.

Ahh... e não te preocupes, estamos todos a tomar conta dos teus pais e da tua mana e a tentar que os dias deles voltem a amanhecer a sorrir...

Se não te importares, de vez em quando vou-te escrevendo estas cartas para sentir que estamos sempre juntos.

Beijinhos da tia que te adora!!!

Ps. Quando tiveres matado essas saudades todas do avô Zé e tiveres um tempinho livre, manda um pouco desses teus super-poderes, que aqui em baixo estamos a precisar.

Joana Correia

Tuesday, June 11, 2019

Carvalhesa


Carvalhesa - Texto de Ruben de Carvalho



      Em Março de 1985 a Comissão Política do CC do PCP criou um grupo de trabalho com o objectivo de se tentar criar um tema musical para a campanha eleitoral para as eleições legislativas desse ano e que desse identidade sonora às diversas manifestações, desde os carros de som até aos indicativos de tempos de antena.
      A primeira ideia dessa equipa foi a de encontrar um tema de música tradicional portuguesa a que se pudesse dar um tratamento instrumental no estilo do que entretanto se começara a chamar MPP, Música Popular Portuguesa. Vivia-se então um momento de grande criatividade em termos de música popular, na esteira de Zeca Afonso e Sérgio Godinho, os trabalhos dos Trovante, de Júlio Pereira, de Fausto tinham criado uma sonoridade tão nova quanto portuguesa e que conseguia um resultado inteiramente surpreendente: conquistava público em todo o País e em todas as áreas culturais. Pelas suas raízes no folclore despertava eco nas audiências culturalmente fixadas em raízes e padrões rurais com a mesma facilidade com que desencadeava o entusiasmo de plateias juvenis que de bom grado trocavam a batida rock por surpreendentes linhas rítmicas bebidas em adufes e Zés-Pereiras.

      Pensou-se assim procurar um dos temas tradicionais que Lopes-Graça harmonizara para o Coro da Academia de Amadores de Música, assegurando mais uma significante ligação entre duas épocas e dois estilos, ligados pela comum paixão pelo património popular e pela comum identificação ideológica e política com os interesses do povo português. Optou-se em primeiro lugar por uma conhecidíssima melodia, a do «Canta, camarada, canta». Sabe-se como esta velha canção de contrabandistas transmontanos adquirira durante o fascismo um cunho claramente progressista, não apenas pelo facto de a Lopes-Graça se dever a sua divulgação, mas também pelo uso do vocativo «camarada».

      A ideia era que o arranjo fosse puramente instrumental, mas defrontou-se a dificuldade de a melodia possuir letra tradicional e bem conhecida entre os democratas - sendo praticamente inevitável que a sua execução coral acabasse a generalizar-se. E se nada vinha de mal ao mundo se num comício da então APU se cantasse «canta, camarada canta/canta que ninguém te afronta», já parecia polémico que no mesmo local se atroasse os ares afirmando «eu hei-de morrer de um tiro/ou de uma faca de ponta»... E se não seriam de prever críticas ao «viva a malta, trema a terra/daqui
ninguém arredou
», as coisas poder-se-iam complicar com o «quem há-de temer a guerra/sendo um homem como eu sou»...

      Passou-se então à consulta do livro «Cancioneiro Popular Português» de Michel Giacometti (Círculo de Leitores. Lisboa, 1981). Piano em frente, lá se foi procurando e, uma semana decorrida, pelas três da manhã, a «Carvalhesa» deve ter soado pela primeira vez fora de Trás-os-Montes, de onde é natural. Em Julho desse ano gravou-se a primeira versão e editou-se um maxi-single de vinyl.

      Como se explica no folheto que acompanhou essa primeira edição, verificou-se, porém, ainda antes da gravação, um «caso». Poucos dias depois da escolha, tinha-se procurado nos discos dos «Arquivos Sonoros Portugueses», de Giacometti e Lopes-Graça, se lá estaria a «Carvalhesa» gravada em versão original e popular - e estava! Imediatamente se decidiu pedir a Giacometti uma cópia da gravação e ter-se-ia um excelente lado B do maxi-single.

      Contudo, ao ouvir o disco dos «Arquivos», verificou-se com grande perplexidade que a «Carvalhesa» que o gravador de Giacometti registara em Trás-os-Montes e ali se reproduzia não era manifestamente aquela cuja pauta se encontrava no livro e que se iria utilizar. O mistério seria decifrado dias mais tarde pelo próprio Giacometti.

      No início deste século, um jovem maestro e compositor alemão, nascido em Berlim em 1882, fixou-se em Nova Iorque. Estudara em Berlim e Munique, apenas com 20 anos era maestro assistente da ópera de Stuttgart e, em 1905, começa a desempenhar idênticas funções no New York Metropolitan. O seu nome - Kurt Schindler.

      O trabalho de Schindler nos Estados Unidos foi profícuo em numerosas áreas. Criou, em 1909, o coro da MacDowell Church (rebaptizado Schola Cantorum em 1912) que desempenhou importantíssimo papel na divulgação e recuperação coral clássica e moderna, foi organista do famoso Temple Emanu-El de Nova Iorque, compôs, dirigiu.

      No final da década de 20, o laureado maestro largou a sua confortável vida de músico reconhecido e respeitado na grande metrópole e embarcou para a Europa para fazer investigação etnográfica - em Espanha! A escolha do local não é surpreendente: a música espanhola, coral e de órgão, estivera sempre no centro dos interesses de Schindler, tanto quanto a música tradicional, para a qual fora profundamente influenciado pelo seu professor de adolescência Max Friedlander.

      De gravador de discos de alumínio debaixo do braço, Schindler percorreu durante os anos de 1931 e 32 as Astúrias, Navarra, o Norte da península, e, em 1932, atravessando as difusas raias transmontanas, acabou por entrar em Portugal onde prosseguiu o seu trabalho. Infelizmente, porém, o gravador avariara-se e Schindler fez a sua recolha em Trás-os-Montes apenas mediante transcrições musicais.

      Regressado aos EUA, viria a falecer em 1935. Postumamente, a Columbia University editou o resultado das suas investigações em «Folk Music and Poetry of Spain and Portugal» (Columbia University. Hispanic Institut in the United States. New York, 1941. Existe uma reedição do Centro de Cultura Tradicional. Salamanca, 1991. Vd. http://digilib.nypl.org/dynaweb/ead/music/musschindle).

      Mais de vinte anos depois, em 1958, um etnólogo natural de Ajaccio, na Córsega, que acabara de dirigir uma missão internacional de estudo do folclore das ilhas mediterrânicas, descobriu o livro de Schindler nas prateleiras da biblioteca do Museu do Homem, em Paris. Meses depois, sobraçando o primeiro gravador Nagra (ainda de manivela!) a aparecer em Portugal, Michel Giacometti seguia as pisadas de Schindler no Nordeste transmontano e entrava pela primeira vez num país que iria adoptar como seu e que o iria adoptar como um dos seus filhos.

      Nessas primeiras andanças por Trás-os-Montes, Giacometti foi ainda encontrar a memória do investigador americano que por ali andara duas décadas antes. E o seu tecnológico microfone era comparado, pelos músicos populares que gravou, com a fascinação que sobre eles exercera aquele estrangeiro que escrevia sinais num papel enquanto os escutava para depois, quase misteriosamente, repetir exactamente os mesmos sons lendo os pontos e riscos que anotara...

      Em 1981, Giacometti teve finalmente possibilidades de editar o seu «Cancioneiro Popular Português» e fê-lo com a probidade de intelectual e de homem de ciência que era: nele não inclui exclusivamente os registos efectuadas durante o seu trabalho e a sua colaboração com Fernando Lopes-Graça, mas sim uma selecção geral - definida por critérios de rigor e qualidade - do trabalho de quantos contribuíram para a recolha de melodias criadas pelo povo português. E ali se encontram mesmo recolhas de homens que, fixando embora a voz do povo, bem pouco a respeitavam, como o caso do desconfiado musicólogo amador que, nos anos 60, informou pressuroso a PIDE de que pelas suas terras andava pregando a subversão um francês que recolhia melodias e tradições... Giacometti sorria, quando contava: «Mandei-lhe o livro, telefonou-me, agradecendo, desfazendo-se em desculpas, tentando explicar aquilo ..» E, investigador apaixonado e generoso, concluía: «É de direita, mas é um bom homem. E muito sério nas recolhas que fez

      A «Carvalhesa» foi uma das peças objecto de selecção. Exactamente na mesma aldeia (Tuiselo, perto de Vinhais - Bragança) onde em 1932 Schindler recolhera a melodia publicada em «Folk Songs...», Giacometti havia recolhido em 1970 uma outra, a que os seus executantes populares atribuíam o mesmo nome, mas inteiramente diferente.

      O facto não é estranho. Como se afirma nas notas do «Cancioneiro», «a "CarvaIhesa", dança de quatro laços, era, com a "Murinheira" e o "Passeado", o baile preferido da região. O instrumento tradicional a acompanhar estas danças era a gaita de foles». Ou seja, a «Carvalhesa» é essencialmente uma dança, para a qual se conhecem duas melodias, mas que poderá mesmo ter sido dançada com outras entretanto perdidas. Face às duas versões, Giacometti entendeu ser mais interessante a recolhida por esse compositor alemão que fora o ausente cicerone da sua descoberta de Portugal. E, página 217 do «Cancioneiro, tema 166, lá ficaria a «Carvalhesa» recolhida por Kurt Schindler.

      O arranjo da «Carvalhesa» gravado em 1985 acompanhou a actividade política do PCP em sucessivas campanhas eleitorais, na Festa do «Avante!», cujos palcos sempre abre e encerra e dos quais se tornou verdadeiramente emblemática.

Ruben de Carvalho
Julho de 2001

Wednesday, June 05, 2019

Tenho medo de perder a maravilha


Tenho medo de perder a maravilha
de teus olhos de estátua e aquele acento
que de noite me imprime em plena face
de teu alento a solitária rosa.


Tenho pena de ser nesta ribeira
tronco sem ramos; e o que mais eu sinto
é não ter a flor, polpa, ou argila
para o gusano do meu sofrimento.

Se és o tesouro meu que oculto tenho
se és minha cruz e minha dor molhada,
se de teu senhorio sou o cão,

não me deixes perder o que ganhei
e as águas decora de teu rio
com as folhas do meu outono esquivo.

Federico García Lorca

Monday, May 27, 2019

*******


Não tenhas medo do escuro, Tomás.

O tio não sabe ao certo de que é feito este escuro que enegreceu as nossas vidas, mas sei que a tua luz prevalecerá, ainda que longe da nossa vista.

Sei que viverás na lembrança e no coração daqueles que tiveram o privilégio de contigo privar.

Desde logo, viverás na lembrança e no coração dos teus pais. E que pais tens tu, Tomás! Que corajosos, que fortes, que resilientes! A dimensão do seu amor por ti é algo inexplicável e impossível de traduzir em palavras!! Como angustiante é a dor que os seus olhos denunciam e os seus abraços confidenciam...

Viverás na lembrança e no coração dos teus avós, para quem serás sempre o seu primeiro e mais velho netinho. Da tua tia, para quem serás sempre o menino dos seus olhos. Não sabes como me rasgou por dentro ter que lhes dizer que não voltariam a ver o teu sorriso iluminado, o teu olhar contagiante, a tua doce tranquilidade...

Viverás na lembrança e no coração dos teus amigos e familiares, que não te largaram nestes últimos dias em que o mundo pareceu querer desabar. Que continuam agarrados aos teus pais, a ampará-los neste momento em que o vazio se torna cada vez mais ensurdecedor...

Os teus professores, os teus médicos, os teus enfermeiros, ninguém conseguiu ficar indiferente a esses teus olhos rasgados pela doçura e encanto.

Olho pela janela e vejo-te vestido de Super-Homem a sorrir-me e a acenar-me, enquanto rasgas o céu montado num dinossauro e escoltado pelas águias da vitória. Deixa-me sonhar Tomás, que já só me restam dúvidas que haja chão que nos ampare a queda...

Rogério Charraz

Sunday, May 19, 2019

AO RETRATO DE CATARINA



Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta

Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido

Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura

Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto

Carlos Aboim Inglez
 

Sunday, May 05, 2019

10 anos de Margarida


Uma flor

O meu jardim tem árvores relva flores e um lago. E uma casa.
Quando me passeio por lá olho as flores e vejo-as crescer, a cada dia. Agora os cravos.
A relva amacia-me os pés descalços e o aroma enche-me os pulmões. Terra-mãe.
As árvores são partes de mim plantadas há muito tempo, que cresceram frondosas e me abrigam. Um colo.
Há árvores com muitos anos, outras com menos, mas todas igualmente bonitas. Ouvem-me.
Duas são especiais. Uma enorme e outra mais pequena. Estão perto do lago e abraço-as. A minha casa.
O meu jardim tem todos os aromas e todas as cores. De todas as flores.
Há um canteiro diferente, ao pé do lago e perto das duas árvores. De cravos semeado. Já nascidos.
Mesmo ao lado um outro canteiro tem uma flor prestes a rebentar. De aroma diferente.
No lago do meu jardim está ancorado um barco, que me espera. Entro e remo por entre chorões e nenúfares e patos e cisnes. E há peixes que se escapam.
Toda a noite remei. À espera. Ao fim da manhã atraco o barco e vou ao canteiro ver da flor. Já nasceu.
É filha do amor e da poesia. É uma Margarida e cheira a bebé…



Amámos-te quando te soubemos
Amámos-te quando te víamos crescer sem te ver
Amámos-te quando te soubemos princesa
Amámos-te flor de Abril em Maio
Amámos-te no teu cheiro de bebé
Amámos-te em cada passo bailarina
Amámos-te em cada sorriso e em cada abraço
Amámos-te em cada desenho que fizeste
Amámos-te em cada estória que nos disseste
Amamos-te sempre, porque é impossível não te amar.

Thursday, April 25, 2019

A Hora das Gaivotas



Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra

É noite
É a espada líquida da noite

- Chicharro com pão dormido, camarada... 
pão dormido...

As gaivotas ensaiam o voo tresloucado
dos papagaios de papel
Parecem ter medo de poisar,
de dar descanso ao seu coração suspenso:
O medo de calar por dentro

- ... e rabanadas com três dias 
Tudo nos serve para medir o tempo 
Eles não sonham...

É a mais líquida de todas as noites
Nada se conforma no seu próprio destino:
As casas,
O mar,
As gaivotas,
Os homens...
Tudo parece convergir para o ninho inevitável
onde todas as coisas regressam à sua razão de ser:
A Liberdade

(A Patética de Tchaikovsky escorre de um velho gira-discos para as paredes do refeitório)

- É tão louco este mundo, camarada 
1893, 1893. O ano da Patética, o ano do Grito de Edvard Munch 
O maior grito da humanidade 
O inexplicável grito de todos nós

Em todas as casas há um coração suspenso
e uma janela sobre o mar
As crianças recolheram a casa
e, protegidas pelos pais,
adivinham por detrás das cortinas
um sinal que dê sentido a tudo
Ninguém sabe o que espera mas toda a gente espera em silêncio

É como se a terra soubesse
que há dias em que o mundo tem de ser redondo

3 de Janeiro de 1960
Às sete em ponto da tarde
Adagio–Allegro non troppo

- Nada me passa na garganta, só um grito mudo... 
- A estrada ainda está deserta, nem uma luz... Mas ele há-de vir! 
- Somos 10, estamos contados
- Contemo-nos de novo: 
Álvaro, 
Jaime, 
Joaquim,
Carlos, 
Francisco, 
José, 
Guilherme, 
Pedro, 
Rogério, 
Francisco.

E eu, e tu, e quem atrás de nós vier
E todos os que hão-de nascer
Com uma côdea no céu-da-boca

É por isso que o mar espalha a sua toalha bordada
na praia, aos nossos pés
para, da sua eterna sabedoria, nos prendar com a nossa igualdade

Allegro com grazia

- Pai, olha aquele carro, olha aquele carro 
- Apaga a luz, apaga a luz... 
Vem com a mala aberta, devagarinho, devagarinho... - 
Vem do lado das docas... 
- Pai, repara, as gaivotas pousaram todas... 
-... e parou em frente ao forte 
É a hora das gaivotas É a hora das gaivotas 
O homem está a sair do carro, pai... 
- Sim. Vai fechar a mala, certamente... 
- Olha, as gaivotas, com o som da mala a fechar, levantaram voo novamente 
- São misteriosas as campainhas do destino

Allegro molto vivace

Em todas as casas há um coração suspenso
pelo medo e pela saudade
e uma boca amarrada às paredes cegas

- Francisco, rasga esses lençóis 
que nos fizeram para sudários.

Todas as palavras são medidas
como as sardinhas
e quase nunca é domingo

- Vá, tu sabes dar os nós de pescador 
Une as tiras e dá-lhes um nó no meio 
para que as mãos encontrem mais firmeza

A terrina ocupa o centro da mesa
as crianças são servidas primeiro
Apenas o tilintar das colheres
abre feridas no silêncio das casas
E as côdeas de pão dormido
quando estalam no céu-da-boca

- Somos 10, estamos contados 
A corda tem de servir 10 vezes, camarada

O jantar é em silêncio
Mas quando o cavalo azul galopa pelas muralhas
ouve-se a sua pulsação
a estalar o coração das gentes

- Pai, posso ir à janela?
- O carro já se foi embora. Não há nada para ver. Acaba a sopa
- Há, pai! As gaivotas não se calam
E as ondas batem sem conta certa
- Deixa-me apagar a luz...
- Pai, passaram dois carros grandes mesmo agora. Um seguiu em frente e o outro está parado à porta da vizinha com as luzes apagadas
- Esperam alguém. É gente de bem

Finale — Adagio lamentoso

- Não olhes para baixo, camarada
E o mar, sempre o mar, estende as longas crinas
de cavalo azul nas paredes de pedra
- Pai, há uma corda a baloiçar na parede do forte... 
Em todas as casas há um coração suspenso
e um lugar vazio à mesa
- Isso, conta os nós... tu sabes a conta certa 
Não olhes para baixo 
- Pai, o homem pôs o carro a trabalhar... 
Os gritos das gaivotas cobrem com um véu de tule
os ruídos dos ossos contra as pedras
É a natureza do lado certo
- Pai, outro homem... e outro... e outro... 
É o medo contaminado pela esperança
e a espada líquida da noite virada de feição
- Pai, ajuda-me... não entendo, não entendo... 
- É a hora das gaivotas, meu amor!

João Monge

Wednesday, April 24, 2019

45 anos de Abril





"De novo vieste em flor
Te desfolhei
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"


Thursday, March 21, 2019

No dia Mundial da Poesia


A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo


Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "O Nome das Coisas"

Saturday, March 02, 2019

AMOR


Mulher, teria sido teu filho, para beber-te
o leite dos seios como de um manancial,
para olhar-te e sentir-te a meu lado e ter-te
no riso de ouro e na voz de cristal.


Para sentir-te nas veias como Deus num rio
e adorar-te nos ossos tristes de pó e cal,
para que sem esforço teu ser pelo meu passasse
e saísse na estrofe - limpo de todo o mal -.

Como saberia amar-te, mulher, como saberia
amar-te, amar-te como nunca soube ninguém!
Morrer e todavia
amar-te mais.
E todavia
amar-te mais
e mais.

Pablo Neruda

Saturday, January 19, 2019

Adeus



Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


Eugénio de Andrade

Monday, December 24, 2018

Litania para o Natal de 1967


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo

David Mourão-Ferreira

Sunday, December 23, 2018

...........




É isto!
(foto da net)

Monday, December 10, 2018

Declaração Universal dos Direitos Humanos


Preâmbulo

Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;

Considerando que o desconhecimento e o desprezo dos direitos do homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os seres humanos sejam livres de falar e de crer, libertos do terror e da miséria, foi proclamado como a mais alta inspiração do homem;

Considerando que é essencial a protecção dos direitos do homem através de um regime de direito, para que o homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão;

Considerando que é essencial encorajar o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações;

Considerando que, na Carta, os povos das Nações Unidas proclamam, de novo, a sua fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declararam resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla;

Considerando que os Estados membros se comprometeram a promover, em cooperação com a Organização das Nações Unidas, o respeito universal e efectivo dos direitos do homem e das liberdades fundamentais;

Considerando que uma concepção comum destes direitos e liberdades é da mais alta importância para dar plena satisfação a tal compromisso:

A Assembleia Geral
 
Proclama a presente Declaração Universal dos Direitos do Homem como ideal comum a atingir por todos os povos e todas as nações, a fim de que todos os indivíduos e todos os órgãos da sociedade, tendo-a constantemente no espírito, se esforcem, pelo ensino e pela educação, por desenvolver o respeito desses direitos e liberdades e por promover, por medidas progressivas de ordem nacional e internacional, o seu reconhecimento e a sua aplicação universais e efectivos tanto entre as populações dos próprios Estados membros como entre as dos territórios colocados sob a sua jurisdição.



Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.



Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autónomo ou sujeito a alguma limitação de soberania.



Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.



Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.



Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.



Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento em todos os lugares da sua personalidade jurídica.



Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a protecção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.



Toda a pessoa tem direito a recurso efectivo para as jurisdições nacionais competentes contra os actos que violem os direitos fundamentais reconhecidos pela Constituição ou pela lei.



Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado.



Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida.


  1. Toda a pessoa acusada de um acto delituoso presume-se inocente até que a sua culpabilidade fique legalmente provada no decurso de um processo público em que todas as garantias necessárias de defesa lhe sejam asseguradas.
  2. Ninguém será condenado por acções ou omissões que, no momento da sua prática, não constituíam acto delituoso à face do direito interno ou internacional. Do mesmo modo, não será infligida pena mais grave do que a que era aplicável no momento em que o acto delituoso foi cometido.

Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.


  1. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.
  2. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.
  1. Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.
  2. Este direito não pode, porém, ser invocado no caso de processo realmente existente por crime de direito comum ou por actividades contrárias aos fins e aos princípios das Nações Unidas.
  1. Todo o indivíduo tem direito a ter uma nacionalidade.
  2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade nem do direito de mudar de nacionalidade.
  1. A partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião. Durante o casamento e na altura da sua dissolução, ambos têm direitos iguais.
  2. O casamento não pode ser celebrado sem o livre e pleno consentimento dos futuros esposos.
  3. A família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à protecção desta e do Estado.
  1. Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à propriedade.
  2. Ninguém pode ser arbitrariamente privado da sua propriedade.

Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.



Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.


  1. Toda a pessoa tem direito à liberdade de reunião e de associação pacíficas.
  2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
  1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte na direcção dos negócios públicos do seu país, quer directamente, quer por intermédio de representantes livremente escolhidos.
  2. Toda a pessoa tem direito de acesso, em condições de igualdade, às funções públicas do seu país.
  3. A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos; e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto.

Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode legitimamente exigir a satisfação dos direitos económicos, sociais e culturais indispensáveis, graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os recursos de cada país.


  1. Toda a pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha do trabalho, a condições equitativas e satisfatórias de trabalho e à protecção contra o desemprego.
  2. Todos têm direito, sem discriminação alguma, a salário igual por trabalho igual.
  3. Quem trabalha tem direito a uma remuneração equitativa e satisfatória, que lhe permita e à sua família uma existência conforme com a dignidade humana, e completada, se possível, por todos os outros meios de protecção social.
  4. Toda a pessoa tem o direito de fundar com outras pessoas sindicatos e de se filiar em sindicatos para a defesa dos seus interesses.

Toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres e, especialmente, a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas.


  1. Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para lhe assegurar e à sua família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias independentes da sua vontade.
  2. A maternidade e a infância têm direito a ajuda e a assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimónio, gozam da mesma protecção social.
  1. Toda a pessoa tem direito à educação. A educação deve ser gratuita, pelo menos a correspondente ao ensino elementar fundamental. O ensino elementar é obrigatório. O ensino técnico e profissional deve ser generalizado; o acesso aos estudos superiores deve estar aberto a todos em plena igualdade, em função do seu mérito.
  2. A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das actividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.
  3. Aos pais pertence a prioridade do direito de escolher o género de educação a dar aos filhos.
  1. Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam.
  2. Todos têm direito à protecção dos interesses morais e materiais ligados a qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria.

Toda a pessoa tem direito a que reine, no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tornar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciados na presente Declaração.


  1. O indivíduo tem deveres para com a comunidade, fora da qual não é possível o livre e pleno desenvolvimento da sua personalidade.
  2. No exercício destes direitos e no gozo destas liberdades ninguém está sujeito senão às limitações estabelecidas pela lei com vista exclusivamente a promover o reconhecimento e o respeito dos direitos e liberdades dos outros e a fim de satisfazer as justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar numa sociedade democrática.
  3. Em caso algum estes direitos e liberdades poderão ser exercidos contrariamente aos fins e aos princípios das Nações Unidas.

Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma actividade ou de praticar algum acto destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.

Friday, December 07, 2018

Soneto presente



Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.


Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.

Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.

José Carlos Ary dos Santos

Saturday, November 10, 2018

Nos 105 anos de Alvaro Cunhal






"De onde nos vem a nós, comunistas portugueses, esta alegria de viver e de lutar? O que nos leva a considerar a actividade partidária como um aspecto central da nossa vida? O que nos leva a consagrar tempo, energias, faculdades, atenção, à actividade do Partido? O que nos leva a defrontar, por motivo das nossas ideias e da nossa luta, todas as dificuldades e perigos, a arrostar perseguições, e, se as condições o impõem, a suportar torturas e condenações e a dar a vida se necessário?

A alegria de viver e de lutar vem-nos da profunda convicção de que é justa, empolgante e invencível a causa por que lutamos.

O nosso ideal, dos comunistas portugueses, é a libertação dos trabalhadores portugueses e do povo português de todas as formas de exploração e opressão.

É a liberdade de pensar, de escrever, de afirmar, de criar. É o direito à verdade.

É colocar os principais meios de produção, não ao serviço do enriquecimento de alguns poucos para a miséria de muitos mas ao serviço do nosso povo e da nossa pátria.

É erradicar a fome, a miséria e o desemprego.

É garantir a todos o bem-estar material e o acesso à instrução e à cultura.

É a expansão da ciência, da técnica e da arte. É assegurar à mulher a efectiva igualdade de direitos e de condição social.

É assegurar à juventude o ensino, a cultura, o trabalho, o desporto, a saúde e a alegria.

É criar uma vida feliz para as crianças e anos tranquilos para os idosos.

É afirmar a independência nacional na defesa intransigente da integridade territorial, da soberania, da segurança e da paz e no direito do povo português a decidir do seu destino.

É a construção em Portugal de uma sociedade socialista correspondendo às particularidades nacionais e aos interesses, às necessidades, às aspirações e à vontade do povo português — uma sociedade de liberdade e de abundância, em que o Estado e a política estejam inteiramente ao serviço do bem e da felicidade do ser humano."

Álvaro Cunhal,
O Partido com Paredes de Vidro

Tuesday, October 30, 2018

Memória de Miguel Hernandez


Cancion ultima

Pintada, no vacía:
pintada está mi casa
del color de las grandes
pasiones y desgracias.

Regresará del llanto
adonde fue llevada
con su desierta mesa
con su ruidosa cama.

Florecerán los besos
sobre las almohadas.
Y en torno de los cuerpos
elevará la sábana
su intensa enredadera
nocturna, perfumada.

El odio se amortigua
detrás de la ventana.

Será la garra suave.
Dejadme la esperanza

MIGUEL HERNANDEZ
(30.10.1910 - 28.3.1942)

Friday, October 19, 2018

Serra Mãe



"O agoiro do bufo, nos penhascos,
foi o sinal da Paz.
O silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.
(…)
Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia;
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim;
e os gritos mudos das rochas
sequiosas que o Sol castiga
- passam a dar-se em mim.
(…)
A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr,
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
desceu da Serra e concentrou-se em mim.
(…)"

Sebastião da Gama - poeta da Arrábida